Do escravismo ao trabalho livre um panorama das oportunidades de trabalho livre no Brasil de 1870 a partir dos relatórios consulares ingleses



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III Congresso Brasileiro de História Econômica

IV Conferência Internacional de História das Empresas


Título do Trabalho: Do escravismo ao trabalho livre – um panorama das oportunidades de trabalho livre no Brasil de 1870 a partir dos Relatórios Consulares Ingleses.

Autora: Profa. Dra. Wilma Peres Costa

Departamento de Política e História Econômica

Instituto de Economia - Unicamp

No ano de 1870, o Foreign Office enviou aos responsáveis por todas as regiões consulares britânicas, uma enquete sobre a situação do trabalho em cada uma dessas regiões. Os cônsules deveriam produzir informações sobre salário, poder de compra, moradia, saúde, mercado de trabalho, em suma, sobre as condições de vida dos trabalhadores, com especial atenção para os aspectos atinentes à vida urbana, capazes de interferir na absorção de operários, artesãos e “trabalhadores por conta própria” que desejassem imigrar para o Brasil. Deviam sobretudo informar seus superiores sobre a qualidade e preço do trabalho “nativo”, bem como sobre a competitividade do trabalhador britânico em relação a nacionais e outros estrangeiros. Corria paralela a essa enquete, uma outra que buscava informações sobre as condições de apropriação da terra nas várias regiões do mundo. Essas enquetes refletiam certamente a preocupação do governo britânico com os custos sociais das transformações tecnológicas que tornava potenciais candidatos a emigração vastos setores do campo e da cidade. Além disso, e talvez de forma mais crucial, refletiam também a preocupação imperial do Foreign Office com os efeitos do processo imigratório que se acelerava nesses anos (e se manteria intenso até a Primeira Guerra Mundial) sobre a hegemonia britânica. O cenário mundial passava, a partir da década e 1870, a estar marcada, pela intensa disputa com novas potências emergentes no comércio mundial - a Alemanha, e, em menor grau, a Itália, que completavam seus processos de unificação. Esses países, como as regiões mais pobres do Reino Unido, estavam se tornando importantes exportadores de mão de obra, enquanto que as Américas começavam a destacar-se como importantes áreas receptoras de imigrantes, destacando-se os Estados Unidos e a Argentina1. Embora desigual na qualidade da informação, o material resultante desses relatórios oferece importantes subsídios para “retratar” naquele momento a situação dos distintos mercados de trabalho e as condições de vida nas mais diferentes regiões do globo, em um momento em que se aceleravam as correntes migratórias.


A questão da imigração e da liberação dos fluxos internacionais de mão de obra foi, como é sabido, uma temática crucial do pensamento liberal do século XIX. O processo migratório expressava de maneira concreta a idéia das “vantagens comparativas” cara ao livrecambismo. A abertura de novas frentes de desenvolvimento capitalista no Novo Mundo, (a partir de capitais, técnicas e mão de obra européias) poderia configurar-se como um projeto de desenvolvimento complementar ao mundo europeu, ganhando força com a possibilidade de que se absorvessem vastos setores sociais marginalizados pelas transformações políticas e tecnológicas nos países centrais. Ao mesmo tempo, ao emigrarem, essas populações passavam a constituir-se em fontes de remessas de rendimentos e, sobretudo, em mercados para os produtos de suas mães-pátrias. Eram também as melhores agentes de expansão dos mercados, como divulgadoras de novos hábitos de consumo e padrões de vida. Assim, a crença no potencial civilizador da imigração era cara não apenas aos empresários em busca de novos campos de investimento, mas também aos intelectuais progressistas que viam na mobilidade de mão de obra uma saída para contornar a exclusão social promovida pelo desenvolvimento capitalista nos países centrais. O potencial do Brasil como receptor de imigração estrangeira vinha chamando a atenção dos observadores estrangeiros desde a primeira metade do século XIX. Alguns dos melhores trabalhos produzidos sobre o Brasil no século XIX por viajantes estrangeiros tiveram essa preocupação em mente2

Na segunda metade do século XIX, nos países sul-americanos, a idéia da imigração como alavanca de desenvolvimento e regeneradora do passado colonial foi também cara aos pensadores liberais de vários matizes, tornando-se na Argentina, até mesmo um preceito constitucional3. No Brasil, a promoção da imigração para substituir o trabalho escravo encontrava entusiastas nos fazendeiros de café do sudeste, mas tinha também adeptos entre os estadistas e intelectuais reformistas, que viam nos imigrantes europeus agentes civilizadores, portadores de técnicas e mentalidades modernas, capazes de auxiliar na regeneração da sociedade escravista. Com tinturas mais ou menos racistas, essas idéias permearam o campo intelectual brasileiro a partir de meados do século XIX. A “imigração espontânea” era o objetivo principal desses últimos, que se inspiravam nas iniciativas dos Estados Unidos e da Argentina. Para alguns, a escravidão era um obstáculo intransponível a esse tipo de imigração. É o caso de Joaquim Nabuco4.


O que esse regime (a escravidão) representa, já o sabemos. Moralmente é a destruição de todos os princípios e fundamentos da moralidade religiosa ou positiva(...); politicamente é o servilismo, a degradação do povo, a doença do funcionalismo, o enfraquecimento do amor à pátria, a divisão do interior em feudos, (...); econômica e socialmente, é o bem estar transitório de uma classe única, e essa decadente e sempre renovada; a eliminação do capital produzido, pela compra de escravos; a paralisação de cada energia individual para o trabalho da população nacional; o fechamento dos nossos portos aos imigrantes que buscam a América do Sul (...)
Outros, como Aureliano Cândido Tavares Bastos, viam a questão da emancipação na dependência de medidas para a introdução do trabalho livre, dentre elas a promoção da imigração, associada particularmente à efetiva implementação da Lei de Terras de 1850. A abolição da escravidão não é uma condicionante para a promoção da imigração. Ao contrário, a promoção da imigração é que é uma forma de minar a escravidão, viabilizando sua extinção gradativa.5

A imigração não é absolutamente incompatível com a escravidão. O Brasil, que tem escravos por toda a parte, vem lentamente atraindo alguns estrangeiros ... A imigração era sim incompatível com o tráfico de africanos (...) no Brasil, o imigrante pode competir com o escravo; porquanto se o primeiro não substitui ao segundo nas cidades, derrama-se pelos núcleos coloniais, ou procura distritos onde é menos densa a escravidão. Ora, estes distritos não são raros; há províncias inteiras que poucos escravos possuem, como Paraná e Santa Catarina ao sul, Ceará e Amazonas ao norte.
No trabalho aqui proposto buscamos reconstituir a visão sobre alguns aspectos dessa questão presente nos relatórios das regiões consulares inglesas no Brasil, referentes às condições de trabalho e ao potencial do país para a recepção de artesãos e “trabalhadores por conta própria”. O material recolhido por nós para o caso do Brasil permite mapear as diferentes regiões, trazendo informações e dados sobre as regiões consulares do Rio de Janeiro, Bahia, Pará e Amazonas, Pernambuco, Rio Grande do Sul e São Paulo. O texto procura reconstruir e ordenar a informação, levantando pontos para a discussão. No caso brasileiro, a enquete do Foreign Office se revela estratégica, especialmente por se desenvolver no momento em que se inicia o processo de emancipação da escravidão. Como se sabe, a extinção do trabalho escravo apresentou distintas expressões no plano regional, datando da década de 1870 o aprofundamento da heterogeneidade entre as várias regiões do país. Além disso a Guerra do Paraguai (1865-70) sacudira a imagem externa e interna do país, explicitando a contradição entre o escravismo e a guerra moderna ao mesmo tempo em que as novas possibilidades de articulação do país aos centros do capitalismo internacional, particularmente a partir de 1870, acelerava a urbanização, diversificava as possibilidades de inversão produtiva e tendia a modernizar os espíritos6.

É necessário ter em mente o alcance e limite desse tipo de documentação. Em primeiro lugar, as informações propiciadas pelos relatórios são desiguais em qualidade, alguns cônsules tendo respondido com precisão e cuidado, enquanto outros responderam em poucas linhas. Em segundo lugar, é necessário enfatizar que elas refletem as observações e opiniões de um tipo específico de “testemunha”, os agentes consulares ingleses, em geral membros da comunidade mercantil britânica, gente com um olho nos negócios e o outro nos interesses do Estado. É interessante também ressaltar que, por causa da informação solicitada (oportunidade para artesãos e trabalhadores por conta própria) as informações tendem a privilegiar o mundo urbano, diferentemente de outros trabalhos da época que tendiam a estar centrados na questão da apropriação da terra. O texto aqui apresentado procura trabalhar precisamente a parte “valorativa” dos relatórios, a comparação dos dados de salários e custo de vida encontrando-se ainda em elaboração. Buscamos sobretudo compreender como esse agente social (o cônsul inglês) avalia as chances do “nativo” naquele momento, vis a vis os diferentes tipos de trabalhadores estrangeiros. Ao mesmo tempo procuramos sublinhar como o agente diplomático inglês avaliava seus compatriotas na competitividade dos mercados de trabalho emergentes. Procuramos também, manter em mente as diferentes percepções da relação entre a escravidão e o mercado de trabalho para artesãos, operários e trabalhadores por conta própria.

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No tocante à questão principal - a adequação do país para receber trabalhadores estrangeiros com profissões manuais - a opinião dos cônsules reflete a diversidade das condições nas regiões tratadas. Apenas o cônsul de Pernambuco não parece ver qualquer oportunidade para trabalhadores estrangeiros em sua região7. Nas outras regiões, há uma gradação de opiniões que vai do relativo ceticismo (Rio de Janeiro e S.Paulo) ao entusiasmo (Porto Alegre), com nuances que procuraremos aqui reconstituir.
No Rio de Janeiro, maior cidade do país, o cônsul Cobbold reconhece algumas oportunidades de introdução de trabalho qualificado no fato de que o crescimento da cidade e a intensificação das comunicações com o estrangeiro traz modificações no estilo de vida e apura o gosto para produtos de luxo. Os brasileiros livres, diz ele, não se dedicam ao trabalho manual, (...)“pode-se dizer que não há uma classe de trabalhadores industriais ou de artesãos. Metade da população é empregada no serviço público, um quarto em profissões liberais e, do restante, alguns poucos entram para o comércio. Os principais componentes das classes industriais e artesãs consistem de portugueses, italianos, franceses e alguns ingleses, mas nenhum país oferece tão poucas vantagens para sua prosperidade; o trabalho escravo é tão barato que é difícil, mesmo para um bom trabalhador mecânico, conseguir trabalho a uma taxa remunerativa”.8

A imigração de operários industriais é francamente desencorajada. O país não tem indústrias e importa todos os produtos acabados. Assim, as oportunidades existentes podem ser aproveitadas sobretudo por aqueles imigrantes com pequeno capital para se estabelecerem por conta própria, uma vez que o trabalho qualificado é praticamente monopolizado pelos estrangeiros9.

Os trabalhadores estrangeiros “trazem consigo de seus países, as tradições com respeito à honra de suas profissões”, exercendo um papel pedagógico no país. O Cônsul enfatiza a concorrência entre os trabalhadores estrangeiros, o que permite aos empregador brasileiro escolher os melhores: técnicos em engenharia, construção, superintendência e manutenção de máquinas, trabalhos sanitários, encanamento, gás; carpintaria, selaria, construção de carruagens, cervejarias, estão entre os que empregam preferencialmente estrangeiros.

Há, segundo o cônsul, poucos ingleses na província do Rio de Janeiro. A maior parte dos trabalhadores empregados na construção das ferrovias é de portugueses, que são econômicos, a ponto de conseguir economizar a metade do que ganham (3 a 4 s por dia). A maior empregadora, no setor de construção de estradas é a Companhia União e Indústria, onde o trabalho mais qualificado é realizado por alemães. Os ingleses se adaptam melhor nas regiões montanhosas de Minas Gerais - em Junho de 1867 havia 86 mineiros e 55 trabalhadores qualificados (workmen) e mecânicos em Morro Velho (de acordo com Burton, cônsul em Santos). Eram bem pagos, moravam em casas construídas pela companhia e chegavam a economizar dinheiro10.


O custo de vida é caro, principalmente porque, durante a Guerra do Paraguai, o dinheiro brasileiro se desvalorizou, o que beneficia os fazendeiros, mas prejudica os assalariados, que consomem muitas mercadorias importadas. O alojamento é especialmente caro, embora as pessoas se contentem com um padrão de vida inferior ao da Inglaterra. De qualquer maneira, o poder de compra do salário é muito inferior do que na Inglaterra, sendo mais compensador ganhar L 15 na Inglaterra do que L 20 no Brasil.
O relatório referente à Província de S.Paulo, enfatiza as perspectivas animadoras propiciadas pela expansão ferroviária na criação de postos de trabalho na capital e no interior, embora elas se refiram a um futuro próximo. A vida na província, diz ele, é a mais cara do Brasil, tanto no que se refere ao custo de vida como ao preço do trabalho. Há escassez de bons trabalhadores qualificados (principalmente artesãos e mecânicos) o que significa boas oportunidades nesse setor. Não há demanda para trabalho assalariado (labourers) “devido ao extensivo emprego de escravos em todo o trabalho externo”. Ou seja, o trabalho escravo parece concorrer com o assalariado, mas não com o trabalhador por conta própria e o trabalho qualificado.

As ferrovias, a intensificação do uso de máquinas e a influência de trabalhadores estrangeiros, tem, segundo o cônsul, tido o efeito de modificar a cultura local, fazendo-a superar o desprezo pelo ao trabalho manual: “Antigamente, em parte pelo orgulho causado pelo uso do trabalho escravo, parte pela sua natural indolência, os nativos não eram inclinados a qualquer tipo de trabalho, preferindo viver de suas pequenas plantações de banana, feijão e milho, que lhes dava comida suficiente sem trabalho. Mas, nos últimos anos, a introdução das ferrovias, maquinaria e trabalhadores estrangeiros tem estimulado os nativos, e induzido-os a se dedicarem a atividades mais industriosas.11

Não obstante, o cônsul manifesta, como seu colega do Rio de Janeiro, um péssimo conceito do trabalhador nacional, ao mesmo tempo em que exalta as qualidades dos trabalhadores portugueses e alemães. “Sem dúvida, os melhores trabalhadores da província são estrangeiros, principalmente alemães, franceses, portugueses e italianos. Destes, os mais disciplinados (steadiest) são os alemães, enquanto que os portugueses são os mais numerosos, mais esforçados e menos organizados (most disorderly). Com esses trabalhadores os nativos não podem competir: o trabalho executado pelos brasileiros é grosseiro e sem acabamento, faltando a beleza e o apuro dos profissionais bem treinados. Eles parecem também desprovidos de orgulho profissional. “(...) os brasileiros não mostram qualquer capacidade de se tornarem trabalhadores qualificados (skilled). Falta a eles uma grande qualidade - a aplicação assídua ao trabalho. O brasileiros são excessivamente independentes e descuidados; independentes nas formas de ganhar a vida e descuidados no esforço de agradar os clientes. Eles trabalham apenas quando querem e demoram semanas para executar uma ordem Não é incomum que um homem, tendo ganho uma certa quantia, abandone o trabalho para gastá-la. No entanto, o preço do trabalho é muito alto, comparando-se com a qualidade e preço do mesmo trabalho na Inglaterra”12.

A comida nativa custa pouco (limita-se a feijão farinha, carne seca, acompanhada de café e cachaça). As casas são feias e desconfortáveis. Como a comida custa pouco, o trabalhador nativo vive facilmente e pode se dar ao luxo de ser preguiçoso. Falta a ele, um ética do trabalho, ambição em melhorar seus padrões de conforto.

Na manufatura têxtil da cidade de Itu, a única em operação na província, os salários são baixos (Homens (2$000), mulheres (1$000), crianças ($500) = 4s, 2s e 1s respectivamente, por dia). Nesse estabelecimento trabalha-se de 10 a 12 horas por dia, manufaturando tecidos grosseiros para uso dos escravos, mas não consegue atender a demanda por falta de mão de obra. “Eles comparecem por algum tempo, mas logo que ganham uma pequena soma, abandonam o trabalho, e, com o que ganharam, vivem um tempo considerável”. Assim, ele pensa que mesmo operários ingleses poderiam vir a ganhar mais do que os nativos.

A melhor empregadora é a estrada de ferro, onde se ganha entre 2$000 a 5$000 para trabalho qualificado - mecânicos, carpinteiros, pintores, ferreiros, torneiros. Os melhores salários estão na S.Paulo Railway. Contraditoriamente, pensa o cônsul, embora o poder de compra dos salários seja menor do que na Inglaterra (cerca de metade), um trabalhador chega a poupar ¼ do seu salário. Isso ocorre porque há menos oportunidades de gasto. As ferrovias também tem estimulado o mercado livre de trabalho no setor menos qualificado da construção - carregadores, condutores de mulas, cortadores de madeira. Nos demais setores ainda predomina o trabalho escravo.

Em Santos, SP, e em outras cidades da província, obtém-se altos salários no trabalho de tropas e carregadores, empregados nos armazéns, transportando, carregando e descarregando mercadorias. Aqui se usa também trabalho escravo. Segundo o cônsul, esse é um negócio que pode começar com um pequeno capital (100$000 ou 200$000), que é o preço de um carro e uma mula, com o qual transportam café , algodão e outras mercadorias do interior. Ganham a vida decentemente, ampliam o negócio, tornando-se emprestadores de dinheiro.13

O Cônsul Dundas parece ter também uma opinião bastante reticente sobre o sistema de parceria. “No interior, entretanto, em uma ou duas grandes fazendas de café, que estão fazendo experiências com trabalho livre, encontram-se com grupos de alemães e portugueses, que, com suas famílias, são empregados no cultivo de café e algodão, cada família tratando de centenas, ou mesmo milhares de árvores, de acordo com seu tamanho. Recebem, em vez de salário, uma parte da produção. Ele comprar sua alimentação do empregador, ou a cultivam em porões de terra atribuídas para isso. A dieta consiste, na sua maior parte, no feijão preto, farinha, milho e carne seca. Os três primeiros artigos eles produzem na propriedade, de maneira que tem tudo o que necessitam para seu consumo diário. Muitas dessas famílias se dão bem e poupam dinheiro, mas apenas a custa de muito trabalho e sacrifício. Outras são indolentes e não ganham nada. fiam dependendo do seu empregador por causa do dinheiro que lhe devem.” Ele pensa que o sistema, embora preferível ao trabalho escravo, não é o ideal nem para o empregador nem para os trabalhadores.

Não é no campo e sim, na cidade, que ele vê algumas poucas oportunidades para o trabalhador inglês. O trabalho nativo, conforme apontado antes, é avaliado como muito inferior ao estrangeiro, mas ele tem dúvidas em recomendar a província para a imigração de seus conterrâneos, a não ser em algumas profissões específicas: “se um carpinteiro, ou um ferreiro viesse para esse país, ele provavelmente poderia encontrar trabalho a bom preço.”

Como no Rio de janeiro, as melhores oportunidades parecem estar reservadas aos trabalhadores mais qualificados (master workmen), que possam vir com um pequeno capital instalar-se por conta própria. Pedreiros e construtores não iriam se adaptar, porque os materiais são muito diferentes, assim como o estilo das construções.

A avaliação negativas das oportunidades para o trabalhador inglês, mal esconde, no caso desse relatório, o arraigado preconceito com o trabalhador nacional associado a uma super valorização das qualidades do trabalhador alemão. É uma avaliação que merece ser investigada, não apenas por ser recorrente, mas porque as duas idéias vem sempre associadas: o inglês é o melhor dos trabalhadores. Não pode nunca comparar-se aos nativos. Perde porém, não em qualidade, mas em maleabilidade e organização para os alemães.

“Não se pode comparar o trabalho dos nativos com o dos trabalhadores britânicos; falta aos nativos o acabamento e a perfeição dos trabalhadores qualificados, um bom trabalhador pode quase sempre obter bons salários. Os alemães geralmente se dão bem porque podem fazer um pouco de cada coisa, mas o mecânico britânico é bom apenas em um ponto específico - aquele para o qual foi educado - nisso ele não pode ser superado. Contaram-me que o inglês, freqüentemente “perde a cabeça” permitindo que os nativos, que aprenderam tanto com eles, os ultrapassem. Mesmo assim, o brasileiro é indolente demais para se esforçar e parece não se importar pela maneira como as coisas são feitas. Nem o dinheiro, nem o orgulho profissional parecem importar muito para ele”.

As perspectivas virão, pensa o cônsul, da extensão das ferrovias para o interior, da introdução de maquinaria nas fazendas, “alargando o círculo do trabalho regular”14.

O Cônsul Morgan, da Bahia15, observa que não há discriminação em relação ao trabalho artesanal ou industrial, “como em certos países da Europa”. (...) “Meios moderados acumulados através do trabalho valem mais do que o nascimento e, se acompanhados pela educação, ultrapassam em muito suas vantagens. Com a posse desses meios e com as idéias niveladoras da democracia, qualquer artesão pode se considerar como tendo tão boa posição na sociedade quanto os mais elevados”. Isso se estende até mesmo aos homens de cor, que têm procurado educar seus filhos, através do ensino primário gratuito oferecido pelo Estado. “A educação gratuita” exagera nosso funcionário, que não parece partilhar as teorias raciais comuns à sua época, “nivela todas as classes e cores; e, embora eu não diga que as classes superiores enviem seus filhos para essas escolas, não é demais notar que as crianças de cor, quando admitidas nas escolas superiores, mostram tal aptidão para os estudos que se nivelam com os descendentes de Portugal”.

Apesar do otimismo em relação ao papel nivelador da educação o cônsul observa que também na Bahia a educação não foi capaz de criar uma classes de trabalhadores especializados. Na sua região, como em outros lugares, o trabalho qualificado é dominado pelos estrangeiros. A qualidade do trabalho estrangeiro é muito superior: alfaiates, mecânicos de vários tipos, empregados de construção, ferreiros etc., todos vem de fora. O Brasileiros, pensa ele “não mostram aptidão para o trabalho manual”. A razão, pensa ele, é o clima do país “que esgota a natureza do homem” e a extensão e fecundidade do solo que fazem da agricultura a principal atividade do país. O artesanato e os produtos manufaturados ocupam, na região uma posição secundária, limitando-se, em sua maior parte à elaboração de produtos primários, produzidos estes últimos com trabalho escravo16.
É interessante observar, entretanto, que esse relatório é o único a apontar uma concorrência potencial nos trabalhadores negros, reprimida pela sua condição de escravos. As vantagens obtidas pelos estrangeiros no mercado de trabalho, poderão ser alteradas pelo fim da escravidão, liberando para o mercado uma mão de obra que tem se mantido ausente da concorrência: “Os trabalhadores agrícolas nesse país formam até agora uma parte distinta e separada da população, eles são em sua maioria escravos, muitos dos quais são pedreiros, ferreiros, carpinteiros, trabalhadores metalúrgicos, barqueiros, etc., empregados exclusivamente nas fazendas de seus senhores; conseqüentemente, seu trabalho não entra em competição com os trabalhadores livres e diaristas. Mas, em período não muito distante, quando a escravidão for abolida, eles poderão trazer pesadas desvantagens para a atual população livre, que ganha a vida no trabalho diário”17.
Um dos mais interessantes relatórios consulares dessa série é aquele proveniente do Rio Grande do Sul, pelo agudo contraste que ele apresenta, nos quesitos propostos, entre as duas regiões consulares - Rio Grande (inclui Pelotas) e Porto Alegre. O primeiro relatório 18 transmite impressão extremamente desanimadora da região do Rio Grande. As atividades artesanais tem muito pequeno peso na região, onde a atividade econômica se concentra na criação de gado e nas charqueadas. Nas últimas, predomina o trabalho escravo (80 a 100 escravos cada). Algumas empregam homens livres durante a estação mais ocupada. Nesse caso, os trabalhadores ganham cerca de L6 libras por mês, mais alojamento e comida. Ao cônsul parece repugnar essa atividade, descrita como “trabalhosa, suja e desagradável” (laborious, dirty and disagreeable).

Como nas demais cidades do Império, no Rio Grande e Pelotas, os artesãos e trabalhadores manuais são quase todos estrangeiros (portugueses, alemães e italianos). Não há nenhum inglês. A cidade do Rio grande é descrita como úmida, com casas mal construídas e cômodos mal ventilados. Os quartos não tem janelas, as casas não tem jardins. Apesar disso custam muito caro (30 L a 48 L por ano). “As ruas não aso calçadas; fazem-se buracos nelas nos quais se coloca o lixo da cidade, que é então coberto. Com as chuvas. a água se aloja nos buracos e fica parada, causando os cheiros mais abomináveis e perigosos para a saúde. Não há esgoto ou água encanada. O que impede a cidade de ser ainda mais insalubre são os constantes ventos. Pelotas, que é mais alta e fica no interior, é um pouco melhor do que o Rio Grande. A partir daí, o funcionário desaconselha firmemente a vinda de artesãos ingleses, que não teriam trabalho nem condições de prosperar


Formando vivo contraste com a avaliação de seu colega o Relatório sobre Porto Alegre19, que vem anexo ao relatório anterior manifesta a mais favorável impressão das oportunidades de trabalho oferecida por sua região consular.

Ele compartilha com seus colegas a opinião sobre a pouca inclinação dos brasileiros para com o trabalho manual, “os brasileiros não estão interessados em aprender uma profissão e tendem a empregar-se mais no comércio, como caixeiros, ou dedicar-se à criação de gado, mas, acima de tudo, aspiram ao emprego público”.

Em todo o país, Porto Alegre é vista como a cidade mais adequada para os estrangeiros. Ela abriga a maior concentração de trabalhadores alemães (7/8, segundo o Relatório são alemães ou de descendência alemã.). “Todos estão muito bem”, avalia o cônsul, “muitos podem ser mesmo considerados ricos”20.

Praticamente todo o trabalho profissional é executado por eles: alfaiates, sapateiros, ferreiros, construtores de carruagens, encadernadores, padeiros, chapeleiros, açougueiros, tintureiros. Esses profissionais “moram em suas próprias casas, que são, não apenas muito bem construídas, mas apresentam conforto e, até mesmo luxo. Iniciaram também pequenas indústrias: um alemão é proprietário da fundição de ferro da cidade.

Os alemães são descritos como “organizados e sóbrios”. Encontram emprego assim que chegam e logo se dão bem; se são econômicos, em poucos anos tem condições de amealhar um pequeno capital e começar um negócio por sua própria conta. Até mesmo empregados domésticos tem bons salários (uma cozinheira ganha 30$000 a 40$000 por mês).

Contrastando com a carestia, de que se queixam todos os outros cônsules, o custo de vida na cidade de Porto Alegre é considerado como equivalente ao europeu, sendo que os artigos de primeira necessidade (carne, batatas, peixe e pão) são muito baratos, chegando a uma diferença de 30%. O clima da cidade é também descrito como o mais saudável do país.

O trabalho artesanal, praticamente monopolizado pelos alemães é considerado excelente, “principalmente o trabalho em madeira”. Chega a comparar com o trabalho feito na Inglaterra e no continente. Os salários para o trabalho qualificado são excelentes, porque aqui “a qualidade do trabalho é reconhecida”. Um trabalhador chega a ganhar 90$000 réis e gasta com sua manutenção apenas 30$000.

Em suma “a qualidade do trabalho realizado nessa cidade rivaliza com o realizado em qualquer parte da Europa e, alguns dos nossos profissionais, como chapeleiros, sapateiros, alfaiates, podem competir com as grandes cidades da Inglaterra e do continente. Finalmente, pode-se dizer que a cidade é recomendada para qualquer pessoa que deseje emigrar, como uma das mais limpas e saudáveis do país.


É interessante observar, nas avaliações que estamos reproduzindo e comentando, como o clima, a natureza e as condições sanitárias do Brasil parecem pesar muito menos como obstáculos à imigração de europeus do que que a relação com a escravidão. O caso mais ilustrativo a esse respeeito é o das Províncias amazônicas.

No Pará e Amazonas, onde a escravidão teve menor peso, as perspectivas do trabalho por conta própria apresentavam-se surpreendentemente favoráveis, na avaliação do cônsul, parecendo corroborar a idéia de que o trabalho escravo aviltava o salário. Afirma o responsável pelo Relatório das Regiões Consulares do Pará e Amazonas, que o número de escravos vinha decrescendo rapidamente naquelas províncias, onde o sentimento era “o mais favorável possível” à abolição. Nessas províncias, a proporção de trabalhadores qualificados no conjunto da população é muito pequena (em torno de 1/10) e, “embora haja alguma pobreza, há pouco sofrimento, porque a natureza é pródiga, embora os homens sejam inertes. No entanto, porisso mesmo, sente-se severamente a falta de trabalhadores tanto no campo como nas cidades, o que permite aos poucos trabalhadores existentes, fazer seu próprio salário, dentro de certos limites, que são freqüentemente exorbitantes”. Para esse funcionário, o clima tropical não parece ser um obstáculo à imigração européia na região amazônica (“eles não sofrem mais males com o clima do que os brancos e mestiços nascidos e criados aqui”) 21.

Muitas raças compõem a classe trabalhadora nas províncias do Norte - índios civilizados, brancos descendentes de portugueses e de outros europeus, estrangeiros de todos os países, negros e, por último “as várias linhagens que surgem da livre mistura de todas essas raças, entre as quais, principalmente nas camadas urbanas inferiores, predomina o sangue negro”.

Destacam-se, entre todos os portugueses, como os mais adaptados às províncias do Norte, exercendo um quase monopólio dos principais postos de trabalho no comércio: “nas duas províncias existem em torno de 20.000 portugueses e, na capital do Pará, de uma população de 35.000 habitantes, Eles estão envolvidos no comércio, ou ocupam ocupações como caixeiros, ferreiros, transportadores, condutores e barqueiros, chegando a quase excluir, nessas profissões, os membros de todas as outras nações, devido não apenas ao seu número, seu domínio da língua e dos costumes do país e à sua mais pronta adaptação à comida das classes inferiores. É também preciso admitir que sua preponderância se deve ao trabalho duro, à sobriedade e ao espírito de clã”22.

A população agrícola é principalmente indígena (índios Tapuio), que também se empregam no trabalho doméstico e são a principal fonte de recrutamento para o exército. O Cônsul deplora o pouco desenvolvimento agrícola da região, toda a população nativa estando concentrada nas atividades extrativas, principalmente na borracha.

O trabalho artesanal é desenvolvido por uma mistura de nacionalidades, dentre as quais os alemães e portugueses aparecem como carpinteiros, marceneiros e pedreiros. Norte americanos e alemães aparecem como engenheiros (engineers) e mecânicos. O cônsul, como seu colega de S.Paulo, atribui um destacado papel pedagógico aos trabalhadores estrangeiros: “todas estas classes estão empregadas e representam um exemplo para as raças nativas, que aprendem com aptidão os vários ofícios e profissões. O Cônsul da região amazônica diferencia-se, entretanto, de seu colega de S.Paulo por ter uma avaliação muito menos negativa das potencialidades do trabalhador nacional. “Em todas as habilidades que requerem inteligência (clever workmanship) o mulato, seja ele meio índio ou meio branco, tem mostrado sua capacidade em alto grau, pela sua inteligência, sobriedade e atenção ao trabalho”. A principal dificuldade com esse trabalhador, parece ser a extrema consciência de sua independência, que deriva de seu conhecimento da escassez de trabalhadores. “Entretanto, o trabalhador nativo requer tratamento bondoso e encorajador. Ele se recusa a ser mandado e não gosta que falem com ele de modo muito ríspido, por que, então, ele se prevalece da escassez de trabalhadores para deixar o trabalho e procurar emprego em outro lugar23.

Entretanto, a “apatia” dos nativos favorece os estrangeiros na ocupação de postos no mercado de trabalho. A extração de borracha parece absorver todas as energias dos trabalhadores nativos. Trata-se de uma atividade primitiva que, na opinião do cônsul não exige qualquer especialização ou experiência. Ela levou ao abandono da agricultura, até mesmo da cana de açúcar (que só é produzida em pequena quantidade para o fabrico de cachaça).

“O esforço envolvido na extração da borracha é tão pequeno e tão remunerativo, que é próprio da natureza humana (especialmente da população esparsa e comatosa (?) população dessas províncias) preferir aquela ocupação, ao invés de fazer um pequeno esforço em limpara a floresta, preparar o solo e esperar pela colheita alguns meses”. Na extração do látex, diz ele, “uma família, turma ou homem sozinho, edifica uma cabana temporária na floresta e, vivendo frugalmente de frutas e caça abundante, e sua provisão de peixe seco e farinha, faz tanto dinheiro em poucas semanas, que ele pode recair na inatividade (idleness), e desfrutar seus ganhos fáceis até que a estação seca retorne (...)”24



Um trabalhador esperto pode fazer em média 8 lb. de látex por dia (valendo em torno de 8$000), podendo chegar até mesmo a 32 lb.
Dessa avaliação o funcionário britânico deduz que existiria espaço para uma “raça industriosa” que quisesse emigrar para dedicar-se à agricultura, principalmente arroz, cacau e algodão.
Como temos apontado, as dificuldades do clima não parecem ser importantes na avaliação dos funcionários ingleses na condições de imigração. A insalubridade é mais enfatizada, como vimos, nos Rio Grande e Pelotas, do que em Belém ou Manaus. A febre amarela é mencionada pelo cônsul do Rio de Janeiro, sem muita ênfase. O clima e as condições de S.Paulo parecem também capazes de favorecer a adaptação de qualquer europeu. As condições de moradia e alimentação parecem mais complicadas, as primeiras pela carestia de acomodações adequadas e as segundas pela dificuldade cultural da adaptação a uma dieta de feijão, carne seca e farinha, que parece ser naquele momento, a dieta universal das classes trabalhadoras brasileiras. As possibilidades salariais dos imigrantes são assim freqüentemente elaboradas a partir de cálculos que envolvam o consumo de produtos europeus, encarecidos pela baixa do câmbio e pelas altas tarifas. Uma avaliação mais precisa dessas condições deverá ser objeto de outro trabalho.
Vale a pena, entretanto, sublinhar aqui um aspecto que parece ser crucial na avaliação dos cônsules ingleses para dificultar a adaptação de seus compatriotas às condições brasileiras: a inclinação para o abuso da bebida alcóolica. Por exemplo, no relatório anterior, partindo de uma introdução francamente favorável aos trabalhadores estrangeiros, o cônsul britânico no Pará descreve o mais desabonador retrato do comportamento dos europeus nos trópicos. Nessa região, diz ele, “qualquer artesão inteligente, habilidoso, sóbrio, pode se aclimatar e se dar bem (...) se ele for um homem perseverante, não exagerado em seus gastos, não tão ávido em sua necessidade de convívio social (...) e desenvolver hábitos calmos, regulares, evitando os muitos vícios que afligem os estrangeiros no Pará, ele pode, em pouco tempo, desfrutar reputação mais elevada do que na Inglaterra. Entretanto, infelizmente, a maior parte dos artesãos ingleses que tem até agora aparecido no Pará, são carentes dessas qualidades, especialmente por sua extraordinária inclinação à bebida. O vício da bebida impede que se realizem profissionalmente e lança descrédito a todos os seus compatriotas, uma vez que os brasileiros nativos e os outros estrangeiros tem hábitos de muito maior temperança.” A vida nas províncias do Norte poderia oferecer perspectivas de trabalho desde que houvesse temperança no comer e no beber, “mas não abstinência de carne, bebidas leves, um uso moderado da cerveja ou mesmo uma mistura de água com cachaça, porque a natureza exaustiva do clima, produzindo uma transpiração contínua, enfraquece e exaure o sistema. Por outro lado, o exagero na bebida, uma falha que devemos lamentar em muitos ingleses - rapidamente produz desordens do fígado e febres do sangue”25.

A questão da inadaptação dos anglo-saxônicos aos trópicos, em razão da inclinação para o alcoolismo, é a mais recorrente nos relatórios consulares, superando de longe os outros impedimentos (clima, hábitos alimentares, etc.) para a adaptação de estrangeiros aos trópicos. “A cachaça é barata”, diz o cônsul do Rio de Janeiro, “e isso favorece a indulgência”26. “A bebida comum é o rum cru. O brasileiro, como regra geral, é sóbrio, mas eu temo, pelo baixo preço do rum (6d pela garrafa de ¼ de litro) que os artesãos europeus e emigrantes que possuem um gosto por bebidas fortes, seriam tentados, por causa do baixo preço, a exagerar, arruinando a saúde e as perspectivas”. Mesmo o cônsul Heinessen de Porto Alegre, que apontamos como o maior entusiasta da imigração estrangeira, enfatiza a importância da presença de cervejarias na cidade, o que favoreceria os estrangeiros a evitarem bebidas mais fortes.


O conjunto de relatos aqui apresentados fornece um certo panorama das oportunidades de trabalho no mundo urbano, no momento em que se iniciava o processo de emancipação da escravidão. Eles foram produzidos tendo em vista uma questão específica e propiciam algumas informações interessantes sobretudo sobre as diferenças regionais. Em seu conjunto, entretanto, devem ser vistos menos como uma informação acurada das condições e perspectivas de trabalho, do que como a expressão de um tipo específico de narrador: o funcionário consular britânico que representa, ao mesmo tempo, os interesses comerciais de sua comunidade, algumas preocupações em relação às razões de Estado de seu país, mesclada evidentemente com certa dose de arrogância “imperial”. A questão da emigração de trabalhadores britânicos, já naquele momento, tendia a encaminhar-se sobretudo para os Estados Unidos e para os “domínios brancos” da Austrália e Nova Zelândia. A presença de teorias e preconceitos racistas surpreende pouco, pela sua quase universalidade no pensamento do século XIX.

No que se refere à informação sobre o Brasil, os relatórios são especialmente interessantes pela relação contraditória, que sugerem, entre a escravidão e o preço do trabalho. No Rio de Janeiro, possivelmente pela presença importante dos “escravos de ganho”, a escravidão concorre com o trabalho artesanal e com o trabalho por conta própria, aviltando seu preço.

Onde havia menos escravos, as oportunidades tendiam a ser melhores, como aparece na avaliação das oportunidades nas Províncias do Norte. O contraste apresentado pelos agentes consulares das duas regiões do Rio Grande do Sul é claramente ilustrativo desse fato, no seu entusiasmo pela experiência imigratória em curso. A Bahia aparece como um caso intermediário, onde a abolição poderia introduzir no mercado de trabalho um importante contingente de competidores e o informante não parece ver qualquer dificuldade cultural ou social à sua incorporação.

A avaliação geralmente negativa em relação ao trabalhador nacional, em grande parte partilhada pelos empregadores brasileiros, parece, em uma visão de conjunto dos relatórios, menos influenciada pela raça do que se poderia imaginar, pelo peso que as teorias raciais vinham desenvolvendo no século XIX. As principais dificuldades da inserção dos brasileiros no mercado de trabalho urbano, nos setores investigados, parecem advir, muito mais das metástases sociais da escravidão: o desprezo pelas profissões manuais, a ausência de uma ética do trabalho, a indisciplina, a atração do emprego público. A partir da década de 1870 intensificava-se também a imigração portuguesa de trabalhadores pobres, que iriam ocupar espaço importante nas profissões menos qualificadas. Eles são extremamente elogiados nos relatórios, pela sua capacidade de enfrentar o trabalho duro, pela frugalidade e economia, contrastando com a “indolência” e desinteresses dos brasileiros.

Desenhava-se, assim, um mercado urbano em desenvolvimento, em que os estrangeiros praticamente monopolizavam as profissões manuais, principiando a estabelecer-se em certos nichos profissionais e culturais.

Os relatos, na expressão de atitudes valorativas frente aos trabalhadores das várias nacionalidades parecem expressar, sobretudo, um momento em que a crise da hegemonia inglesa começava a se tornar manifesta, em particular no campo da competição pelos mercados da América do Sul. Assim, a insopitável e quase universal admiração dos funcionários britânicos pelos trabalhadores alemães, indicava já a consciência de uma concorrência que iria tornar-se crescente até a eclosão de Primeira Guerra Mundial: disciplina, sobriedade, organização, economia, etc. eram menos “qualidades” reconhecidas do que a expressão dessa rivalidade.



1 Sobre os efeitos desse processo na Inglaterra ver E. Hobsbawm, Da Revolução Industrial Inglesa ao Imperialismo, R.J., Ed. Forense, 1986 cap. 8 e 9.

2 É o caso de Sturz, J.J., A Review, Financial, Statistical & Commercial of the Empire of Brazil and its Ressources, Londres, 1837; H. Handelmann, História do Brasil (1ªed. 1860) S.P., Ed.Itatiaia Edusp, 4ª ed. 1982 e Auguste van der Straten-Ponthoz (Comte), Le Budget du Brésil ou Recherches sur les ressources de cet Empire, dans leurs rapports avec les interêts européens du commerce ed de l’émigration, Paris, Librairie d’Amyot ed. 1854.


3 J. B. Alberdi, Fundamentos da organização política argentina, Campinas, Ed.Unicamp, 1994

4 Joaquim Nabuco, O Abolicionismo, S.P., Progresso Editorial, 1949, pp. 208-209

5 Aureliano Cândido Tavares Bastos, “Memória sobre a imigração”, in Os males do presente e as esperanças do futuro, S.P./R.J., Cia.Ed.Nacional, 1939, p.65


6 Sobre o alcance e os limites dessa modernização ver Fernandes, Florestan, A Revolução Burguesa no Brasil, R.J., Zahar, 1974, caps. 3 e 4.


7 Report from H.M.Diplomatic and Consular agents abroad respecting the condition of the industrial classes in Foreign Countries. Report by consul Doyle on the Industrial Classes in the Provinces of Pernambuco

Brazil, set.1870 -Parliamentary Papers, 1871 (68), p.113. O Cônsul responde em poucas linhas, sendo taxativamente contrário à imigração britânica para a região. O trabalho agrícola é muito diferente e totalmente inadequado para estrangeiros.O trabalho urbano funciona geralmente por contrato de três anos. Poucos trabalhadores ficam esse tempo


8 Report from H.M.Diplomatic and Consular agents abroad respecting the condition of the industrial classes in Foreign Countries. Report by Mr. Cobbold on Industrial and artizan Classes in Brazil, R.J. January 1870 Parliamentary papers - 1870, vol.66, pp.837.



9 Idem, p.138

10 Further report by Mr. Cobbold respecting the conditions of industrious classes in Brazil Parliamentary Papers, 1871 (vol.68), pp.99a 103

11 Report from H.M.Diplomatic and Consular agents abroad respecting the condition of the industrial classes in Foreign Countries, Report by Mr. Dundas on Industrial and Artizan Classes in S.Paulo October, 29, 1870, Parliamentary papers - 1871, vol.68, pp.122

12 Idem pág. 124

13 Idem p.127

14 Idem 130

15 Report from H.M.Diplomatic and Consular agents abroad respecting the condition of the industrial classes in Foreign Countries Report by consul John Morgan on the Industrial Classes in the Provinceof Bahia, set.1870 1871 (68), p. 131


16 Idem 131.

17 Idem 133.

18 Report from H.M.Diplomatic and Consular agents abroad respecting the condition of the industrial classes in Foreign Countries Report by Consul Callander on the Condition of Industrial Classes at Rio Grande do Sul) , Parliamentary Papers, 1871 (68), pp.114 a 121

19 Report by Vice Consul Heinssen on on the Condition of Industrial Classes at Porto Alegre, pp.117-121

20 Idem, 118

21 Report by consul Drummond Hay on the Industrial Classes in the Provinces of Pará and Amazonas Brazil, set.1870 1871 (68), pp.105-106

22 Idem, p.108

23 Idem 110

24 Idem 111

25 Idem, ibidem

26 Further repor by Mr. Cobbold respecting the conditions of industrious classes in Brazil 1871 (vol.68), pp.102.




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