Dissertação de mestrado: o que comunica a arte?



Baixar 95,35 Kb.
Encontro18.08.2017
Tamanho95,35 Kb.

ARTE E COMUNICAÇÃO

1. A COMUNICAÇÃO

Dizer que a comunicação no sentido da partilha das mentes é impossível não é dizer que não podemos cooperar esplendidamente”



Peters (1999)

A comunicação pode ser entendida em “duas vertentes de investigação”. Na primeira vertente como fenómeno humano, a comunicação surge enquanto objecto filosófico e científico, como espaço de reflexão e de investigação teórica no âmbito da crise moderna e, principalmente, com o aparecimento das novas tecnologias. Por outro lado, a comunicação, no século XX, torna-se um paradigma epistemológico que vem colocar novas questões aos fenómenos sociais e humanos exigindo novas reflexões, leituras e abordagens (Marcos, 2004:11).

Durham Peters, em 1999, no seu livro “Speaking into the air“ apresenta a comunicação como um dos conceitos que caracterizam o século XX, mas que também se tornou num dos maiores problemas por resolver e, por isso, sobre a comunicação reflectiram tantos e tão diversos pensadores contemporâneos. Ao mesmo tempo que se tornou central para reflectir as mudanças dos paradigmas dos nossos tempos, também se tornou um dos espaços onde é possível verificar as dificuldades, as impossibilidades e os limites das relações humanas e, fundamentalmente, onde podemos ter a noção da dimensão desses mesmos limites.

Este autor distingue cinco categorias sobre a comunicação. Como primeira instância, a comunicação pode significar um acto expressivo que não exige resposta, como “comunhão” ou “ligação”. Outro significado de comunicação é o de transmissão física ou transferência de entidades psíquicas como ideias ou pensamentos, ocorrendo também aqui, em apenas um dos sentidos. A comunicação pode no entanto significar intercâmbio e reciprocidade, não apenas do simples falar mas envolver uma maior intimidade e revelação, aqui a comunicação funciona como “troca”. A comunicação pode também ser entendida como “interacção simbólica” nos mais variados modos das nossas relações de significação. Por fim, o conceito de “comunicação” também é aplicável à comunicação no sentido mais amplo do termo, mais precisamente a toda a comunicação ligado à transmissão e recepção de ideias, informação e atitudes, onde a escrita, o telégrafo, a rádio, a fotografia, o cinema e todos os media ligados ás novas tecnologias se integram, entre outros.

A comunicação apresenta-se diariamente numa perspectiva de “multiplicidade de sentidos”, como sendo heterogénea, multidisciplinar, problemática e geradora de clivagens e, fundamentalmente, como uma rede complexa. É nas teorias de “divisão de trabalho” de Adam Smith (1725-1790), de “rede” de Saint-Simon (1760-1825) e de “desenvolvimento” em Auguste Comte (1798-1857) onde Armand e Michéle Mattelart (1995) vão encontrar os primórdios da concepção das “ciências da comunicação”. Estas teorias apresentam a comunicação como um sistema complexo, interdependente e “orgânico”, estudando a sociedade como se de um organismo vivo se tratasse e tentando dar resposta de como os homens comunicam e “governavam as coisas” (Mattelart, 1995:13-14). É através dos meios de comunicação que a sociedade é estruturada e apresentada em toda a sua complexidade como factor de integração, de progresso e de coesão social, derivando estas, não só na partilha dos objectivos e expectativas socialmente assumidas mas também na prática da interacção do individuo nos seus mais diversos contextos. Os autores do conceito do “interaccionismo simbólico”, como Herbert Blumer, chamam a atenção da importância da “natureza simbólica da vida social”, referindo que os seres humanos agem de acordo com o significado que têm das coisas, que este significado surge da interacção social que o individuo tem com os outros, por último, esses significados são utilizados num processo de interpretação e de relação futura com outras situações (Mattelart, 1995:114-115).

No inicio do século XX, desenvolveram-se estudos nos campos da linguística e da filosofia sobre a comunicação, principalmente através da semiologia e da semiótica, utilizando as línguas como sistema de signos e tendo a linguagem como objecto de estudo e investigação. Ferdinand Saussure (1857-1913) é uma das referências desses estudos, apresentando a linguagem como o acto comunicativo por excelência, estabelecendo a relação entre a língua e o social, entre os indivíduos e a cultura onde se integram. Charles Pierce (1839-1914) dedicou mais a sua atenção ao objecto. Segundo este autor, deve considerar-se o signo como uma relação triádica, fazendo referência ao meio, ao objecto e ao interpretante. O signo introduzido como meio tem uma relação com o objecto, ou seja, representa-o. Pierce é o primeiro a mostrar o sentido de “criação”, quando apresenta que “um intérprete unido a um meio cria um objecto” (Walter-Bense, 1974 (2000:88)), assim como a expor o domínio da imagem, o domínio icónico, definindo os primeiros esboços de uma comunicação não linguística.

Roland Barthes, precursor destes teóricos, propõe-se, nos inícios da década 60, analisar os sistemas de signos através das imagens, sons, gestos e objectos, chamando particularmente a atenção para a importância destes sistemas na compreensão da comunicação e da cultura de massas. São a imprensa e a arte as áreas a que este autor mais se dedica, dirigindo a sua atenção principalmente para “o discurso escrito, a fotografia, o cinema, a reportagem, o desporto, os espectáculos e a publicidade” (Ferin, 2002: 54).

Umberto Eco é outro pensador que, numa perspectiva semiótica e estruturalista da cultura, estuda a importância dos signos como um elemento importante para o processo de comunicação. Estabelece um paralelo entre alguns artefactos com o objectivo de comunicar e significar (linguagem e sinais do código da estrada) e as artes. Com esta análise, Umberto Eco desenvolve o conceito de obra aberta na arte, adquirindo originalidade e valor estético em função da possibilidade da sua abertura a um indeterminado número de interpretações e da improbabilidade de sentido nas suas mensagens. Este autor desenvolve também estudos sobre a cultura de massas, apresentando a necessidade de uma acção cultural no sentido de evitar o nivelamento unidimensional dos utentes perante os conteúdos e sentidos das mensagens nas novas formas de comunicação com base nos media e na indústria cultural (Eco, 1994 (1991:19)).

O actual conceito de comunicação pressupõe uma complexidade de abordagens atendendo aos processos e conteúdos que interagem neste campo de investigação, desde os humanos, técnicos e sociais. Surgem novos modelos culturais e um novo desafio de âmbito epistemológico para as Ciências da Comunicação, pressupondo novas atitudes de sociabilização, diversificação dos produtores de mensagens e metodologias multidisciplinares na investigação e interpretação das mesmas, em função dos objectos em análise1.

2. A COMUNICABILIDADE DA EXPERIÊNCIA ESTÉTICA

2.1. A arte da oscilação

Quanto à experiência estética na época dos media, entram em contradição as exigências de radicalidade e aprofundamento, necessários à obra de arte, com a tendência de banalização, modismo e baixo nivelamento da mensagem apenas “para satisfazer as exigências dos media” (Vattimo, 1989 (1992:63) na comunicação. Talvez por isso, se apresente a arte “como jogos superficiais” e já não como experiência que se baseia na estabilidade, profundidade e autenticidade. Será que numa época de comunicação generalizada a arte privilegia a crítica na diversão? como Benjamin tanto refere, valorizando a sensibilidade e a emoção, supostamente afastadas desde o início do século XX na atitude da recepção na arte. Será que a esta “excitabilidade e hipersensibilidade corresponde uma arte já não centrada na obra mas na experiência”? (p.63). Para todas estas interrogações, Vattimo propõe-se contribuir com algumas reflexões sobre a comunicação da arte e a sua complexidade na época dos media, no seu livro “A sociedade transparente” (1989).

Para Heidegger, a experiência estética não é apenas uma desocultação (Heidegger, 1977 (2004:49)), como já atrás foi referido, mas a realização da verdade, como acontecimento no travar de um “combate entre mundo e terra”, sendo aqui que a obra se instala e se produz. (Heidegger, 1977 (2004:46)). Apoiando-se na noção de stoss de Heidegger, Vattimo desenvolve as suas noções de desenraizamento e oscilação, enquanto combate inaugural e no qual a arte acontece. Uma vez que a obra é «verdade realizada», ela nunca surge de forma tranquilizante, mas como algo mais do que uma forma completa e perfeita do acto criador, ou seja, como um novo mundo e como abertura da verdade e acontecimento.

De facto o que Vattimo nos propõe é, tal como Benjamin (para quem a reprodução não é nenhum fatalismo para a arte), que a mobilidade e a superficialidade que os media e consequentemente a técnica impuseram à experiência artística e à experiência do homem actual, colocaram novas formas, novos conceitos e novas premissas em que essa mesma experiência se efectiva. Constituindo-se a experiência da ambiguidade, a oscilação e o desenraizamento como forças produtivas e criadoras da arte de hoje, “no mundo da comunicação generalizada” (Vattimo, 1989 (1992:66)).

Os anos sessenta são sem duvida o culminar e o ponto de viragem na arte contemporânea. Nega-se a arte “do momento especializado” aproximando-se da estética da existência, da experiência, da vida, do quotidiano em que o acontecimento surge como estado privilegiado para o acto criativo.

A ideia de comunidade e de consenso de gozo do belo dessa comunidade, com tendência a universalizar-se, presente em Kant, tende agora, em época da cultura de massas, não a nivelar-se mas a explodir o «belo» de acordo com as diferentes culturas. À impossibilidade de uma história com um curso unitário, juntou-se a dissolução no plano estético da comunidade universal, ou seja, o sentido da experiência estética abriu-se numa multiplicidade e pluralização de comunidades e mundos possíveis, não apenas no plano do imaginário mas como acontecimento.

A essência ornamental da cultura da sociedade de massa, o carácter efémero dos seus produtos, o ecletismo que a domina, a impossibilidade de ver neles uma qualquer essencialidade” (p.77) negam que o kitsch seja falta de rigor formal, mas, pelo contrário, afirmam o que, numa “cultura da época do ornamento plural, pretende ainda valer como monumento mais perene que o bronze” e reivindicar-se como objecto de arte.

Em tom de resumo, Vattimo aponta-nos que a utopia do estético apenas se desenvolve como heterotopia, deixando de se basear na estabilidade de estruturas eternas, mas antes no acontecer, colocando assim a experiência estética sujeita ao modismo e ao seu carácter de ornamento, implicando a possibilidade de uma reflexão e crítica radical.



2.2. Tensão entre sujeito, arte e comunicação

Como Maria Lucília Marcos nos propõe: “A comunicação é, de facto, sempre tensional” (Marcos, 2007b:85) e poderá ser nas “brechas desta tematização”, que encontramos razões para continuar a reflectir sobre o sujeito, a arte e a comunicação numa dimensão relacional da experiência.

No processo da alteridade do sujeito, o “eu” a “relação” e o “outro” assumem-se como espaço fundamental para compreendermos as resistências, as interrupções, a inevitabilidade da comunicação e as condições de tensionalidade, gerindo diferenças e conflitos na diversidade, promovendo a compreensão e a tolerância.

A constituição da identidade subjectiva forma-se inevitavelmente através da linguagem e a partir do lugar do outro, onde se desenvolve o “trabalho de criação”, num processo de significação e de figuração, como condição de possibilidade da percepção do mundo, sempre num “estado de tensão entre os homens e entre os homens e as coisas” (Marcos, 2001:22). É o estado de tensão que possibilita a comunicação e não os consensos absolutos que, como já vimos também com Luhmann, tornam a comunicação improvável e mesmo impossível de se realizar. Comunicar é aceitar e gerir diferenças, realizar trocas de sentido num espaço do pensamento contemporâneo, cada vez mais complexo, carregado de heterogeneidades.

O sujeito aparece, na modernidade, dissimulado com o mundo e numa perspectiva auto-performativa, na forma como se apresenta a si próprio e numa multiplicidade de sentidos divergentes e de “ficções”. O que se questiona não é o sujeito, mas as possibilidades em que ele se comunica, já não claramente enquanto “sujeito” individual, mas numa relação aberta com o outro, numa dimensão dialógica e intersubjectiva, negando a sua condição homogénea, unitária e de sujeito absoluto.

Maria Lucília Marcos apoia-se nas teorias de Nietzsche quanto à ideia de perspectivismo do sujeito, assim como nas formulações de Nancy acerca da pluralidade de partilha e também na interdisciplinaridade com que temos de olhar os novos discursos sobre o sujeito, não tolerando “a transparência absoluta nem a liquidação da subjectividade” (p.27). Quando se fala na tese da crise do sujeito e de representação moderna do homem, estamos a falar na “suspeição”do homem como “autor” de si próprio, aceitando que, embora em crise, a subjectividade possa ser pensada na dimensão relacional “tanto na dimensão da actualidade como na dimensão do possível” (ibidem, p.28), sendo também nesta dimensão que se situa toda a criatividade humana.



3. ARTE, ACONTECIMENTO E VERDADE

(…) uma arte deslocalizada. Tão ambiciosa quanto impessoal, tão desnudada para o pensamento universal (…) e que, por essa nudez, afirma para sempre a inumanidade do belo.

Alain Badiou (1998 )

Alain Badiou critica o esquema clássico, didáctico e romântico, na relação entre arte e verdade e apresenta propostas de novos paradigmas para o século XX. A arte nem é aparência da verdade, ou seja verosimilhança, nem sedução do verdadeiro, não devendo por isso ter que ser vigiada pela filosofia. Para Alain Badiou, a arte do século XX nada tem já a ver com estes paradigmas, recusando também tentativas das vanguardas na síntese dos mesmos. Assim, propõe a imanência e a singularidade como relação entre a arte e a verdade. A arte, para este autor, “pode produzir verdades singulares” e a obra de arte “é triplamente finita” na objectividade, na “perfeição” e a “obra de arte é um fim em si mesma” (Vidal, 2005:88).

Partindo do pressuposto que a obra de arte é um fim em si mesmo, afastando a arte do real, Carlos Vidal propõe-nos a sua emancipação quanto à representação. Vidal parte de uma formulação de Foucault, “questionar o discurso é questionar o poder” (p.129), logo, a possibilidade de resgatar a representação da performatividade económica e comunicacional será “desfuncionalizando-a, ou seja, desligando-a da intenção, da finalidade e da comunicação” (p.129).

Quanto à representação, colocamo-nos num espaço de transitoriedade, em que a representação é só por si um mundo, “enquanto vontade e representação que se ilumina a si mesmo” (p.134), tentando emancipar a representação de uma obrigatoriedade de comunicação, mais precisamente no acto de criação. Como nada existe exterior à representação, é nesta auto-referencialidade que a arte, segundo Vidal, integra um impoder que “aliado à força criativa (...) é capaz de destruir os consensos estabelecidos e «provocar os acontecimentos” (p.136). Evocando as teses de Debord, Vidal vai apresentar a representação como principal responsável da sociedade do espectáculo, na tentativa de se tentar substituir à realidade, vindo a afastar-nos da vida e do conhecimento, produzindo um fechamento totalitário. A representação apenas é uma verdade quando não ”pretende remeter-se para si mesma (…) quando impossibilita a interpretação, mas se revela interpretável (…) O interpretável sem interpretação é, portanto a-intencional” (p.142), não resultando esta impossibilidade de uma intenção, como refere Vidal.

A arte enquanto acto de criação está para além da intenção do próprio autor, como já nos tinha alertado Duchamp2, do mercado da opinião ou do gosto, a arte liga-se à situação e ao acontecimento, ultrapassando aqui o ser, como algo que escapa ao conhecimento e à previsão, como já antes tínhamos referido, afirmando-se como potencial da situação e da verdade.

Vidal, partindo da ideia que a comunicação, fruto de um terreno performativo que denominaremos de “comunicacional”, é normativa e configurada, acto a que o poder e o estado não estão alheios, aceitando apenas o que se pode nomear ou integrar como linguagem, assume, aqui, uma clara opção de separação entre arte e linguagem. Chega-se, assim, à noção de que “a arte e o pensamento, nos seus termos, apenas operam com aquilo que a comunicação irá considerar inexistente”. Para Carlos Vidal, a arte “separa-se da comunicação sem a sabotar” (p. 26).

No entanto, convém referirmos desde já, como iremos demonstrar neste trabalho, não se trata de cruzar as incertezas da arte com as certezas da comunicação mas, como afirma Maria Lucília Marcos, de aceitar um convite de aproximação a “cruzar as incertezas da comunicação com as incertezas da arte” (Marcos, 2007b: 83). A comunicação também pressupõe e integra o incomunicável e o indizível, porque é sempre relacional e tensional. Do aspecto normativo, funcional e definitivo que se espera do “paradigma comunicacional”, haverá sempre um resto e incertezas que resultam dessa dimensão relacional. Esse resto inclui, em si mesmo, fenómenos de incomunicação, assumindo-se, ao mesmo tempo e paradoxalmente, como “condição de possibilidade da comunicação” (p.85).



4. DO ININTENCIONAL À DESCOMUNICAÇÃO

Com alguns projectos e trabalhos realizados em 1913, Marchel Duchamp não só antecipou um dos movimentos mais importantes do início do seculo XX – o movimento DADA (que teve início em 1916), mas introduziu novos “processos” de criação artística, reduzindo a obra de arte a objecto e a conceito. Estabelece a relação de objectos com a experiência da vida de todos os dias, a que chama de readymades3, os quais Duchamp reutiliza, através de uma escolha indiferente, conferindo-lhes a possibilidade de provocar uma experiência estética.

Para Kant, a pretensão do juízo de gosto à universalidade torna possível discutir o valor da obra de arte, desde logo criando um desejo de o comunicar aos outros como forma de obter deles uma aceitação do juízo estético realizado, indo ao encontro de um consenso. O que se pretende comunicar e encontrar neste consenso universal é o belo na arte, enquanto imitação da natureza, e não na própria natureza em si. A arte é bela, em Kant, quando não seja visível a intenção humana, ou seja, em que a obra de arte apresenta uma “espontaneidade inintencional”, parecendo “natural” (Gil, 2005:75). Na formulação de que “tudo pode ser arte” iniciada pelos readymades de Duchamp, a diferença entre um objecto que é arte e outro que é natureza, será apenas porque é exposto num certo local, como a galeria de arte, e é produzido um discurso crítico que, assim, o legitimam como tal. Colocando em causa não só a intencionalidade criativa do artista, como também o desejo de comunicação, de universalidade, não pretendendo já a adesão de todos, “mas de a afirmar como se ela se encontrasse realizada pela obra de arte, tal como se vê e expõe” (p.75).

Marchel Duchamp defende que o artista não controla o processo criativo, ele “vai da criação à realização, passando por um meandro de reacções totalmente subjectivas. A luta em direcção à realização é uma série de esforços, de angústias, de satisfações, de rejeições, de decisões que não podem nem devem ser tomadas conscientes pelo menos no plano estético. O resultado dessa luta é uma diferença entre a intenção e a realização, diferença da qual o artista não é de modo nenhum consciente” (Duchamp, 1957), afirmando mesmo não acreditar “na função criativa do artista…”. Afirma que o artista“…é um homem como qualquer outro. A sua ocupação é fazer certas coisas...”, acrescentando ironicamente que “…o homem de negócios também faz certas coisas…” (Duchamp, 1966 (2002: 22)). O espectador ao decifrar e interpretar a obra enriquece o acto criativo. O acto criativo adquire um outro aspecto, quando o espectador experiencia o fenómeno, a que Duchamp chama de transmutação. A obra de arte é um aparato de signos que só o observador pode por em movimento, portanto “é o espectador quem faz a obra”. O significado de uma obra de arte reside não na sua origem, mas na sua destinação.

Estes novos processos criativos passam por novos conceitos de criação artística, o acaso4, a escolha e a ironia criam novos efeitos e maior ambiguidade na arte, provocando desambientação, banalidade e casualidade. O readymade contribuiu para a “universalidade plural, ou seja, o isolamento da coexistência de todos os valores, agora sujeitos a «outras regras»”, iniciando o fim de “uma certa comunicação” e inaugurando uma «descomunicação» (Gil, 2005:72).

5. COMUNICAÇÃO SEM COMUNICAÇÃO

Quanto à problematização da relação entre arte e comunicação, propomos realizar uma breve abordagem ao pensamento e reflexão que Lyotard realizou sobre o tempo, lançando o desafio de dramatizar o tema da “Arte e Comunicação”. Lyotard inicia esta reflexão apresentando duas ideias, uma de Adorno, “nenhuma obra de arte deve ser descrita nem explicada sob as categorias da comunicação” e outra de Kant, em que o sentimento que a obra induz advém de “uma determinada representação, universalmente comunicável, sem a mediação de um conceito”, mais precisamente, a comunicação de um sentimento de pré-inteligibilidade, algo que se recebe naturalmente e, portanto, não – conceptual. Sem pretendermos entrar em toda a problemática apresentada por Lyotard, apenas salientamos, por um lado, a exigência cada vez maior na arte contemporânea de uma conceptualidade5, por outro lado, esta comunicação nada tem a ver com as teorias da comunicação e da informação, enquanto produto das novas tecnologias, que exigem uma pragmática e que é sempre uma comunicação conceptual.

Lyotard, quanto à questão da crise do espaço e do tempo sob o aspecto da comunicação, questiona se haverá apenas a perda de algo e se não teremos também algo a ganhar, ou seja, se as novas tecnologias não farão parte da promessa de uma emancipação, pelo desenraizamento. Quanto à oposição dos conceitos passivo-activo, pressupõe-se uma passibilidade6, e esta, “não é, de modo algum, o que está em causa na recepção das obras de arte”, mas o que é contrariado na problemática “da comunicação de hoje”(Lyotard, 1988(1990:121)), negando a possibilidade de pertença a uma comunidade sentimental imediata.

Atendendo a estes pressupostos, Lyotard avança com a dúvida se poderemos estar a falar de arte ao abandonar a noção de uma sentimentalidade comunicável imediatamente, exigida nas ideias de Kant para reconhecer uma obra de arte. O que “está em jogo, na recepção das obras, é o estatuto de uma comunidade sentimental, estética, muito «anterior» a qualquer comunidade e a qualquer pragmática” (p.115). São as modalidades de recepção que são aqui postas em causa, a questão é se poderemos, com as condições das novas tecnologias, manter a actualidade e a imediaticidade de um sentimento, que exige unanimidade no «aqui e agora», quando esta não incide sobre as formas de apresentação, mas sobre a modalidade da recepção. Benjamin negou o “aqui e agora”, quando pôs em causa as condições de recepção da arte na época da reprodutibilidade técnica, no inicio do século XX; também Lyotard problematiza agora a mesma questão, mas no que se refere à relação das novas tecnologias com a arte e com a experiência na actualidade. Este autor, levanta a questão de saber, com as novas tecnologias, quando referimos o “aqui e agora”, do que estaremos nós a falar e se poderemos continuar a falar deste conceito, ou se “poderá chegar algo através dele?” (p.122).



6. NOVAS CONDIÇÕES NA RECEPÇÃO DA ARTE

6.1. Novos media da percepção sensorial e de recepção

Segundo Benjamin, o modo de percepção sensorial alterou-se, como acontece em todas as épocas históricas. A recepção e a experiência, que os indivíduos estabelecem no acto de fruição da obra de arte, são organizadas de acordo com a época em que vivem. O domínio do objecto é, para Benjamin, uma necessidade das massas, “fazendo-o mais próximo da imagem, ou melhor, na cópia, na reprodução" (Benjamin, 1936 (1992: 81).



6.1.1. As formas modernas de expressão artística

Cabe à fotografia e ao cinema desempenhar a enorme ruptura criada pela reprodução técnica, apresentando-se estas, e, principalmente o cinema, como as formas modernas de expressão artística. À fotografia cabe o papel de ser a última trincheira do valor de culto (retrato), pelas suas características indiciárias e como registo de memória e recordação, ao cinema, como expressão artística, “estava reservado um sonho, que ... fosse em simultâneo poético e real!”7 (p. 89)..

Benjamin analisa o cinema, em comparação com o teatro, na relação que os actores estabelecem com o equipamento técnico e com público, refere que “a diferença entre autor e público está prestes a perder o seu carácter fundamental” (p. 97), e, ainda, que “...o equipamento penetrou de tal forma na realidade” que transformou a visão da realidade “numa miosótis no mundo da técnica” (p. 99). Com estas alterações, o actor, vive a experiência da substituição do carácter unitário da sua actuação, no teatro, pela pluralidade e repetições de cenas no cinema. No cinema a interacção inicial com o público é substituída pela interacção do autor com o equipamento e a representação é sujeita a uma série de testes ópticos. Tal como na arquitectura, também no cinema a recepção é colectiva, simultânea, distraída e táctil, ao contrário da pintura, coincidindo nestas “as atitudes criticas e de fruição do público” (p. 101).

O cinema em toda a amplitude da percepção óptica, e agora acústica, teve como consequência um aprofundamento semelhante da apercepção (p. 103). O que Benjamin pretende mostrar é que em todas estas alterações na percepção e no sentir, com a fotografia e o cinema, é o equipamento que aparece como médium prioritário. Ele capta o que o olho humano não capta, podendo, assim, assemelhar-se ao nosso inconsciente, criando uma nova forma de sentir artificial que muda a percepção da aproximação, do afastamento e consequentemente da realidade, a qual se torna geradora de ilusão e por isso hiper-naturalista.



6.1.2. O inconsciente óptico. O real e a imagem

A câmara leva-nos ao inconsciente óptico, tal como a psicanálise ao inconsciente das pulsões.” (p. 105). O cinema ao explodir o real, através de uma velocidade, fragmentação e sequencialidade, não acessível às percepções humanas, não impede que o possamos receber e aceitar como se de real se tratasse. Introduz-nos uma experiência que nos vai perturbar e que ao ser questionada pelos nossos sentidos, muitas vezes de forma inconsciente, vai influenciar o nosso real. Sempre que a estrutura do real é perturbada, vai sofrer um choque, e por isso ela tem de ser novamente reajustada e, assim, vai acontecer de forma repetida, com novos choques e, consecutivamente sendo reajustada, assumindo um papel revolucionário, pois faz surgir uma nova concepção desse mesmo real, mas eternamente revisitado.

A complexidade das novas formas de arte, com a imagem, ganha uma nova dimensão, e como exemplo Benjamin refere nas afirmações de Duhamel: ”Já não posso pensar. As imagens tomam o lugar do meu pensamento”. O real vai aparecer-nos de forma multifacetada e fragmentada, tal como no inconsciente. O cinema vai permitir que o virtual se realize, enquanto no real isso não lhe é permitido, ou seja que a imagem e o imaginário substituam o real.

6.1.3. Distracção, atenção e atitude crítica

Com as novas forma de percepção, o cinema, segundo Benjamin, estabelece uma relação com o público em dois planos distintos: numa atitude crítica e a recepção na diversão. Benjamin, refere que as tarefas apresentadas “ao aparelho de percepção humana… não podem ser resolvidas por meios apenas visuais, ou seja da contemplação. Elas só são dominadas gradualmente, pelo hábito, após a aproximação da recepção táctil” (p. 110). Tal como o conceito de inconsciente óptico também o conceito de distração no cinema, que é uma atitude de distracção mas de examinador, de alguém que conhece, de alguém que está permanentemente numa posição em que pode criticar.

Ao mesmo que se exige a atenção contemplativa, no momento da imersão, produz-se uma ansiedade que gera a necessidade de diversão, que aparece como exercício de corte e de reequilíbrio. A arte oferece distracção e é recebida na diversão, com uma desejada distorção que nos permite escapar à obrigatoriedade de sentido e não viver em tempo real. Como pode a arte ser assim recebida como diversão, sem, no entanto, se transformar numa diversão. A resposta possível a esta questão pode estar na “dialética da continuidade ou interrupção de ritmo”(Harold Osborne), exigidos pelos aspectos temporais dos recentes modos de utilizar o cinema e o vídeo nos espaços da arte.

6.2. Actualização dos regimes de recepção

Os novos caminhos abertos pelas artes, principalmente a partir das rupturas às vanguardas formalistas nas décadas de 60 e 70 do século XX, exigiram uma nova modelação dos regimes de recepção, introduzindo alterações nos factores tempo, espaço e atenção e, consequentemente, a uma nova sociabilidade e identificação na relação da arte com um público, ávido por estes novos meios colocados à disposição da criação e da fruição artística.

Benjamin em 1931, quando escreveu a “Pequena História da Fotografia”, já atribuía à fotografia como medium um passado com o “brilho das “cintalações” e um destino cheio de possibilidades. Agora é Rosalind Krauss que, por ocasião de uma exposição de fotografia de James Coleman, escreveu um texto em que chamava a atenção da emergência da fotografia. Se este medium conheceu a sua decadência, devido às suas cedências à mercadoria, dominada pelo kitsch, ela tornou-se fundamental para a arte conceptual pela sua fácil aderência ao visual e à sua especificidade como suporte híbrido, foi também importante para os cartazes da arte nova, assim como para aos artistas do pósmodernismo apropriacionista da década de oitenta do século XX. Mantendo sempre este seu hibridismo, na capacidade de se ligar com outros media, a fotografia é já justamente considerado num paradigma e não uma ferramenta (Krauss, 2003).

Os aparatos técnicos como o cinema e o vídeo introduziram a necessidade de uma nova reflexão sobre novos conceitos nas artes contemporâneas e com eles surge a expansão do tempo, o instante na recepção da obra é substituído pelo conceito de duração, numa sucessão de presentes. Embora não seja já o cinema o centro das transformações das novas formas do modo de percepção na arte, continua, no entanto, a ser pertinente chamar a atenção, como Benjamin o fez com bastante lucidez, para a importância da alteração do medium que continua a ser central nas artes.



6.3. O fim da obra e do sujeito singular

José Luís Brea apresenta-nos a ideia da necessidade de actualizar a noção de singularidade tanto na obra de arte, como no destinador ou espectador, como também a singularidade do espaço e do tempo nas artes, ou seja, o fim da arte como singularidade.

Se actualmente com a cultura de massas “desaparece” o sujeito, a quem se destinava a arte, na perspectiva de formação, enquanto experiência individual, então o que Brea questiona, é se devemos continuar a pensar a cultura como a mensagem, fruto da relação entre artista e receptor e dirigida às massas.

Brea alerta-nos para o surgimento de um novo ser-sujeito que é produzido, este já “colectivo, indiferenciado e multitudinário” e não “ancorado e inscrito no espaço da experiência individual” (Brea, 2003 (2007:115)).

A crescente influência dos acontecimentos culturais, enquanto práticas de produção simbólica, “produzem o seu sujeito, e não este que, precedendo-as, as produz (p.116). É o mercado, através da economia da arte, que suspendendo a transmissão, apropriação e a circulação do objecto-arte, principalmente pelas possibilidades de multiplicação na imagem digital, coloca em causa a mercadoria-arte como singularidade, cria uma nova economia e apropria-se da gestão cultural, produzindo acontecimentos culturais e precedendo a prática cultural do indivíduo, criando também o seu sujeito, ou seja, desenvolve a criação de uma verdadeira indústria da subjectividade.

Num registo diferente da “comunicação sem comunicação”, onde Lyotard questiona se com as novas condições de recepção se poderá manter a actualidade e imediaticidade de um sentimento, Brea refere que a emergência de um sujeito como multiplicidade implica que a recepção das práticas culturais se processe em modulações colectivas e simultâneas, sob a forma de uma comunidade de comunicação, idealmente apresentada como um encontro de “emissores-participantes, em que todos os intervenientes dos jogos de fala e enunciação o sejam em circunstâncias de verdadeira igualdade, sob as mesmas condições”. (p.118)

Mas como nos alerta Brea, este é ainda um espaço cheio de problemáticas, equívocos e incertezas que convém continuarmos a analisar e reflectir, sem negarmos a sua evidência.

6.4. Os media tecnológicos e a cultura moderna

Benjamin chama a atenção da primazia do valor expositivo da arte relativamente ao valor cultural e estético. Alterando profundamente a relação que a obra de arte estabelece com o público, desloca-se a centralidade da obra de arte, até então no objecto em si, transferindo actualmente esta para o seu carácter expositivo. O importante já não é os objectos artísticos, mas as relações que os mesmos estabelecem connosco. A técnica introduziu novos media na experiência, pôs em crise os processos de transmissão da posse, políticos e artísticos.

A obra de arte, ao deslocar-se a caminho dos indivíduos, aumenta o seu poder, tornando-se irrecusável, intrometendo-se quer na esfera da experiência individual, quer na própria vida colectiva, onde passa a ser vista como um medium de intervenção social. Os espaços de exposição e musealização da arte sobrepõem-se à produção e à criação.

Benjamin verifica que é o modo como as pessoas se juntam que leva a alterar a forma de percepção, que leva a existir uma cultura específica para aquele tipo muito próprio de sociabilidade. A função política da arte surge de uma arte com raízes na experiência concreta, numa praxis que remete para a vida, para o quotidiano.

Numa perspectiva diferente da de Baudelaire, que apresentava a arte como um confronto entre a “impermanência do presente e o peso da eternidade”, Benjamin coloca a obra de arte como um espaço onde o apelo ao pensamento moderno está sempre presente, no sentido em que além de provocar um desafio à convenção e ao valor do passado, estabelece uma ligação produtiva e permanente ao presente (Borradori, 2003: 137-138).

O aparecimento de novos meios e tecnologias de comunicação na actualidade, mais precisamente as tecnologias digitais audiovisuais, coloca de novo a questão da centralidade e da importância da alteração do medium nas artes, cujos contornos e importância na criação artística ainda não são bem visíveis, mesmo que não nos situemos ainda numa época pós-arte técnica, como alguns críticos ultimamente têm vindo a defender.



6.5. Pós-medium art

Sem pretendermos esgotar a possibilidade de continuar a reflectir sobre a problemática «arte e linguagem», a integração do conceito de media vem trazer um maior aprofundamento nessa discussão, quando falamos de arte e comunicação, possibilitando envolver os planos “da produção, dos suportes e materialidades“ (Cruz, 2006 (2007:143)). É à volta do conceito de media que se começa a designar não só as condições e os modos de recepção da arte, mas também a experiência a que as obras nos submetem, tendo ainda a particularidade de integrar na sua abordagem questões como «arte e técnica» e os estudos culturais.

A ideia de intervalo8 foi de grande importância para a introdução do conceito de intermédia no campo da arte e reflexão nos anos 60 sobre os novos media como os novos territórios que eles ocupavam nas artes. Foi a introdução de áreas extra-artísticas nos processos de produção e criação artística, principalmente as ligadas ás novas tecnologias9, que se tornou emergente a interligação de diversas manifestações artísticas como o teatro, a dança, a música, a fotografia, as artes plásticas, a literatura, o cinema e o vídeo interagindo numa única obra.

Inicialmente, no significado primordial do termo, temos que medium é a mediação; como Gadamer refere no seu texto “Cultura e Media”, ele não é apenas isso, mas também é elemento, como algo que está entre nós mas que nos transporta e que transporta também informação, permitindo o acesso imediato à realidade e à alteridade (Gadamer, 1989 (2007:35)). E mesmo quando Greenberg utilizou o termo medium na arte, não era já à representação que ele se referia, nem apenas à materialidade do objecto a que se destinava esta nomeação, mas sim à visibilidade, ou seja, a noção de médium referia-se à «pureza» como meio mas determinava, já na altura, uma estética e uma forma de arte muito específica que apontava para uma opticalidade tridimensional na pintura. No entanto, é quando no movimento fluxos com as instalações de Wolf Vostell, as experiências de video e esculturas ready-mades de televisores de Nam June Paik e as composições musicais de John Cage entre muitos outros artistas que se apresenta o conceito de intermédia, onde a mediação na arte se começa a complexificar e a assumir o seu carácter híbrido até ao aparecimento da chamada era dos pós-media.

Pretendia-se ultrapassar as limitações que a autonomia da arte impunha. Assistimos a diversas tentativas de ultrapassar os media tradicionais, inicialmente no dadaismo com uma enorme liberdade criativa, mas foi nos anos sessenta que as áreas extra-artísticas se introduziram na arte de forma mais visível. Esta interligação de media diferentes deu origem a manifestações artísticas como o happening, a performance e a instalação.

Com a negação da «pureza» na arte e exclusividade na natureza dos seus meios surge a condição de post-medium. Assume-se na crítica ao modernismo e às suas categorias. É na sua condição de se afirmar impura e híbrida, sem se fechar em categorias, que começou por ser assumida como uma arte que não se encaixava nos cânones estabelecidos nem pela história da arte nem pelos dogmatismos que ainda eram aceites na crítica ou nos espaços de legitimação, das galerias e museus. Esta condição foi categorizada pela ensaísta americana Rosalind Krauss e, segundo a mesma autora, é na complexidade e nas possibilidades que as novas tecnologias se apresentam, colocando as velhas técnicas como obsoletas. O que se instala actualmente como fenómeno artístico não é já a mediação objectual mas um campo de possibilidades onde, segundo Lhuman, acontece a emergência da forma. Quando falamos de arte já não se trata apenas de falarmos do objecto artístico mas das relações que se estabelecem.

Nas tendências artísticas mais emergentes, não se trata de prescindir da mediação, pois que a arte não se pode libertar da sua manifestação. Como acontece também com a representação, a mediação não deixa de emergir embora, por vezes, apareçam como “corpos estranhos ao pleno exercício da criatividade estética”. A recusa na arte contemporânea do aparecer da instância mediadora, fazendo referência à obra de Nan-Goldin, pode teoricamente colocar a arte como algo que é apêndice do «vivido», a que Vidal chama de “ostentação da pobreza” (Carlos Vidal, 1997: 84).

A «new media art» afirmou-se no inicio da década de 90 do século XX, com raízes estéticas no Dadaísmo e na Pop Art, assumindo-se como herdeira das práticas criativas destes movimentos. As novas estratégias que agora vêm sendo assumidas na arte digital caracterizam-se pelo uso das novas tecnologias emergentes e, ao mesmo tempo, têm como preocupação explorar “as possibilidades estéticas, culturais e politicas dessas ferramentas” (Tribe/Jana, 2007:6). A apropriação de imagens, sons, textos e toda a informação disponível na internet é também uma das práticas a que recorrem estes artistas, assim como a colaboração de vários programadores ou outros técnicos e artistas das várias áreas, integrando nos seus projectos equipas de elevado nível de especialização.

Nos novos media, a convergência de todos os meios num só dispositivo, o computador, vai de certa forma tornando-se opaco, ou seja, vai “escondendo… a sua própria aparência”. Para Maria Teresa Cruz, pode ser a eminência de uma nova experiência que produz uma nova estética. É que sendo os media, antes de mais, aquilo que nos possibilita a experiência, quando se fala actualmente de «new media art» teremos como dimensão estética o “«out-put de um algoritmo» e o computador um médium particularmente apto a produzir a fenomenalidade e a experiência sensível” (Cruz, 2006 (2007:148).

Num convite sistemático à imersão virtual, os novos meios de percepção da actualidade alteraram e exigem de nós uma nova relação com o mundo e consequentemente uma nova teoria das formas de percepção, ultrapassando em muitas das pretensões actuais o “estreito segmento da arte”. Os limites são ainda a distinção, como nos alerta Sell, entre “a possível «acessibilidade» de espaços virtuais e a possível «utilização artística» destes mundos” (Sell, 1993: 64-65).

Francisco Palma 2008

BIBLIOGRAFIA

BENJAMIN, Walter, Das kunstwerk im Zeitalter seiner technischen Reproduzierbarkeit, 1936-39 (Edição Portuguesa: A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica, in Sobre Arte, Técnica, Linguagem e Política, Relógio D’Água, Lisboa, 1992).


BORADORI, Giovanna, Philosophy in Time of Terror, University of Chicago, 2003 (Edição Portuguesa: Filosofia em tempo de terror, Lisboa, Campo das Letras Editores, 2004).
BREA, José Luís, A obra de arte e o fim da era do singular, originalmente apresentado como conferência no M.N.A. Reina Sofia em Madrid (2003), in RCL “Arte e Comunicação” Nº37, Lisboa Relógio D´Água, 2007.
CRUZ, Maria Teresa, Arte e Media (2006), RCL “Arte e Comunicação” Nº37, Lisboa Relógio D´Água, 2007.
DIAS, Sousa,“Lógica do Acontecimento-Deleuze e a Filosofia”, Lisboa, Edições Afrontamento, 1995.

DUCHAMP, Marcel, Ingénieur du temps perdu, 1966, (Edição Portuguesa: Engenheiro do tempo perdido-entrevistas com Pierre Cabanne, Lisboa, Assírio & Alvim, 2002).


ECO, Umberto, Apocalittici E Integrati, Milano, Bompiani,1964 (Edição Portuguesa: Apocalípticos e integrados, Lisboa, Difel, 1991).
FERIN, Isabel, Comunicação e Culturas do Quotidiano, Lisboa, Quimera Editores, 2002.
GADAMER, Hans Georg, Cultura e Média, Lisboa, Ed.CECL/FCSH-UNL, Catálogo Inter@ctividades, 1997.
GIL, José, “Sem Titulo” Escritos sobre arte e artistas, Lisboa, Relógio D´Água Editores, 2005.
HEIDEGGER, Martin, Der Ursprung dês Kunstwerks(1936), Frankfurt, 1977 (Edição Portuguesa: A origem da obra de arte, trad. de Maria da Conceição Costa, Lisboa, Edições 70, 2004.
KRAUSS, Rosalind, Reinventar o Medium, in Fotografia na Arte (Editado por Ricardo Nicolau), Fundação Serralves, 2006 (texto original: James Coleman, October Files 5, MIT Press, Massachusetts, 2003).
LYOTARD, Jean-François, L´inhumain, causeries sur le temps, Paris, Ed. Galilée, 1988 (Edição Portuguesa: O Inumano, considerações sobre o tempo. Lisboa, Editorial Estampa, 1990).

MARCOS, Maria Lucília, Sujeito e Comunicação-Perspectiva tensional da alteridade, Lisboa, Campo das Letras, 2001.


MARCOS, Maria Lucília, O rosto e o Resto, RCL “Arte e Comunicação” Nº33, Lisboa Relógio D´Água, 2004.
MARCOS, Maria Lucília, As Incertezas da Comunicação e as Incertezas da Arte, RCL “Arte e Comunicação” Nº37, Lisboa Relógio D´Água, 2007b.
MATTELART, Armand, e Michèle Mattelart (1997). História das teorias da comunicação. Porto: Campo das Letras (original de 1995)
PETERS, John Durham, Speaking Into The Air, Chicago, The University of Chicago Press, 1999.
SEEL, Martin, Antes da aparência, vem o aparecer (1993), Lisboa, Ed.CECL/FCSH-UNL, Catálogo Inter@ctividades, 1997.
TRIBE, Mark/ JANA, Reena, New Media Art, Taschen, 2007.
VATTIMO, Gianni, La Societá Transparente, Garzanti Editore, 1989 (Edição Portuguesa: A Sociedade Transparente, trad. Hoissein Shooja e Isabel Santos, Lisboa, Relógio d´Água, 1992.
VIDAL, Carlos, Sombras Irredutíveis, Arte Amor, Ciência e política em Alain Badiou, Lisboa , Edições Vendaval, 2005.
VIDAL, Carlos, A imobilidade da arte ou da pobreza à ostentação da pobreza, Lisboa, Ed.CECL/FCSH-UNL, Catálogo Inter@ctividades, 1997.
WALTER-BENSE, Allgemeine Zeichenlehre, 1974 (Edição Portuguesa: A Teoria Geral dos Signos, São Paulo, Editora Perpectiva, 2000).

1 Alguns dos contributos deixados pelos teóricos dos Cultural Studies, onde se destacou Stuart Hall com o seu texto «Encoding/Decoding»(1974)

2 “No acto criativo, o artista vai da intenção à realização através de uma cadeia de reacções totalmente subjectivas. A sua luta no sentido da realização consiste numa série de esforços, dores, satisfações, recusas, decisões, que também não podem, e não devem, ser completamente conscientes, pelo menos no plano estético” (Duchamp, 1957).




3 José A. Bragança de Miranda, O design como problema, “…a estratégia de Duchamp acerca do ready-made… Duchamp faz circular uma… forma de ligação, a da vida na sua totalidade. Esta é a razão porque, para ele, «Eros c’est la vie». A arte… permite o «maravilhamento» da vida, sem a chegar a tocar”. http://www.interact.com.pt/interact10/ensaio/ensaio3.html.

4 O maior expoente da utilização deste processo de criação foi Hans Arp, com uma obra datada de 1916 e chamada de ”Colagem de recortes dispostos segundo a lei do acaso”, in História de Arte Contemporânea, Renato deFusco, Estampa, 1983, p.304.

5 Conceito, que sendo território privilegiado da filosofia, está para a arte contemporânea, tal como a criação está para o pensamento, não sendo a filosofia apenas contemplação, reflexão ou comunicação mas fundamentalmente pensamento como criação, apresentando Deleuze que é uma necessidade de toda a criação filosófica ou não filosófica, de intersectar e ser intersectada, (…) é ao nível da interferência de muitas práticas que as coisas se fazem, os seres, as imagens, os conceitos, todos os géneros de acontecimentos (), Deleuze, L´Image-Temps, Ed.de Minuit, 1969 (Dias,1995:27).

6 …”a passividade opõe-se à actividade, a passibilidade não” (Lyotard,1988(1990:121)).

7 Frase que W.benjamin atribuí a Séverine- Mars.

8 A ideia de intervalo nas artes foi inicialmente apresentada por Dick Higgins. A reflexão sobre este conceito desenvolveu-se no interior das investigações do grupo fluxus, propondo o conceito de intermédia em substituição de mix-média. Com este novo conceito propunha-se chamar a atenção da fusão entre os diversos media, sendo tal que não seriam reconhecidos cada um deles. “Higgins estaba interesado sobre todo en cómo el happening es un espacio no definido que existe entre el collage, la música y el teatro” (Andrea Marichal, acedido em 15 de Junho de 2008 em: http://www.artesonoro.net/artesonoroglobal/Sinestesia.html ).

9 Tendo aqui uma grande importância as teorias de Marshall McLuhan sobre a importância dos diversos media tecnológicos como extensão das possibilidades do homem.






©livred.info 2017
enviar mensagem

    Página principal