Discurso de posse



Baixar 52,02 Kb.
Encontro07.11.2018
Tamanho52,02 Kb.



DISCURSO DE POSSE
Após ser saudado pelo acadêmico Genival Veloso de França, o médico João Modesto Filho realizou o seguinte pronunciamento:
Exmo. Sr. Professor João Cavalcanti de Albuquerque

Mui Digno Presidente da Academia Paraibana de Medicina
Acadêmicos e Acadêmicas,
Senhoras e Senhores familiares do Professor Maurílio Augusto de Almeida, meu antecessor na cadeira de n. 33 desta Academia, e os parentes do Professor Oscar de Oliveira Castro, patrono desta cadeira.
Autoridades presentes e representadas,
Meus caros familiares, - aqui abro espaço para uma homenagem especial aos meus pais – João Modesto da Silva e Celina Lins Modesto -, exemplos de serenidade, honradez, trabalho e devoção à família e aos filhos; a minha esposa, Fátima; aos meus filhos Vanina, Thiago e Catharina e ao meu neto Paulo.
Meus Senhores, minhas Senhoras, caros amigos,
Venho aqui hoje para vivenciar um dos meus mais esperados sonhos: a solenidade de posse como membro da Academia Paraibana de Medicina. Sinto-me extremamente honrado em poder pertencer a esta entidade, figurando como um dos seus mais humildes membros. Seus componentes são exemplos de pessoas que pela experiência que adquiriram das coisas da vida exprimem entre outros predicados os de maturidade, dignidade, vanguarda, respeitabilidade, sabedoria e consciência no discernimento das decisões.
Sou profundamente grato a todas essas fortalezas intelectuais, realçando os nomes do atual Presidente e o do seu antecessor, os Profs. João Cavalcanti de Albuquerque e Jacinto Gonçalves Londres de Medeiros, pelo apoio, incentivo e compreensão que sempre tiveram para comigo. Voltando um pouco no tempo, presidia o Conselho Regional de Medicina do Estado da Paraíba quando fui aceito como futuro membro desta casa e, naquela época, discutíamos no CRM da possibilidade de adquirirmos uma nova sede que correspondesse às expectativas e necessidades dos tempos vindouros.
Apresentada a idéia na Plenária do Conselho de Medicina, esta foi aprovada por unanimidade pelo corpo de conselheiros e, em seguida, teve o aval indispensável do Presidente do Conselho Federal de Medicina – Dr. Edson de Oliveira Andrade - e do incansável batalhador das causas da Paraíba, o Conselheiro Federal – Prof. Genário Alves Barbosa. É imperativo salientar a equipe que foi decisiva para adquirir este vistoso prédio e iniciar a sua reforma e construção: Dalvélio Madruga, Francisco Vieira, Norberto da Silva Neto, João Medeiros, Mario Toscano, Manoel Nogueira, Fernando Serrano, Paulo Roberto, Manoel Jaime, Roberto Morais João Alberto Pessoa e Marcelo Queiroga. Dr. Marcelo, como secretario do CRM, foi figura das mais significativas para a escolha do local e o inicio das obras. Saliente-se a notável conclusão da sede através do dinamismo do nosso Presidente Dalvelio Madruga.
Por tudo isso, pedi aos Profs. João Cavalcanti e Jacinto Londres para que compreendessem a solicitação de um sonhador: que a posse fosse na futura sede do CRM, logo após a sua inauguração, mesmo porque existe a real possibilidade de termos aqui o “Memorial da Medicina Paraibana”, gerenciado pela própria Academia. Tive a alegria e o privilegio de contar com a compreensão de ambos. E hoje aqui estou com uma felicidade incomensurável. No intervalo de tempo decorrido entre a aceitação do meu nome e esta solenidade, tive a oportunidade de assistir a algumas posses, dentre as quais a do meu irmão – Ivan Lins Modesto – figura que me serviu de exemplo desde cedo para trilhar os passos desse verdadeiro sacerdócio que é a medicina, ao lado da minha mãe – Celina –a qual já era um exemplo de como se deve cuidar do ser humano que, como parteira, foi responsável pela vinda ao mundo de incontáveis crianças.
E esse dia finalmente chegou e aqui tenho que agradecer a muitos, como a meus pais, que já diziam na sabedoria das pessoas simples e determinadas: “tudo será feito para que vocês, meus filhos, tenham a condição de andar de cabeças erguidas”, e foram radicais no quesito educação, nos oferecendo o que fosse de melhor, dentro das possibilidades vigentes.
No meu ponto de vista, somos oito descendentes que procuraram corresponder aos anseios paternos e, dos meus irmãos e irmãs, posso dizer que sempre recebi, carinho, amor, compreensão e incentivo.
Mas a busca de realizações requer complementações, requer ambiente apropriado e, nesse aspecto, fui sorteado. Casei-me com Maria de Fátima Magliano Carneiro da Cunha, verdadeiro farol para todas as horas, calmarias ou tempestades. Sem o seu apoio, dedicação, incentivo, desenvoltura, desempenho e organização tudo seria, caso se concretizasse, muito mais difícil; e três maravilhosos filhos, Vanina, advogada, casada com o nosso caro genro, engenheiro Paulo Antonio, que nos presentearam com o amado neto Paulo, recebedor dos cuidados humanos e médicos do amigo fraterno João Medeiros; Thiago, médico, em fase de conclusão de Residência Médica em Imagem, em São Paulo, casado com a querida nora Anne Karinne, advogada, e a caçula Catharina, dentro de pouco tempo a primeira fonoaudióloga dos Modesto e dos Carneiro da Cunha, me sinto completo e realizado.
Caros Acadêmicos e Acadêmicas,

Meus amigos e amigas,
Quando se chega na idade em que estou, tem-se a convicção de que muitas pessoas participaram de alguma forma da nossa formação. Alem da família, amigos e colegas de bancos escolares, de faculdades, de viagens, de estudos, de lazeres e nesse particular, aqui nesta sede, local de carnavais memoráveis, lembro da alegria no compartilhamento de festas com tantos amigos, alguns aqui presentes e outros que já se foram.

No ambiente profissional, foram principalmente três as frentes de atuação: Universidade, Entidades Médicas e Clínica Privada.

A Universidade, como um local de busca e transmissão de conhecimentos, onde provavelmente mais aprendi, embora tenha feito tudo para transmitir o pouco que sabia, e onde me sentia quase que realizado; as entidades médicas, presidindo o Conselho Regional de Medicina e a Associação Médica da Paraíba e, presentemente, na Diretoria Financeira da UNIMED-João Pessoa, na companhia do Presidente – Dr. Aucélio Gusmão e da Diretora Superintendente – Dra. Tânia Escorel.

Mas dentre tantos nomes, existe um que tem significado especial. Foi o responsável pela minha entrada no âmbito da política médica, numa fase em que minhas atividades profissionais eram direcionadas aos trabalhos acadêmicos e ao consultório, que dividia com Dr. Cassildo Pinto, companheiro, junto com Dr. Methodio Pereira Diniz, do curso médico e da pós-graduação em São Paulo. Naquela época, 1983, já fervilhava o ambiente das mudanças no país e fui convidado para fazer parte de uma chapa que concorreria às eleições do CRM. Esse convite foi feito pelo Professor Genival Veloso de França, não sem razão, o responsável pela saudação à minha pessoa nesta noite.
De inicio relutei, acedendo depois, desde que fosse na qualidade de suplente, apresentando as desculpas de sempre: não entendia de conselho, não tinha tempo, existiam pessoas mais capacitadas, etc. Mas Genival, com aquele seu jeito peculiar me convenceu que deveria ser titular, elencando uma serie de razões.
Vencida as eleições mais uma vez chega Genival e faz uma sondagem para eu assumir o cargo de Tesoureiro. Respondi que não tinha a mínima possibilidade, pois viria dificultar em muito meus afazeres. E Genival: “mas você só precisa passar aqui uma ou outra hora para ver como estão as coisas, bater um papo com os amigos, conferir algumas contas e ver se tem algum cheque para assinar”. O tal do convencimento mais uma vez venceu. Fui tesoureiro do CRM na gestão 1983-1988.
Já perto do final do mandato, Genival disse-me que deveria encabeçar a próxima chapa e que começasse a escolher nomes para a futura composição do conselho; claro que ele estaria pronto para ajudar. Uma pequena equipe sugeriu vários nomes, dos quais muitos se encontram aqui hoje e, devido ao trabalho desenvolvido na gestão anterior, não tivemos concorrentes. Àquela altura já tinha conhecimento suficiente da filosofia e da política do conselho e das verdadeiras atribuições conselhais.
Meus Senhores, Minhas Senhoras,
Perdoem-me por esta breve memória pessoal, mas tudo isso representou uma importante etapa na minha vida com dupla missão profissional: eleito Chefe do Departamento de Medicina Interna, substituindo o Prof. e Acadêmico José Eymard Moraes de Medeiros, e eleito Presidente do Conselho Regional de Medicina, sucedendo ao próprio Genival Veloso de França, e uma tripla preocupação: atuação na formação dos futuros médicos, atuação nas políticas das entidades médicas e atuação na luta por melhorias nas condições de saúde da população, alem dos trabalhos profissionais no consultório e, mais tarde, na Diagnostica, na companhia de Saulo Londres e Manoel Jaime.
Na Universidade, o trabalho desenvolvido trouxe grandes alegrias, mas também tinha suas limitações. Com o passar do tempo, e me dedicando ao ensino, pesquisa e extensão, sentia que o sistema dominante vinha abandonando a Universidade como ambiente de formação de profissionais competentes para servir a comunidade; mostrando o esquecimento e o descaso do Governo da relevância que tem o preparo de uma elite intelectual de um país na condução do seu destino e na solução dos seus problemas. A Universidade foi relegada, preterida a um plano não prioritário, com o Governo anestesiando o ensino e a pesquisa.
Mas, ao lado disso, a ciência continuava com suas conquistas. Segundo pensadores contemporâneos, três fatos são marcantes na historia recente da ciência e da tecnologia: a chegada do homem a lua, o computador e o projeto genoma humano. Este último trazendo uma verdadeira revolução na medicina. Uma das grandes aplicações da descoberta do genoma será a possibilidade de se ter medicamentos conforme nosso código genético. Isso será possível porque, sabendo-se onde se localiza e para que serve cada gen, poderão ser desenvolvidos drogas e tratamentos personalizados para as doenças.
Nesse sentido, o desenvolvimento e a implantação da medicina personalizada significará conhecer a correlação entre as doenças e a informação contida nos genes de cada pessoa, o que permitirá aos médicos prescrever o medicamento e as doses adequadas para cada paciente. Presume-se que uma das doenças que será significativamente afetada pela medicina personalizada será o câncer e, num maior prazo, uma gama de áreas terapêuticas como diabetes, doenças cardiovasculares (hipertensão), psiquiátricas (esquizofrenia e depressão) e aquelas relacionadas ao sistema nervoso central e periférico (Alzheimer e Parkinson). Uma das conseqüências da aplicação da medicina personalizada será o aumento da expectativa de vida e o conseqüente maior envelhecimento da população.
Os laboratórios farmacêuticos começaram a testar as primeiras drogas experimentais desenvolvidas a partir da genética e difundem a idéia de que será possível curar algumas doenças a nível molecular, mesmo antes que se desenvolvam. A medicina genética foi utilizada pela primeira vez em 1990 para curar uma menina que sofria de deficiência no sistema imunológico, pois herdara, tanto do pai quanto da mãe, variantes defeituosas do gene que sintetiza uma proteína denominada ADA. A deficiência dessa proteína é um dos distúrbios de um único gene, ou seja, o defeito que envolve um só gene e, portanto, mais facilmente tratada. No entanto, muitas doenças como o diabetes e a obesidade são determinadas por múltiplos genes, daí a necessidade de estudos mais aprofundados e mais tempo de pesquisa.

Temos que nos inserir nesse contexto e para que possamos avançar, necessitamos repensar nossas instituições de ensino, pesquisa e extensão. A ciência pergunta; a investigação procura responder. Por isso, é preciso exigir que se devolva a Universidade, como dizia Ortega e Gasset: “sua missão histórica de ilustrar, iluminar o homem, de ensinar-lhe a plena cultura de sua época, de descobrir-lhe com clareza e precisão o mundo no qual ele tem que se inserir como individuo, a fim de que sua vida se torne autentica”.
Meus Senhores e minhas Senhoras,

Caros Acadêmicos e Acadêmicas,
Atuação nas políticas das entidades médicas: à medida que surgiam fatos, tomada de decisões e enfrentamentos, ficava mais claro que os médicos não podiam ficar alheios ao que se passava a sua volta e deveriam se manifestar sobre o que ocorria na sociedade. Genival já ensinava que todo ato médico é um ato de justiça social, portanto um ato político, e que toda doença tem como origem ou conseqüência um fato social. Afinal, como dizia meu colega pernambucano Ney Cavalcanti, entravamos no novo milênio e velhos e novos desafios estavam presentes, pois ser médico, no seu sentido mais amplo, em um país ainda socialmente pobre e principalmente injusto requer, não somente o exercício da atividade profissional, mas também a ação como cidadão. E, como cidadão, se é obrigado a lutar particularmente contra a enorme injustiça que a sociedade brasileira pratica com uma grande parcela da população, com os mais pobres.
A melhoria econômica que o país experimentou nos anos recentes praticamente não chegou até eles. A maneira perversa como o Brasil trata os seus pobres é secular, persistente e até imutável porque não temos sido capazes de modificá-la. A discriminação contra o pobre é ainda maior do que a racial.
É exatamente nesse cenário que está inserida a categoria médica. Nesse sentido, a Academia Paraibana de Medicina sempre me chamou a atenção porque, alem da sua vocação fundamental de extravasar os sentimentos da alma através da literatura e das reuniões técnico-ético-cientifícas, tem procurado se unir as demais entidades médicas a fim de lutar pela dignidade da profissão. Afinal, é lamentável que o profissional médico, na sua grande maioria, venha sendo submetido, por um lado, a um processo de dependência de empresas prestadoras de serviços, muitas das quais mercantilistas e que visam exclusivamente o lucro. Alias, nunca é demais lembrar que ética e lucro há muito se estranham. De outro lado, o médico se submete a multi-empregos onde o principal patrão é o governo, formando um modelo onde o resultado é o aviltamento salarial, tirando do médico a condição de profissional liberal levando-o a um acentuado desgaste físico e mental.
Tudo isso determina um sentimento negativista em relação ao futuro, o descontentamento e a falta de perspectiva para um melhor desempenho do seu mister. Observa-se que a remuneração médica é sabidamente insuficiente para uma existência segura e digna e esse rendimento fica ainda mais desproporcional quando comparado com aquilo que o médico tem de mais nobre: promover e recuperar a saúde.
Por conta desse cenário, surgiu o cooperativismo médico, que entendo como um fator de integração e solidariedade. O surgimento e o desenvolvimento das cooperativas médicas, embora necessitando de definições setoriais que podem ser obtidas através de discussões e ajustes, tem sido um dos modelos criados pela categoria para combater as afrontas a nossa dignidade e, quando bem orientadas (união dos cooperados, metas bem definidas e de interesse geral) se tornam uma das grandes armas na defesa dos nossos princípios.
Na questão exclusiva da saúde e da medicina, segundo Hipocrates, o pai da nossa profissão, a medicina é a arte de curar. Entretanto esse enfoque parece estar algo superado, pois, hoje a medicina é a arte de ajudar o paciente a viver bem e morrer com dignidade. A morte também tem a sua dignidade, e esse é um aspecto ético prejudicado às vezes pelo ceticissmo exagerado, visto apenas sob a ótica do desenvolvimento tecnológico. Mas, biologicamente, a morte é inexorável, definitiva, a ultima fragilidade humana.
Nesse contexto, é o médico o grande responsável pelo diagnostico correto e pela instituição da terapêutica adequada, sabendo como estabelecer um plano de investigação através de exames complementares. Apesar disso, é quase sempre o menos reconhecido e ainda pode sofrer o desfecho de um resultado insatisfatório, mesmo que não tenha culpa ou que tal desfecho independa da sua vontade.
Nós, médicos, juntos na Academia e nas demais entidades médicas, temos que lutar contra as distorções, revigorando a relação médico-paciente, o respeito mútuo, compreensão, humanismo, solidariedade e conhecimento cientifico. Temos que superar divergências, respeitar o pluralismo das idéias, diversidade de opiniões, discutindo, todos juntos, qualquer tema. Temos que defender a dignidade da profissão, resgatando o papel social que dela se espera, o que só pode ocorrer mediante uma maior autonomia, tanto econômica como política e gerencial, ou seja, mediante o fortalecimento do caráter profissional e dos aspectos exclusivos e específicos da profissão médica.
Temos que ter sempre em mente que saúde não é apenas ausência de doença; seu conceito é bem mais amplo e muitos dos seus problemas podem ser minorados através de distribuição de renda mais eqüitativa, combate ao analfabetismo e a fome, tudo isso pelo ideal de uma sociedade mais justa e igualitária. O médico sabe como poucos o real valor da saúde e entende que ela somente se completa em um contexto onde educação, moradia, saneamento e segurança devam ser garantidos.
Esses princípios levei comigo ao assumir a Presidência da Associação Médica da Paraíba, sucedendo aos briosos Drs. Mario Uchoa e Paulo Sergio Toscano, que inseriram uma nova filosofia naquela entidade, e antecedendo ao dinâmico e incansável Acadêmico Wilberto Trigueiro, grande responsável pela atual sede da AMPB.
Mas apesar de todos os fatos há pouco descritos e que dificultam nossa ação, mesmo atingidos pelas grandes dificuldades pelas quais passa a saúde no Brasil, entre elas as decorrentes da ausência de uma política pública de recursos humanos que reconheça a importância do trabalho médico, nós trabalhamos bem. Isso ficou claramente demonstrado em pesquisa espontânea realizada por instituto de opinião pública, que provou que a categoria médica é a que possui o maior índice de confiança da população, em um universo em que foi avaliada a confiança dos brasileiros em relação a 18 categorias.
Um outro exemplo relativo a nossa profissão vem de Ontário, no Canadá. O Dr. Daren Heykand acompanhou pacientes idosos e que eram portadores de doenças cardíacas, pulmonares e hepáticas em fase terminal. Estudou as necessidades e desejos deste problema secular que é o final da vida. Segundo a pesquisa, a primeira necessidade deles foi a de ter confiança no seu médico. Outras prioridades foram: não ser mantido vivo de forma artificial quando não houvesse esperança de melhora significativa; que o médico comunicasse honestamente as informações sobre o estado de saúde; ter tempo de colocar seus afazeres e responsabilidades em ordem, de resolver possíveis conflitos e de poder dar adeus a sua família e seus amigos; não ser um fardo físico ou emotivo para seus próximos.
Por seu turno, a Associação Médica Mundial, que promove a excelência em medicina e os valores básicos da profissão, humanismo, ciência e ética, editou há pouco tempo um livro “Médicos Dedicados do Mundo”, com os perfis humano e profissional de 65 médicos de 58 países. Esses médicos foram eleitos por colegas de 84 Associações Médicas Nacionais.
Exemplos de médicos dedicados: John Awoonor-Williams trabalha numa das zonas mais pobres do mundo, no norte de Ghana. É o único médico para 187.000 habitantes, em área sem telefone, água corrente, rádio ou televisão, e até há cinco anos, sem eletricidade. Suas condições profissionais são obviamente bem distintas das de outros lugares.
Outros eleitos: o venezuelano Jacinto Convit, que ajudou a erradicar a lepra; o chinês Nanshan Zhong, que alcançou notoriedade mundial por seus trabalhos na recente epidemia da Síndrome Respiratória Aguda Severa; o britânico Richard Doll, há pouco falecido, que relacionou há 50 anos o tabagismo com câncer de pulmão; o espanhol Pedro Alonso, pelos recentes êxitos no desenvolvimento de uma vacina eficaz contra a malária; o panamenho Luis Picard-Ami, preocupado com que a medicina não se transforme numa grande industria; e o brasileiro Adib Jatene, afirmando que a medicina é uma profissão que existe para ajudar a quem sofre e não para ajudar as pessoas exclusivamente a ganhar dinheiro.
Por todas essas coisas, observa-se que as faces da medicina são inúmeras, isso porque os sistemas sanitários, os riscos para a saúde, o nível de vida e muitos outros fatores determinam uma grande variedade nas condições de trabalho dos médicos ao redor do mundo. O que os une é a dedicação e o cuidado para com os pacientes, daí o respeito e carinho que recebem de todos eles.
Nos rejubilamos porque, afinal, uma das coisas mais importantes para qualquer profissional é o reconhecimento do seu trabalho e importância na sociedade. Por isso, concordamos com o Presidente do Conselho Federal de Medicina quando diz: “Ser médico é sofrido, porem belo. É difícil, mas necessário. É, enfim, tarefa para seres humanos especiais”.
Mostrado esses meus pontos de vista, retorno ao grande motivo dessa noite. Pedi que aceitassem minha companhia nessa Casa e fui agraciado. Aqui é o lugar que representa as virtudes do passado ao tempo em que é portador do futuro, sendo o espelho do que dizia o poeta Eliot: “o tempo presente e o tempo passado estão ambos talvez contidos no tempo futuro, e o tempo futuro contido no tempo passado”.
Essa cadeira de número 33 tem como patrono o Professor Oscar de Oliveira Castro e, o primeiro ocupante, o Professor Maurílio Augusto de Almeida, ficando vaga quando do seu falecimento. Chamo a atenção para um fato singular e de uma excepcionalidade marcante: a chama intelectual que a cidade de Bananeiras irradia para a cultura paraibana. Ambos os ilustres ocupantes dessa cadeira nasceram nesta cidade.
Meus Senhores, Minhas Senhoras,
O Patrono da Cadeira 33, Professor Oscar de Oliveira Castro, conforme mencionado, nasceu em Bananeiras, iniciou seus estudos naquela cidade, cursando o secundário no Colégio Pio X, aqui em João Pessoa. Seguiu para o Rio de Janeiro onde, em 1923, recebeu o diploma de médico, pela então Faculdade de Medicina da Universidade do Brasil. Apesar dos inúmeros convites para lá iniciar sua carreira profissional, retornou a João Pessoa, cidade que amava e de onde recebeu o “Título de Cidadão Pessoense”.
Durante 24 anos foi Diretor da Assistência Municipal, atuou em consultório como pediatra e exerceu inúmeros cargos públicos estadual e municipal.
Foi fundador da Escola Médica da Universidade da Paraíba e ainda lecionou nos cursos de Direito e Filosofia. Aos poucos, começou a destacar-se como professor de Medicina Legal e com isso afastava-se da Pediatria. Atuou ainda como professor em cursos secundários no Colégio Pio X, Liceu Paraibano e Colégio Nossa Senhora das Neves.
Desenvolveu intensa produção intelectual que publicou em jornais e livros. Escrevia particularmente sobre Ciências, Historia e Literatura. Foi Presidente da Academia Paraibana de Letras, como substituto de Coriolano de Medeiros que, aliás, prefaciou o seu livro “Medicina da Paraíba – Flagrantes da sua evolução”. Coroliolano escrevia que “O passado atrai e fascina” e que Oscar de Castro é “um dos mais destacados vultos do corpo médico paraibano. Vive para a profissão, para a família, para os amigos, para servir a sua pátria”. Já a acadêmica Adylla Rocha Rabello, da Academia Paraibana de Letras, incentivadora e que se interessou permanentemente por este meu trabalho, descrevia Oscar de Castro como o homem “com o sorriso franco que nunca lhe fugia dos lábios: um grande homem”.
Do meu antecessor, Prof. Maurílio de Almeida muito já se escreveu: elegante, sóbrio, educado, culto, vivaz, discreto, polido, modelar, distinto, sereno, leal, fraterno e amigo. Apesar de todos esses predicados, que todos os que conviveram com ele sabe serem verdadeiros, o perfil continua incompleto. Ele foi muito mais.
Bananeirense, nasceu no dia 8/06/1926, filho de Pedro Augusto de Almeida e Maria Eulina Rocha de Almeida. Fez os primeiros estudos em casa, com professores particulares e orgulhava-se da educação que recebeu dos pais. Teve quatro irmãs e um irmão: Marina, Gastão, Lucia, Maria Helena e Terezinha, esta, baluarte incansável como gestora do famoso Laboratório do irmão; um filho, Fabio, que continua a desenvolver um eficaz e produtivo trabalho no Laboratório, e dois netos, Pedro e Laura. Estudou no Colégio Pio X, em João Pessoa, e no Colégio Nóbrega, em Recife. Formou-se em Medicina pela atual Universidade Federal de Pernambuco, em 1950.
Alem de médico, era escritor, bibliófilo e agro-pecuarista, desenvolveu atividades de professor no Curso Médico da Universidade Federal da Paraíba e na Escola de Enfermagem Santa Emilia de Rodat e ocupou cargos e funções importantes no âmbito cultural: Conselheiro da Casa de Jose Américo, fundador da Casa Nordestina de Artes e Letras de Pernambuco, membro do Instituo Histórico e Geográfico Paraibano, da Sociedade Brasileira de Escritores; membro efetivo da Academia Brasileira de Historia; sócio fundador da Academia Paraibana de Medicina; sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte; sócio correspondente da Academia de Letras do Rio Grande do Sul; representante da Academia Paraibana de Letras na Fundação Cultural do Estado; comendador da Legião do Mérito Presidente Antonio Carlos; recebeu a medalha Amigo da Marinha de Guerra do Brasil; placa de Honra ao Mérito na IV Noite de Cultura-PB, no biênio de 1985/1987; foi tesoureiro do IHGP por dois períodos. Reverenciado pelos alunos, foi paraninfo, patrono e professor homenageado de incontáveis turmas de medicina.
Na área profissional, especializou-se em Patologia Clínica e, em 1951, fundou o laboratório que leva o seu nome, na rua Peregrino de Carvalho n. 146. O próprio Dr. Maurílio fazia as coletas domiciliares e nos hospitais. Pouco tempo depois, mudou-se para a praça 1817 e posteriormente edificou o moderno laboratório no Parque Sólon de Lucena, sempre com o incentivo e acompanhamento do filho e também patologista Fábio Rocha, transformando-o em uma referencia como excelência de serviços acreditados não só na cidade de João Pessoa, como também na Paraíba e mesmo no nordeste do país.
Trabalhava com zelo, dedicação exemplar, vasto conhecimento e visão futura da ciência. Como analista, fez estágios nos laboratórios dos centros mais avançados do Brasil: São Paulo, Rio de Janeiro e Recife. Publicou vários trabalhos científicos e foi fundador da cadeira de Patologia no Curso Médico da UFPB.
Escreveu e publicou onze livros, entre os quais “Eram seis as pétalas da Rosa” (1990), de caráter memorialista, onde no capitulo Presença do Passado escreveu: ”Quem revolve o passado aguça o desejo de atrair lembranças que avivam o sentimento predisposto a resguardar a memória do tempo”. Os demais reproduzem discursos e conferencias sobre temas diversos, excetuando-se o primeiro, “A presença de D. Pedro II na Paraíba”, de cunho histórico.
Pertencia a ele uma das maiores bibliotecas particulares da Paraíba, a qual chamava carinhosa e orgulhosamente de “Paraibana”, com um acervo de cerca de 65.000 volumes, especializada em Historia e sobre autores e publicações da Paraíba. Alem de amante dos livros, também o era da música clássica e dispunha de praticamente toda a obra de Mozart.
Quando do seu falecimento, em quatorze de junho de 1998, escrevi um artigo publicado no Jornal da Associação Médica da Paraíba, entidade que à época presidia: “A Paraíba está de luto”. Assim me expressei: “A Paraíba se despediu no dia 14 de junho de um dos seus mais ilustres filhos, o médico Maurílio Augusto de Almeida, um exemplo de decência e dignidade, que enriquecia o nosso meio com lições de sabedoria. Inovador e excepcional em sua área de atuação destacava-se pela fidalguia, pela esmerada educação, aliada a uma simplicidade e lealdade própria dos grandes homens. A sociedade paraibana e a Medicina estão de luto.
O falecimento do médico Maurílio de Almeida, aos 72 anos de idade, é mesmo uma perda irreparável para todos nós, amigos e colegas de profissão. Um homem se mede pela generosidade e Dr. Maurílio era um homem generoso e de gestos largos. Os homens bons nós os conhecemos por suas atitudes e firmezas de posições; sempre estão dispostos a ajudar o próximo e à cidade que os viu crescer.
Quem poderia negar a importância intelectual de Dr. Maurílio na formação de varias gerações na Universidade Federal da Paraíba? Como Professor de Patologia Clínica era, invariavelmente Paraninfo, Patrono ou Professor Homenageado de muitas turmas que ajudou a formar na Paraíba. Dr. Maurílio era um líder respeitado na comunidade acadêmica, daí a falta que nos fará para embates futuros.
Quem não se recorda das famosas “Aulas da Saudade?" Naqueles momentos de grandiosidade intelectual, homenageava-se um homem de sólida formação cultural e humana. Sua inteligência iluminava e apontava caminhos novos para explorar o futuro na profissão. Dr. Maurílio era e continuará sendo um exemplo para todos que fazem medicina em nossa terra.
Por ultimo, não custa lembrar que a morte levou do nosso convívio um dos homens mais cultos da Paraíba. Felizmente, a morte do mestre não nos levou tudo. Permanece entre nós a sua obra monumental sobre a sua terra e a sua gente. Um povo que ele soube amar como ninguém.
A Associação Médica da Paraíba, enlutada, reverencia a memória de um dos seus mais antigos e ilustres associados ““.
Esse foi o sentimento de pesar que tivemos e que hoje recordamos nessa posse solene.

Minhas Senhoras, Meus Senhores;

Meus Caros Acadêmicos,
Dr. Oscar de Castro e Dr. Maurílio Almeida foram os dois grandes personagens que me antecederam nessa cadeira de numero 33.
Por fim, quero encerrar esse meu discurso fazendo um comovente agradecimento com emoção aos meus familiares, aos Colegas Acadêmicos, aos meus amigos, e, enfim, a todos pela presença e paciência e pelo calor que trouxeram a esta cerimônia. Tenho plena consciência da responsabilidade em assumir essa cadeira e presente nesta casa tudo farei para manter acesa a chama clara e luminosa das atividades da Academia, honrando suas tradições.



Muito Obrigado e que Deus abençoe a todos nós ““.



©livred.info 2017
enviar mensagem

    Página principal