Deusdedit, Joakim, seus livros e autores



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Deusdedit, Joakim, seus livros e autores

 

Cláudio DeNipoti


Universidade Estadual de Londrina

 

 



RESUMO
Este artigo busca compreender as relações e práticas culturais envolvidas na leitura no passado. A análise parte do estudo de dois leitores em particular, que realizaram suas leituras no início do século XX, na Biblioteca Pública do Paraná, para, a seguir, buscar em seus escritos as pistas sobre suas leituras.
Palavras-chave: história da leitura; leitura, história cultural.

 

ABSTRACT


This article tries to understand the cultural practices and relationships in the reading practices of the past. The analysis begins with the study of two readers, who began their reading practices in early Twentieth Century, at the Public Library of Paraná.. It goes on to recover in their own writings the clues thy might have left about their readings
Key- words: history of reading, reading, cultural history.

 

 



Os diversos caminhos que a pesquisa histórica assume em seu decorrer são provavelmente seu aspecto mais encantador. É sem dúvida notável a perseverança que atém algumas centenas de pessoas razoavelmente sérias e, em alguns casos, extremamente inteligentes e ilustradas, horas a fio em arquivos e bibliotecas, sofrendo todo o tipo de incômodos ao lidar com objetos e papéis - mais freqüentemente - velhos e empoeirados.

Todos eles discordariam veementemente do jornalista anônimo curitibano que, em 1911, criticava a então Biblioteca Pública do Paraná em termos nada elogiosos, dizendo que

a nossa [biblioteca], sempre emperrada nos montões de livros de venerável antigüidade, alli está n'uma acanhada sala do Gymnasio, fossilisada em archaicos armários, sob camadas de pó e mais própria a tentar a curiosidade de algum archeólogo do que a do estudioso dominado pelo justo receio de infecção pelos bacillos de Koch que ali socegadamente proliferam confiados na desidia do Estado.1

Ao contrário, vários historiadores estariam dispostos - hoje e naqueles dias - a correr o risco de contágio, unicamente para encontrarem fontes para seu trabalho de escrever a história. Robert Darnton conforta o historiador quando afirma que" construir mundos é uma das tarefas essenciais do historiador, e ele não a empreende pelo estranho desejo de escarafunchar arquivos e farejar papel embolorado - mas para conversar com os mortos"2. É um conforto relativo porém, pois à gratificante tarefa de (re)construir mundos, ainda se opõem as dificuldades que o historiador - de qualquer tendência teórico-metodológica - enfrenta3 no intuito de ver concluídas suas considerações sobre, digamos, a cultura sexual greco-romana, a Paris de Voltaire ou o universo político da Primeira República no Brasil.

É claro que, depois que reúne seu material de pesquisa e começa a refletir sobre ele - ou melhor, a refletir com ele - o historiador pode sentir-se menos incomodado fisicamente e buscar aquela reconstrução de mundos perdidos com uma maior liberdade.

A Biblioteca Pública do Paraná, citada acima, pode servir para ilustrar essa série de relações que a pesquisa assume em seu percurso, partindo, por vezes para caminhos que o historiador sequer imaginava poderem ser trilhados.

O trabalho com os registros de retirada da Biblioteca Pública do Paraná (BPPR) pode ser descrito dentro do quadro desenhado nas páginas anteriores. As quase duas dezenas de livros-ata empoeirados, roídos por traças, incompletos, jogados de um canto a outro da atual Biblioteca Pública do Paraná, conforme as necessidades de espaço e as múltiplas reformas e rearranjos - verdadeiro motivo de pânico para qualquer pesquisador - fornecem, contudo, um material extremamente rico, ainda que talvez seja somente a faísca inicial para um trabalho mais completo4.

Esses registros são instigantes para a pesquisa, ainda que, por si sós, não constituam um objeto - ao menos não um objeto completo - de uma história da leitura, já que fornecem panoramas gerais sobre a leitura no passado (quem lia o quê, quando e quanto), e não entram nas questões mais específicas da relação cognitiva implícita no ato de ler. Esses panoramas são, contudo, absolutamente necessários para apoiar essas últimas questões5.

É sobre esse panorama geral - ou um panorama possível - que gostaria de me deter um pouco. Naturalmente, para não reproduzir aqui os próprios registros em sua íntegra (como o mapa perfeito de Borges)6,tomo o universo das leituras de dois assíduos freqüentadores da BPPR. Ainda que faltem algumas informações sobre esses dois personagens, desde o início eles causaram espécie ao pesquisador, seja pela particularidade do nome de um deles - Deusdedit - seja porque eles eram irmãos, seja ainda pela diversidade e freqüência de suas leituras. Deusdedit e Joakim Moura Brasil também suscitaram questões sobre os hábitos da leitura no passado que gostaria de tentar desenvolver aqui e, isto feito, cruzar os escritos (fundamentais para esta análise) que os leitores Deusdedit e Joakim deixaram, com suas leituras na BPPR.

Este estudo preliminar, colocado portanto como um panorama geral da leitura no início do século, embora seja inicialmente marcado por uma abordagem quantitativa, não pretende situar a história da leitura no âmbito da Histoire serielle au troisième niveau, de Pierre Chaunu "(o terceiro nível, após o econômico e o social sendo aquele da cultura)"7. Essa abordagem foi dominante na historiografia francesa durante os anos 70, e é caracterizada como a tentativa de "medir comportamentos através da contagem - contando missas para os mortos, quadros mostrando o purgatório, títulos de livros, discursos em academias, móveis em inventários, crimes nos arquivos policiais, invocações à Virgem Maria em testamentos, e o peso da cera das velas queimadas para os santos patronos das igrejas"8. Robert Darnton objeta a essa abordagem afirmando que, em primeiro lugar, os objetos culturais, por não serem fabricados pelo historiador, mas sim pelas pessoas que ele estuda, têm uma natureza diferente daquela das informações contidas nas séries das histórias econômica e demográfica. "Eles têm que ser lidos, e não contados". Em segundo lugar," a cultura não pode ser considerada como um nível de alguma entidade social semelhante a uma casa de três andares porque todas as relações interpessoais são de uma natureza cultural, mesmo aquelas que qualificamos de econômicas ou sociais"9.

Sendo assim, esse estudo quer simplesmente, lançando mão do material bruto fornecido pela pesquisa naqueles papéis empoeirados dos livros de registro de retirada, pensar juntamente com o que esses registros fornecem. Ainda que, antes de 1952, a BPPR tenha sido mais uma intenção do que um fato, ela existiu desde meados do século XIX na forma de uma pequena sala de livros, funcionando em salas cedidas por diversos órgãos do governo do Estado, principalmente o Gymnasio Paranaense. Nas décadas iniciais deste século, as descrições da BPPR são as de um órgão estatal abandonado pelo governo e razoavelmente restrito a um público de estudantes do Gymnasio10.

Os registros de retirada, marcados cotidianamente pelos bibliotecários e/ ou responsáveis pela BPPR que se sucederam nos anos para os quais os livros ainda existem, fornecem uma série de idéias sobre a leitura no passado. Deusdedit e Joakim surgiram nos registros pela primeira vez em 1914 (este em fevereiro e aquele em março). Ambos freqüentaram a biblioteca intermitentemente até 1917, quando Joakim desapareceu dos registros. Deusdedit continuou retirando livros até outubro de 1918. Nesse ponto, há uma interrupção nos registros remanescentes até 1921. Nenhum deles reaparece entre essa data e 1937. Durante os anos em que ambos freqüentam a BPPR, é grande o número de dias em que os dois são listados consultando as obras do acervo.

As listagens elaboradas a partir de seus registros de leitura mostram uma ampla gama de interesses e uma intensa troca de informações sobre as obras lidas. É comum que, em curtos espaços de tempo, ambos consultem o mesmo livro, indicando que o primeiro leitor pode ter influenciado as escolhas do segundo. É o caso, por exemplo, das Cartas literárias, de Adolpho Caminha, consultadas por Joakim em 05 de fevereiro de 1917 e por Deusdedit dois dias depois. Ou ainda, Casa de pensão, de Aluizio Azevedo, que Deusdedit leu durante outubro de 1914 (três consultas nos dias 6, 15 e 19, indicando renovação de empréstimo) e que Joakim leu no mês seguinte (dias 9 e 12 de novembro), o mesmo acontecendo nesses mesmos meses (porém com dias diferentes nos registros) com outro livro de Azevedo, O coruja (ver quadro 1 no final do texto).

Ao todo, eles estiveram na BPPR em 373 dias entre 1914-1918 (em 116 desses dias, ou cerca de 32%, ambos foram à biblioteca, possivelmente juntos). Seus nomes foram anotados nos livros de retirada mais de 550 vezes nesse período, referentes a 137 títulos de obras para Deusdedit e 78 para Joakim11. Dessas obras, ambos consultaram, em um ou outro momento, 38 títulos, que incluem diversas obras de Manoel de Macedo, José de Alencar e Aluizio Azevedo, a Antropologia e a Raças humanas de Oliveira Martins, Os sertões de Euclides da Cunha, e Literatura contemporânea de Sílvio Romero (ver quadro 2 no final do texto).

Os registros de leitura permitem um mapeamento quantitativo, portanto, das leituras realizadas pelos irmãos Moura Brasil. Porém, no universo da história da leitura, as constatações estabelecidas por números com relação ao que foi lido, quando e por quem, não são suficientes. É necessário ir além e buscar as razões e as formas da leitura no passado.

Como isto pode ser feito no caso de nossos dois leitores? Primeiramente, é necessário que estabeleçamos melhor quem eles foram, qual seu passado com relação ao momento estudado e o que fizeram a partir de então. Em segundo lugar, devemos buscar em seus escritos as pistas sobre suas leituras, que de outra forma seriam inacessíveis para o historiador de hoje.

Nascidos no final do século XIX (Deusdedit em 1897 e Joakim em 1899), no interior do Ceará, os Moura Brasil vieram para o Paraná, em 1909, por iniciativa de seu pai, seleiro - "como o pae de Kant" - que viajava pela região Norte do Brasil vendendo seus produtos. Segundo o julgamento do chefe da família, o Sul, além de possibilitar melhores oportunidades de trabalho, também proporcionava "grande probabilidade de instruir os filhos, de formá-los homens úteis - e nos citava, frio mas sincero, patrícios nossos, no sul, econômica e intelectualmente preponderantes"12.

Inicialmente vivendo em Morretes, no litoral paranaense, a família dedicou-se à agricultura, e os filhos tiveram que participar do trabalho junto com seu pai. Sobre este período de trabalho duro, Deusdedit escreveu que nenhum dos dois irmãos sentiu-se degradado por ter que trabalhar a terra, pois eles aprenderam "num livro de leitura infantil [que] o imperador chinez em certa phase do anno, empunhava o arado para, mostrar aos suditos quão dignificante o labor agrícola"13. Em Morretes também, Joakim deu as primeiras mostras de gênio artístico e intelectual, dedicando-se ao desenho e à pintura desde tenra idade, pois "tendo ás mãos uma estampa lytographica, reclamo, copiava-a com gosto, reproduzindo também, com interesse, caricaturas de revistas, que lhe chegavam ao alcance"14. Em 1910, Joakim redigiu um semanário manuscrito que quase causou a prisão de seu pai, devido à suspeita que fosse ele, e não o filho, o autor de artigos contra o Gremio Horus Morretense.

O delegado, senhor Arthur Balster, não duvidava o auctor do escripto fosse papae, que só depois de ver o nome de seu filho no jornaleco soube da vocação jornalística do mano que tão pequeno revolucionava a cidade com seu arremedo de jornal em linguagem toda assimilada do terrível jornalista cearence João Brigido, incomprehensivel político que papae admirava e por isso guardava uma collecção do Unitario fonte encyclopedica do saudoso mano, que então tinha dez anos de idade15.

Ainda segundo Deusdedit, nesta época seu irmão já demonstrava uma forte obsessão com a morte, que lhe adviria prematuramente em 1917 (explicando assim o fim de suas visitas à BPPR em março daquele ano)16. Em um artigo de 1916, parte de um de seus livros inéditos (Dentro da Vida), essa obsessão se manifesta nas inquietações de um enfermo:

Tentou levantar-se, mas a sua geral fraqueza negou-lhe o esforço requerido para se por de pé... Tal era a sua debilidade physica, que nem siquer um membro conseguiu animar; parecia que seu corpo todo, n'uma contração macabra e vil, estava privado da faculdade de locomoção; dir-se-ia que uma forte lethargia paralysara-lhe os movimentos os mais futeis...

Profundo desespero invadiu-lhe a alma, em convulsões de dor... diante de tanta resistência a que senão podia oppor, tal o depauperamento de suas forças, elle se maldisse, n'aquella hora em que seu coração não podia render um preito amigo de gratidão aos pés da donzella bemfazeja...

Era profundo o seu pezar e mais a sua inquietação, a agitar-lhe as fibras, como vagalhões frementes de mar encapellado, a se chocarem d'encontro aos cachopos musgosos...17

Devemos supor que os irmãos vieram para Curitiba por volta de 1914 para realizar o desejo de seu pai de que se instruíssem. Foi nesse ano que seus nomes começaram a aparecer nos registros de retirada, levando-nos a crer que, como a grande maioria dos freqüentadores da BPPR, eles fossem alunos do Gymnasio Paranaense, que abrigava o acervo da Biblioteca. De fato, no ano seguinte, Deusdedit aparece como aluno do primeiro ano do curso de "Sciencias Juridicas e Sociaes" da Universidade do Paraná, então em seu terceiro ano de funcionamento18. Embora não exista referência a Joakim nas listagens de alunos da Universidade, supomos que ele passou os anos de 1914 a 1917 estudando em Curitiba, compartilhando com seu irmão as leituras que ambos realizaram na sala de leitura da Biblioteca Pública ou aquelas que Deusdedit possa ter feito na biblioteca da Universidade entre 1915 e a morte de seu irmão. Após formar-se advogado, Deusdedit prestou concurso para lente substituto na faculdade que cursara, em 1920. Não foi possível descobrir se sua tese foi ou não aprovada, mas ele a publicou no mesmo ano pela Empresa Graphica Paranaense19.

No tocante aos escritos de nossos dois personagens, pouco daquilo que Joakim escreveu chegou a ser publicado. Além do artigo O enfermo, citado acima, há também um trecho de seu oitavo romance inédito, O rato branco, "concepção dos quinze anos incompletos", terminado em fevereiro de 1914 - um texto ufanístico do sertão paranaense, escrito com algum esmero literário e assinado sob o pseudônimo Sursum Corda, que seu irmão incluiu no longo necrológio que publicou em capítulos em 191720.

Deusdedit, por sua vez, teve vários de seus trabalhos publicados. Além da referida tese de concurso Ontogenia do Direito Comercial, de 1920, ele publicou Loiras ao sol, sobre a seca em seu estado natal, e um discurso proferido em 1922 na região Oeste do Paraná21. Em 1925, ele publicou, juntamente com sua esposa Aldamira, um pequeno livro de sonetos dedicados a Jesus, à "Mãe Santíssima" e a diversos santos católicos, mais como orações em verso que qualquer outra coisa22. Há, além disso, a referência a obras que permaneceram inéditas, como os romances Os filhos do tropeiro e Alma de garoto23e as obras jurídicas A criminalidade no Paraná e Estrea no Fôro.

Leitor assíduo, Deusdedit deixou em seus escritos inúmeras impressões, não somente sobre os autores e obras que leu, mas também sobre o próprio processo de aprendizado calcado na leitura e sobre os meios para este aprendizado. Em sua dissertação para o concurso de professor na Faculdade de Direito, Deusdedit descreveu de forma bastante enfática o processo que caracterizou sua passagem pelas salas de aula daquela mesma faculdade. Esta foi, para ele, uma "phase acerrima em que me trepidaram espírito e corpo, como arbustos transplantados a regiões estranhas a lutarem com o meio tellurico (...)"24.

Este processo foi traumático, já que não buscava meramente obter as notas para a aprovação nas cadeiras que cursou, mas tentava dar conta do aprendizado de forma mais completa. O trauma se manifestou ante o volume de leituras que ele teria que fazer durante e após seu curso, expresso como

pasmo e deslumbramento causados pela obra humana, contemplada no espelho prefulgente da bibliografia inexgotável que senti vontade absurda de resumil-a em fóco e aluminar-me de vez, como por processo mechanico se desaggrega, se desfaz, sem acção do tempo e da lucta, o corpo em cinzas ou em pó25.

Assim, Deusdedit sofreu com a diversidade de escolas, doutrinas e teorias, com a versatilidade dos conceitos, argüições e postulados, tanto em direito, quanto em sociologia, religião e literatura. Sofrimento descrito sem meias palavras, pois ele recebeu

pelas ilhargas acicates da controvérsia, ferrões de mil tayocas, supplicio de dezenas de serras, torquazes e alfinetes - escolas sobre escolas, theorias sobre theorias, verdades misturadas com embustes, sciencia calma e branda com phantasia apaixonada, crença com lógica, mytho com realidade26.

Seu sofrimento foi ainda pior por não lançar mão de estimulantes que facilitassem sua compreensão de seu material de leitura, pois "soffrer sem buscar no absyntho ou alcool, alívio á sensibilidade, é soffrer duplamente", pois se atirar-solitário à tarefa de se iniciar na epopéia do pensamento sem a "inconsciencia, automatismo e desleixo" provocados pelo absinto foi tão penoso quanto "arrastar onerosa canga de capricho, de independência, de não aceitar e acolher a primeira idéia que se antolha, circumloqua, vasia, archaica, brunida e exornada pelo oiropel literário"27.

Não obstante, sua busca ia para além do conhecimento superficial sobre os assuntos de seu interesse, para "regiões mais altas" e "recantos mais límpidos", as razões últimas que lhe proporcionassem a satisfação de viver em paz, reservado e imune: a satisfação de "lançar olhar em torno de si e não ignorar demasiadamente (...)"28. Buscava poder discernir entre "a semente e a casca", habituar-se a "colher do emaranhado venenoso (...) a jóia ou o brinco que deleitará e confortará o espírito em seguida"29.

Após esse processo, Deusdedit avaliou que estava capacitado para exercer o cargo de professor substituto porque amadureceu o suficiente, ou, em suas palavras:

Estou na phase do incubo, do empollamento, ou melhor, na puberdade mental, satisfeito porque esclareci ao meu espírito irriquieto as primeiras duvidas, distendi-lhe a primeira mão de cal, dei-lhe a primeira luz, retirei-o dos cachos da escuridade, iniciei o grande enigma, e agora, poderá adejar ao talante sem ignorância pasmosa de quem contempla herbario, sem fazer antecipadamente classificação de cada arbusto30.

Este estado é auto-afirmativo em vários sentidos, já que dava a Deusdedit uma sensação de segurança e solidez naquilo que ele entendia como função do intelectual e do cientista - são raros os momentos em que ele parece lembrar-se que é advogado. Mesmo sabendo que um tal posicionamento era condenado por alguns autores (Payot, por exemplo), a ele interessava o debate científico e filosófico, a leitura e as oposições e encontros entre Darwin, Rousseau, Herder, Withney etc. Esse debate, calcado em uma noção de ciência bem definida31, tinha por pressuposto o dever de "fomentar o ensino superior, ministrando-o como queria Alberto Torres - aos capazes de recebê-lo e disseminando a grandeza anatômica do Brasil - supino ideal de Sylvio Romero"32.

A noção de educação adotada por ele transparecia também em sua opinião sobre a alfabetização, ou a "diffusão dos vinte e cinco utilíssimos caracteres, com alguns tragos de moralidade e civismo". Alfabetização essa, definida como "luz aos trevosos cérebros", que não deveria ser abrupta ("não tão forte para não maltratar a vista"), nem em demasia ("moderada, lentamente"), mas apenas suficiente para que família e pátria fossem engrandecidas33. Porém, ele criticava os lugares comuns que associavam a criminalidade com o analfabetismo, em termos principalmente de repetições incontáveis de frases feitas nesse sentido, frases que Deusdedit considera

asneiras e infantilidades como (...) [as] bonitas locuções do genial auctor do Legende des Siécles, que, se fosse vivo, estaria arrependido de tel-as creado, tal a ingenuidade que ellas contem e o despudor das citações sem termo: A ignorancia produz o erro, e o erro produz o crime, Cada escola que se abre, um cárcere se fecha.

Segundo Deusdedit, baseando-se em diversos exemplos de países que começaram a ter ensino obrigatório e nos quais a criminalidade não diminuiu, não existia relação alguma entre

gramatica e a moralidade, como não é possível comprehender que uma paixão ou um preconceito de honra, por exemplo, possam ser destruidos pelo Alphabeto34.

Em sua luta por não aceitar verdades acabadas - como a opinião corrente na virada do século sobre o analfabetismo como fonte de crime - Deusdedit combateu também a superficialidade com que o seu próprio tempo entendia a cultura. Para ele, o" typo moderno", civilizado, que aprendia mais por atavismo do que por estudo dedicado era "um pedante, um enfatuado, um tolo, de alma rachitica, carcomida pelo vício" que além de ignorar que sua própria linguagem era composta de jargões típicos "não do povo, mas de funccionario público, soberbo, cezarino"35, que desprezava as pessoas simples da população rural. O caipira era o personagem preferido de Deusdedit para catalisar as boas características humanas. Aqui, mostram-se alguns possíveis pontos de contato com um nacionalismo que buscava nos tipos brasileiros a expressão do bem, que pode encontrar suas raízes nas obras de Euclides da Cunha, Oliveira Vianna e Silvio Romero, obras estas que Deusdedit e Joakim leram na BPPR.

Em conformidade com este espírito, o mais velho dos irmãos Moura Brasil redigiu vários trabalhos que, além de suas próprias opiniões sobre os temas abordados, traziam um elenco de autores citados com o intuito de elogio ou de crítica, o que nos permite inferir sobre as formas de leitura que ele realizou desses autores e suas obras.

Seu autor favorito era certamente Clóvis Beviláqua (1859-1944), jurista, político e filósofo cearense que influenciou toda sua época com seus códigos de direito e suas obras críticas36. Os Moura Brasil consultaram a única obra de Beviláqua constante no catálogo da BPPR de 1911, Epochas e individualidades, publicada em 1889. Deusdedit, no entanto, consultou-a apenas em 03 de junho de 1918, (enquanto Joakim o fez pela primeira vez em julho de 1914 e mais seis vezes entre setembro e outubro de 1914, a intervalos regulares de aproximadamente sete dias, indicando que renovou o empréstimo até fazer a leitura completa da obra).

Sobre Beviláqua, Deusdedit escreveu que compartilhava "as palavras de meu grande coestadano (...) Nós os brasileiros somos mais ou menos, em regra geral, autoditacdas (...)"37 Deusdedit dedicou-lhe um artigo no qual questionou as razões da fama e glória serem sempre póstumas. Levado a essas considerações sobre "glória, justiça e equidade" por pensar em Beviláqua, Deusdedit considerava que



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