Desporto e Saúde: o desporto e a promoção da saúde global



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Encontro06.11.2017
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O DESPORTO E A PROMOÇÃO DA SAÚDE GLOBAL

António Marques

Universidade do Porto, Faculdade de Desporto, Portugal


A vida nas sociedades modernas, em que pontifica cada vez mais o trabalho do tipo “controlo”, na sequência do progresso técnico em todos os âmbitos de produção, é caracterizada por uma cada vez maior inactividade e por uma ausência de estímulos corporais significativos. Nestas sociedades, a saúde e o bem-estar estão associados à prática regular de desporto e de actividade física (AF). Ou seja, a ausência de uma prática regular de AF está a suscitar alterações degenerativas em importantes órgãos e funções do ser humano.

O decurso da evolução humana previu um funcionamento normal e activo de todos os órgãos e sistemas do organismo. Porém, estima-se que a percentagem de trabalho muscular no balanço energético do nosso planeta decresceu no último século de 94% para 1% (Fomin, Filin, 1975). E, claro, a natureza não perdoa o desprezo pelas suas leis. Neste mundo em contínua evolução, um indivíduo não submetido a estímulos físicos é, de certa forma, um ser inadaptado. Há, pois, um anti-natural desequilíbrio que terá de ser compensado.

Nesta apresentação abordaremos alguns aspectos da relação entre a actividade física, a saúde e o bem estar em todas as idades. A situação a que atrás nos referimos não é mais um exclusivo dos indivíduos de idades mais avançadas, mas um problema que atinge de forma geral todos os sedentários. Em particular, discutiremos o significado e as implicações da prática, ou da sua ausência, em crianças e adolescentes, em adultos e em idosos.

Sempre pensámos que as crianças, em geral, não tinham problemas de saúde. Relatórios médicos mais recentes surgem a contrariar o que tínhamos por adquirido. A diminuição sistemática da AF, a alteração dos estilos de vida e os hábitos alimentares de crianças e adolescentes estão a influenciar de forma muito negativa o seu estatuto de saúde. Autópsias em idades pediátricas revelam que a obstrução das artérias, antes uma característica da idade adulta, verifica-se hoje logo a partir da infância, a um ritmo de 10% por década. Neste contexto, a educação para a saúde ganhou uma importância crescente e a escola uma responsabilidade acrescida na promoção da saúde. A Academia Americana Educação Física (1987), a Academia Americana de Comités Pediátricos em Medicina do Desporto e Saúde Escolar (1987) e o American College of Sports Medicine têm vindo a recomendar que os programas de Educação Física (EF) na escola devem adoptar objectivos orientados para a saúde. Mas, qual o contributo da escola na promoção da saúde? Pode a aula de EF influenciar, directamente, uma vida saudável? Justifica-se orientar a aula de EF exclusivamente para objectivos de saúde?

O segundo contexto de análise dirá respeito às relações entre a actividade física e a saúde em adultos. Durante muitos anos o desporto nas cidades quase se resumiu à prática de alta competição e a dimensão social do desporto restringiu-se ao “desporto de bancada”. A cultura desportiva - a prática que se fazia, e as infraestruturas, instalações e equipamentos existentes - estavam para aí orientados. Os investimentos financeiros na criação de espaços e equipamentos sociais foram praticamente inexistentes. Os orçamentos para promoção e apoio da prática desportiva não tinham qualquer expressão. Está-se a alterar hoje essa situação, mas quase tudo está por fazer.

As políticas de promoção da saúde deverão ir bem mais longe do que isto. As nossas cidades poderão renovar completamente o seu facies, ter novas redes viárias, bons equipamentos culturais, bons estádios, piscinas e palácios dos desportos, mas nunca serão cidades modernas, nunca terão cidadãos por inteiro, enquanto não tiverem equipamentos sociais e espaços verdes para as práticas desportivas de lazer. E, sobretudo, enquanto não tiverem cidadãos a fazer desporto e actividade física. Deste quadro de pressupostos resultam desafios e problemas que a cidade e as políticas municipais devem equacionar: As infaestruturas e equipamentos desportivos estão ajustados às necessidades? Tem havido um esforço concertado, no planeamento e construção de infraestruturas, por forma a gerir mais adequadamente os recursos existentes? As acessibilidades são consideradas, no quadro de planos directores de desenvolvimento urbano, por forma a permitir um fácil e rápido acesso das populações interessadas na prática? Os espaços não formais, garantem a segurança aos cidadãos que desenvolveram hábitos de prática regular de actividade física?

O terceiro e último aspecto sobre que nos debruçaremos dirá respeito aos idosos e à actividade física. Durante muitos anos desenvolveu-se nos meios científicos a convicção de que o declínio acentuado da capacidade física com a idade era uma situação inexorável, em relação com os processos de envelhecimento. Esta ideia tornou-se mais arreigada em idosos que, desta forma, resistiram a mudar os seus hábitos de vida. O que resultou em elevados prejuízos para a sua saúde e qualidade de vida e no aumento da sua dependência em relação a terceiros.

O conhecimento de situações da vida real dando conta de performances físicas excepcionais em indivíduos em idade avançada veio questionar o que tínhamos por adquirido. Vamos hoje percebendo melhor que, se a perda de capacidades com a idade é uma realidade que não podemos evitar, os níveis de perda podem ser muito atenuados e estão dependentes dos programas de actividade física a cumprir pelos idosos.



A qualidade de vida dos idosos parece ser muito influenciada pela capacidade que revelam para realizar as suas tarefas diárias. Neste quadro, o objectivo principal da política de saúde do Departamento de Saúde dos USA para pessoas com mais de 65 anos é melhorar as capacidades motoras que ajudam nas tarefas da vida diária (Phillips & Haskell, 1995). Por isso, assiste-se hoje, em todo o mundo, a um rápido crescimento do número de programas de actividade física para idosos e a uma forte mobilização de recursos no apoio a esta prática. Vários países têm no horizonte das suas políticas de saúde envolver em programas regulares de actividade física todos os indivíduos com mais de 50 anos. Numa orientação mais voltada para a prevenção e menos para a hipermedicalização da saúde, a que não é alheia a forte redução de custos que lhe está associada.



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