Despedida do ministro gomes de barros



Baixar 8,83 Kb.
Encontro12.07.2018
Tamanho8,83 Kb.


DESPEDIDA DO MINISTRO GOMES DE BARROS

Ministro Nilson Naves


Convencidos de termos bem cumprido o dever jurisdicional, terminamos hoje o primeiro semestre do ano judiciário. Vieram então me dizer que Humberto Gomes de Barros não tornará a nos presidir nesta Corte Especial. Isso, lá atrás, já havia acontecido comigo mesmo, e fiquei assim a matutar sobre o tempo, absoluto para uns, relativo para outros, e o tempo, ele próprio, trouxe-me à memória o ano 1991, ano da chegada de Humberto ao Superior. Veio da nobre, nobre não, nobilíssima classe dos advogados. Veio com excelente verbo, que espalhou por seus impecáveis votos e derramou em seus instigantes versos. Chegou com a convicção de que, um dia, iria presidir este Tribunal, Tribunal grande pela própria natureza.

Ocorre-me, neste momento, também a memorável manhã do ano 1987 em que ouvíamos dos membros da Assembléia Constituinte  reunida ali, sob a proteção de Deus, para instituir um Estado democrático, tal o preâmbulo da nossa Constituição , em que ouvíamos, dizia, a idéia de criação de um tribunal ao qual competiria assegurar a unidade da jurisprudência do direito federal. Falava-se da criação do Superior Tribunal de Justiça. A mim, desde aquele momento, pareceu-me tratar-se de significativo projeto, e grande, no qual nos envolveríamos de corpo, alma e coração. Se a muitos não faltou disposição desde que conhecida a idéia, a mim, particularmente, antes mesmo de seu anúncio, não faltou. E veio o Superior Tribunal como resultado concreto da vontade comum de implementar avanços na Justiça brasileira, reordenando-se a sua estrutura, principalmente os órgãos de superposição. Operosa vontade, diria eu, e feliz idéia – com cheiro de progresso, sabor de conquista e feição de democracia!

Pois bem, é esse Tribunal, a que compete a última e definitiva palavra sobre o entendimento e a aplicação do direito federal, noutras palavras, a inteireza positiva, a validade, a autoridade das leis federais, enfim, repito, a última palavra, obviamente a respeito das normas infraconstitucionais, sim, é esse Tribunal que Humberto, embora por curto tempo (será que estou, outra vez, fazendo crônica de anunciada aposentadoria?), preside; deixa marcas, e as deixa não apenas o Presidente, deixa marcas, nos dezessete anos que conosco conviveu, o julgador, o escritor, o Colega, sobretudo o amigo. Quem tem dúvidas aqui de que Humberto inovou? Já que o momento é de aproximação entre ciência jurídica e ciências sociais, devendo o jurista estabelecer novos contatos com psicólogos, sociólogos, filósofos, etc., como jurista, Humberto soube  e como soube! , aproximar, e outras aproximações mais conseguiu, o Direito da literatura; encontrou aquele lugar de diálogo, de conversa, fê-lo em seus romances, em seus contos e poesias, fê-lo também em seus votos. Simbiose? Sei lá! Talvez seja melhor dizer “perícia”. Uma coisa é certa, da prosa ao verso, do verso aos votos, nele a palavra não se gastou. Chegou com inexcedível verbo, espalhando-o ali, aqui, acolá.

Se é que o homem é a sua obra  já se disse, Humberto, que às vezes escrevemos o texto, mas sempre somos por ele escritos , se é mesmo assim, não seria difícil, sem querer eu aqui pecar pela concisão, lendo seus votos, e romances, e contos, e versos, ler a essência de quem os deu à luz; são escritos, todos sabemos, cheios de originalidade e do conhecimento de quem sempre soube dizer o Direito sem perder o humor. Cá pra nós, as palavras em Humberto parecem dar boas gargalhadas. E disso, ou melhor, desse alagoano cabra bom da peste, dele, aqui no grande Tribunal da lei, haveremos de ter boas lembranças, afinal, não ficará conosco o seu verbo, e os seus votos, e os seus versos?

Falando assim de escritor, tenho que concordar com Drummond, olhando, como ele, o avesso das coisas: de fato, o que escrevemos não vale o que deixamos de escrever. E, se tudo o que Humberto escreveu não se compara ao que ele ainda poderá escrever  e creio que irá fazê-lo , então imaginem quantas hoje as palavras inauditas e os verbos inexpressos que teremos a satisfação de ainda ler e ouvir!

Seja, como sempre o foi, feliz, muito feliz, Humberto!







©livred.info 2017
enviar mensagem

    Página principal