Desenredo



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ANÁLISE ESTILÍSTICA DO CONTO “DESENREDO”, DE JOÃO GUIMARÃES ROSA
Rita de Cássia Almeida Venâncio e Rita de Cássia Ribeiro de Almeida

Universidade Católica do Salvador
Estilo
De acordo com Othon M. Garcia:
Estilo é tudo aquilo que individualiza a obra criada pelo homem. (...) É a forma pessoal de expressão em que os elementos afetivos manipulam e catalisam os elementos lógicos presentes em toda atividade do espírito. (...) a forma de expressão peculiar a certo autor em certa obra de certa época.
O estilo de João Guimarães Rosa
Movimento literário – Modernismo
Segundo Alfredo Bosi:
A forma interna dessa comunhão de sujeito e mundo é um estilo que reativa as potências sonoras e simbólicas da palavra. Não se trata de uma simples volta ao vocabulário arcaico ou à frase coloquial sertaneja: (...) A palavra nova não é puro neologismo, pois retoma um processo de formação que vem de longe, de muito longe; assim, de um salto, o tempo é abolido, e o signo – arcaico e moderno – simula o eterno presente. A frase, por sua vez, estranhamente livre, truncada e revolta parece às vezes driblar o nexo fundamental que une predicado a sujeito. É a hora de fazer cintilar o nome, imagem da substância, misterioso, além ou aquém das determinações verbais. O Menino. A Alegria. O Medo. O Rio. A Moça, imagem. O Sol inteiro. O absurdo ar. O ensimesmo. O nenhum.
Guimarães Rosa busca na semântica do insólito o seu modo de responder a situações singulares extremas que fazem contraponto à outra literatura, a de situações típicas e médias da civilização moderna. O que o seduz é a menina franzina que sonha e inventa o cotidiano, as loucas que cantam na esplanada da estação, os bois que falam do homem e os homens que inventam o boi, o morro que fala, o jagunço que vira santo, (...) a donzela que é guerreira, a meretriz que sabe dar o mais puro amor. E, dada a alta coerência estética das narrativas, a exceção vira regra: “Ninguém é doido. Ou então, todos.” O mito é a verdade do coração: pensamento: pensamôr.
Dos textos de Guimarães Rosa, trabalhados em sala de aula, é possível destacar: uso de frases caóticas; a ordem inversa das frases; português arcaico; neologismos; regionalismo; opção pela mudança das classes gramaticais; uso de sufixos, metaplasmos de redução e acréscimo; destaque na preferência pelos adjetivos; transposição da linguagem oral para a escrita; uso de provérbios populares e máximas; frases entrecortadas; pretérito mais-que-perfeito; advérbios de intensidade; experimentação verbal.

Análise estilística do conto Desenredo, de João Guimarães Rosa

(Do 1º. ao 11º. parágrafo) – Rita de Cássia Almeida Venâncio
Em relação ao conto a ser apresentado – Desenredo – não há descrições do ambiente. O autor se atém aos personagens, sobretudo ao perfil psicológico, às suas ações e reações.
Desenredo [ato ou efeito de desenredar – desfazer o enredo/desenlace – des + enredo: derivação por prefixação – prefixo des na acepção de ação contrária]

João Guimarães Rosa




  1. Do narrador a seus ouvintes: [frase nominal: o sintagma nominal é constituído pela contração da preposição de + artigo definido a; substantivo; artigo definido; pronome possessivo e substantivo plural. No eixo paradigmático (seleção das palavras) – o uso do substantivo plural ouvintes ao invés de leitores sugere a transposição de uma linguagem oralnarração em 3ª. pessoa]

  2. – [travessão para indicar a fala do narrador-personagem/ introduz o discurso direto] Jó Joaquim, [repetição dos fonemas iniciais – 1o som aberto; 2o som fechado – aliteração (figura de harmonia)] cliente, era muito quieto, respeitado, [gradação – palavras que exprimem julgamento] bom como o cheiro de cerveja. [símile] Tinha o [artigo definido no lugar do pronome indefinido tudo] para não ser célebre. [presença da metalinguagem: explicação acerca do personagem] Com elas quem pode, porém? Foi Adão dormir e Eva nascer. Chamando-se [gerúndio: representa o aspecto contínuo no desenvolvimento da ação] Livíria, Rivília, ou Irlívia, [utiliza o nome próprio Lívia + vogal i + consoante r e com elas cria novos nomes – inicialmente há uma indeterminação do nome da personagem que só ao final do conto é denominada de Vilíria, uma outra variação – preferência do autor pela tríade] a que, nesta observação, a Jó Joaquim apareceu.

  3. Antes [partícula denotadora de tempo – antecipação – elipse do verbo] bonita, olhos de viva mosca, morena mel e pão. [metáfora – símile – elipse da conjunção como] Aliás, casada. [elipse do verbo] Sorriram-se, viram-se. Era infinitamente [advérbio de intensidade – derivação por sufixação] maio e Jó Joaquim pegou o amor. [apaixonou-se] Enfim, [partícula de conclusão] entenderam-se. Voando [gerúndio: representa o aspecto contínuo no desenvolvimento da ação] o [uso do artigo definido para enfatizar a ação] mais em ímpeto de nau tangida a vela e vento. [metáfora/ aliteração: vela e vento] Mas muito [advérbio de intensidade para dar ênfase ao fato] tendo [gerúndio: representa o aspecto contínuo no desenvolvimento da ação] tudo de [ao invés do uso do que, preferência pela preposição de] ser secreto, claro, coberto de sete capas. [há a inversão do ditado que diz coberto a sete chaves – expressão popular]. Predomina a função poética – o uso de recursos literários como metáforas, símile, elipses, aliteração, etc. evidenciam a função poética.

  4. Porque [conjunção que indica o motivo de ser do fato narrado no parágrafo anterior, ou seja, o romance secreto] o marido se fazia notório, na valentia com ciúme; e as aldeias são a alheia vigilância. Então [partícula de conclusão]ao rigor geral os dois se sujeitaram, conforme o clandestino amor em sua forma local, conforme [anáfora – figura de repetição da mesma palavra no início de frases ou períodos ]o mundo é mundo. [diácope: figura de repetição de uma palavra intercalada por outra] Todo abismo é navegável a barquinhos [diminutivo: afetividade] de papel. [metáfora]

  5. Não se via quando e como [tempo simultâneo/concomitante e forma pela qual ] se viam. Jó Joaquim, além disso, existindo [gerúndio: representa o aspecto contínuo no desenvolvimento da ação] só retraído, minuciosamente. [advérbio de intensidade – derivação sufixal] Esperar é reconhecer-se incompleto. Dependiam eles de enorme milagre. [frase em ordem inversa] O inebriado engano [frase nominal]. Predomina a função expressiva centrada na expressão dos sentimentos, emoções e opiniões do locutor (narrador).

  6. Até que [partícula denotadora de tempo terminal ou final] [travessão para enfatizar a parte final do enunciado] deu-se o desmastreio [contratempo/regionalismo]. O trágico não vem a conta-gotas. [expressão popular] Apanhara [pretérito mais-que-perfeito simples do indicativo: indica um fato passado anterior a outro] o marido a mulher: [frase em ordem inversa] com outro, um terceiro... [preferência do autor pelo uso da tríade – reticências/marca a suspensão provocada pela surpresa do fato – figura de repetição por omissão denominada aposiopese] Sem mais cá nem mais lá, [sem titubear/ e – partículas de realce] mediante revólver, assustou-a e matou-o. Diz-se, também, que de leve a ferira, [pretérito mais-que-perfeito simples do indicativo: indica um fato passado anterior a outro] leviano modo.

  7. Jó Joaquim, derrubadamente [advérbio de intensidade – derivação sufixal – eixo paradigmático (seleção de palavras) no uso do advérbio que dá ênfase ao fato do personagem cair de cama] surpreso, no absurdo desistia de crer, e foi para o decúbito dorsal, [caíra de cama] por dores, frios, calores, quiçá lágrimas [gradação/assíndeto (figura de omissão) da conjunção aditiva equiçá é uma alteração da expressão Quem sabe – arcaísmo ], devolvido ao barro, entre o inefável e o infando [antítese /encantador-abominável]. Imaginara-a [pretérito mais-que-perfeito simples do indicativo: indica um fato passado anterior a outro] jamais a ter o pé em três estribos; [preferência pelo uso da tríade – estribos na acepção de apoio – Metáfora: estar envolvida com três homens: o marido, Jó Joaquim e o amante] chegou a maldizer de seus próprios e gratos abusufrutos [prefixo ab+usufrutos = derivação por prefixação – abuso do usufruto, daquilo que se usufrui – neologismo]. Reteve-se de vê-la. Proibia-se de ser pseudopersonagem, em lance de tão vermelha e preta [uso de cores – na simbologia o vermelho significa sangue, luta e o preto, desgraça e tristeza] amplitude.

  8. Ela longe [travessão duplo para isolar e dar ênfase ao advérbio longe] sempre [partícula denotadora de tempo que indica perpetuidade] ou ao [gama vocálica] máximo mais formosa, já sarada e sã [aliteração do s]. Ele exercitava-se a agüentar-se, nas defeituosas emoções.

  9. Enquanto, [partícula denotadora de tempo simultâneo ou concomitante] ora, as coisas amaduravam. [a+maduro+ar derivação por prefixação e sufixação – regionalismo amaduravam no lugar de amadureciam] Todo fim é impossível? [frase interrogativa – presença da função conativa: o narrador em contato com o leitor que é estimulado pela mensagem (pergunta). Azarado fugitivo, e como à Providência praz, [apraz: determina – metaplasmo de redução: aférese] o marido faleceu, afogado ou de tifo. [ aliteração: incidência reiterada de fonemas consonantais no início, meio ou fim de vocábulos próximos – [f]faleceu, afogado, tifo] O tempo é engenhoso. [expressão popular]

  10. Soube-o logo Jó Joaquim, em seu franciscanato, [neologismo – indica a situação do personagem, remete a estado de reclusão] dolorido mas já medicado. Vai, pois, [partícula de conclusão] com a amada se encontrou – ela sutil como uma colher de chá, [símile] grude de engodos, o firme fascínio. Nela acreditou, num abrir e não fechar de ouvidos. [num abrir e fechar de olhos – troca olhos por ouvidos – expressão popular – Bally denomina de imagens gastas que podem ser rejuvenescidas pelos artistas – Guimarães Rosa renova um grande número de frases feitas de teor metafórico desgastado, como esta: às vezes trocando uma ou outra palavra, outras vezes com alterações maiores, mas mantendo a estrutura da frase – Essa troca é observada também no final do 3º parágrafo: coberto de sete capas em lugar de: coberto a sete chaves] Daí, [expressão conclusiva] de repente, casaram-se. Alegres, sim, para feliz escândalo popular, por que forma fosse.

  11. Mas [conjunção adversativa: sugere uma ressalva/mudança nos acontecimentos após o casamento/ apresenta certo suspense/ a reviravolta].

Análise estilística do conto Desenredo, de Guimarães Rosa

(Do 12º. ao 23º. parágrafo) – Rita de Cássia Ribeiro de Almeida


  1. Sempre [partícula denotadora de tempo] vem imprevisível o abominoso? [detestável] Ou: os tempos se seguem e parafraseiam-se. Deu-se a entrada dos demônios.

  2. Da vez, Jó Joaquim foi quem a deparou, em péssima hora: traído e traidora. De amor não a matou, que não era para truz [importante – arcaísmo]de tigre ou leão. Expulsou-a apenas, [palavra denotadora de exclusão – advérbio de intensidade] apostrofando-se, [afastando-se] como inédito poeta e homem. [comparação] E viajou fugida a mulher, [hipérbato – inversão de termos com a finalidade de enfatizar o termo deslocado] a desconhecido destino.

  3. Tudo aplaudiu e reprovou o povo, repartido. [seqüência de sons consonantais iguais da qual resulta um efeito acústico desagradável - /p/] Pelo fato, Jó Joaquim sentiu-se histórico, quase criminoso, reincidente. Triste, pois que tão calado. Suas lágrimas corriam atrás dela, como formiguinhas brancas. [símile] Mas, [conjunção adversativa, sugerido oposição] no frágio da barca, de novo respeitado, quieto. Vá-se a camisa, que não o dela dentro. Era o seu um amor meditado, a prova de remorsos. Dedicou-se a endireitar-se.

  4. Mais. [advérbio de intensidade – há algo a mais para ser relato].

  5. No decorrer e comenos, [arcaísmo – substitui a locução adverbial “nesta mesma ocasião] Jó Joaquim entrou sensível a aplicar-se, a progressivo, jeitoso afã. A bonança nada tem a ver com a tempestade. [Guimarães Rosa renova frases feitas de teor metafórico desgastado – há uma inversão do ditado “depois da tempestade vem a bonança] Crível? [acreditável – o narrador fala com o leitor – função conativa, redimensiona, democraticamente, a cooperação do leitor no ato da leitura] Sábio sempre foi Ulisses, [intertextualidade – menção ao personagem da Odisséia] que começou por se fazer de louco. Desejava ele, Jó Joaquim, a felicidade – idéia inata. Entregou-se a remir, redimir [palavras com o mesmo significado para dar ênfase à idéia de libertar-se de algo – aliteração do re a mulher, à conta inteira. Incrível? [inacreditável – presença da função conativa] É de notar que o ar vem do ar. [pleonasmo – repetição de termos para reforçar a mensagem] De sofrer e amar, [antítese] a gente não se desfaz. Ele queria apenas os arquétipos, [padrão exemplar] platonizava. [idealizava] Ela era um aroma. [metáfora]

  6. Nunca tivera ela amantes! Não um. Não dois. [não/não: anáfora – um, dois: gradação] Disse-se e dizia isso Jó Joaquim. Reportava a lenda a embustes, [arcaísmo – mentira, engano] falsas lérias escabrosas. Cumpria-lhe descaluniá-la, [derivação prefixal – prefixo latino: ação contrária] obrigava-se por tudo. Trouxe à boca-de-cena [composição por justaposição] do mundo, de caso raso, o que fora tão claro como água suja. [ironia] Demonstrando-o, amatemático, contrário ao público pensamento e à lógica, desde que Aristóteles [intertextualidade – menção ao filósofo grego] a fundou. O que não era tão fácil como refritar [derivação prefixal] almôndegas. Sem malícia, com paciência, sem insistência, [eco – repetição de sons no final de palavras próximas] principalmente.

  7. O ponto está em que o soube, de tal arte: por antipesquisas, [derivação prefixal – prefixo grego: oposição] acronologia miúda, conversinhas [diminutivo dando idéia de desprezo] escudadas, remendados testemunhos. Jó Joaquim, genial, operava o passado – plástico e contraditório rascunho. Criava nova, transformada realidade, mais alta. Mais certa? [função contativa]

  8. Celebrava-a, ufanático, [neologismo – combinação de ufano: que se orgulha de alguma coisa + fanático: dedicação exagerada a alguém ou alguma coisa] tendo-a por justa e averiguada, com convicção manifesta. Haja o absoluto amar – e qualquer causa se irrefuta. [não suscetível de contestação]

  9. Pois, [conjunção conclusiva – idéia de conclusão] produziu efeito. Surtiu bem. Sumiram-se os pontos das reticências, [expressão usada para indicar que acabaram as sugestões diante do fato ocorrido] o tempo secou o assunto. [metáfora – pôs fim ao assunto] Total o transato [que já passou] desmanchava-se, a anterior evidência e seu nevoeiro. O real é válido, na árvore, é a reta que vai para cima. Todos já acreditavam. Jó Joaquim primeiro que todos.

  10. Mesmo a mulher, até, [preposição – palavra denotativa de inclusão] por fim. Chegou-lhe lá a notícia, onde se achava, em ignota, defendida, perfeita distância. Soube-se nua e pura. Veio sem culpa. Voltou, com dengos e fofos de bandeira ao vento.

  11. Três vezes passa perto da gente a felicidade. Jó Joaquim e Vilíria retomaram-se, e conviveram, convolados, [mudar de sentimentos – novas núpcias] o verdadeiro e melhor de sua útil vida.

  12. E pôs-se a fábula em ata. [o autor trata o conto como se fosse uma fábula, dando uma conotação alegórica/ ata = registro/ e vale dizer que toda fábula tem uma moral].

(De Tutaméia. Rio, José Olympio, 1967.)
Desenredo

João Guimarães Rosa


Do narrador a seus ouvintes:

– Jó Joaquim, cliente, era muito quieto, respeitado, bom como o cheiro de cerveja. Tinha o para não ser célebre. Com elas quem pode, porém? Foi Adão dormir e Eva nascer. Chamando-se Livíria, Rivília, ou Irlívia, a que, nesta observação, a Jó Joaquim apareceu.

Antes bonita, olhos de viva mosca, morena mel e pão. Aliás, casada. Sorriram-se, viram-se. Era infinitamente maio e Jó Joaquim pegou o amor. Enfim, entenderam-se. Voando o mais em ímpeto de nau tangida a vela e vento. Mas muito tendo tudo de ser secreto, claro, coberto de sete capas.

Porque o marido se fazia notório, na valentia com ciúme; e as aldeias são a alheia vigilância. Então ao rigor geral os dois se sujeitaram, conforme o clandestino amor em sua forma local, conforme o mundo é mundo. Todo abismo é navegável a barquinhos de papel.

Não se via quando e como se viam. Jó Joaquim, além disso, existindo só retraído, minuciosamente. Esperar é reconhecer-se incompleto. Dependiam eles de enorme milagre. O inebriado engano.

Até que – deu-se o desmastreio. O trágico não vem a conta-gotas. Apanhara o marido a mulher: com outro, um terceiro... Sem mais cá nem mais lá, mediante revólver, assustou-a e matou-o. Diz-se, também, que de leve a ferira, leviano modo.

Jó Joaquim, derrubadamente surpreso, no absurdo desistia de crer, e foi para o decúbito dorsal, por dores, frios, calores, quiçá lágrimas, devolvido ao barro, entre o inefável e o infando. Imaginara-a jamais a ter o pé em três estribos; chegou a maldizer de seus próprios e gratos abusufrutos. Reteve-se de vê-la. Proibia-se de ser pseudopersonagem, em lance de tão vermelha e preta amplitude.

Ela – longe – sempre ou ao máximo mais formosa, já sarada e sã. Ele exercitava-se a agüentar-se, nas defeituosas emoções.

Enquanto, ora, as coisas amaduravam. Todo fim é impossível? Azarado fugitivo, e como à Providência praz, o marido faleceu, afogado ou de tifo. O tempo é engenhoso.

Soube-o logo Jó Joaquim, em seu franciscanato, dolorido mas já medicado. Vai, pois, com a amada se encontrou – ela sutil como uma colher de chá, grude de engodos, o firme fascínio. Nela acreditou, num abrir e não fechar de ouvidos. Daí, de repente, casaram-se. Alegres, sim, para feliz escândalo popular, por que forma fosse.

Mas.

Sempre vem imprevisível o abominoso? Ou: os tempos se seguem e parafraseiam-se. Deu-se a entrada dos demônios.



Da vez, Jó Joaquim foi quem a deparou, em péssima hora: traído e traidora. De amor não a matou, que não era para truz de tigre ou leão. Expulsou-a apenas, apostrofando-se, como inédito poeta e homem. E viajou fugida a mulher, a desconhecido destino.

Tudo aplaudiu e reprovou o povo, repartido. Pelo fato, Jó Joaquim sentiu-se histórico, quase criminoso, reincidente. Triste, pois que tão calado. Suas lágrimas corriam atrás dela, como formiguinhas brancas. Mas, no frágio da barca, de novo respeitado, quieto. Vá-se a camisa, que não o dela dentro. Era o seu um amor meditado, a prova de remorsos. Dedicou-se a endireitar-se.

Mais.

No decorrer e comenos, Jó Joaquim entrou sensível a aplicar-se, a progressivo, jeitoso afã. A bonança nada tem a ver com a tempestade. Crível? Sábio sempre foi Ulisses, que começou por se fazer de louco. Desejava ele, Jó Joaquim, a felicidade – idéia inata. Entregou-se a remir, redimir a mulher, à conta inteira. Incrível? É de notar que o ar vem do ar. De sofrer e amar, a gente não se desfaz. Ele queria apenas os arquétipos, platonizava. Ela era um aroma.



Nunca tivera ela amantes! Não um. Não dois. Disse-se e dizia isso Jó Joaquim. Reportava a lenda a embustes, falsas lérias escabrosas. Cumpria-lhe descaluniá-la, obrigava-se por tudo. Trouxe à boca-de-cena do mundo, de caso raso, o que fora tão claro como água suja. Demonstrando-o, amatemático, contrário ao público pensamento e à lógica, desde que Aristóteles a fundou. O que não era tão fácil como refritar almôndegas. Sem malícia, com paciência, sem insistência, principalmente.

O ponto está em que o soube, de tal arte: por antipesquisas, acronologia miúda, conversinhas escudadas, remendados testemunhos. Jó Joaquim, genial, operava o passado – plástico e contraditório rascunho. Criava nova, transformada realidade, mais alta. Mais certa?

Celebrava-a, ufanático, tendo-a por justa e averiguada, com convicção manifesta. Haja o absoluto amar – e qualquer causa se irrefuta.

Pois, produziu efeito. Surtiu bem. Sumiram-se os pontos das reticências, o tempo secou o assunto. Total o transato desmanchava-se, a anterior evidência e seu nevoeiro. O real é válido, na árvore, é a reta que vai para cima. Todos já acreditavam. Jó Joaquim primeiro que todos.

Mesmo a mulher, até, por fim. Chegou-lhe lá a notícia, onde se achava, em ignota, defendida, perfeita distância. Soube-se nua e pura. Veio sem culpa. Voltou, com dengos e fofos de bandeira ao vento.

Três vezes passa perto da gente a felicidade. Jó Joaquim e Vilíria retomaram-se, e conviveram, convolados, o verdadeiro e melhor de sua útil vida.

E pôs-se a fábula em ata.

(De Tutaméia. Rio, José Olympio, 1967.)

Referências

BOSI, Alfredo (org.). O conto brasileiro contemporâneo. 14. ed. São Paulo: Cultrix, 1997.


CEREJA, Willian Roberto & MAGALHÃES, Thereza Cochar. Gramática reflexiva: texto, semântica e interação. 5. ed. São Paulo: Atual, 1999.
CUNHA, Celso Cunha; CINTRA, Lindley. Nova gramática do português contemporâneo. 3. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.
FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo dicionário Aurélio da língua portuguesa. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.
FERREIRA, Mauro. Aprender e praticar gramática. São Paulo: FTD, 1992.
GARCIA, Othon M. Comunicação em prosa moderna. 17. ed. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1997.
MARTINS, Nilce Sant’anna. Introdução à estilística: a expressividade na língua portuguesa. 3. ed. São Paulo: T. ª Queiroz, 2000.
TAVARES, Hênio Último da Cunha. Teoria literária. 12. ed. Belo Horizonte: Itatiaia, 2002.






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