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UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO

CENTRO DE ARTES E COMUNICAÇÃO

DEPARTAMENTO DE LETRAS


LITERATURA PORTUGUESA

Barroco e Arcadismo

Bruno Fernandes de Lima

Recife, 01 de dezembro de 2009.



PARTE I
Introdução
Iniciarei a comparação entre as estéticas barroca e neoclássica expondo as características e apresentando informações importantes sobre cada uma das escolas literárias. Começarei pelo Barroco, mostrando sua contextualização histórica, suas principais características e os principais autores (portugueses), comentando também suas respectivas obras. Em seguida, tratarei do Arcadismo, da mesma forma como farei em relação ao Barroco, mostrando os aspectos históricos, ideológicos e filosóficos, além dos principais autores e suas obras.

Finalmente, farei a comparação propriamente dita, mostrando as principais diferenças e semelhanças entre as estéticas, analisando-as criticamente.


BARROCO

1. Panorama Histórico
No final do século XVI, a Europa vivia um momento de progresso científico e tecnológico, com as descobertas importantes feitas por Francis Bacon, Galileu Galilei, Johannes Kepler e Isaac Newton, além do desenvolvimento cultural e filosófico, com a consolidação dos estados protestantes europeus nos quais eram propagados os ideais de liberdade de expressão e pensamento. Reinava o racionalismo, cujas raízes se encontram ainda no Renascimento. Os ideais do Absolutismo monárquico também influenciavam fortemente a ideologia da época.

Entretanto, Portugal não acompanha a tendência seguida pelos demais estados europeus. Torna-se, na realidade, um reduto da cultura medieval. Vejamos as principais razões para esse fenômeno.

Portugal nas últimas décadas do século XVI já vivia a decadência do “Império”, que foi construído com a empresa das navegações. O país vivenciava uma crise financeira, que acabou se agravando com uma outra crise, esta de ordem política. D. Sebastião, rei de Portugal, embora presenciasse a iminência do declínio do império, que se havia fundamentado em alicerces vulneráveis, alimentava a esperança de ver a nação se re-erguer e voltar às épocas de glória (poder-se-ia dizer inspirado pelos incentivos recebidos de Camões em Os Lusíadas?). Embalado por esse sonho, o rei faz guerra contra Alcácer-Quibir, no norte da África. O empreendimento fracassa e D. Sebastião desaparece, O que leva Portugal a uma crise de sucessão na Coroa. O Cardeal D. Henrique, tio de D. Sebastião, se torna regente e governa por dois anos, durante os quais se desenrola o debate sobre a questão sucessória, até que em 1580, o rei da Espanha, Felipe II, reivindica o direito ao trono por ser o herdeiro mais próximo da Coroa e com isso acaba por unificar a Península Ibérica, talvez o maior golpe contra a autoestima portuguesa desde o surgimento da nação. Portugal esteve sob o domínio espanhol de 1580 até 1640, quando o país recupera sua autonomia.

Assim, a dominação espanhola e a força do catolicismo e sua reação contra o movimento protestante determinaram o rumo que Portugal e sua produção artística seguiriam no século XVII e no início do século XVIII.

A data de 1580 é adotada para fins didáticos como o início do Barroco em Portugal. Coincide também com a data da morte de Luís Vaz de Camões, maior nome da literatura portuguesa, autor da maior epopeia da língua portuguesa e monumento à pátria e à língua, Os Lusíadas. A data que marca o fim do período barroco no país foi o ano de1756, ano marcado pela fundação da Arcádia Lusitana, inaugurando a escola do Arcadismo.
2.O Barroco em Portugal
A situação histórica em que se encontrava Portugal naquela época determina e influencia as características da estética literária que vigorará no país. Enquanto o restante da Europa viveu uma evolução científica e filosófica, Portugal acaba seguindo uma mentalidade mais estreitada, devido à influência espanhola, sendo a Espanha um forte reduto católico, onde predominaram os ideais da Contra-Reforma, movimento reacionário à Reforma Protestante. A Literatura Portuguesa, que parecia que seria fortemente impulsionada pela produção renascentista (especialmente de Camões) e que experimentaria voos altos e grandeza de estilo, acaba recuando, baixando o tom, muito provavelmente devido ao golpe da perda da condição de nação independente, tornando-se tímida, permeada de sentimentos de revolta ou de misticismo (com o surgimento do mito do sebastianismo, lenda que consistia na crença do iminente retorno de D. Sebastião, que libertaria Portugal e faria dele o Quinto Império).

Em Portugal, diferente dos outros países da Europa, o Barroco foi mais expressivo na literatura que na arquitetura e nas artes plásticas, por exemplo. A Literatura Portuguesa no período barroco não alcançou o brilho do Classicismo, mas ainda assim rendeu bons frutos, embora tenham sido mais na prosa que na poesia. Faltou ao Barroco português uma conexão, uma unidade de sentimento, uma vez que as consciências estavam muito dispersas, sem um elo de ligação forte que unisse os homens da época. A nação estava mergulhada em uma depressão que só chegaria ao fim com o Romantismo, séculos depois, segundo Massaud Moisés (1977, 93). Isto porque nem no Barroco e nem no Arcadismo a Literatura Portuguesa conseguiu alcançar brilho e expressão que pudessem mesmo de longe rivalizar com a produção do Classicismo.


3. Características Principais do Barroco
A literatura barroca refletiu o sentimento predominante na época. Era um período de confusão. Portugal havia perdido a condição de país independente com a dominação espanhola; a Contra-Reforma procurou resgatar o teocentrismo cristão predominante na Idade Média, no entanto o Humanismo e o Renascimento haviam deixado marcas indeléveis na mentalidade europeia. Logo, o barroco consistiu em uma tentativa de conciliar as duas linhas de força: o teocentrismo cristão e o antropocentrismo clássico, uma vez que este já não poderia mais ser ignorado. A escola se caracterizou principalmente pelo exagero, a dualidade e a religiosidade. Consistiu também em uma reação contra a rigidez do Classicismo.

Segundo Massaud Moisés, “no entender de alguns, o Barroco tornou-se a arte da Contra-Reforma, visto as características básicas do movimento estético servirem aos desígnios doutrinários e pedagógicos da Igreja na luta anti-reformista” (1977, 91). A Contra-Reforma utilizou a estética como estratégia para a ação evangelizadora. Exatamente por tentar unir essas duas linhas de força, o Barroco acaba sendo paradoxal por excelência. É a escola dos antagonismos, das antíteses, dos jogos de opostos (claro / escuro, corpo / alma, luz / sombra etc.). “A fusão de propósitos e tendências nem sempre coerentes explica o caráter polimórfico assumido, às vezes, pelo Barroco.” (1977, 91).

Duas tendências foram características do Barroco português. A primeira se faria pela descrição de imagens, com o uso de metáforas e de sinestesia, recurso através do qual se relacionam planos sensoriais diferentes. Privilegia-se o como dizer. Recebeu o nome de Gongorismo, que deriva do nome do poeta espanhol Luis de Góngora y Argote. Isto porque o poeta utilizava em sua poesia uma linguagem extremamente rebuscada e cheia de preciosismo, privilegiando a forma em vez do conteúdo. Do termo “gongorismo” criou-se o adjetivo “gongórico”, termo pejorativo atribuído a escritores que utilizam linguagem prolixa e convoluta, o que caracteriza uma injustiça ao autor espanhol, que foi na realidade um grande poeta, que soube utilizar desses recursos estruturais com talento e maestria. Os adeptos do gongorismo buscavam uma linguagem rica, utilizando neologismos, hipérbatos, trocadilhos e muitas outras figuras que, segundo Moisés, “tornam o estilo pesado, alambicado e tortuoso” (Moisés, 1977, 92).

A segunda tendência já não privilegiaria a forma, o como dizer, mas o que são as coisas, procurava conceituar as coisas. Em vez dos recursos estéticos e plásticos do gongorismo, essa tendência se utiliza da lógica, da Razão, para conceituar as coisas e dialeticamente categorizar a vida. É chamada de Conceptismo. Devido às suas características, essa corrente acabou se manifestando sobretudo em prosa. O principal representante do conceptismo foi o escritor espanhol Francisco de Quevedo, daí um outro nome dado à tendência ser Quevedismo.

Mesmo aqui podemos ver a característica barroca de tentar fundir elementos antagônicos. Apesar de Gongorismo e Conceptismo serem tendências opostas, elas são contemporâneas e acabam por se misturar, muitas vezes até no mesmo autor. Acaba sendo difícil às vezes distinguir os dois estilos.

Os gêneros cultivados no período barroco em Portugal foram, principalmente, a prosa doutrinária, a epistolografia, a historiografia, a poesia e, um tanto timidamente, o teatro. A poesia barroca seguiu um rumo um tanto diferente da prosa. Ao contrário do caráter doutrinário, didático e moralizante da prosa barroca, a poesia apresentou um caráter lúdico, de entretenimento (essencialmente gongórico). Segundo Massaud Moisés, “a poesia barroca corresponde mais ao culto da forma, do verso, que da essência, do conteúdo, do sentimento, da emoção lírica” (1977, 107).

Francisco Rodrigues Lobo representou a transição entre o Classicismo e o Barroco em Portugal, trazendo características tanto daquela escola (com influência predominantemente camoniana) quanto desta. No entanto, o personagem mais importante do Barroco português foi, sem dúvida, o padre Antônio Vieira, grande símbolo da literatura dessa época. Nele se reuniram de modo complexo as principais características do movimento.
3. Principais Autores
3.1. Padre Antônio Vieira

Antônio Vieira (1608-1697) escreveu mais de quinhentas cartas, obras de profecia e sermões. Estes são os de maior interesse literário, pois neles podemos ver, além das principais características seiscentistas, o melhor do conhecimento e do talento do autor. Os sermões reúnem as características fundamentais do Barroco, como o seu caráter contraditório, cheio de antíteses e oposições. Neles, Vieira procura eliminar a oposição que existe em cada homem, a oposição entre corpo e alma. A tendência seguida pelo autor é o conceptismo. Procurou fazer uso da clareza na exposição de suas ideias, usando um maravilhoso jogo de retórica, conduzindo o ouvinte às conclusões de modo habilidoso. Porém, vez por outra se utiliza de recursos gongóricos, como vemos no trecho a seguir: “Ah pregadores! os de cá, achar-vos-ei com mais paço; os de lá, com mais passos.” (Sermão da Sexagésima. In: Moisés, 1977, 96)

O talento de Vieira é incontestável. O orador em seus sermões se mostra um mestre no conceptismo. Costumava utilizar analogias entre fatos reais e textos bíblicos, estabelecendo uma aplicação prática destes na vida cotidiana (como podemos verificar no Sermão da Sexagésima). Mostra as consequências da colocação do problema de modo direto, em seguida continua com um jogo incessante de argumentação, cheio de paradoxos, ambiguidades, conduzindo os ouvintes por caminhos tortuosos, enveredando-se em grandes dificuldades de raciocínio que parecem não ter solução, mas o pregador as sobrepuja com autoridade, alcançando seus objetivos didáticos e moralizantes.

A estrutura dos sermões é fixa. Segue a estrutura clássica, em três partes:



  • Introito (ou exórdio): introdução do sermão, em que o orador expõe o tema e o seu plano de análise;

  • Desenvolvimento (ou argumento): nesta parte o orador apresenta seus argumentos, os prós e contras da proposta em questão e os exemplos que reforçam a argumentação;

  • Peroração: conclusão do sermão, em que o orador fecha o sermão exortando os ouvintes a que vivam o que foi ensinado.

Em raros casos, Vieira deixou de utilizar algum dos elementos que mencionamos, como o introito ou a peroração. Ainda assim, os sermões não perdiam em qualidade, visto que o autor estava sempre cônscio disto a que ele chamava violação das “leis da retórica”.

Já no final da vida, Vieira se dedica a organizar seus sermões por escrito. Obviamente os registros escritos não correspondiam fielmente à realização oral dos sermões, em que o orador se utilizava constantemente do improviso. Os textos escritos acabavam por parecer um tanto artificiais, uma vez que “a oratória pressupõe a presença física do orador” (Moisés, 1977, 98).

Apesar de ter havido outros talentosos autores no movimento barroco português, Antônio Vieira estava muito acima de todos os outros em importância e qualidade literária. É o grande nome do barroco português e brasileiro.

Principais obras:



  • Sermões (15 volumes, 1679-1690, 1710-1718)

  • História do Futuro (1718)

  • Esperanças de Portugal (1856-1857)

  • Clavis Prophetarum (inédita)

Outros autores importantes do Barroco português foram D. Francisco Manuel de Melo, Francisco Rodrigues Lobo, Pe. Manuel Bernardes, Cavaleiro de Oliveira, Matias Aires, Sóror Mariana Alcoforado, entre outros. Por serem de menor importância em relação à figura do Pe. Antônio Vieira (no entanto, é importante dizer que apesar de terem menor importância, isto não significa que não sejam importantes), dar-lhes-ei menor ênfase em meu estudo.


3.2. Prosa Doutrinária - Autores

Os principais autores da prosa doutrinária barroca em Portugal foram D. Francisco Manuel de Melo, Pe. Manuel Bernardes, Cavaleiro de Oliveira e Matias Aires.



D. Francisco Manuel de Melo (1608-1666) se dedicou à poesia, à historiografia, ao teatro, à epistolografia, à prosa doutrinária e à polêmica. Na poesia, mostrou influência camoniana, inclusive nas características barrocas que o próprio Camões prenunciou (especialmente nos paradoxos). Prestou sua contribuição ao teatro com a peça Auto do Fidalgo Aprendiz (1665), em que se vê a predominante influência vicentina, além de outras peças em espanhol que acabaram se perdendo. No entanto, maior ênfase deve ser dada à epistolografia e à prosa doutrinária, em que o autor mostrou seu maior talento. Em especial, merece nossa atenção a Carta de Guia de Casados (1651), em que o autor trata do relacionamento conjugal de modo gracioso e bem humorado, embora ironicamente o autor jamais se tenha casado. Na carta, o autor trata de temas que, apesar de estarem impregnados da ideologia da época, em certos aspectos se mostra bastante atual, por tratar de problemas verificados mesmo ainda hoje nos relacionamentos familiares.

Pe. Manuel Bernardes (1644-1710) escreveu apenas literatura moralizante, sendo que sua vida e obra se opõem absolutamente às do Pe. Vieira. Utilizava uma linguagem limpa e direta, essencialmente conceptista, com rico vocabulário, mas sintaxe simples e direta, com o objetivo de atingir de modo direto seus ouvintes. Destacarei aqui, dentre suas obras, Nova Floresta, em que se verificam “a simplicidade e a limpidez antigongóricas” (Moisés, 2006, 180), com muitos exemplos práticos e analogias, além da simplificação através da interpretação das citações latinas da Bíblia, para facilitar a compreensão por parte dos ouvintes.

Cavaleiro de Oliveira, como se assinava em suas obras Francisco Xavier de Oliveira (1702-1783), apesar de ter nascido em Portugal, se inclui na Literatura Portuguesa apenas incidentalmente, por ter escrito maior parte de suas obras em francês e ter vivido grande parte de sua vida fora de seu país de origem, tendo inclusive falecido na Inglaterra. Dentre suas obras, quero chamar atenção para Amusement Périodique (1751, traduzida para o português como Recreação Periódica), série de crônicas jornalísticas, uma espécie de revista, em que se verificam as principais características da sociedade de Lisboa e da Europa do século XVIIII. Os temas são atualíssimos, mesmo para os nossos dias, e embora não seja tão rica em estilo, como afirma Massaud Moisés (1977, 105), o conteúdo das crônicas é extremamente vivo e excitante. Alguns autores o incluem no período neoclássico. Preferi colocá-lo no Barroco de acordo com Massaud Moisés, visto serem os estudos deste autor minha principal fonte para este trabalho.

Matias Aires Ramos da Silva de Eça (1705-1763) escreveu obras de rico conteúdo literário, mas que foram praticamente esquecidas no século XIV, sendo apenas resgatadas no início do século XX, quando foram republicadas por Solidônio Leite, editor de um jornal do Rio de Janeiro, ressuscitando a figura de Matias Aires. Sua obra apresenta grande influência do livro bíblico de Eclesiastes, na temática predominante da vaidade. Tal como o texto bíblico, a obra de Matias Aires é carregada de pessimismo ético e filosófico, através do qual o autor enxerga o homem como decaído e corrupto, “à mercê dum Deus onipotente e implacável” (Moisés, 2006, 186), especialmente em sua obra Reflexões sobre a Vaidade dos Homens (1752).

Dentro da prosa doutrinária barroca, é importante mencionar a obra conhecida como Arte de Furtar (1652), cujo autor é até hoje desconhecido, pois se identificou na obra apenas como “Português mui zeloso da Pátria”. Sua autoria foi atribuída a diversos escritores da época, sendo que a investigação mais recente aponta para o nome de Antônio de Sousa de Macedo. A obra é uma sátira contra a corrupção dos baixos funcionários e ministros de Estado após a reconquista da independência portuguesa. Obviamente foi por isto que o autor preferiu se manter anônimo, para que tivesse liberdade para dirigir suas críticas a seus contemporâneos. Sua importância literária é menor, em relação ao conteúdo satírico da obra.


3.3. Poesia Barroca – Autores

A poesia barroca se apresenta tanto em poetas isolados quanto em antologias organizadas, semelhantes aos cancioneiros medievais. Divide-se em poesia lírica, épica e satírica. Destacarei aqui Francisco Rodrigues Lobo, D. Francisco Manuel de Melo (de quem já tratei na “prosa doutrinária”) e as mais importantes antologias, a Fênix Renascida e o Postilhão de Apolo.



Francisco Rodrigues Lobo (1580-1622), como já mencionei aqui, pode ser considerado precursor do movimento barroco em Portugal, o que pode ser verificado especialmente em sua obra Corte na Aldeia (1619) e na trilogia de novelas pastoris: A Primavera (1601), O Pastor Peregrino (1608) e O Desenganado (1614). A poesia de Rodrigues Lobo serve como elo de ligação entre a poesia do classicismo (influenciada pelo magistério camoniano) e a poesia barroca. Na prosa, apesar de não haver tantas características barrocas, podemos verificar o que seria um prenúncio do movimento nos diálogos V e XI da Corte na Aldeia, em que, segundo Massaud Moisés, é feita uma espécie de súmula de uma teoria literária do Barroco (1977, 108).

A Fênix Renascida e o Postilhão de Apolo são as principais antologias poéticas do Barroco português. A Fênix Renascida (1716) foi publicada em cinco volumes por Matias Pereira da Silva e é talvez a antologia mais importante da poesia barroca portuguesa. Nela é possível perceber a forte influência camoniana, na glosa a seus sonetos e em seu poema épico. Contém temas líricos, épicos, mitológicos, satíricos e religiosos. Podemos ver nos poemas dessa antologia o uso excessivo de antíteses, hipérbatos e sinestesias, característicos do movimento, embora os poemas mostrem pouca riqueza de conteúdo. Dentre os seus autores se encontram Jerônimo Baía, Sóror Violante do Céu, Antônio da Fonseca Soares, D. Tomás de Noronha, Diogo Camacho e Antônio Barbosa Bacelar. O Postilhão de Apolo (1761) foi publicado em dois volumes por D. José Ângelo de Morais. A temática dos poemas é variada, desde a sátira até o lirismo grave. Possuem fortes características gongóricas. Alguns dos poetas que participaram da Fênix Renascida também participam do Postilhão de Apolo. Além deles, temos também Eusébio de Matos, Bernardo Vieira Ravasco, Francisco Rodrigues Lobo, D. Francisco Xavier de Meneses, entre outros.


3.4. Historiografia – Frei Luís de Sousa

A historiografia do período seiscentista em Portugal não teve tanta expressão. Regrediu muito em relação aos períodos anteriores. Acabou se tornando submissa aos interesses da aristocracia, além de introvertida, subjetivista e retrógrada (Moisés, 1977, 109). O nome de maior importância nesse gênero foi Frei Luís de Sousa (1555-1632). Foi um modelo da melhor prosa da época, com um estilo sóbrio e sem os excessos do Barroco. Disse Massaud Moisés acerca dele:


Seu mérito, para nós mais importante, reside no estilo de que era senhor: pela linguagem castiça, fluente, plástica, apropriada ao andamento psicológico, moral ou factual das cenas, tornou-se verdadeiro mestre, ao lado do Padre Vieira e do Padre Bernardes. (1977, 111)
3.5. Epistolografia - Autores

Embora o gênero já fosse cultivado muito antes, a epistolografia do barroco português assume características muito peculiares, diferenciando-se da que já ocorreram no Renascimento e alcançando brilho poucas vezes alcançado em outras épocas, antes ou depois. Na época, as cartas funcionavam de modo semelhante a jornais, muitas vezes sem um destinatário específico, mas endereçadas a um leitor ideal, fictício. Produziram no gênero importantes escritores da época em Portugal, entre eles o Pe. Antônio Vieira, D. Francisco Manuel de Melo, Frei Antônio das Chagas, Cavaleiro de Oliveira e Sóror Mariana Alcoforado, a esta última darei atenção especial.



Sóror Mariana Alcoforado (1640-1723) não escreveu com objetivo literário. Suas cartas não foram escritas para serem publicadas. Deu-se que em 1663 se apaixonou por um oficial francês chamado Chamilly, e este, tendo recebido chamado superior, retorna à França, abandonando Mariana, com quem troca cartas, das quais só ficaram as que foram escritas pela religiosa. As cartas foram traduzidas para o francês e publicadas em Paris em 1669 sem indicação de destinatário ou do tradutor, e posteriormente no mesmo ano é publicada nova edição, agora com os nomes do destinatário e do tradutor, respectivamente Chamilly e Guilleragues, além da remetente: Mariana. Só em 1810 foram traduzidas para o português por Filinto Elísio. Foram publicadas apenas cinco cartas, mas não se sabe ao certo se foram escritas apenas cinco, qual a ordem correta na qual foram escritas, em que língua de fato foram escritas e se não houve interpolações feitas pelo tradutor.

As Cartas de Amor, como ficaram conhecidas, são de uma beleza e lirismo fantásticos. Por terem sido escritas motivadas por sentimento puro e verdadeiro, sem fins de publicação e sem a preocupação com a estética, distanciam-se um tanto do estilo barroco, pela leveza e espontaneidade, mas mantém certa ligação com o período, especialmente pelo paradoxo de ideias. A autora expressa de modo muito sincero e apaixonado os seus mais íntimos sentimentos, em especial na terceira carta, considerada o ponto alto de sua confissão e também a que escolhi para estudar mais particularmente.


3.6. Teatro Barroco – Antônio José da Silva

Desde Gil Vicente, não apareciam em Portugal dramaturgos de expressão. Todos os que surgiram copiaram o estilo do grande teatrólogo português ou se restringiram a apresentações fechadas de peças de caráter religioso ou moralizante. No Barroco, D. Francisco Manuel de Melo chegou a dar uma contribuição importante ao teatro português com sua peça Fidalgo Aprendiz, mas além dele, nada de relevante seria produzido no gênero no país até o surgimento de Antônio José da Silva (1705-1739), conhecido como “o Judeu”. Produziu pouco por sua vida ter sido interrompida pela Inquisição, mas ainda assim sua obra foi bastante significativa. Suas peças tinham o objetivo de provocar o riso, satirizar a sociedade da época por meio da comicidade. As peças eram acompanhadas por música e canto e eram representadas por “marionettes”. Tinha influência de Gil Vicente, mas também reúne traços da comédia clássica e do teatro contemporâneo espanhol, italiano e francês. Destaco dentre suas peças as Guerras do Alecrim e da Manjerona (1737). É a sua peça mais acabada, segundo Moisés (1977, 116). Nela, Antônio José da Silva satiriza tanto a novela de cavalaria (nos nomes de linhagem celta do personagem D. Tibúrcio e no nome do personagem D. Lancerote) como também o próprio estilo barroco, quando utiliza os recursos gongóricos para provocar riso. Nisto pode-se perceber que a obra do dramaturgo já traz os primeiros sinais da decadência do movimento.


4. Conclusões acerca do Barroco
O Barroco em sua completude se mostra, como pudemos ver através deste trabalho, como um movimento um tanto difícil de definir. Não há uma unidade estética, características que possamos considerar gerais, no entanto podemos concluir que é esse caráter confuso e paradoxal a sua principal característica. O teor pesado da estética barroca, a linguagem carregada, a inquietude de ideias, são características que podemos tomar para, mais adiante, contrapor com a escola literária que virá a seguir: o Arcadismo.
ARCADISMO

1. Panorama Histórico
1.1. Na Europa

Com a ascensão da burguesia e o seu fortalecimento, grandes mudanças começaram a ocorrer na Europa. A monarquia e a nobreza, que, a princípio, tiveram os burgueses como aliados para consolidarem o regime absolutista, agora que haviam adquirido forças e poder, acabaram por desfazer a aliança com a burguesia.

Nos séculos XVII e XVIII, a burguesia começa a esboçar uma reação contra o regime do absolutismo monárquico (Ancien Régime). Visava derrubar o poder monárquico e do clero católico. Essa atitude inicialmente se realizou no plano ideológico, com o surgimento do pensamento conhecido como Iluminismo. Os ideais iluministas surgiram inicialmente na Inglaterra no século XVII, mas tomaram força ao chegarem à França no século XVIII.

A doutrina do Iluminismo pretendia substituir o pensamento cristão vigente. Pretendia substituir a religiosidade e o conformismo tradicionais pela Razão e o conhecimento científico. A obra que melhor sintetizou o pensamento iluminista foi a Enciclopédia, obra de 130 colaboradores, coordenados pelo romancista-filósofo Denis Diderot e pelo matemático Jean Le Rond D’Alembert. Ainda que houvesse muitas divergências entre esses autores, havia um “espírito comum da Enciclopédia”, ou seja, uma série de pontos em que todos estavam de acordo. A obra era chamada pelos seus organizadores de “Suma Filosófica”, pois pretendia substituir a Suma Teológica de São Tomás de Aquino. Com ela, pretendiam reunir os mais importantes conhecimentos científicos e artísticos da época.

O Iluminismo provocou uma série de mudanças na Europa e principalmente na França, onde culminou com a Revolução Francesa (1789).
1.2. Em Portugal

Portugal conseguiu acompanhar as mudanças por que a Europa passava, já livre da dominação espanhola. O Marquês de Pombal (1699-1782), ministro do rei D. José I, sucessor de D. João V, influenciado pelas ideias iluministas que eram propagadas na Europa, inicia reformas no país, com o objetivo de colocá-lo no nível da cultura europeia. As mudanças filosóficas em Portugal já se haviam iniciado com a contribuição de Luís Antônio Verney (1718-1792) por uma reforma na pedagogia no país, substituindo o ensino religioso e medieval que então predominava.

Após o fim da administração de Pombal, o país continua a viver mudanças. Portugal vive então um “clima de efervescência cultural” (Moisés, 1977, 118), e nesse clima surge o movimento artístico conhecido como Neoclassicismo. O Neoclassicismo foi um movimento cultural do fim do século XVIII, que representou a retomada da cultura clássica em reação ao estilo barroco. Na literatura, a forma particular de expressão é o Arcadismo, que se inicia na Itália e se manifesta em Portugal e no Brasil. O Arcadismo se inspirou na lendária região grega da Arcádia, no Peloponeso, dominada pelo deus Pã e habitada por pastores e poetas, que viviam de maneira simples e se divertiam cantando, fazendo disputas poéticas e desfrutando os prazeres da vida. Na Itália, fundou-se em Roma, em 1690, a Arcádia, uma academia literária que procurava imitar a lenda grega: os poetas se vestiam como pastores gregos, usavam pseudônimos pastoris e se reuniam em parques e jardins para gozar da vida na natureza.

O Arcadismo em Portugal se inicia em 1756, com a fundação da Arcádia Lusitana e termina com a publicação do poema Camões, de Almeida Garret, considerado marco inicial do Romantismo em Portugal.


2. O Arcadismo Português e Suas Características
O Arcadismo buscou basicamente a simplicidade, em oposição ao caráter confuso e retrógrado do Barroco, de cujo exagero o público estava cansado. De fato, os primeiros sinais de decadência do movimento seiscentista se verificaram e sátiras ao estilo já presentes na Fênix Renascida. Pouco a pouco foi-se instaurando uma onda de neoclassicismo, inspirado no Arcadismo italiano. Em 1756, foi fundada a Arcádia Lusitana, academia literária inspirada na Arcádia Romana, em que os poetas procuravam seguir o mesmo costume italiano de se vestirem como pastores e usarem pseudônimos. Foi fundada por iniciativa de Antônio Diniz da Cruz e Silva, Manuel Nicolau Esteves Negrão e Teotônio Gomes de Carvalho. A Arcádia Lusitana teve existência efêmera, sofrendo conflitos e dissensões internas, vigorando até 1774. Também pertenceram à academia Pedro Antônio Correia Garção, Domingos dos Reis Quita, Francisco José Freire e Manuel de Figueiredo.

Em 1790, foi fundada a Academia das Belas-Artes, por Domingos Caldas Barbosa, Belchior M. Curvo Semedo, J. S. Ferraz de Campos e Francisco J. Bingre. Logo depois, a academia foi chamada Nova Arcádia. Vigorou até 1794. Juntaram-se à agremiação Bocage, José Agostinho de Macedo, Luís Correia França e Amaral, Tomás Antônio dos Santos e Silva, e outros.

Além das duas Arcádias, houve outras de menor importância, como a Arcádia Portuense, a Arcádia Conimbricense e os Árcades de Guimarães. Houve também poetas que não fizeram parte das Arcádias, que receberam o nome de “dissidentes” ou “independentes”. Como exemplo temos Filinto Elísio, Nicolau Tolentino de Almeida, José Anastácio da Cunha e a Marquesa de Alorna.

O Arcadismo se caracterizou pelo uso de lemas clássicos (inutilia truncat, fugere urbem, aurea mediocritas) e a valorização e imitação dos modelos da Antiguidade (principalmente Virgílio, Horácio e Teócrito). Podemos compreender bem certas características do movimento ao lermos as páginas doutrinária de Correia Garção. Em uma de suas dissertações, ele trata da imitação dos clássicos, como sendo “o principal preceito para formar um bom poeta”. Garção diz que a imitação tem precedência sobre a inspiração, mas que essa imitação difere fundamentalmente de mero plágio. O poeta deve ser original ao imitar, apropriar-se dos elementos que imita, evitando a simples tradução. É preciso imitar os clássicos para produzir bons poemas. O ponto de vista que Garção expõe em sua dissertação reflete bem o que foi o movimento em Portugal.

A proposta do Arcadismo era cortar os excessos barrocos, considerados inúteis (inutilia truncat). Assim, a poesia deveria ser simples, com uma linguagem direta e gramaticalmente correta. O verso branco era preferido à rima. A poesia árcade louvava a vida simples, cultuava a natureza e as virtudes do espírito. Pregava a fuga das cidades (fugere urbem), tidas como símbolo de corrupção e decadência, para o campo, que para os árcades seria o seu lugar aprazível (locus amoenus). Desprezava o luxo, a riqueza e as ambições, e elogiava a aurea mediocritas, ou seja, a vida pobre tida como mais feliz e mais rica. Aparece o elemento mitológico, sendo que de um modo diferente do que ocorreu no Classicismo e da Antiguidade Clássica, em que era um acervo cultural concreto. No Arcadismo, passa a ser um mero recurso poético de valor duvidoso.

O Arcadismo acabou não produzindo uma obra à altura do que se propôs. Essa valorização do estilo de vida simples dos antigos acabou produzindo uma poesia literária demais, artificial, não condizente com a realidade da época, marcada pela forte urbanização verificada na Europa do século XVIII. A poesia arcádica acabou sendo uma poesia um tanto vazia de emoção, excessivamente racional e comedida. A emoção só voltaria à poesia com o advento do Romantismo.

Essas características evidentemente dizem respeito apenas à poesia. O período neoclássico compreendeu também outras formas de expressão literária, como a prosa doutrinária e pedagógica (com Verney), a tentativa de construir uma novela nos moldes iluministas (é o caso de Teodoro de Almeida [1722-1804] com sua obra Feliz Independente do Mundo e da Fortuna [1779]), além do teatro (com Manuel de Figueiredo [1725-1801], Correia Garção e Domingos dos Reis Quita, que buscaram promover uma renovação do teatro português, para adequá-lo aos novos tempos).
3. Principais Autores e Suas Obras
3.1. Poetas da Arcádia Lusitana

A Arcádia Lusitana não contou com poetas de muito talento e expressão, visto que esses poetas seguiram a rigor a doutrina estética neoclássica. Os membros dessa academia, segundo Massaud Moisés, “são figuras menores que só incidentalmente oferecem momentos de interesse” (1977, 121). Alistarei aqui alguns nomes que se destacaram dentre os poetas daquela agremiação: Antônio Diniz da Cruz e Silva, Pedro Antônio Correia Garção e Domingos dos Reis Quita.



Antônio Diniz da Cruz e Silva (1731-1799), ou Elpino Nonacriense na Arcádia, escreveu Metamorfoses (1792), imitando a obra de Ovídio de mesmo nome. Nessa obra, retratou a natureza brasileira mesclando realidade a imaginação e lenda. Escreveu também O Hissope (1802), um poema herói-cômico por que o autor é mais conhecido. Nessa obra o autor mostrou uma qualidade maior. Além disso, escreveu uma comédia, O Falso Heroísmo, que satiriza os fidalgos, e as Odes Anacreônticas e as Odes Pindáricas, consideradas de fraquíssima inspiração.

Pedro Antônio Correia Garção (1724-1772), cujo pseudônimo arcádico era Córidon Emanteu, mostrou tanto influência clássica quanto quinhentista, francesa e inglesa. Tinha grande habilidade em fazer versos, que ele mostrou em suas Obras Poéticas (1778), além de grande eloquência que se pode ver em seus Discursos Acadêmicos, em que expunha as principais linhas estéticas do movimento arcádico. Mas merece maior destaque sua contribuição para o teatro, com a comédia Teatro Novo (1766) e principalmente com a comédia Assembléia ou Partida (1770), que inclui a belíssima “Cantata de Dido”, inspirada no Canto IV da Eneida de Virgílio, em que o poeta mostra seu maior talento. Segundo Massaud Moisés, esta cantata foi uma “das mais felizes composições poéticas do Arcadismo português” (2006, 220). Além destas obras, compôs duas comédias, Régulo e Sofonisba, que acabaram se perdendo.

Domingos dos Reis Quita (1728-1770), ou Alcino Micênio na Arcádia, publicou suas Obras Poéticas em 1766, pouco antes de falecer. Extremamente lírico e bucólico, mostrou o melhor de seu talento no drama pastoril Licore. Compôs outras peças de teatro, mas não alcançou resultado semelhante.
3.2. Poetas da Nova Arcádia

Dos poetas da Nova Arcádia, tratarei apenas de Domingos Caldas Barbosa e José Agostinho de Macedo.



Domingos Caldas Barbosa (1740-1800), cujo pseudônimo era Lereno Selinuntino, tinha uma característica muito interessante: sua poesia era mais popular, informal, não se enquadrando bem ao estilo arcádico. Escreveu a Viola de Lereno (2 vols., 1798-1826), que reúne suas composições.

O Padre José Agostinho de Macedo (1761-1831), tinha fama de briguento. Teve divergências com Bocage enquanto na Nova Arcádia. Escreveu diversas poesias satíricas, ensaios e poemas filosóficos, porém merece atenção especial seu poema O Oriente (1814), poema épico com o qual o poeta teve a ousadia de tentar suplantar Camões, malogrando em seu empreendimento. De acordo com Massaud Moisés, “o poema é fastidioso e monótono, próprio de quem assimilou a receita épica sem possuir talento para executá-la” (1977, 123).


3.3. Poetas Independentes

Dentre os independentes, tratarei de Nicolau Tolentino de Almeida, Filinto Elísio, José Anastácio da Cunha e a Marquesa de Alorna.



Nicolau Tolentino de Almeida (1740-1811) produziu uma obra diversificada, em gêneros variados, contida em suas Obras Poéticas (1801), mas ficou conhecido pelas suas poesias satíricas. Sua sátira não era maldosa ou agressiva, mas um humor fino e sutil, que mostra uma forte compreensão da miséria humana, sem propósito moralizante ou pedagógico. Tolentino consegue extrair riso de cenas e costumes comuns, expondo-lhes o seu ridículo. Foi pioneiro do gênero caricaturesco em Portugal.

Padre Francisco Manuel do Nascimento (1734-1819), cujo pseudônimo era Filinto Elísio, liderou o Grupo da Ribeira das Naus, insistindo na rigorosa fidelidade à estética e o ideal arcádico. Publicou sua obra poética, Versos de Filinto Elísio (1797-1802), em que deixa transparecer profunda amargura e a paixão platônica pela Marquesa de Alorna. Sua obra é considerada válida mais pela pureza da linguagem. É considerado pré-romântico, tendo influenciado Garret e alguns poetas brasileiros. Foi autor de várias traduções, inclusive na tradução para o português das Cartas de Amor de Sóror Mariana Alcoforado, como já fiz menção neste trabalho.



José Anastácio da Cunha (1744-1787) foi uma figura um tanto contraditória. Estudou Física e Matemática, mas sua poesia era extremamente lírica, apaixonada e cheia de energia. Seus poemas abandonam de vez a rigidez arcádica, mostrando muita emoção e entusiasmo. Foi claramente pré-romântico, antes mesmo que Bocage, como se pode verificar em seus poemas, publicados em 1839 por Inocêncio Francisco da Silva, sob o título de Composições Poéticas.

A obra poética da Marquesa de Alorna (1750-1839), ou Leonor de Almeida de Portugal Lorena e Lencastre, é considerada menos importante que sua vida e sua atividade sócio-literária. Sua poesia, reunida em Obras Poéticas (1844), possui sensível caráter pré-romântico. No entanto, foi menos inovadora que José Anastácio da Cunha, no que diz respeito às características prenunciadoras do Romantismo.


3.4. Bocage

Manuel Maria de Barbosa l'Hedois du Bocage (1765-1805), cujo pseudônimo era Elmano Sadino (“Elmano” é um anagrama de seu prenome e “Sadino” é referência ao rio Sado, próximo do qual nasceu), foi incontestavelmente o maior poeta do século XVIII em Portugal.

No entanto, houve dois diferentes Bocages: um é o das anedotas e obscenidades, muitas delas atribuidas falsamente ao poeta, mais lenda e provérbio que verdade; outro é o Bocage que nos chega através da tradição literária. Apenas este nos interessa aqui.

A obra de Bocage se divide em lírica e satírica. Sua poesia satírica é notável, sendo comparável à de Gregório de Matos. Nela o poeta mostrou grande talento e espontaneidade, mas também agressividade e malícia. Exemplo disto é o poema que escreveu ao Padre José Agostinho de Macedo, intitulado “Pena de Talião”. No exemplo a seguir vemos a linguagem hostil que utiliza no poema:




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