Departamento de filosofia



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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS

DEPARTAMENTO DE FILOSOFIA

HISTÓRIA DA FILOSOFIA CONTEMPORÂNEA I

Profº. Eduardo Brandão

Nome: Álvaro (...)
A transformação do conceito razão: da libertação à dominação.
Assim, ele enxergava no esclarecimento tanto o movimento universal do espírito soberano, do qual se sentia o realizador último, quanto a potência hostil à vida, “nihilista.”1
Kant coloca a razão como responsável pelo progresso humano e também fonte libertadora humana. Nietzche leva esta perspectiva da razão à suas últimas conseqüências e já prenuncia o que mais tarde Horkheimer e Adorno viriam trabalhar: o movimento dialético que a razão possui.
Foi Kant quem colocou a razão como instrumento de libertação do homem, na obra “O que é “Esclarecimento”?”2, ele define como “a saída do homem da sua menoridade de que ele próprio é culpado"3. A menoridade qual Kant refere-se é a incapacidade do homem de se servir ao seu próprio entendimento de forma auto-suficiente, ou seja, a incapacidade de usar a razão de forma autônoma, sem a orientação ou manipulação de qualquer outra força. Kant ainda mostra neste texto as causas da menoridade e como superá-las através do uso privado e o público da razão. Sem a intenção de aprofundar por este caminho, o importante é reconhecer que o uso da razão faz com que o homem se emancipe, ou como nas palavras de Kant, atinja a sua maioridade. É desta forma, que o conceito kantiano de esclarecimento está diretamente ligado ao conceito de emancipação, que irá fazer o indivíduo pensar por si mesmo, ao invés de se submeter à outras autoridades ditadas por forças externas (deuses, mitos, leis da natureza)4. Tomando como horizonte a época em que Kant viveu, o elogio da razão como emancipação do homem, visava livrá-lo da bruta autoridade da Igreja e do peso do Absolutismo e, como último momento, estabelecer uma crítica à própria razão a fim de saber qual é o seu verdadeiro alcance para atingir a verdade. É através da confiança na razão que permite tirar o homem da sua obscuridade. Conquistando a autonomia do pensar é que permite o desenvolvimento das potencialidades humanas e assim, abre-se o campo para o progresso da humanidade. Arendt acrescenta ainda que em Kant o que importa é a astúcia secreta da natureza que engendra o progresso da espécie e o desenvolvimento de todas as potencialidade na sucessão das gerações, por isso “este é o começo da história, seu processo é progresso, e o produto desse processo é chamado de cultura (...)5.

Por outro lado, Nietzche leva o esclarecimento liberdador de Kant ao extremo e consequentemente à sua total inversão, é desta forma que ele reconhece a dialética do esclarecimento antes mesmo da teoria crítica de Horkheimer e Adorno. Pütz mostra o desenvolvimento dessa dialética com as consequências de uma auto-individualização que é identificada na obra “O nascimento da tragédia” 6. Chamando de “homem teórico” aquele cuja obceção pela razão é desencadeada, não é somente este o objeto das análises de Nietzsche, mas expande para saber quais são as consequências deste indivíduo teórico dentro da sociedade teórica. É assim que Nietzche desenrolada a dialética da esclarecimento, como um princípio que tinha a função de destruir os mitos, porém seu próprio processo acaba por recriar um novo mito. Pode-se definir esse processo racional, mas a sua relação com a razão baseia-se na fé, pois ao aplicar a razão através da ciência quer-se melhorar o mundo e os homens, porém, como já dito, estes mesmos homens que diziam-se livres tornam-se vítimas do próprio processo. Aqui teoria crítica não precisa iluminar: Nietzsche, irradia-se suficiente com a própria luz 7.

Apesar da característica fragmentária da obra de Nietzche ainda assim é possível dizer que existe em seu pensamento um dimensão unitária importante para entender sua influência no pensamento dos autores da “Dialética do Esclarecimento” e ela está expressa na questão do “sim à vida” contra a “negação da vontade”. Como Adorno e Horkheimer, Nietzche também busca nos mitos antigos gregos a fonte simbólica para desenvolver sua idéia e trata a questão da individuação pela ilustração de Dionísio, em “O nascimento da tragédia”, que é símbolo de uma unidade cósmica primordial que foi despadaçado pelos titãs (o que era único e absoluto agora tornou-se fragmentado e relativo) desta forma, o sujeito individual e fragmentado é colocado como gerador de conflitos. “O homem de uma época de dissolução, (...) será em média um homem mais fraco8. Se o sentimento de unidade é um elemento conciliador, Nietzche confronta a consciência com a realidade da inviduação e a aceitação dessa realidade resulta na negação da vontade de viver, ou seja, o conhecimento acaba por matar o agir. “Consciente da verdade uma vez contemplada, o ser humano vê apenas o lado horrível ou absurdo do ser”9 . Como é colocado em “Ecce Homo”, Nietzche considera como uma das formas civilizacionais de negação da vontade as religiões, principalmente o cristianismo, em que é considerado por ele como o niilismo mais profundo. Contrapondo ao símbolo dionisíaco retratado em “O nascimento da tragédia” considerado por Nietzche como afirmação do “sim à vida” é o niilimo moderno a forma de negação mais imediata. Assim, criticar a religião é criticar a cultura de negação da vontade. Na figura de Eurípedes reconfigurando a tragédia para torná-la mais assimilável, que podemos entender qual é a função da racionalidade técnica, ou seja, um projeto de ajustamento do mundo que visa anular a contingência e, o que vem a ser o resultado dessa transformação é o reflexo do transformador, porém o que é colocado por Nietzche como vontade de viver não é uma mera submissão à contingência, mas a aceitação da contingência radical da vida .

Por causa das características da racionalidade técnica, o mundo não consegue mais ser assimilado como unidade, então o homem confina ao entendimento a função de juntar os fragmentos ajustados e ainda é levado pela ciência a crer que o somatório desses fragmentos leva à compreensão do todo. O entendimento da causalidade do mundo, dada pela inabalável crença na ciência moderna através da técnica que visa a adaptação necessária do ser para suportar o mundo tal como ele é, é apontada por Nietzche nada mais que uma fuga à dor e é justamente esta fuga que forma um dos traços constituvos do niilismo moderno. “A ciência moderna tem como finalidade: o menos sofrimento possível, viver tanto tempo quanto possível, portanto, uma espécie de eterna bem-aventurança, certamente bem modesta em comparação com as promessas das religiões10” . É assim que o niilismo é considerado como algo que é movido por um único impulso, o pavor da dor e da morte.

Se é a ciência que tem que prover ao homem a anulação da dor e sempre propiciar o prazer, desta forma ela anula o próprio ser, pois a busca por anular a dor acaba por desfazer as resistências que o corpo sente e é por essas resistências que o corpo tem ciência que é também sentido, assim, a anulação da dor acaba por dissolver também o ser na vacuidade, não há mais nada para o corpo sentir e consequentemente não se sente mais. Portanto, o que é aplicado à dor também aplica-se à morte, temer a dor já é temer a morte, pois a dor é o prenúncio do aniquilamento do ser, de que o homem foge.

De uma forma geral, embora Nietzche tenha sido bem crítico, ainda assim não foi capaz de se libertar do ele próprio criou, não foi emancipador. Se por um lado ele está na tradição do razão emancipadora kantiana que endurece em fatos científicos, por um outro lado, ele já não pode aceitar esta última como ciência porque ele nega o seu interesse cognitivo e assim o separou do contexto da vida.

Nietzche e os autores da “Dialética do Esclarecimento” contrampõem-se ao conceito kantiano de esclarecimento, à sua finalidade libertadora, à sua estrutura de dedução e análise matemática, eles reconhecem o entrosamento profundo entre razão e dominação, não distingundo como algo exterior ou mesmo contingente, mas sim como constitutivo da razão. Nietzche, Horkheimer e Adorno buscam as origens do esclarecimento no entendimento da sua dialética intrínseca, que une os conceitos de libertação e iluminação com o conceito de dominação. “Apesar dos percalços e retrocessos, a humanidade chegaria, em última instância, a realizar a promessa humanística, contida na concepção kantiana da razão libertadora. A razão acabaria por realizar-se concomitantemente com a liberdade, a autonomia e o fim do reino da necessidade11.” A diferença agora é de perspectiva, pois ao invés de estarem os indivíduos presos aos mitos antigos ou medievais, os homens estão presos nas amarras do esquematismo do pensamento tecnológico. “No sentido mais amplo do progresso do pensamento, o esclarecimento tem perseguido sempre o objetivo de livrar os homens do medo e de investi-los na posição de senhores. Mas a terra totalmente esclarecida resplandece sob o signo de uma calamidade triunfal12.

O esclarecimento definido assim por Horkheimer e Adorno, assim como em Nietzche tem sua origem no sentimento do medo da dor e buscando livrar os homens deste medo o caminho é fazer tudo cair na espada da dominação:


Do medo o homem presume estar livre quando não há mais nada de desconhecido. É isso que determina o trajeto da desmitologização e do esclarecimento, que identifica o animado ao inanimado, assim como o mito identifica o inanimado ao animado. O esclarecimento é a radicalização da angústia mítica. A pura imanência do positivismo, seu derradeiro produto, nada mais é que um tabu, por assim dizer, universal. Nada mais pode ficar de fora, porque a simples idéia do "fora" é a verdadeira fonte da angústia...13

O processo de desencantar o mundo pela razão deve praticar uma violência contra a natureza, dominá-la, para, de acordo com seu próprio programa, libertar os homens, colocando-os no lugar de senhores do mundo. Mas somente o “pensamento que se faz violência a si mesmo é suficientemente duro para destruir os mitos”. Com este processo de dominação da natureza das coisas, do objeto, em prol de uma libertação do sujeito, há um processo de dominação do próprio sujeito. Os autores colocam a trajetória de Ulisses como o exemplo do herói que foge de todos os perigos em direção a libertação promovida por sua própria razão, trajetória da racionalidade que coloca o sujeito em oposição ao objeto por meio da dominação do primeiro ao segundo e nos mitos antigos já é capaz de identificar os primeiros elementos de dominação.

Esta é a ideologia por trás do esclarecimento, quando os homens pensam que esclarecidos estão libertos da natureza, tanto exterior como interior, na verdade não o estão. Esta “cegueira” se dá pelo desejo de autoconservação, na qual estão presentes os elementos de autodestruição. A violência contra o outro é violência contra si, e o esclarecimento não é outra coisa além de mito, assim como o mito já continha elementos de esclarecimento. 

O ponto crucial para os autores é a verificação de que a razão crítica, ao invés de trabalhar para a promoção do conhecimento e da liberdade, com era esperado em Kant, acabou por promover a “mitologização do esclarecimento sob a forma de ciência positiva14. Desta forma, ao invés de conduzir à produção de um conhecimento que visasse à emancipação do espírito humano, a razão levou à técnica e à ciência positiva, que reforçaram as amarras que o atavam. Essa razão chamada de instrumental, longe de libertar, tem caráter repressivo e ditatorial. A razão converte-se “em uma razão alienada que se desviou do seu objetivo emancipatório original, transformando-se em seu contrário: a razão instrumental, o controle totalitário da natureza e a dominação incondicional dos homens. A essência da dialética do esclarecimento consiste em mostrar como a razão abrangente e humanística, posta a serviço da liberdade e emancipação dos homens, se atrofiou, resultando na razão instrumental15. Neste processo, a ciência positiva converte-se na nova metafísica e o esclarecimento “regride à mitologia da qual jamais soube escapar16. A razão fica submetida ao “imediatamente dado”, ao cálculo e à classificação. Tudo se resume a fatos e números e aquele que não compactua dessa verdade é deixado de lado.

Adorno e Horkheimer em sua obra, ao discutir o ser humano e o desenvolvimento de suas obras espirituais e materiais que culminaram em nosso mundo atual, realizam uma crítica dos conceitos puramente positivos de esclarecimento e progresso presentes nessa “história dos vencedores”. Não se trata de negar a razão ao entender toda a sua trajetória como uma de dominação. Adorno e Horkheimer ao fazerem sua crítica não a fazem em defesa de um irracionalismo contra racionalidade dominante; apontam os elementos que potencialmente levam à decadência a fim de prevê-los e não de modo resignado. 

A transformação do conceito de razão desde sua função libertadora responsável pela totalização do homem até o ponto apresentado aqui de Horkheimer e Adorno que apontam quais são os problemas desse razão agora instrumental que necessita da dominação para se fazer presente, fato já prenunciado em Nietzche, pode ser associado à necessida da época de cada autor, como o reflexo das transformações de pensamento que cada época correspondente estava associada. (melhorar)


Bibliografia

- ADORNO, Theodor W., HORKHEIMER, Max; Dialética do Esclarecimento: fragmentos filosóficos, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1985.

- ARENDT, H. Lições sobre a filosofia política de Kant Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1994.

- DUARTE, R. Adorno/Horkheimer & a Dialética do Esclarecimento Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2004.

- FREITAG, B. A teoria crítica ontem e hoje São Paulo: Editora Brasiliense, 1988.

- KANT, I. Resposta à pergunta: que é “Esclarecimento”? in: Immanuel Kant: Textos Seletos Petrópolis: Vozes, 1985.

- HORKHEIMER, M. Teoria Crítica I São Paulo: Perspectiva: Editora da Universidade de São Paulo, 1990.

- NIETZSCHE, F.W. Obras incompletas in Os pensadores; tradução de Rubens Rodrigues Torres Filho, São Paulo: Abril Cultural, 1983.

- OLIVEIRA, P.R. Dialética negativa como perspectiva para o pensamento. Dissertação se Mestrado. Rio de Janeiro: PUC-Rio, Departamento de Filosofia, 2005.

- PÜTZ, P. Nietzche and critical theory in: Telos nº 50, USA: Telos Press, 1982. p. 104-114.

- SILVA, D.J. Horkheimer leitor de Nietzche in: Cadernos Nietzche nº 7,1999. p. 41-53.

- SILVA, M.W.M. Teoria Crítica na Era da Indústria Cultura. Ou: Uma Análise da Derrota do Esclarecimento. Dissertação de Mestrado. Rio de Janeiro: Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2006.




1 Dialética do esclarecimento, p. 54.

2 KANT, Resposta à pergunta: o que é “Esclarecimento”?.

3 Ibid., p. 100.

4 FREITAG, Teoria crítica ontem e hoje. p. 36.

5 ARENDT, Lições sobre a filosofia política de Kant, p. 12.

6 PÜTZ, Nietzche and critial theory. p. 108.

7 PÜTZ, Nietzche and critial theory. P.109.

8 NIETZCHE, Além do Bem e do Mal §200.

9 NIETZCHE, p. 59.

10 NIETZCHE, Humano Demasiado Humano §128.

11 A dialética do esclarecimento p.20.

12 A dialética do esclarecimento p.19.

13 A dialética do esclarecimento p. 29.


14 A dialética do esclarecimento p.8.

15 Freitag, op. cit, p.35.

16 A dialética do esclarecimento p.38.






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