De Divina Pastora à Mococa: a migração de senhores de engenho do nordeste brasileiro para a rota do café paulista



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De Divina Pastora à Mococa:

A migração de senhores de engenho do nordeste brasileiro para a rota do café paulista

Suzana Barretto Ribeiro


No agreste da Província de Sergipe, durante a segunda metade do século XIX, o processo de desenvolvimento econômico conquistado pela agroindústria açucareira, com base em relações escravistas e no mercado internacional, passa por mudanças gradativas determinadas pela extinção total do regime escravocrata e pela redução das importações do produto. Como adequação às transformações advindas da nova conjuntura econômica, ocorre reações radicais e a família patriarcal sergipana procura formas de resistência às mudanças impostas pela perda do poder econômico.

Diante da impossibilidade de se ter um constante suprimento de mão de obra cativa, a falta de braços para a lavoura aparece na historiografia como uma das causas da crise econômica no nordeste açucareiro. São vários os autores que se propuseram a analisar o tema; Peter Eisenberg, Furtado, Mott, Passos Subrinho, Resende. As pesquisas, de modo geral, convergem no sentido de perceber o fim da escravidão como um momento de mudanças dos referenciais sócio culturais, que até então norteavam as relações econômicas, a convivência social e as relações de poder nas áreas escravistas. Neste contexto, a sociedade, ou seja, libertos, proprietários de terras, homens livres e o próprio Estado viram-se forçados a rever atitudes e estratégias, frente a um processo social que, mesmo estruturalmente condicionado e apesar das diferenças econômica, política e cultural, nenhum de seus atores lograva efetivamente controlar.

Neste artigo, ao perscrutar no terreno da história do desmantelamento da estrutura social procuramos examinar como foram processadas as transformações das relações sociais da elite agrária e as estratégias e reações do grupo frente às mudanças ocorridas no sistema de produção baseado no trabalho escravo e como esta elite enfrentou o desafio de se reorganizar na esfera do universo empresarial. Analisar a trajetória de membros da Família Barretto, proprietários de engenhos de açúcar no final do século XIX, permite vislumbrar as linhas gerais dos abalos provocados pela decadência da economia sergipana e as estratégias adotadas pelo grupo para superação da crise.

Examinando de perto o que se passava anos imediatamente anteriores a crise, percebemos como determinados encaminhamento foram determinantes para a ruptura definitiva da elite agrária com a produção do açúcar. No entanto, para compreender este processo é necessário recuperar a origem destes proprietários de Engenho.

Dos ascendentes da família Barretto, o primeiro proprietário de Engenho em Sergipe foi Albano do Prado Pimentel; em sua sesmaria deu início as atividades do Engenho Dangra, o qual foi subdividido entre seus seis descendentes. Os herdeiros desta geração vivenciaram a “idade do ouro”, em função do processo de substantivo desenvolvimento da agricultura e da exportação de açúcar na primeira metade do século XIX. Após 1850, ano em que foi terminantemente proibida a importação de africanos cativos para o Brasil, a região destes engenhos se destacava na Província Sergipana pelo número de escravos que nela habitava. Nessa região, a relação população escrava/população livre era de 0,54, ou seja, 54 escravos para cada 100 habitantes livres. Nenhuma outra região da Província se aproximava desse índice de concentração da propriedade escrava. Tal fato se devia inequivocadamente à concentração de sua principal atividade econômica, na época a agroindústria açucareira, que tinha encontrado nessa região as melhores condições para o seu desenvolvimento (Subrinho, 2000: 77).

O fim do fornecimento de novos braços escravos para a agricultura, com o advento da extinção do tráfico em 1850, agravado pelo fato de a população cativa não se reproduzir suficientemente para suprir a demanda de mão-de-obra, provocou o primeiro efeito súbito: a elevação do preço dos escravos. O segundo veio como consequência: o corte do suprimento gerou a crise na oferta, não havia braços suficientes para a lavoura (Resende, 2002: 26).

Neste período foram adotadas medidas protecionistas para solução do problema da falta de mão de obra. O programa baseado na adoção de ações envolvendo a população livre, com o objetivo de conduzi-la à substituição ao trabalho escravo e a introdução de equipamentos e processos modernos, no entanto, não contribuiu para melhoria desta situação. Aliado a estas circunstâncias, o mercado internacional, em função da concorrência das Antilhas, também já não assimilava a produção nacional.

De acordo com a análise desenvolvida por Furtado, os proprietários da indústria açucareira, não teriam sofrido as conseqüências do fim do regime escravocrata de maneira drástica. Segundo o autor, durante o decênio anterior a abolição, as usinas de açúcar, sob os auspícios do governo central teriam sido beneficiadas por melhorias técnicas, realizadas mediante o investimento de capital estrangeiro. Assim, de acordo com este modelo explicativo, a aquisição de modernos e eficientes equipamentos para a produção do açúcar, viria suprir a falta da mão de obra escrava sem que houvesse comprometimento da produção (FURTADO, 1982:138).

Entretanto, tal conjuntura, quando analisada isoladamente apresenta nuances distintas da apresentada pela historiografia. Se considerarmos as dívidas contraídas para aquisição dos novos equipamentos e a dificuldade para sua quitação no cenário de redução da exportação do produto, a situação é complexa e traz ainda mais dificuldades para esta classe de proprietários. Como exemplo desta situação, recorremos ao estudo de caso baseado no empréstimo concedido aos primos Antonio Freire de Mattos Barretto e José Vieira Barretto e a trajetória econômica desta família nos anos subsequentes.

Em 1876, mediante Decreto 6265, o governo imperial atende a solicitação de Antonio Freire de Mattos Barretto e José Vieira Barretto (a quarta geração de proprietários de terras), concedendo a estes o capital de 500:000$ para o estabelecimento de um engenho central destinado ao fabrico de açúcar com o uso de aparelhos modernos e processos mais aperfeiçoados (Actos do Poder Executivo: 771). Após a concessão do empréstimo, as transformações nas relações de trabalho e na conjuntura econômica internacional gestaram a crise que se expandiu pelo espaço agrário do agreste sergipano e consequentemente a dificuldade para o pagamento da dívida nos dezesseis anos contados a partir da data do contrato e com câmbio regulamentado em libra esterlina.

A dificuldade para colocação do açúcar no mercado internacional acirrou a crise da mão de obra, impulsionou a crise com repercussão imediata nos engenhos de açúcar e nas empresas diretamente relacionadas a este produto que, aos poucos, encerram as atividades praticadas por seus representantes comerciais radicados na Alemanha, França e Inglaterra e passam a atender a um reduzido mercado interno. De outro lado, a maioria dos estabelecimentos comerciais de capital estrangeiro instalados no agreste, tais como a Casa Inglesa, Schramm e Cia, A. Fonseca, Casa Cruz, Maynart e Irmãos e Soares & Prado abriram falência e seus proprietários abandonam a região. Aos poucos, os consulados da Alemanha, Inglaterra, Suécia, Noruega e dos antigos reinos de Nápolis e Áustria também fecham suas portas (RESENDE, 2009: 216).

A elite agrária, diante da situação é impulsionada a adotar estratégias e ações de resistências; Correspondências e documentos pessoais mencionam medidas neste sentido; dentre elas, a opção pela extração do sal no Estado do Rio Grande do Norte como alternativa ao monopólio exercido pelo Rio de Janeiro. No entanto, as iniciativas não tem o resultado esperado. A maioria dos engenhos tem sua produção encerrada e as cidades da região, em menos de duas décadas entram em decadência. Compreende-se que em função do mercado cada vez menos promissor, os senhores de engenho desta região transitaram da posição de liderança econômica no Império à de marginais no mercado internacional e credores da República.

Com a falta de opções na Província, a decadência das empresas e a condição de isolamento, o êxodo, apesar de pouco estudado pela historiografia, é uma das poucas alternativas que resta ao grupo. Alguns tem como destino o sul da Bahia, e a tentativa de inserção na cultura do cacau. Outros, no entanto, arriscam-se num destino mais distante; a percepção de que neste mesmo período, na região sudeste, estava em gestação a economia cafeeira, cuja produção, em poucas décadas, permitia ao país reintegrar-se nas correntes em expansão do comércio mundial, foram determinantes para que um grupo de senhores de engenho da Comarca de Laranjeira, mais especificamente Divina Pastora, Maroim, Riachuelo e Vassouras, deixassem suas terras para investir em atividades econômicas, transações comerciais e financeiras direta ou indiretamente relacionadas ao capital ao cafeeiro.

Na última década do século XIX, 28 membros da Família Barretto já haviam deixado suas terras na província de Sergipe com destino à Mococa. O êxodo da elite agrária e de outras classes sociais é divulgado pela imprensa sergipana:
(...) “já não são apenas os inditosos e deserdados trabalhadores que procuram melhor plaga para suas fadigas; o êxodo já vai se dar, mesmo entre os mais favorecidos da sorte, entre os mais abastados dos agricultores.

Tendo amoedado crescido capital retiram-se agora ao satélite, com destino a São Paulo com suas famílias, os digníssimos sergipanos Vieira Barretto, Freire de Mattos Barretto levando em sua companhia avultado numero de possantes e bons trabalhadores.” 1


De acordo com dados fornecidos por Queiroz (Queiroz, 1900: 107), a população da cidade era constituída por significativo numero de imigrantes, dentre eles, 28 sergipanos.


Nome

Engenho

Grau de parentesco

Profissão em Mococa

Antonia Eugenia Barretto

Engenho Campanha

Mãe




Augusto Freire de Mattos Barretto

Engenho Contadouro

Filho

Médico

Adolpho Coelho Freire de Mattos Barretto

Engenho Contadouro

Filho

Advogado, Deputado Estadual, Juiz de Direito e outros cargos públicos. Estabeleceu-se em Mococa em 1905, como Delegado de Polícia e comerciante de café

Lucino Freire de Mattos Barretto

Engenho Contadouro

Filho




Clotilde Barretto Prado










José Vieira Barretto

Engenho

São José


Pai




Leopoldo Vieira Barretto

Engenho

São José


Filho

Laticínios Mococa

Francisco Muniz Barretto

Engenho

Vassouras



Órfão

Guarda Livros no Banco União, agência Santos; em 1902, transfere-se para Mococa, onde se estabelece como proprietário de Armazém, de Estabelecimento de beneficiar arroz, Agência de automóveis e Acionista da Casa Bancária F. Barretto & Cia.

Izabel Barretto Prado

Engenho

Vassouras



Órfã

Laticínios Mococa

Etelvino de Menezes Prado Barretto










Francisco Muniz Barretto







Médico da Santa Casa de Mococa

João Azevedo Barretto







Comerciante e fabricante de licores finos

A. Livramento Barretto







Médico da Santa Casa de Mococa

Francisco Vieira Barretto










Antonia Eugenia Barretto

Engenho Campanha







Albano Prado Pimentel







Advogado, promotor público em Mococa

Antonio Muniz Ferreira







Médico

Acompanhar as opções, os arranjos e escolhas deste grupo nos permite compreender o potencial do grau de instrução da elite agrária sergipana que favoreceu a inserção social do grupo no universo da elite agrária paulista e, sobretudo, as formas de prospecção e de ingresso em atividades econômicas relacionadas a cultura cafeeira. Em última instância e como decorrência, este processo está inserido num movimento mais amplo no qual a acumulação da riqueza, do patrimônio e de diversificação do capital esta diretamente relacionada às mudanças e investimentos em infra-estrutura urbana, ou seja, na demarcação dos lotes urbanos, na canalização de água, instalação de rede de esgotos, introdução da energia elétrica e na construção de Escolas e Hospital.

Mococa está situada na região nordeste do interior paulista; é a última cidade favorecida pela Companhia Mogiana, antes desta alcançar a Província de Minas Gerais. É provável que a escolha desta cidade tenha se dado pelas oportunidades oferecidas em função da expansão da cafeicultura. Em dois anos consecutivos, 1893 a 1895, a alta do café teve repercussões visíveis na pequena vila; o crescente fluxo de migrantes e imigrantes estrangeiros, a diversificação do comércio e as safras surpreendentes de café, que em 1901 chegou a atulhar salas de visitas das residências e até mesmo o Teatro Municipal (Queiroz, 1913: 105), constituem alguns dos componentes relacionados ao potencial da cidade e que provavelmente tenha mobilizado o interesse destes ex-proprietários de Engenho.

Foi somente no contexto de crise do Vale do Paraíba, do escasseamento e esgotamento das terras do Oeste paulista que teve início a interiorização do café em direção a região Nordeste que, em pouco tempo, se destacou como zona produtora. De acordo com Bacellar, a crise das lavouras cafeeiras do Vale do Paraíba fez com quem muitos fazendeiros migrassem rumo às terras da Mogiana, “servindo como autêntico chamariz para outros investidores na cafeicultura” (BACELLAR, 1999: 119). O Nordeste do estado diferenciava-se das regiões já exploradas, pois em função da distância dos centros de distribuição, constituía-se em território a ser explorado e com vastas áreas de mata a serem ocupadas com a cultura de café.

Na virada de século XIX, na região ainda sem grande importância econômica, o valor das terras era bastante distinto dos praticados no oeste paulista. Além disto, as possibilidades de realização de negócios e de empreendimentos estavam por acontecer. Em menos de uma década, a Vila sem importância econômica, torna-se o centro comercial das cidades vizinhas; assim os depósitos comerciais, as casas comissárias e de serviços sediadas em Mococa passam a constituir atrativos para realização de transações comerciais e financeiras.

A chegada do grupo de sergipanos com capital para investimento em diversas atividades econômicas relacionadas ao café e do contingente de imigrantes europeus, sobretudo italianos favoreceu o desenvolvimento de novos equipamentos e serviços, importantes no suporte dessas atividades, satisfazendo o anseio que os novos grupos sociais, emergidos do negócio café, reivindicavam. Assim, o processo de aceleração do desenvolvimento agrícola, da dinâmica econômica e da urbanização de Mococa constituíram-se em fatores determinantes para interação do grupo na comunidade local.

Neste contexto, procuramos acompanhar as formas de inserção social, as redes de relacionamentos e o processo de acumulação nos primeiros anos após a chegada do grupo na cidade.
Processos de interação da elite sergipana e da família patriarcal do oeste paulista
No estudo realizado por Ricardo Gumblenton Daunt sobre Diogo Garcia da Cruz, o fundador de Mococa e seus descendentes, o autor concentra-se na recuperação da origem dos primeiros moradores da região, a partir de 1835. Com base na genealogia e na pesquisa de campo, recupera a ocupação do território, as primeiras atividades econômicas e a introdução das primeiras plantações de café (DAUNT: 1974).

Ao percorrer a trajetória dos descendentes de Diogo Garcia, constatamos mecanismos de acumulação e de transmissão de terras às futuras gerações. Para os primeiros descendentes, a família constituiu uma das bases fundamentais do processo de acumulação de modo que os casamentos consanguíneos caracterizavam a centralização dos negócios e faziam parte da estratégia para manutenção do patrimônio familiar.

Diante da chegada de famílias da elite sergipanas da, a sociedade local vê a possibilidade de ampliar a rede familiar e também dos negócios. Começa, neste momento, a construção de nova rede de relacionamentos tecida por membros da elite agrária do café e da elite decadente do nordeste açucareiro. Ambas reconhecem os avanços e novas possibilidades que as alianças favorecem.

A realização de empreendimentos e de negócios conjuntos, a parceria na administração das fazendas, na constituição de empresas públicas e a fundação de banco e de casas comissárias constituem algumas das oportunidades que a união familiar favoreceu.

Ao percorrermos, como estudo de caso, a trajetória de dois destes patriarcas, reconhecemos nestes percursos, a tessitura entre as relações de matrimônio e associações em negócios e empreendimentos bem sucedidos. Esse movimento dinâmico irá propiciar o desenvolvimento de novas atividades comerciais, industriais e financeiras.

Como decorrência do processo de inserção da elite sergipana nos meandros dessa nova sensibilidade, procuramos demonstrar como a migração foi fundamental para o grupo proveniente da decadente economia açucareira se recuperar financeiramente, se consolidar na ordem econômica regida pela cultura do café e por outro lado, como a experiência de sucesso e a formação rigorosa aliada ao poder dos proprietários da terra contribuíram para a repetição do sucesso financeiro dos negócios provenientes do café e que permitiram o investimento na melhoria da infra estrutura urbana e na diversificação dos empreendimentos.

O procedimento de acompanhar estes indivíduos no tempo permitirá o exame das mudanças de suas ocupações. A opção não só por um novo território, mas também por atividades econômicas inicialmente de caráter familiar e, em seguida, por trajetórias individuais, garantiu a acumulação de capital e a inserção em atividades empresariais e financeiras. Deste modo, estes empresários e fornecedores de crédito tiveram um papel atuante na expansão da cafeicultura, no desenvolvimento de Mococa e, em poucas décadas acumularam as maiores fortunas da região. Assim, a economia cafeeira possibilitou a continuidade de atividades pretéritas moldadas à nova realidade e a abertura de novas opções de caráter financeiro.

É importante salientar que dos descendentes diretos dos primos Antonio Freire de Mattos Barretto (Engenho Contadouro) e Felizmino Muniz Barretto (Engenho Vassouras) que migraram para o interior paulista, este estudo concentrará a análise nos negócios liderados pelos primos Augusto Freire de Mattos Barretto e Francisco Muniz Barretto; o percurso de cada um será recuperado desde sua formação escolar, as primeiras experiências na inserção do mercado de trabalho e o envolvimento na política local.

Os Muniz Barretto, desde os tempos do Império, tiveram acesso as ecolas de elite no Brasil e no exterior. Felizmino Muniz Barretto formou-se na École Imperiale d´Agriculture de Grignon. Como proprietário de Engenho, procurou implementar conhecimentos técnicos na produção agrícola; Em Divina Pastora e Maroim atuou politicamente e, como benemérito, construiu o prédio e doou o acervo do Gabinete de Leitura de Maroim.

A preocupação com a formação escolar esteve presente na geração dos filhos. Francisco cursou o colegial no Colégio São Luiz de Itu, e concluiu seus estudos no Colégio João Florêncio em Salvador. Em 1892, menor de idade e órfão de pai e mãe, acompanhou tios e demais parentes na mudança para Mococa, porém, nesta época, não fixou residência na cidade. Trabalhou na filial do Banco União, na Praça de Santos e na Lidgerwood Manufacturing, em Campinas. As duas experiências foram determinantes para aprimorar conhecimentos na área financeira e para sua inserção numa rede de relacionamentos que favoreceu o trânsito necessário para abertura de negócios na cidade de Mococa.

Em seu primeiro estabelecimento comercial recorreu a associação de caráter familiar, e, em seguida, optou por atividades financeiras fundamentadas em linhas de crédito para a produção cafeeira. Assim, em 1901, após breve atuação na Casa Comissária Ribeiro, Prado & Barretto, adquiriu a Casa comercial da firma Ribeiro, Barretto & Ribeiro. Em 1902 obteve carta patente para abertura da Casa Bancária F. Barretto & Cia., com capital de 40 contos de réis; para fundação destes empreendimentos associou-se a outros capitalistas.

O casamento com Lavínia de Figueiredo Barretto, filha de um dos maiores proprietários de terras da região, o coronel Francisco Garcia de Figueiredo, em 1903 irá reforçar ainda mais os laços econômicos com produtores de café.

Simultaneamente às atividades financeiras, ao procurar a diversificação dos negócios, avançou na direção de setores que exigiram a mobilização de recursos e o avanço no sentido de dotar a cidade de estruturas que irão contribuir para o desenvolvimento urbano e econômico. As empresas, desta forma tiveram colaboração fundamental para que cidade estivesse adequada ao conceito de modernidade e capacitada para receber empreendimentos na área industrial.

No ano de 1903, da associação com o sogro e outros capitalistas da elite local resulta a fundação da Empreza Souza, Barretto & Cia., concessionária dos serviços de Força e Luz de Mococa, cuja inauguração ocorreu em 1905. Mais tarde, em 1907, os mesmos sócios, fundam a Companhia Melhoramentos de Mococa, concessionária de serviços de água e esgoto.

Em 1905, com capital acumulado e já desvinculado das relações familiares, F. M. Barretto adquiriu integralmente a instituição financeira da qual era associado, alterando o nome para Casa Bancária F. Barretto e aumentando o capital para 100 contos de réis. Além dos empreendimentos financeiros, dedicou-se, ao plantio do café, fazendas de gado bovino, diversificando os seus investimentos em estabelecimento comercial, um armazém de ferragens, louça, molhados, além de engenho central de beneficiar arroz, equipado com implementos importados da Alemanha e movidos a energia elétrica (Impressões do Brazil no século XX, 1913: 740).
Seu primo, Dr. Augusto Freire de Mattos Barretto, filho Antonio Freire de Mattos Barretto, um dos autores da solicitação de empréstimo destinada a modernização do Engenho, estudou no Colégio Henrique Kopke, em Petrópolis e no Colégio São José, em Salvador. Posteriormente, cursou a Faculdade de Medicina no Rio de Janeiro. Ao concluir os estudos, a família já não atuava no ramo da produção de açúcar. Com pouca condição de trabalho em Sergipe, aceitou o convite de seu parente Albano Prado Pimentel, que havia sido promotor público em Mococa e transferiu-se em 1883 para esta cidade, com a mãe viúva. Nesta ocasião, iniciou carreira de profissional liberal, político e produtor de café. Em 1888, casou-se com Marianna Dias de Lima, filha de do capitão Antonio José Dias de Lima.

Acompanhando os passos do sogro e com o apoio da elite local, em 1889 foi indicado para o cargo de deputado estadual; com proclamação da república a indicação foi acomodada no cargo de juiz municipal. Em 1892, foi eleito intendente municipal e ocupou diversos cargos públicos e encerrou sua carreira política como deputado estadual, em 1922. Declaradamente adepto do PRP, manteve vínculos e representou interesses dos fazendeiros de café e profissionais liberais que ascendiam dentro da sociedade local (BARRETTO, 2002:13,14).

As atividades políticas não o afastaram da administração de sua propriedade agrícola, a Fazenda Morro Azul que, em 1912 totalizava 500 alqueires localizados no município de Mococa e da condição de sócio do fundador e secretario da primeira diretoria da Empreza Souza, Barretto & Cia., concessionária dos serviços de Força e Luz de Mococa.

Considerações finais
A farta documentação que pertenceu ao empresário Francisco Muniz Barretto permite reconstruir aspectos pouco conhecidos da história social e econômica de Mococa, que se refere a chegada dos migrantes sergipanos na cidade em um dos períodos de maior prosperidade desta cidade. Por outro lado, o a inserção nas atividades econômicas e políticas locais ão reveladoras de como o grupo estava inserido na dinâmica econômica que conduzia a cidade, conduzida pelo sucesso do negócio café.

Resgatar a trama da rede social e financeira criada pela família Barretto permite ainda conhecer a trajetória profissional destes empresários e profissionais liberais.



Bibliografia
Periódico Monitor Paulista, Ano III, no. 106, Mococa, 11 de janeiro de 1891

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Arquivos consultados
Coleção particular de Francisco Muniz Barretto


1 Nota extraída do Correio Paulistano, transcrita da Gazeta de Sergipe, de 13 de dezembro de 1890. In: Monitor Paulista, Ano III, no. 106, Mococa, 11 de janeiro de 1891.






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