Das palmeiras morrer a sombra das palmeiras



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MORRer A SOMBRA

DAS PALMEIRAS



MORRER A SOMBRA

DAS PALMEIRAS
Konsalik
CÍRCULO DE LEITORES

Título original: i


STIRBT SCHON GERNE’I
UNTERPALMEN
Tradução de: FELBBELA GODINHO CARNEIRO
Capa de: MANUEL DIAS
© 1973 by Hestia-Verlag GmbH, Bayrenth/Western Germany
Fotocomposto em Times 10/10 por Fototexto
Impresso e encadernado por Printer Portuguesa, Lda.
no mês de Janeiro de 1981
2.” edição: 10000 exemplares
Só é permitida a venda aos sócios do Círculo
Balançou sobre o mar, recuou depois quando as águas, volteando sobre si, rolaram para terra, cavalgou sobre a crista das ondas e foi atirada sobre a areia, juntamente com algas meio desfeitas, tábuas de caixotes, uma garrafa de cola, cascas de banana, duas maçãs podres e três medusas; era uma garrafa vulgaríssima, branca, com uma tampa estanque, mas brilhantemente revestida de algas verdes-acastanhadas.
Tinha havido uma tempestade violenta durante a noite. As gigantescas ondas do mar do Norte tinham invadido, ecoando estrondosamente, a costa oriental de Norderney, destruindo as construções da praia, situadas demasiado próximo do mar, arrasando tudo. Sabia-se na ilha que aquilo ia acontecer. O aviso da tempestade tinha sido dado a tempo pela rádio Nordderch, os guardas da costa tinham rebocado os cestos da praia para as dunas protectoras e afastado a maior atracção das praias orientais - os carros da praia, velhos e coloridos.
O mar tinha inundado a praia com um estrondo atroador.
Depois, pela manhã, o mar surgiu baço sob o sol leitoso.
Lars Liiders estava já levantado às cinco horas da manhã, para iniciar o seu trabalho de limpeza da praia, antes de chegarem os primeiros veraneantes com colchões de borracha, cadeiras de repouso, bandeiras, bolas, rádios portáteis e animais de borracha insufláveis, ocupando os seus castelos destruídos, como se conquistassem o campo do inimigo, rebolando-se novamente pela areia branca, cavando, com as pás, grandes trincheiras, assinalando os «baluartes» assim construídos com conchas e pedras, chamando-lhes Kòln Darmstadt, Wanne-Eickel, ou, muito pessoalmente, Villa Mathilde e Kleine Mõwe (Pequena Gaivota), içando a bandeira alemã em
1 Os cestos da praia são uma espécie de cadeiras cobertas, muito usadas nas praias do Norte. (N. do T,) ,

varas de bambu (alugadas ao guarda da praia ou compradas a preços que iam de quatro a sete marcos, conforme o seu tamanho), e iniciando um vozear estridente assim que os filhos da fortaleza vizinha, brincando, se aproximavam demasiado da trincheira de areia, ameaçando a ordem dentro da fortaleza. Assim se revelava a aptidão alemã para o assalto e a defesa, e o seu apego profundo ao espaço conquistado.


Agora, a estas horas matutinas, o mar e a praia estavam cheios de um silêncio imponente e de uma beleza impressionante.
Lars Lúders arrastava consigo um carro de ferro, em forma de banheira, empurrando-o através da areia branca e fina, apanhando assim o lixo que o mar tinha espalhado. Parava algumas vezes, escolhia algumas madeiras que ainda podiam ser aproveitadas, sentava-se depois, como todas as manhãs, num cesto, fumava o seu cachimbo e olhava para o mar.
Estes minutos de descanso eram o mais belo momento do dia. Estava sozinho com o seu mar. Sozinho com o vasto céu. Sozinho com as recordações.
Aquilo das recordações era uma coisa bem séria.
Até há dez anos antes, ele próprio tinha ido para o mar, num vapor que transportava bananas do mar das Caraíbas para Bremerhaven. Sempre de um lado para o outro, sempre só bananas, às vezes também alguns passageiros que queriam gozar o romantismo de um Trawler e confundiam o maldito trabalho que ali se levava com a alegre vida dos marinheiros.
Depois, veio o nono Outubro.
Lars Luders caiu de uma escada no Port of Spain, partiu a perna esquerda em três lados e quatro costelas, sendo transportado de avião para Bremerhaven, a expensas da companhia de navegação.
As grandes viagens por mar tinham acabado para ele.
Correra, então, de médico para médico. Fora observado, por sua conta e gastando o próprio dinheiro que conseguira amealhar, por uma série de especialistas de ossos; processara, num acesso de sentido de justiça obstinada, até mesmo a companhia de navegação; lutou encarniçadamente pelo trabalho da sua vida - a rota das bananas entre o mar das Caraíbas e Bremerhaven -, incomodou todos os departamentos competentes que, espantosamente, se revelaram como não sendo nada competentes, afinal. Mas todas as correrias e tentativas, todas as estadas nas clínicas, consultas em especialis-

tas e uma montanha de requerimentos e reclamações não ajudaram em nada.


Luders coxeava... e nas vias marítimas cristãs modernas, um marinheiro coxo é qualquer coisa como um piloto cego.
Com 52 anos, reconhecido oficialmente como inválido, voltou para Norderney, andou pelos baixios durante um ano, com uma pequena embarcação que herdara para a apanha de camarões, só para demonstrar aos sabichões dos vários departamentos que a ele não havia onda que o destruísse e que, com a sua perna coxa, conseguia ficar de pé num barco com tanta segurança como qualquer fedelho.
Mas também isso correu mal um dia. Num mar completamente calmo, um mar à vista do qual se pode bocejar e os olhos chegam a ficar sonolentos, escorregou na prancha, numa casca de banana, Deus seja louvado! E partiu a perna outra vez.
Lars Luders resignou-se, mas também não voltou a comer bananas na sua vida.
Depois do seu regresso do hospital, no Norte, onde lhe curaram aquela complicada fractura, e na verdade tão primorosamente que Luders apenas coxeava ligeiramente (mas continuava, oficialmente, a ser dado como inválido e incapaz para a vida do mar), tornou-se trabalhador da administração da estância balnear; arrastava cestos na praia de um lado para o outro, alugava postes de bambu para as bandeirinhas (e içava as bandeiras alemãs), cadeiras de praia e redes, vendia, por bom dinheiro, moradas de pensões de jovens atraentes a senhores mais velhos e bem situados na vida, limpava todas as manhãs a areia dos entulhos que o mar e as gentes por ali deixavam, os restos da civilização e de uma boa educação, para defesa do meio ambiente, deixou crescer a barba, selvagem, desgrenhada, de uma brancura bastante provocante (natural, não pintada!) e tornou-se, para os veraneantes, com o decorrer dos anos, o símbolo do velho homem do mar.
Luders falava também, muitas vezes, de aventuras verdadeiramente loucas que tinha vivido no mar do Sul (que ele nunca tinha visto, mas tão só o barco de bananas, o seu grande destino), contava a um círculo de aterrorizados e atentos veraneantes histórias sobre ciclones tremendos, lutas com tubarões, até que ele próprio se começou a chamar o Lars do mar do Sul.

E, lentamente, começou a sentir-se satisfeito com a vida que levava.


Naquele dia, depois de ter batido com o cachimbo no salto da sua bota, descobriu a garrafa. Liiders transportou-a na sua enorme pá, deixou-a resvalar para dentro do carrinho de ferro e ia voltar-se para continuar o seu trabalho, quando reparou que, por entre as algas que envolviam a garrafa, alguma coisa brilhava.
Meteu a mão no carro, retirou-a de entre o lixo, segurou-a de encontro ao sol e depois aproximou-a, espantado, do nariz.
Dentro da garrafa encontrava-se uma folha de papel, dobrada. Era acastanhada, como que curtida pelo sol. Liiders afastou as algas com a manga do seu casaco, tentou tirar-lhe a rolha, de metal, mas esta estava enferrujada e como que colada ao vidro, fundindo-se com ele.
Metendo a garrafa no bolso do casaco, resmungou:
- Espera, que já te abro!
E continuou a caminhar pela areia, no seu trabalho de todos os dias.
Estava atrasado. Os primeiros banhistas começavam já a aparecer sobre as dunas. Madrugadores, na maioria nudistas.
Vagueavam pelos montes de areia e procuravam as suas cadeiras, salvas da enxurrada.
Só por volta do meio-dia Luders teve tempo para se lembrar da sua descoberta. Juntamente com os outros banheiros, sentou-se numa sala de espera do restaurante da praia, fumou o seu cachimbo, leu o jornal e, de repente, o reclame de uma limonada fê-lo agarrar o bolso esquerdo do seu casaco amarrotado. Ela ainda lá estava; tirou-a para fora, colocou-a sobre a mesa, bateu com o dedo indicador na tampa enferrujada, tossicou para chamar a atenção dos colegas e aproximou a garrafa da luz que entrava pela janela.
- Que dizem a isto? - perguntou ele, olhando à sua volta.
Os outros lançaram uma olhadela à garrafa e riram. Com Luders nunca se sabia o que se poderia seguir a uma pergunta daquelas; rir era, por isso, uma coisa sempre acertada.
- Brincadeira, logo pela manhã? - perguntou um homem seco que se chamava Ludwig Sickers.
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- Cheguem cá! - exclamou Luders, erguendo a garrafa contra a luz do Sol. - Está uma carta lá dentro!
- Do mar do Sul, Lars? - perguntou o gordo Enno, capataz da administração da estância balnear e o único do grupo com um bom contrato, não apenas na época do Verão.
Recostou-se para trás, esticou as pernas e continuou:
- Está bem, Lars! Abre lá essa coisa. De certeza que é uma carta de amor da tua noiva no Havai.
- Uma rapariga bem jeitosa! - exclamou um outro. Sem porto...
Luders arrependeu-se de ter mostrado a garrafa. Voltou a erguê-la contra o sol. O papel amarelado virou-se dentro daquele espaço apertado. Embateu levemente contra o vidro.
- Parece tão malditamente autêntico... - disse ele, estendendo a garrafa a Enno. - Acho que a devíamos levar à polícia.
- Para o correio! - disse Enno, sorrindo descaradamente.

- Mas falta o remetente, Luders! Por correio expresso e carta registada.


Os outros banheiros desataram à gargalhada. Luders olhou-os, zangado, voltou a meter a garrafa no bolso e saltou.
- Idiotas! - disse ele, inteiriçando-se. Abriu a porta e saiu precipitadamente.
Andou durante todo o dia com a garrafa, colocou-a debaixo do balcão enquanto atendia ao seu serviço de distribuição de cadeiras e pás, perguntou a si próprio se havia de mostrar a sua descoberta a um veraneante que se chamava doutor Pútz e que, como professor, poderia seguramente dar-lhe algum conselho; mas não lhe perguntou nada, porque não tinha a certeza absoluta se não se tornaria outra vez objecto de escárnio e de chacota por causa da sua garrafa. Mas quando ficou livre já à tardinha e se dirigiu na sua bicicleta para casa, uma casa pequena coberta de tijolo holandês, sentiu-se envolvido por uma excitação indescritível, dominadora, poderosa.
Colocou a garrafa sobre a mesa, aproximou o candeeiro; rodou-a lentamente entre as mãos como um investigador faria a um vaso egípcio acabado de descobrir, coçou a barba e deixou-se ficar afundado em cogitações, pensando se deveria mostrar a garrafa à polícia. Só mostrar... só para ouvir um conselho... embora soubesse que receberia apenas um sorriso escarninho como resposta. O Lars do mar do Sul com uma garrafa-correio! Uma nova sensação das praias?

Lúders acomodou-se numa cadeira, em frente da garrafa, e ficou a olhar fixamente para o papel acastanhado.


«Deita-a fora! - pensou. - Fazem pouco de ti por causa dela. Um garoto qualquer atirou-a ontem para o mar, e tu, velho idiota, pescaste-a hoje e deixas-te enrolar.»
Mas eram pensamentos forçados. Qualquer coisa dentro dele era mais forte: uma pressão palpável, um aviso surdo para não atirar para o lixo aquela garrafa com o seu papel amarelado.
- Aguenta-te! - disse, depois de longa meditação. Lars, deixa-os rir!
Meteu a garrafa num saco de plástico, no qual se lia INSELBRAUN durch Solecreme (1), assegurou-se, por uma nesga da porta, de que não havia ninguém por perto e, a coberto da escuridão, dirigiu-se para a estação da polícia.
- A entrega de correio por meio de garrafas já quase não se usa, desde a introdução dos selos! - disse, com marcada ironia na voz, o primeiro-sargento Korl Bergsen, que fazia ali o serviço da noite, a quem uma cafeteira de café ajudava a passar o tempo.
Procurou, todavia, dominar-se e não ser mais mordaz, pois Liiders atirara-lhe ainda da porta:
- Korl, é um assunto de serviço! Não te rias. Olha que isto, para mim, é uma coisa bem séria!
Bergsen serviu-se primeiro de uma taça de chá, misturou-Lhe natas e depois açúcar, uma espécie de cerimónia do chá, como fazem os japoneses e os chineses. Sorveu um gole cauteloso da bebida escaldante e fumegante, ocupando-se depois, à força, da garrafa.
Lúders bateu com os nós dos dedos contra o vidro, como que a avisar que não se podia mudar o tema da conversa e que tinha de se tomar atenção.
-- Bom, ela pode ser autêntica - começou Bergsen dando a entender que a garrafa devia ser deixada ali na polícia.
- A maré da noite - disse Lúders. - Korl, foi a maré da noite que a trouxe.
1 Bronzeie-se com Solecreme. (N. do T.)
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- Ela traz muitas coisas! Por isso é que tu ainda vives, Lars!
- Tive um pressentimento estranho. Abre lá essa coisa, Korl. Estava cheia de algas e de lixo quando veio para terra. De ontem é que ela não é!
Bateu com o indicador na tampa e continuou:
- Está toda enferrujada...
- No mar isso acontece rapidamente, Lars, sabes isso muito bem. O sol, o ar, fica tudo oxidado. Chamam-lhe corrosão.
Bergsen segurou a garrafa sobre a secretária, inclinou a cabeça, observou-a atentamente e tentou tirar-lhe a tampa. Mas, embora fosse um homem forte, não o conseguiu.
- Se fosse assim tão fácil... - disse Liiders, complacente.
- Nesse caso, vamos parti-la oficialmente! - disse Bergsen. - Dos fenícios é que ela não deve ser, pois eles ainda não conheciam estas tampas.
Abriu a gaveta e tirou um pequeno martelo lá de dentro. Porque é que o primeiro-sargento Bergsen tinha sempre um martelo na sua secretária, ninguém sabia, mas de certeza que aquilo não tinha nada a ver com o armamento escasso da polícia alemã.
Fez pontaria à garrafa.
- Cuidado, Korl! - resmungou Lúders. - O papel! Bergsen levantou o braço para tomar balanço. A garrafa
estilhaçou-se e os pedaços de vidro espalharam-se, faiscantes, sobre a mesa. O papel dobrado esvoaçou como uma ave ferida, caiu sobre os cacos e o canto esquerdo abriu-se.
- Podre como uma isca! - disse Bergsen desconcertado.
- De anteontem é que ele também não é! - disse Lúders, com um acento de triunfo na voz. - E... o papel não enferruja. .. mas fica quebradiço, com o tempo... que dizes tu a isto?
Com a ponta dos dedos, muito cautelosamente, Bergsen tentou desdobrar o papel. Estendeu uma grande folha de papel branco sobre a mesa para ser mais fácil juntar os pedaços da velha carta, no caso de esta se desfazer.
Demorou mais do que um minuto mas, finalmente, conseguiu abrir completamente a folha, sem lhe causar quaisquer danos. Lúders inclinou-se para a frente, ansioso. Respirava ofegantemente.
- Não sopres como uma morsa! - resmungou Bergsen.
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- Se atiras com o maldito papel contra a parede, fica tudo arrumado de vez!


Era, com efeito, uma carta. Ressequida pelo sol, escrita a lápis, as letras mais parecendo pequenos esqueletos pálidos.
- Ora esta! - disse Luders, lentamente. A sua voz saía-lhe insegura. - Bem se podem rir agora!
- Uma coisa destas pode enganar qualquer um! - disse Bergsen.
Rodou o braço do candeeiro, de modo a que a luz incidisse directamente sobre a carta.
- Há coisas completamente diferentes, Lars. Chegam até a enterrar objectos em terra húmida e depois vendem-nos como se fossem descobertas do século XVII... Uma carta assim é uma ninharia, quando comparada com essas coisas. Além disso, ela está escrita em alemão. Muito suspeito, Lars! Onde já se viu uma garrafa-correio alemã? Todas as garrafas-correio autênticas e históricas tem origem em Inglaterra, Espanha e Portugal. E são fechadas com lacre ou com alcatrão. Mas em alemão! Nunca.
- Lê lá - disse Luders. - Não fales tanto, Korl, e lê!
Era difícil deslindar aqueles pequenos gatafunhos cinzentos. Bergsen leu lentamente, aos tropeções, à medida que ia conseguindo perceber e juntar as letras. Palavra a palavra a garganta foi-se-lhe tornando mais seca.
29 de Abril de 1965
Eu, Werner Backer, de Lúbeck, naufraguei numa pequena ilha isolada, no oceano Pacífico. O meu iate a motor foi destruído por uma tempestade e afundou-se arrastando com ele a minha mulher e os meus três filhos. Apenas eu continuo ainda vivo. Agradeço a Deus por isso. Mas, ajudem-me! Ajudem-me! Ajudem-me imediatamente! A água que me resta é já bem pouca e os alimentos que ainda tenho só chegarão para alguns dias. Alguém tem que me vir buscar! Tenho uma perna partida e não posso, por isso, ir até ao interior da ilha. Estou completamente desamparado. Salvem-me! A ilha fica, segundo julgo, à longitude de 140 graus oeste e latitude de 12 graus sul.
Socorro! Socorro! Salvem-me!
Bergsen colocou uma folha de papel limpa sobre a carta amarelecida. Engoliu em seco algumas vezes, pegou na taça

de chá, bebeu um gole arrastado, olhou para Luders e dominou-se para manter o comportamento aprumado de um polícia, que nada deste mundo deve abalar.


- Que disparate! - disse Bergsen roucamente. - Mil novecentos e sessenta e cinco. Já lá vão seis anos! E onde é que isto fica? Cento e quarenta graus oeste, doze graus sul.
Levantou-se, tirou de um armário um atlas escolar (não pertencia ao equipamento normal da polícia alemã), abriu o mapa-mundo, procurou as coordenadas e sorriu abertamente, com escárnio. Luders suspeitou de algo terrível.
- Onde? - perguntou ele.
- Mar do Sul! Mesmo ao meio! Fechou o atlas com um estalo e continuou:
- Pergunta a Enno quem é que atirou a garrafa ao mar. Luders ficou a olhar para a folha branca, debaixo da qual

se encontrava aquela carta meio destruída.


Aquela sensação inexplicável que durante todo o dia o acompanhara, parecia crescer novamente dentro dele. Encostou-se à mesa, pegou num caco de vidro com a mão direita e sentiu uma excitação incontrolável.
- Há mais qualquer coisa - disse ele lentamente. Korl... por Deus... há mais qualquer coisa nisto.
- E se Enno estivesse realmente por detrás dessa história? A ilha vai dançar toda de gozo, se isto se sabe. Pensa bem, Lars. Do mar do Sul até Norderney! Não pode ser! Seria quase como dar a volta ao mundo, homem! Não há assim tantas correntes como isso!
- Dá-me um gole, Korl!
Luders estendeu a mão para a taça de chá de Bergsen, bebeu o líquido lentamente, afastou cuidadosamente a folha para o lado e ficou a olhar fixamente, como que hipnotizado, para o papel envelhecido.
Era como se dele exalasse o sol dos anos e a secura de um homem.
- Manda! - disse Luders. - Peço-te que a mandes. E se eles se rirem de mim e me tomarem pelo maior idiota de Norderney...
Um jovem guarda costeiro que bateu com o dedo na testa quando Bergsen o incumbiu da tarefa, levou o apodrecido
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pedaço de papel no primeiro barco do dia seguinte, da ilha para o comissariado do Norte.


Também ali se leu o relatório de Korl Bergsen com um sorriso indulgente e um cepticismo puro; a garrafa-correio foi observada à lupa e chegou-se à conclusão de que havia ali grossa tramóia para escarnecer das autoridades.
- Uma coisa assim não existe - disse o comissário Fleischmann depois daquele novo exame científico. - Sobretudo, porque não existe uma única ilha no mundo que não tenha sido já descoberta. Na selva, por exemplo, quando um avião cai, é que as pessoas ainda se podem perder, sem grandes esperanças de se salvarem. Mas no Pacífico? Aquilo está cheio de navios por todo o lado e então no mar nem se fala; cento e quarenta graus oeste de longitude, e doze graus sul de latitude; com indicações tão precisas, esse tal Werner Backer já deve estar há muito tempo a beber chá outra vez. De qualquer modo, o fantasioso descobridor...
Mas o caso não ficou arrumado com aquilo. A carta tinha-se tornado um assunto de serviço e seguia, agora, as vias burocráticas.
Entre duas capas protectoras de cartão, deu uma saltada até à Procuradoria da República, onde a leram excitados e agradecidos por este intermezzo de Verão, viajou depois por alguns departamentos e chegou cinco dias depois à Polícia Judiciária de Hanôver. Mais como uma curiosidade, do que como verídico meio de comunicação.
O conselheiro criminal de serviço disse então, com um ar completamente destituído da mais leve sombra de humor:
- E temos nós que nos ocupar agora com um disparate destes!
E entregou a carta ao laboratório.
O conselheiro criminal teve uma crise de fígado e esqueceu completamente a garrafa-correio.
Mas o mesmo não aconteceu com o laboratório, que estava habituado a coisas fora do vulgar. Para quem examina as cuecas de um enforcado em busca de manchas de esperma e analisa ao microscópio a sujidade das unhas e as finas partículas de células da pele da cabeça, uma carta destas, bela, enorme, envelhecida, é um verdadeiro achado.
O papel foi examinado, bem como o tipo de escrita; foi avaliada a composição do chumbo do lápis utilizado e a idade do papel a partir da cor desbotada que apresentava, tendo em
conta a intensidade do sol na zona do Pacífico. Nada foi deixado de lado, nada foi esquecido, de modo a apresentar um relatório grandioso.
Ao fim de quatro dias, o laboratório devolveu a carta. Ela era autêntica.
Na polícia abanou-se a cabeça. Mas, por cautela, fez-se a pergunta ao departamento de registo populacional de Lúbeck.
O conselheiro da polícia criminal, doente do fígado, disse:
- Aposto que existe, de facto, um Werner Backer e que ele está, a esta hora, muito bem refastelado diante de uma caneca de cerveja, não se lembrando, sequer, do disparate que atirou pela borda fora há seis anos atrás, se calhar em Borkum, no mar do Norte. Temos de o avisar para que não volte a escrever outras malditas coisas como esta. Já nem falo do que esta carta já custou, dos dinheiros dos impostos! Meus senhores, podem ver aqui um exemplo das inesperadas consequências que pode ter uma brincadeira de mau gosto, feita durante as férias. Mas nós levamos tudo à conta da cerveja.
Ao fim de outros quatro dias, chegou a Hanôver uma resposta do departamento de Lúbeck.
Palavras frugais, insípidas, que descreviam o caminho de uma família para uma nova vida:
No dia 15.2.62 foi feita uma participação de Lúbeck para Auckland (Nova Zelândia) pelo registo de uma nova colocação:
Werner Backer, arquitecto, nascido em 14.5.1930 Viktoria Backer, nome de solteira Plannitz, esposa do primeiro, nascida em 26.10.1933 em Grevesmúhlen. Filhos:
Holger, nascido em 4.3.1955 em Lúbeck Peter, nascido em 20.11.1956 em Lúbeck Marion, nascida em 17.8.1958 em Lúbeck
- Isto é monstruoso! - exclamou o conselheiro criminal Busse quando recebeu o documento ao qual tinha, entretanto, sido aposto o número de registo.
Tudo o que era «quente» lhe vinha cair sobre a secretária. Ele era uma espécie de especialista para os casos perante os quais os outros recuavam, dada a ingratidão da tarefa.
- Isto agora já não é brincadeira nenhuma! É simplesmente monstruoso!
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Pouco depois, os telexes martelavam em Auckland, na Nova Zelândia: quem é e onde está Werner Backer?


Os repórteres dos jornais também precisam de férias.
Quem viaja constantemente pelo mundo e entra em confronto com o homem nas suas mais diversas e assustadoras características, aspira por gozar umas semanas de descanso, para se refazer destes constantes e persistentes embates de insuficiência. Estar sozinho, pelo menos algum tempo, isso é qualquer coisa de verdadeiramente magnífico nos dias de hoje, no mundo em que vivemos.
Fritz Hellersen foi esconder-se em Norderney, em casa da família do comerciante de hortaliças Freese. Ali não havia telefone, mas, mesmo assim, Hellersen não tinha a certeza se a redacção do Globus não lhe conseguiria achar o rasto, em caso de urgência, chamando-o pelo telefone mais próximo.
Ao entrar no seu pequeno quarto, voltou-se para o comerciante de hortaliças Freese, que já estava muito habituado aos veraneantes, mas que tinha agora, pela primeira vez, uma experiência com um jornalista, e disse:
- Se quer ter um hóspede sossegado, que não arranque as cortinas das paredes, diga a todos quantos quiserem falar comigo ao telefone o seguinte: Não existe aqui ninguém chamado Hellersen. Nunca ninguém me viu! Sabe?... quero viver como os três macacos sagrados: não ouvir nada, não ver nada, não dizer nada. Céus! Como isso deve ser bom!
Jens Freese concordou, mas exigiu o pagamento antecipado do aluguer por duas semanas. Quem não quer ouvir, nem ver, nem falar nada, pode também desaparecer de um dia para o outro, se lhe der na real gana...
Hellersen pagou e Freese assegurou que, a partir daquele momento, nunca tinha ouvido o nome de Hellersen. Só que... tinha de comunicar o seu registo à administração da estância balnear.
Durante uma semana, Hellersen viveu uma vida de verdadeiro eremita. Consequentemente, afastava-se de todas as outras pessoas, passeava todas as manhãs muito cedo, pelas dunas, indo até, por vezes, um pouco mais longe, para lá da torre do farol, onde a ilha se tornava tão solitária que um homem sozinho chegava a perder-se naquelas paragens aci-
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dentadas. Ali, podia deitar-se nu, ao sol, entre as covas da areia, sobre uma relva dura e ressequida; o sussurrar das águas do mar era entorpecedor e convidava à sonolência e o piar estridente das gaivotas misturava-se com ele, fundia-se nele, numa entrega tão completa e tão grandiosa que Hellersen pensava:
«Era bom que o tempo parasse neste momento. Um homem tem necessidade desta paz que a natureza oferece. Ela é a corrente que vai carregar as baterias que temos dentro de nós!»
De vez em quando fazia o seu programa de exercícios de manutenção; corria pelas dunas, para cima e para baixo, fazia, completamente despido, alguns exercícios de ginástica, que fortaleciam os músculos e lhe punham todas as fibras do corpo em movimento, nadava muito, deitava-se depois à beira-mar e deixava-se afagar pelas águas moles.
Depois, juntava os pedaços de madeira que todas as noites as ondas arrastavam para a praia e construía, entre as dunas de areia branca, uma pequena cabana, mas, quando ela ficava pronta, lembrava-se fatalmente de um certo abrigo de bambu no Vietname.
Sete meses atrás, tinha estado com um grupo de GI em Dschungel, e tinha de agradecer à sua desavergonhada sorte por ter escapado ao último ataque vietcong.
Estava sentado na espessa copa de uma árvore e fotografava a região, quando, por debaixo dele, os GI foram todos mortos no breve espaço de dez minutos. Como fantasmas, os vietcong tinham saído de dentro da selva e como fantasmas tinham voltado a desaparecer rapidamente.
Quando Hellersen desceu da árvore, já noite fechada, encontrou a sua cabana de bambu intacta; mas nas paredes alguém tinha espetado quatro soldados americanos, varados por afiadas canas de bambu.
A recordação daquele caso roubava a Hellersen todo o prazer de uma cabana feita de pedaços de madeira e voltava a destruí-la logo de seguida.
Ao fim de uma semana de descanso absoluto, Hellersen começou a ficar inquieto. Acontecia-lhe o mesmo que acontece a muitos homens que fogem de si próprios e acabam semPre por se esconder dentro de si porque a sua sombra os acompanha sempre. Ao oitavo dia Hellersen vestiu os seus calções de banho, pôs a toalha em volta dos ombros e va-
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gueou pela beira-mar até à praia ocidental. Ali, encontrou, nove dias depois da descoberta da garrafa-correio, o banheiro Lars Luders.


Era mais uma daquelas manhãs em que Luders percorria a praia com o seu carrinho de ferro, limpando a areia. Olhando de lado, mas sem interromper o seu trabalho, viu Hellersen aproximar-se e chupou o seu cachimbo.
Às cinco horas da manhã um outro homem junto ao mar... e logo um veraneante! Aquilo só podia significar que aquele tipo queria desanuviar a cabeça dos vapores do álcool. A maior parte das vezes, estes solitários eram bem lacónicos e resmungões.
- Belo dia, não!? - disse Luders, parando. - Sente-se logo o calor, mesmo a esta hora da manhã. Vai ser um dia cheio de sol.
Hellersen fez um gesto de assentimento com a cabeça, sem vontade de responder. O desassossego parecia crescer dentro dele.
«Cortar completamente com tudo não é, por vezes, a coisa mais acertada!» - pensou ele.
Parecia que um formigueiro intenso se apoderava dele, desde a ponta dos dedos até à raiz dos cabelos.
«Preciso de fazer qualquer coisa, qualquer coisa de produtivo, não apenas andar para aí a fazer ginástica e a construir cabanas que me fazem lembrar o Vietname e que, por isso, me vejo obrigado a destruir outra vez. Não é possível esquecermo-nos de nós próprios. É como a hidra; quando lhe destruímos um bocado, crescem logo mais dois braços!»
- Olá! - disse ele finalmente.
Observou o homem barbudo e pensou imediatamente no museu da sua cidade natal.
«Um bom tipo! É como se tivessem pegado numa daquelas figuras do museu, lhe tivessem insuflado vida no corpo e a tivessem trazido para aqui, para apanhar papéis e garrafas vazias, cheias de limos, recebendo como atracção especial cinco marcos e meio por hora, pequeno-almoço incluído!»
Hellersen ficou parado; voltou-se e rodou na direcção de Luders. Também Luders ficou parado, inclinando-se para o seu carrinho de ferro.
- Olá - respondeu, por fim.
«Isso seria uma mudançal - pensou Hellersen, de si para si. - Uma entrevista com um velho lobo do mar. Não é nada
de novo e não vai causar nenhuma sensação, mas com alguns acontecimentos loucos vividos por um homem do mar, pode-se combater a «canícula» do Globus. É tão bom revelar ao homem os segredos do mar, como as recordações de um médico. Tudo depende da maneira como se escreve. Há quem coza couve-flor e ela sabe sempre a nabos, quando outro a coze também, mas ela escorrega na língua como se fosse creme!»
Hellersen abriu o seu colorido saco de praia, que trazia pendurado ao ombro, tirou um maço de Gauloises e estendeu-o a Luders. Este acenou a cabeça, serviu-se, acendeu o cigarro com o seu isqueiro e expeliu o fumo pelas narinas, enormes e peludas.
Fumaram durante algum tempo em silêncio, de pé, ao lado um do outro, olhando o mar. As ondas rolavam até um estreito e plano banco de areia, quebravam-se contra ele e estendiam-se depois, cansadas, sobre a praia.
O dia estava quente e indolente.
Luders foi o primeiro a falar.
- É a baixa-mar, hem!? - disse ele. Hellersen concordou.
- Foi também marinheiro ou qualquer coisa parecida?
- Andei quarenta anos no serviço das bananas, sim, senhor!
Luders encostou-se ao seu carrinho de ferro e utilizou o cabo da pá como apoio para as suas pesadas mãos.
«Quarenta anos - pensou, subitamente. - Meu Deus! Como o tempo passa! Até se fica espantado quando se pensa nisso! Quarenta anos no mar alto... e agora... agora riem-se todos de mim, só porque encontrei uma garrafa velha e a entreguei à polícia. A vida é uma porcaria!»
- Bananas? Quase meio século na rota das bananas? Homem, dava para afundar a Europa toda com essas coisas amarelas!
Hellersen sentou-se no rebordo abaulado do carrinho de ferro.
«Esta é uma boa história! - pensou. - Um homem gasta metade da sua vida a trazer bananas para a Alemanha e agora, já velho, anda para aqui a apanhar o lixo que os ricos deixam espalhado pela praia. Uma história que é um gancho atirado à sociedade»
18

O aborrecimento e o tédio que tinham começado a desabrochar dentro dele evaporavam-se.


- Conte-me lá! Isso pode dar uma boa história! Título: A chegada das bananas.
- Chamo-me Lars Liiders - disse Liiders. Deu uma fumaça no Gauloises e tossicou.
! - O que é isso de história?
- Chama-se Lars? Tanto melhor! - disse Hellersen, a pensar outra vez em títulos e parangonas. - Isso cheira a sargaço e alcatrão! Conhece o Globus ?
- Andei na escola até à oitava classe! - disse Liiders, endireitando o corpo, orgulhosamente. - E no Meirs está lá um, na montra.
- Não é esse! Refiro-me ao jornal Globus.
- Esse também. Está na montra do Meirs. Meirs vende jornais aqui na ilha.
- Sou repórter! - disse Hellersen
- Ah!
- E prometo-lhe que lhe entregarei cem marcos se me quiser contar algumas histórias da sua vida. Histórias que preguem os meus leitores ao chão. Não precisa de ser totalmente exacto; basta que elas pareçam verdadeiras e autênticas. Essas são as melhores histórias.
- Então é um repórter? - perguntou Luders pensativo. Nos seus olhos velhos, afundados nas pregas e rugas que
lhe marcavam o rosto e nos quais o vento de quarenta anos ainda agitava o mar profundo, perpassou um relâmpago fugaz. Qualquer coisa como um brilho de esperança inundou-os. Esperança de, ao menos uma vez, ser de novo tomado a sério.
- Tenho para si qualquer coisa melhor do que isso. Qualquer coisa de bem verdadeiro. Passou-se há nove dias atrás, ali, onde está agora o cesto número 218.
- Dois cestos foram arrastados e andaram por ali a dançar. Isso é uma história velha, meu caro!
- Não! Digo-lhe a si, no entanto, todos os outros se riram de mim! Mas o senhor não se vai rir, não é verdade? O senhor é um repórter!
- Uma afrodite saiu do mar, ou quê? - disse Hellersen, mordaz.
- Que disparate! Foi uma garrafa-correio que veio ter à praia!
Esperou por uma reacção, fixou Hellersen com os olhos suplicantes de um cão escorraçado por todos.
«Rapaz, uma garrafa-correio, percebes o que é isso? Estava uma carta lá dentro, uma carta escrita há seis anos! Queimada pelo sol. Se também tu te vais rir disso, sou capaz de te atirar com a pá às costas!»
Hellersen pensava rapidamente:
«Uma garrafa-correio é um bom tema! A coisa é a mesma: o segredo do mar! Um campo que nem a fantasia consegue desbravar por completo. Fica sempre uma manchazinha de terra desconhecida onde nunca se consegue chegar. Pode-se-lhe pegar por qualquer ponta, escrever sobre isto ou sobre aquilo, mas o mar, sobre o papel, permanece vasto e misterioso !»
Não estava certo se aquela coisa da garrafa-correio de Lars Luders era, ou não, uma coisa perfeitamente imaginária, uma brincadeira, talvez, mas a ideia servia... podia fazer-se dela uma boa história de Verão.
-- É precisamente disso que eu ando à procura! - disse Hellersen, enterrando a ponta do cigarro na areia.
Luders curvou-se e apanhou-a cuidadosamente com a pá.
- Tem tempo agora, marinheiro? Pode fazer-se qualquer coisa disso!
Luders olhou para o mar, para a praia, para o céu, e só depois para o relógio. Estava tudo em ordem.
- Vamos para o posto de aluguer de cadeiras - disse ele.

- A esta hora ainda não está lá ninguém e poderemos conversar sossegados. O movimento só começa daqui a uma hora.


Esmagou o cigarro contra o rebordo interior do carro e atirou com a vassoura, o raspador e a pá para dentro daquela banheira de ferro.
- Juro-lhe que é tudo verdade. Mas ninguém quer acreditar naquilo que eu digo.
Colocou-se entre as pegas do carrinho, agarrou-as com as suas mãos enormes, fincou as pernas na areia e começou a puxar. Era difícil puxar um carro daqueles pelas dunas acima. Hellersen curvou-se e empurrou-o por trás.
Juntos, arrastaram o pesado carro através da areia.
20

Às dez horas da manhã tocou o telefone sobre a mesa do chefe de redacção do Globus. Nervoso, olhou para o relógio, colocou a mão sobre o auscultador e encheu o peito de ar, preparando-se para desatar aos berros à secretária. Não queria ser incomodado... desde há dois dias que lhe estavam a chegar fotografias enviadas pelos mais variados repórteres fotográficos, como se na próxima edição o Globus fosse ultrapassar em informação sobre a actualidade, o seu rival Rund um die Welt l.


O chefe de redacção (chamava-se Otto Otto; o seu pai devia ter sido um homem divertido ou então um pai à força. Contudo, nunca o chegou a saber, pois quando Otto Otto começou a compreender o que lhe tinham dado como nome, já o pai não vivia e por isso todas as censuras eram inúteis) levantou o auscultador e berrou:
- Silêncio!
- Hellersen em linha! - disse a secretária, sem se perturbar. - De Norderney!
- Isso é impossível! - exclamou Otto Otto, recostando-se na cadeira e respirando apressadamente pelo nariz. Marlenezinha, veja-me só isto! Sabe há quanto tempo é que eu ando a procurar esse tipo? Há quatro dias!
Ouviu-se um estalido na linha e Otto Otto percebeu que estava em ligação com Norderney. Parecia-lhe ver Hellersen diante de si, sentado diante do aparelho, num quarto de hotel, em calções de banho, tendo a seu lado uma bebida bem gelada e atrás de si, na cama, uma fulgurante loura, às dez horas da manhã, olhos vermelhos e inchados, bocejando e cambaleando, o Gauloises entre as pregas da boca.
- Hellersen?! - berrou Otto Otto. - Seu maldito submarino! Quantas vezes é preciso eu pregar que quem sai daqui para apanhar ar deve, pelo menos, deixar a morada para onde vai? Com que então, está escondido em Norderney? Homem, preciso de si! Urgentemente! Imediatamente! Você tem de ir para a Irlanda. Parece que andam lá a rebentar com todas as portas e janelas. Ouviu o que eu disse? Já para Londonderry! O quê? Ainda está para aí a falar? Ainda está aí? Hellersen... Preciso, até quarta-feira, de um exclusivo da Irlanda. Uma

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