Darwinismo, sociobiologia, psicologia evolucionista e as especificidades sexuais dos caracteres universais da psique humana



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Universidade Estadual de Feira de Santana

Departamento de Educação

EDU340 – Docência em Ciência: saber científico e saber escolar I

Docente: Claudia Sepulveda



Darwinismo, sociobiologia, psicologia evolucionista e as especificidades sexuais dos caracteres universais da psique humana

Juan Manuel Sanchez Artega

A psicologia evolucionista contemporânea defende a existência de múltiplos mecanismos psicológicos, evoluídos especificamente na história biológica da espécie como resultado de pressões seletivas concernentes à própria natureza adaptativa da sexualidade humana. A psicologia evolutiva considera que todos esses mecanismos psicológicos, originados por seleção natural no decorrer da evolução humana, apresentam um caráter universal em nossa espécie, ou quando menos relativamente estável1. Para a psicobiologia evolucionista alguns de esses caracteres universais da psique humana apresentam especificidades sexuais, que distinguem a psique de homens e mulheres. Alguns desses supostos caracteres universais produzidos no decorrer da evolução humana podem gerar polêmica, quando, por exemplo, se referem a diferenças cognitivas entre os sexos na cognição espacial. A polêmica é dificilmente evitável quando se afirma que entre esses padrões psíquicos evolutivos universais da nossa espécie aparece a dominação da esfera pública / política por parte dos homens (Donald Brown (1991).

Idéias semelhantes já tinham sido expressas anteriormente no campo da biologia humana, especificamente após a emergência da sociobiologia como disciplina científica. Antecessora direta da psicologia evolucionista, a sociobiologia de Edward Wilson surgiu na década dos anos setenta com o intuito de proporcionar uma sólida base biológica ao estudo do comportamento social entre os animais, incluindo ao ser humano.

Por exemplo, a Sociobiologia afirmava – ao menos na sua formulação originária – que entre as características comportamentais mais conservadas no grupo dos primatas, aquelas que definem o que se poderia considerar como o núcleo biológico da “natureza humana”, deveria incluir-se uma “dominação geral dos machos”2. Outras idéias similares defendidas pela Sociobiologia também pareciam atribuir, mesmo que tacitamente, uma justificativa biológica a determinadas formas de dominação masculina presentes em algumas sociedades humanas ou primatas. Práticas tais como a chamada “hipergamia” (acasalamento de fêmeas de categorias sociais subordinadas com machos dos grupos sociais dominantes) ou o infanticídio feminino foram estudadas a partir de uma perspectiva genética e determinista. No seu livro, “A natureza humana” (1975), o criador da Sociobiologia parecia conceder plausibilidade à hipótese das bases biológicas de certas práticas culturais como o infanticídio seletivo das fêmeas em certas sociedades humanas. Em relação ao infanticídio feminino, Wilson afirmava:

Mildred Dickeman, uma antropóloga (...) investigou se a proporção de sexos é alterada depois do nascimento, por infanticídio, de uma maneira que se adapte à melhor estratégia reprodutiva. Esse parece ser o caso. Na Índia Britânica e pré-colonial, o fluxo de ascensão social das filhas através do casamento com homens de maior classe era consagrado por rígidos costumes e religião, enquanto o infanticídio de fêmeas era praticado rotineiramente pelas castas mais altas. Os Bedi Sikhs, a subcasta sacerdotal dos Punjab que tinha o maior prestígio, eram conhecidos como Kuri-Mar, os matadores de filhas. Eles exterminavam praticamente todas as recém-nascidas e investiram tudo na criação de filhos que casariam com mulheres de castas mais baixas. Na China pré-revolucionária, o infanticídio feminino foi comumente praticado por muitas das classes sociais, com essencialmente os mesmos efeitos que na Índia – ou seja, o fluxo de ascensão social de mulheres acompanhadas por seus dotes, numa concentração tanto de riquezas quanto de mulheres nas mãos da minoria das classes média e alta, e a quase exclusão dos homens mais pobres do sistema de reprodução. Continua a ser investigado se esse padrão está disseminado nas culturas humanas. Até o momento, a existência de pelo menos alguns casos sugere a necessidade de um reexame do fenômeno com especial atenção à teoria biológica”3

Além dos exemplos fornecidos pelo próprio Wilson, existem outros parecidos de naturalização das diferenças sociais de gênero, por meio da qual as mulheres poderiam ser marginalizadas pelo discurso sociobiológico como radicalmente outras, como alterizadas pela própria natureza. Assim, tem se defendido, por exemplo, que em certas sociedades onde domina a poliginia, o costume de transmitir mais riqueza hereditária aos varões poderia estar justificado biologicamente. Deste ponto de vista, a transmissão de mais riqueza aos filhos estaria baseada na maior probabilidade de aumentar o número de netos –e assim, o patrimônio genético da família- “investindo” a herança nos filhos e privando assim, relativamente, as filhas4.

Esta argumentação baseia-se no mesmo pressuposto usado pelo próprio Wilson para dar uma justificativa evolucionista a práticas sociais como a hipergamia e o infanticídio feminino: “É difícil explicá-los exceto como predisposições herdadas para maximizar o número de prole em competição com outros membros da sociedade”5.

Desde que as mulheres começaram a tomar um papel cada vez mais protagonista nas áreas da primatologia e da biologia evolucionista, territórios fechados à participação feminina até a segunda metade do século XX6, tem se multiplicado críticas a discursos da biologia evolutiva que tendem a basear o domínio masculino nas sociedades humanas e de outros primatas em princípios biológicos imodificáveis. Por exemplo, a primatóloga feminista Sarah Blaffer Hrdy, tem argumentado que não existem evidências genéticas que possam servir para sugerir que a espécie humana tenha "imperativo genético" nenhum para atividades como o infanticídio, a despeito dessa prática possa ser observada em varias espécies de primatas.

Longe de aceitar a naturalização científica da dominação masculina nas sociedades humanas ou primatas, diferentes autoras têm mostrado que, historicamente, existiu sempre uma subestimação do papel cumprido pelas mulheres na evolução humana nos estudos sobre este tema, nos quais o macho humano apareceu quase sempre como único ou principal agente evolutivo ativo. A pesquisadora Linda Fedigam descreve a predominância histórica desta perspectiva do seguinte modo:

um tema recorrente nas narrativas sobre evolução humana, de Darwin a Lovejoy, é que os homens primitivos eram os empreendedores, os produtores, e inovadores tecnológicos, enquanto que as primeiras mulheres ficaram limitadas pela exigência reprodutiva de ter e de criar crianças. Ou dito de outro modo (...) os homens fazem a cultura e as mulheres fazem bebês, duas atividades mutuamente exclusivas.

Fedigam propõe a existência dos dois modelos explicativos historicamente construídos para explicar a organização primitiva das sociedades humanas, e analisa do seguinte modo a oposição dos mesmos no que diz respeito papel atribuído à mulher a evolução humana:

O modelo do Homem Caçador, um modelo desenhado a partir de evidências primatológicas, etnográficas e arqueológicas, tornou-se a teoria dominante do período 1960-1980. Embora diferindo do cenário descrito por Darwin nas evidências e conceitos apresentados, o modelo do Homem Caçador representou uma continuação da crença de que apenas traços masculinos foram selecionados, e que as mulheres desempenham um papel insignificante na evolução humana (...). Uma reavaliação dos dados primatológicos e dos materiais etnográficos levou algumas antropólogas, a maioria delas mulheres, a propor um "contra-modelo" chamado “A Mulher coletora”, em que o uso, colheita, e partilha de ferramentas foram descritas como invenções femininas, cruciais para a evolução dos seres humanos. Ambos os modelos, o da caça e o da colheita, apelam a evidências similares, porém, apresentam narrativas opostas e mutuamente excludentes da evolução social humana e, portanto, da natureza humana>>7.

DISCUTA AS QUESTÕES A SEGUIR:

1) Do seu ponto de vista, que consequências ou implicações socioculturais podem derivar da universalização de determinados comportamentos sociais humanos ligados a gênero pela psicologia evolucionista?

2) Segundo Fedigam, os dois modelos existentes para explicar a organização primitiva das sociedades humanas na biologia evolutiva, o modelo do Homem Caçador e o modelo da “Mulher Coletora” apresentam narrativas opostas e mutuamente excludentes. Como você explicaria o fato dois destes modelos da antropologia, distintos e oponentes, se basearem em evidências semelhantes?

3) Você considera que fenômenos como “hipergamia” ou “infanticídio feminino” podem ser explicados biologicamente, como “predisposições herdadas para maximizar o número de descendentes em competição com outro membros da sociedade”? Podemos explicar tais práticas unicamente por meio de conceitos próprios da biologia evolutiva, da genética ou da etologia humana? Por quê?



4) Você acha que esta proposição de Wilson, os fundamentos e os dados em que elas se baseiam, poderiam ser considerados válidos, segundo os critérios de cientificidade da comunidade acadêmica? Pode-se dizer que correspondem a uma produção acadêmica de boa qualidade? Justifique suas respostas.

1 Cf. Brown, D. E. (1991). Human Universals. New York: McGraw-Hill; para uma critica a essas idéias, veja. P.ex. Laland,K.N., Brown, G, R. (2002). Sense and Nonsense: Evolutionary Perspectiveson Human Behaviour. Oxford. OXFORD UNIVERSITY PRESS.

2 Wilson, "Sociobiology, p. 551: <>

3 Wilson, A naturaza Humana, 1975.

4 Hartung 1982, cit. em Laland et al. 2002.

5 Wilson, “A Natureza Humana”, 1975.

6 Veja-se, por exemplo, os trabalhos de FEDIGAN, L. M. (1986), <>, Ann. Rev. Anthrop. 15, pp. 25-66; FEE, E. (1982), <>. Sci. & Nat., 5, pp. 20-29; HARAWAY, DONNA J. (1989), Primate visions: gender, race, and nature in the world of modern science, New York, Rotledge; HARAWAY, DONNA J. (1991), Ciencia, cyborgs y mujeres. La reinvención de la naturaleza, Madrid, Ediciones Cátedra-Universidad de Valencia-Instituto de la mujer; HUBBARD, RUTH (1979), <>, en Genes and gender, vol. 2, Sataten Island, Gordian Press ; LANDAU, MISIA (1991), Narratives of human evolution, Yale University Press; QUEROL, Mª. ÁNGELES. (2001), Adán y Darwin, Madrid, Síntesis.

7 FEDIGAN, L. M. (1986), <>, Ann. Rev. Anthrop. 15, pp. 25-66, p. 62.




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