Dar a volta à história



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Dar a volta à história”: do século XIX à Pós-Graduação em Artes Visuais e Género da Universidade de Évora

Sandra Leandro

Universidade de Évora

Instituto de História da Arte da Universidade Nova de Lisboa

CLEPUL


CESNOVA | Faces de Eva

Resumo:


Comparar visibilidades e invisibilidades, relacionar diferentes tipos de periferias, estudar trajetórias deslembradas e entrelaçar outras mais conhecidas, comparando diferentes geografias, a portuguesa e a eslava, foram os objetivos da comunicação que agora se verte em artigo. Maria Guilhermina Silva Reis, Zoé Wauthelet Batalha Reis, Maria da Glória Ribeiro da Cruz foram três artistas portuguesas do século XIX e início do XX, cujos percursos desembocaram praticamente na invisibilidade. Marie Bashkirtseff, pintora de origem ucraniana, Aurélia de Sousa, pintora portuguesa e Anna Bilińska-Bohdanowicz, pintora polaca, têm os seus retratos na história e aqui serão justamente lembradas. Cotejando invisibilidades, aponta-se o caso atual da Pós-Graduação em Artes Visuais e Género da Universidade de Évora, pioneira no contexto académico português, mas conservada na penumbra. Porque é forte a convicção de que algo se pode fazer neste campo extremamente sensível da visibilidade em Arte, é o momento de “dar a volta à história”…

Palavras-chave: Artistas, invisibilidade, Artes-Visuais e Género

Abstract:

Comparing visibility and invisibility, relating different types of peripheries, studying and intertwining forgotten trajectories with better-known tracks, comparing different Portuguese and Slavic geographies, were the lecture objectives that turns now into an article. Maria Guilhermina Silva Reis, Zoé Wauthelet Batalha Reis, Maria da Glória Ribeiro da Cruz, were three Portuguese artists of the nineteenth and early twentieth centuries, whose journey culminated mostly in invisibility. Marie Bashkirtseff, Ucranian painter, Aurélia de Sousa, Portuguese painter and Anna Bilińska-Bohdanowicz, Polish painter, have their portraits in history and will be justly remembered. Comparing invisibilities, points to the current case of the Graduation on Visual Arts and Gender at Évora University, pioneer in the academic Portuguese domain, but kept in the dark. Because there is a strong belief that something can be done in this extremely sensitive field on visibility into art, it is time to tell again a more complete history.

Keywords: Artists, invisibility, Visual Arts and Gender

I - Três artistas quase invisíveis: Maria Guilhermina Silva Reis, Zoé Wauthelet Batalha Reis e Maria da Glória Ribeiro da Cruz

As primeiras três senhoras artistas que aqui evoco fogem da norma. Escapam ao padrão do que se está à espera de uma artista do seu tempo, não pelo lado da estranheza ou do exótico, mas sim pela difícil e “alternativa” categoria de normalidade. Como outras e outros, “deram a volta à história” de um modo próprio, conjugando de forma discreta pragmatismo e utopia.

Uma das razões que dificulta extraordinariamente o estudo das mulheres artistas, especialmente até meados do século XX, é a dispersão das suas obras em coleções particulares1. O acesso a esses trabalhos não é legitimamente fácil e se o fenómeno não é exclusivo das artistas, acentua-se, contudo, no seu caso. Outro obstáculo que muitas vezes se ergue em simultâneo é a não identificação das peças, que surgem sem assinatura e/ou sem datação. Tornou-se para mim imperativo estudar estas senhoras artistas para conhecer e aferir a qualidade, ou a fraqueza, do seu trabalho não aceitando imediatamente como verdadeira a crítica coeva, que muitas vezes simpática e contemporaneamente as desprezava. É não só um ato de justiça, mas também um estudo que ajuda a construir um panorama mais completo e alargado da Arte que se criou num determinado tempo.

Maria Guilhermina Silva Reis2 viveu em Lisboa e foi uma pintora portuguesa do século XIX, filiada essencialmente no romantismo, glosando igualmente tendências estéticas de transição. Como as mulheres ainda não frequentavam as Academias de Belas-Artes em Portugal, teve como mestre particular o pintor André Monteiro da Cruz (1770-1851), professor da Aula de Pintura de Paisagem e Produtos Naturais da Academia de Belas-Artes de Lisboa. Não era comum uma mulher expor de forma tão assídua e persistente nas mais importantes exposições naquela época, facto que a tornou uma das primeiras pintoras profissionais do seu tempo. Não foi apenas esta singularidade que a fez “dar volta à história”: a pintura que praticou não se distingue da que foi concebida pelos homens seus contemporâneos. A maioria das obras que se conhece não se centra na temática habitualmente atribuída às senhoras pintoras da época: as naturezas-mortas com o predomínio específico da pintura de flores. Na sua obra, quem sabe se por influência do mestre, encontra-se principalmente Paisagem e Pintura de Costumes. A dimensão de parte das peças que se conhece apresenta uma escala considerável, o que também não se coaduna com o padrão de escala reduzida regularmente atribuído às senhoras artistas.



Figura 1 - Maria Guilhermina Silva Reis, Vista do Palácio da Pena, do Castelo dos Mouros e do Vale de Colares. Óleo s/ tela. 65,5 x 99,5 cm. Coleção particular3.

Guilhermina Silva Reis participou na Exposição Trienal da Academia de Belas-Artes de Lisboa em 1843, o que faz dela uma das primeiras mulheres a concorrer àqueles certames. Entre outras mostras, expôs trabalhos no quinto evento da referida Academia em 1861 e no mesmo ano foi agraciada com uma Medalha de Prata na Exposição Industrial do Porto que teve lugar no Palácio da Bolsa. Foi uma das mais constantes expositoras da Sociedade Promotora de Belas-Artes em Portugal exibindo trabalhos por exemplo na II Exposição, em 1863, no XI, XII e XIII certames, respetivamente em 1876, 1880, 18844. É possível que tenha falecido cerca do ano de 1885.

Vários críticos de arte emitiram opinião sobre os seus trabalhos. Rangel de Lima foi um deles, ao fazer a análise da Exposição Internacional de Madrid de 1871, comentou:

Sempre que temos de referir-nos a trabalhos artisticos ou literários de uma senhora, sentimos extraordinario prazer, e ao mesmo tempo grande receio, porque o acatamento devido ao sexo formoso nos impede de falar com desassombro e franqueza. A ex.ma. sr.ª D. Maria Guilhermina da Siva (sic) Reis, esclarecida senhora a quem devemos os maiores respeitos, coloca-nos porém na melhor posição para lhe criticarmos as suas obras com sinceridade e afouteza5.

Comentava favoravelmente os trabalhos da pintora, embora a aconselhasse a estudar melhor os primeiros planos que surgiam como o único escolho apontado:

Tendo de lutar com as dificuldades que se levantam a cada passo em Portugal para o artista estudar a natureza e os grandes mestres, principalmente se o artista é uma senhora, muito faz a sr.ª D. Maria Guilhermina da Silva Reis conseguindo apresentar telas de tanto merecimento6.

Contudo, foi também alvo de duras críticas como por exemplo a de António Enes, jornalista, crítico de arte e político, quando participou na X Exposição da Sociedade Promotora de Belas-Artes, em 1874:

Não tem rasgo, é acanhada de concepção, não pode criar, não possue mesmo a capacidade de apropriação intelectual, que funde o sujeito e o objecto da arte, mas faz o que pode e vai-se acercando do que se me afigura ser o limite do seu possível: a interpretação correcta e fidelíssima dos panoramas naturais7.

Prosseguia cotejando-a a Cristino da Silva (1829-1877) conhecido pintor do Romantismo:

Interpretação, disse eu; melhor diria, talvez, traducção. A sr.ª Silva Reis traduz á letra, assim como o sr. Christino paraphraseia tão liberrimamente, que não raro torna a obra desconhecida do seu auctor. Elle é todo imaginação: ella é só sensação. Este é artista de mais, e tanto quer crear, que até refunde as creações naturaes: aquella é artista de menos, e descamba em copista8.

Este tipo de observação fez longa escola quanto às senhoras artistas e mulheres em geral, pois muitos consideravam que o “belo sexo” não era dotado da faculdade da imaginação9

Imaginação não pareceu faltar a Zoé Marie Josephine Caroline Wauthelet, pintora de origem belga. Nascida em Liège em 14 de Setembro de 1867, filha de Edmond Wauthelet e de Felicité Gaspar Wauthelet, veio para Portugal muito jovem, em 1878. Casou com o conhecido enólogo Alberto Batalha Reis em 1900 e até essa data assinou os seus trabalhos como Zoé Wauthelet10. Muitas vezes o casamento surgia como um obstáculo insuperável para as artistas prosseguirem a sua trajetória. Zoé Wauthelet foi uma das que fugiu à regra, não interrompendo o seu ímpeto criativo.

José Malhoa (1855-1933) e Veloso Salgado (1864-1945) foram os seus mestres. Fialho de Almeida apelidou as discípulas de José Malhoa como «tristes Malhoas», mas talvez subtraísse Zoé a essa “pena” porque infeliz não parece ser o seu percurso. Participou em várias exposições do Grémio Artístico e antes da Sétima já tinha sido galardoada com Menção honrosa e Medalha de Terceira Classe. Nessa mostra exibiu A barrela; Quem espera, desespera; Um desgosto; Estão verdes e dois pastéis: Sorrindo e Tout-rose.



Figura 2 - Zoé Wauthelet, A barrela, 1896. Óleo, 40 x 51 cm.



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