Dalai Lama, Tibet e a China: verdades, liberdades e limites Por: Maria Clara Lucchetti Bingemer



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Encontro23.10.2017
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Dalai Lama, Tibet e a China: verdades, liberdades e limites

Por: Maria Clara Lucchetti Bingemer

Para muitos de nós, o Tibet é uma região longínqua misteriosa e às vezes fascinante.  Terra de monges e religião oriental profunda.  Terra do Dalai Lama que é uma das maiores personalidades religiosas do mundo inteiro.  Terra de montanhas altas, temperaturas baixas, cães que não ladram por acompanhar os monges e cenário de uma das mais famosas novelas do grande romancista inglês Somerset Maugham: O Fio da Navalha. 

Recentemente o Tibet passou a ocupar o centro do noticiário que a nós chega diuturnamente.  Foi então que nos demos conta de que o mesmo localiza-se no centro da Ásia e faz fronteira com a Índia, Nepal, Butão, Burma e China. A língua aí falada é o tibetano e a religião oficial o budismo tibetano, que tem no Dalai Lama seu chefe, que atualmente se encontra em exílio na Índia. 

A história do Tibet é marcada por guerras e conquistas. Os conflitos entre a China e o Tibet tiveram início durante a dinastia chinesa Tang (618-906 d.C.). A partir do século XIII o Tibet conheceu uma sucessão de dominações: mongol, chinesa, inglesa.

A partir de 1950, quando o Partido Comunista chinês tomou conta da China, tropas comunistas invadiram o país e em pouco tempo tomaram a sede do governo local.  No mesmo ano, em novembro, o governo tibetano manifestou-se contra a agressão chinesa na Organização das Nações Unidas (ONU). Mas a Assembléia Geral da ONU adiou a discussão do problema. Foi quando o 14º Dalai Lama assumiu a posição de Chefe de Estado do Tibet. O novo líder dos tibetanos tinha apenas 16 anos de idade quando assumiu a liderança política e espiritual de seu país.

Em setembro de 1951, o Tibet foi tomado pelas forças comunistas de Mao Tse Tung. A ocupação chinesa do Tibet foi marcada pela destruição sistemática de mosteiros, pela opressão religiosa, pelo fim da liberdade política e pela prisão e assassinato de civis em massa. Ao governar o Tibet, as autoridades chinesas comunistas introduziram reformas agrárias e reduziram significativamente o poder dos mosteiros – fundamentais na organização religiosa tibetana, - apesar da forte oposição do povo local.

No dia 10 de março de 1959, os tibetanos organizaram um levante nacional contra a China em sua capital Lhasa.  A reação chinesa foi violenta: milhares de tibetanos foram mortos, aprisionados ou exilados.  Temendo por sua própria segurança, o Dalai Lama deixou Lhasa em 17 de março de 1959. Atualmente, a sede do Dalai Lama se localiza na Índia. O Dalai Lama ele viaja pelo mundo para tentar obter apoio internacional à independência de seu país.

Há 50 anos, portanto, a china ocupa o Tibet.   E até hoje, as Nações Unidas nunca expressaram algum protesto significativo contra a ocupação do Tibet. Desde 1951, os tibetanos têm tentado se rebelar contra a ocupação chinesa, mas seus esforços não foram bem sucedidos. A China alega soberania histórica sobre o Tibet, ameaçando assim a cultura e religião dos tibetanos. Não deve ser estranho a essa posição o fato da China ser hoje o grande alvo econômico do mundo ocidental. A China é hoje o país mais populoso do mundo e representa uma das economias de maior potencial. A China é também um dos cinco países de maior poder nas Nações Unidas e tem o direito de vetar qualquer decisão da organização.

A China tem o objetivo de modernizar o Tibet, pois espera que uma maior prosperidade no país eventualmente conquiste o apoio dos tibetanos à administração chinesa.  Assim fazendo, a China espera aumentar seu poder de fogo junto à economia mundial.  O governo chinês possui um plano de desenvolvimento para a região e vem construindo prédios, realizando obras e substituindo a tradicional arquitetura tibetana por uma arquitetura moderna, deixando assim as províncias do Tibet cada vez mais semelhantes às cidades chinesas. Além disso, o Tibet está repleto de migrantes chineses que lideram importantes setores da economia. De fato, hoje há mais chineses que tibetanos vivendo no Tibet. Não é de se surpreender que os tibetanos temam que sua cultura e tradições estejam em perigo de extinção.     

Uma das conseqüências dessa ocupação chinesa é a existência de mais de cem mil refugiados tibetanos pelo mundo. Oficiais chineses no Tibet afirmam que os tibetanos têm completa liberdade religiosa. Porém, a polícia chinesa está sempre presente em mosteiros e em templos budistas. Os monges têm sido espancados, aprisionados e obrigados a submeter-se à política do país invasor. 

Uma certa flexibilização no rigor da ocupação vem sendo demonstrada pela china recentemente.  No início de 2002 houve a libertação de seis prisioneiros políticos tibetanos.  Permitiu-se que o irmão do Dalai Lama visitasse o Tibet e abriu-se o país para o acesso livre da imprensa internacional, antes restrito. 

Em outubro de 2002, representantes do Dalai Lama foram recepcionados pelo governo chinês em Pequim e no Tibet – algo que não ocorria há quase uma década. A China tem o objetivo de apaziguar os tibetanos para melhorar sua imagem perante o mundo. Mas é duvidoso que a China esteja disposta a se retirar do Tibet. As Nações Unidas e os principais líderes mundiais não têm o poder e o interesse de pressionar a China para que haja uma resolução justa do conflito. Portanto, apesar de contar com o apoio moral de pessoas no mundo inteiro, os tibetanos enfrentam uma grande luta para realizar seu sonho de soberania e independência nacional.

Com a aproximação dos Jogos Olímpicos o conflito entre os dois países se acirra.  Tem havido manifestações violentas no Tibet, do qual têm sido protagonistas os próprios monges.  A não violência, que é uma das chaves de autocompreensão do budismo tibetano encontra-se assim ameaçada em sua credibilidade.  O Dalai Lama declarou que, se os tibetanos escolherem o caminho da violência, ele renunciaria. Segundo Pema Gyalpo, que foi seu representante oficial no Japão, opina ser isso uma estratégia para que não haja mais violência, vitimando mais tibetanos. 

Esperemos que o Dalai Lama, figura símbolo da não violência pacífica resista às pressões que enfrenta de um lado e de outro: seja por ver seus compatriotas vitimados pela violência, seja por perceber a frustração das novas gerações que não suportam mais a opressão de que são vítimas com sua postura não violenta.  Confiamos em que a imensa estatura espiritual do Dalai Lama o inspirará em sua postura neste incerto e doloroso conflito que ameaça o futuro do Tibet. Será, a nosso ver, a única forma de ajudar o mundo a compreender, neste incerto século XXI, que a tolerância e a não violência são sempre o melhor caminho, pelo menos a médio e longo prazo, para que a humanidade sobreviva e caminhe para a frente sem ser irremissivelmente erodida e destruída.



* Maria Clara Lucchetti Bingemer, teóloga, professora e decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio, e Diretora Geral de Conteúdo do Amai-vos. É também autora de "A Argila e o espírito - ensaios sobre ética, mística e poética" (Ed. Garamond), entre outros livros.



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