Da terra a terra, da cinza a cinza, do pó ao pó: o cemitério de Mal. Cândido Rondon como espaço de predominância evangélica



Baixar 92,06 Kb.
Encontro18.08.2017
Tamanho92,06 Kb.



Da terra a terra, da cinza a cinza, do pó ao pó: o cemitério de Mal. Cândido Rondon como espaço de predominância evangélica
Aldo Francisco Valoto (PIBIC/PRPPG/Unioeste), Andreia Vicente da Silva (Orientador), e-mail: aldovaloto@hotmail.com
Universidade Estadual do Oeste do Paraná/Centro de Ciências Humanas e Sociais, Toledo, PR.
Área/subárea: Ciências Humanas/Antropologia
Palavras-chave: morte, antropologia da religião, Dia de Finados.
Resumo
A comunicação é fruto de pesquisas de campo feitas no cemitério de Marechal Cândido Rondon, no Oeste do Paraná, para projeto de iniciação científica. O propósito é explorar o território espacial e simbólico deste mesmo cemitério, observando quais são os compartilhamentos, confrontos e conflitos entre adeptos de matrizes religiosas, mais especificamente entre católicos e evangélicos. Historicamente o espaço público é de domínio católico, deste modo, os cemitérios eram controlados pelas igrejas católicas, sobretudo pelas irmandades. A partir do século XIX o movimento protestante reclama local para enterro de seus mortos, ocupando também os cemitérios católicos. Com isso em mente, visitei o cemitério municipal de Marechal Cândido Rondon, esperando encontrar esse padrão na cidade. Contudo, o que pude observar em pesquisa de campo realizada no Dia de Finados, é que há uma predominância naquele cemitério de evangélicos. Seguindo essas observações, nesta comunicação, pretendo descrever e problematizar alguns elementos observados neste cemitério. Meu objetivo será demonstrar Rondon como uma realidade específica para estudo dos cemitérios brasileiros.
Introdução
O cemitério segue a mesma lógica organizacional que o mundo dos vivos. Estes, assim, são entendidos como um “local de reprodução simbólica do universo social” (Lima, 1994). No Brasil católico colonial, as pessoas eram enterradas tanto nas naves das catedrais quanto na parte externa, chamada de adro. Quanto mais próximo ao altar, mais perto de Cristo e dos santos de devoção estaria o morto.

A partir do iluminismo, a morte foi retirada do espaço público e passou a ser privatizada, encerrando-se no núcleo familiar. Entretanto, os cemitérios continuavam a ser administrados por párocos e sendo de uso exclusivo para cristãos católicos. Até o século XIX, o enterro de não católicos era tolerado, após, contudo, os considerados hereges – judeus, protestantes e maçons – não podiam. O primeiro cemitério protestante surge apenas em 1811, após acordos de comércio entre a coroa portuguesa e a coroa inglesa (Costa, 2008).

O cemitério é um lugar com predominância católica por diversos elementos. Entre eles, podemos citar a crença no purgatório, a crença que o destino da alma é decidido ao morrer e a crença que os vivos podem interceder pelos mortos. O uso católico do cemitério é histórico, faz sentido na lógica simbólica do catolicismo.

Atualmente no Brasil os cemitérios são públicos e qualquer cidadão pode ser enterrado nestes espaços. Contudo, a forma como os evangélicos utilizam o cemitério não é a mesma dos católicos. A religião luterana, por exemplo, não crê num purgatório ou que os vivos possam interceder pelos mortos. O destino da alma do morto é decidido em vida, de acordo como o fiel viveu.

Isso então significa que os evangélicos não terão os mesmos cuidados que os católicos possuem com o sepulcro de seus mortos. Os evangélicos não visitam oficialmente seus mortos com frequência. Há a crença de que o cemitério seja um local de saudades e recordações. A alma daquele morto já está no céu ou no inferno, de acordo com a vida que levou.
Material e Métodos

Foram utilizados três tipos diferentes de materiais para a análise do contexto em estudo: observação direta durante o dia de finados, para entender a realidade observada a partir das ações e relações desenroladas nesse dia; entrevista semiestruturada com o pastor da igreja luterana para entender a visão luterana sobre a morte o cemitério; pesquisa bibliográfica a respeito da história dos cemitérios brasileiros, da cidade de Rondon e da trajetória protestante


Resultados e Discussão
A pesquisa de campo foi realizada na cidade de Marechal Cândido Rondon, no oeste paranaense. Nesta cidade, segundo dados do IBGE (2010), habitam 46.819 pessoas. Desses, 18.709 são evangélicos, enquanto que os que professam a religião católica somam 26.451. Entre os evangélicos, os protestantes luteranos somam 11.760 pessoas, sendo a maioria dos evangélicos da cidade. As de matrizes pentecostais totalizam 2.884 (IBGE Cidades, censo 2010, acessado no dia 22/04/2016). Esses números revelam, de certa forma, que o município possui mais católicos que evangélicos professantes. Contudo, a religião luterana é a mais expressiva, existindo duas comunidades luteranas diferentes. A Comunidade Evangélica Luterana Cristo e a Igreja Evangélica de Confissão Luterana Martin Luther são as “matrizes” da cidade, possuindo colégios particulares próprios – Colégio Luterano Rui Barbosa e Colégio Evangélico Martin Luther, sendo administrados pelas duas comunidades, respectivamente.

Para além da análise das relações no cemitério rondonense, a partir do trabalho de campo, busquei entender como os luteranos, em Rondon, veem a morte. Analisando a entrevista feita com o pastor Sandro Krüger, pastor da Igreja Luterana Cristo, no dia 20 de fevereiro deste ano, observa-se que essa matriz vê a morte como uma passagem para a vida eterna. A vida aqui na terra não é a “verdadeira vida”, pois ela só existe junto a Cristo, após a ressurreição da alma, na vida eterna. “Aquele que crê em Jesus Cristo como seu salvador, tem na morte o último inimigo vencido” A vida eterna é o que guia o pensamento do luterano. A morte é, de fato para eles, o início da vida, pois só há vida com Cristo.

Os evangélicos não rezam pelos seus mortos para que alcancem o paraíso, ou para que salvem suas almas após a morte. A ressurreição só é garantida àqueles que viveram da forma “correta” segundo os padrões estabelecidos pela religião luterana. Quando há a morte de algum fiel da igreja luterana, não há uma “missa de sétimo dia”, mas fazem um “culto in memória”. Esse culto não é para que o morto consiga ir para o paraíso, ou uma intercessão por sua alma. Ele serve aos que ficaram, para a família enlutada.

A mensagem e a ideia do paraíso são de esperança e reencontro. Aqueles que morrem se encontrarão com aqueles que ainda permanecem na vida terrena no paraíso, no momento da ressurreição da alma. A esperança de reencontro na vida eterna move os fiéis e os tranquiliza quanto ao morrer. No paraíso, o corpo das pessoas será revestido de imortalidade, o corpo terreno apodrecerá e outra matéria assumirá seu lugar. Um material impecável, inacabável revestirá o fiel na vida eterna (Pinezi, 2009).

Observando as relações no Dia de Finados, dia de maior movimento no cemitério, conseguimos entender algumas particularidades de Marechal Rondon. Durante os outros dias do ano o cemitério é um lugar em que não se canta, não se faz barulho, pois os mortos merecem silêncio; não se respeita os mortos fazendo barulho. Contudo, no dia de finados isso se torna “permitido”. O culto ecumênico que ocorreu na manhã de segunda reuniu as duas matrizes religiosas da cidade: foi uma celebração católica e evangélica. Fiéis das duas matrizes religiosas estavam presentes e partilharam do sentimento comum que é a saudade. Os cantos, então, foram todos religiosos, com uma preferência pelos hinos evangélicos. Talvez, de forma a acentuar que aquele espaço é um espaço das pessoas mais velhas, as últimas músicas foram cantadas em alemão. Isso traz junto à relação cemitério e “público”, pois a cidade tem colonização alemã.

Os únicos jovens que estavam lá sem seus pais foram os integrantes do “projeto resgate”. Esse projeto foi executado pelos jovens com organização da Assembleia de Deus. Segurando uma placa de “abraços grátis” tentavam promover um conforto aos visitantes do cemitério. A Assembleia esteve presente no cemitério por meio de seu Projeto Resgate e pelos fiéis que entregavam folhetos às pessoas que transitavam pelos espaços do cemitério. Um desses folhetos tinha estampado na folha de rosto a frase: “Por que temos de morrer? ”. Dentro dele há uma explicação fundamentada na bíblia explicando que a morte é consequência do pecado, pois Deus não fez os homens para morrer. Mas por causa do pecado de Adão, o primeiro homem, a morte foi transmitida a toda sua descendência (retirado do folheto “Por que temos de morrer?” da Assembleia de Deus, sede de Mal. Cândido Rondon).

O culto foi feito por dois pastores e um padre em formação. O culto foi dividido para que os três pudessem falar, e suas falas foram intercaladas de modo a ficarem os dois pastores em primeiro e em último lugar de fala. Cada um acionou o simbólico de suas matrizes para fazer suas falas. Os dois pastores tiveram as falas muito parecidas, enfocando a ressurreição sempre. Enquanto que o seminarista falou sobre a intercessão das almas pelos vivos, dizendo para rezarem por seus mortos. Houve, contudo, uma aura amigável pelo cemitério. Pessoas católicas conversavam com evangélicas, muitas delas amigas há muito tempo, reencontrando-se no cemitério num dia de visita ao cemitério e lembrança do morto. Por outro lado, como dito, havia entregas de folhetos sobre a morte, o morrer e o que há depois das mãos de fiéis da Assembleia de Deus.

O que eu pude reparar quanto a isso eram que muitos não aceitavam os folhetos, ou se pegavam, logo jogavam no chão, sem nem ao menos ler. Outro ponto é que quando viam que era a Assembleia de Deus que estava promovendo essa entrega de panfletos o rosto das pessoas se contraíam em asco, ou faziam piadas um pouco antes de jogarem os panfletos ao chão. Uma outra forma de embate eram os jovens que distribuíam “abraços grátis”. Contudo, aquelas pessoas que aceitavam receber o abraço, o recebiam de forma grata, enquanto aquelas que não o queriam, tratavam com respeito. Não vi conflitos verbais, ou físicos.

Por fim, através dessa pesquisa de campo pode-se tentar responder à pergunta levantada antes: há mais evangélicos que católicos no cemitério? Enquanto que a cidade possui mais católicos que luteranos (segundo dados do IBGE Cidades), esses visitam com mais frequência e tem um motivo doutrinário para estar lá, enquanto que os evangélicos não têm essa premissa na visita. Contudo, no Dia de Finados observado, o público durante o culto ecumênico participava mais quando os pastores evangélicos cantavam seus hinos, acompanhado pelo coro em alemão, como dito acima; e após o culto os pastores foram mais procurados que o seminarista católico que participou do corpo que conduziu o culto. Então, os evangélicos, no dia de finados, foram mais presentes e ativos do que os católicos. Eles estavam mais representados e participavam mais do culto.
Conclusões
A partir dessa coleta de dados e trabalho de campo os resultados parciais sugerem que o cemitério de Rondon tenha algumas particularidades. Principalmente em relação à participação e presença evangélica no cemitério, um local em que sua peregrinação não se encontra na doutrina oficial da religião. Ainda mais, sendo colonizada e construída com uma grande participação luterana, essa presença se torna mais clara, se torna algo comum da cidade.

A visão da morte entre os luteranos não é particular. Eles compartilham muito desse imaginário com as religiões protestantes históricas, como os presbiterianos. Contudo, em Rondon, a presença dessa matriz na cidade é desde sua fundação, as primeiras famílias foram as de luteranos. Assim, tendo em sua fundação e desenvolvimento “as mãos” de luteranos, a cidade assume essa matriz como dela, produzindo uma realidade quase única.



A partir de agora, o trabalho de campo será mais lapidado, assim como as análises, pois essa comunicação partiu de dados e resultados parciais. Há muito a ser explorado e analisado.
Agradecimentos
Agradeço ao PIBIC Unioeste.
Referências
Costa, H. (2008). Licença para morrer: a questão do sepultamento dos ingleses por ocasião dos tratados de 1810. In Anais do XIII encontro de história Anpuh-Rio, Rio de Janeiro, Brasil.
Lima, T.A. (1994). De morcegos e caveiras a cruzes e livros: a representação da morte nos cemitérios cariocas do século XIX. In An. mus. paul. 2.
Pinezi, A.K. (2009). O sentido da morte para protestantes e neopentecostais. Paidéia (Ribeirão Preto), 19.
Vicente da Silva, A. (2011). Ritualizando o enterro e o luto evangélico: compartilhamento e incomunicabilidade na experiência da finitude humana. Tese de Doutorado, Programa de Pós Graduação em Ciências sociais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.






©livred.info 2017
enviar mensagem

    Página principal