Da Bossa Nova ao Clube da Esquina: as inovações estético-musicais bossa-novistas presentes nas canções do Clube da Esquina. Sheyla Castro Diniz



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Encontro01.07.2018
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Da Bossa Nova ao Clube da Esquina: as inovações estético-musicais bossa-novistas presentes nas canções

do Clube da Esquina.
Sheyla Castro Diniz

(Mestranda em Sociologia pela Unicamp. sheyladiniz@yahoo.com.br)


A música popular brasileira viu seus rumos alterados a partir do lançamento, em fevereiro de 1959, do LP Chega de Saudade que, sob direção musical e arranjos de Tom Jobim e interpretação de João Gilberto no vocal e no violão, polemizou as opiniões de vários críticos e artistas da época. Reconhecendo as experimentações ousadas antes dessa data, Chega de Saudade parece ter sintetizado os esforços de vários músicos que se empenhavam no projeto modernizador da canção popular brasileira. É sabido que a Bossa Nova, enquanto uma proposta estética que soube amalgamar – via harmonizações e ritmo inédito – o jazz e o samba, assimilar procedimentos eruditos e ainda celebrar uma performance intimista, equilibrada e uma poesia coloquial, passou a operar como um modelo a ser seguido ou, ao menos, observado. A proposta antropofágica da Tropicália, a canção de protesto (com destaque para a “Bossa Nova engajada”, a produção de Edu Lobo e de Chico Buarque) e, igualmente, o grupo de artistas mineiros que despontou no final dos anos 1960 sob o título – posterior – de Clube da Esquina, são apontados como desdobramentos múltiplos das inovações da Bossa Nova.

Alguns escritos já elucidaram que o legado da Bossa Nova foi importante para compositores como, por exemplo, Milton Nascimento, Wagner Tiso e principalmente Toninho Horta (legendas do Clube da Esquina), contudo, este trabalho almeja, primeiramente, explorar a cena musical pré Clube da Esquina, na intenção de detalhar que traços musicais bossa-novistas marcaram a formação desses e de outros artistas vinculados ao grupo. Uma ponte de contato dessa natureza está explicitada no LP do Quarteto Sambacana Muito pra frente que, gravado pela Odeon em 1965, somou exclusivamente canções bossa-novistas do belo-horizontino Pacífico Mascarenhas. Desse disco participaram, juntamente a mais três cantores, Milton Nascimento (crooner) e Wagner Tiso, formando um conjunto vocal similar ao Os Cariocas. Marcos de Castro, o arranjador do disco, se empenhou na confecção de uma sonoridade densa à base de cordas e metais, porém não perdeu de vista o tratamento rítmico (com exceção de marcações próximas do samba-jazz), harmônico, melódico e temático da Bossa Nova. Acredita-se que essa e outras experiências, como a atuação do Berimbau Trio (Milton Nascimento no contrabaixo acústico, Wagner Tiso no piano e Paulo Braga na bateria), foram elementares para a gestação da música característica do Clube da Esquina, além de outras fontes multiformes.



O segundo objetivo deste trabalho visa problematizar a sonoridade específica dos primeiros discos de Milton Nascimento: Travessia (Codil, 1967), Courage (A&M Records, 1968), Milton Nascimento (Odeon, 1969) e Milton (Odeon, 1970), no sentido de verificar, nas canções que os compõem, possíveis relações estético-musicais com a Bossa Nova. Levando em consideração todas as outras nuanças que marcaram a complexidade da obra do Clube da Esquina, tem-se em mente que a partir da estréia do LP duplo Clube da Esquina (Odeon, 1972), assinado por Milton Nascimento e Lô Borges, certa pluralidade de elementos (já verificada no disco anterior) é adensada, o que não impede, contudo, a presença de uma ou outra alusão a alguns aspectos caros à Bossa Nova.



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