Cristianismo: onde e como surgiu



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CRISTIANISMO PRIMITIVO

Os ensinamentos do personagem que dividiu a História.
INTRODUÇÃO
Levando-se em consideração o grande número de adeptos do Cristianismo, ocorreu-me fazer uma pesquisa sobre sua origem. Onde e como surgiu, o contexto histórico, sócio-econômico e religioso da época, quem eram os personagens existentes, como viviam sua religiosidade, em que acreditavam, e em que perspectiva esperavam o Salvador de Israel, conforme previam os profetas através dos escritos do Antigo Testamento.

A linha de pesquisa deste trabalho é a História das Religiões, que se desenvolveu no século XIX, e cujo “método se voltava para determinar a precisão dos textos religiosos, comparar os discursos sagrados e comparar as próprias religiões através de seus mitos, símbolos e instituições”. (Albuquerque, 2003). Ainda segundo Albuquerque:


A História das Religiões tem sido praticada de diversas maneiras: seja para reafirmar a superioridade de uma religião sobre as demais, seja para demonstrar que a religião é parte de um passado a ser ultrapassado pela razão, seja para demonstrar que a religião é parte de um sistema de opressão e de poder, seja para simples conhecimento acadêmico das religiões ou para reivindicar a perenidade da experiência religiosa (ALBUQUERQUE, 2005, p. 15).

Levando em consideração o estudo de Albuquerque, a intenção desta pesquisa é o conhecimento acadêmico sobre o Cristianismo.

Segundo Eliade, que defende a História das Religiões como a disciplina que trata de uma experiência irredutível a outras diz:

Parece-me, mesmo, que um dado religioso revela seu significado profundo quando é considerado sobre seu próprio plano de referência, e não quando é reduzido a um ou outros de seus aspectos secundários ou de seus contextos. (ELIADE, 1978, p. 26, apud ALBUQUERQUE, 2005, p. 16).


Minha intenção nesta pesquisa é tratar do Cristianismo, de maneira geral, sem me deter em pormenores ou aspectos específicos, conforme afirma Eliade no texto supra citado.

O Cristianismo é tratado como um movimento, doutrina ou instituição religiosa originários das pregações de Jesus e seus discípulos. Dentre as numerosas seitas messiânicas desenvolvidas no mundo judeu, surge o Cristianismo, resultado do reagrupamento dos discípulos de Jesus, que primeiramente, foram reunidos dentre os discípulos de João Batista. As classes existentes à época, como as dos fariseus, saduceus, zelotas e essênios, rejeitaram a comunidade dos cristãos, que deriva do latim Christus, “Cristo”, e este do grego Khristós, “ungido”. A aceitação do Cristianismo pelos judeus ocorreu até o ano 65 d.C., ano em que se concretizou a ruptura entre as duas facções religiosas.

A convicção dos cristãos de que Jesus Cristo, era o messias que havia sido anunciado pelos profetas de Israel, era inadmissível para os judeus. Repudiado em seu lugar de origem, o Cristianismo difundiu-se no mundo pagão. Mesmo com as perseguições do Império romano, em 61 d.C. já se encontrava em Roma, e após as perseguições o mundo romano abriu-se à nova religião, passando daí para os bárbaros, sobretudo no Ocidente.

A seita nascida no judaísmo tornou-se a religião de maior amplitude dentre todas as conhecidas, cujo universalismo ela mesma se atribui desde a sua origem. Esse universalismo explica a importância de que o Cristianismo se reveste, do ponto de vista de sua influência tanto nos domínios da cultura, da vida social e da política, como nos da moral.

Para os historiadores latinos, como Suetônio, Tácito, Plínio, o Cristianismo era considerado como uma das numerosas religiões vindas dos confins do império, da qual Jesus de Nazaré, fora o fundador. Para a maioria das religiões, a sua origem é atribuída a uma divindade, e cuja revelação é recebida por homens privilegiados, mas para os cristãos, Jesus, foi desde o início, muito mais que um intermediário divino, encarregado de uma mensagem, e, em virtude dessa mensagem, tomou a iniciativa da fundação de uma nova religião.

Oscar Cullman, afirma que:
Estudando, do ponto de vista da ciência histórica, o alcance de modificações políticas e culturais que o Cristianismo ocasionou, é certo que o historiador moderno pode, a rigor, reconhecer como legítima esta afirmação: O surgimento de Jesus de Nazaré deve ser considerado como uma curva decisiva da História. (CULLMAN, 2003, p. 91)

Será mesmo que Jesus Cristo se preocupou em fundar uma nova religião? Não seria Ele o personagem da história que quebraria todos os paradigmas religiosos, até então aceitos? Se Cristianismo é referente a Cristo e sua doutrina, qual sua origem? De onde veio? Qual sua ascendência humana?

A importância de Jesus não advém, fundamentalmente, de seus ensinamentos religiosos, mas de sua pessoa, introdutora do absoluto divino na história da humanidade.

A fé cristã professa que o Deus revelado a Abraão, a Moisés e aos profetas envia à terra seu filho como messias salvador. Ele nasce numa família comum, morre, ressuscita e envia o Espírito Santo para permanecer no mundo até o fim dos tempos. Desde o início o Cristianismo organiza-se como Igreja, sob a autorizada dos apóstolos e dos seus sucessores. Os discípulos espalham-se pelas regiões do Mediterrâneo, inclusive Roma, e fundam várias comunidades. Nos três primeiros séculos, os cristãos sofrem grandes perseguições, primeiro das autoridades religiosas do judaísmo e, a partir do século I d.C., dos romanos. Milhares de cristãos são mortos durante o reinado dos imperadores Nero, Trajano, Marco Aurélio, Décio e Diocleciano, por se recusarem a adorar os deuses do Império e a reconhecer a divindade do imperador.

Em 313 o imperador Constantino converte-se ao cristianismo, que expande-se por todo império.

As questões levantadas no início da introdução serão tratadas no primeiro capítulo do presente trabalho. No segundo capítulo a pesquisa abordará as seitas existentes na época de Jesus e no terceiro capítulo versará sobre a romanização da doutrina cristã e sua expansão até se tornar a “religião” oficial do Império Romano



1 O CONTEXTO: HISTÓRICO, ECONÔMICO, SOCIAL E RELIGIOSO
1.1 NO MUNDO ORIENTAL
A história do Cristianismo, teve início no Oriente, há cerca de quatro mil anos. Desde aquela época, o povo hebreu, que habitava a região da Palestina, uma faixa de transição entre a Ásia e a África, já acreditava na futura vinda de um Messias à terra. Essa profecia constava das páginas do Antigo Testamento, que continha os preceitos transmitidos por homens como Isaias, Moisés e Abraão, segundo os quais viviam os hebreus.
Regozijai-vos, juntas lançai gritos de alegria, ruínas de Jerusalém! Porque Iahweh consolou o seu povo, ele redimiu Jerusalém. Iahveh descobriu o braço santo aos olhos de todas as nações, e todas as extremidades da terra viram a salvação do nosso Deus. (ISAIAS, 52, 9-10).

O Messias solucionaria não somente os problemas do povo da Palestina, mas traria a justiça aos homens, de modo que todos tivessem os mesmos benefícios. Para compreender o tamanho da expectativa gerada por essa profecia no mundo hebreu, é necessário conhecer um pouco melhor a situação da Palestina nesse período. Era uma região aparentemente bastante próspera, já que era palco de constantes negociações envolvendo especiarias e artigos de luxo, embora a riqueza produzida concentrasse nas mãos da camada rica da sociedade, enquanto a maioria vivesse em condições precárias.


Eis que dias virão – oráculo de Iahveh – em que suscitarei a Davi um germe justo; um rei reinará e agirá com inteligência e exercerá na terra o direito e a justiça. Em seus dias, Judá será salvo e Israel habitará em segurança. Este é o nome com que o chamarão: Iahveh, nossa justiça. (JEREMIAS, 23, 5-6).
Por isso as pessoas menos favorecidas depositavam grandes esperanças na vinda do Messias, que instauraria uma nova ordem no mundo oriental, em que prevalecessem a compaixão e a fé. O nome do Salvador, em hebraico, é Jehoshuà, que quer dizer “Javé é salvação” ou “Deus que salva”.
Porque um menino nos nasceu, um filho nos foi dado, ele recebeu o poder sobre seus ombros, e lhe foi dado este: Conselheiro-maravilhoso, Deus-forte, Pai-eterno, Príncipe-da-paz, para que se multiplique o poder, assegurando o estabelecimento de uma paz sem fim sobre o trono de Davi e sobre o seu reino, firmando-o consolidando-o sobre o direito e sobre a justiça. Desde agora e para sempre, o amor ciumento de Iahveh dos Exércitos fará isto. (ISAIAS, 9, 5-6).

As mensagens das Sagradas Escrituras espalham-se por todo o Oriente, tanto em língua oficial, o hebraico, como em aramaico, que predominava entre as classes populares. Dessa maneira o judaísmo fixou-se e expandiu-se. Um fator que fortalecia o poder do Messias entre os hebreus, é que ele viria somente para os hebreus e não para o resto do mundo, razão pela qual essa religião fosse aceita na Palestina, ainda que pudesse ameaçar a estrutura econômica vigente. Em face da ansiedade da espera, muitas pessoas reivindicavam a identidade de Messias, saindo em peregrinações para pregar palavras de fé e salvação.

Segundo Flávio Josefo: ‘Em outros povos, outros critérios permitem determinar a nobreza. Entre nós, em compensação, é a posse do sacerdócio que é prova de origem ilustre’ (MORIN, 1988, p. 75).

A classificação social, em função dessa pureza de origem, é elaborada por Hillel, escriba que vivia no tempo de Herodes, o Grande, cuja escola tinha grande influência, na época do ministério público de Jesus. A população era distribuída em três grupos, ou seja, a pirâmide social interna de Israel era assim:



  1. O Israel puro – composto pelos sacerdotes e pelos levitas1;

  2. Famílias ilegítimas atingidas por uma mancha leve – composto pelos descendentes ilegítimos de sacerdotes, prosélitos2 e escravos pagãos libertos;

  3. Famílias atingidas por uma mancha grave – são os bastardos, os escravos do templo e os filhos de pai desconhecido e as crianças expostas, considerados o lixo da comunidade.

Além destes três grupos, havia a população estrangeira, ou seja, os escravos pagãos, pouco numerosos, pois custavam caro; e os samaritanos, que embora considerassem o Pentateuco como a Escritura Sagrada no século I, estavam completamente excluídos da comunidade judaica, pois eram considerados desde o berço, como impuros, em último grau. Veja o que o apóstolo Paulo, considerado o apóstolo dos pagãos, escreveu a respeito aos romanos:
A ira de Deus se manifesta do céu contra toda impiedade e injustiça dos homens, que com a injustiça sufocam a verdade. Pois aquilo que é possível conhecer de Deus foi manifestado aos homens; e foi o próprio Deus quem o manifestou. De fato, desde a criação do mundo, as perfeições invisíveis de Deus, tais como o seu poder eterno e sua divindade, podem ser contempladas, através da inteligência, nas obras que ele realizou. Os homens, portanto, não têm desculpa, porque, embora conhecendo a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças. Pelo contrário, perderam-se em raciocínios vazios, e sua mente ficou obscurecida. Pretendendo ser sábios, tornaram-se tolos, trocando a glória do Deus imortal por estátuas de homem mortal, de pássaros, animais e répteis. Foi por isso que Deus os entregou, conforme os desejos do coração deles, à impureza com que desonram seus próprios corpos. Eles trocaram a verdade de Deus pela mentira, e adoraram e serviram à criatura em lugar do Criador, que é bendito para sempre. Amém. Por isso, Deus entregou os homens a paixões vergonhosas: suas mulheres mudaram a relação natural em relação contra a natureza. Os homens fizeram o mesmo: deixaram a relação natural com a mulher e arderam de paixão uns com os outros, cometendo atos torpes entre si, recebendo dessa maneira em si próprios a paga pela sua aberração. Os homens desprezaram o conhecimento de Deus; por isso, Deus os abandonou ao sabor de uma mente incapaz de julgar. Desse modo, eles fazem o que não deveriam fazer: estão cheios de todo tipo de injustiça, perversidade, avidez e malícia; cheios de inveja, homicídio, rixas, fraudes e malvadezas; são difamadores, caluniadores, inimigos de Deus, insolentes, soberbos, fanfarrões, engenhosos no mal, rebeldes para com os pais, insensatos, desleais, gente sem coração e sem misericórdia. E apesar de conhecerem o julgamento de Deus, que considera digno de morte quem pratica tais coisas, eles não só as cometem, mas também aprovam quem se comporta assim. (Rm 1, 18-32)

Falando um pouco das estruturas políticas da sociedade judaica, é preciso não esquecer que o modelo organizacional da sociedade, na Palestina ocupada pelos romanos, permanece real e, mesmo, imperial. A ordem fiscal, a ordem pública, o direito e a justiça constituem os três setores básicos em que o poder é exercido.

Herodes, o Grande (37-4 a.C.), tinha implantado um regime de terror fiscal. No ano 6 depois de Cristo, quando seu filho Arquelau foi deposto, o judaísmo da palestina trocou um poder opressor por outro, pois o primeiro ato da nova administração foi ordenar um recenseamento geral de pessoas e bens. A administração fiscal dos romanos se revelou de grande criatividade para descobrir novos objetivos sujeitos a taxas regulares e extraordinárias. Um século depois da queda de Jerusalém em 70 d.C., Caius Pescennius Niger Justus, pretenso imperador romano, declarou aos palestinenses chorosos: ‘Em verdade, se dependesse só de mim, eu cobraria imposto do ar que vocês respiram’ (Baron). Na Palestina, os impostos romanos não eram mais pesados que em outros lugares, mas eram particularmente irritantes para os judeus. Os impostos romanos eram cobrados da seguinte maneira: o imposto de terra que atingia todos os produtores, devendo ser pago “in natura” e se elevava até 20 a 25% da produção. O imposto pessoal proporcional à situação econômica de cada um. Estes dois eram os impostos diretos. Havia ainda os impostos indiretos, como; direitos de alfândega, impostos de barreira em certas pontes, em certas encruzilhadas de grandes estradas, nas entradas de cidades e mercados. Plínio lembra estas barreiras fiscais:

Ao longo de toda estrada, eles (os transportadores de incenso da Arábia) não cessavam de pagar, aqui pela água, acolá pela forragem ou despesas de hospedagem nas pousadas e nas diversas barreiras. As despesas chegavam a 688 denários1 por camelo, antes de se chegar à costa do Mediterrâneo. (MORIN, 1988, p. 34)

Além dos impostos romanos, havia também os impostos judaicos. Os rabis especificavam 24 tipos de tributos a título religioso. O templo tinha grande importância econômica. Depois do exílio, pouco a pouco, o poder da aristocracia sacerdotal substituiu o poder real, mas não modificou o modo de produção da Palestina. Tudo, no templo, desfrutava de considerável sacralização. As receitas, como por exemplo, a didracma2, os dízimos, os resultados do comércio de animais consagrados ao altar, as ofertas regulares, os donativos de peregrinos vindos de todo o mundo romano. As despesas, como: renda dos chefes dos sacerdotes, gastos com o culto público, os pagamentos pelos trabalhos no templo e as despesas públicas com a beneficência. Segundo Flavio Josefo, o tesouro do templo sempre suscitou a cobiça dos conquistadores. Este poder econômico se justificava por ser o templo o lugar privilegiado da presença de Deus em seu povo. O símbolo deste comprometimento é a enorme quantidade de ouro que entrou na decoração do edifício. A propósito da ruína da cidade Santa, no ano 70 d.C., J. Jeremias escreve:

O ouro era tão abundante, em Jerusalém e, especialmente, no templo que depois da tomada da cidade, uma imensa oferta de ouro inundou toda a Província da Síria. Resultou disso, no dizer de Josefo, que aí se vendia a libra de ouro pela metade de seu antigo preço. (MORIN, 1988, p. 40)

A ordem pública era assegurada, internamente, pelos romanos, mas deixavam iniciativa à polícia judaica do templo para questões ordinárias entre os judeus. As legiões romanas estacionavam na Síria. Na Palestina havia cinco coortes3 de infantaria e uma ala de cavalaria: cerca de 3.000 homens, porém o grosso da tropa residia em Cesaréia, onde morava o próprio governador. Em Jerusalém, entre 44 e 46 antes de Cristo, havia uma coorte comandada por um tribuno romano. Na Galiléia, Herodes Antipas tinha poucas tropas e, provavelmente, estrangeiras, como no tempo de Herodes, o Grande, seu pai. Roma tentava controlar as suscetibilidades judaicas, especialmente a religiosa, através dos governadores, delegados do imperador, mas a lei judaica não era outra que a Lei de Moisés, considerada como recebida de Javé, no Sinai, para todos os israelitas. Os fariseus acrescentavam à Lei a Tradição oral de seus escribas. As questões internas do judaísmo eram, portanto, tratadas sob a autoridade bastante direta do Sinédrio de Jerusalém. O Sinédrio se compunha de 71 membros, entre eles, os chefes dos sacerdotes, dos anciãos ou representantes da aristocracia leiga, dos escribas ou representantes da aristocracia intelectual. A assembléia era presidida pelo sumo sacerdote. A competência do Sinédrio, diminuída sob Herodes, o Grande, foi mais ampla sob os governadores. Roma admitia a competência desta assembléia para todos os judeus do mundo. Na Judéia, ocupava-se, principalmente, das relações com o poder romano: ver, por exemplo, a processo de Jesus e de Paulo. Ocupava-se, também, da entrada em Jerusalém do imposto do templo e dos dízimos. Cuidava da interpretação da Lei e, zelava sobretudo pela guarda de seu depósito. Enfim, funcionava como corte de justiça, e para condenar alguém à morte era preciso reunir um tribunal de 23 membros, e a sentença de morte só era executada depois de ratificada pelo representante de Roma, embora haja controvérsias sobre isso, já que as autoridades romanas, às vezes, fechava os olhos.

De acordo com o testemunho de Flávio Josefo,

...alguns povos colocaram o poder político supremo nas monarquias, nas oligarquias e outros ainda no povo. Mas, nosso legislador não foi seduzido por nenhuma dessas formas de governo. Ele deu à sua constituição a forma que se poderia chamar teocracia. Colocou toda soberania e toda autoridade nas mãos de Deus.(JOSEFO apud MORIN, p. 105)

O poder político judaico no tempo de Jesus, tinha sua origem no templo. Certo que a Judéia estava ocupada pela força militar romana, e Pilatos, o governador, representava o imperador Tibério, porém, os romanos costumavam respeitar a organização interna dos países ocupados, e no caso dos judeus mais ainda, já que eram bastante radicais em seu modo de vida. O templo, então, com seu mais alto funcionário, o sumo sacerdote, permanecia como sede do Estado judaico. Todos os israelitas, 600 a 700 mil na Palestina; 6 a 7 milhões no império romano, dependiam da legislação de Jerusalém. Mas, como se escolhia o sumo sacerdote? Na época herodiana e romana, o princípio da hereditariedade para atribuição desta alta função, em parte, fora abandonado. Os sumos sacerdotes foram tirados de famílias sacerdotais comuns. Rivalidades, nepotismo, intervenções do poder romano decidiam a escolha. A família de Anás foi particularmente hábil, por suas intrigas, para conseguir ocupar o posto durante 50 anos. Vários de seus membros, entre os quais o famoso Caifás (18 a 36 dC) ocuparam o cargo. Deus governava, pois, de muito longe, esta teocracia.

Apesar de ocupar um papel central e importante na vida do povo hebreu, a religião não era vista da mesma maneira por todos os judeus, distinguindo assim alguns grupos, como:

a) Fariseus – um dos grupos mais conhecidos, que seguia rigidamente as palavras das Antigas Escrituras. Acreditam na onipotência de Deus e na chegada do redentor.

b) Saduceus – eram um grupo menor, porém, mais ricos que os demais. Seguiam somente as leis da Bíblia hebraica, em especial o Pentateuco, e não aceitavam novidades religiosas. Como participavam da elite sacerdotal, eram muito influentes na sociedade.

c) Zelotas – podem ser considerados os mais radicais da sociedade judaica, uma vez que tratavam a questão religiosa com a determinação de quem abraça a vida militar.

d) Essênios – tinham um modo de vida bastante tranqüilo, formando uma comunidade monástica assentada na região de Qumrãn. Eram um grupo muito fechado e consideravam-se o exército santo de Deus.

Apesar dos conflitos entre esses grupos, havia um ponto em comum entre eles; a freqüência ao templo de Jerusalém, onde resolviam questões administrativas, econômicas, religiosas e jurídicas., e também a religião judaica era um grande elo de união entre os hebreus, por causa da profecia da vinda do Messias, servindo também como ponto de esperança entre os mais pobres, que não se rebelavam com a situação de desigualdade.


1.2 DO OUTRO LADO DO MUNDO
Deixemos um pouco, por ora, a vida da palestina, para saber o que estava acontecendo do lado ocidental do mundo. Na época, vigorava o domínio do Império Romano no Ocidente. A sociedade romana não apresentava muitos grupos sociais, não adorava um Deus específico e não tinha regras como as que orientavam os hebreus. No campo religioso predominava o paganismo, que permitia a crença de diferentes deuses, sendo que o único elemento que unia os indivíduos era a devoção ao imperador.

Por que apresentar o perfil da sociedade romana antes do prosseguir com a história da religião judaica na Palestina? Para apontar as causas que levaram os caminhos dessa religião a se cruzarem com os do domínio romano.

Ao longo dos séculos V a.C. a V d.C., antes de se tornar o grande Império Romano, Roma foi, sucessivamente, uma monarquia, um república e um império militar. O sistema militar romano durou de I a.C. a IV d.C., que dispondo de um forte exército e uma população acalentada por espetáculos públicos, o Império Romano lançou-se à expansão territorial, e no seu trajeto estava a Palestina, região promissora por causa do comércio, já citado anteriormente neste trabalho.

Sob o comando de Otávio Augusto, no século I a.C., a Palestina foi invadida, e seu território divido em regiões governadas cada qual por um governador. Nas cidades de Judéia e Samaria, o governo era de Pôncio Pilatos e o controle geral do território conquistado foi delegado a Herodes.

Naturalmente a vida dos hebreus alterou-se drasticamente. Houve certa liberdade para que eles mantivessem seus costumes, mas em alguns casos, os romanos impuseram seu modo de vida à população dominada, imbuídos das influências gregas disseminadas por Alexandre Magno. Assim, embora o exercício da religião judaica fosse permitido, o culto aos imperadores passou a ser obrigatório. Cada grupo judeu reagiu de uma maneira diferente à dominação cultural. Os Saduceus aceitaram o processo de helenização para evitar o extermínio de todo o povo. Os Fariseus não aceitavam a presença dos romanos, e os Zelotas assumiram uma postura ainda mais radical, apontando levantes armados como a solução para escapar do domínio romano. Em pouco tempo, a situação estava altamente conflituosa, e viria a se agravar quando da chegada do tão esperado Messias.

Os governadores romanos na Palestina conheciam a profecia da vinda do Messias e sabiam do impacto que esse evento exerceria sobre a sociedade judaica, se ocorresse.



2 AS SEITAS MESSIÂNICAS
O messianismo é a crença no caráter salvador e redentor de um personagem que aparecerá no futuro, designado por messias, palavra que, no antigo Testamento, significava inicialmente “o ungido” em geral. No judaísmo intertestamentário, o termo ganha o sentido de “ungido” por excelência, identificado como o futuro rei da casa de Davi, prometido por Deus, predito pelos profetas e esperado pelo povo, que libertará do jugo estrangeiro, restaurando a antiga glória de Israel.

O Cristianismo está relacionado de maneira estreita com esse conceito; porém, enquanto para a tradição judaica o Messias ainda é esperado, para a tradição cristã já se manifestou como Jesus de Nazaré, sendo todos os outros personagens messiânicos considerados falsos messias.

Na tradição rabínica, entre o séc. II a.C. e o séc. II d.C., é construído um conceito de messias que se conserva até hoje, ou seja, um redentor humano para Israel, eleito por Deus e, por meio de Israel, para toda a humanidade. Um mensageiro de Deus e instrumento humano de sua vontade, que libertará Israel de sofrimentos, humilhação e opressão seculares, vindo da linhagem de Moisés, como o maior de todos os profetas.

Vale lembrar que o povo judeu, desde o tempo de sua volta do exílio babilônico (586-539 a.C.), fora condenado à existência de pequena nação numa terra distante e pobre, se tornado uma comunidade religiosa, reunida em torno do Templo de Jerusalém e privado de sua independência política, depois de uma série de dominações estrangeiras. Graças à sua religião conseguira isolar-se das potências estrangeiras, resistindo à influência de suas culturas e religiões.

Com efeito, o povo judeu não procura sua realização da mesma maneira que os outros povos da terra. A Aliança e a condição de povo eleito por Javé, um povo santo, que foi separado deste mundo, de seus interesses e ideais, e cujo centro de existência encontra em Javé, determinam-lhe a vida.

Assim, o povo hebreu, durante séculos, subjugado por impérios opressores, possuía uma grande e consoladora esperança: a da redenção, por um Messias divino anunciado insistentemente por todos os grandes profetas, desde a mais remota antiguidade judaica. O exílio marca profundamente a alma dos judeus. Sua humilhação aumenta com o domínio estrangeiro e a esperança numa intervenção direta de Deus – através do Messias prometido – torna-se obsessão, visão utópica ou escatológica.(4) Nesse sentido, os profetas exerceram papel relevante, mas, também, às vezes desconcertante, anunciando o abandono de Deus e a destruição, cada vez que o povo judeu desobedecia a Ele ou ia em busca de outros deuses. Institucionalizou-se a crença na retribuição divina – uma recompensa, porém, de caráter essencialmente político, de obediência à Lei, obrigação permanente, regulamentada pelos escribas5.

Acostumados à estrita fidelidade à letra dos textos imemorais, os intérpretes dos livros santos, somente poderiam imaginar um Messias político, que libertasse Israel do jugo romano e estabelecesse, em todo o seu explendor, a pujança do povo de Deus. A imagem desse Messias poderoso e invencível não podia conferir com a realidade do pobre carpinteiro que nem mesmo dava importância às tradições da raça. Além do mais, e para encerrar qualquer debate sobre a autenticidade do Messias, bastava dizer que o carpinteiro morrera crucificado, morte infamante e ignominiosa. Todos pensavam numa figura carismática que mudasse o rumo da História num segundo, ao sopro de sua vontade poderosíssima, para ocupar o trono do mundo, no exercício de um poder temporal incontestável, com sede em Jerusalém, a mais sagrada das cidades. Todos os gentios6 seriam submetidos a Israel, aceitariam Javé e obedeceriam à Torá7. Daí em diante, a paz se instalaria na terra fértil e abundante para sempre.

Feita esta breve explanação a respeito da expectativa do povo judeu em relação à vinda do Messias, vamos nos deter nas principais correntes messiânicas que precederam e/ou deram origem ao Cristianismo. O judaísmo se diversificava ao tempo de Jesus em quatro seitas, às quais é preciso atentar para melhor compreensão da fundação do cristianismo: saduceus (conservadores); fariseus (nacionalistas e reformistas moderados); zelotas (ativistas, subversivos, guerrilheiros) e essênios (escatologistas, celibatários, rurais). Estas seitas já foram mencionadas neste trabalho, em sua introdução, porém vamos nos deter em uma análise mais profunda para entendermos a partir de qual delas poderia ter surgido o Cristianismo.

Flávio Josefo reduzia as seitas messiânicas a apenas três, considerando que os zelotas eram apenas ativistas, arrolando seu membros entre as demais seitas. Dizia ele: “Havia entre os judeus apenas três gêneros de filosofia: um era seguido pelos fariseus, outro pelos saduceus e o terceiro, que todos pensam ser o mais aprovado, era o dos essênios, judeus naturais, porém muito unidos pelo amor e amizade” (Guerra Judaica, II, 7).

Da luta nacionalista, com inspiração messianista, resultou a divisão dos judeus em seitas. Vejamos:



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