Contracultura Cristã



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Mateus 5:38-48
A justiça do cristão: não-vingança e amor ativo

As duas antíteses finais levam-nos ao ponto mais alto do Sermão do Monte, pelo qual ele tem sido mais admirado e, ao mesmo tempo, objeto da maior indignação. Trata-se da atitude de amor total que Cristo manda que demonstremos ao perverso (v. 39) e aos nossos inimigos (v. 44). Em nenhum outro ponto o Sermão é mais desafiador do que neste. Em nenhum outro ponto a niti­dez da contracultura cristã é mais óbvia. Em lugar nenhum nossa necessidade do poder do Espírito Santo (cujo primeiro fruto é o amor) é mais constrangedora.


1. Atitude passiva e sem vingança (vs. 38-42)

Ouvistes que foi dito: Olho por olho, dente por dente. 39Eu, porém, vos digo: Não resistais ao perverso; mas a qualquer que te ferir na face direita, volta-lhe também a outra; 40 e ao que quer demandar contigo e tirar-te a túnica, deixa-lhe também a capa. 41Se alguém te obrigar a andar uma milha, vai com ele duas. 42Dá a quem te pede, e não voltes as costas ao que deseja que lhe emprestes.

O extrato dos ensinamentos orais dos rabinos, que Jesus citou, vem direto da lei mosaica. Ao examiná-lo, precisamos lembrar que a lei de Moisés era um código civil, além de moral. Por exemplo, Êxodo 20 contém os dez mandamentos (a destilação da lei moral). Êxodo 21 a 23, por outro lado, contém uma série de "ordenanças", nas quais os padrões dos dez mandamentos são aplicados à vida da jovem nação. Uma grande variedade de "casos legais" é apresentada, com ênfase sobre prejuízos causados a pessoas e propriedades. É no decorrer desta legis­lação que aparecem as palavras: "Se homens brigarem ... se houver dano grave, então darás vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé, queimadura por quei­madura, ferimento por ferimento, golpe por golpe."229

O contexto torna claro que, sem dúvida alguma, esta era uma instrução para os juizes de Israel. Na verdade, eles são mencionados em Deuteronômio 19:17, 18. É uma expressão da lex talionis, o princípio de uma retribuição exata, cujo propósito era estabelecer o fundamento da justiça, especificando o castigo que o culpado merecia, e limitar a compensação de sua vítima a um equivalente exato e não mais. Assim, tinha o duplo efeito de caracterizar a justiça e refrear a vingança. Também proibia que membros de famílias inimigas tomassem a lei em suas pró­prias mãos para atos de vingança.

Semelhantemente, na lei islâmica, a lex talionis especificava o máximo castigo admissível. Este era administrado literalmente (e ainda o é, por exemplo, na Arábia Saudita), a não ser que a pessoa ferida desistisse de cobrar a penalidade, ou que seus herdeiros (em caso de assassinato) preferissem o dinheiro de sangue.230

É quase certo que, no tempo de Jesus, a retaliação literal pelos prejuízos já fora substituída pela prática legal judaica das penali­dades em dinheiro ou "custos". Já temos evidência disso muito mais cedo. Os versículos logo após a lex talionis em Êxodo de­cretam que, se um homem ferir seu escravo de modo a lhe des­truir o olho ou quebrar-lhe um dente, em lugar de perder o seu próprio olho ou dente (o que ele bem mereceria, mas que não representaria compensação alguma para o escravo incapacitado), deveria perder o seu escravo: "deixá-lo-á ir forro pelo seu olho (ou dente)".231 Podemos ter toda certeza de que, em outros casos, esta penalidade não era fisicamente executada, exceto no caso do homicídio ("vida por vida"), sendo convertida em pagamento de prejuízos.

Mas os escribas e fariseus evidentemente estendiam este princípio da justa retribuição dos tribunais legais (aos quais per­tencia) para o reino dos relacionamentos pessoais (ao qual não pertencia). Tentavam usá-lo para justificação de vingança pessoal, embora a lei o proibisse explicitamente: "Não te vingarás nem guardarás ira contra os filhos do teu povo."232 Assim, "este excelente, ainda que severo, princípio de retribuição judi­cial estava sendo utilizado com desculpa exatamente para aquilo que devia abolir, isto é, a vingança pessoal".233

Em sua resposta, Jesus não contradisse o princípio da retri­buição, pois é um princípio verdadeiro e justo. Mais tarde, no Sermão, ele mesmo o expôs da seguinte maneira: "Não julgueis, para que não sejais julgados" (7:1), e todos os seus ensinamentos sobre a terrível realidade do juízo divino, no último dia, repousam sobre o mesmo princípio fundamental. O que Jesus afirmou na antítese era, antes, que este princípio, embora pertença aos tri­bunais legais e ao juízo de Deus, não é aplicável aos nossos rela­cionamentos pessoais. Estes têm de se basear no amor, não na justiça. Nosso dever para com os indivíduos que nos prejudicam não é a vingança, mas a aceitação da injustiça (v. 39).

Mas qual é exatamente o significado deste chamamento à não-resistência? O verbo grego (anthistëmi) é explícito: é resistir, opor-se, enfrentar ou indispor-se com alguém ou com alguma coisa. Portanto, a quem ou a que somos proibidos de resistir?

Talvez outros usos do verbo no Novo Testamento nos ajudem a formar o contexto do nosso pensamento. De acordo com seu principal uso negativo, não devemos acima de tudo resistir a Deus, à sua vontade, à sua verdade ou à sua autoridade.234 Entre­tanto, constantemente somos instados a resistir ao diabo. Os apóstolos Paulo, Pedro e Tiago nos dizem que nos oponhamos àquele que é "o maligno" por excelência e a todos os poderes do mal que estão à sua disposição.235 Então, como é possível que Jesus nos tenha mandado não resistir ao perverso? Não podemos absolutamente interpretar este mandamento como um convite a transigir com o pecado ou com Satanás. A primeira pista para a compreensão correta deste seu ensinamento é reconhecer que as palavras tö ponërö ("o perverso") aqui são masculinas e não neutras. Não estamos proibidos de resistir ao mal propriamente dito, ao mal abstrato, "ao maligno" (que significa o diabo), mas à pessoa má, ou "os que fazem mal a vocês" (BLH). Jesus não nega que a pessoa é má. Ele não nos pede que imaginemos que essa pessoa seja diferente do que é, nem que fechemos os olhos ao seu mau comportamento. O que ele não nos permite é a vin­gança.

As quatro mini-ilustrações que se seguem, todas se aplicam ao princípio da não-retaliação cristã, e indicam até onde deve ir. São pequenos vividos camafeus extraídos de diferentes situa­ções da vida. Cada um deles apresenta uma pessoa (no contexto, uma pessoa que, sob um certo aspecto, é "perversa") que pro­cura nos fazer o mal, uma nos batendo na face, outra levando-nos às barras da justiça, a terceira recrutando nossos serviços compulsoriamente e a quarta pedindo-nos dinheiro. Todos têm um toque muito atual, exceto o terceiro, que parece um pou­quinho arcaico. O verbo traduzido para obrigar (angareusei), de origem persa, foi usado por Josefo, referindo-se ao "trans­porte compulsório da bagagem militar".236 Poderia ser aplicado hoje a qualquer forma de serviço ao qual fôssemos recrutados e não voluntários. Em cada uma das quatro situações, Jesus disse, nosso dever cristão é abster-nos tão completamente da vingança que até permitamos à pessoa "perversa" dobrar a injúria.

Vamos dizer logo de início, não obstante nosso grande descon­forto, que haverá ocasiões em que não poderemos nos esquivar desta exigência e teremos de obedecê-la literalmente. Pode pa­recer fantástica a idéia de oferecermos a face esquerda a alguém que já nos tenha batido na direita, especialmente quando nos lembramos de que "bater na face direita, com as costas da mão, continua sendo ainda hoje, no Oriente, um golpe insultuoso" e que Jesus provavelmente tinha em mente não um insulto comum, mas "um golpe insultuoso bastante específico: o golpe desferido contra os discípulos de Jesus na qualidade de heréticos".237 Mas esse é o padrão que Jesus exige, e é o padrão que ele mesmo cumpriu. As Escrituras do Velho Testamento disse­ram sobre ele: "Ofereci as costas aos que me feriam, e as faces aos que me arrancavam os cabelos; não escondi o meu rosto dos que me afrontavam e me cuspiam." E na ocasião do aconteci­mento, primeiro a polícia judia cuspiu nele, vendou-lhe os olhos e bateu-lhe no rosto e, então, os soldados romanos fizeram o mesmo. Coroaram-no com espinhos, vestiram-no com um manto imperial, colocaram em sua mão um cetro de cana, zombaram dele: "Salve, rei dos judeus!" Ajoelharam-se diante dele, em reverência zombeteira, cuspiram-lhe no rosto e bateram-lhe com as mãos.238 E Jesus, com a infinita dignidade do autocontrole e do amor, permaneceu calado. Demonstrou sua total recusa em vingar-se, permitindo que continuassem naquela zombaria cruel por quanto tempo quisessem. Mais ainda, antes de nos apres­sarmos em fugir ao desafio do seu ensino e comportamento, declarando-os como um mero idealismo impraticável, preci­samos lembrar que Jesus chamou os seus discípulos para o que Bonhoeffer intitulou de "comunhão da cruz", uma participação visível da cruz.239 Foi assim que Pedro o expressou: "Cristo sofreu em vosso lugar, deixando-vos exemplo para seguirdes os seus passos . . . pois ele, quando ultrajado, não revidava com ultraje, quando maltratado não fazia ameaças, mas entregava-se àquele que julga retamente."240 No dizer impressionante de Spurgeon, nós "temos de ser como a bigorna quando homens perversos são martelos".241

Sim, mas uma bigorna é uma coisa, e um capacho é outra. As ilustrações de Jesus e o seu exemplo pessoal não se referem ao covarde que não oferece resistência; ele mesmo desafiou o principal dos sacerdotes, quando foi por este interrogado na corte.242 Antes, referem-se ao homem forte, cujo controle de si mesmo e cujo amor aos outros é tão poderoso que rejeita absolu­tamente qualquer forma concebível de retaliação. Mais ainda, por mais conscientes que estejamos em nossa determinação de não fugir às implicações do ensinamento de Jesus, não podemos aceitar os quatro pequenos camafeus com literalismo inexpressivo, sem imaginação. Em parte porque não foram apresentados como regulamentos detalhados, mas como ilus­trações de um princípio; e em parte porque devem ser aceitos em apoio ao princípio que pretendem ilustrar. Esse princípio é o amor, o amor altruísta de uma pessoa que, quando ferida, recusa-se a satisfazer o seu ego através da vingança, mas con­templa o supremo bem-estar da outra pessoa e da sociedade, e determina reagir de acordo. Certamente jamais revidará, pa­gando o mal com o mal, pois está totalmente liberta da animosi­dade pessoal. Pelo contrário, procura pagar o mal com o bem. Por isso está pronta a dar o máximo de seu corpo, de suas roupas, de seu trabalho, de seu dinheiro, até onde estes dons forem requisitados pelo amor.

Portanto, o único limite para a generosidade cristã é o limite estabelecido pelo próprio amor. Por exemplo, o apóstolo Paulo "resistiu" (a mesma palavra grega), certa vez, ao apóstolo Pedro "face a face". O comportamento de Pedro fora errado, mau. Ele fugira da confraternização com os irmãos gentios, contra­dizendo, assim, o Evangelho. Será que Paulo se deu por vencido e deixou que Pedro escapasse impune? Não. Opôs-se, publica­mente, repreendendo-o e denunciando a atitude de Pedro. E acho que temos de defender a atitude de Paulo como verdadeira expressão de amor, pois, de um lado, não havia qualquer animo­sidade pessoal para com Pedro (ele não o espicaçou, nem o in­sultou, nem o machucou), enquanto que, por outro lado, havia um grande amor pelos cristãos gentios, a quem Pedro desres­peitara, e um grande amor pelo Evangelho que Pedro negara.243

Do mesmo modo, as ilustrações de Cristo não devem ser to­madas como carta patente de algum tirano, desordeiro, mendigo ou assassino inescrupuloso. Seu propósito foi proibir a vingança, não incentivar a injustiça, a desonestidade ou o vício. Como podem aqueles que procuram, com prioridade suprema, a ex­pansão do reino justo de Deus, contribuir ao mesmo tempo para a expansão da injustiça? O verdadeiro amor, que tanto se im­porta com o indivíduo como com a sociedade, age para deter o mal e promover o bem. E a ordem de Cristo foi "um preceito de amor, não de insensatez".244 Ele não ensina a irresponsabilidade que incentiva o mal, mas a paciência que renuncia à vingança. A autêntica não-resistência cristã é a não-retaliação.

As familiares palavras da ERC "não resistais ao mal" têm sido aceitas por alguns como base para um pacifismo inflexível, com a proibição do uso da força em toda e qualquer situação.

Um dos exemplos mais absurdos disto é "o santo louco" que Lutero descreveu, "que deixava que os piolhos o beliscassem, recusando-se a matá-los, com base neste texto, declarando que tinha de sofrer e que não podia resistir ao mal"!245

Um exemplo mais respeitável, embora também extremo, foi Leon Tolstoy, o reformador social e notável novelista russo do século XIX. Em sua obra O que eu Creio, 1884, ele descreve co­mo, num período de profunda perplexidade pessoal sobre o signi­ficado da vida, ficou "sozinho com o meu coração e o livro mis­terioso". Enquanto lia e relia o Sermão do Monte, "subitamente compreendi o que antes não compreendia" e o que, segundo sua opinião, toda a Igreja não havia entendido durante 1.800 anos. "Compreendi que Cristo diz exatamente o que declara", parti­cularmente na ordem "não resistais ao mal". "Estas pala­vras . . ., entendidas corretamente, foram para mim uma verda­deira chave para tudo o mais."246 No segundo capítulo ("O Man­damento da Não-Resistência"), ele interpreta as palavras de Jesus como proibição a toda violência física contra pessoas e instituições. "E impossível confessar, ao mesmo tempo, que Cristo é Deus, cujo ensinamento básico é a não-resistência ao mal, e, consciente e calmamente, trabalhar para o estabeleci­mento da propriedade, dos tribunais legais, do governo e das forças armadas . . .".247 E, outra vez, "Cristo proíbe completa­mente a instituição humana de qualquer tribunal legal" porque estes tribunais resistem ao mal e até mesmo retribuem o mal com o mal.248 Os mesmos princípios se aplicam, diz ele, à polícia e ao exército. Quando os mandamentos de Cristo forem finalmente obedecidos, "todos os homens serão irmãos, e todos estarão em paz uns com os outros . . . Então o Reino de Deus terá che­gado".249 Quando, no último capítulo, tenta defender-se da acusação de ingenuidade porque "os inimigos virão ... e, se não os enfrentarmos, eles nos matarão", ele mesmo contradiz sua cândida, na verdade equivocada doutrina de que os seres hu­manos são basicamente sensatos e afáveis. Até os "chamados criminosos e ladrões . . . amam o bem e odeiam o mal como eu". E quando eles perceberem, através do ensino e das atitudes dos verdadeiros cristãos, que os não-violentos dedicam suas vidas ao serviço dos outros, "nenhum homem será tão insensato a ponto de privar de comida ou matar aqueles que lhe servem".250

Um homem que foi profundamente influenciado pelas obras de Tolstoy foi Gandhi. Já em criança aprendera a doutrina do ahimsa, "a abstenção de prejudicar aos outros". Mas, depois, como jovem, leu em Londres pela primeira vez o Baghavad Gita e o Sermão do Monte ("Foi esse Sermão que me fez estimar tanto a Jesus"), e depois, na África do Sul, O Reino de Deus Está em Vós, de Tolstoy. Quando retornou à Índia, cerca de dez anos mais tarde, estava resolvido a pôr em prática as idéias deste último. Falando francamente, sua política não foi nem "resis­tência passiva" (que ele considerava negativa demais), nem "desobediência civil" (que era muito desafiante), mas satyagraha ou "a força da verdade", a tentativa de vencer os seus oponentes pelo poder da verdade e "pelo exemplo do sofrimento volun­tariamente suportado". Sua teoria aproximava-se muito da anarquia. "O Estado representa violência numa forma concen­trada e organizada." No estado perfeito que ele imaginava, em­bora existisse polícia, esta raramente usaria da força; o castigo acabaria; as prisões seriam transformadas em escolas; e o litígio seria substituído pela arbitragem.251

E impossível não admirar a humildade e a sinceridade de propósito de Gandhi. Mas a sua política tem de ser considerada irrealista. Ele disse que resistiria aos invasores japoneses (se viessem) com uma brigada de paz, mas a sua declaração jamais precisou ser posta à prova. Ele insistia com os judeus que ofere­cessem uma resistência não-violenta a Hitler, mas estes não o atenderam. Em julho de 1940, enviou um apelo a todos os ingleses para uma cessação de hostilidades, no qual declarava: "Tenho praticado, com precisão científica, a não-violência e suas possibilidades por um período ininterrupto de mais de cinqüenta anos. Eu a tenho aplicado em todos os aspectos da vida: vida doméstica, vida institucional, vida econômica e vida política. Não conheço um só caso no qual tenha fracassado."252 Mas o seu apelo caiu em ouvidos moucos. Jacques Ellul faz um perceptivo comentário, dizendo que "um fator essencial para o sucesso de Gandhi" foi o povo com quem estava envolvido. De um lado estavam os hindus, "um povo moldado por séculos de preocu­pação com a santidade e a espiritualidade, . . . um povo . . . capaz de entender de maneira única a sua mensagem e aceitá-la" e, do outro lado, os ingleses, que "oficialmente se declaravam uma nação cristã", que "não podia permanecer insensível à pregação da não-violência de Gandhi". "Mas coloquem Gandhi na Rússia de 1925 ou na Alemanha de 1933. A solução teria sido simples: depois de alguns poucos dias ele teria sido preso e nin­guém mais ouviria falar dele."253

Nossa principal divergência com Tolstoy e Gandhi, entre­tanto, não se deve ao fato de seus pontos de vista serem irrea­listas, mas de não serem bíblicos. Não podemos aceitar a ordem de Jesus, "não resistais ao mal", como proibição absoluta contra o uso de toda a força (incluindo a polícia), a não ser que este­jamos preparados para dizer que a Bíblia se contradiz e que os apóstolos interpretaram mal a Jesus. O Novo Testamento ensina que o Estado é uma instituição divina, comissionada (através de suas autoridades executivas) para punir o malfeitor (isto é, "resistir ao mal", a ponto de fazê-lo pagar a penalidade pelo mal cometido) e recompensar aqueles que fazem o bem.254 Esta ver­dade revelada não pode ser distorcida, entretanto, para justificar a violência institucionalizada de um regime opressor. Longe disso. Na verdade, o mesmo Estado, o Império Romano, que em Romanos 13 é chamado de "ministro de Deus", tendo autori­dade dada por Deus, foi descrito em Apocalipse 13 como aliado do diabo, empunhando a autoridade deste. Mas estes dois aspec­tos do Estado complementam-se mutuamente; não são contra­ditórios. O fato de o Estado ter sido instituído por Deus não o preserva do abuso do poder e de tornar-se instrumento de Satanás. Nem a verdade histórica de que o Estado tem às vezes perseguido homens bons altera a verdade bíblica de que a sua verdadeira função é punir os homens maus. E quando o Estado exerce a sua autoridade, concedida por Deus, para punir, é "ministro de Deus, vingador, para castigar quem pratica o mal".255

Como pode este princípio ser aplicado à guerra? Nenhuma resposta astuta ou fácil, a favor ou contra a guerra, parece pos­sível, embora todos os cristãos certamente concordem que, por sua própria natureza, a guerra é horrível e brutalizante. Na­turalmente, também o conceito de "guerra justa" desenvolvi­do por Tomás de Aquino, uma guerra cuja causa, métodos e resultados devem ser "justos", dificilmente se relaciona com o mundo moderno. Não obstante, gostaria de argumentar, por um lado, que a guerra não pode ser absolutamente repudiada com base no "não resistais ao mal", assim como não podemos acabar com a polícia e as cadeias; e, por outro lado, que a sua única justificativa (do ponto de vista bíblico) seria como uma es­pécie de ação policial em escala maior. Além disso, é da essência da ação policial ser discriminatória: prender malfeitores específi­cos a fim de lhes fazer justiça. É porque grande parte da ação bé­lica moderna se desvia muito desses pontos, quer na definição dos malfeitores, ou na punição do mal, que as consciências cristãs re­voltam-se contra ela. Certamente, os horrores indiscriminados da guerra atômica, levando os inocentes de roldão junto com os culpados, bastariam para condená-la totalmente.

O ponto que estou examinando é que os deveres e as funções do Estado são totalmente diferentes daqueles do indivíduo. A responsabilidade individual para com o malfeitor foi estipulada pelo apóstolo Paulo, no final de Romanos 12: "Não torneis a ninguém mal por mal (certamente um eco de "não resistais ao perverso"); esforçai-vos por fazer o bem perante todos os ho­mens . . . não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira (de Deus); porque está escrito: A mim me pertence a vin­gança; eu retribuirei, diz o Senhor. Pelo contrário, se o teu ini­migo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber; porque, fazendo isto, amontoarás brasas vivas sobre a sua ca­beça" (isto é, envergonhando-o, farás que se arrependa). Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem."256 Veremos que Paulo proíbe a prática da vingança, não porque seja errada em si mesma, mas porque é prerrogativa de Deus, não do ho­mem. "A mim me pertence a vingança", diz o Senhor. O seu propósito é expressar a ira ou a vingança, agora, através dos tribunais legais (como Paulo prossegue escrevendo em Romanos 13) e, finalmente, no dia do juízo.

Esta diferença das funções dadas por Deus aos dois "ministros de Deus" — o estado para punir o malfeitor, e o cristão para não pagar o mal com o mal, mas vencer o mal com o bem — provoca fatalmente uma dolorosa tensão em todos nós, espe­cialmente porque todos nós, em diferentes graus, somos indivíduos e cidadãos do estado, e, portanto, participamos de ambas as funções. Por exemplo, se minha casa for assaltada uma noite e eu pegar o ladrão, tenho a obrigação de fazê-lo sentar-se e lhe dar alguma coisa para comer e beber mas, ao mesmo tem­po, tenho de telefonar à polícia.

Lutero explicou esta tensão, fazendo uma distinção útil entre a nossa "pessoa" e o nosso "ofício". Fazia parte do seu ensina­mento sobre os "dois reinos", o qual foi, entretanto, criticado de maneira justa. Ele o extraiu do texto "Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus". Lutero viu nestas palavras uma dupla existência: um reino divino e espiritual, "o reino de Deus"; e um reino secular e temporal, "o reino do mundo" (ou "do imperador"). No primeiro, que ele também chamou de "o reino à mão direita de Deus", o cristão vive como "pessoa"; no segundo, "o reino à esquerda de Deus", o cristão ocupa um "ofício" qualquer, como "pai", "patrão", "príncipe" ou "juiz". "É preciso não confundir os dois", escreveu Lutero, "a pessoa e o seu ofício".257

Eis aqui parte de como interpretou, na prática, essas duas colocações feitas à ordem de não resistir ao mal: um cristão "vive simultaneamente como cristão para com todos, pessoalmente sofrendo toda sorte de coisas no mundo, e, na qualidade de pessoa secular, mantendo, usando e executando todas as fun­ções necessárias exigidas pela lei de seu país ou cidade . . ." "Um cristão não deve resistir ao mal; mas, dentro dos limites de seu ofício como pessoa secular, deve opor-se a todo o mal." Resumindo, a regra no reino de Cristo é tolerar tudo, perdoar e recompensar o mal com o bem. Por outro lado, no reino do imperador, não deve haver tolerância para com a injustiça mas, antes, defesa contra o mal e castigo para o mesmo, ... de acordo com as exigências do ofício ou a posição de cada pessoa." "Cris­to .. . não disse: 'Jamais alguém deve resistir ao mal', pois solaparia completamente todo o governo e toda a autoridade. Mas ele disse: 'Vocês, vocês não o farão'."258

A diferença precisa que Lutero fez entre os dois "reinos" foi certamente exagerada. "É difícil fugir ao sentimento", escreve Harvey McArthur, "que este seu ensinamento concede à esfera secular uma autonomia à qual não tem direito".259 Ele chegou ao ponto de dizer ao cristão que, no reino secular, "você não tem de consultar a Cristo qual é o seu dever", pois é o imperador que lhe diz. Mas as Escrituras não nos permitem colocar os dois reinos um contra o outro num contraste desses, como se a Igreja fosse esfera de Cristo governada pelo amor, e o Estado do impe­rador fosse governado pela justiça. Jesus Cristo tem autoridade universal, e nenhuma esfera pode ser excluída do seu governo. Mais ainda, a administração da justiça pelo Estado precisa ser temperada com amor, enquanto que, na Igreja, o amor precisa, às vezes, ser expresso em termos de disciplina. O próprio Jesus falou da necessidade dolorosa de excluir um transgressor obsti­nado e não arrependido.

Não obstante, acho que a distinção que Lutero fez entre a "pessoa" e o "ofício" ou, como diríamos, entre o indivíduo e a instituição, procede. O cristão tem de sentir-se totalmente livre do desejo de vingança, não só na ação, mas também no seu coração; mas, na posição de oficial do Estado ou da Igreja, poderá receber autoridade de Deus para resistir ao mal e puni-lo.

Para resumir o ensinamento desta antítese, Jesus não proibiu a administração da justiça, mas antes proibiu-nos de tomar a lei em nossas próprias mãos. "Olho por olho" é o princípio de justiça que pertence aos tribunais legais. Na vida pessoal, deve­mos nos livrar não só de toda retaliação em palavras e atos, mas também de toda animosidade de espírito. Podemos e de­vemos entregar nossa causa ao Juiz bom e justo, como o próprio Jesus fez,260 mas não devemos procurar nem desejar qualquer vingança pessoal. Não devemos retribuir o mal, mas suportá-lo e, assim, vencer o mal com o bem.

Portanto, a ordem de Jesus de não resistir ao mal não deveria ser usada para justificar uma fraqueza de caráter, uma transigên­cia moral ou uma anarquia política, ou até mesmo o pacifismo total. Pelo contrário, o que Jesus exige aqui de todos os seus discí­pulos é uma atitude pessoal para com os malfeitores, que seja fruto da misericórdia, não da justiça; que renuncie à retaliação a ponto de expor-se a custosos sofrimentos futuros; que jamais seja governada pelo desejo de causar o mal, mas sempre com a deter­minação de servir e proporcionar o mais alto bem.

Não conheço ninguém que tenha expressado isso em termos mo­dernos mais relevantes do que Martin Luther King, que aprendeu tanto de Gandhi quanto este de Tolstoy, embora ele entendesse os ensinamentos de Jesus melhor do que aqueles. Não temos dúvidas quanto aos sofrimentos injustos que Luther King teve de suportar. O Dr. Benjamin Mays fez uma lista deles no seu fune­ral: "Se algum homem conheceu o significado do sofrimento, este foi King. A sua casa foi bombardeada; viveu, durante treze anos, dia após dia, sob constantes ameaças de morte; foi malicio­samente acusado de ser comunista; foi falsamente acusado de ser um hipócrita . . .; foi esfaqueado por um membro de sua própria raça; foi esmurrado no vestíbulo de um hotel; foi preso mais de vinte vezes; uma vez foi profundamente magoado porque os seus amigos o traíram, e, não obstante, este homem não guardava amargura em seu coração, nem rancor em sua alma, espírito de vingança em sua mente; e ele andou por este mundo pre­gando a não-violência e o poder redentor do amor."261

Um dos seus mais comoventes sermões, baseado em Mateus 5:43-45, intitulava-se "Amando os seus Inimigos" e foi escrito numa cadeia da Geórgia. Lutando com as perguntas por quê e como os cristãos devem amar, descreveu como "o ódio multiplica o ódio ... em uma espiral descendente de violência" e que é "exatamente tão perigoso para a pessoa que odeia" como para a sua vítima. Mas, acima de tudo, "o amor é a única força capaz de transformar um inimigo em um amigo", pois tem poder "criativo" e "redentor". Ele prosseguiu aplicando o seu tema à crise racial nos Estados Unidos. Por mais de três séculos, os negros americanos sofreram opressão, frustração e discrimi­nação. Mas Martin Luther King e seus amigos estavam deter­minados a "enfrentar o ódio com amor". Então, ganhariam não somente a liberdade como também seus próprios opressores, "e a nossa vitória será uma vitória dupla".262
2. Amor ativo (vs. 43-48)

Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo, e odiarás o teu inimigo. 44Eu, porém, vos digo: Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem; 45para que vos torneis filhos do vosso Pai celeste, porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons, e vir chuvas sobre justos e injustos. 46Porque se amardes os que vos amam, que recompensa tendes? Não fazem os publicanos também o mesmo? 47E se saudardes somente os vossos irmãos, que fazeis de mais? Não fazem os gentios também o mesmo? 48Portanto, sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste.

Já vimos como é gritante a distorção da lei, feita com a instrução: "Ame o seu próximo e odeie o seu inimigo", considerando-se o que omite e o que acrescenta ao mandamento. Deliberadamente estreita tanto o padrão do amor (deixando de fora as palavras cruciais "como a ti mesmo", que elevam imensamente o padrão) quanto os destinatários desse amor (qualificando a categoria de próximo com a exclusão específica dos inimigos e acrescentando a ordem de odiá-los). Digo que a perversão é "gritante" porque lhe falta qualquer justificativa, apesar de os rabinos a defenderem como interpretação legítima. Eles apegavam-se ao contexto imediato da inconveniente ordem de amar o próximo, destacando que Levítico 19 dirigia-se "a toda a congregação do povo de Israel". São instruções para os israe­litas sobre seus deveres para com seus pais e, de maneira mais ampla, para com seus "próximos" e seus "irmãos". Não deviam oprimi-los nem roubá-los, qualquer que fosse a sua posição social. "Não aborrecerás a teu irmão no teu íntimo . . . Não te vingarás nem guardarás ira contra os filhos do teu povo; mas amarás o teu próximo como a ti mesmo" (vs. 17,18).

Era bastante fácil para a casuística ética (consciente ou incons­cientemente ansiosa em aliviar o peso deste mandamento) torcê-lo para sua própria conveniência. "Meu próximo", argumen­tavam, "é alguém do meu próprio povo, um companheiro judeu, de minha própria parentela, que pertence a meu povo e à minha religião. A lei nada diz sobre estrangeiros ou inimigos. Portanto, considerando que o mandamento é de amar apenas o meu pró­ximo, posso aceitar como permissão, até mesmo injunção, odiar o meu inimigo, pois ele não é meu próximo para que o ame." O raciocínio é bastante razoável para convencer aqueles que querem ser convencidos, e para confirmá-los em seu próprio preconceito racial. Mas é uma racionalização, e bastante espe­ciosa. Eles evidentemente ignoravam a instrução anterior, dada no mesmo capítulo, de deixar as respigaduras dos campos e das vinhas "para o natural e para o forasteiro", que não era judeu mas um estrangeiro residente, bem como a declaração inequívoca contra a discriminação racial, no final do capítulo: "Como o natural será entre vós o estrangeiro que peregrina convosco; amá-lo-eis como a vós mesmos" (v. 34). Do mesmo modo, "a mesma lei haja para o natural e para o forasteiro que pere­grinar entre vós" .263

Eles também faziam olhos cegos para os outros mandamentos que regulavam a sua conduta para com os inimigos. Por exem­plo: "se encontrares o boi do teu inimigo, ou o seu jumento, desgarrado, lho reconduzirás. Se vires prostrado debaixo da sua carga o jumento daquele que te aborrece, não o abandonarás, mas ajudá-lo-ás a erguê-lo".264 Instruções quase idênticas foram dadas em relação ao boi ou jumento de um irmão,265 indicando que as exigências do amor eram as mesmas para com os animais que pertenciam a um "irmão" ou a um "inimigo". Os rabinos também deviam saber muito bem os ensinamentos dos Provérbios, que o apóstolo Paulo citaria mais tarde como ilus­tração de como vencer o mal ao invés de se vingar: "Se o que te aborrece tiver fome, dá-lhe pão para comer; se tiver sede, dá-lhe água para beber".266

Não deixa de ser verdade que os escribas e fariseus podem ter acrescido, como se fosse concessão bíblica, o ódio aos ini­migos, por causa das guerras dos israelitas contra os cananeus ou devido aos salmos imprecatórios. Mas, nesse caso, entenderam mal tanto as guerras como os salmos. Os cananeus eram, segundo estudos modernos sobre o Oriente próximo, povos totalmente corruptos na religião e na cultura. Tão nojentas eram as suas abomináveis práticas que foi dito que a própria terra "vomitou os seus moradores". Na verdade, se Israel se­guisse os costumes deles, partilharia do seu destino.267 "As guer­ras de Israel", escreveu Bonhoeffer, "são as únicas guerras santas da História. Eram as guerras de Deus contra o mundo da ido­latria. Esta inimizade Jesus não a condena, pois que com ela condenaria toda a história de Deus com seu povo. Antes Jesus confirma a antiga aliança ... Já não pode mais haver guerras santas".268

Quanto aos salmos imprecatórios, neles o salmista fala não com alguma animosidade pessoal, mas como representante do povo escolhido de Deus, Israel, considerando os ímpios como inimigos de Deus e como seus próprios inimigos apenas por se ter identificado completamente com a causa de Deus; ele os odeia porque ama a Deus e está tão confiante que este "ódio" é um "ódio perfeito", que invoca a Deus no próximo instante para que sonde o seu coração, para que o esquadrinhe e examine os seus pensamentos, a fim de ver se há neles alguma coisa má.269 Porque não podemos facilmente aspirar a algo assim é uma indicação não de nossa espiritualidade, mas de nossa falta dela; não de nosso amor superior pelos homens, mas de nosso amor inferior a Deus; na verdade, de nossa incapacidade de odiar os maus com um ódio que é "perfeito" e não "pessoal".

A verdade é que os homens deveriam constituir o objeto do nosso "amor" e do nosso "ódio" ao mesmo tempo, pois são, simultaneamente, objeto do amor e do ódio de Deus (embora o seu "ódio" seja expresso como "ira"). "Amá-los" ê desejar ardentemente que se arrependam e creiam para serem salvos. "Odiá-los" é desejar, com idêntico ardor, que incorram no juízo divino se, obstinadamente, se recusarem a arrepender-se e crer. Você já orou alguma vez pela salvação de homens perversos (por exemplo, de homens que blasfemam contra Deus ou que ex­ploram os seus companheiros como se estes fossem animais), pedindo que, se recusarem a salvação, o juízo de Deus recaia sobre eles? Eu já. É uma expressão natural de nossa fé em Deus, de que ele é o Deus da salvação e do juízo, e que nós desejamos que a sua vontade perfeita se faça.

Portanto, existe algo assim como o ódio perfeito, exatamente como existe algo assim como a ira justa. Mas é o ódio contra os inimigos de Deus, não os nossos próprios. É totalmente livre de qualquer malevolência, rancor e espírito de vingança, e é ateado exclusivamente pelo amor à honra e glória de Deus. En­contra expressão na oração dos mártires por causa da palavra de Deus e do seu testemunho.270 E será expresso no último dia por todo o grupo do povo redimido de Deus que, vendo o juízo divino recair sobre os maus, vai concordar com sua justiça per­feita e exclamará em uníssono: "Aleluia! A salvação, e a glória e o poder são do nosso Deus, porquanto verdadeiros e justos são os seus juízos . . . Amém, Aleluia!"271

Certamente teremos de concordar que um "ódio" assim puro, contra o mal e contra os homens perversos, isento de qualquer traço de malícia pessoal, não concedia aos rabinos qualquer justificativa possível para modificar a ordem divina de amar os nossos próximos, transformando-a em permissão de também odiar aqueles que nos odeiam, os nossos inimigos pessoais. As palavras "e odiarás o teu inimigo" foram um "acréscimo para­sita"272 à lei de Deus; eram completamente estranhos àquela passagem. Deus não ensinou «ao seu povo um padrão duplo de moral, um para o próximo e outro para o inimigo.

Assim, Jesus contestou aquela adição como grosseira distorção da lei, que era: Eu, porém, vos digo: Amai os vossos inimigos (v. 44). Pois o nosso próximo, como ele mais tarde exemplificou tão claramente na parábola do bom samaritano,273 não é neces­sariamente um membro de nossa própria raça, classe social ou religião. Pode até nem ter qualquer ligação conosco. Pode ser nosso inimigo, que está à nossa procura com um punhal ou com uma arma de fogo. Nosso "próximo", no vocabulário de Deus, inclui o nosso inimigo. O que o faz ser nosso próximo é simplesmente o fato de ser um ser humano em necessidade, da qual tenhamos tomado conhecimento, estando em nós a possi­bilidade de aliviá-la de alguma forma.

Qual é, então, a nossa obrigação para com o nosso próximo, seja amigo ou inimigo? Temos de amá-lo. Mais ainda, se acres­centarmos as cláusulas da narrativa do Sermão do Monte em Lucas, o nosso amor por ele será expresso em atos, palavras e orações.

Primeiro, nossos atos. "Amai os vossos inimigos, fazei o bem aos que vos odeiam... Amai os vossos inimigos, fazei o bem.. ."274 Os praticantes do bem (filantropos) são desprezados no mundo de hoje e, para se dizer a verdade, mesmo sendo a filantropia obrigatória e condescendente, ela não é o que Jesus quis dizer com "fazer o bem". O que ele quis dizer é que o verdadeiro amor não é tanto um sentimento mas, antes, um trabalho prático, humilde, sacrificial. Conforme Dostoyevsky disse: "O amor em ação é muito mais fatal do que o amor em sonhos." Nosso ini­migo está procurando nos fazer mal; nós temos de procurar o bem dele, pois é assim que Deus nos tem tratado. Foi "enquanto ainda éramos inimigos" que Cristo morreu por nós para nos reconciliar com Deus.275 Se ele se deu pelos seus inimigos, nós temos de nos dar pelos nossos.

As palavras também podem expressar o nosso amor, palavras dirigidas diretamente aos nossos inimigos e palavras dirigidas a Deus em benefício deles. "Bendizei aos que vos maldizem." Mesmo que eles invoquem o desastre e a catástrofe sobre as nossas cabeças, expressando em palavras o seu desejo de nos ver cair, devemos retribuir invocando as bênçãos dos céus sobre eles, declarando em palavras que só lhes desejamos o bem. Final­mente, dirigimos nossas palavras a Deus. Ambos os evange­listas registraram esta ordem de Jesus: "Orai pelos que vos per­seguem."276 Crisóstomo viu esta responsabilidade de orar por nossos inimigos como "o ápice do autocontrole".277 Na verdade, quando voltamos os olhos para as exigências destas duas últimas antíteses, vemos nove degraus ascendentes, com a intercessão no alto. Primeiro, não devemos tomar qualquer iniciativa per­versa. Segundo, não devemos nos vincar do mal. Terceiro, temos de ficar quietos, e, quarto, temos de sofrer a injustiça. Quinto, temos de conceder ao malfeitor mais do que ele exige. Sexto, não devemos odiá-lo, mas (degraus 7 e 8) devemos amá-lo e lhe fazer o bem. Como nosso nono dever, temos de "suplicar a Deus em benefício dele".278

Os comentaristas modernos também têm considerado tal inter­cessão como o auge do amor cristão. "Isto é o máximo", escreveu Bonhoeffer. "Na oração colocamo-nos ao lado do inimigo, es­tamos com ele, junto dele, por ele diante de Deus."279 Mais ainda, se a oração intercessória for uma expressão do nosso amor, desenvolverá ainda mais esse amor. É impossível orar por al­guém sem amar essa pessoa, e é impossível continuar orando por ela sem descobrir que nosso amor está crescendo e amadu­recendo. Não devemos, portanto, esperar para orar pelo inimigo até que ele desperte algum amor em nosso coração. Devemos começar a orar por ele antes de tomarmos consciência de que o amamos, e descobriremos que o nosso amor está começando a brotar e, depois, a florir. Parece que Jesus orou por seus atormentadores enquanto os cravos de ferro estavam sendo intro­duzidos em suas mãos e pés; realmente o tempo imperfeito sugere que ele continuou orando, repetindo sua súplica: "Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem" (Lc 23:34).280 Se a cruel tortura da crucificação não pôde silenciar a oração de nosso Senhor pelos seus inimigos, que dor, orgulho, preconceito ou preguiça poderia justificar o nosso silêncio?

Sinto que neste capítulo estou citando Bonhoeffer mais do que qualquer outro comentarista. Suponho que isto se deva ao fato de que, apesar de ter escrito antes do começo da guerra, ele percebeu para onde o Nazismo caminhava e nós sabemos qual foi o destino do seu testemunho cristão. Ele citou um certo A. F. C. Villmar de 1880, mas suas palavras soavam tão profé­ticas quanto as do próprio Bonhoeffer: "Os mandamentos do amor ao próximo e da renúncia à vingança ficarão bem evidentes na luta divina que está iminente . . . Todo aquele que con­fessar o nome de Deus vivo será excluído da sociedade por causa desta confissão, será perseguido de cidade em cidade, será agre­dido fisicamente, maltratado e, eventualmente, assassinado. Está iminente uma perseguição geral aos cristãos . . . Tempos virão em que elevaremos nossas mãos em oração . . . Será a oração do amor mais íntimo para com esses perdidos que nos cercam e nos olham com ódio, com as mãos já erguidas para o golpe de misericórdia ... A Igreja que de fato aguarda o Senhor, que compreende os sinais decisivos dos tempos, há de lançar-se à oração do amor com todas as suas forças da alma, com todas as forças conjugadas de sua vida santificada. "281

Tendo mostrado que o nosso amor pelos nossos inimigos expressar-se-á em atos, palavras e orações, Jesus prossegue decla­rando que só então provaremos conclusivamente de quem somos filhos, pois só então estaremos exibindo um amor como o amor de nosso Pai celestial. Porque ele faz nascer o seu sol (a propó­sito, observe a quem o sol pertence!) sobre maus e bons, e vir chuvas sobre justos e injustos (v. 45). O amor divino é amor indiscriminado, para com os bons e maus indistintamente. Os teólogos (segundo Calvino) chamam a isto de "graça comum" de Deus. Não é a "graça salvadora", que leva os pecadores ao arrependimento, à fé e à salvação; mas a graça demonstrada para com toda a humanidade, para com o arrependido e para com o não-arrependido; para com o crente e para com o incré­dulo, igualmente. Esta graça comum de Deus expressa-se, en­tão, não no dom da salvação, mas nos dons da criação, e nas não menos importantes bênçãos da chuva e do sol, sem as quais não poderíamos comer, nem poderia a vida no planeta con­tinuar. Isto, então, deve ser o padrão do amor cristão. Devemos amar como Deus, não como os homens.

Pois se amardes os que vos amam, que recompensa tendes? Qual seria o crédito? "Até os pecadores amam aos que os amam."282 Os homens decaídos não são incapazes de amar. A doutrina da depravação total não significa (e jamais significou) que o pecado original deixou o homem incapaz de fazer qual­quer coisa boa, mas, antes, que todo o bem que faz está até certo ponto manchado pelo mal. Os pecadores não redimidos podem amar. O amor paterno, o amor filial, o amor conjugai, o amor entre amigos, todos estes, que tão bem conhecemos, são experiências normais de homens e mulheres sem Cristo. Até os publicanos (os mesquinhos cobradores de impostos que, por causa de sua extorsão, tinham a reputação de gananciosos) amavam a quem os amava. Até os gentios (aqueles "cães", como os judeus os chamavam, esses intrusos que odiavam os judeus e que desviavam o olhar ao verem um deles na rua) até eles se saúdam entre si. Nada disso estava sendo posto em dúvida.

Mas todo o amor humano, até o mais elevado, o mais nobre e o melhor, está até certo ponto contaminado pelas impurezas do interesse próprio. Nós, os cristãos, somos especificamente chamados para amar os nossos inimigos (amor no qual não há interesse próprio), e isto torna-se impossível sem a graça sobre­natural de Deus. Se amamos apenas aqueles que nos amam, não somos melhores do que os vigaristas. Se cumprimentamos apenas os nossos irmãos e irmãs, apenas os nossos companheiros cristãos, não somos melhores do que os pagãos; eles também se cumprimentam uns aos outros. A pergunta de Jesus foi: O que vocês estão fazendo mais do que os outros? (v. 47). Esta simples palavra, mais, foi o ponto culminante do que ele estava dizendo. Não basta aos cristãos parecer-se com os não-cristãos; nossa vocação ê para ultrapassá-los em virtude. Nossa justiça tem de exceder (perisseusê . . . pleion) a dos fariseus (v. 20) e o nosso amor deve ultrapassar, ser mais do que (perisson) o dos gentios (v. 47). Bonhoeffer explica bem isso: "O fator especificamente cristão consiste no 'extraordinário, no perisson, no invulgar, não natural . . . É o muito mais, o muito superior. O natural é to auto (a mesma coisa) tanto para gentios como para cristãos; o especificamente cristão começa com o perisson ... O essencialmente cristão consiste no 'extraordinário'."283

E o que é operisson, este "mais" ou "extra" que os cristãos devem exibir? Bonhoeffer responde assim: "É o próprio amor de Jesus Cristo, o amor que sofrendo e obedecendo vai à cruz . . . A essência, o extraordinário do cristianismo é a cruz."284 O que ele escrever é verdade. Mas, para sermos mais precisos, a ma­neira como Jesus o expôs declara que este "super-amor" não é o amor dos homens, mas o amor de Deus que, pela graça co­mum, concede o sol e a chuva aos ímpios. Portanto, sede vós (o "vós" é enfático, fazendo a distinção entre os cristãos e os não-cristãos) perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste (v. 48). O conceito de que o povo de Deus deve imitar a Deus e não aos homens não é novo. O livro de Levítico repete cerca de cinco vezes este mandamento como um refrão: "Eu sou o Senhor vosso Deus: portanto . . . sereis santos, porque eu sou santo."285 Mas, aqui, Cristo nos chama para sermos "perfeitos", não apenas "santos".

Alguns mestres que ensinam a santidade têm erigido sobre este versículo grandes sonhos quanto à possibilidade de se atin­gir nesta vida um estado de perfeição sem pecado. Mas as pala­vras de Jesus não podem ser forçadas para significar algo assim sem provocar discordância no Sermão, pois ele já indicou nas bem-aventuranças que a fome e a sede de justiça são uma carac­terística perpétua dos seus discípulos286 e, no capítulo seguinte, ele nos ensina a orar constantemente "perdoa-nos as nossas dívidas".287 A fome de justiça e a oração pelo perdão, sendo con­tínuas, são indicações claras de que Jesus não esperava que seus seguidores se tornassem moralmente perfeitos nesta vida. O contexto mostra que a "perfeição" à qual ele se refere rela­ciona-se com o amor, esse perfeito amor de Deus que é demons­trado até mesmo àqueles que não o retribuem. Na verdade, os mestres nos dizem que a palavra aramaica que Jesus teria usado significava "tudo-abrangente". O versículo paralelo da narrativa de Lucas sobre o Sermão confirma isso: "Sede misericordiosos, como também ê misericordioso vosso Pai."288 Somos chamados para ser perfeitos em amor, isto é, para amar até os nossos ini­migos com o amor misericordioso e abrangente de Deus.

O chamado que Cristo nos faz é novo, não apenas porque é uma ordem para sermos "perfeitos", mais do que "santos", mas também por causa da descrição que faz do Deus que de­vemos imitar. No Velho Testamento encontramos sempre: "Eu sou o Senhor, que vos faço subir da terra do Egito, para que eu seja vosso Deus; portanto vós sereis santos, porque eu sou santo." Mas, agora, nos dias do Novo Testamento, não é mais ao único Redentor de Israel que somos chamados a seguir e obedecer; mas ao Pai celeste (vs. 45, 48). E nossa obediência virá dos nossos corações como manifestação de nossa nova natureza; pois somos filhos de Deus, através da fé em Jesus Cristo, e podemos de­monstrar de quem somos filhos apenas quando exibimos a seme­lhança familiar, somente quando nos tornamos pacificadores como ele é (v. 9), apenas quando amamos com um amor todo-abrangente como o seu (vs. 45, 48).

As duas últimas antíteses da série revelam uma progressão. A primeira é uma ordem negativa: Não resistais ao perverso; a segunda é positiva: Amai os vossos inimigos e procurai o seu bem. A primeira é um chamado para uma não-retaliação pas­siva, a segunda para um amor ativo. Ou, nas palavras de Agos­tinho: "Muitos têm aprendido a oferecer a outra face, mas não sabem como amar a pessoa que os esbofeteou."289 Portanto, temos de ir além da paciência, até o serviço; além da recusa de retribuir o mal, até a determinação de vencer o mal com o bem. Alfred Plummer resumiu as alternativas como admirável sim­plicidade: "Retribuir o bem com o mal ê demoníaco; retribuir o bem com o bem é humano; retribuir o mal com o bem é di­vino."290

Através de toda a sua exposição, Jesus apresenta-nos os mo­delos alternativos com os quais contrasta a cultura secular à contracultura cristã. Arraigada na cultura não-cristã está a noção de retribuição, a retribuição tanto do mal como do bem. A primeira é óbvia, pois significa vingança. Mas a segunda, às vezes, é sobrelevada. Jesus expressou-a com a frase "fazer o bem aos que vos fazem o bem".291 Portanto, a primeira diz: "Você me prejudicou, e eu vou lhe fazer o mesmo", e a segunda: "Você me fez um benefício, e eu lhe farei outro", ou (mais coloquial­mente) "amor com amor se paga". Portanto, a retribuição é o método do mundo; a vingança, de um lado, e a recompensa, de outro, devolvendo injúrias e devolvendo favores. Então fica­mos quites, nada devendo a ninguém, e acertamos as nossas contas. É o expediente do orgulhoso que não suporta ficar de­vendo nada a ninguém. É uma tentativa de ordenar a sociedade através de uma justiça dura e imediata que nós nos adminis­tramos, de modo que ninguém consegue, de forma alguma, ser melhor do que nós.

Mas isso não funciona no reino de Deus! Os pecadores, os gentios e os cobradores de impostos comportam-se assim. É o máxi­mo que eles podem atingir. Mas esse perdão não é suficiente­mente alto para os cidadãos do reino de Deus: o que vocês fazem mais do que os outros?, Jesus pergunta (v. 47). Portanto, o mode­lo que ele coloca diante de nós como alternativa do mundo à nos­sa volta é o Pai que está acima de nós. Considerando que ele é bondoso para com o mau e o bom, igualmente, seus filhos tam­bém o devem ser. A vida da velha e decaída humanidade baseia-se na justiça rude, que se vinga das injúrias e retribui os favores. A vida da nova e redimida humanidade baseia-se no amor divino, recusando-se. à vingança, mas vencendo o mal com o bem.

Jesus acusou os fariseus por duas sérias restrições ao amor. Naturalmente eles criam no amor. Todas as pessoas crêem no amor. Sim, mas não o amor por aqueles que os tenham mal­tratado, e nem tampouco o amor pelos gentios intrusos. O espí­rito do farisaísmo continua difuso. É o espírito da vingança e do racismo. O primeiro diz: "Eu amo gente agradável, que não faz mal a ninguém, mas não vou me calar diante daqueles que me prejudicam." O segundo diz: "Eu amo meus amigos e pa­rentes, mas não esperem que eu ame quem eu não conheço." Na verdade, Jesus espera que os seus discípulos façam exata­mente aquelas coisas que as pessoas acham que não podem ser esperadas de ninguém que tenha a cabeça no lugar. Ele nos convoca a renunciar a todas aquelas restrições convenientes que gostamos de impor ao amor (especialmente a vingança e o ra­cismo), para amarmos de maneira todo-inclusíva e construtiva, como Deus.

Examinando todas as seis antíteses, torna-se claro qual é a justiça "melhor" para a qual os cristãos são chamados. E uma justiça profunda, que vem do coração onde o Espírito Santo gravou a lei de Deus. É um fruto novo que exibe a novidade da árvore, vida nova desabrochando da nova natureza. Portanto, não temos liberdade para esquivar-nos ou fugir das sublimes exigências da lei. Esquivar-se à lei é um passatempo dos fariseus; a característica dos cristãos é um ávido apetite para a justiça, uma contínua fome e sede dela. E esta justiça, quer seja expressa na pureza, na honestidade ou na caridade, demonstrará a quem pertencemos. Nossa vocação cristã não ê para imitar o mundo, mas o Pai. E é por meio dessa imitação que a contracultura cristã se torna visível.





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