Contracultura Cristã



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Mateus 5:21-30
A justiça do cristão:
esquivando-se à cólera e à concupiscência

As duas primeiras ilustrações que Jesus apresentou sobre o seu tema (isto é, que estava aprofundando e não destruindo as exi­gências da lei) relacionam-se com o sexto e o sétimo dos dez mandamentos, que proíbem o homicídio e o adultério.


1. Esquivando-se à cólera (vs. 21-26)

Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás; e: Quem matar estará sujeito a julgamento. 22Eu, porém, vos digo que todo aquele que (sem motivo) se irar contra seu irmão estará sujeito a julgamento; e quem proferir um insulto a seu irmão estará sujeito a julgamento do tribunal; e quem lhe chamar: Tolo, esta­rá sujeito ao inferno de fogo. 23Se, pois, ao trazeres ao altar a tua oferta, ali te lembrares de que teu irmão tem alguma cousa contra ti, 24deixa perante o altar a tua oferta, vai primeiro recon­ciliar-te com teu irmão; e, então, voltando, faze a tua oferta. 25Entra em acordo sem demora com o teu adversário, enquanto estás com ele a caminho, para que o adversário não te entregue ao juiz, o juiz ao oficial de justiça, e sejas recolhido à prisão. 26Em verdade te digo que não sairás dali, enquanto não pagares o último centavo.
O mandamento Não matarás seria melhor expresso assim: "Não cometerás homicídio", pois não é uma proibição contra a su­pressão da vida humana em qualquer circunstância, mas parti­cularmente contra o homicídio ou assassinato. Isto fica claro diante do fato de que a mesma lei de Moisés, que no Decálogo proibia matar, em outro lugar ordena a morte, tanto na forma da pena capital como nas guerras, cuja finalidade era exterminar as corruptas tribos pagãs que habitavam a terra prometida. A guerra e a pena de morte, ambas são questões debatidas que sempre deixaram perplexas as consciências de cristãos sensíveis. E sempre houve cristãos a favor ou contra esta ou aquela posi­ção. O que sempre se torna necessário frisar pelos cristãos envol­vidos nesses debates é que, se o conceito de "guerra justa" é defensável e se a retenção da pena de morte é justificável, a vida humana não é uma coisa insignificante e facilmente descartável, mas exatamente o oposto, isto é, ela é preciosa por ser a vida de uma criatura feita à imagem de Deus. Aqueles que lutam pela abolição da pena de morte com base no fato de a vida hu­mana (a do homicida) não poder ser tirada, esquecem-se do valor da vida da vítima do homicida: "Se alguém derramar o sangue do homem, pelo homem se derramará o seu; porque Deus fez o homem segundo a sua imagem ".196 E aqueles que lutam pelo pacifismo incondicional esquecem que, embora o mutilamento e a morte indiscriminada dos civis seja totalmente indefensável, Deus deu à sociedade (quer ao Estado ou, por extensão, a alguma organização internacional) o direito e a responsabilidade de punir os malfeitores.197 Menciono estas coisas agora, não porque as complexas questões envolvidas na guerra e na pena de morte possam ser aqui resolvidas, mas para argumentar que não podem ser resolvidas através de um apelo simplista ao mandamento Não matarás.

Os escribas e fariseus estavam evidentemente procurando restringir a aplicação do sexto mandamento apenas ao ato do homicídio, isto é, ao derramamento de sangue humano. Se pu­dessem esquivar-se disso, achavam que tinham obedecido ao mandamento. E, evidentemente, era o que os rabinos ensinavam ao povo. Mas Jesus discordou deles. A verdadeira aplicação da proibição era muito mais ampla, assegurou; incluía pensamentos e palavras, além de atos; cólera e insultos, além do homicídio.

A ira foi mencionada no começo do versículo 22: todo aquele que (sem motivo) se irar contra seu irmão. As palavras adi­cionais sem motivo aparecem na maioria dos manuscritos gregos, mas não nos melhores. Provavelmente são um comentário pos­terior e, portanto, foram omitidas nas revisões e traduções mo­dernas. Não obstante, temos motivos para crer que a interpre­tação do que Jesus quis dizer é correta. Nem toda ira é maligna, conforme evidencia-se da ira de Deus, que sempre é santa e pura. E até mesmo os seres humanos pecadores podem, às vezes, sentir a ira justa. Contudo, sendo pecadores, devemos assegurar que até mesmo esta ira justa seja tardia em aparecer e rápida em desaparecer.198 Lutero certamente sabia, de sua própria expe­riência, qual o significado da ira justa. Ele a chamava de "ira do amor, aquela que não deseja mal algum a ninguém, aquela que é simpática para com a pessoa, mas hostil para com o pe­cado".199 A referência de Jesus, então, é à ira injusta, à ira do orgulho, da vaidade, do ódio, da malícia e da vingança.

Os insultos foram mencionados no final do versículo 22. Jesus nos adverte contra o chamar a nosso irmão de raça (provavel­mente o equivalente à palavra aramaica que significa "oco") ou more (a palavra grega para "tolo"). Parece que "raça" é um insulto à inteligência da pessoa, dizendo que ela é "cabeça-oca", e os comentaristas rivalizam-se entre si, propondo para­lelos, tais como "pateta",200 "estúpido",201 "parvo" ou "cabeça-dura"!202 Um débil mental também é tolo, mas dificilmente a palavra seria usada neste sentido, pois até Jesus chamou os fariseus e seus discípulos de "tolos"203 e os apóstolos, em determi­nadas ocasiões, acusaram seus leitores de estultícia.204 Por isso, é preciso lembrar que a palavra adquiriu uma nuance religiosa e moral, tendo sido aplicada no Velho Testamento àqueles que negavam a existência de Deus e, como resultado, mergulhavam na prática temerária do mal.205 Alternativamente, como alguns mestres sugerem, möre pode transliterar uma palavra hebraica que significa "rebelde", "apóstata" ou "renegado"2061 Neste caso, Tasker propõe seu parecer: "O homem que diz a seu irmão que este está condenado ao inferno, está ele mesmo em perigo de ir para o inferno. "207

Fica alguma dúvida sobre o significado preciso destes dois termos de insulto. Eram claramente derrisórios, epítetos insultuosos e a BLH assim se expressa: Quem disser a seu irmão: "Você não vale nada . . . quem chamar seu irmão de idiota." Ao mesmo tempo, A. B. Bruce provavelmente preserva a prin­cipal diferença entre as palavras, ao escrever: "Raça expressa desprezo pela cabeça da pessoa: Você, seu estúpido! Möre ex­pressa desprezo pelo seu coração e caráter: você, seu patife!"208

Estas coisas, pensamentos coléricos e palavras insultuosas, talvez não levem nunca à consumação do ato homicida. Mas, diante de Deus, são equivalentes ao homicídio. Conforme João escreveria mais tarde: "Todo aquele que odeia a seu irmão é assassino."209 A ira e o insulto são maus sintomas do desejo de acabar com uma pessoa que está no nosso caminho. Nossos pensamentos, olhares e palavras indicam que, como algumas vezes nos atrevemos a dizer, "gostaríamos que morresse". Um desejo assim é uma infração do sexto mandamento. E torna a pessoa culpada sujeita às mesmas penalidades às quais o homi­cida se expõe, não literalmente em um tribunal humano (pois nenhum tribunal poderia acusar um homem por causa da ira), mas diante do tribunal de Deus.

O significado exato dos vários julgamentos tem sido muito discutido, mas pelo menos está claro que Jesus estava profe­rindo uma solene advertência quanto ao julgamento divino. Os rabinos talvez estivessem ensinando não só que o homicídio era a única infração ao sexto mandamento, mas também que a única penalidade para o homicídio era a sentença humana: Quem matar estará sujeito a julgamento (v. 21). Por isso Jesus acres­centou que todo aquele que sem motivo se irar também estará sujeito a julgamento. Embora as mesmas palavras gregas sejam usadas para "julgamento", no versículo 22 e no versículo 21, agora a referência deve ser ao julgamento de Deus, uma vez que nenhum tribunal humano é competente para julgar um caso de ira interna. Semelhantemente, Jesus continuou, o insulto não só nos exporá a julgamento do tribunal, mas também ao inferno de fogo (v. 22). Em ambos os casos, Jesus ampliava tanto a natu­reza da penalidade como a do crime. Não só a ira e o insulto são equivalentes ao homicídio, disse ele, mas o castigo ao qual nos deixam sujeitos é nada menos que o juízo divino do inferno.

"Se, pois . . .", continuou Jesus dizendo (v. 23), e prosseguiu dando uma aplicação prática dos princípios que acabava de enunciar. Seu tema era que, sendo a,ira e o insulto tão sérios e tão perigosos, então devemos fugir deles como se fossem praga e tomar precauções o mais rapidamente possível. Ele apresentou duas ilustrações: a primeira, da pessoa que vai ao templo ofe­recer sacrifícios a Deus (vs. 23, 24); e a segunda, da pessoa que vai ao tribunal responder a acusações (vs. 25, 26). Jesus expressou-as em termos culturais do seu tempo, quando o templo ainda existia e quando ainda se ofereciam sacrifícios. Talvez seja bom traduzir suas ilustrações em palavras um pouco mais modernas:

"Se você estiver na igreja, no meio de um culto de adoração, e de repente se lembrar de que seu irmão tem um ressentimento contra você, saia da igreja imediatamente e vá fazer as pazes com ele. Não espere que o culto termine. Procure seu irmão e peça-lhe perdão. Primeiro vá, depois venha. Primeiro vá recon­ciliar-se com o seu irmão, depois venha e ofereça sua adoração a Deus."

E, ainda: "Se você tiver uma dívida e o seu credor levá-lo ao tribunal para receber o dinheiro dele de volta, acerte as contas com ele rapidamente. Entre num acordo antes de chegarem ao tribunal. Faça-o enquanto ainda estiverem a caminho do tribu­nal e pague a sua dívida. Caso contrário, ao chegarem no tribu­nal, será tarde demais. O seu acusador o processará diante do juiz e o juiz o entregará à polícia e você acabará na cadeia. Você não sairá de lá até que tenha pago o último centavo. Por isso, o pagamento antes da prisão seria muito mais sensato."

As figuras são diferentes: uma é extraída da igreja; a outra, do tribunal. Uma diz respeito a um "irmão" (v. 23) e a outra refere-se a um inimigo (v. 25). Mas, em ambos os casos, a situa­ção básica é a mesma (alguém tem um ressentimento contra nós) e a lição básica é também a mesma (a necessidade de ação ime­diata, urgente). No próprio ato da adoração, se nos lembrarmos da ofensa, deveremos interromper a nossa adoração, sair e acertar a situação. No próprio ato de irmos para nos apresentar ao tribunal, enquanto estamos nos dirigindo para lá, devemos acertar a nossa dívida.

Mas com que raridade atendemos à chamada de Cristo para a ação imediata! Se o homicídio é um crime horrível, a ira e o insulto malévolos também o são. E, do mesmo modo, é qualquer atitude, palavra, olhar ou pensamento através do qual ferimos ou ofendemos um outro ser humano. Precisamos ser mais sensí­veis no que se refere a essas coisas. Nunca deveríamos permitir que uma desavença permanecesse, muito menos que se desen­volvesse. Não devemos retardar o fazer as pazes. Não devemos nem permitir que o sol se ponha sobre a nossa ira. Mas, imedia­tamente, logo que tivermos consciência de um relacionamento estremecido, devemos tomar a iniciativa de restaurá-lo, de pedir desculpas pelo ressentimento que provocamos, de pagar a nossa dívida, de fazer restituições. E Jesus extraiu estas instruções extremamente práticas do sexto mandamento como suas impli­cações lógicas! Se queremos evitar o homicídio perante Deus, devemos tomar todas as possíveis medidas positivas para viver­mos em paz e em amor com todos os homens.


2. Esquivando-se à concupiscência (vs. 27-30)

Agora Jesus volta-se do sexto para o sétimo mandamento, da proibição do homicídio para a proibição do adultério.



Ouvistes que foi dito: Não adulterarás. 28Eu, porém, vos digo: Qualquer que olhar para uma mulher com intenção impura, no coração já adulterou com ela. 295e o teu olho direito te faz tropeçar, arranca-o e lança-o de ti; pois te convém que se perca um dos teus membros, e não seja todo o teu corpo lançado no inferno. 30E se a tua mão direita te faz tropeçar, corta-a e lança-a de ti; pois te convém que se perca um dos teus membros e não vá todo o teu corpo para o inferno.

Novamente os rabinos estavam tentando limitar o alcance do mandamento: Não adulterarás. Embora o pecado de cobiçar a mulher de outro homem esteja incluído no décimo mandamento, que trata da cobiça, eles evidentemente achavam mais confor­tável ignorá-lo. No seu ponto de vista, eles e seus alunos guar­davam o sétimo mandamento contanto que evitassem o ato do adultério propriamente dito. Assim, davam uma definição convenientemente estreita ao pecado sexual e uma definição conve­nientemente ampla à pureza sexual.

Mas Jesus ensinou diferente. Ele estendeu as implicações da proibição divina. Antes, afirmou que o verdadeiro significado da ordem divina era muito mais amplo do que á mera proibição de atos de imoralidade sexual. Assim como a proibição do homi­cídio incluía o pensamento colérico e a palavra insultuosa, a proibição do adultério incluía o olhar concupiscente e a imagi­nação. Podemos cometer assassinato com nossas palavras; podemos cometer adultério em nossos corações ou mentes. Na verdade, (v. 28) qualquer que olhar para uma mulher com inten­ção impura, no coração já adulterou com ela.

Talvez seja necessário destacar dois pontos antes de prosse­guirmos. Não há aqui a mais leve sugestão de que as relações sexuais naturais dentro dos votos do casamento não sejam algo lindo que Deus nos deu. Podemos agradecer a Deus pelos Cantares de Salomão, que foram incluídos no cânon das Escrituras, pois ali não encontramos puritanismo vitoriano, mas, pelo con­trário, o prazer desinibido de dois amantes, o esposo e a esposa, um com o outro. Os ensinamentos de Jesus aqui referem-se ao sexo ilegal fora do casamento, praticado por pessoas casadas ou solteiras. Ele não nos proíbe de olhar para uma mulher, mas, sim, de fazê-lo concupiscentemente. Todos nós sabemos a dife­rença que há entre o olhar e o cobiçar.

Isto nos leva ao segundo ponto. A alusão de Jesus é a todas as formas de imoralidade. Argumentar que a referência apenas diz respeito a um homem cobiçando uma mulher e não vice-versa, ou que só se refere ao homem casado e não ao solteiro, uma vez que o transgressor está cometendo "adultério" e não "fornicação", é incorrer na mesma casuística que Jesus condenou nos fariseus. Ele enfatizou que toda e qualquer prática sexual que é imoral no ato, também é imoral no olhar e no pensamento.

O que é particularmente importante é assimilar a sua equação de olhar concupiscentemente para uma mulher e cometer adul­tério com ela no coração. É esta relação entre os olhos e o coração que leva Jesus, nos dois versículos seguintes, a dar algumas instruções muito práticas sobre como manter a pureza sexual. O argumento é o seguinte: se olhar concupiscentemente é co­meter adultério no coração, em outras palavras, se o adultério do coração é o resultado do adultério dos olhos (os olhos do coração sendo estimulados pelos olhos da carne), então a única maneira de tratar do problema é no início, isto é, no nosso olhar. Jó, o justo, declarou que já tinha aprendido esta lição. "Fiz aliança com meus olhos", ele disse, "como, pois, os fixaria numa donzela?" Depois ele prossegue falando a respeito do seu cora­ção: "Se o meu coração segue os meus olhos ... Se o meu co­ração se deixou seduzir por causa de mulher . . .", ele reconhe­ceria que tinha pecado e que merecia o juízo de Deus.210 Mas Jó não fizera tais coisas. O controle do seu coração se devia ao controle dos seus olhos.

Este ensinamento de Jesus, confirmado na experiência de Jó, continua sendo verdade atualmente. Atos vergonhosos procedem de pensamentos vergonhosos, e a imaginação se inflama por causa da indisciplina dos olhos. Nossa vivida imaginação (uma das muitas faculdades que distinguem os humanos dos animais) é um precioso dom de Deus. Nenhuma das artes do mundo e poucas das mais nobres realizações teriam sido possíveis se não fosse ela. A imaginação enriquece a qualidade da vida. Mas todos os dons de Deus precisam ser usados com responsabili­dade; podem facilmente ser aviltados e abusados. Isto certa­mente se aplica à nossa imaginação. Duvido que os seres hu­manos seriam vítimas da imoralidade, se antes não abrissem as comportas da paixão através dos seus olhos. Do mesmo modo, sempre que os homens e as mulheres aprendem a controlar o sexo na prática, é porque antes aprenderam a fazê-lo nos olhos da carne e do pensamento. Este pode ser um momento apro­priado para mencionar de passagem como as jovens se vestem. Seria tolo legislar sobre modas, mas sábio (creio eu) é pedir-lhes que façam esta distinção: uma coisa é fazer-se atraente; outra coisa é fazer-se deliberadamente sedutora. As jovens sabem qual ê a diferença; e nós, os homens, também.

Isto nos leva aos versículos 29 e 30: Se o teu olho direito te faz tropeçar, arranca-o e lança-o de ti. . . E se a tua mão direita te faz tropeçar, corta-a e lança-a de ti. . . Evidentemente esse era um ditado de que Jesus gostava, pois ele o citou mais de uma vez. Ele torna a citá-lo mais tarde neste mesmo Evangelho,211 onde acrescenta o pé, o olho e a mão, e a referência é generali­zada às "tentações", não explicitamente à tentação sexual. Portanto, o princípio tem uma aplicação mais ampla. Não obstante, foi neste setor específico que Jesus o aplicou no Sermão do Monte. O que ele quis dizer com isto?

Superficialmente parece um mandamento assustador: arrancar um olho transgressor, cortar uma mão ou um pé infra­tor. Alguns cristãos, cujo zelo excedia grandemente a sua sabe­doria, tomaram as palavras de Jesus ao pé da letra e se muti­laram. Talvez o mais conhecido exemplo seja o do mestre Orígenes de Alexandria, do terceiro século. Ele foi aos extremos do ascetismo, renunciando propriedades, alimento e até mesmo sono e, numa interpretação supra literal desta passagem e de Mateus 19:12, tornou-se realmente um eunuco. Algum tempo depois, em 325 d.C, o Concilio de Nicéia acertadamente proibiu esta prá­tica bárbara.

A ordem de desfazer-se dos olhos, das mãos e dos pés que causam problemas é um exemplo do uso dramático que o nosso Senhor fazia das figuras de linguagem. O que ele pretendia não era uma automutilação literal física, mas uma abnegação moral sem concessões. Não mutilação, mas mortificação, é o caminho da santidade que ele ensinou; e "mortificação" ou "tomar a cruz" para seguir a Cristo significa rejeitar as práticas do pecado com tal resolução que ou morremos para elas ou as condenamos à morte.212

O que isto envolve, na prática? Vou explanar e interpretar o ensinamento de Jesus assim: "Se o seu olho o faz pecar porque a tentação o assola através dos seus olhos (os objetos que você vê), então arranque os seus olhos. Isto é, não olhe! Comporte-se como se você realmente tivesse arrancado os seus olhos e os tivesse jogado fora, e estivesse agora cego e sem poder ver os objetos que anteriormente o levavam a pecar. Repito, se a sua mão ou o seu pé o fazem pecar, porque a tentação o assola através de suas mãos (coisas que você faz) ou de seus pés (lugares que você visita), então corte-os fora. Isto é: não faça! Não vá! Comporte-se como se na realidade você tivesse cortado e jogado fora seus pés e suas mãos, e estivesse agora aleijado e sem poder fazer as coisas ou visitar os lugares que anteriormente o levavam a pecar." Este é o significado de "mortificação".

Ficamos imaginando se já houve uma geração na qual este ensinamento de Jesus foi mais necessário ou mais obviamente aplicável do que na nossa, quando o rio de obscenidades (litera­tura pornográfica e filmes sobre sexo) está transbordando e inundando. A pornografia ofende os cristãos (e, dizendo a ver­dade, a qualquer pessoa de mente sadia) em primeiro lugar e principalmente porque rebaixa a mulher da sua condição de ser humano para a de objeto sexual, mas também porque oferece ao espectador um estímulo sexual que não é natural. Se temos um problema de falta de controle sexual e se, apesar disso, nossos pés nos levam a ver tais filmes, nossas mãos manejam tal literatura e nossos olhos deleitam-se com as figuras que nos oferecem, não só estamos pecando, como também abrindo as portas à tragédia.

Ao dizer estas palavras, longe de mim desejar estabelecer leis ou criar regras humanas sobre que livros ou revistas o cristão pode ler, a que peças de teatro ou a quais filmes pode assistir (ao vivo ou na TV), ou que exposições de arte pode visitar. Pois nós temos de reconhecer que todos os homens e mulheres foram criados diferentes. O desejo sexual é mais facilmente despertado em alguns do que em outros, e coisas diferentes o estimulam. A autodisciplina sexual e o autocontrole é mais fácil para uns do que para outros. Alguns podem olhar abertamente para quadros sexuais (em revistas ou filmes) e permanecer totalmente ilesos, enquanto outros os acham terrivelmente corruptores. Nossos temperamentos variam e, conseqüentemente, também as nossas tentações. Por isso, não temos o direito de julgar os outros sobre o que sentem que podem permitir-se.

O que temos liberdade de dizer é apenas isto (pois é o que Jesus disse): se o seu olhar o faz pecar, não olhe; se o seu pé o faz pecar, não vá; e se a sua mão o faz pecar, não faça. A regra que Jesus estabeleceu é hipotética, não universal. Não exigiu que todos os seus discípulos (metaforicamente falando) arrancassem os olhos ou se mutilassem, mas só aqueles cujos olhos, mãos e pés eram a causa do pecado. São eles que devem agir; outros podem manter os dois olhos, ambas as mãos e ambos os pés, impunemente. É claro que até estes devem refrear-se de certas liberdades por causa do amor por aqueles que têm a consciência ou a vontade mais fraca; mas este é um outro princípio de que não se trata aqui.

O que se torna necessário a todos àqueles que têm forte ten­tação sexual e, na verdade, a todos nós, em princípio, é a disci­plina na vigilância contra o pecado. A colocação de sentinelas é comum nas táticas militares; colocar sentinelas morais é igual­mente indispensável. Será que somos tão tolos a ponto de dei­xarmos que o inimigo nos domine, simplesmente porque não colocamos sentinelas para nos advertir de sua aproximação?

Obedecer a este mandamento de Jesus envolverá, para muitos de nós, um certo "mutilamento". Teremos de eliminar de nossas vidas determinadas coisas que (embora algumas possam ser inocentes em si mesmas) são, ou poderiam facilmente tornar-se, fontes de tentação. Em sua própria linguagem metafórica, podemos tornar-nos sem olhos, sem mãos ou sem pés. Isto ê, deliberadamente declinaremos da leitura de determinada litera­tura, de assistir a certos filmes, e visitar certas exposições. Se o fizermos, seremos considerados por alguns dos nossos contem­porâneos como pessoas de mentalidade estreita, como bárbaros filisteus. "O quê?", eles dirão com incredulidade, "Você não leu esse livro? Não viu aquele filme? Você está por fora, cara!" Talvez estejam certos. Talvez tenhamos de nos tornar culturalmente "mutilados" a fim de preservar a nossa pureza de mente. A única pergunta que permanece é se, por amor a tal proveito, estamos prontos a suportar essa perda e esse ridículo.

Jesus foi bastante claro sobre isso. É melhor perder um mem­bro e entrar na vida mutilado, disse ele, do que conservar todo o nosso corpo e ir para o inferno. É o mesmo que dizer: é melhor perder algumas das experiências que esta vida oferece, a fim de entrar na vida que é vida realmente; é melhor aceitar alguma amputação cultural neste mundo do que arriscar-se à destruição no outro. É claro que este ensinamento vai totalmente contra os padrões modernos da permissividade. Baseia-se no princípio de que a eternidade é mais importante do que o tempo, que a pureza é mais do que a cultura, e que qualquer sacrifício é válido nesta vida se for necessário para assegurar a entrada na outra. Temos simplesmente de decidir se queremos viver para este mundo ou para o outro, se queremos seguir a multidão ou a Jesus Cristo.



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