Contracultura Cristã



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Mateus 5:17-20
A justiça do cristão: Cristo, o cristão e a lei


Não penseis que vim revogar a lei ou os profetas; não vim para revogar, vim para cumprir. 18Porque em verdade vos digo: Até que o céu e a terra passem, nem um i ou um til jamais passará da lei, até que tudo se cumpra. l9Aquele, pois, que violar um destes mandamentos, posto que dos menores, e assim ensinar aos homens, será considerado mínimo no reino dos céus; aquele, porém, que os observar e ensinar, esse será considerado grande no reino dos céus. 20Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder em muito a dos escribas e fariseus, jamais entrareis no reino dos céus.
Até então, Jesus falara sobre o caráter do cristão e sobre a influ­ência que este teria no mundo, caso manifestasse tal caráter, produzindo, assim, o fruto de "boas obras". Agora, ele pros­segue definindo melhor este caráter e estas boas obras em termos de justiça. Ele explica que a justiça, já duas vezes mencionada, e da qual os seus discípulos têm fome (v. 6) e por cuja causa eles sofrem (v, 10), é uma correspondência à lei moral de Deus e ultrapassa a justiça dos escribas e fariseus (v. 20). As "boas obras" são obras da obediência. Ele começou o seu Sermão com as bem-aventuranças na terceira pessoa ("Bem-aventurados os humildes de espírito"); continuou na segunda pessoa ("Vós sois o sal da terra"); e, agora, muda para a primeira pessoa, usando, pela primeira vez, sua fórmula característica e dogmática: Por­que . . . (eu) vos digo (vs. 18 e 20).

Este parágrafo é de grande importância, não só por causa da definição que ele dá da justiça cristã, mas também por causa da luz que lança sobre a relação entre o Novo e o Velho Testamento, entre o Evangelho e a lei. Divide-se em duas partes: primeiro, Cristo e a lei (vs. 17, 18) e, segundo, o cristão e a lei (vs. 19, 20).


1. Cristo e a lei (vs. 17,18)

Ele começa dizendo-lhes que não imaginem, nem por um mo­mento, que ele veio para revogar a lei ou os profetas, isto é, todo o Velho Testamento ou qualquer parte dele.166 O modo como Jesus enunciou esta declaração negativa dá a entender que alguns já pensavam exatamente isso que ele agora estava contradi­zendo. Embora o seu ministério público tivesse começado há tão pouco tempo, os seus contemporâneos estavam profunda­mente perturbados com a sua suposta atitude para com o Velho Testamento. Talvez a controvérsia sobre o sábado já tivesse explodido (tanto o incidente das espigas arrancadas no sábado quanto a cura do homem da mão mirrada, também no sábado, são colocados por Marcos antes mesmo da escolha dos doze).167 Certamente, desde o começo do seu ministério, as pessoas foram atingidas por sua autoridade. "Que vem a ser isto?" pergun­tavam. "Uma nova doutrina! Com autoridade ele ordena aos espíritos imundos, e eles lhe obedecem" (Mc 1:27). Portanto, era natural que muitos perguntassem que relação havia entre a sua autoridade e a autoridade da lei de Moisés. Eles sabiam que os escribas submetiam-se à lei, pois eram "mestres da lei". Dedicavam-se à sua interpretação e declaravam não haver qual­quer outra autoridade além daquela que citavam. Mas, com Jesus, a coisa não era tão clara assim. Ele falava com autori­dade própria. Gostava de usar uma fórmula jamais usada por qualquer profeta antigo ou escriba contemporâneo. Ele apre­sentava alguns de seus mais impressionantes pronunciamentos com "Em verdade digo", falando em seu próprio nome e com sua própria autoridade. E que autoridade era esta? Será que estava se colocando como uma autoridade que se opunha à sa­grada lei, à palavra de Deus? Parecia assim, para alguns. Por isso a pergunta, enunciada ou não, à qual Jesus agora respondia inequivocamente: Não penseis que vim revogar a lei ou os pro­fetas.

Muita gente continua perguntando, hoje em dia, embora de diferentes maneiras, que relação existe entre Jesus e Moisés, entre o Novo e o Velho Testamento. Considerando que Jesus aproveitou a oportunidade, falando explicitamente sobre o as­sunto, não devemos nos acanhar de imitá-lo. Ele veio (observe-se, a propósito, que ele tinha consciência de que viera ao mundo com uma missão) não para revogar a lei e os profetas, deixando-os de lado ou anulando-os, nem tampouco para endossá-los de maneira estéril e literal, mas para cumpri-los.

O verbo traduzido por "cumprir" (plërösai) significa literal­mente "encher" e indica, como Crisóstomo disse, que "suas palavras (sc. de Cristo) não eram uma revogação daquelas pri­meiras, mas uma exposição e o cumprimento delas".168 Para cap­tarmos o sentido total dessas palavras, precisamos nos lembrar de que "a lei e os profetas", isto é, o Velho Testamento, contêm diversos tipos de ensinamentos. A relação de Jesus Cristo com eles difere, mas a palavra "cumprimento" abrange todos eles.


Primeiro, o Velho Testamento contém ensinamento doutri­nário. "Tora", geralmente traduzido por "lei", significa, na verdade, "instrução revelada"; e o Velho Testamento realmente instrui-nos sobre Deus, sobre o homem, sobre a salvação, etc. Todas as grandes doutrinas bíblicas se encontram nele. Mas, ainda assim, foi apenas uma revelação parcial. Jesus o "cum­priu" todo, no sentido de completá-lo com a sua pessoa, seus ensinamentos e sua obra.169 O Rev. Ryle resumiu-o assim: "O Velho Testamento é o Evangelho em botão, o Novo Testamento é o Evangelho em flor. O Velho Testamento é o Evangelho no limbo; o Novo Testamento é o Evangelho na espiga."170
Segundo, o Velho Testamento contém profecia preditiva. Grande parte dela contempla o dia do Messias, profetizando-o por meio de palavras ou apresentando-o em figuras e tipos. Mas não passa de previsões. Jesus a "cumpriu" integralmente, no sentido de que o predito aconteceu com ele. A primeira decla­ração do seu ministério público foi: "O tempo está cumpri­do . . ." (Mc 1:14). Suas próprias palavras aqui, (Eu) vim, deno­tam essa mesma verdade. Repetidas vezes ele declarou que as Escrituras deram testemunho dele, e Mateus enfatiza isto mais do que qualquer outro evangelista, através da sua repetida fór­mula: "Ora, tudo isto aconteceu para que se cumprisse o que fora dito pelo Senhor por intermédio do profeta . . ."171 O clímax foi a sua morte na cruz, na qual todo o sistema cerimonial do Velho Testamento, sacerdócio e sacrifício, cumpriu-se perfeita­mente. Então as cerimônias cessaram. Sim, como Calvino com razão comentou: "Apenas o uso deles foi abolido, pois o seu significado foi confirmado mais plenamente."172 Não passavam de uma "sombra" do que estava por vir; a "substância" per­tencia a Cristo.173
Terceiro, o Velho Testamento contém preceitos éticos, ou a lei moral de Deus. Mas eles são freqüentemente mal interpre­tados e até mesmo desobedecidos. Jesus os "cumpriu", em pri­meiro lugar, obedecendo-os, pois ele "nasceu sob a lei" e estava determinado (como já dissera João Batista) a "cumprir toda a justiça".174 "Ele, na verdade, nada tinha a acrescentar aos man­damentos de Deus", escreveu Bonhoeffer, "exceto isto, que ele os guardou".175 Ele fez mais do que obedecê-los pessoalmente; ele explica o que a obediência implicará para os seus discípulos. Ele rejeita a interpretação superficial da lei, dada pelos escribas c fornece ele mesmo a verdadeira interpretação. O seu propó­sito não é mudar a lei, muito menos anulá-la, mas "revelar toda a profundidade do significado que pretendia conter".176 Por­tanto, ele a cumpre, anunciando as exigências radicais da jus­tiça de Deus".177 É isto que ele destaca no restante de Mateus 5, apresentando exemplos, conforme veremos.

Em cada geração da era cristã, sempre houve aqueles que não conseguiram acomodar-se à atitude de Cristo para com a lei. O famoso herege do segundo século, Marcion, que reescreveu o Novo Testamento, eliminando as referências que este faz ao Velho, naturalmente apagou esta passagem.178 Alguns dos seus discípulos foram mais além. Atreveram-se até a inverter o seu significado, mudando os verbos de modo que a sentença, então, passasse a dizer o seguinte: "Eu vim, não para cumprir a lei e os profetas, mas para aboli-los!" Seus correlativos hoje em dia parecem ser aqueles que abraçaram a chamada "nova morali­dade", pois declaram que a própria categoria da lei fica abolida para o cristão (embora Cristo tenha dito que não veio para aboli-la), que nenhuma lei tolhe agora o povo cristão, exceto a lei do amor, e que na realidade a ordem para amar é agora o único absoluto. Sobre estes, voltarei a falar mais tarde. Por ora, basta enfatizar que, de acordo com este versículo (v. 17), a ati­tude de Jesus para com o Velho Testamento não foi de des­truição e descontinuidade mas, antes, de continuidade cons­trutiva, orgânica. Ele resumiu sua posição numa simples palavra: não "abolição", mas "cumprimento".

O apóstolo Paulo ensinou esta mesma verdade com muita clareza.179 Sua declaração de que Cristo é "o fim da lei",180 não significa que agora estamos livres para desobedecê-la, mas jus­tamente o oposto.181 Significa, antes, que a aceitação de Deus não é através da obediência à lei, mas através da fé em Cristo, e a própria lei dá testemunho destas boas novas.182

Após declarar que o seu propósito em vir era o cumprimento da lei, Jesus prossegue, apresentando a causa e a conseqüência disto. A causa é a permanência da lei até que seja cumprida (v. 18); e a conseqüência é a obediência à lei, que os cidadãos do reino de Deus devem prestar (vs. 19, 20).

Isto é o que Jesus tem a dizer sobre a lei que ele veio cumprir: Porque em verdade vos digo: Até que o céu e a terra passem, nem um i (yod, a menor das letras do alfabeto grego, quase tão pequena como uma vírgula) ou um til (keraia, um acento, sinal que distinguia algumas letras hebraicas de outras) passará da lei, até que tudo se cumpra. Sua referência agora era apenas "à lei" e não "à lei e aos profetas", como no versículo anterior. Mas não temos razão para supor que estava deliberadamente omitindo os profetas; "a lei" era um termo compreensivo para o todo da revelação divina no Velho Testamento. Nenhuma parte dela passará ou será posta em desuso, diz ele, nem uma simples letra ou parte de uma letra, antes que seja inteiramente cum­prida. E este cumprimento não se completará até que o céu e a terra passem, pois um dia eles passarão, num grandioso renasci­mento do universo.183 Então, o tempo, como nós o conhecemos, deixará de existir, e as palavras escritas da lei de Deus já não serão mais necessárias, pois todas as coisas que ela encerra esta­rão cumpridas. Assim, a lei tem a duração do universo. O cum­primento final de uma e o novo nascimento do outro coincidirão. Ambos "passarão" juntos (parelthê é repetido). Jesus não pode­ria ter declarado com mais clareza sua própria opinião sobre as Escrituras do Velho Testamento.184
2. O cristão e a lei (vs. 19,20)

A palavra "pois" introduz a dedução que Jesus agora apresenta a seus discípulos para a validade duradoura da lei e a sua pró­pria atitude com referência a ela. Revela uma conexão vital entre a lei de Deus e o reino de Deus. Porque ele não veio para aboli-la, mas para cumpri-la e, considerando que nem um i ou um til passarão da lei até que toda ela se cumpra, a grandeza no reino de Deus será medida pela conformidade à lei. A obediência pessoal não basta; o discípulo cristão deve também ensinar aos outros a natureza permanentemente obrigatória dos manda­mentos da lei. É verdade que nem todos os mandamentos têm o mesmo "peso".185 Mas um destes mandamentos, posto que dos menores, exatamente porque é um mandamento de Deus, o Rei, é importante. Relaxá-los, isto é, afrouxar o controle que têm sobre nossa consciência e diminuir a sua autoridade em nossa vida, é uma ofensa a Deus, pois é sua lei. Ignorar um dos "menores" mandamentos da lei (quer na obediência, quer na instrução) é rebaixar-se a um dos "menores" súditos no reino; a grandeza no reino pertence àqueles que são fiéis no cumprir e no ensinar toda a lei moral. "A nobreza no reino de Cristo", escreveu Spurgeon, "será conferida de acordo com a obediência."186

Agora Jesus vai ainda mais além. A grandeza no reino não é apenas avaliada pela justiça que se conforma à lei, mas a en­trada no reino torna-se impossível se não houver um comporta^ mento que exceda em muito (a expressão grega é mesmo bas­tante enfática) ao dos escribas e fariseus, pois o reino de Deus é um reino de justiça. Mas alguém pode protestar: não eram os escribas e fariseus famosos por sua justiça? Não era a obe­diência à lei de Deus a grande paixão de suas vidas? Não tinham calculado que a lei contém 248 mandamentos e 365 proibições, e não desejavam obedecer a todos? Como pode, então, a justiça cristã verdadeiramente exceder a justiça farisaica, e como pode essa justiça cristã superior tornar-se condição para a entrada no reino de Deus? Será que isto não ensina a doutrina da sal­vação pelas boas obras, contradizendo a primeira bem-aventurança, que afirma pertencer o reino dos "humildes de espírito", que não têm nada, nem mesmo justiça, para apresentar?

A declaração de nosso Senhor deve, certamente, ter deixado perplexos os seus primeiros ouvintes e também nos deixa, hoje em dia. Mas a resposta a estas perguntas não é tão difícil de se achar. A justiça do cristão ultrapassa de longe a justiça dos fariseus, em espécie mais do que em grau. Poderíamos dizer que não é uma questão de os cristãos conseguirem obedecer a 248 mandamentos enquanto os melhores fariseus só conseguiram fazer 230 pontos. Não. A justiça do cristão é maior do que a justiça dos fariseus porque é mais profunda, porque é uma jus­tiça do coração. Desde Freud, fala-se muito em "psicologia profunda"; a preocupação de Jesus era pela "moralidade pro­funda". Os fariseus contentavam-se com uma obediência externa e formal, uma conformidade rígida à letra da lei; Jesus ensina-nos que as exigências de Deus são muito mais radicais do que isto. A justiça que lhe agrada é uma justiça interna, de mente e de motivação, pois "o Senhor (vê) o coração".187

Era uma nova justiça de coração, que os profetas tinham previsto como uma das bênçãos da dispensação messiânica. "Na mente lhes imprimirei as minhas leis, também no coração lhas inscreverei", Deus prometeu através de Jeremias (31:33). Como ele o faria? Ele disse a Ezequiel: "Porei dentro em vós o meu Espírito, e farei que andeis nos meus estatutos, guardeis os meus juízos e os observeis" (36:27). Assim coincidem as duas promessas de Deus: de colocar a sua lei dentro de nós e de pôr em nós o seu Espírito. Não devemos imaginar (como alguns pensam hoje em dia) que, quando temos o Espírito, podemos dispensar a lei, pois o que o Espírito faz em nossos corações é exatamente escrever neles a lei de Deus. Portanto, "Espírito", "lei", "justiça" e "coração" todos se relacionam. Os fariseus pensavam que uma conformidade externa à lei seria uma justiça suficiente. O "Mestre da Justiça" que aparece nos pergaminhos do Mar Morto era mais rigoroso, pois "definia as exigências da lei mais exaustivamente e até mais rigorosamente do que os próprios fariseus, e impunha à seita (sc. os essênios de Qumran) obediência radical a todos eles". Mas Jesus era ainda mais radi­cal, pois se os essênios pediam "cada vez mais obediência", ele pedia "obediência cada vez mais profunda".188 Portanto é esta obediência profunda, que ê a justiça do coração e que só é pos­sível naqueles em quem o Espírito Santo operou a regeneração e nos quais agora habita. É por isso que a entrada no reino de Deus é impossível sem uma justiça maior (isto é, mais profunda) do que a dos fariseus. É porque tal justiça é evidência do novo nascimento, e ninguém entra no reino sem ter nascido de novo.189

O restante de Mateus 5 contém exemplos desta justiça maior, ou, antes, mais profunda. Consiste de seis parágrafos paralelos, que ilustram o princípio que Jesus acabou de propor nos versí­culos 17 a 20, sobre a perpetuidade da lei moral, da sua vinda para cumpri-la e da responsabilidade dos discípulos em obedecê-la mais completamente do que os escribas e fariseus. E cada parágrafo contém um contraste ou uma "antítese", introduzi­da pela mesma fórmula (com variações menores): Ouvistes que foi dito aos antigos . . . Eu, porém, vos digo . . . (21, 22).

Qual é esta antítese? Está claro quem é o eu (egõ) enfático. Mas com quem Jesus está se contrastando? Torna-se essencial considerar esta pergunta agora, antes de, nos próximos três capítulos, examinarmos mais detalhadamente as seis antíteses propriamente ditas. Muitos comentaristas têm defendido que, nestes parágrafos, Jesus está se colocando contra Moisés; que está, aqui, deliberadamente inaugurando uma nova moralidade, e contradizendo e repudiando a antiga; e que sua fórmula intro­dutória poderia ser assim parafraseada: "Vocês sabem o que ensinava o Velho Testamento . . . Mas eu ensino uma coisa totalmente diferente." Por mais popular que esta interpretação possa ser, não hesito em dizer que está errada. E mais do que errada; é insustentável. O que Jesus contradisse não foi a lei propriamente dita, mas certas perversões da lei, das quais os escribas e fariseus eram culpados. Longe de contradizer a lei, Jesus a endossa, insiste sobre a sua autoridade e fornece a sua verdadeira interpretação. Quatro argumentos serão suficientes para provar que isso é verdade.

Primeiro, temos a substância das próprias antíteses. A pri­meira vista, em cada exemplo o que Jesus cita parece ter vindo da lei mosaica. Todos os seis exemplos, ou consistem de algum eco, ou incluem algum eco da lei. Por exemplo: Não matarás (v. 21); Não adulterarás (v. 27); Aquele que repudiar sua mu­lher, dê-lhe carta de divórcio (v. 31). Só depois que chegamos à sexta e última antítese é que vemos claramente que alguma coisa está faltando, pois ela diz: Amarás o teu próximo, e odiarás o teu inimigo (v. 43). A primeira metade desta sentença é uma ordem explícita da lei (Lv 19:18), embora também seja um mandamento truncado, que omite as palavras vitais que esta­belecem o padrão de nosso amor ao próximo, isto é, "como a ti mesmo". A segunda metade da sentença, entretanto, não se encontra em parte alguma da lei. Não está em Levítico 19:18, nem em qualquer outro lugar. Portanto, era uma adição con­temporânea à lei, que pretendia interpretá-la, mas na verdade a distorcia. Quando examinamos mais detalhadamente as outras cinco antíteses (conforme o faremos nos próximos capítulos), torna-se claro que uma distorção semelhante está implícita. Foram estas distorções da lei que Jesus rejeitou, não a lei propria­mente dita. Afinal, as duas primeiras antíteses não dizem: "Ouvistes que foi dito 'Não matarás e não cometerás adultério', mas eu vos digo que podeis fazê-lo". Antes, "mas eu vos digo que não deveis nem sequer ter pensamentos odiosos ou concupiscentes".

Segundo, temos a fórmula introdutória, começando com ou­vistes que foi dito aos antigos (vs. 21, 33), ou ouvistes que foi dito (vs. 27, 38, 43); ou, mais resumidamente ainda, também foi dito (v. 31). As palavras comuns para estas fórmulas são foi dito, que representam o verbo grego errethé. Esta não era a palavra que Jesus usava quando citava as Escrituras. Ao apre­sentar uma citação bíblica, tanto o verbo como o tempo eram diferentes, isto é, gegraptai (perfeito, "está escrito"), e não errethé (aoristo, "foi dito"). Nas seis antíteses, o que Jesus con­tradizia não eram as Escrituras, mas a tradição; não a palavra de Deus que eles tinham "lido",190 mas a instrução oral que fora dada "aos antigos" e que eles também tinham "ouvido", uma vez que os escribas continuavam ensinando-a nas sinagogas.

O Professor David Daube confirma isto com o seu conheci­mento profundo da língua hebraica usada pelos rabinos. O verbo "ouvir" está associado, diz ele, com "o significado superficial, literal, das Escrituras". Portanto, nas duas partes da fórmula introdutória, "a primeira apresenta uma regra bíblica rigorosa­mente interpretada, e a segunda, uma exigência mais ampla feita por Jesus". E, de novo, "estas declarações: 'Ouvistes . . . eu, porém, vos digo', têm a intenção de provar que Jesus é o defensor da lei, não o destruidor . . . é a revelação de um signi­ficado mais completo para uma nova época. A segunda parte tem antes a intenção de revelar do que de revogar a primeira".191 Poder-se-ia dizer que, em relação às distorções dos escribas, o termo "antítese" descreve corretamente o ensinamento de Jesus, enquanto que, em relação à lei propriamente dita, "exegese" seria a palavra mais exata. Sua disputa não era a respeito da lei, pois os líderes judeus e ele próprio aceitavam a autoridade divina daquela, mas sobre a sua correta interpretação.

Terceiro, temos o contexto imediato. Já vimos que, nos versí­culos precedentes e introdutórios das antíteses (vs. 17-20), Jesus afirmou, de maneira bastante inequívoca, qual era a sua pró­pria atitude para com a lei e qual deveria ser a dos seus discí­pulos. No seu caso, era "cumprimento" e, no caso deles, "obe­diência". Nem um til ou um i passaria; tudo tinha de se cum­prir. Nenhum dos menores mandamentos podia ser ignorado; todos tinham de ser obedecidos. Será que poderíamos, com seriedade, supor que Jesus se contradissesse? Que ele praticasse o que tinha acabado de declarar categoricamente que não viera fazer, e que eles não deveriam fazer? Pois este é o dilema: se nas antíteses Jesus contradizia Moisés, estava com isso contradizendo-se a si mesmo. "Comentaristas esgotaram sua inventivi­dade", escreve W. C. Allen, "na tentativa de explicar esta pas­sagem ao seu gosto".192 Ele prossegue, exercitando a sua própria engenhosidade na suposição de que os versículos 18 e 19 "não pertenciam originalmente ao sermão, mas que foram ali colo­cados pelo editor". Ele raciocina que, sob o seu ponto de vista, "a atitude para com a lei aqui descrita é inconsistente com o teor geral do sermão". Mas este é um julgamento inteiramente subjetivo e, além de tudo, não resolve o dilema. Tudo o que consegue fazer é remover a suposta discrepância dos ensina­mentos de Jesus, atribuindo-a ao primeiro evangelista ou, através dele, a alguma primitiva comunidade cristã. O melhor é aceitar as declarações dos versículos 17 a 20 como genuínas e demons­trar que são coerentes, não só com o Sermão como um todo, mas com o restante dos ensinamentos de Jesus que foram regis­trados. Isto nos traz ao último argumento.

Quarto, temos a conhecida atitude de Cristo para com o Velho Testamento. No capítulo anterior, Mateus apresentou a narra­tiva de suas tentações durante quarenta extenuantes dias no deserto da Judéia. Cada sutil tentação do diabo foi enfrentada com uma citação apropriada do Velho Testamento. Jesus não precisou discutir ou argumentar com o diabo. Cada questão foi resolvida cabalmente com uma simples menção do que estava escrito (gegraptai). E esta reverente submissão da Palavra encar­nada à palavra escrita continuou através de sua vida, não só no seu comportamento pessoal mas também em sua missão. Ele estava resolvido a cumprir o que estava escrito a respeito dele, e não podia ser removido do caminho que as Escrituras tinham traçado para ele. Por isso, suas declarações em Mateus 5:17, dizendo que não viera abolir mas cumprir a lei e os profetas, são totalmente coerentes com a sua atitude para com as Escrituras em qualquer outra passagem.

Dos quatro fatores apresentados, fica evidente que as antíteses não colocam Cristo e Moisés em oposição um ao outro, nem o Velho Testamento oposto ao Novo, ou o Evangelho à lei; mas que a verdadeira interpretação que Cristo apresentou da lei é que se opõe às falsas interpretações dos escribas, e, conseqüente­mente, a justiça cristã é que se opõe à dos fariseus, como o versículo 19 preconiza.

O que, então, os escribas e fariseus estavam fazendo? Quais eram os "métodos tortuosos", como Calvino os chamou,193 atra­vés dos quais rebaixavam a lei? De um modo geral, estavam tentando diminuir o desafio da lei, ou "relaxar" (v. 19) os man­damentos de Deus, tornando suas exigências morais mais manejáveis e menos rigorosas. Achavam que o Tora era um jogo e um fardo (na verdade, eles o chamavam assim), e desejavam tornar o jugo mais leve e o fardo menos pesado. O modo como eles o faziam variava de acordo com a forma de cada lei, espe­cialmente se era um mandamento (preceito ou proibição) ou uma permissão. Quatro das seis antíteses encaixam-se na cate­goria de "mandamentos", sendo as três primeiras negativas (proibindo o homicídio, o adultério e o falso juramento) e a última, positiva (prescrevendo o amor ao próximo). Estas quatro são ordens explícitas de Deus para fazer ou deixar de fazer alguma coisa. As duas antíteses restantes (a quarta e a quinta) descrevem-se melhor como "permissões". Não pertencem à mesma categoria de ordem moral das outras quatro. Ambas não têm as palavras imperativas. A quarta antítese é relativa ao divórcio, que jamais foi ordenado, mas sim permitido em determinadas circunstâncias e sob certas condições. A quinta refere-se à vingança ("Olho por olho . . ."), que era permitida nos tribunais e que se restringia ao equivalente exato das penali­dades que os juizes israelitas poderiam impor. Portanto, ambas as permissões ficavam circunscritas por limites definidos.

O que os escribas e fariseus estavam fazendo, a fim de tornar a obediência mais fácil de praticar, era restringir os manda­mentos e esticar as permissões da lei. Tornavam as exigências da lei menos exigentes e as permissões da lei mais permissivas. O que Jesus fez foi inverter as duas tendências. Insistiu que fos­sem aceitas todas as implicações dos mandamentos de Deus sem a imposição de quaisquer limites artificiais, enquanto que os limites que Deus estabelecera às suas permissões também deviam ser aceitos e não arbitrariamente ampliados. Talvez seja útil observar a aplicação destes princípios às antíteses, resumida­mente, antes de considerá-las em detalhe.

Os escribas e fariseus estavam evidentemente restringindo as proibições bíblicas do homicídio e do adultério apenas ao ato; Jesus estendeu-as incluindo pensamentos coléricos, palavras insultuosas e olhares concupiscentes. Eles restringiam o man­damento sobre o juramento apenas a certos votos (envolvendo o nome divino), e o mandamento sobre o amor ao próximo ape­nas a certas pessoas (às da mesma raça e religião). Jesus disse que todas as promessas têm de ser cumpridas e todas as pessoas amadas, sem limitações.

Mas os escribas e fariseus não se contentavam simplesmente em restringir os mandamentos da lei para que se adaptassem às suas conveniências; procuravam atender às suas conveniências ainda mais, ampliando as permissões. Assim, tentavam ampliar a permissão do divórcio além do simples fundamento de "alguma indecência" para incluir qualquer capricho do marido, e alargar a permissão da vingança além dos tribunais para incluir a vin­gança pessoal. Jesus, entretanto, reafirmou as restrições ori­ginais. Chamou o divórcio de "adultério", se baseado em outros fundamentos, e insistiu nos relacionamentos pessoais com a renúncia de qualquer vingança.

Este exame preliminar das antíteses mostrou-nos que Jesus não contradisse a lei de Moisés. Pelo contrário, os fariseus é que o estavam fazendo. O que Jesus fez foi explicar o verdadeiro significado da lei moral, com todas as suas implicações inquietantes. Ele ampliou os mandamentos que eles estavam restrin­gindo e restringiu as permissões que eles estavam alargando. Para ele, a lei de Moisés era a lei de Deus, cuja validade era permanente e cuja autoridade tinha de ser aceita. No Sermão do Monte, como Calvino já expressou corretamente, vemos Jesus não "como um novo legislador, mas como o fiel explanador da lei que já fora dada".194 Os fariseus tinham "obscurecido" a lei; Jesus "restaurou-a em sua integridade".195

E, neste assunto, os discípulos cristãos têm de seguir a Cristo, não aos fariseus. Não temos liberdade de tentar rebaixar os padrões da lei para torná-la mais fácil de obedecer. Essa era a casuística dos fariseus, não dos cristãos. A justiça cristã tem de exceder à justiça dos fariseus.

Mas os defensores da "nova moralidade" ou da "ética situacional" estão, em princípio, tentando fazer exatamente o que os fariseus faziam. É verdade que proclamam estarem do lado de Cristo contra os fariseus, mas parecem-se com fariseus em sua antipatia à lei. Consideram a lei rígida e autoritária e (exata­mente como os fariseus) tentam "relaxar" a sua autoridade, afrouxar o seu poder. Declaram que a lei foi abolida (quando Jesus disse que não veio para aboli-la) e colocam a lei e o amor em mútua discrepância (de uma maneira tal como Jesus nunca o fez). Mas não é assim. Jesus discordou da interpretação farisaica da lei; ele jamais discordou de aceitarem a autoridade dela. Antes, o contrário. Com os termos mais fortes possíveis, Jesus afirmou a autoridade da lei por ser a Palavra de Deus escrita, e convocou os seus discípulos a aceitarem a sua verda­deira e profunda interpretação.




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