Contracultura Cristã



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Mateus 5:3-12
O caráter do cristão: as bem-aventuranças


3 Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o reino dos céus.

4 Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados.

5 Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra.

6 Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serãofartos.

7 Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia.

8 Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus.

9 Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus.

10 Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, por­que deles é o reino dos céus.

11 Bem-aventurados sois quando, por minha causa, vos inju­riarem e vos perseguirem e, mentindo, disserem todo mal contra vós.

12 Regozijai-vos e exultai, porque é grande o vosso galardão nos céus; pois assim perseguiram aos profetas que viveram antes de vós.
Quem é que, tendo ouvido falar de Jesus de Nazaré, e sabendo um pouco acerca do que ele ensinou, não está familiarizado com as bem-aventuranças que dão início ao Sermão do Monte? A simplicidade de palavras e a profundidade de idéias deste Sermão têm atraído cada nova geração de cristãos, além de mui­tas outras pessoas. Quanto mais exploramos suas implicações, mais fica por ser explorado. Suas riquezas são inexauríveis. Não podemos sondar suas profundezas. Na verdade, "Aproximamo-nos do céu".39

Antes de estarmos prontos para considerar separadamente cada bem-aventurança, há três perguntas de caráter geral que precisamos responder. Referem-se às pessoas descritas, às quali­dades recomendadas e às bênçãos prometidas.


a. As pessoas descritas

As bem-aventuranças descrevem o caráter equilibrado e diversi­ficado do povo cristão. Não existem oito grupos separados e distintos de discípulos, alguns dos quais são mansos, enquanto outros são misericordiosos e outros, ainda, chamados para supor­tarem perseguições. São, antes, oito qualidades do mesmo grupo de pessoas que, ao mesmo tempo, são mansas e misericordiosas, humildes de espírito e limpas de coração, choram e têm fome, são pacificadoras e perseguidas.

Além disso, o grupo que exibe estes sinais não é um conjunto elitista, uma pequena aristocracia espiritual distante da maioria dos cristãos. Pelo contrário, as bem-aventuranças são especi­ficações dadas pelo próprio Cristo quanto ao que cada cristão deveria ser. Todas estas qualidades devem caracterizar todos os seus discípulos. Da mesma forma que o fruto do Espírito, descrito por Paulo, deve amadurecer em seus nove aspectos no caráter de cada cristão, também as oito bem-aventuranças que Cristo menciona descrevem o seu ideal para cada cidadão do reino de Deus. Ao contrário dos dons do Espírito, que ele dis­tribui a diferentes membros do corpo de Cristo a fim de equipá-los para diferentes espécies de serviço, o mesmo Espírito está interessado em produzir todas estas graças cristãs em todos nós. Não podemos fugir à nossa responsabilidade de cobiçá-las todas.
b. As qualidades recomendadas

Sabemos muito bem que há uma discrepância, pelo menos verbal, entre as bem-aventuranças do Evangelho de Mateus e as de Lucas. Assim, Lucas diz: "Bem-aventurados vós os po­bres", enquanto que Mateus declara: "Bem-aventurados os humildes (pobres) de espírito". Em Lucas temos: "Bem-aventu­rados vós os que agora tendes fome", e em Mateus: "Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça".

Por causa disto, alguns argumentam que a versão de Lucas é a verdadeira; que Jesus estava julgando os pobres e os famintos do ponto de vista social ou sociológico; que ele estava prome­tendo alimento aos subnutridos e ao proletariado no reino de Deus; e que Mateus espiritualizou o que constituía original­mente uma promessa material.

Mas esta interpretação é impossível, a não ser que estejamos prontos a crer que Jesus se contradisse ou que os evangelistas foram demasiado ineptos para fazê-lo parecer assim. No deserto da Judéia, nas tentações descritas por Mateus no capítulo ante­rior, Jesus recusou-se a transformar pedras em pão e repudiou a idéia de estabelecer um reino material. De maneira consis­tente, através de todo o seu ministério, rejeitou a mesma tenta­ção. Quando alimentou os cinco mil e, por causa disto, induziu a multidão a "arrebatá-lo para o proclamarem rei", Jesus imediatamente se retirou sozinho para o monte.40 E quando Pilatos perguntou-lhe se havia qualquer verdade nas acusações dos líderes judeus contra ele, e se realmente tinha alguma ambição política, sua resposta foi inequívoca: "O meu reino não é deste mundo."41 Isto é, tinha uma origem diferente e, portanto, caráter diferente.

Com isso não sugerimos que Jesus ficasse indiferente à pobreza e fome físicas. Pelo contrário, ele sentia compaixão pelos neces­sitados e alimentava os famintos, e disse aos seus discípulos que fizessem o mesmo. Mas a bênção do seu reino não era em pri­meiro lugar uma vantagem econômica.

Mais ainda, se ele não oferecia alívio físico imediato, não o prometia tampouco num céu futuro e, enquanto isso, anunciava que os pobres e famintos eram "bem-aventurados". Na verdade, em algumas circunstâncias, Deus pode usar a pobreza como instrumento de bênção espiritual, exatamente como a riqueza pode ser um impedimento à mesma. Mas isto não transforma a pobreza por si mesma em condição desejável, que Jesus abençoe.

A igreja sempre esteve errada quando usou a primeira bem-aventurança para fechar os olhos diante da pobreza das massas, ou para elogiar a pobreza voluntária dos monges e de outros que fizeram voto de renúncia aos bens materiais. Cristo pode, realmente, chamar alguns para uma vida de pobreza, mas essa chamada não pode ser, honestamente, percebida nesta bem-aventurança.

A pobreza e a fome a que Jesus se refere nas bem-aventuranças são condições espirituais. São "os humildes (pobres) de espírito" e aqueles que "têm fome e sede de justiça" que ele declara bem-aventurados. E podemos certamente deduzir disso que as outras qualidades por ele mencionadas também são espirituais. É ver­dade que a palavra aramaica que Jesus usou poderia significar simplesmente os "pobres", como na versão de Lucas. Mas "os pobres", os pobres de Deus, já constituíam um grupo claramente definido no Velho Testamento, e Mateus estaria correto tradu­zindo para "pobres de espírito". Pois "os pobres" não eram tanto os maltratados pela pobreza, mas os piedosos, assim chamados em parte porque passavam necessidades, eram opri­midos, tiranizados e afligidos de outras maneiras, mas tinham firmado a sua fé e esperança em Deus.


c. As bênçãos prometidas

Cada qualidade foi elogiada, enquanto cada pessoa que a possui foi declarada "bem-aventurada". A palavra grega makarios significa "feliz". A Bíblia na Linguagem de Hoje assim tra­duz as palavras iniciais de cada bem-aventurança: "Felizes os que . . .". E diversos comentaristas têm explicado que essas palavras constituem a receita de Jesus para a felicidade humana. A explicação mais simples que conheço foi feita por Ernest M. Ligon, do Departamento de Psicologia do "Union College", de Schenectady, Nova Iorque, em seu livro The Psychology of Christian Personality42 (A Psicologia da Personalidade Cristã). Reconhecendo sua dívida para com Harry Emerson Fosdick, ele traça a interpretação do Sermão do Monte "do ponto de vista da saúde mental". "O erro mais significativo que se tem cometido interpretando estes versículos de Jesus (sc. as bem-aventuranças)", ele escreve, "foi deixar de perceber a primeira palavra de cada um deles: 'felizes'"43 No seu ponto de vista, "constituem a teoria de Jesus sobre a felicidade".44 Não constituem tanto deveres éticos, mas "uma série de oito atitudes emocionais fun­damentais. O homem que reagir ao seu ambiente com esse espí­rito terá uma vida feliz",45 pois terá descoberto a "fórmula básica para a saúde mental".46 De acordo com o Dr. Ligon, o Sermão enfatiza as "forças" da fé e do amor, da "fé experimental" e do "amor paternal". Estes dois princípios são indispensáveis para o desenvolvimento de uma "personalidade sadia e forte".47 Não só o caos do medo pode ser vencido pela fé, e a ira destrutiva pelo amor, mas também "o complexo de inferioridade e seus muitos subprodutos" pela Regra Áurea.48

Não é preciso rejeitar esta interpretação como totalmente ilu­sória. Ninguém melhor do que o nosso Criador sabe como pode­mos nos tornar humanos verdadeiros. Ele nos criou. Ele sabe como funcionamos melhor. É através da obediência às suas pró­prias leis morais que nos encontramos e nos realizamos. E todos os cristãos podem testemunhar da experiência de que há uma relação íntima entre a santidade e a felicidade.

Não obstante, traduzir makarios por "feliz" induz a um erro sério, pois a felicidade é um estado subjetivo, enquanto que Jesus está julgando objetivamente essas pessoas. Ele não está decla­rando como se sentirão ("felizes"), mas sim o que Deus pensa delas e o que são por causa disso: são "bem-aventuradas".

Que bênção é essa? A segunda parte de cada bem-aventurança elucida a questão. Possuem o reino dos céus e herdarão a terra. Os que choram são consolados e os famintos satisfeitos. Recebem misericórdia, vêem a Deus, são chamados filhos de Deus. Sua recompensa celestial é grande. E todas estas bênçãos estão reu­nidas. Exatamente como as oito qualidades descrevem cada cristão (pelo menos em ideal), da mesma forma as oito bênçãos são concedidas a cada cristão. É verdade que a bênção especí­fica prometida em cada caso é apropriada à qualidade particular­mente mencionada. Ao mesmo tempo, é totalmente impossível herdar o reino dos céus sem herdar a terra, ser consolado sem ser satisfeito ou ver a Deus sem alcançar sua misericórdia e ser chamado seu filho. As oito qualidades juntas constituem as responsabilidades; e as oito bênçãos, os privilégios, a condição de cidadão do reino de Deus. Este é o significado do desfrutar do governo de Deus.

Estas bênçãos são para o presente ou para o futuro? Pessoal­mente, penso que a única resposta possível é "tanto para o pre­sente como para o futuro". Alguns comentaristas, entretanto, têm insistido que são para o futuro, e têm enfatizado a natureza "escatológica" das bem-aventuranças. É verdade que a segunda parte da última bem-aventurança promete que os perseguidos receberão uma grande recompensa no céu, e isto deve referir-se ao futuro (v. 12). Certamente também é apenas na primeira e na oitava bem-aventuranças que a bênção foi expressa no tempo presente, "deles ê o reino dos céus" (vs. 3, 10); e, mesmo assim, este verbo não se encontrava aí quando Jesus falou em aramaico. As outras seis beatitudes contêm um verbo no futuro simples (serão, herdarão, alcançarão). Não obstante, está claro nos demais ensinamentos de Jesus que o reino de Deus é uma reali­dade presente que podemos "receber", "herdar" ou "entrar" agora. Do mesmo modo, podemos alcançar misericórdia e con­solo agora, podemos nos tornar filhos de Deus agora e podemos, nesta vida, ter a nossa fome satisfeita e a nossa sede mitigada. Jesus prometeu todas estas bênçãos a seus discípulos aqui e agora. A promessa de que "verão a Deus" pode parecer uma referência à "visão beatífica" final,49 e sem dúvida a inclui. Mas nós já começamos a ver Deus nesta vida, na pessoa do seu Cristo50 e com a visão espiritual.51 Já começamos a "herdar a terra" nesta vida, considerando que, se somos de Cristo, todas as coisas já são nossas, "seja o mundo, seja a vida, seja a morte, sejam as cousas presentes, sejam as futuras".52

Portanto, as promessas de Jesus nas bem-aventuranças têm cumprimento presente e futuro. Desfrutamos agora das primícias; a colheita propriamente dita ainda está por vir. E, como destacou acertadamente o Professor Tasker, "O tempo verbal futuro. . . enfatiza sua certeza, e não simplesmente o seu aspecto futuro. Os que choram serão certamente consolados, etc."53

Isto nos coloca diante de mais uma pergunta sobre as "bên­çãos" que Jesus prometeu. É um problema que não podemos evitar. Será que as bem-aventuranças não ensinam uma doutrina de salvação pelos méritos humanos e pelas boas obras, o que é incompatível com o evangelho? Será que Jesus não declara expli­citamente, por exemplo, que os misericordiosos alcançarão misericórdia e que os limpos de coração verão a Deus? E será que isto não dá a entender que é demonstrando misericórdia que recebemos misericórdia e que, tornando-nos limpos de coração, recebemos uma visão de Deus?

Alguns intérpretes têm ousadamente defendido esta tese. Tentaram apresentar o Sermão do Monte como nada mais que uma débil forma cristianizada da lei do Velho Testamento e da ética do Judaísmo. Eis aí Jesus, o Rabi, o legislador, dizem, enunciando mandamentos, esperando obediência e prometendo salvação àqueles que lhe atendem. Provavelmente o expoente máximo desta opinião seja Hans Windisch, no seu The Meaning of the Sermon on the Mount (1929, "O Significado do Sermão do Monte"). Ele enfatiza a "exegese histórica" e rejeita o que chama de "exegese paulinizante", referindo-se à tentativa de interpretar o Sermão de maneira que harmonize com o evangelho da graça de Paulo. Na opinião dele, isto não pode ser feito: "Do ponto de vista de Paulo, Lutero e Calvino, a soteriologia do Sermão do Monte é irremediavelmente herética."54 Em outras palavras, prega a lei, não o evangelho, e oferece justiça pelas obras e não pela fé. Portanto, "aqui há entre Jesus e Paulo um abismo que nenhum artifício de exegese teológica pode trans­por".55 Mas Windisch vai mais além. Especula que a ênfase de Paulo sobre a salvação pela graça tem levado muitos a considerar as boas obras como supérfluas, e que Mateus deliberadamente compôs o Sermão do Monte como uma espécie de tratado anti-paulino! 56

Foi esse mesmo temor de que as promessas do Sermão do Monte dependessem dos méritos humanos para o seu cumpri­mento, que levou J. N. Darby a relegá-las para a futura "dispensação do reino". Seu dispensacionalismo ficou popularizado pela "Scofield Reference Bible" (1909), a qual, comentando 5:2, chama o Sermão de "lei pura", embora admitindo que os seus princípios têm "uma linda aplicação moral para o cristão".

Mas tanto as especulações de Windisch quanto os temores dos dispensacionalistas são infundados. Na verdade, a primeira das bem-aventuranças proclama a salvação pela graça e não pelas obras, pois ela promete o reino de Deus aos "humildes de espí­rito", isto é, às pessoas que são tão pobres espiritualmente que nada têm a oferecer para mérito seu. O leitor pode imaginar com que veemente indignação Lutero repudiou a sugestão, feita por alguns contemporâneos seus, de que o Sermão do Monte ensina a salvação pelos méritos! Acrescentou à sua exposição um longo pós-escrito de dez páginas, a fim de se opor a esta idéia mons­truosa. Nele, criticou severamente "aqueles estúpidos falsos mestres" que "chegaram à conclusão de que entramos no reino dos céus e somos salvos por nossas próprias obras e ações".57 Esta "abominação dos sofistas" inverte o evangelho de tal forma, ele declara, que "se compara a jogar o telhado no chão, a tombar os alicerces, a edificar a salvação sobre simples água, a der­rubar Cristo completamente do seu trono, colocando em seu lugar as nossas obras".58

Como, então, podemos explicar as expressões que Jesus usou nas bem-aventuranças, toda a ênfase que deu à justiça no Ser­mão? A resposta certa parece ser que o Sermão do Monte, como uma espécie de "nova lei", igual à antiga, tem dois propósitos divinos, os quais o próprio Lutero entendia claramente. Pri­meiro, mostrar a quem não é cristão que não pode agradar a Deus por si mesmo (porque não consegue obedecer à lei), conduzindo-o, então, a Cristo para ser justificado. Segundo, mostra ao cristão, que buscou em Cristo a justificação, como deve viver para agradar a Deus. Mais simplesmente, de acordo com a sín­tese dos reformadores puritanos, a lei nos envia a Cristo para sermos justificados, e Cristo nos manda de volta à lei para ser­mos santificados.

Não pode haver dúvidas de que o Sermão do Monte tem, sobre muitas pessoas, o primeiro efeito já notado. Quando o lêem, ficam desesperadas. Vêem nele um ideal inatingível. Como poderiam desenvolver esta justiça de coração, voltar a outra face, amar os seus inimigos? E impossível! Exatamente! Neste sentido, o Sermão é "Moisíssimo Moisés" (expressão de Lutero); "é Moisés quadruplicado, é Moisés multiplicado ao mais alto grau",59 porque é uma lei de justiça interior a que nenhum filho de Adão jamais pode obedecer. Portanto, apenas nos condena e torna indispensável o perdão de Cristo. Não poderíamos dizer que esta é uma parte do propósito do Sermão? É verdade que Jesus não o disse explicitamente, embora esteja na primeira bem-aventurança, como já mencionamos. Mas a implicação está em toda a nova lei, exatamente como na antiga.

Lutero é ainda mais explícito quanto ao segundo propósito do Sermão: "Cristo nada diz neste Sermão sobre como nos tor­namos cristãos, mas apenas sobre as obras e os frutos que nin­guém pode produzir se já não for um cristão e não estiver em estado de graça."60 Todo o Sermão realmente pressupõe uma aceitação do evangelho (como Crisóstomo e Agostinho o enten­deram), uma experiência de conversão e de novo nascimento, e a habitação do Espírito Santo. Descreve as pessoas nascidas de novo que os cristãos são (ou deveriam ser). Portanto, as bem-aventuranças apresentam as bênçãos que Deus concede (não como uma recompensa aos méritos, mas como um dom da graça) àqueles nos quais ele está desenvolvendo um caráter assim.

O Professor Jeremias, que se refere à primeira explicação ("a teoria do ideal impossível"), chamando-a de "ortodoxia luterana",61 deixando de mencionar que o próprio Lutero tam­bém deu esta segunda explicação, sugere que o Sermão foi usado como "um catecismo cristão primitivo" e, portanto, pressupõe que os ouvintes já eram cristãos: "Foi precedido pela proclamação do Evangelho; e foi precedido pela conversão, pelo po­der das Boas Novas."62 Assim, o Sermão "foi dirigido a ho­mens que já tinham recebido o perdão, que encontraram a pé­rola de grande preço, que foram convidados para as bodas, que mediante a sua fé em Jesus pertenciam à nova criação, ao novo mundo de Deus".63 Neste sentido, então, "o Sermão do Monte não é Lei, mas Evangelho". Para tornar clara a diferença entre ambos, ele prossegue, é preciso fugir de termos tais como "moralidade cristã", falando, outrossim, em "fé vivida", pois "fica claramente explícito que o dom de Deus precede suas exigências".64

O Professor A. M. Hunter insere este assunto no contexto de todo o Novo Testamento: "O Novo Testamento torna claro que a mensagem da Igreja primitiva sempre . . . teve dois aspectos, um teológico, outro ético: (1) o Evangelho que os apóstolos pre­gavam; e (2) o Mandamento, produto do Evangelho, que eles ensinavam àqueles que aceitavam esse Evangelho. O Evangelho era uma declaração do que Deus, na sua graça, tinha feito pelos homens através de Cristo; o Mandamento era uma declaração do que Deus exigia dos homens que se tornaram objeto de sua graciosa ação."65 O apóstolo Paulo costumava dividir as suas cartas desse jeito, com uma parte doutrinária seguida de outra, prática. "Mas nisto", continua Hunter, "Paulo só estava fazendo o que o seu Senhor fizera antes dele. Jesus não só proclamou que o reino de Deus viera com ele e com sua obra; também apresentou aos seus discípulos o ideal moral do reino . . . É o ideal esboçado no Sermão do Monte".66

Resumindo estes três pontos introdutórios relacionados com as bem-aventuranças, podemos dizer que as pessoas descritas são de modo geral os discípulos cristãos, pelo menos em ideal; que as qualidades elogiadas são qualidades espirituais; e que as bênçãos prometidas(como dons da graça imerecida) são as bên­çãos gloriosamente compreendidas pelo governo de Deus, experi­mentadas agora e consumadas depois, incluindo a herança de ambos, terra e céu, consolo, satisfação e misericórdia, visão e filiação de Deus.

Agora estamos prontos para examinar detalhadamente as bem-aventuranças. Diversas tentativas de classificação foram experimentadas. Não são certamente um catálogo fortuito, mas, nas palavras de Crisóstomo, "uma espécie de cadeia de ouro".67 Talvez a divisão mais simples seja considerar as quatro primeiras descritivas do relacionamento do cristão com Deus, e as outras quatro, do seu relacionamento e deveres para com o próximo.


1. Os humildes de espírito (v. 3)

Já mencionamos que o Velho Testamento fornece os antece­dentes necessários para a interpretação desta bem-aventurança. No princípio, ser "pobre" significava passar necessidades literal­mente materiais. Mas, gradualmente, porque os necessitados não tinham outro refúgio a não ser Deus,68 a "pobreza" recebeu nuances espirituais e passou a ser identificada como uma hu­milde dependência de Deus. Por isso o salmista intitulou-se "este aflito" que clamou a Deus em sua necessidade, "e o Senhor o ouviu, e o livrou de todas as suas tribulações".69 O "aflito" (ho­mem pobre) no Velho Testamento é aquele que está sofrendo e não tem capacidade de salvar-se por si mesmo e que, por isso, busca a salvação de Deus, reconhecendo que não tem direito à mesma. Esta espécie de pobreza espiritual foi especialmente elogiada em Isaías. São "os aflitos e necessitados", que "buscam águas, e não as há", cuja "língua se seca de sede", aos quais Deus promete abrir "rios nos altos desnudos, fontes no meio dos vales" e tornar "o deserto em açudes de águas, e a terra seca em mananciais".70 O "pobre" também foi descrito como "o contrito e abatido de espírito", para quem Deus olha (embora seja "o Alto, o Sublime, que habita a eternidade, o qual tem o nome de Santo"), e com quem se deleita em habitar.71 É para esse que o ungido do Senhor proclamaria as boas novas da salvação, uma profecia que Jesus conscientemente cumpriu na sinagoga de Nazaré: "O Espírito do Senhor está sobre mim, porque o Senhor me ungiu, para pregar boas-novas aos quebrantados."72 Mais ainda, os ricos inclinavam-se a transigir com o paganismo que os rodeava; eram os pobres que permaneciam fiéis a Deus. Por isso, a riqueza e o mundanismo, bem como a pobreza e a piedade, andavam juntas.

Assim, ser "humilde (pobre) de espírito" é reconhecer nossa pobreza espiritual ou, falando claramente, a nossa falência espi­ritual diante de Deus, pois somos pecadores, sob a santa ira de Deus, e nada merecemos além do juízo de Deus. Nada temos a oferecer, nada a reivindicar, nada com que comprar o favor dos céus.

"Nada em minhas mãos eu trago, Simplesmente à tua cruz me apego; Nu, espero que me vistas; Desamparado, aguardo a tua graça; Mau, à tua fonte corro; Lava-me, Salvador, ou morro."

Esta é a linguagem do pobre (humilde) de espírito. Nosso lugar é ao lado do publicano da parábola de Jesus, clamando com os olhos baixos: "Deus, tem misericórdia de mim, pecador!" Como Calvino escreveu: "Só aquele que, em si mesmo, foi reduzido a nada, e repousa na misericórdia de Deus, é pobre de espírito."73

Esses, e tão somente esses, recebem o reino de Deus. Pois o reino de Deus que produz salvação é um dom tão absolutamente de graça quanto imerecido. Tem de ser aceito com a dependente humildade de uma criancinha. Assim, bem no começo do Ser­mão do Monte, Jesus contradisse todos os juízos humanos e todas as expectativas nacionalistas do reino de Deus. O reino é concedido ao pobre, não ao rico; ao frágil, não ao poderoso; às criancinhas bastante humildes para aceitá-lo, não aos soldados que se vangloriam de poder obtê-lo através de sua própria bra­vura. Nos tempos de nosso Senhor, quem entrou no reino não foram os fariseus, que se consideravam ricos, tão ricos em mé­ritos que agradeciam a Deus por seus predicados: nem os zelotes, que sonhavam com o estabelecimento do reino com sangue e espada; mas foram os publicanos e as prostitutas, o refugo da sociedade humana, que sabiam que eram tão pobres que nada tinham para oferecer nem para receber. Tudo o que podiam fazer era clamar pela misericórdia de Deus; ele ouviu o seu clamor.

Talvez o melhor exemplo desta mesma verdade seja a igreja nominal de Laodicéia, à qual João recebeu ordem de enviar uma carta do Cristo glorificado. Ele citou as complacentes palavras dela, e acrescentou o seu próprio comentário: "Pois dizes: Estou rico e abastado, e não preciso de cousa alguma, e nem sabes que tu és infeliz, sim, miserável, pobre, cego e nu."74 Esta igreja visível, apesar de toda a sua profissão cristã, não era de modo algum verdadeiramente cristã. Auto-satisfeita e superficial, era composta (de acordo com Jesus) de cegos e mendigos nus. Mas a tragédia era que não o admitiam. Eram ricos, não pobres, de espírito.

Ainda hoje, a condição indispensável para se receber o reino de Deus é o reconhecimento de nossa pobreza espiritual. Deus continua despedindo vazios os ricos.75 Como disse C. H. Spurgeon: "Para subirmos no reino é preciso rebaixarmo-nos em nós mesmos."76


2. Os que choram (v. 4)

Quase que se poderia traduzir esta segunda bem-aventurança por "Felizes os infelizes", a fim de chamar a atenção para o surpreendente paradoxo que contém. Que espécie de tristeza é essa que pode produzir a alegria da bênção de Cristo naqueles que a sentem? Está claro no contexto que aqueles que receberam a promessa do consolo não são, em primeiro lugar, os que choram a perda de uma pessoa querida, mas aqueles que choram a perda de sua inocência, de sua justiça, de seu respeito próprio. Cristo não se refere à tristeza do luto, mas à tristeza do arre­pendimento.

Este é o segundo estágio da bênção espiritual. Uma coisa é ser espiritualmente pobre e reconhecê-lo; outra é entristecer-se e chorar por causa disto. Ou, numa linguagem mais teológica, confissão é uma coisa, contrição é outra.

Precisamos, então, notar que a vida cristã, de acordo com Jesus, não é só alegria e risos. Há cristãos que parecem imaginar, especialmente se estão cheios do Espírito, que devem exibir um sorriso perpétuo no rosto e viver continuamente exuberantes e borbulhantes. Que atitude antibíblica! Na versão de Lucas, Jesus acrescentou a esta bem-aventurança uma solene adver­tência: "Ai de vós os que agora rides!"77 A verdade é que existem lágrimas cristãs e são poucos os que as vertem.

Jesus chorou pelos pecados de outros, pelas amargas conse­qüências que trariam no juízo e na morte, e pela cidade impenitente que não o receberia. Nós também deveríamos chorar mais pela maldade do mundo, como os homens piedosos dos tempos bíblicos. "Torrentes de águas nascem dos meus olhos", o salmista podia dizer a Deus, "porque os homens não guardam a tua lei".78 Ezequiel ouviu o povo de Deus descrito como aqueles que "suspiram e gemem por causa de todas as abominações que se cometem no meio (de Jerusalém)".79 E Paulo escreveu sobre os falsos mestres que perturbavam as igrejas do seu tempo: "Pois muitos andam entre nós . . . e agora vos digo até chorando, que são inimigos da cruz de Cristo."80

Mas não são apenas os pecados dos outros que deveriam nos levar às lágrimas, pois temos os nossos próprios pecados para chorar. Ou será que eles nunca nos entristeceram? Será que Thomas Cranmer exagerou quando, num culto comemorando a Ceia do Senhor, em 1662, colocou nos lábios das pessoas da igreja as palavras: "Reconhecemos e lamentamos nossos múl­tiplos pecados e maldades"? Será que Esdras errou quando orava fazendo confissão, "chorando prostrado diante da casa de Deus"?81 Será que Paulo errou ao gemer: "Desventurado homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte?" e quando escreveu à pecadora igreja de Corinto: "Não chegastes a lamentar?"82 Penso que não. Temo que os cristãos evangélicos, exagerando a graça, às vezes fazem pouco do pecado por causa disso. Não existe suficiente tristeza por causa do pecado entre nós. Deveríamos experimentar mais "tristeza segundo Deus" no arrependimento cristão,83 como aconteceu com o sensível missio­nário cristão junto aos índios americanos do século dezoito, David Brainerd, que escreveu em seu diário, a 18 de outubro de 1740: "Em minhas devoções matinais minha alma desfez-se em lágrimas, e chorou amargamente por causa da minha extrema maldade e vileza." Lágrimas como estas são a água santa que se diz Deus guardar em seu odre.84

Tais pessoas que choram, que lamentam a sua própria mal­dade, serão consoladas pelo único consolo que pode aliviar o seu desespero, isto é, o perdão da graça de Deus. "O maior de todos os consolos é a absolvição enunciada sobre cada pecador contrito que chora."85 "Consolação" de acordo com os profetas do Velho Testamento, seria uma das missões do Messias. Ele seria "o Consolador" que curaria "os quebrantados de cora­ção".86 Por isso, homens piedosos como Simeão esperavam an­siosos "a consolação de Israel".87 E Cristo derrama óleo sobre nossas feridas e concede paz às nossas consciências magoadas e marcadas. Mas ainda choramos pela devastação do sofrimento e da morte que o pecado alastra pelo mundo inteiro! Só no estado final de glória o consolo de Cristo será completo, pois só então o pecado não existirá mais e "Deus lhes enxugará dos olhos toda lágrima".88
3. Os mansos (v. 5)

O adjetivo grego praüs significa "gentil", "humilde", "aten­cioso", "cortês" e, portanto, o que exerce autocontrole, sem o qual estas qualidades seriam impossíveis. Embora imediata­mente recuemos ante a imagem de nosso Senhor quando intitu­lado "Jesus, suave e meigo", porque evoca uma figura fraca e efeminada, ele mesmo descreveu-se como "manso (praüs) e humilde de coração"; e Paulo falou de sua "mansidão e benignidade".89 Portanto, lingüisticamente falando, podemos para­frasear esta bem-aventurança dizendo: "aqueles que têm um espírito gentil". Mas que espécie de gentileza é esta, para que seus possuidores sejam declarados bem-aventurados?

(Parece importante notar que, nas bem-aventuranças, "os mansos" encontram-se entre aqueles que choram por causa do pecado e entre aqueles que têm fome e sede de justiça. A forma particular de mansidão que Cristo exige de seus discípulos está certamente relacionada com esta seqüência. Creio que o Dr. Martin Lloyd-Jones está certo ao enfatizar que essa mansidão denota uma atitude humilde e gentil para com os outros, deter­minada por uma estimativa correta de si mesmo. Ele destaca que é comparativamente fácil ser honesto consigo mesmo diante de Deus e se reconhecer pecador diante dele. E prossegue: "Mas como é muito mais difícil permitir que as outras pessoas digam uma coisa dessas de mim! Instintivamente eu me ofendo. Todos nós preferimos nos condena"r a nós mesmos do que permitir que outra pessoa nos condene."90

Por exemplo, vamos aplicar este princípio à prática eclesiás­tica cotidiana. Sinto-me muito feliz ao recitar a confissão de pecados na igreja, chamando-me de "miserável pecador". Não há problema algum. Nem me incomodo. Mas se alguém vier a mim, depois do culto, e me chamar de miserável pecador, vou querer dar-lhe um soco no nariz! Em outras palavras, não estou preparado para permitir que outras pessoas pensem ou falem de mim aquilo que acabei de reconhecer diante de Deus. É uma grande hipocrisia, e sempre será, quando a mansidão estiver ausente. O Dr. Lloyd-Jones resume isso admiravelmente: "A mansidão é, em essência, a verdadeira visão que temos de nós mesmos, e que se expressa na atitude e na conduta para com os outros . . . O homem verdadeiramente manso é aquele que fica realmente pasmo ante o fato de Deus e os homens poderem pensar dele tão bem quanto pensam, e de que o tratem tão bem.91 Isto o torna gentil, humilde, sensível, paciente em todos os seus relaciona­mentos com os outros.

Essas pessoas "mansas", Jesus acrescentou, "herdarão a terra". Era de se esperar o contrário. Achamos que as pessoas "mansas" nada conseguem porque são ignoradas por todos, ou, então, tratadas com descortesia ou desprezo. São os valen­tões, os arrogantes, que vencem na luta pela existência; os covar­des são derrotados. Até mesmo os filhos de Israel tiveram de lutar por sua herança, embora o Senhor seu Deus lhes desse a terra prometida. Mas a condição pela qual tomamos posse de nossa herança espiritual em Cristo não é a força, mas a mansidão, pois, conforme já vimos, tudo é nosso se somos de Cristo.92

Era esta a confiança dos homens de Deus, santos e humildes, no Velho Testamento, quando os perversos pareciam triunfar. Isto jamais foi expresso com mais exatidão do que no Salmo 37, o qual parece que Jesus citou nas bem-aventuranças: "Não te indignes por causa dos malfeitores ... os mansos herdarão a terra . . . Aqueles a quem o Senhor abençoa possuirão a terra . . . Espera no Senhor, segue o seu caminho, e ele te exaltará para possuíres a terra; presenciarás isso quando os ímpios forem exter­minados."93 O mesmo princípio continua operando hoje em dia. Os ímpios podem vangloriar-se e exibir-se, mas a verdadeira possessão foge ao seu controle. Os mansos, por outro lado, em­bora sejam despojados e privados dos seus direitos pelos homens, sabem o que é viver e reinar com Cristo, e podem desfrutar e até mesmo "possuir" a terra, a qual pertence a Cristo. Então, no dia da "regeneração", haverá "um novo céu e uma nova terra" para herdar.94 Portanto, o caminho de Cristo é diferente do caminho do mundo, e cada cristão, mesmo sendo como Paulo e "nada tendo", pode dizer-se "possuindo tudo".95 Conforme Rudolf Stier: "A auto-renúncia é o caminho para o domínio do mundo."96


4. Os que têm fome e sede de justiça (v. 6)

Já no cântico de Maria, o Magnificat, os espiritualmente humil­des e famintos foram associados, e ambos declarados bem-aventurados: pois Deus "encheu de bens os famintos e despediu vazios os ricos".97 Este princípio generalizado ficou aqui particularizado. Os famintos e os sedentos que Deus satisfaz são aqueles que "têm fome e sede de justiça". Tal fome espiritual é uma característica do povo de Deus, cuja ambição suprema não é material, mas espiritual. Os cristãos não são como os pagãos, que vivem absorvidos pela busca dos bens materiais; eles se determinaram a "buscar primeiro" o reino de Deus e a sua justiça.98

A justiça na Bíblia tem pelo menos três aspectos: o legal, o moral e o social. A justiça legal é a justificação, um relacionamento certo com Deus. Os judeus "buscavam a lei da justiça", escreveu Paulo mais tarde, mas não a alcançaram porque a buscaram pelo modo errado. Procuraram "estabelecer a sua própria" justiça e "não se sujeitaram à que vem de Deus", que é o próprio Cristo.99 Alguns comentaristas acham que Jesus se refere a isso, mas é provável que não, pois Jesus está se dirigindo àqueles que já lhe pertencem.

A justiça moral é aquela justiça de caráter e de conduta que agrada a Deus. Jesus prossegue, depois das bem-aventuranças, contrastando essa justiça cristã com a do fariseu (v. 20). Esta última era uma conformidade exterior às regras; a primeira é uma justiça interior, do coração, da mente e das motivações. É desta que devemos sentir fome e sede.

É um erro, entretanto, supor que a palavra bíblica "justiça" significa apenas um relacionamento correto com Deus, de um lado, e uma justiça moral de caráter e conduta, do outro. Pois a justiça bíblica é mais do que um assunto particular e pessoal; inclui também a justiça social. E a justiça social, conforme aprendemos na lei e nos profetas, refere-se à busca pela libertação do homem da opressão, junto com a promoção dos direitos civis, da justiça nos tribunais, da integridade nos negócios e da honra no lar e nos relacionamentos familiares. Assim, os cristãos estão empenhados em sentir fome de justiça em toda a comunidade humana para agradar a um Deus justo.

Lutero expressou este conceito com o costumeiro vigor: "A ordem para você não é rastejar para um canto ou para o deserto mas, sim, sair correndo e oferecer as suas mãos e os seus pés e todo o seu corpo, e empenhar tudo o que você tem e pode fa­zer."62 É preciso ter, ele prossegue, "uma fome e sede de justiça que jamais possam ser reprimidas, ou sustadas, ou saciadas, que não procurem nada e não se importem com nada a não ser com a realização e a manutenção do que é justo, desprezando tudo o que possa impedir a sua consecução. Se você não puder tornar o mundo completamente piedoso, então faça o que você puder."100

"Talvez não exista um segredo maior no progresso da vida cristã do que um apetite sadio e robusto. As Escrituras repetem muitas vezes as promessas aos famintos. Deus "dessedentou a alma sequiosa e fartou de bens a alma faminta".101 Se estamos conscientes de um crescimento lento, não será devido a um apetite embotado? Não basta chorar o pecado cometido no passado; precisamos também ter fome de justiça futura.

Mas, nesta vida, a nossa fome nunca será totalmente satis­feita, nem a nossa sede plenamente mitigada. É verdade que recebemos a satisfação que a bem-aventurança promete. Mas a nossa fome é satisfeita apenas para tornar a se manifestar. Até mesmo a promessa de Jesus, de que todo aquele que beber da água que ele dá "nunca mais terá sede", só é cumprida se con­tinuarmos bebendo.102 Cuidado com aqueles que proclamam estar satisfeitos e que olham para as experiências do passado mais do que para o desenvolvimento do futuro! Como todas as qualidades incluídas nas bem-aventuranças, a fome e a sede são características perpétuas dos discípulos de Jesus, tão perpé­tuas como a humildade de espírito, a mansidão e as lágrimas. Só lá no céu "jamais terão fome" e "nunca mais terão sede", pois só então Cristo, nosso Pastor, nos levará às "fontes da água da vida".103

Mais do que isso, Deus prometeu um dia de juízo, em que a justiça triunfará e a injustiça será derrotada, e após o qual haverá "novos céus e nova terra, nos quais habita justiça".104 Por esta vindicação final da justiça também aspiramos e não seremos desapontados.

Voltando os olhos para trás, podemos ver que as quatro pri­meiras bem-aventuranças revelam uma progressão espiritual de inexorável lógica. Cada passo conduz ao seguinte e pressupõe o anterior. Começando, temos de ser "humildes de espírito", reconhecendo nossa completa e total falência espiritual diante de Deus. Depois, temos de "chorar" por causa disto, por causa dos nossos pecados, sim, por causa do nosso pecado: a corrupção de nossa natureza decaída, e o poder do pecado e da morte no mundo. Terceiro, temos de ser "mansos", humildes e gentis para com os outros, permitindo que nossa pobreza espiritual (confessada e chorada) condicione o nosso comportamento em relação a eles e também para com Deus. E, quarto, temos de ter "fome e sede de justiça". Pois de que vale confessar e lamentar o nosso pecado, ou reconhecer a verdade a nosso respeito diante de Deus e dos homens, se pararmos aí? A confissão do pecado deve levar à fome de justiça.

Na segunda metade das bem-aventuranças (as quatro últimas), parece que nos afastamos ainda mais de nossa atitude para com Deus e nos voltamos para os seres humanos. Certamente os "misericordiosos" demonstram misericórdia para com os homens, e os "pacificadores" procuram reconciliar os homens uns com os outros, e aqueles que são "perseguidos" são perse­guidos por homens. Do mesmo modo, parece que a sinceridade demonstrada na "pureza do coração" também diz respeito à nossa atitude e ao nosso relacionamento com os demais seres humanos.
5. Os misericordiosos (v. 7)

"Misericórdia" é compaixão pelas pessoas que passam necessi­dade. Richard Lenski proveitosamente distinguiu-a da "graça": "O substantivo eleos (misericórdia) . . . sempre trata da dor, da miséria e do desespero, que são resultados do pecado; e charis (graça) sempre lida com o pecado e com a culpa propriamente ditos. A primeira concede alívio; a segunda, perdão; a primeira cura e ajuda, a segunda purifica e reintegra."105

Aqui, Jesus não especifica as categorias de pessoas que tinha em mente e a quem os seus discípulos deveriam demonstrar misericórdia. Não indica se está pensando principalmente na­queles que foram derrotados pela desgraça, corno o viajante que ia de Jerusalém a Jericó e foi assaltado e a quem o bom samaritano "demonstrou misericórdia"; ou se pensa nos famintos, nos doentes e nos rejeitados pela sociedade, dos quais ele mesmo costumava apiedar-se; ou ainda naqueles que nos fazem mal, de modo que a Justiça clama por castigo, mas a misericórdia concede perdão. Não havia necessidade de Jesus desenvolver o assunto. Nosso Deus é um Deus misericordioso e dá provas de misericórdia continuamente; os cidadãos do seu reino também devem demonstrar misericórdia.

Naturalmente, o mundo (pelo menos quando é fiel à sua própria natureza) é cruel, como também a Igreja freqüentemente o tem sido em seu mundanismo. O mundo prefere isolar-se da dor e da calamidade dos homens. Acha que a vingança é deli­ciosa e que o perdão é sem graça quando comparado a ela. Mas os que demonstram misericórdia encontram misericórdia. "Felizes os que tratam os outros com misericórdia — Deus os tratará com misericórdia também! (BLH).106 Não que possamos merecer a misericórdia através da misericórdia, ou o perdão através do perdão, mas porque não podemos receber a misericórdia e o perdão de Deus se não nos arrependermos, e não podemos pro­clamar que nos arrependemos de nossos pecados se não formos misericordiosos para com os pecados dos outros. Nada nos impulsiona mais ao perdão do que o maravilhoso conhecimento de que nós mesmos fomos perdoados. Nada prova mais claramente que fomos perdoados do que a nossa própria prontidão em perdoar. Perdoar e ser perdoado, demonstrar misericórdia e receber misericórdia andam indissoluvelmente juntos, como Jesus ilus­trou em sua parábola do credor incompassivo.107 Ou, interpre­tando no contexto das bem-aventuranças, "o manso" também é "o misericordioso". Pois ser manso é reconhecer diante dos outros que nós somos pecadores; ser misericordioso é ter com­paixão pelos outros, pois eles também são pecadores.


6. Os limpos de coração (v. 8)

Fica imediatamente óbvio que as palavras "de coração" indicam a que espécie de pureza Jesus se refere, assim como as palavras "de espírito" indicam o tipo de humildade que ele tinha em mente. Os "humildes de espírito" são os espiritualmente pobres, que diferem daqueles cuja pobreza é apenas material. De quem, então, os "limpos de coração" estão sendo distinguidos?

A interpretação popular considera a pureza de coração como uma expressão de pureza interior, a qualidade daqueles que foram purificados da imundície moral, em oposição à imundície cerimonial. E temos bons antecedentes bíblicos acerca disso, especialmente nos Salmos. Sabe-se que ninguém podia subir ao monte do Senhor ou ficar no seu santo lugar se não fosse "limpo de mãos e puro de coração". Por isso Davi, consciente de que o seu Senhor desejava "a verdade no íntimo", orou: "Cria em mim, ó Deus, um coração puro, e renova dentro em mim um espírito inabaljavel."108 Jesus adotou este tema na sua controvérsia com os fariseus e queixou-se da obsessão deles pelo exte­rior e pela pureza cerimonial: "Vós, fariseus, limpais o exterior do copo e do prato; mas o vosso interior está cheio de rapina e perversidade." Eles eram como "sepulcros caiados, que por fora se mostram belos, mas interiormente estão cheios de hipocrisia e de iniqüidade".109

Lutero deu a esta diferença entre a pureza interior e a exterior uma interpretação caracteristicamente natural, contrastando a pureza de coração não só com a contaminação cerimonial, mas também com a simples sujeira física. "Cristo . . . quer um co­ração limpo, embora exteriormente a pessoa possa estar con­finada à cozinha encardida e cheia de fuligem, fazendo toda espécie de trabalho sujo."110 E novamente: "Embora um traba­lhador comum, um sapateiro ou um ferreiro possa estar sujo e cheio de fuligem ou mesmo cheirar mal porque está coberto de pó e piche, . . . e embora cheire mal externamente, no interior é puro incenso diante de Deus" porque, em seu coração, medita na palavra do Senhor e lhe obedece.111

Esta ênfase dada ao interior e à moral, quando comparado com o exterior e cerimonial, ou com o exterior e físico, certa­mente torna-se consistente com o todo do Sermão do Monte, que exige justiça de coração em lugar de simples justiça prove­niente de regras. Não obstante, no contexto das outras bem-aventuranças, "pureza de coração" parece referir-se, num certo sentido, aos nossos relacionamentos . O Professor Tasker define os limpos de coração como "os íntegros, livres da tirania e um 'eu' dividido".112 Neste caso, o coração limpo é o coração sincero que abre o caminho para o "olho bom" mencionado por Jesus no capítulo seguinte.113

Mais precisamente, a referência primária é à sinceridade. Já no Salmo 24, nos versículos que citamos, a pessoa "limpa de mãos e pura de coração" é aquela "que não entrega a sua alma à falsidade (sc. um ídolo), nem jura dolosamente" (v. 4). Isto é, em seu relacionamento com Deus e com o homem, está livre de falsidade. Portanto, os limpos de coração são os inteiramente sinceros. Toda a sua vida, pública e particular, é transparente diante de Deus e dos homens. O íntimo do seu coração, incluindo pensamentos e motivações, é puro, sem mistura de nada que seja desonesto, dissimulado ou desprezível. A hipocrisia e a fraude lhes são repugnantes, e não têm malícia.

Contudo, como são poucos os que, dentre nós, vivem uma vida aberta! Somos tentados a usar uma máscara diferente e a representar um papel diferente, de acordo com cada ocasião. Isto não ê realidade, mas representação, que é a essência da hipocrisia. Algumas pessoas tecem à sua volta um tal emara­nhado de mentiras que já não conseguem mais dizer qual a parte real e qual a criada pela imaginação. Só Jesus Cristo, entre os homens, foi absolutamente limpo de coração, foi inteiramente sem malícia.

Só os limpos de coração verão a Deus (vêem-no agora com os olhos da fé e, no porvir, verão a sua glória), pois só os total­mente sinceros podem suportar a deslumbrante visão, em cuja luz as trevas da mentira têm de se desvanecer, e em cujas chamas todas as simulações são consumidas.


7. Os pacificadores (v. 9)

A seqüência de idéias — de "limpos de coração" para "pacifi­cadores" — é natural, pois uma das mais freqüentes causas de conflito é a intriga, enquanto que a franqueza e a sinceridade são essenciais a todas as reconciliações verdadeiras.

Cada cristão, de acordo com esta bem-aventurança, tem de ser um pacificador, tanto na igreja como na sociedade. É verdade que Jesus diria mais tarde que não viera "trazer paz, mas espa­da", pois veio "causar divisão entre o homem e seu pai; entre a filha e sua mãe e entre a nora e sua sogra", de modo que os ini­migos do homem seriam "os da sua própria casa".114 E com isso ele queria dizer que o conflito seria o resultado inevitável da sua vinda, até mesmo dentro da família, e que, para sermos dignos dele, teríamos de amá-lo mais e colocá-lo em primeiro lugar, até mesmo acima de nossos entes mais próximos e mais que­ridos.115 Entretanto fica mais do que explícito, através dos ensi­namentos de Jesus a seus apóstolos, que jamais deveríamos nós mesmos procurar o conflito ou ser responsáveis por ele. Pelo contrário, somos chamados para pacificar, devemos ativamente "buscar" a paz, "seguir a paz com todos" e, até onde depender de nós, "ter paz com todos os homens".116

Mas a pacificação é uma obra divina, pois paz significa recon­ciliação, e Deus é o autor da paz e da reconciliação. Na verdade, exatamente o mesmo verbo que foi usado nesta bem-aventurança o apóstolo Paulo aplicou ao que Deus fez através de Cristo. Através de Cristo, Deus se agradou em "reconciliar consigo mesmo todas as cousas", "havendo feito a paz pelo sangue da sua cruz". E o propósito de Cristo foi "que dos dois (sc. judeu e gentio) criasse em si mesmo novo homem, fazendo a paz".117 Portanto, quase não nos surpreende que a bênção particularmente asso­ciada aos pacificadores é que eles "serão chamados filhos de Deus", pois estão procurando fazer o que seu Pai fez, amando as pessoas com o amor dele, como Jesus logo tornaria explícito.118 O diabo é que é agitador; Deus ama a reconciliação e, através dos seus filhos, tal como fez antes através do seu Filho unigênito, está inclinado a fazer a paz.

Isto nos faz lembrar que as palavras "paz" e "apaziguamento" não são sinônimas; e a paz de Deus não é paz a qualquer preço. Ele fez a paz conosco a um preço imenso, o preço do sangue que era a vida do seu Filho unigênito. Nós também, embora em escala menor, vamos descobrir que fazer a paz é um empreendi­mento custoso. Dietrich Bonhoeffer tornou-nos familiarizados com o conceito de "graça barata";119 existe também um tipo de "paz barata". Proclamar "paz, paz", onde não há paz, é obra do falso profeta, não da testemunha cristã. Muitos exemplos poderiam ser dados de paz através do sofrimento. Quando nós mesmos estamos envolvidos numa disputa, ou haverá a dor do pedido de desculpas à pessoa que prejudicamos, ou a dor de repreender a pessoa que nos prejudicou. Às vezes, há a dor importuna de termos de nos recusar a perdoar a parte culpada até que esta se arrependa. É claro que uma paz barata pode ser comprada por um perdão barato. Mas a verdadeira paz e o ver­dadeiro perdão são tesouros caros. Deus só nos perdoa quando nos arrependemos. Jesus nos disse para fazer o mesmo: "Se teu irmão pecar contra ti, repreende-o; se ele se arrepender, perdoa-lhe."120 Como podemos perdoar uma injúria se ela não foi admi­tida nem lastimada?

Ou, então, podemos não estar pessoalmente envolvidos numa disputa, porém lutando pela reconciliação de duas pessoas ou dois grupos que estão separados, em divergência. Neste caso, será o sofrimento de ouvir, de despir-se de preconceitos, de tentar entender com simpatia os dois pontos de vista oponentes, de arriscar-se a ser mal interpretado, de receber ingratidão, ou de até fracassar.

Outros exemplos de pacificação são o trabalho pela união e a evangelização, isto é, procurando de um lado unir igrejas e, de outro, levar pecadores a Cristo. Nos dois casos, a verdadeira reconciliação pode ser aviltada a um baixo preço. A visível união da igreja compete ao cristão buscar, mas só quando tal união não é buscada às expensas da doutrina. Jesus orou pela união do seu povo. Ele também orou que fossem guardados do mal e na verdade. Não temos nenhuma ordem de Cristo para buscarmos a união sem a pureza, pureza de doutrina e de conduta. Havendo uma coisa tal como a "união barata", também há a "evangeli­zação barata", isto ê, a proclamação do evangelho sem o custo do discipulado, a exigência da fé sem o arrependimento. São atalhos proibidos. Transformam o evangelista em um fraudu­lento. Degradam o evangelho e prejudicam a causa de Cristo.
8. Os perseguidos por causa da justiça (vs. 10-12)

Pode parecer estranho que Jesus passasse dos pacificadores para a perseguição, da obra de reconciliação à experiência de hostili­dade. Mas, por mais que nos esforcemos em fazer a paz com determinadas pessoas, elas se recusam a viver em paz conosco. Nem todas as tentativas de reconciliação têm sucesso. Na ver­dade, alguns tomam a iniciativa de opor-se a nós e, particular­mente, de nos injuriar e perseguir. Não por causa de nossas fra­quezas ou idiossincrasias, mas "por causa da justiça" (v. 10) e "por minha causa" (v. 11), isto é, porque não gostam da justiça, da qual sentimos fome e sede (v. 6), e porque rejeitaram o Cristo que procuramos seguir. A perseguição é simplesmente o conflito entre dois sistemas de valores irreconciliáveis.

Como Jesus esperava que os seus discípulos reagissem diante da perseguição? O versículo 12 diz: Regozijai-vos e exultai! Não devemos nos vingar como o incrédulo, nem ficar de mau humor como uma criança, nem lamber nossas feridas em autopiedade como um cão, nem simplesmente sorrir e suportar tudo como um estóico, e muito menos fazer de conta que gostamos disso como um masoquista. Então, como agir? Devemos nos regozijar como um cristão, e até mesmo "pular de alegria"121 Por quê? Em parte porque, Jesus acrescentou, é grande o vosso galardão nos céus (y. 12a). Podemos perder tudo aqui na terra, mas her­daremos tudo nos céus, não como uma recompensa meritória, mas porque "a promessa da recompensa é gratuita".122 E, por outro lado, porque a perseguição é um sinal de genuinidade, um certificado da autenticidade cristã, pois assim perseguiram aos profetas que viveram antes de vós (v. 12b). Se somos perse­guidos hoje, pertencemos a uma nobre sucessão. Mas o motivo principal pelo qual deveríamos nos regozijar é porque estamos sofrendo, disse ele, por minha causa (v.) 11), por causa de nossa lealdade para com ele e para com os seus padrões de verdade e de justiça. Certamente os apóstolos aprenderam esta lição muito bem, pois, tendo sido açoitados pelo Sinédrio, "eles se retira­ram . . . regozijando-se por terem sido considerados dignos de sofrer afrontas por esse Nome".123 Eles sabiam, assim como nós devemos saber, que "ferimentos e contusões são medalhas de honra"124

É importante notar que esta referência à perseguição é uma bem-aventurança como as demais. Na verdade, tem o privilégio de ser uma bem-aventurança dupla, pois Jesus primeiro decla­rou-a na terceira pessoa como as outras sete (Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, v. 10) e, então, repetiu-a na oração direta da segunda pessoa (Bem-aventurados sois quando . . . vos injuriarem e vos perseguirem . . ., v. 11). Con­siderando que todas as bem-aventuranças descrevem o que cada discípulo cristão deve ser, concluímos que a condição de ser desprezado e rejeitado, injuriado e perseguido, é um sinal do discipulado cristão, da mesma forma que um coração puro ou misericordioso. Cada cristão deve ser um pacificador, e cada cristão deve esperar oposição. Aqueles que têm fome de justiça sofrerão por causa da justiça que anseiam. Jesus disse que seria assim em qualquer lugar. Também o disseram seus apóstolos Pedro e Paulo.125 Tem sido assim em todas as épocas. Não deve­remos nos surpreender se a hostilidade anticristã aumentar, mas, antes, se ela não existir. Precisamos nos lembrar do infor­túnio complementar registrado por Lucas: "Ai de vós, quando vos louvarem!"126 A popularidade universal está para os falsos profetas, assim como a perseguição para os verdadeiros. Poucos homens deste século têm entendido melhor a inevitabilidade do sofrimento do que Dietrich Bonhoeffer. Ele parece nunca ter vacilado em seu antagonismo cristão contra o regime nazista, embora isto significasse prisão, ameaça de tortura,

perigo para a sua própria família e, finalmente, morte. Ele foi executado por ordem direta de Heinrich Himmler, em abril de 1945, no campo de concentração de Flossenburg, a apenas poucos dias antes da libertação. Era o cumprimento do que ele sempre crera e ensinara: O sofrimento é, pois, a característica dos seguidores de Cristo. O discípulo não está acima do seu mestre. O discipulado é "passio passiva", é sofrimento obrigató­rio. Por isso também o Dr. M. Lutero incluiu o sofrimento no rol dos sinais da verdadeira Igreja. Um anteprojeto da Confissão de Augsburg definiu a Igreja como comunidade dos que são 'per­seguidos e martirizados por causa do Evangelho' ... O discipu­lado é união com Cristo sofredor. Por isso nada há de estranho no sofrimento do cristão, antes é graça, ê alegria."127 As bem-aventuranças pintam um retrato compreensivo do discípulo cristão. Primeiro, vemo-lo de joelhos diante de Deus, reconhecendo sua pobreza espiritual e chorando por causa dela. Isto o torna manso ou gentil em todos os seus relacionamentos, considerando que a honestidade o compele a permitir que os outros pensem dele aquilo que, diante de Deus, já confessou. Mas longe dele aquiescer em seu pecado, pois ele tem fome e sede de justiça; anseia crescer na graça e na bondade.

Vemo-lo, depois, junto aos outros, lá fora, na comunidade humana. Seu relacionamento com Deus não o faz fugir da socie­dade nem o isola do sofrimento do mundo. Pelo contrário, per­manece no meio deste, demonstrando misericórdia àqueles que foram golpeados pela adversidade e pelo pecado. Ele é transpa­rentemente sincero em todos os seus relacionamentos e procura desempenhar um papel tão construtivo como pacificador. Mas ninguém lhe agradece pelos esforços; antes, é hostilizado, inju­riado, insultado e perseguido por causa da justiça que defende e por causa do Cristo com o qual se identifica.

Tal é o homem ou a mulher que é "bem-aventurado", isto é, que tem a aprovação de Deus e alcança realização própria como ser humano.

Mas, nisso tudo, os valores e padrões de Jesus estão em con­flito direto com os valores e padrões comumente aceitos pelo mundo. O mundo considera bem-aventurados os ricos, não os pobres, tanto na esfera material como na espiritual; os des­preocupados e folgazões, não aqueles que consideram o mal com tanta seriedade que choram por causa dele; os fortes e impe­tuosos, não os mansos e gentis; os saciados, não os famintos; aqueles que cuidam de sua própria vida, não aqueles que se envolvem nos assuntos dos outros e se ocupam em fazer o bem, "demonstrando misericórdia" e "fazendo a paz"; aqueles que alcançam seus propósitos, mesmo apelando para meios escusos, e não os limpos de coração, que se recusam a comprometer sua integridade; aqueles que são confiantes e populares e que vivem sossegados, não aqueles que têm de sofrer perseguição.

Provavelmente ninguém odiou mais a "suavidade" do Sermão do Monte do que Friedrich Nietzsche. Embora sendo filho e neto de pastores luteranos, rejeitou o Cristianismo quando estu­dante. O seu livro, The Anti-Christ (O Anticristo, um título que ele ousou aplicar a si mesmo em seu esboço autobiográfico Ecce homo),128 é a sua mais violenta polêmica, escrita em 1888, um ano antes de ficar louco. Nele, define como sendo "bom" "tudo o que eleva o sentimento de poder, a força de vontade, o poder propriamente dito no homem", considerando "mau" "tudo o que procede da fraqueza".129 Conseqüentemente, em resposta à sua própria pergunta, "O que é mais prejudicial do que qual­quer vício?", ele responde: "Simpatia ativa pelo que é mal cons­tituído e fraco: o Cristianismo."130 Ele considera o Cristianismo como uma religião de piedade e não uma religião de poder; por isso, "nada em nossa modernidade doentia é mais doentio do que a piedade cristã".131 Ele despreza "o conceito cristão de Deus, Deus como espírito", um conceito do qual "tudo o que é forte, cora­joso, dominador, orgulhoso", foi eliminado.132 "Em todo o Novo Testamento, só encontramos uma única figura solitária que é preciso respeitar", ele afirma, e esta é Pôncio Pilatos, o gover­nador romano.133 Jesus, por outro lado, é desprezado como sendo o "Deus sobre a cruz", e o Cristianismo como "a maior das desgraças da humanidade".134 A razão de sua malevolência está clara. O ideal que Jesus elogiou é a criancinha. Ele não deu apoio algum ao elogio do "super-homem" de Nietzsche. Por isso, este repudiou todo o sistema de valores de Jesus. "Eu condeno o Cris­tianismo", escreveu. "A igreja cristã não deixou nada intacto com sua depravação; transformou cada valor em um desvalor."135 Ele, pelo contrário (nas últimas palavras do seu livro), convocou a uma "reavaliação de todos os valores".136

Mas Jesus não transigirá nos seus padrões para acomodar-se a Nietzsche, ou aos seus seguidores, ou a qualquer um de nós que possa, inconscientemente, ter assimilado traços ou partes da filosofia do poder de Nietzsche. Nas bem-aventuranças, Jesus apresenta um desafio fundamental ao mundo não-cristão e ao seu ponto de vista, e exige que seus discípulos adotem o seu sis­tema de valores, totalmente diferente. Como Thielicke disse, "qualquer pessoa que entre em comunhão com Jesus tem de passar por uma reavaliação de valores".137

Foi isto que Bonhoeffer (que, aliás, foi criado na mesma tra­dição luterana de Nietzsche) chamou de os "extraordinários" da vida cristã. "A cada nova bem-aventurança aprofunda-se o abismo entre os discípulos e o povo. A separação do discipulado torna-se cada vez mais evidente." Isso é particularmente óbvio na bênção dos que choram. Jesus está falando dos que "não sintonizam com o mundo, os que não podem equiparar-se ao mundo. Choram sobre o mundo, sua culpa, seu destino e sua sorte. Enquanto o mundo festeja, ficam à parte; enquanto o mundo chama: 'Gozai a vida!', os discípulos choram. Sabem que o navio festivamente engalanado já faz água. O mundo sonha com o progresso, com o poder, com o futuro — os discí­pulos sabem do fim, do juízo e da vinda do reino dos céus para o qual o mundo não está apto. Por esta razão são os discípulos estranhos ao mundo, hóspedes indesejáveis, perturbadores que são rejeitados."138

Tal inversão dos valores humanos é básica na religião bíblica. Os métodos do Deus das Escrituras parecem uma confusão para os homens, pois exaltam o humilde e humilham o orgulhoso; chamam de primeiros, os últimos, e de últimos, os primeiros; atribuem grandeza ao servo, despedem o rico de mãos vazias e declaram que os mansos serão seus herdeiros. A cultura do mundo e a contracultura de Cristo estão em total desarmonia uma com a outra. Resumindo, Jesus parabeniza aqueles que o mundo mais despreza, e chama de "bem-aventurados" aqueles que o mundo rejeita.




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