Contracultura Cristã



Baixar 1,23 Mb.
Página3/18
Encontro11.09.2017
Tamanho1,23 Mb.
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   18

Mateus 5:1, 2
Introdução: Que sermão é este?


O Sermão do Monte é provavelmente a parte mais conhecida dos ensinamentos de Jesus, embora se possa argumentar que seja a menos compreendida e, certamente, a menos obedecida. De tudo o que ele disse, essas suas palavras são as que mais se apro­ximam de um manifesto, pois descrevem o que ele desejava que os seus seguidores fossem e fizessem. Penso que nenhuma outra expressão resume melhor a intenção de Jesus, ou indica mais cla­ramente o seu desafio para o mundo moderno, do que a expressão "contracultura cristã". Vou lhes dizer por quê.

Os anos que se seguiram ao fim da segunda guerra mundial, em 1945, foram marcados por um idealismo inocente. O horrível pesadelo terminara. "Reconstrução" era o alvo universal. Seis anos de destruição e devastação eram coisas do passado; a tarefa agora era construir um novo mundo de cooperação e paz. Mas a irmã gêmea do idealismo é a desilusão, desilusão com aqueles que não participam do ideal, ou (pior) com os que se lhe opõem, ou (pior ainda) com os que o traem. E a desilusão com o que é continua alimentando o idealismo do que poderia ser.

Parece que atravessamos décadas de desilusão. Cada geração que se levanta odeia o mundo que herdou. Às vezes, a reação tem sido ingênua, embora não possamos dizer que tenha sido hipócrita. Os horrores do Vietnã não terminaram com aqueles que distribuíam flores e rabiscavam o seu lema "Faça amor, não faça guerra", embora o seu protesto não tenha passado despercebido. Hoje em dia, há pessoas que repudiam a opulência ávida do ocidente, que parece ficar cada vez mais gordo, através do esbulho do meio-ambiente natural, ou através da exploração de nações em desenvolvimento, ou através de ambas as coisas ao mesmo tempo; essas pessoas exprimem a totalidade da sua rejeição vivendo com simplicidade, vestindo-se negli­gentemente, andando descalças e evitando o desperdício. Em lugar do simulacro da socialização burguesa, estão famintas de relacionamentos de amor autênticos. Desprezam a superficialidade, tanto do materialismo descrente como do conformismo religioso, pois sentem que há uma "realidade" impressionante muito maior do que essas trivialidades, e buscam essa dimensão "transcendental" ilusória através da meditação, de drogas ou do sexo. Abominam até o próprio conceito do corre-corre da sociedade de consumo e acham que é mais honesto "cair fora" do que participar. Tudo isso é sintoma da incapacidade da gera­ção mais jovem de adaptar-se ao status quo ou de aclimatar-se à cultura prevalecente. Não se sentem à vontade. Estão alie­nados.

E em sua busca de uma alternativa, "contracultura" é a pala­vra que usam. Ela expressa um amplo raio de ação de idéias ou ideais, experiências e alvos. Encontramos uma boa docu­mentação a esse respeito em The Making of a Counter-culture (A Criação de uma Contracultura, 1969) de Theodore Roszak; em The Dust of Death (A Poeira da Morte, 1973) de Os Guinness, e em Youthquake (Terremoto Jovem, 1973) de Kenneth Leech.

De um certo modo, os cristãos consideram esta busca de uma cultura alternativa um dos mais promissores, e até mesmo exci­tantes, sinais dos tempos. Pois reconhecemos nisso a atividade do Espírito, o qual, antes de confortar, perturba; e sabemos a quem a busca deles conduzirá, se quiserem encontrar a resposta. Na verdade, é significativo que Theodore Roszak, encontrando dificuldade para expressar a realidade que a juventude contem­porânea procura, alienada como está pela insistência dos cien­tistas quanto à "objetividade", sente-se obrigado a recorrer às palavras de Jesus: "Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?"2

Mas, ao lado da esperança que esta disposição de protesto e busca inspira aos cristãos, há também (ou deveria haver) um sentimento de vergonha. Pois, se a juventude de hoje está à procura das coisas certas (significado, paz, amor, realidade), ela as tem procurado nos lugares errados. O primeiro lugar onde deveriam procurar é um lugar que normalmente ignoram, isto é, a Igreja. Pois, com demasiada freqüência, o que vêem nas igrejas não é a contracultura, mas o conformismo; não uma nova sociedade que concretiza seus ideais, mas uma versão da velha sociedade a que renunciaram; não a vida, mas a morte. Prontamente endossariam o que Jesus disse de uma igreja do primeiro século: "Tens nome de que vives, e estás morto".3

Urge que não somente vejamos, mas também sintamos, a grandeza dessa tragédia, pois, na medida em que uma igreja se conforme com o mundo, e as duas comunidades pareçam ser meramente duas versões da mesma coisa, essa igreja está contra­dizendo a sua verdadeira identidade. Nenhum comentário po­deria ser mais prejudicial para o cristão do que as palavras: "Mas você não é diferente das outras pessoas!"

O tema essencial de toda a Bíblia, desde o começo até o fim, é que o propósito histórico de Deus é chamar um povo para si mesmo; que este povo é um povo "santo", separado do mundo para lhe pertencer e obedecer; e que a sua vocação é permanecer fiel à sua identidade, isto ê, ser "santo" ou "diferente" em todo o seu pensamento e em todo o seu comportamento.

Foi assim que Deus falou ao povo de Israel logo depois que o tirou da escravidão egípcia e fez dele o seu povo especial através da aliança: "Eu sou o Senhor vosso Deus. Não fareis segundo as obras da terra do Egito, em que habitastes, nem fareis se­gundo as obras da terra de Canaã, para a qual eu vos levo, nem andareis nos seus estatutos. Fareis segundo os meus juízos, e os meus estatutos guardareis, para andardes neles: Eu sou o Senhor vosso Deus."4 Este apelo que Deus fez a seu povo, é preciso notar, tanto começou como terminou com a declaração de que ele era o Senhor seu Deus. Pelo fato de ser o seu Deus, com quem eles firmaram um pacto, e porque eles constituíam o seu povo especial, tinham de ser diferentes de quaisquer outras pessoas. Tinham de seguir os mandamentos de Deus e não os padrões daqueles que os cercavam.

Através dos séculos seguintes, o povo de Israel continuou se esquecendo da sua singularidade como povo de Deus. Embora nas palavras de Balaão fosse "povo que habita só, e (que) não será reputado entre as nações", na prática, entretanto, eles con­tinuaram assimilando-se aos povos que os rodeavam: "Antes se mesclaram com as nações, e lhes aprenderam as obras".5 Por isso exigiram que um rei os governasse "como todas as nações", e quando Samuel os advertiu com base no fato de ser Deus o rei deles, foram obstinados em sua insistência: "Não, mas tere­mos um rei sobre nós. Para que sejamos também como todas as nações."6 Pior ainda do que o estabelecimento da monarquia foi a sua idolatria. "Seremos como as nações", diziam para si mesmos, ". . . servindo ao pau e à pedra."7 Por isso Deus con­tinuou lhes enviando os seus profetas para que lembrassem quem eram e para insistir com eles a seguirem o caminho de Deus. "Não aprendais o caminho dos gentios", falou-lhes através de Jeremias e Ezequiel, "não vos contamineis com os ídolos do Egito; eu sou o Senhor vosso Deus."8 Mas o povo de Deus não queria ouvir-lhe a voz, e o motivo específico apresentado, pelo qual o juízo de Deus caiu primeiro sobre Israel e, depois, cerca de 150 anos mais tarde, sobre Judá, foi o mesmo: "Os filhos de Israel pecaram contra o Senhor seu Deus . . . andaram nos esta­tutos das nações . . . Também Judá não guardou os manda­mentos do Senhor seu Deus; antes, andaram nos costumes que Israel introduziu."9

Tudo isso constitui um cenário essencial para se compreender o Sermão do Monte. O Sermão encontra-se no Evangelho de Mateus, logo no começo do ministério público de Jesus. Ime­diatamente após o seu batismo e tentação, Cristo começou a anunciar as boas novas de que o reino de Deus, há muito prome­tido no período do Velho Testamento, estava agora às portas. Ele mesmo viera para inaugurá-lo. Com ele nascia a nova era e o reinado de Deus irrompia na História. "Arrependei-vos", clamava, "porque está próximo o reino dos céus."10 Na verdade, "percorria Jesus toda a Galiléia, ensinando nas sinagogas, pregando o evangelho do reino" (v. 23). O Sermão do Monte, então, deve ser visto neste contexto. Descreve o arrependimento (metanóia, a total transformação da mente) e a retidão, que fazem parte do reino; isto é, descreve como ficam a vida e a comuni­dade humana quando se colocam sob o governo da graça de Deus.

E como é que ficam? Tornam-se diferentes! Jesus enfatizou que os seus verdadeiros discípulos, os cidadãos do reino de Deus, tinham de ser inteiramente diferentes. Não deveriam tomar como padrão de conduta as pessoas que os cercavam, mas sim Deus, e assim provar serem filhos genuínos do seu Pai celestial. Para mim, o texto-chave do Sermão do Monte é 6:8: "Não vos asse­melheis, pois, a eles." Imediatamente nos faz lembrar a palavra de Deus a Israel, na antigüidade: "Não fareis como eles."11 É o mesmo convite para serem diferentes. E este tema foi desenvol­vido através de todo o Sermão do Monte. O caráter deles teria de ser completamente diferente daquele que era admirado pelo mundo (as bem-aventuranças). Deveriam brilhar como luzes nas trevas reinantes. A justiça deles teria de exceder à dos escribas e fariseus, tanto no comportamento ético quanto na devoção religiosa, enquanto que o seu amor deveria ser maior, e a sua ambição mais nobre do que a dos pagãos vizinhos.

Não há um parágrafo no Sermão do Monte em que não se trace este contraste entre o padrão cristão e o não-cristão. É o tema subjacente e unificador do Sermão; tudo o mais é uma variação dele. Às vezes, Jesus contrasta os seus discípulos com os gentios ou com as nações pagãs. Assim, os pagãos amam-se e saúdam-se uns aos outros, mas os cristãos têm de amar os seus inimigos (5:44-47); os pagãos oram segundo um modelo, com "vãs repetições", mas os cristãos devem orar com a humilde reflexão de filhos do seu Pai no céu (6:7-13); os pagãos estão preocupados com as suas próprias necessidades materiais, mas os cristãos devem buscar primeiro o reino e a justiça de Deus (6:23, 33).

Em outros pontos, Jesus contrasta os seus discípulos, não com os gentios, mas com os judeus, ou seja, não com pessoas pagãs mas com pessoas religiosas; especificamente, com os "escribas e fariseus". O Professor Jeremias, sem dúvida, está certo ao dizer que são "dois grupos de pessoas totalmente diferentes", pois "os escribas são os mestres de teologia que tiveram alguns anos de estudo; os fariseus, por outro lado, não são teólogos, mas sim grupos de leigos piedosos de todas as camadas da socie­dade".12 Certamente Jesus opõe a moral cristã à casuística ética dos escribas (5:21-48) e a devoção cristã à piedade hipócrita dos fariseus (6:1-18).

Assim, os discípulos de Jesus têm de ser diferentes: tanto da igreja nominal, como do mundo secular; tanto dos religiosos, como dos irreligiosos. O Sermão do Monte é o esboço mais com­pleto, em todo o Novo Testamento, da contracultura cristã. Eis aí um sistema de valores cristãos, um padrão ético, uma devoção religiosa, uma atitude para com o dinheiro, uma ambição, um estilo de vida e uma teia de relacionamentos: tudo completa­mente diferente do mundo que não é cristão. E esta contra­cultura cristã é a vida do reino de Deus, uma vida humana real­mente plena, mas vivida sob o governo divino.

Chegamos à introdução editorial dada por Mateus ao Sermão, a qual é breve mas impressionante: indica a importância que ele lhe atribuía.

Vendo Jesus as multidões, subiu ao monte, e como se assentasse, aproximaram-se os seus discípulos, e ele passou a ensiná-los, dizendo. .. (5:1, 2)

Não há dúvida de que o propósito principal de Jesus ao subir uma colina ou montanha para ensinar era fugir das "numerosas multidões" da Galiléia, Decápolis, Jerusalém, Judéia e dalém do Jordão13, que o seguiam. Ele passara os primeiros meses do seu ministério público vagando por toda a Galiléia, "ensinando nas sinagogas, pregando o evangelho do reino e curando toda sorte de doenças e enfermidades entre o povo". Como resultado, "sua fama correu por toda a Síria", e o povo vinha em grandes multidões, trazendo os seus doentes para serem curados.14 Por isso Jesus precisava fugir, não só para ter uma oportunidade de ficar sozinho e orar, mas também para dar uma instrução mais concentrada aos seus discípulos.

Além disso, parece (conforme muitos comentaristas antigos e modernos têm sugerido) que ele deliberadamente subiu ao monte para ensinar, a fim de traçar um paralelo entre Moisés (que recebeu a lei no Monte Sinai) e ele próprio (que então expli­cou aos seus discípulos as conseqüências dessa lei, no chamado "Monte das Bem-aventuranças", o local tradicional do Sermão, junto às praias ao norte do Lago da Galiléia). Pois, embora Jesus fosse maior do que Moisés, e embora a sua mensagem fosse mais evangelho do que lei, ele também escolheu doze apóstolos para formar o núcleo de um novo Israel, em correspondência aos doze patriarcas e tribos da antigüidade. Ele também proclamou ser Mestre e Senhor, deu a sua própria interpretação autorizada da lei de Moisés, enunciou mandamentos e esperou obediência. Até mesmo convidou, mais tarde, os seus discípulos a tomarem o seu "jugo", ou submeterem-se aos seus ensinamentos, assim como anteriormente carregaram o jugo do Torá.15

Alguns mestres desenvolveram esquemas muito elaborados para demonstrar este paralelo. B. W. Bacon, em 1918, por exemplo, argumentou que Mateus deliberadamente estruturou o seu Evangelho em cinco partes, cada uma terminando com a fórmula "quando Jesus acabou . . ." (7:28; 11:1; 13:53; 19:1; 26:1), a fim de que os "cinco livros de Mateus" correspondessem aos "cinco livros de Moisés" e fossem uma espécie de Pentateuco do Novo Testamento.16

Um paralelismo diferente foi sugerido por Austin Farrer, a saber, que Mateus 5-7 teve por modelo Êxodo 20-24, as oito bem-aventuranças correspondendo aos dez mandamentos, com o restante do Sermão dissertando sobre as mesmas e aplicando-as, assim como os mandamentos também foram dissertados e explicados.17

Estas tentativas engenhosas de descobrir paralelos são com­preensíveis porque em muitas passagens do Novo Testamento a obra salvadora de Jesus está descrita como um novo êxodo,18 e a vida cristã como uma alegre celebração disso: "Pois também Cristo, nosso Cordeiro pascal, foi imolado. Por isso celebremos a festa."19 Embora Mateus não compare explicitamente Jesus a Moisés, e não possamos reivindicar mais do que isso no Sermão, "a essência da Nova Lei, o Novo Sinai, o Novo Moisés estão presentes".20

Em todos os eventos, Jesus assentou-se, assumindo a posição de um rabi ou legislador, e seus discípulos aproximaram-se dele, para aprender dos seus ensinamentos. Então ele passou (uma expressão que indica a solenidade do seu pronunciamento) a ensiná-los.

Três perguntas básicas formam-se imediatamente na mente do leitor moderno, ao estudar o Sermão do Monte. Tal pessoa não se sentirá receptiva para com os ensinamentos desse sermão se não receber respostas satisfatórias às seguintes perguntas: Primeiro, o Sermão do Monte é um autêntico pronunciamento de Jesus? Foi realmente pregado por ele? Segundo, o seu con­teúdo é relevante para o mundo contemporâneo, ou é totalmente fora de moda? Terceiro, os seus padrões são atingíveis, ou devemos esquecê-los por serem em larga escala um ideal im­praticável?


1. O Sermão é autêntico?

O Sermão do Monte aparece só no primeiro Evangelho (Mateus). No terceiro Evangelho (Lucas) há um sermão semelhante, às vezes chamado de "o Sermão da Planície".21 Lucas diz que foi pregado "numa planura" à qual Jesus "desceu" depois de retirar-se "para o monte" a fim de orar.22 Mas a aparente dife­rença de localização não deve nos deter, pois a "planura" pode muito bem ter sido um platô sobre os montes e não uma planície ou um vale.

Uma comparação do conteúdo dos dois sermões revela imedia­tamente que não são idênticos. O de Lucas é consideravelmente mais curto, consistindo de apenas 30 versículos, em contraste com os 107 de Mateus, e cada um inclui matérias que estão ausentes no outro. Não obstante, há também óbvias semelhanças entre eles. Os dois sermões começam com "bem-aventuranças", terminam com a parábola dos dois construtores, e no meio con­têm a regra áurea, a ordem para amar os nossos inimigos e ofe­recer a outra face, a proibição de julgar as pessoas, e as vivas ilustrações da trave no olho e da árvore com os seus frutos. Esta matéria comum aos dois sermões, com um começo e um final em comum, sugere que os dois são versões do mesmo sermão. Qual é, entretanto, a relação entre eles? Como explicar a combi­nação de semelhanças e variações?

Muitos têm negado que o Sermão do Monte tenha sido um "sermão" (qualquer que seja o sentido desta palavra) pregado por Jesus numa ocasião específica. É um aspecto bem conhecido da prática editorial do primeiro evangelista a reunião, no texto de um capítulo, de ensinamentos de Jesus que são relacionados entre si. O melhor exemplo disto é a sua série de sete parábolas de Jesus.23 Há quem tenha argumentado, assim, que Mateus 5 a 7 representa uma coleção de pronunciamentos de Jesus, habil­mente ligados em forma de sermão pelo evangelista, ou por uma comunidade cristã primitiva, da qual ele o teria recebido. Até Calvino acreditava nisso: "O plano desses dois evangelistas era o de reunir num só lugar os pontos principais da doutrina de Cristo que se relacionam com uma vida devota e santa."24 Como resultado, o Sermão é "um pequeno resumo . . . extraído de seus muitos e variados discursos".25

Alguns comentaristas modernos foram mais francos. Bastará citar um exemplo. W. D. Davies chama o Sermão de "simples­mente uma coleção de pronunciamentos não relacionados entre si, de diversas origens, uma colcha de retalhos"; e, depois de fazer uma crítica da fonte, da forma e da liturgia neste texto, ele conclui: "Assim, o impacto da recente crítica em todas as suas formas é lançar dúvidas sobre a conveniência de procurar enten­der este trecho . . . como um todo inter-relacionado que se ori­gina dos ensinamentos genuínos de Jesus."26 Mais tarde, ele admite que a maré se virou para a chamada "crítica de redação", o que pelo menos concede aos próprios evangelistas o mérito de verdadeiros autores, que deram forma à tradição que preser­varam. Não obstante, continua cético sobre quanto dos ensinamentos originais de Jesus está contido no Sermão do Monte.

A reação a esta espécie de crítica literária depende das pres­suposições teológicas fundamentais que se tenha sobre o pró­prio Deus, sobre a natureza e o propósito da revelação de Deus em Cristo, sobre a obra do Espírito Santo e sobre o senso de verdade do evangelista. Pessoalmente, acho difícil aceitar qual­quer ponto de vista sobre o Sermão que atribua o seu conteúdo à igreja primitiva e não a Jesus, ou que até mesmo o considere como uma amálgama de seus pronunciamentos em diversas ocasiões. A razão principal é que tanto Mateus como Lucas apresentam essa matéria como um sermão de Cristo, e parecem pretender que seus leitores o entendam assim. Ambos lhe dão um contexto histórico e geográfico preciso, atribuindo-o ao começo do ministério de Jesus na Galiléia e declarando que ele o transmitiu "no monte" e "numa planura" sobre os montes. Mateus registra a reação de perplexidade das multidões, quando Jesus terminou de proferi-lo, destacando que foi por causa da autoridade com que ele falava.27 E ambos dizem que, quando terminou, "entrou em Cafarnaum".28

Isto não significa, entretanto, que os dois evangelistas nos tenham transmitido todo o sermão ipsissima verba. Está claro que não o fizeram, pois, em ambos os casos, Jesus falou em aramaico, e os dois Evangelhos têm uma versão grega. Além disso, conforme já vimos, suas versões diferem uma da outra. Há di­versos outros modos possíveis de explicá-lo. Assim também ambos apresentaram a sua seleção e tradução individual, de uma fonte comum ou de fontes independentes. Ou Lucas apresenta um resumo menor, omitindo grande parte, enquanto que Mateus registra mais, senão a maior parte dele; ou Mateus elabora um sermão originalmente mais curto, aumentando-o com o acrés­cimo de outros contextos autênticos e pronunciamentos apro­priados de Jesus. Podemos ainda afirmar que o Espírito Santo orientou a seleção e o arranjo.

Quanto a mim, prefiro a sugestão que o Professor A. B. Bruce fez em seu comentário de 1897. Ele acreditava que o material contido em Mateus 5 a 7 representa a instrução "não de uma simples hora ou dia, mas de um período de retiro".29 Conjecturava que Jesus poderia ter reunido consigo os discípulos no monte para uma espécie de "Acampamento de Verão". Por isso não chamava aqueles capítulos de "Sermão do Monte" (expres­são usada pela primeira vez por Agostinho), mas de "Ensina­mentos do Monte".30 Mais ainda, o Sermão, conforme regis­trado em Mateus, teria a duração de apenas cerca de dez minu­tos, por isso é possível que os evangelistas nos tenham dado apenas versões condensadas.


2. O Sermão é relevante?

Se o Sermão é ou não relevante para a vida moderna, só se pode julgar através de um detalhado exame do seu conteúdo. O que salta à vista é que, não importando como ele foi composto, forma um todo maravilhosamente coerente. Descreve o comportamento que Jesus esperava de cada um dos seus discípulos, que são também cidadãos do reino de Deus. Vemos como Jesus é em si mesmo, em seu coração, em suas motivações, em seus pensa­mentos, e também quando afastado, sozinho com o seu Pai. Vemo-lo na arena da vida pública, relacionando-se com o pró­ximo, exercendo misericórdia, patrocinando a paz, sendo perse­guido, agindo como sal, deixando a sua luz brilhar, amando e servindo aos outros (até mesmo aos seus inimigos), e dedicando-se acima de tudo à expansão do reino de Deus e da sua justiça no mundo.

Talvez uma rápida análise do Sermão ajude a demonstrar a sua relevância para nós, no século vinte.
a. O caráter do cristão (5:3-12)

As bem-aventuranças enfatizam oito sinais principais da conduta e do caráter cristãos, especialmente em relação a Deus e aos homens, e as bênçãos divinas que repousam sobre aqueles que externam estes sinais.


b. A influência do cristão (5:13-16)

As duas metáforas do sal e da luz indicam a influência que os cristãos devem exercer para o bem na comunidade se (e tão somente se) mantiverem o seu caráter distinto, conforme descrito nas bem-aventuranças.


c. A justiça do cristão (5:17-48)

Qual deve ser a atitude do cristão para com a lei moral de Deus? Ficaria a lei propriamente dita abolida na vida cristã, como estranhamente afirmam os advogados da filosofia da "nova moralidade" e da escola dos "não-mais-sob-a-lei"? Não. Jesus não tinha vindo para abolir a lei e os profetas, disse ele, mas para cumpri-los. E mais, ele chegou a declarar que a grandeza no reino de Deus se media pela conformidade com os ensinamentos morais da lei e dos profetas, e que até mesmo entrar no reino era impossível sem uma justiça maior do que a dos escribas e fariseus (5:17-20). Jesus deu, então, seis ilustrações desta justiça cristã melhor (5:21-48), relacionando-a com o homicídio, com o adul­tério, com o divórcio, com o juramento, com a vingança e com o amor. Em cada antítese ("Ouvistes que foi dito ... eu, porém, vos digo . . ."), rejeitou a acomodada tradição dos escribas, reafirmou a autoridade das Escrituras do Velho Testamento e apresentou as decorrências plenas e exatas da lei moral de Deus.


d. A piedade do cristão (6:1-18)

Em sua "piedade" ou devoção religiosa, os cristãos não devem se acomodar nem com o tipo hipócrita dos fariseus, nem com o formalismo mecânico dos pagãos. A piedade cristã deve destacar-se acima de tudo pela realidade, pela sinceridade dos filhos de Deus que vivem na presença de seu Pai celestial.


e. A ambição do cristão (6:19-34)

O "mundanismo" do qual os cristãos devem fugir pode ter apa­rência religiosa ou secular. Por isso, devemos ser diferentes dos não-cristãos, não apenas em nossas devoções, mas também em nossas ambições. Cristo modifica especialmente a nossa atitude para com a riqueza e os bens materiais. É impossível adorar a Deus e ao dinheiro; temos de escolher um dos dois. As pessoas do mundo estão preocupadas com a busca do alimento, da bebida e do vestuário. Os cristãos devem ficar livres destas ansie­dades materiais ego-centralizadas e, em lugar disso, devem dedicar-se à expansão do governo e da justiça de Deus. É o mes­mo que dizer que a nossa ambição suprema deve ser a glória de Deus e não a nossa própria glória, nem mesmo o nosso próprio bem-estar material. É uma questão do que buscamos "em pri­meiro lugar".


f. Os relacionamentos do cristão (7:1-20) Os cristãos estão presos em uma complexa teia de relaciona­mentos, todos eles partindo do nosso relacionamento com Cristo. Quando nos relacionamos devidamente com ele, os nossos de­mais relacionamentos são todos afetados. Novos relacionamentos surgem, e os antigos se modificam. Assim, não devemos julgar o nosso irmão, mas servi-lo (vs. 1-5). Devemos também evitar oferecer o evangelho àqueles que decididamente o rejeitam (v. 6); devemos continuar orando ao nosso Pai celestial (vs. 7-12) e tomar cuidado com os falsos profetas, que impedem que muita gente encontre a porta estreita e o caminho difícil (vs. 13-20).
g. Uma dedicação cristã (7:21-27)

O último item apresentado pelo todo do Sermão relaciona-se com a autoridade do pregador. Não basta chamá-lo de "Senhor" (vs. 21-23) ou ouvir os seus ensinamentos (vs. 24-27). A questão básica é se nós somos sinceros no que dizemos e se fazemos o que ouvimos. Deste compromisso depende o nosso destino eter­no. Só quem obedece a Cristo como Senhor é sábio. Pois quem assim procede está edificando a sua casa sobre o alicerce da rocha, que as tempestades da adversidade e do juízo não serão capazes de solapar.

As multidões ficaram perplexas com a autoridade com que Jesus ensinava (vs. 28, 29). É uma autoridade à qual os discí­pulos de Jesus de cada geração devem submeter-se. A questão do senhorio de Cristo é relevante hoje em dia, tanto com refe­rência a princípios como à aplicação prática, da mesma maneira que o era quando originalmente ele pregou o Sermão do Monte.
3. O Sermão é prático?

A terceira questão é pragmática. Uma coisa é convencer-se da relevância do Sermão em teoria; mas outra totalmente diferente é ter a certeza de que funcionará na prática. Seus padrões são atingíveis? Ou devemos quedar-nos satisfeitos, admirando-os melancolicamente à distância?

Talvez a maioria dos leitores e comentaristas, encarando a realidade nua e crua da perversidade humana, tenha chegado à conclusão de que os padrões do Sermão do Monte são inatin­gíveis. Dizem que os seus ideais são nobres mas impraticáveis, atraentes à imaginação mas impossíveis de se cumprir. Conhe­cendo bastante o agressivo egoísmo humano, questionam: como pode, então, alguém ser manso? Conhecem a imperiosa paixão sexual humana; como pode, então, alguém refrear os seus olha­res e os seus pensamentos concupiscentes? Conhecem a preocu­pação humana com os problemas da vida; como, então, proibir-se a apreensão? Sabem da prontidão humana em irar-se e em ter sede de vingança; como então, esperar que alguém ame seus inimigos? Mais do que isto: a exigência não é voltar a outra face a um assaltante, o que é perigoso para o bem-estar da própria sociedade? E não ultrapassa essa exigência a capacidade indi­vidual? Provocar mais a violência dessa maneira não só permite que ela permaneça sem castigo, mas até a incentiva. Não! O Sermão do Monte não teria valor prático para os indivíduos ou comunidades. Na melhor das hipóteses, representaria o idea­lismo impraticável de um visionário. Seria um sonho que jamais se poderia realizar.

Uma modificação deste ponto de vista, pela primeira vez ex­pressa por Johannes Weiss em 1892, e mais popularizada por Albert Schweitzer, é que Jesus fazia exigências excepcionais para uma situação excepcional. Acreditando eles que Jesus esperava que o fim da História acontecesse quase imediatamente, argu­mentavam que ele dava a seus discípulos uma "ética provisória", que exigia deles sacrifícios totais, como abandonar as suas pro­priedades e amar os seus inimigos, sacrifícios apropriados só para aquele momento de crise. Neste caso, o Sermão do Monte trans­forma-se numa espécie de "lei marcial",31 que só uma emer­gência maior poderia justificar. Enfaticamente, não seria uma ética para o quotidiano.

E tem havido muitas tentativas de acomodar o Sermão do Monte aos baixos níveis de nossa capacidade moral. Nos capí­tulos quarto e quinto do seu livro Understanding the Sermon on the Mount (Compreendendo o Sermão do Monte), Harvey McArthur primeiro examina e depois avalia nada menos de doze maneiras diferentes de interpretar o Sermão.32 Diz que poderia muito bem intitular esta seção de "Versões e Evasivas do Ser­mão do Monte", pois todas menos uma das doze interpretações oferecem qualificações prudentes de suas exigências aparente­mente absolutas.

No extremo oposto ficam aquelas almas superficiais que de­sembaraçadamente afirmam que o Sermão do Monte expressa padrões éticos que são manifestamente verdadeiros, comuns a todas as religiões e fáceis de obedecer. "Eu vivo de acordo com o Sermão do Monte", dizem. A reação mais caridosa para com essa gente é presumir que nunca leram o Sermão que tão confiantemente consideram uma coisa comum, normal. Bem diferente foi Leo Tolstoy (embora ele também cresse que o Ser­mão foi pregado a fim de ser obedecido). É verdade que ele se reconhecia um fracasso sem limites, mas continuava crendo que os preceitos de Jesus poderiam ser postos em prática, e colocou a sua convicção nos lábios do Príncipe Nekhlyudov, o herói de sua última grande obra, Ressurreição, publicada em 1899-1900.

O príncipe de Tolstoy geralmente é considerado como um auto-retrato, e muito mal disfarçado. No final da novela, Nekhlyudov relê o Evangelho de Mateus. Vê no Sermão do Monte "não lindos pensamentos abstratos, que apresentam prin­cipalmente exigências exageradas e impossíveis, mas manda­mentos simples, claros, práticos que, se fossem obedecidos (e isto parecendo ser bastante exeqüível), estabeleceriam uma ordem completamente nova na sociedade humana, onde a violência que enchia Nekhlyudov de indignação não só cessaria sozinha, mas também a maior de todas as bênçãos que o homem pode esperar, o reino dos céus na terra, seria alcançada."

"Nekhlyudov ficou parado olhando para a luz da lâmpada que bruxuleava, e seu coração parou de bater. Lembrando toda a monstruosa confusão da vida que levamos, imaginou como esta vida poderia ser, caso as pessoas fossem ensinadas a obedecer a estes mandamentos; e sua alma foi invadida por um êxtase ja­mais sentido antes, Foi como se, depois de muito anelar e sofrer, finalmente encontrasse paz e libertação.

Não dormiu naquela noite e, como acontece com a imensidão dos que lêem os Evangelhos, compreendeu pela primeira vez o pleno significado das palavras tantas vezes lidas no passado, mas não entendidas. Como uma esponja que chupa a água, ele bebeu aquela vital, importante e alegre novidade que o livro lhe revelou. E tudo o que lia lhe parecia familiar, confirmando e tornando real o que já conhecia há muito tempo mas que jamais compreendera totalmente nem crera realmente. Mas agora entendia e cria...

Disse para si mesmo: 'Buscai primeiro o reino de Deus e a sua justiça; e todas estas coisas vos serão acrescentadas. Mas nós buscamos todas estas coisas e obviamente fracassamos em alcan­çá-las. Esta, portanto, deve ser a tarefa de minha vida. Uma tarefa foi completada e outra está por fazer.'

Naquela noite uma vida inteiramente nova teve início em Nekhlyudov, não tanto porque penetrasse em novas condições de vida, mas porque tudo o que lhe acontecia daquele momento em diante estava revestido de um significado totalmente dife­rente para ele. Como este novo capítulo de sua vida terminará, o futuro há de mostrar."33

Tolstoy personificava a tensão entre o ideal e a realidade. De um lado estava convencido de que obedecer ao Sermão do Monte é "realidade exeqüível", enquanto que, de outro lado, a sua própria atuação medíocre dizia-lhe que não é. A verdade não se encontra em nenhuma das posições extremas. Os padrões do Sermão não podem ser imediatamente atingidos por todo o mundo, nem totalmente alcançados por qualquer um. Colocá-los além do alcance de qualquer pessoa é ignorar o propósito do Sermão de Cristo; colocá-los como sendo atingíveis por qualquer pessoa é ignorar a realidade do pecado. Esses padrões são atin­gíveis, mas só por aqueles que experimentaram o novo nasci­mento, condição esta que Jesus disse a Nicodemos ser indispen­sável para se ver e para se entrar no reino de Deus. Pois a justiça que ele descreveu no Sermão é uma justiça interior. Embora se manifeste externa e visivelmente em palavras, em atos e em relacionamentos, continua sendo essencialmente uma justiça do coração. O que se pensa no coração, e onde o coração é colocado, isso é o que realmente importa.34 E aqui também que jaz o pro­blema, pois os homens são "maus" por natureza.35 Pois é do seu coração que saem as coisas más36 e do seu coração é que saem as suas palavras, assim como é a árvore que estabelece os frutos que produzirá. Portanto, só há uma solução: "Fazei a árvore boa, e o seu fruto será bom".37 Um novo nascimento é essencial. Só a crença na necessidade e na possibilidade de um novo nascimento pode evitar que leiamos o Sermão do Monte com um tolo otimismo ou um desespero total. Jesus proferiu o Sermão para aqueles que já eram seus discípulos e, portanto, também cidadãos do reino de Deus e filhos da família de Deus.38 O alto padrão que estabeleceu só é apropriado para tais pessoas. Não podemos, e na verdade é impossível, alcançar este status privi­legiado por obedecer ao padrão estabelecido por Cristo. Antes, quando seguimos o seu padrão ou, pelo menos, quando nos apro­ximamos dele, damos prova de que a livre graça e o dom de Deus já operaram em nós.




1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   18


©livred.info 2017
enviar mensagem

    Página principal