Contracultura Cristã



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Mateus 7:21-27
O compromisso cristão: uma escolha radical

Se não foi no versículo 13 que Jesus começou a sua conclusão do Sermão do Monte, certamente agora ele o faz. Neste ponto ele não está preocupado em acrescentar mais instruções, mas deseja assegurar uma reação adequada à instrução que acaba de dar. "O Senhor Jesus finaliza o Sermão do Monte", escreve J. C. Ryle, "com uma passagem de aplicação penetrante. Ele volta-se dos falsos profetas para os falsos professos, dos falsos mestres para os falsos ouvintes".448 R. V. G. Tasker comenta de maneira semelhante: "Entretanto, não são somente os falsos mestres que tornam o caminho estreito difícil de achar e mais difícil de palmilhar. Um homem também pode enganar-se dolo­rosamente."449

Por isso, Jesus nos leva a um confronto próprio, colocando diante de nós a escolha radical entre a obediência e a desobe­diência, e nos convoca a um compromisso incondicional da mente, da vontade e da vida com os seus ensinamentos. Ele nos adverte quanto a duas alternativas inaceitáveis: a profissão de fé meramente verbal (vs. 21-23) e o conhecimento meramente intelectual (vs. 24-27). Nenhum dos dois pode substituir a obedi­ência; na verdade, ambos constituem um disfarce da desobe­diência. Jesus enfatiza com grande solenidade que o nosso des­tino eterno depende de uma obediência total.

No que se refere a isso, os dois parágrafos finais do Sermão são muito parecidos. Ambos contrastam as reações certa e errada aos ensinamentos de Cristo. Ambos indicam que a neutralidade é impossível e que uma decisão definida tem de ser tomada. Ambos destacam que nada pode substituir a obediência ativa e prática. E ambos ensinam que a questão da vida e da morte no dia do juízo será determinada pela nossa reação moral a Cristo e a seus ensinamentos nesta vida. A única diferença entre os parágrafos é que, no primeiro, se oferece como alternativa para a obediência uma profissão de fé com os lábios, e, no segundo, um mero ouvir, também como alternativa para a obediência.


1. O perigo de uma profissão de fé simplesmente verbal (vs. 21-23)

Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus. 22Muitos, naquele dia, hão de dizer-me: Senhor, Senhor! porventura, não temos nós profetizado em teu nome, e em teu nome não expelimos demônios, e em teu nome não fizemos muitos milagres? 23Então lhes direi explicitamente: Nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniqüidade.

As pessoas que Jesus está descrevendo aqui estão confiando para a sua salvação em uma afirmação do credo, no que elas "dizem" a Cristo ou a respeito de Cristo. "Nem todo o que me diz" (v. 21). "Muitos, naquele dia, hão de dizer" (v. 22). Mas o nosso destino final será estabelecido, Jesus insiste, não pelo que lhe dizemos hoje, nem pelo que lhe diremos no último dia, mas por fazermos o que dizemos, por estar a nossa profissão verbal acom­panhada da obediência moral.

Uma profissão verbal de Cristo é indispensável. Para sermos salvos, escreveu Paulo, temos de confessá-lo com nossos lábios e crer em nossos corações.450 E uma verdadeira profissão de fé em Jesus como Senhor é impossível sem o Espírito Santo.451 Além disso, o tipo de profissão cristã que Jesus descreve no final do Sermão parece, pelo menos superficialmente, que é totalmente admirável. Começando, é respeitosa; chama-o de "Senhor", exatamente como hoje em dia a maneira mais respeitosa e edu­cada de se referir a Jesus ainda é dizer "nosso Senhor". Depois, a profissão é ortodoxa. Embora chamar Jesus de "Senhor" talvez não signifique mais do que chamá-lo de "senhor" (com minúscula), o presente contexto contém alusões a Deus como seu Pai, e a ele mesmo como Juiz, e portanto parece implicar em algo mais. Depois de sua morte e ressurreição, os cristãos primitivos certamente sabiam o que estavam fazendo, quando o chamavam de "Senhor". Era um título divino, uma tradução da palavra judaica "Jeová" no grego do Velho Testamento. Por­tanto, dentro dessa perspectiva, podemos dizer que isto cons­titui uma confissão exata, ortodoxa de Jesus Cristo. Terceiro, é fervorosa, pois não é um "Senhor" frio ou formal, mas um "Senhor, Senhor" entusiástico, como se o orador desejasse cha­mar a atenção para a força e o zelo de sua devoção.

Quarto ponto: é uma confissão pública. Não é uma declaração particular e pessoal de fidelidade a Jesus. Alguns até "profeti­zaram" em nome de Cristo, chegando até a insinuar que pre­garam em público com a autoridade e a inspiração do próprio Jesus. Mais do que isto, a profissão de fé às vezes chega a ser espetacular. A fim de destacar este ponto, Jesus cita os mais extremos exemplos de profissão de fé verbal, a saber, o exercício de um ministério sobrenatural envolvendo profecia, exorcismo e milagres. O que essas pessoas destacam ao falar com Cristo no dia do juízo é o nome pelo qual ministraram. Três vezes usaram-no, sempre colocando-o em primeiro lugar para dar ênfase. Reivindicam que, em nome de Cristo, pública e abertamente confessado, eles profetizaram, expeliram demônios e fizeram muitas obras maravilhosas. E não temos motivo para não acre­ditar nas suas reivindicações, pois "grandes sinais e prodígios" serão realizados até mesmo pelos falsos Cristos e falsos profetas.452 Que profissão de fé cristã poderia ser melhor? Temos aqui pessoas que chamam Jesus de "Senhor" com cortesia, ortodoxia e entusiasmo, em devoção particular e ministério público. O que poderia haver de errado nisto? Em si, nada de mau. E, não obstante, tudo está errado, porque são palavras que não contêm a verdade; é uma profissão de fé sem realidade. Não os salvará no dia do juízo. Por isso, Jesus passa do que eles dizem e dirão para o que ele lhes dirá. Ele também fará uma declaração solene. A palavra usada no versículo 23 é homologësö, "confessarei".

A confissão de Cristo será, como a deles, em público, mas dife­rente, porque será verdadeira. Ele lhes dirigirá as terríveis palavras: Nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniqüidade, pois, embora tenham usado o nome dele livremente, Jesus não conhecia seus nomes.

A razão por que Jesus os rejeita é que a profissão de fé deles foi verbal, não moral. Era uma confissão apenas de lábios, não de vida. Chamam a Jesus "Senhor, Senhor", mas jamais se submeteram ao seu senhorio, nem obedeceram à vontade de seu Pai celeste. A versão de Lucas desta declaração é um tanto mais forte: "Por que me chamais, Senhor, Senhor, e não fazeis o que vos mando?"453 A diferença vital está entre o "dizer" e o "fazer". A razão por que Cristo, o Juiz, os banirá de sua presença é que são malfeitores, praticam a iniqüidade. Podem alegar feitos gran­diosos em seu ministério; mas, no seu comportamento diário, as suas obras não são boas, são más. Que valor teria para tais pes­soas tomar o nome de Cristo nos lábios? Como Paulo expressou alguns anos depois: "Aparte-se da injustiça todo aquele que professa o nome de Cristo".454

Nós que, atualmente, declaramos ser cristãos, fizemos uma profissão de fé em Jesus, particularmente na conversão e publi­camente no batismo. Damos a impressão de honrar a Jesus, cha­mando-o de "o Senhor" ou "nosso Senhor". Recitamos o credo na igreja e cantamos expressivos hinos de devoção a Cristo. Até exercemos uma variedade de ministérios em seu nome. Mas ele não fica impressionado com nossas palavras piedosas e orto­doxas. Ele continua pedindo evidências de nossa sinceridade em boas obras de obediência.
2. O perigo de um conhecimento meramente intelectual (vs. 24-27)

Todo aquele, pois, que ouve estas minhas palavras e as pratica, será comparado a um homem prudente, que edificou a sua casa sobre a rocha; 25e caiu a chuva, transbordaram os rios, sopraram os ventos e deram com ímpeto contra aquela casa, que não caiu, porque fora edificada sobre a rocha.26 E todo aquele que ouve estas minhas palavras e não as pratica, será comparado a um homem insensato, que edificou a sua casa sobre a areia; 27e caiu a chuva, transbordaram os rios, sopraram os ventos e deram com ímpeto contra aquela casa, e ela desabou, sendo grande a sua ruína.

Enquanto, no parágrafo anterior, o contraste era entre o "dizer" e o "fazer", o contraste agora é entre o "ouvir" e o "fazer". De um lado, diz Jesus, está a pessoa que ouve estas minhas palavras e as pratica (v. 24) e, do outro, a pessoa que ouve estas minhas palavras e não as pratica (v. 26). Depois ele ilustra o contraste entre os seus ouvintes, o obediente e o desobediente, com a sua conhecida parábola dos dois construtores, o homem sábio que "cavou"455 e construiu a sua casa sobre a rocha, e o tolo que não queria se aborrecer com alicerces e contentou-se em edificar sobre a areia. Enquanto os dois prosseguiam com a sua constru­ção, um observador casual não poderia perceber qualquer dife­rença entre as duas casas, pois a única diferença estava nos ali­cerces, e estes não podiam ser vistos. Só depois que uma tempes­tade se desencadeou sobre as duas casas com grande ferocidade: "chuva no telhado, rio nos alicerces, vento nas paredes",456 foi re­velada a diferença fatal e fundamental. A casa edificada sobre a rocha resistiu à tormenta, enquanto que a casa sobre a areia ficou irreparavelmente arruinada.

Da mesma maneira, os cristãos professos (os genuínos e os espúrios) freqüentemente se parecem. Não podemos facilmente distinguir qual é qual. Ambos parecem estar edificando vidas cristãs. Jesus não está fazendo uma comparação entre cristãos e não-cristãos que não fizeram nenhuma profissão de fé. Pelo con­trário, o que é comum aos dois edificadores espirituais é que eles ouvem estas minhas palavras. Portanto, os dois são membros da comunidade cristã visível. Ambos lêem a Bíblia, vão à igreja, ouvem os sermões e compram literatura cristã. O motivo por que tão freqüentemente não podemos diferençar um do outro é que os alicerces de suas vidas estão ocultos aos nossos olhos. A verda­deira pergunta não é se ouvem os ensinamentos de Cristo (nem mesmo se os respeitam ou crêem neles), mas se fazem o que ouvem. Apenas uma tempestade revelará a verdade. Às vezes, uma tempestade de crises ou calamidades revela que tipo de pessoa somos, pois "a verdadeira piedade não se distingue total­mente de sua imitação até que venham as provações".457 Caso contrário, a tempestade do dia do juízo certamente o fará.

A verdade sobre a qual Jesus está insistindo nestes dois pará­grafos finais do Sermão é que nem um conhecimento intelectual dele, nem uma profissão de fé verbal, embora ambos sejam essenciais em si mesmos, podem substituir a obediência. A per­gunta não é se nós dizemos coisas bonitas, polidas, ortodoxas e entusiásticas sobre Jesus; nem se ouvimos suas palavras, se prestamos atenção, se estudamos, se meditamos e se memoriza­mos até empanturrar as nossas mentes com os seus ensinamen­tos, mas se nós fazemos o que dizemos e se fazemos o que sabemos; em outras palavras, se o senhorio do Jesus que profes­samos é a grande realidade de nossa vida.

Isto não é, naturalmente, ensinar que o caminho da salvação, ou o caminho para entrar no reino dos céus (v. 21), é pelas boas obras da obediência, pois todo o Novo Testamento oferece salva­ção apenas pela graça pura de Deus mediante a fé. O que Jesus está destacando, entretanto, é que aqueles que verdadeiramente ouvem o Evangelho e professam a sua fé sempre hão de obede­cê-lo, expressando a sua fé em suas obras. Os apóstolos de Jesus jamais se esqueceram deste ensinamento. Isto se vê em suas cartas. A primeira carta de João, por exemplo, alerta muito quanto aos perigos de uma profissão de fé verbal: "Se dissermos que mantemos comunhão com ele, e andarmos nas trevas, menti­mos . . . Aquele que diz: Eu o conheço, e não guarda os seus mandamentos, é mentiroso".458 A carta de Tiago, por sua vez, avisa dos perigos de um conhecimento intelectual. Uma orto­doxia árida não pode salvar, ele escreve, mas apenas uma fé que se traduza em boas obras; por isso, devemos ser "praticantes da palavra, e não somente ouvintes".459

Ao aplicar este ensinamento a nós mesmos, precisamos consi­derar que a Bíblia é um livro perigoso de se ler, e que a igreja é uma comunidade perigosa de se juntar, pois na leitura da Bíblia ouvimos as palavras de Cristo, e quando nos filiamos à igreja dizemos que cremos em Cristo. Como resultado, pertencemos a um grupo descrito por Jesus como aqueles que ouvem os seus ensinamentos e o chamam de Senhor. Nossa filiação, portanto, coloca sobre nós a séria responsabilidade de garantir que aquilo que sabemos e dizemos está sendo traduzido no que fazemos.

Assim, o Sermão termina com a mesma nota de escolha radical da qual estivemos conscientes o tempo todo. Jesus não coloca diante de seus discípulos uma lista de regras éticas fáceis de obe­decer, mas um conjunto de valores e ideais que é totalmente dife­rente do caminho do mundo. Ele nos incentiva a renunciarmos a cultura secular prevalecente em favor da contracultura cristã. Repetidas vezes, durante o nosso estudo, ouvimos o chamado que faz ao seu povo para ser diferente de todos os outros. A primeira vez que isto tornou-se claro foi na responsabilidade que nos trans­mitiu de sermos "o sal da terra" e "a luz do mundo", pois estas metáforas colocam as comunidades cristã e não-cristã em posi­ções antagônicas, por serem reconhecida e fundamentalmente distintas. O mundo é como alimento podre, cheio de bactérias que causam a sua desintegração; os discípulos de Jesus têm de ser o seu sal, evitando o apodrecimento. O mundo é um lugar escuro e triste, sem sal, mergulhado nas trevas; os discípulos de Jesus têm de ser a luz do mundo, dissipando suas trevas e sua melancolia.

A partir de então, os padrões opostos são pitorescamente des­critos, e o caminho de Jesus é recomendado. Nossa justiça tem de ser mais profunda porque atinge também o nosso coração, e o nosso amor tem de ser mais amplo porque abrange também nossos inimigos. Na piedade devemos evitar a ostentação dos hipócritas e, na oração, a verbosidade dos pagãos. Por outro lado, nossas dádivas, nossa oração e nosso jejum têm de ser verdadeiros, sem comprometer a nossa integridade cristã. De­vemos escolher para ser nosso tesouro algo que dure por toda a eternidade, que não se desintegre na terra; e por senhor de­vemos escolher a Deus, não o dinheiro e as propriedades. Quanto às nossas ambições (aquilo que preocupa nossas mentes), não a nossa própria segurança material, mas a propagação do governo e da justiça de Deus no mundo. Em lugar de nos conformarmos com este mundo, quer na forma dos fariseus religiosos, ou dos pagãos irreligiosos, somos chamados por Jesus a imitar o nosso Pai celeste. Ele é um paci­ficador. E ele ama até mesmo os ingratos e egoístas. Por isso devemos copiá-lo, e não aos homens. Só então provaremos que verdadeiramente somos seus filhos e filhas (5:9, 44-48). Então vem a alternativa de seguir a multidão ou a nosso Pai que está nos céus, ser como a cana agitada pelos ventos da opinião pú­blica ou ser dirigido pela Palavra de Deus, pela revelação do seu caráter e pela sua vontade. E o propósito principal do Sermão do Monte é apresentar-nos esta alternativa, defrontando-nos, assim, com a necessidade indispensável da escolha.

É por isso que a conclusão do Sermão é tão apropriada: Jesus esboçando os dois caminhos (o estreito e o largo) e os dois edi­fícios (sobre a rocha e sobre a areia). Seria impossível exagerar a importância da escolha entre os dois, considerando que um deles leva à vida, enquanto que o outro termina na destruição, e que um edifício é seguro enquanto que o outro é derrubado pela calamidade. Muito mais notável que a escolha de uma carreira profissional ou de um companheiro para a vida ê a escolha da própria vida. Qual a estrada que vamos tomar para viajar? Sobre que alicerce vamos começar a construir?



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