Contracultura Cristã



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Mateus 7:1-12
Os relacionamentos do cristão: com os seus irmãos e com o seu Pai

Mateus 7 consiste de um grupo de parágrafos aparentemente isolados. O elo existente entre eles não é óbvio. O capítulo como um todo também não segue o anterior numa seqüência explícita de pensamentos. Muitos comentaristas concluíram, portanto, que Mateus reuniu estes blocos de material que originalmente pertenciam a diferentes contextos e que ele talvez tenha feito o seu trabalho editorial um tanto desajeitadamente. Mas não é necessário chegar a tal conclusão. O fio de ligação que corre por todo o capítulo, embora de maneira solta, ê o dos relaciona­mentos. Poderia parecer bastante lógico que, tendo descrito o caráter, a influência, a justiça, a piedade e a ambição do cristão, Jesus se concentrasse finalmente nos seus relacionamentos, pois a contracultura cristã não é algo individualista, mas comuni­tário, e os relacionamentos dentro da comunidade e entre esta e os outros são de suma importância. Portanto, Mateus 7 nos dá um registro da rede de relacionamentos aos quais, como dis­cípulos de Jesus, somos atraídos. Podem ser assim apresentados:



  1. Para com o nosso irmão, em cujo olho percebemos um argueiro e a quem temos a responsabilidade de ajudar, não de julgar (vs. 1-5).

  2. Para com um grupo espantosamente designado de "cães" e "porcos". São pessoas, é verdade, mas sua natureza animal é de tal espécie que somos instruídos a não partilhar o evangelho de Deus com elas (v. 6).

  3. Para com o nosso Pai celeste, do qual nos aproximamos em oração, confiantes de que ele não nos dará nada menos que "boas coisas" (vs. 7-11).

  1. Para com todos de maneira generalizada: a Regra Áurea deveria orientar a nossa atitude e o nosso comportamento para com eles (v. 12).

  2. Para com os nossos companheiros de viagem nesta pere­grinação pelo caminho estreito (vs. 13,14).

  3. Para com os falsos profetas, que temos de reconhecer e dos quais devemos nos acautelar (vs. 15-20).

  4. Para com Jesus, nosso Senhor, cujos ensinamentos temos de ouvir e obedecer (vs. 21-27).


1. Nossa atitude para com o nosso irmão (vs. 1-5)

Não julgueis, para que não sejais julgados. 2Pois com o critério com que julgardes, sereis julgados; e com a medida com que tiverdes medido vos medirão também. 3Por que vês tu o argueiro no olho de teu irmão, porém não reparas na trave que está no teu próprio? 4Ou como dirás a teu irmão: Deixa-me tirar o ar­gueiro do teu olho, quando tens a trave no teu? 5Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho e então verás claramente para tirar o argueiro do olho de teu irmão.

Jesus não dá a entender que a comunidade cristã será perfeita. Pelo contrário, ele pressupõe que haverá contravenções e estas darão lugar a tensões, a problemas de relacionamento. Na prá­tica, como deveria um cristão se comportar para com um com­panheiro que agiu mal? Será que Jesus tem alguma instrução sobre a disciplina dentro da sua comunidade? Sim, em tal situa­ção ele proíbe duas alternativas e, então, aconselha a terceira, que é melhor, mais "cristã".


a. O cristão não deve ser juiz (vs. 1, 2)

As palavras de Jesus Não julgueis para que não sejais julgados são muito conhecidas, mas muito mal interpretadas. Para início de conversa, devemos rejeitar a crença de Tolstoy, o qual, com base neste versículo, achava que "Cristo proíbe totalmente a instituição de qualquer tribunal legal", e que ele "não poderia querer dizer qualquer outra coisa com essas palavras".371 Mas a proibição de Jesus não pode absolutamente significar isso que Tolstoy tinha em mente, pois o contexto não se refere a juizes nos tribunais, mas sim à responsabilidade dos indivíduos uns para com os outros.

Além disso, a injunção de nosso Senhor para "não julgar" não pode ser entendida como uma ordem para suspendermos nossa faculdade crítica em relação a outras pessoas, ou fechar os olhos diante de suas faltas fingindo não percebê-las, ou nos abstermos de toda critica, recusando-nos a discernir entre a verdade e o erro, entre o bem e o mal. Como podemos ter cer­teza de que Jesus não estava se referindo a estas coisas? Em parte, porque não seria honesto comportar-se assim, mas seria hipocrisia e sabemos, por esta e outras passagens, que ele ama a integridade e odeia a hipocrisia. Em parte, porque seria uma contradição da natureza do homem, o qual, criado à imagem de Deus, tem a capacidade de julgar valores. Em parte, também, porque muitos dos ensinamentos de Cristo no Sermão do Monte baseiam-se na pressuposição de que usaremos (e realmente deve­ríamos usar) o nosso poder de crítica. Por exemplo, repetidas vezes ouvimos a sua convocação a sermos diferentes do mundo que nos rodeia, desenvolvendo uma justiça que exceda a dos fariseus, fazendo "mais do que os outros" no padrão de amor que adotamos, não sendo como os hipócritas em nossa piedade ou como os pagãos em nossa ambição. Mas como poderíamos obedecer a todos estes ensinamentos sem antes avaliar o com­portamento dos outros e, então, nos assegurarmos de estar agindo de modo diferente, em um padrão mais elevado? Seme­lhantemente, em Mateus 7, esta mesma ordem de não "julgar" os outros é seguida quase imediatamente por duas outras ordens: evitar dar "o que é santo" aos cães, ou pérolas aos porcos (v. 6), e acautelar-se dos falsos profetas (v. 15). Seria impossível obe­decer a estas ordens sem usar a nossa capacidade de julgamento, pois, para determinar o nosso comportamento em relação aos "cães", "porcos" e "falsos profetas", primeiro precisamos ter capacidade de reconhecê-los e, para isso, precisamos de algum discernimento.

Se, então, Jesus não estava abolindo os tribunais legais, nem proibindo a crítica, o que quis dizer com não julgueis? Com outras palavras: "não censurar". O discípulo de Jesus é um "crítico" no sentido de usar o seu poder de discernimento, mas não um "juiz" no sentido de censurar. A censura é um pecado composto, que consiste de diversos ingredientes desagradáveis. Não significa avaliar as pessoas com discernimento, mas con­dená-las severamente. O crítico que julga os outros é um desco­bridor de erros, num processo negativo e destrutivo para com as outras pessoas, e adora viver à procura de falhas nos outros. Imagina as piores intenções nas pessoas, joga água fria nos seus planos e é inexorável quanto aos erros delas.

Pior do que isso, censurar é assumir o papel de juiz, reivindi­cando assim a competência e a autoridade de fazer um julga­mento de seu próximo. Mas, se eu o fizer, estarei colocando a mim e aos meus companheiros numa posição errada. Pois desde quando são eles meus servos, subordinados a mim? E desde quando sou eu seu senhor e juiz? Como Paulo escreveu aos Romanos, aplicando a verdade de Mateus 7:1 à sua situação: "Quem és tu que julgas o servo alheio? para o seu próprio senhor está de pé ou cai" (14:4). Paulo também aplicou a mes­ma verdade a si mesmo quando se encontrou rodeado de difamadores hostis: "Pois quem me julga é o Senhor. Portanto, nada julgueis antes do tempo, até que venha o Senhor, o qual não somente trará à plena luz as cousas ocultas das trevas, mas também manifestará os desígnios dos corações."372 O ponto sim­ples mas vital que Paulo está apresentando nestes versículos é que o homem não é Deus. Nenhum ser humano está qualificado a ser o juiz de outros seres humanos, pois não podemos ler os corações dos outros nem avaliar os seus motivos. Condenar é atrever-se a agir como se fosse o dia do juízo, usurpando a prerrogativa do divino Juiz; na verdade, é "brincar de Deus".

Não só não devemos julgar, como nos encontramos entre os julgados, e seremos julgados com muito maior severidade se nos atrevermos a julgar os outros. Não julgueis, para que não sejais julgados. Pois com o critério com que julgardes, sereis julgados; e com a medida com que tiverdes medido vos medirão também. A exposição dos princípios está clara. Se assumimos a posição de juizes, não podemos invocar a ignorância da lei que estamos reivindicando ser capazes de administrar aos outros.

Se gostamos de ocupar a cátedra, não devemos ficar surpresos ao nos encontrarmos no banco dos réus. Como Paulo explicou: "Portanto, és indesculpável quando julgas, ó homem, quem quer que sejas; porque no julgar a outro, a ti mesmo te conde­nas; pois praticas as próprias cousas que condenas."373

Resumindo, a ordem de não julgar não é uma exigência para que sejamos cegos, mas antes uma exortação a sermos gene­rosos. Jesus não nos diz que deixemos de ser homens (deixando de lado o poder crítico que nos distingue dos animais), mas que renunciemos à ambição presunçosa de sermos Deus, colocando-nos na posição de juizes.


b. O cristão não deve ser hipócrita (vs. 3, 4) Por que vês tu o argueiro no olho de teu irmão, porém não re­paras na trave que está no teu próprio? 4Ou como dirás a teu irmão: Deixa-me tirar o argueiro do teu olho, quando tens a trave no teu?

Agora Jesus conta a sua pequena e famosa parábola sobre o "corpo estranho" nos olhos das pessoas, partículas de pó de um lado e traves ou toras de outro. James Moffatt chamou-os de "lasca" e "tábua". Primeiro, Jesus denunciou nossa hipocrisia para com Deus, isto é, a nossa prática de piedade diante dos homens para sermos vistos por eles. Agora, ele denuncia a nossa hipocrisia em relação aos outros, isto é, interferindo em seus pecadilhos, enquanto deixamos de resolver as nossas próprias faltas mais sérias. Eis aqui um outro motivo por que não temos capacidade para ser juizes: não apenas somos seres humanos falíveis (o que não ocorre com Deus) mas também somos seres humanos decaídos. Todos nós nos tornamos pecadores com a Queda. Portanto não estamos em posição de julgar outros peca­dores iguais a nós; estamos desqualificados para a cátedra de juiz.

A figura de uma pessoa lutando na delicada operação de re­mover um cisco do olho de um amigo, enquanto uma imensa tábua em seu próprio olho impede totalmente a sua visão, é ridícula ao extremo. Mas, quando a caricatura ê transferida para nós mesmos e para a nossa atitude ridícula de ficar procu­rando os erros dos outros, nem sempre apreciamos a brinca­deira. Temos uma tendência fatal de exagerar as faltas dos outros e diminuir a gravidade das nossas. Achamos impossível, quando nos comparamos com os outros, permanecer estrita­mente objetivos e imparciais. Pelo contrário, temos uma visão rósea de nós mesmos e uma deformada dos outros. Na verdade, o que geralmente acontece é que vemos nossas faltas nos outros e os julgamos vicariamente. Desse modo, experimentamos o prazer da justiça própria sem a dor do arrependimento. Por­tanto, hipócrita (v. 5) aqui é uma expressão chave. Pior ainda, esta espécie de hipocrisia é a mais desagradável porque, tendo até aparência de bondade (tirar um cisco do olho de alguém), transforma-se em um meio de inflar o nosso próprio ego. A con­denação, escreve A. B. Bruce, é o "vício farisaico de exaltarmo-nos amesquinhando os outros, um modo muito baixo de obter superioridade moral".374 A parábola do fariseu e do publicano foi o comentário de nosso Senhor sobre esta perversidade. Ele a contou "a alguns que confiavam em si mesmos por se consi­derarem justos, e desprezavam os outros".375 O fariseu fez uma comparação odiosa e incorreta, engrandecendo sua própria vir­tude e os erros do publicano.

O que nós deveríamos fazer é aplicar a nós mesmos um padrão pelo menos tão estrito e crítico como aquele que aplicamos aos outros. "Porque, se nos julgássemos a nós mesmos, não seríamos julgados",376 escreveu Paulo. Não só escaparíamos do julgamento divino, mas também estaríamos em condição de ajudar com humildade e amabilidade ao irmão que está em erro. Tendo removido antes a trave de nosso próprio olho, veríamos clara­mente como remover o cisco do olho dele.


c. O cristão deve antes ser um irmão (v. 5)

Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho e então verás clara­mente para tirar o argueiro do olho de teu irmão.

Algumas pessoas supõem que, na parábola dos corpos estra­nhos, Jesus estivesse proibindo-nos de agir como oculistas morais e espirituais que interferem nos olhos dos outros, e dizendo-nos que tratássemos de nossa própria vida. Mas não é assim. O fato da condenação e da hipocrisia serem proibidas não nos isenta da responsabilidade de irmãos, uns para com os outros. Pelo contrário, Jesus mais tarde ensinaria que, se nosso irmão pecar contra nós, a nossa primeira obrigação (embora geralmente negligenciada) é de "argüi-lo entre ti e ele só".377 A mesma obri­gação é colocada sobre nós aqui. Na verdade, em determinadas circunstâncias, somos proibidos de interferir, isto é, quando há um corpo estranho muito maior em nosso próprio olho e não o tenhamos removido. Mas, em outras circunstâncias, Jesus real­mente nos ordena que reprovemos e corrijamos nosso irmão. Depois de resolver o problema com o nosso próprio olho, po­demos ver claramente e mexer no olho do outro. Uma sujeirinha no olho dele é chamada, afinal de contas e muito corretamente, de corpo "estranho". Não pertence ao olho. Sempre será estra­nho, geralmente doloroso e, às vezes, perigoso. Deixá-lo ali, sem nenhuma tentativa de remoção, dificilmente seria coerente com o nosso amor fraternal.

Nosso dever cristão, então, não é ver o argueiro no olho do nosso irmão, enquanto, ao mesmo tempo, não reparamos na trave (v. 3) no nosso próprio olho; e, muito menos, dizer ao nosso irmão: "Deixa-me tirar o argueiro do teu olho", enquanto ainda não retiramos a trave de nosso próprio olho (v. 4); mas, antes, tirar primeiro a trave de nosso próprio olho, para que com a claridade de visão resultante possamos tirar o argueiro do olho de nosso irmão (v. 5). Novamente se evidencia que Jesus não está condenando a crítica propriamente dita mas, antes, a crítica desvinculada de uma concomitante autocrítica; não a correção propriamente dita mas, antes, corrigir os outros quando nós mesmos ainda não nos corrigimos.

O padrão de Jesus para os relacionamentos na contracultura cristã é alto e sadio. Em todas as nossas atitudes e no comporta­mento relativo a outras pessoas, nem devemos representar o juiz (severo, censurador e condenador), nem o hipócrita (que acusa os outros enquanto se justifica), mas o irmão, cuidando dos outros a ponto de primeiro acusar-nos e corrigir-nos para depois procurarmos ser construtivos na ajuda que lhes vamos dar. "Corrija-o", disse Crisóstomo, referindo-se a alguém que tinha pecado, "mas não como um inimigo, nem como um adversário que exige o cumprimento da pena, mas como um médico que fornece o remédio",378 e, ainda mais, como um irmão amoroso e ansioso em salvar e restaurar. Precisamos ser tão críticos co­nosco como somos geralmente com os outros, e tão generosos com os outros como sempre somos conosco. Assim cumprire­mos a Regra Áurea que Jesus nos dá no versículo 12 e agi­remos em relação aos outros como gostaríamos que eles fizessem conosco.


2. Nossa atitude para com os "cães" e os "porcos" (v. 6)

Não deis aos cães o que é santo, nem lanceis ante os porcos as vossas pérolas, para que não as pisem com os pés, e, voltando-se, vos dilacerem.

À primeira vista, parece uma linguagem chocante nos lábios de Jesus, especialmente no Sermão do Monte, logo após o seu apelo ao comportamento fraternal construtivo. Mas Jesus sempre chamou o boi pelo nome! Sua franqueza levou-o a chamar Herodes Antipas de "a raposa" e os escribas e fariseus hipócritas de "sepulcros caiados" e "raça de víboras".379 Aqui ele afirma que há certos seres humanos que agem como animais e podem, portanto, ser acertadamente chamados de "cães" e de "porcos".

O contexto fornece um equilíbrio sadio. Se não devemos julgar os outros, acusá-los e condená-los de maneira hipócrita, não devemos tampouco ignorar suas faltas, fingindo que todos são iguais. Os dois extremos devem ser evitados. Os santos não são juizes, mas também "os santos não são simplórios".380 Se pri­meiro removermos a trave de nosso olho para, vendo claramente, podermos retirar o cisco do olho de nosso irmão, ele (se for real­mente um irmão no Senhor) apreciará a nossa solicitude. Mas nem todos gostam de críticas e correção. De acordo com o livro de Provérbios, esta é uma das óbvias diferenças entre o homem sábio e o tolo: "Não repreendas o escarnecedor, para que te não aborreça; repreende o sábio, e ele te amará."381

Quem são, pois, estes "cães" e "porcos"? Dando-lhes tais nomes Jesus está indicando que, além de serem mais animais que humanos, são também animais com hábitos de sujeira. Os cães que ele tinha em mente não eram os bem comportados cachorrinhos de colo de uma casa elegante, mas os cães párias selvagens, vagabundos e vira-latas, que fuçavam no lixo da cidade. Os porcos eram animais imundos para os judeus, para não mencionar a inclinação que têm de viver na lama. O após­tolo Pedro referir-se-ia a eles mais tarde, reunindo dois provér­bios em um só: "O cão voltou ao seu próprio vômito" e "a porca lavada voltou a' revolver-se no lamaçal".382 A referência deve ser aos incrédulos, cuja natureza nunca foi renovada, que possuem vida física ou animal, mas nenhuma vida espiritual ou eterna. Lembremo-nos também de que os judeus chamavam os gentios de "cães".383 Mas os cristãos certamente não consideram os que não são cristãos deste modo desdenhoso. Por isso, temos de penetrar mais profundamente no significado dado por Jesus.

Sua ordem é: não deis aos cães o que é santo e nem lanceis ante os porcos as vossas pérolas. A figura é clara. Um judeu jamais daria alimento "santo" (talvez alimento que fora antes oferecido como sacrifício) a cães imundos. Nem jamais sonharia em jogar pérolas aos porcos. Estes não só eram animais impuros, mas também provavelmente confundiriam as pérolas com nozes ou ervilhas e tentariam comê-las e, então, descobrindo que não eram comestíveis, pisá-las-iam e até mesmo atacariam o doador. Mas se a figura da parábola é explícita, qual o significado? O que é a coisa "santa" e o que são as "pérolas"? Alguns dos pais da Igreja achavam que a referência era à Ceia do Senhor, e argumentavam que pessoas incrédulas, ainda não batizadas, não deviam ser admitidas a ela.384 Embora estivessem certos neste ensinamento, é extremamente duvidoso que Jesus tenha pensado nisso. É melhor encontrar um elo com a "pérola de grande valor" da sua parábola referente ao reino de Deus385 ou à salvação e, por extensão, ao Evangelho. Não podemos deduzir disto, entretanto, que Jesus nos estivesse proibindo de pregar o Evangelho aos incrédulos. Supor tal coisa seria emborcar e esva­ziar todo o Novo Testamento e contradizer a Grande Comissão (com a qual o Evangelho de Mateus termina), que nos manda "ir e fazer discípulos de todas as nações". Os calvinistas ex­tremos não podem usar isto como argumento contra a evangelização, pois o próprio Calvino insistia que é dever nosso "apre­sentar a doutrina da salvação indiscriminadamente a todos".386

Portanto, os "cães" e "porcos" com os quais estamos proi­bidos de partilhar as pérolas do Evangelho não são simples­mente os incrédulos. Devem ser, antes, aqueles que tiveram ampla oportunidade de ouvir e aceitar as boas novas, mas que determinadamente (e até mesmo provocadoramente) as rejei­taram. "É preciso entender", escreveu Calvino com sabedoria, "que cães e porcos são nomes que foram dados, não a toda espécie de homens debochados, ou àqueles que são destituídos do temor de Deus e da verdadeira piedade, mas àqueles que, através de evidências claras, manifestaram um desrespeito obsti­nado para com Deus, de modo que sua condição parece ser incurável".387 Crisóstomo usa uma expressão semelhante, iden­tificando os "cães" com pessoas "que vivem em impiedade incu­rável";388 e, nos dias de hoje, o Professor Jeremias definiu-os como sendo "aqueles que totalmente se entregaram a caminhos depravados".389

O fato é que persistir em oferecer o Evangelho a essas pes­soas, além de um determinado ponto, é provocar sua rejeição com desprezo e até mesmo com blasfêmias. Jesus aplicou o mesmo princípio ao ministério dos doze quando os comissionou, antes de enviá-los em sua primeira missão. Ele os advertiu que, em cada cidade e casa que entrassem, embora algumas pessoas fossem receptivas e "dignas", outras não seriam receptivas e seriam "indignas". "Se alguém não vos receber, nem ouvir as vossas palavras, ao sairdes daquela casa ou daquela cidade", prosseguiu, "sacudi o pó dos vossos pés".390

O apóstolo Paulo também seguiu este princípio em sua obra missionária. Em sua primeira expedição, ele e Barnabé disseram aos judeus que "contradiziam" a sua pregação em Antioquia da Pisídia: "Cumpria que a vós outros em primeiro lugar fosse pregada a palavra de Deus; mas, posto que a rejeitais e a vós mesmos vos julgais indignos da vida eterna, eis aí que nos vol­vemos para os gentios." E quando os judeus incitaram os lí­deres da cidade a que os expulsassem, Paulo e Barnabé, "sacu­dindo contra aqueles o pó de seus pés, partiram para Icônio".391 Quase o mesmo aconteceu em Corinto na segunda viagem mis­sionária. Quando os judeus se lhe opuseram e o injuriaram, "sacudiu Paulo as vestes" e lhes disse: "Sobre a vossa cabeça o vosso sangue! eu dele estou limpo, e desde agora vou para os gentios."392 Pela terceira vez Paulo reagiu da mesma maneira, quando em Roma os líderes judeus rejeitaram o Evangelho. "Tomai, pois, conhecimento", disse, "de que esta salvação de Deus foi enviada aos gentios. E eles a ouvirão".393

Nosso testemunho cristão e pregação evangelística não devem, portanto, ser totalmente indiscriminados. Se as pessoas tiveram muita oportunidade de ouvir a verdade mas não a aceitaram, se elas obstinadamente voltam suas costas a Cristo, se (em outras palavras) elas se colocam na categoria de "cães" e "porcos", não devemos continuar pregando-lhes indefinidamente, pois assim estaremos amesquinhando o evangelho de Deus e permi­tindo que ele seja espezinhado. Pode alguma coisa ser mais depravada do que confundir a preciosa pérola de Deus com uma coisa sem valor e praticamente pisoteá-la na lama? Ao mes­mo tempo, desistir das pessoas é um passo muito sério. Eu me lembro de apenas uma ou duas ocasiões em minha experiência quando senti que devia fazê-lo. Este ensinamento de Jesus é apenas para situações excepcionais; nosso dever cristão normal é ser paciente e perseverar com as pessoas, como Deus paciente­mente perseverou conosco.
3. Nossa atitude para com o nosso Pai celeste (vs. 7-11)

Pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e achar eis; batei, e abrir-se-vos-á. 8Pois todo o que pede recebe; o que busca, encontra; e a quem bate, abrir-se-lhe-á. 9Ou qual dentre vós é o homem que, se porventura o filho lhe pedir pão, lhe dará pedra? 10Ou se lhe pedir peixe, lhe dará uma cobra? 11Ora, se vós, que sois maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai, que está nos céus, dará boas cousas aos que lhe pedirem?

Parece natural que Jesus tenha passado de nosso relacionamento com os homens para nosso relacionamento com o nosso Pai celeste, principalmente porque o nosso dever cristão para com eles (não julgá-los, não lançar pérolas aos porcos e ser prestativos sem ser hipócritas) é por demais difícil sem a graça divina.


a. O que Jesus promete

Esta passagem não é a primeira instrução sobre a oração, no Sermão do Monte. Jesus já nos advertiu contra a hipocrisia dos fariseus e o formalismo dos pagãos, e nos deu o seu próprio mo­delo de oração. Agora, entretanto, ativamente nos incentiva a orar, dando-nos algumas grandes promessas de sua graça. Pois "nada é melhor para nos levar à oração do que a convicção plena de que seremos ouvidos".394 Ou, então, "Ele sabe que somos tímidos e acanhados, que nos sentimos indignos e inaptos para apresentar nossas necessidades a Deus . . . Pensamos que Deus é tão grande e nós tão pequeninos que não nos atrevemos a orar . . . Foi por isso que Cristo quis desviar-nos de pensamentos tão tímidos, remover nossas dúvidas e fazer-nos avançar con­fiante e ousadamente".395

Jesus procura imprimir suas promessas em nossa mente e me­mória através dos golpes do martelo da repetição. Primeiro, suas promessas vêm ligadas a ordens diretas: Pedi. . . buscai. . . batei . . . (v. 7). Talvez tenham sido deliberadamente colocadas em escala ascendente de insistência. Richard Glover sugere que uma criança, estando a sua mãe perto e visível, pede; caso con­trário, ela busca; enquanto que, se a mãe estiver inacessível no seu quarto, ela bate.396 Seja como for, todos os três verbos estão no presente do imperativo e indicam a persistência com a qual devemos fazer nossos pedidos conhecidos a Deus. Em segundo lugar, as promessas foram expressas em declarações universais: Pois todo o que pede recebe; o que busca, encontra; e a quem bate, abrir-se-Ihe-á (v. 8).

Terceiro, Jesus exemplifica suas promessas através de uma singela parábola (vs. 9-11). Ele imagina uma situação com a qual todos os seus ouvintes devem estar familiarizados, isto é, uma criança achegando-se a seu pai com um pedido. Se ela lhe pede um pedaço de pão, receberá por acaso alguma coisa pare­cida com pão, mas na realidade nocivamente diferente? Por exemplo, uma pedra em lugar de pão, ou uma cobra em lugar de peixe? Isto é, se a criança pede alguma coisa sadia para comer (pão ou peixe), receberia alguma coisa prejudicial, que não pode ser comida (uma pedra) ou perniciosa (uma cobra venenosa)? Claro que não! Os pais, ainda que sejam maus, isto é, egoístas por natureza, amam os seus filhos e lhes dão boas dádivas. Observe que Jesus aqui admite, e até mesmo declara, ser o pe­cado inerente à natureza humana. Ao mesmo tempo, ele não nega que os homens maus sejam capazes de fazer o bem. Pelo contrário, pais maus dão boas dádivas a seus filhos, pois "Deus derrama em seus corações uma porção de sua bondade".397 O que Jesus está dizendo é que, mesmo quando estão fazendo o bem, seguindo os nobres instintos da paternidade e cuidando dos seus filhos, mesmo assim não escapam à designação de "maus", pois é o que os seres humanos são.

Portanto, a força da parábola jaz mais no contraste do que na comparação entre Deus e os homens. É um outro argumento a fortiori ou "com tanto mais razão": se os pais humanos, em­bora sendo maus, sabem dar boas dádivas a seus filhos, quanto mais o nosso Pai celeste, que não é mau, mas totalmente bom, dará boas cousas aos que lhe pedirem? (v. 11). "Pois o que po­deria ele deixar de dar agora aos filhos quando pedem, uma vez que já lhes garantiu exatamente isto, a saber, que podem ser seus filhos?".398 Não há dúvida de que as nossas orações são transformadas quando nos lembramos de que o Deus de quem nos aproximamos é "Abba, Pai", e infinitamente bom e gentil.

O Professor Jeremias demonstrou a novidade deste ensino de Jesus. Ele escreve que, com a ajuda dos seus assistentes, exa­minou cuidadosamente "a literatura relacionada com a oração dos judeus antigos, literatura grande e rica, muito pouco explo­rada", mas que "em lugar nenhum dessa imensa literatura encontrou esta inovação de Deus como Abba . . . Abba era uma palavra de uso diário, uma palavra conhecida em família. Nenhum judeu teria se atrevido a dirigir-se a Deus desta ma­neira. Jesus o fazia sempre . . . e autoriza seus discípulos a repe­tirem a palavra Abba depois dele".399 O que poderia ser mais simples do que este conceito de oração? Se pertencemos a Cristo, se Deus é nosso Pai, somos seus filhos, e a oração é a apresen­tação que lhe fazemos de nossos pedidos. O problema é que, para muitos de nós, a coisa parece simples demais, até mesmo simplista. Em nossa sofisticação, dizemos que não podemos crer nisso, e de qualquer modo isso não corresponde absolutamente à nossa experiência. Assim, voltamo-nos das promessas de Cristo sobre a oração para os nossos problemas com a oração.


b. Os problemas que se criam

Diante das promessas diretas de Jesus, Pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e achareis; batei, e abrir-se-vos-á, são levantadas diversas objeções que precisam ser consideradas agora.


1. A oração é descabida. "Este incentivo a orar apresenta um quadro falso de Deus. Implica em que ele precisa ser informado do que precisamos ou intimidado a concedê-lo, quando o pró­prio Jesus disse antes que nosso Pai celeste sabe disso e não deixa de cuidar de nós. Além disso, é claro que ele não pode ser inco­modado com nossas trivialidades. Por que deveríamos supor que suas dádivas dependem de nossos pedidos? Será que os pais humanos esperam que seus filhos lhes peçam alguma coisa para depois suprir suas necessidades?"

A isto respondemos que Deus espera que lhe pecamos, não porque permaneça ignorante até que o informemos, nem porque seja relutante até que o persuadamos. O motivo relaciona-se conosco, não com ele; a questão não é se ele está pronto a dar, mas se nós estamos prontos a receber. Portanto, na oração, nós não "persuadimos" a Deus, mas antes persuadimos a nós mes­mos a nos submeter a Deus. É verdade que a linguagem "insistir com Deus" geralmente ê usada com referência à oração, mas é uma acomodação à fraqueza humana. Mesmo quando Jacó "prevaleceu em oração", o que realmente aconteceu é que Deus prevaleceu sobre ele, levando-o ao ponto da submissão quando ele se tornou capaz de receber a bênção que Deus tinha estado o tempo todo desejando dar-lhe.

A verdade é que o Pai celeste jamais mima seus filhos. Ele não nos cobre de presentes, quer o desejemos ou não, quer este­jamos prontos a recebê-los ou não. Pelo contrário, ele espera que nós reconheçamos as nossas necessidades, voltando-nos para ele com humildade. É por isso que ele diz: Pedi, e dar-se-vós-á, e Tiago acrescentou: "Nada tendes, porque não pedis".400 A oração, então, não é "descabida"; é exatamente a maneira que o próprio Deus escolheu para expressarmos a nossa cons­ciente necessidade e a nossa humilde dependência dele.
2. A oração é desnecessária. Esta segunda objeção surge mais da experiência do que da teologia. Cristãos sérios olham à volta e vêem uma porção de pessoas vivendo bem sem oração. Na realidade, parecem receber, sem oração, exatamente as mesmas coisas que nós recebemos com ela. Obtêm o que precisam tra­balhando, não orando. O fazendeiro consegue uma boa colheita trabalhando, não orando. A mãe consegue ter um filho através da técnica médica, não da oração. A família equilibra o seu orçamento por meio do salário do pai e talvez de outros, não pela oração. "Certamente" podemos nos sentir tentados a dizer "isto prova que a oração não faz a menor diferença; é perda de tempo".

Mas espere um pouco! Ao pensarmos nisso, é preciso dife­renciar entre as dádivas de Deus como Criador e suas dádivas como Pai, ou entre os dons da criação e os dons da redenção. É realmente verdade que ele dá certas coisas (colheita, filhos, alimento, vida), quer oremos ou não, quer creiamos ou não. Ele dá vida e respiração a todos. Ele envia chuva do céu e as estações do ano a todos. Ele faz o sol nascer para os maus e os bons igualmente.401 Ele "visita" uma mãe quando ela concebe e, mais tarde, quando ela dá à luz. Nenhum destes dons depende do conhecimento que as pessoas têm do seu Criador ou de orarem.

Mas os dons divinos da redenção são diferentes. Deus não concede salvação a todos, mas é "rico para com todos os que o invocam", pois, "todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo".402 O mesmo se aplica às bênçãos pós-salvação, as "boas dádivas" que Jesus diz que o Pai dá a seus filhos. Não são bênçãos materiais, mas espirituais: perdão diário, livra­mento do mal, paz, aumento de fé, esperança e amor; na verdade é a bênção completa de Deus na obra do "Espírito Santo" que habita em nós, que é, como Lucas traduz, as "boas dádivas" .403 Por esses dons certamente devemos orar.

A oração do Pai-Nosso, que Jesus ensinou um pouco antes, no Sermão, reúne as duas espécies de dádivas, pois "pão nosso de cada dia" é uma dádiva da criação, enquanto que "perdão" e "livramento" são dádivas da redenção. Por que, então, estão reunidas na mesma oração? Provavelmente a resposta é a se­guinte: oramos pelo pão de cada dia, não porque tememos mor­rer de fome (pois milhares de pessoas conseguem o seu pão de cada dia sem orar ou agradecer antes de comer), mas por sa­bermos que, em última análise, ele vem de Deus e porque, na qualidade de seus filhos, é apropriado que regularmente reco­nheçamos nossa dependência física dele. Entretanto, oramos pedindo perdão e libertação, porque estas dádivas só são con­cedidas em resposta à oração e porque sem elas estaríamos per­didos. Portanto, a oração não é desnecessária.


3. A oração é improdutiva. O terceiro problema é um corolário óbvio do segundo. Argumenta-se que a oração é desnecessária, porque Deus dá aos que não pedem, e é improdutiva, porque ele deixa de dar a muitos que o fazem. "Eu orei para passar no exame, mas não passei. Eu orei para ser curado de uma enfer­midade, e fiquei pior. Eu orei pela paz, mas o mundo está cheio de rumores de guerra. A oração não funciona!" Este é o problema familiar da oração não respondida.

A melhor forma de resolver este problema é lembrar que as promessas de Jesus no Sermão do Monte não são incondicionais. Um pouco de meditação e ficaremos convencidos disso. É absur­do supor que a promessa "Pedi, e dar-se-vos-á", seja uma ga­rantia absoluta, sem condições; que "Batei, e abrir-se-vos-á" seja um "Abre-te, Sésamo" para todas as portas fechadas, sem exceção; e que ao agitar da varinha mágica da oração todo desejo se realizará e todo sonho se concretizará. A idéia ê ridícula. Isto transformaria a oração em magia, e transformaria a pessoa que ora em um mágico igual a Aladim, e ainda Deus em nosso servo, que apareceria instantaneamente quando o chamássemos, como o gênio que sempre apareceu quando Aladim esfregava a sua lâmpada. Além disso, este conceito de oração abalaria qual­quer cristão sensível se soubesse que poderia obter tudo o que pedisse. "Se fosse assim", escreve Alec Motyer, "que tudo o que pedíssemos Deus fosse obrigado a conceder, então eu nunca mais haveria de orar, pois não teria confiança suficiente em minha própria sabedoria para pedir alguma coisa a Deus; e penso que você vai concordar comigo por pensar assim. Seria um fardo intolerável para a frágil sabedoria humana se, através de suas promessas relacionadas com a oração, Deus estivesse obrigado a conceder tudo o que pedimos, quando o pedimos e exatamente nos termos em que pedimos. Como poderíamos agüentar um fardo desses?"404

Talvez pudéssemos apresentar o assunto assim: sendo bom, nosso Pai celeste só concede boas dádivas a seus filhos; sendo sábio, ele sabe quais dádivas são boas e quais não são. Aca­bamos de ouvir que Jesus disse que os pais humanos nunca da­riam uma pedra ou uma cobra a seus filhos quando estes lhes pedissem pão ou peixe. Mas, e se os filhos (devido a ignorância ou loucura) realmente lhes pedissem uma pedra ou uma cobra? O que fariam? Duvidamos que até mesmo um pai extremamente irresponsável atendesse ao pedido de seu filho, mas a grande maioria dos pais seria bastante sábia e amorosa para não aten­der. Certamente nosso Pai celeste jamais nos daria alguma coisa que pudesse nos prejudicar, ainda que a pedíssemos com urgên­cia e insistência, pelo simples motivo de ele dar a seus filhos "boas dádivas". Portanto, se pedimos coisas boas, ele no-las dá; se pedimos coisas que não são boas (não boas em si mesmas, ou não boas para nós ou outras pessoas, direta ou indiretamente, imediata ou posteriormente) ele no-las nega; e somente ele sabe a diferença. Podemos agradecer a Deus porque o seu atendi­mento às nossas necessidades é condicional, não depende apenas de pedir, buscar e bater, mas também de se o que desejamos, pedindo, buscando e batendo, é bom. Graças a Deus, porque ele atende a oração. Graças a Deus, que às vezes também não a atende. "Dou graças a Deus", escreve o Dr. Lloyd-Jones, "que ele não esteja pronto a conceder tudo que eu possa lhe pedir . . . Estou profundamente grato a Deus por não me conceder certas coisas que lhe peço, e por fechar determinadas portas na minha cara" 405
c. As lições que aprendemos

A oração parece ser uma coisa muito simples, quando Jesus fala sobre ela. Simplesmente Pedi. . ., buscai. . ., batei. . ., e, em qualquer caso, receberemos a resposta. Não obstante, é uma simplicidade ilusória; há muita coisa por detrás dela. Primeiro, oração pressupõe conhecimento. Considerando que Deus só concede dádivas de acordo com a sua vontade, temos de esmerar-nos em descobri-la — pela meditação nas Escrituras e pelo exer­cício da mente cristã disciplinada nessa meditação. Segundo, oração pressupõe fé. Uma coisa é conhecer a vontade de Deus; outra é nos humilharmos diante dele e expressarmos a nossa confiança em que ele é capaz de executar a sua vontade. Terceiro, oração pressupõe desejo. Podemos conhecer a vontade de Deus e crer que ele pode executá-la, e ainda assim não desejá-la. A oração é o principal meio ordenado por Deus para a expres­são de nossos mais profundos desejos.406 E por isso que a ordem de "pedir — buscar — bater" está no imperativo presente e em escala ascendente, para desafio de nossa perseverança.

Assim, antes de pedir, precisamos saber o que pedir e se está de acordo com a vontade de Deus; temos de crer que Deus pode concedê-lo; e precisamos genuinamente desejar recebê-lo. Então, as graciosas promessas de Jesus se realizarão.
4. Nossa atitude para com todos os homens (v. 12)

Tudo quanto, pois, quereis que os homens vos façam, assim fazei-o vós também a eles; porque esta é a lei, e os profetas.

A lógica do "pois" ou "portanto" (oun), com o qual este versí­culo começa, não está clara. Talvez se refira ao versículo anterior e signifique que, se Deus é bom para com todos que o buscam em oração, seus filhos devem ser igualmente bons para com todos. Ou talvez se refira à verdade anterior, à ordem não jul­gueis, e esteja retomando o argumento subjacente contra a con­denação e a hipocrisia. Em qualquer caso, parece que Jesus enunciou este princípio em diferentes ocasiões e em diferentes contextos, pois, na versão do Sermão feita por Lucas, vem ime­diatamente após os três pequenos camafeus que ilustravam o mandamento de amar os nossos inimigos.407 Certamente, tal amor é inatingível, a não ser pela graça de Deus. É, na verdade, o seu próprio amor e é uma das "boas dádivas" que ele nos dá através do seu Santo Espírito em resposta às nossas orações.408 Diversos comentaristas têm discutido o fato de a Regra Áurea se encontrar de forma semelhante, ainda que sempre negativa, em outros lugares. Confúcio, por exemplo, leva o crédito de ter dito: "Não faça aos outros o que você não quiser que lhe façam"; e os estóicos tinham uma máxima quase idêntica. Nos apócrifos do Velho Testamento encontramos: "Não faça a ninguém o que você mesmo odiaria."409 E parece que isto foi o que o Rabi Hillel citou, por volta de 20 a.C, quando um futuro prosélito pediu que lhe ensinasse toda a lei no espaço de tempo em que ele con­seguisse ficar de pé numa perna só. Seu rival, o Rabi Shammai, fora incapaz, relutando em responder, e o mandara embora. Mas o Rabi Hillel respondeu: "O que você achar odioso, não o faça a ninguém. Esta é toda a lei; o restante não passa de comen­tário. "410

Sendo este o exemplo mais conhecido do suposto paralelismo entre o Talmude judaico e o Sermão do Monte, um comentário mais detalhado seria apropriado. Alguns foram ao ponto de declarar que tudo que se encontra no Sermão também se en­contra no Talmude, e muitas coisas mais. O Professor Jeremias reage deste modo: "O fato é exatamente este: que no Talmude 'há muitas coisas mais', e que é preciso procurar os grãos no meio de muita palha, os minguados grãos dourados que possam ser comparados às palavras do Sermão do Monte."411 Alfred Edersheim, que escreveu no final do século passado, foi ainda mais franco. Ele concorda que há "sagacidade e lógica, vivacidade e presteza, sinceridade e zelo" no Talmude mas, ao mesmo tempo, há uma verdadeira "contradição de espírito e substância" entre ele e o Novo Testamento. Na verdade, "como um todo, não só é totalmente desprovido de espiritualidade, como também é antiespiritual".412

Voltando à Regra Áurea, realmente há uma enorme diferença entre o aforismo negativo e até relutante de Hillel ("Não faça aos outros o que for odioso a você") e a iniciativa positiva contida na instrução de Jesus ("Faça aos outros o que você quer que lhe façam"). Mesmo assim, pode parecer que é um padrão bastante baixo, como "Ame o seu próximo como a si mesmo". Mas, na verdade, é um padrão elevado, porque o amor-próprio é uma força poderosa em nossas vidas. Edersheim chamou este amor ao próximo de "a aproximação mais achegada ao amor absoluto da qual a natureza humana é capaz".413 Mas também é um prin­cípio ético notavelmente flexível. A nossa própria vantagem freqüentemente nos orienta em nossos próprios negócios; pois deve também nos orientar em nosso comportamento para com os outros. Tudo que temos a fazer é usar a nossa imaginação, colocar-nos no lugar da outra pessoa e perguntar: "Como gostaria eu de ser tratado em tal situação?" Como o Rev. Ryle escreveu: "Isto esclarece uma centena de pontos difíceis . . . Evita a necessidade de estabelecer uma infinidade de pequenas regras para a nossa conduta em casos específicos."414 Realmente, é um princípio de aplicação tão ampla, que Jesus poderia dizer: pois esta é a lei e os profetas. Isto é, qualquer pessoa que oriente a sua conduta para com os outros de acordo com o que gostaria que fosse a conduta dos outros para consigo, cumpriu a lei e os profetas, pelo menos na questão do amor,ao próximo.415

Percebemos, no início deste capítulo, que a contracultura cristã não é simplesmente um sistema de valores e um estilo de vida individuais, mas uma questão de comunidade. Envolve relacionamentos. E a comunidade cristã é, em essência, uma família, a família de Deus. Provavelmente os dois elementos mais fortes de nossa consciência cristã sejam a percepção de Deus como nosso Pai e a de nossos companheiros cristãos como irmãos e irmãs em Cristo, sem jamais nos esquecermos da nossa responsabilidade para com aqueles que estão fora da família e que ansiamos que sejam introduzidos nela.

Portanto, em Mateus 7:1-12, Jesus apresentou-nos os relaciona­mentos básicos. No centro está nosso Pai celeste, Deus, do qual nos aproximamos, de quem dependemos e que nunca dá a seus fi­lhos outra coisa que não sejam boas dádivas. Logo a seguir, vêm os nossos companheiros de crença. E a anomalia de um espírito de condenação (que julga) e de um espírito hipócrita (que vê o cisco apesar da trave), é que é incompatível com a fraternidade cristã. Se nossos companheiros cristãos são verdadeiramente nos­sos irmãos e irmãs no Senhor, é inconcebível que não sejamos in­teressados e construtivos em nossa atitude para com eles.

Quanto àqueles que estão fora da família, há o caso extremo dos "cães" e "porcos", mas não são típicos. Há um grupo excep­cional de pessoas obstinadas que se comportam como "cães" e "porcos", poderíamos dizer, em sua rejeição decisiva de Jesus Cristo. Relutantemente temos de abandoná-las. Mas, se o versí­culo 6 é uma exceção, o versículo 12 é uma regra, a Regra Áurea. Ela transforma as nossas atitudes. Se nos colocarmos sensitiva­mente no lugar de outra pessoa, desejando-lhe o que gostaríamos para nós mesmos, jamais seremos maus, porém sempre gene­rosos; jamais rudes, mas sempre compreensivos; jamais cruéis, mas sempre bondosos.



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