Contracultura Cristã



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Mateus 6:7-15
O oração do cristão:
não mecânica, mas refletida


E, orando, não useis de vãs repetições, como os gentios, porque presumem que pelo seu muito falar serão ouvidos. 8Não vos assemelheis, pois, a eles; porque Deus, o vosso Pai, sabe o de que tendes necessidade, antes que lho peçais. 9Portanto, vós orareis assim:

Pai nosso que estás nos céus,

santificado seja o teu nome;

10 venha o teu reino,
faça-se a tua vontade,


assim na terra como no céu;

11 o pão nosso de cada dia dá-nos hoje;

12 e perdoa-nos as nossas dívidas,

assim como nós temos perdoado aos nossos devedores

13 e não nos deixes cair em tentação;

mas livra-nos do mal. 14 Porque se perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celeste vos perdoará; 15se, porém, não perdoardes aos homens (as suas ofensas), tão pouco vosso Pai vos perdoará as vossas ofensas.
A hipocrisia não é o único pecado a ser evitado na oração; as "vãs repetições", ou a falta de significado, a oração mecânica é o outro. O primeiro é a tolice dos fariseus, o último, a dos gentios ou pagãos (v. 7). A hipocrisia ê um abuso do propósito da oração, desviando-a da glória de Deus para a glória do ego; a verbosidade é um abuso da própria natureza da oração, rebaixando-a de um real e pessoal acesso a Deus a uma mera recitação de palavras.

Vemos novamente que o método de Jesus é pintar um con­traste vivo entre duas alternativas, a fim de indicar o caminho com mais clareza. Quanto à prática da piedade em geral, ele mostrou o contraste entre o modo de ser dos fariseus (cheios de ostentação e egoístas) e o do cristão (secreto e piedoso). Agora, quanto à prática da oração em particular, ele contrasta o modo pagão da loqüacidade sem significado com a maneira cristã, a comunhão significativa com Deus. Assim, Jesus está sempre chamando os seus discípulos para algo mais elevado que as reali­zações ou feitos daqueles que os cercam, quer sejam pessoas religiosas ou seculares. Ele enfatiza que a justiça do cristão é maior, por ser interior; que o amor cristão é mais amplo, porque inclui os inimigos; e que a oração cristã, por ser sincera e refle­tida, é mais profunda do que qualquer coisa encontrada na comunidade não-cristã.


1. O modo pagão de orar

Não useis de vãs repetições, como os gentios, diz ele (v. 7). O verbo grego battalogeõ é raro, não só na. literatura bíblica mas de um modo geral; nenhum outro uso da palavra se conhece além das citações deste versículo. Por isso, ninguém sabe ao certo de onde se deriva e qual é o seu significado. Alguns (como Eras­mo) "supõem que a palavra se deriva de Battus, um rei de Cirene, que diziam ser gago (como Heródoto); outros de Battus, um autor de poemas tediosos e prolixos".329 Mas isso é um pouquinho forçado. A maioria o considera como uma expressão onomatopéica, o som da palavra indicando o seu significado. Assim, battarizõ significa gaguejar; e qualquer estrangeiro cuja língua parecesse aos ouvidos gregos como uma interminável repetição da sílaba "bar" era chamado de bárbaros, um bárbaro. Batta­logeõ talvez seja algo semelhante. Assim, não estaríamos errados, se traduzíssemos: "Não fiquem tagarelando como os pagãos." A conhecida tradução (da ERAB) "não useis de vãs repe­tições", é enganosa, a não ser que fique claro que a ênfase foi colocada sobre "vãs" e não sobre "repetições". Jesus não podia estar proibindo toda repetição, pois ele mesmo repetiu sua ora­ção, notavelmente no Getsêmane, quando "foi orar pela terceira vez, repetindo as mesmas palavras";330 a perseverança e até mesmo a importunação na oração também foram recomendadas por ele. Antes, ele está condenando a verbosidade, especialmente daqueles que "falam sem pensar".331 Isto quer dizer: "não amontoem palavras vazias". A palavra descreve toda e qualquer ora­ção que só contenha palavras e nenhum significado, que só venha dos lábios e não do pensamento ou do coração. Battalogia fica explicado no mesmo versículo (v. 7) como polulogia, "muito falar", isto é, uma torrente mecânica de palavras sem signifi­cado.

Como aplicar a proibição de nosso Senhor aos dias de hoje? Certamente se aplica às "rodas de oração" e muito mais às "bandeirolas de oração" orientais, com as quais o vento, muito con­venientemente, faz a "oração". Penso que devemos aplicá-la à Meditação Transcendental, pois o próprio Maharishi Mahesh Yogi expressou pesar por sua errada escolha da palavra "medi­tação". A verdadeira meditação envolve o uso consciente da mente; mas a Meditação Transcendental é uma técnica simples e essencialmente mecânica para o relaxamento, tanto do corpo como da mente. Em lugar de estimular o pensamento, tem o intuito de levar a pessoa ao estado de completa tranqüilidade e inatividade.

Voltando da prática não-cristã para a prática cristã da oração, parece que a condenação de nosso Senhor certamente incluiria a reza com o rosário, com o qual nada acontece além do manejar das contas e do recitar de palavras, sendo que o rosário antes distrai do que faz a pessoa se concentrar na oração. Será que também se aplica à forma litúrgica de culto? Será que os simpa­tizantes do culto formal tradicional são culpados de battalogia? Sim, sem dúvida alguns o são, pois o uso de formas estabelecidas permite que se aproximem de Deus com os lábios, enquanto o coração está longe. Mas também é igualmente possível usar "palavras vazias" na oração improvisada e escorregar para o jargão religioso enquanto a mente vagueia. Resumindo, o que só então poderemos aproximar-nos de nosso amoroso Pai no céu com a devida humildade, devoção e confiança.

Além disso, quando nos tivermos dado ao trabalho de gastar algum tempo orientando-nos na direção de Deus, lembrando-nos do que Deus é: nosso Pai pessoal, amoroso e poderoso; então o conteúdo de nossas orações será radicalmente afetado de duas formas. Primeiro, os interesses de Deus terão prioridade ("teu nome . . ., teu reino . . ., tua vontade"). Segundo, nossas pró­prias necessidades, embora colocadas em segundo plano, serão totalmente entregues a ele ("Dá-nos . . ., perdoa-nos . . ., livra-nos . . ."). Todos sabem que a oração do Pai-Nosso, nessas duas partes, está preocupada em primeiro lugar com a glória de Deus e, depois, com as necessidades do homem. Mas acho que foi Calvino332 o primeiro comentarista a sugerir um paralelo com os dez mandamentos, pois eles também estão divididos em duas partes e expressam a mesma prioridade: a primeira tábua esboça nossos deveres para com Deus, e a segunda, nossos deveres para com nosso próximo.

Os três primeiros pedidos na oração do Pai-Nosso expressam a nossa preocupação com a glória de Deus em relação ao seu nome, ao seu governo e à sua vontade. Se o nosso conceito de Deus fosse de alguma força impessoal, então, naturalmente, ele não precisaria ter um nome pessoal, governo ou vontade pelo qual devêssemos zelar. Repito, se pensássemos nele como "o máximo dentre de nós mesmos", ou como "a base de nosso ser", seria impossível distinguir entre as suas preocupações e as nossas. Mas se ele realmente é "nosso Pai que está nos céus", o Deus pessoal de amor e poder totalmente revelado em Jesus Cristo, o Criador de tudo, que se preocupa com as criaturas que criou e com os filhos que redimiu, então e só então se torna possível (na verdade, essencial) dar prioridade aos seus interesses e preo­cupar-se com o seu nome, com o seu reino e com a sua vontade. O nome de Deus não é uma simples combinação das letras D, E, U e S. O nome representa a pessoa que o usa, o seu caráter e a sua atividade. Portanto o "nome" de Deus é o próprio Deus, como ele é em si mesmo e se tem revelado. Seu nome já é "santo", porque é separado e exaltado acima de qualquer outro nome. Mas nós oramos que ele seja santificado, "tratado como santo", porque desejamos ardentemente que a devida honra lhe seja dada, isto é, àquele cujo nome representa, em nossas próprias vidas, na igreja e no mundo.

O reino de Deus é o seu governo real. Repetimos: como ele já é santo, também é Rei, reinando em soberania absoluta sobre a natureza e sobre a História. Mas quando Jesus veio, anunciou um aspecto novo e especial do governo real de Deus, com todas as bênçãos da salvação e as exigências de submissão que o go­verno divino implica. Orar que o seu reino "venha" é orar que ele cresça à medida que as pessoas se submetam a Jesus através do testemunho da Igreja, e que logo ele seja consumado com a volta de Jesus em glória para assumir o seu poder e o seu reino.

A vontade de Deus é "boa, aceitável e perfeita",333 pois é a von­tade de "nosso Pai que está nos céus", que é infinito em conhe­cimento, em amor e em poder. Portanto, resistir-lhe é loucura; e discerni-la, desejá-la e fazê-la é sabedoria. Assim como o seu nome já é santo e ele já é Rei, também a sua vontade está sendo feita "no céu". O que Jesus nos incita a orar é que a vida na terra se aproxime o mais possível da vida no céu, pois a expres­são na terra como no céu parece aplicar-se igualmente à santificação do nome de Deus, à propagação do seu reino e à con­sumação da sua vontade.

É comparativamente fácil repetir as palavras da oração do Pai-Nosso como se fôssemos papagaios (ou como "palradores" pagãos). Contudo, fazer esta oração com sinceridade tem impli­cações revolucionárias, pois expressam as prioridades do cristão. Estamos constantemente sob pressão para nos conformarmos ao egocentrismo da cultura secular. Quando isto acontece, fi­camos preocupados com o nosso próprio pequeno nome: gos­tamos de vê-lo gravado em relevo sobre os nossos papéis de carta, ou aparecendo nos cabeçalhos dos jornais, ou de defendê-lo quando é atacado. Também nos preocupa o nosso próprio pe­queno império (chefiando, "influenciando" e manipulando pessoas para fomentarem o nosso ego), e a nossa própria vontade tola (sempre desejando as coisas a seu modo e se aborrecendo quando frustrada). Na contracultura cristã, todavia, nossa prio­ridade máxima não está no nosso nome, no nosso reino ou na nossa vontade, mas em Deus. Fazer tais petições com integri­dade é um teste para sondar a realidade e a profundidade de nossa profissão de fé cristã.

Na segunda metade da oração do Pai-Nosso, o adjetivo pos­sessivo passa de "teu" para "nosso", quando passamos das coisas divinas para as nossas próprias. Tendo expressado nossa ardente preocupação com a sua glória, expressamos agora nossa hu­milde dependência da sua graça. Quando compreendemos ver­dadeiramente que o Deus a quem oramos é o Pai celeste e o grande Rei, colocamos nossas necessidades pessoais em lugar secundário e subsidiário, sem, contudo, eliminá-las. Deixar de mencioná-las na oração (alegando que não queremos aborrecer a Deus com tais trivialidades) é um grande erro, como também o seria deixar que elas dominassem nossas orações. Visto que Deus é "nosso Pai que está nos céus", e que nos ama com amor de pai, ele está preocupado com o bem-estar total de seus filhos e deseja que lhe apresentemos as nossas necessidades de ali­mento, de perdão e de livramento do mal, confiando nele.

O pão nosso de cada dia dá-nos hoje. Alguns comentaristas do passado não conseguiam crer que Jesus pretendesse que nosso primeiro pedido fosse literalmente o pão, pão para o corpo. Parecia-lhes impróprio, especialmente depois dos três nobres pedidos iniciais pela glória de Deus, que pudéssemos descer tão abruptamente a uma preocupação tão mundana e material. Por isso alegorizavam a petição. Diziam que o pão a que ele se referia devia ser espiritual. Os primitivos pais da Igreja, tais como Tertuliano, Cipriano e Agostinho, pensavam que a referência era ao "pão invisível da Palavra de Deus"334 ou à Ceia do Senhor. Jerônimo traduziu, na Vulgata, a palavra grega usada para "cada dia" com o monstruoso adjetivo "supersubstancial"; ele também se referia à Santa Comunhão. Devemos ser agrade­cidos pelo entendimento maior, equilibrado e bíblico dos refor­madores. O comentário que Calvino fez sobre a espiritualização dos pais da igreja foi: "Isto é extremamente absurdo."335 Lutero teve a sabedoria de ver que "pão" era um símbolo de "todas as coisas necessárias para a preservação desta vida, como o ali­mento, a saúde do corpo, o bom tempo, a casa, o lar, a esposa, os filhos, um bom governo e a paz"336 e, provavelmente, deve­ríamos acrescentar que com "pão" Jesus quis se referir às neces­sidades e não aos luxos da vida.

O pedido para que Deus nos "dê" o nosso alimento não im­pede, é claro, que as pessoas ganhem a sua própria vida, que os agricultores tenham de arar, semear e colher a fim de fornecer os cereais básicos, nem nos isenta da ordem de nós mesmos alimentarmos os famintos.337 Pelo contrário, é uma expressão de dependência máxima de Deus, que normalmente usa meios humanos de produção e de distribuição através dos quais ele realiza os seus propósitos. Mais ainda, parece que Jesus queria que seus discípulos tomassem consciência de uma dependência diária. O adjetivo epiousios em "pão nosso de cada dia" era tão completamente desconhecido dos antigos que Orígenes pensava que os evangelistas o tivessem criado. Moulton e Milligan são da mesma opinião nesta nossa geração.338 Provavelmente deveria ser traduzido por "deste dia de hoje" ou "do dia seguinte".339 Seja qual for a forma correta, é uma oração pelo imediato e não pelo futuro distante. Como A. M. Hunter comenta: "Feita de manhã, esta oração pede o pão para o dia que está começando. Feita à noite, pede o pão de amanhã."340 Assim, devemos viver um dia de cada vez.

O perdão é tão indispensável à vida e à saúde da alma como o alimento para o corpo. Por isso, o pedido seguinte é: Perdoa-nos as nossas dívidas. O pecado é comparado a uma "dívida", porque merece o castigo. Mas quando Deus perdoa o pecado, ele cancela a penalidade e anula a acusação que há contra nós. A adição das palavras como nós temos perdoado aos nossos devedores está mais enfatizada nos versículos 14 e 15, que se seguem à oração e declaram que o nosso Pai nos perdoará se perdoarmos aos outros, mas não nos perdoará se nos recusarmos a perdoar aos outros. Isto certamente não significa que o per­dão que concedemos aos outros garante-nos o direito de sermos perdoados. Antes, Deus perdoa somente o arrependido, e uma das principais evidências do verdadeiro arrependimento é um espírito perdoador. Quando nossos olhos são abertos para ver­mos a enormidade de nossa ofensa cometida contra Deus, as injúrias dos outros contra nós parecem, comparativamente, muitíssimo insignificantes. Se, por outro lado, temos uma visão exagerada das ofensas dos outros, é uma prova de que dimi­nuímos muito a nossa própria. A disparidade entre o tamanho das dívidas é o ponto principal da parábola do credor incompassivo.341 Sua conclusão é: "Perdoei-te aquela dívida toda (que era imensa) . . .; não devias tu, igualmente, compadecer-te do teu conservo, como também eu me compadeci de ti?" (v. 33).

Os dois últimos pedidos deveriam talvez ser entendidos como os aspectos negativo e positivo de um único pedido: Não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do mal. O pecador cujo mal praticado no passado foi perdoado anseia ser libertado de sua tirania no futuro. O sentido geral do pedido é claro. Mas dois problemas se levantam. Primeiro, a Bíblia diz que Deus não nos tenta (na realidade, não pode nos tentar) com o mal.342 Portanto, que sentido tem orar que ele não faça o que já pro­meteu nunca fazer? Alguns respondem a esta pergunta inter­pretando "tentação" como "provação", com a explicação de que, embora Deus jamais nos induza ao pecado, ele prova nossa fé e caráter. Isto é possível. Uma explicação melhor parece-me que é entender "não nos deixes cair" à luz de sua correlativa "mas livra-nos", e o "mal" deveria ser traduzido por "o maligno" (como em 13:19). Em outras palavras, é o diabo que está sendo considerado, que tenta o povo de Deus a pecar, e do qual precisamos ser "livrados" (rusai).

O segundo problema refere-se ao fato de que a Bíblia diz serem a tentação e a provação duas coisas boas para nós: "Meus ir­mãos, tende por motivo de toda a alegria o passardes por várias provações" ou "tentações".343 Se elas são benéficas, por que deveríamos orar para que não ficássemos expostos a elas? A resposta provável é que a oração é mais no sentido de podermos vencer a tentação do que de a evitarmos. Talvez poderíamos parafrasear todo o pedido assim: "Não permitas que sejamos induzidos à tentação que nos possa derrotar, mas livra-nos do maligno". Assim, por trás dessas palavras que Jesus nos deu para orar, encontramos a implicação de que o diabo é forte demais para nós, que somos fracos demais para enfrentá-lo, mas que o nosso Pai celeste nos livrará se o invocarmos.

Os três pedidos que Jesus coloca em nossos lábios são magnificamente completos. Incluem, em princípio, todas as nossas necessidades humanas: materiais (o pão de cada dia), espirituais (perdão de pecados) e morais (livramento do mal). O que faze­mos, sempre que proferimos esta oração, é expressar nossa de­pendência de Deus em cada setor da vida humana. Além disso, um cristão trinitário é levado a perceber nestes três pedidos uma alusão velada à Trindade, uma vez que é através da criação do Pai e da sua providência que recebemos o nosso pão de cada dia, e é através da morte expiatória do Filho que recebemos o perdão, e através do poder do Espírito que habita em nós que somos livrados do maligno. Não nos causa admiração que alguns manuscritos antigos (embora não os melhores) terminem com a doxologia, atribuindo a este Deus triúno "o reino e o poder e a glória", os quais somente a ele pertencem.

Parece, portanto, que Jesus deu a Oração do Pai-Nosso como modelo da verdadeira oração, da oração cristã, diferenciando-a das orações dos fariseus e dos pagãos. Na verdade, qualquer pessoa poderia recitar o Pai-Nosso hipócrita ou mecanicamente, ou de ambas as formas. Mas, se pensamos no que dizemos, então a oração do Pai-Nosso é a alternativa divina para as outras duas formas da falsa oração.

O erro dos hipócritas é o egoísmo. Até mesmo em suas orações estão obcecados com a sua própria imagem e com o efeito que ela produzirá naqueles que os observam. Mas, na oração do Pai-Nosso, os cristãos estão obcecados com Deus: com o seu nome, com o seu reino e com a sua vontade, não com o$ nossos nomes, reinos e vontades. A verdadeira oração cristã sempre consiste numa preocupação com Deus e sua glória. Portanto, é exatamente o oposto do exibicionismo dos hipócritas, que usam a oração como veículo de sua própria glória.

O erro do pagão é a irracionalidade. Ele simplesmente pros­segue tagarelando suas palavras litúrgicas sem significado. Ele hão pensa no que está dizendo, pois sua preocupação ê com o Volume, não com o conteúdo. Mas Deus não se deixa impres­sionar com verborragia. Em oposição a esse disparate, Jesus nos convida a levarmos ao conhecimento de nosso Pai celeste, com ponderação humilde, todas as nossas necessidades, expressando, assim, nossa dependência diária dele.

Assim, a oração cristã contrasta com as alternativas não-cristãs. É teocêntrica (preocupada com a glória de Deus), em contraste com o egocentrismo dos fariseus (preocupados com a Sua própria glória); e é inteligente (expressão de uma depen­dência racional), em contraste com as recitações mecânicas dos pagãos. Portanto, quando nos aproximamos de Deus para orar, não o fazemos hipocritamente como os atores de teatro, que buscam o aplauso dos homens, nem mecanicamente como os pagãos tagarelas, cujo pensamento não acompanha os seus balbucios; devemos fazê-lo de forma racional, humilde e confiante, como criancinhas diante de seu pai.

Veremos que a diferença fundamental entre os diversos tipos de oração está nas imagens fundamentalmente diferentes de Deus que há por trás deles. O erro trágico dos fariseus e dos pagãos, dos hipócritas e dos que não conhecem a Deus está na falsa imagem que têm de Deus. Na verdade, nenhum deles pensa realmente em Deus, pois o hipócrita pensa apenas em si mesmo, enquanto que o pagão pensa em outras coisas. Que tipo de Deus Seria este que poderia interessar-se por tais orações egoístas ou Sem sentido? Será Deus um utensílio que podemos usar para fomentar o nosso próprio status, ou um computador que pode­mos alimentar mecanicamente com as nossas próprias palavras? Voltemo-nos destas noções desonrosas, com alívio, para o ensinamento de Jesus, que disse ser Deus o nosso Pai que está no céu. Precisamos nos lembrar de que ele ama seus filhos com a mais terna afeição, que ele vê os seus filhos até no lugar secreto, que ele conhece os seus filhos e todas as suas necessidades antes que eles lhas apresentem, e que ele age em benefício dos seus filhos com o seu poder celestial e real. Se permitirmos que as Escrituras formem assim nossa imagem de Deus, se nos lem­brarmos do seu caráter e cultivarmos sua presença, jamais ora­remos com hipocrisia mas sempre com integridade, nunca meca­nicamente mas sempre racionalmente, como filhos de Deus que somos.



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