Congresso agrícola do rio de janeiro de 1878, educaçÃo e sociedade



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CONGRESSO AGRÍCOLA DO RIO DE JANEIRO DE 1878, EDUCAÇÃO E SOCIEDADE

Elenita C. P. Manchope,

UNIOESTE
Este estudo procura realizar uma discussão em torno do debate educacional presente no Congresso Agrícola do Rio de Janeiro, realizado na Província do Rio de janeiro, em 18781, por solicitação do Governo. Pretende também expor a sua correlação com os fatos históricos do período e, finalmente ressaltar a relação entre o tipo de educação difundida e as necessidades postas pela sociedade brasileira naquele momento.

O processo de independência política do Brasil operou-se num momento em que o pensamento liberal se fazia presente na Europa e nas Américas. O Brasil é um dos últimos países americanos a adquirir sua independência. As idéias liberais como o livre comércio, o liberalismo político, a liberdade de trabalho passam a influenciar muitos pensadores brasileiros na busca de se construir uma nação forte e rica.

A Revolução Francesa e a Revolução Industrial exerciam ainda grande influência sobre o pensamento dos homens públicos e pensadores, trazendo-lhes novas perspectivas de governo, de comércio, de organização social e de educação. A Revolução Industrial provocou a substituição do capitalismo comercial pelo capitalismo industrial, o surgimento do grande número de fábricas, o aceleramento da mecanização, a modernização da produção e da força de trabalho.

Diante deste cenário internacional o Brasil vive a preocupação de construir como nação, ao mesmo tempo que busca garantir o mercado para seus produtos. Naquele momento o país vivia uma situação específica: ao mesmo tempo que se valorizava a livre concorrência no mercado exterior, a economia agrícola tradicional brasileira passava por uma crise diante da concorrência das colônias antilhanas da Holanda, Inglaterra e França, uma situação complexa diante do contexto do comércio internacional, dada a impotência interna em reestruturar-se com a falta de capitais, a ausência de renovação das técnicas, a carência de mão-de-obra, etc.

A crise da economia açucareira leva o país a procurar novas culturas de produção. Com a queda do açúcar no mercado externo, ocorre a crise do nordeste brasileiro açucareiro e o floresce o centro sul como o novo eixo econômico cafeeiro.

Já na segunda metade do século XIX o panorama brasileiro difere muito da primeira metade. Enormes são as transformações nos mais diversos setores; o café assume a liderança nas exportações. Segundo Virgilio Noya Pinto "A modernização do Brasil se faz sentir através das estradas de ferro, do sistema bancário, da introdução da maquinaria e do relativo desenvolvimento industrial".2 Todas estas transformações impõem à sociedade brasileira a necessidade de reformular o sistema educacional tanto no sentido quantitativo como qualitativo. Quantitativo no que se refere a necessidade de ampliar o número de escolas diante do aumento populacional. Qualitativo porque diante do processo modernizador novas formas, novos conteúdos educacionais passaram a ser exigidos pela sociedade brasileira.

A partir de 1850 a educação passa por um período de realizações, no entanto, restritas, em sua maioria ao município da Corte. Estas realizações se referem a criação da Inspetoria Geral de Instrução Primária e Secundária do Município da Corte, destinada a fiscalizar e orientar o ensino público e particular (1854); o estabelecimento de normas para o exercício da liberdade de ensino e um sistema de preparação do professor primário (1854), a reformulação dos estatutos do Colégio de Preparatórios tomando por base os programas e livros adotados nas escolas oficiais (1854), a reformulação dos estatutos da Academias de Belas Artes (1855), a reorganização do Conservatório de Música e reformulação dos estatutos da aula de comércio da Corte.

Tais realizações, não eram suficientes para suprir as necessidades da nação, portanto, continua neste período a preocupação com a expansão da rede escolar, tanto no aumento do número de escolas como em melhorias da qualidade dos professores para nelas atuar.


"(..) em 1868 reconhecia-se que era cada vez mais necessário aumentar o número de escolas, melhorar a situação dos institutores e exigir deles uma instrução mais ampla. Constata-se, com certo espanto, que o número de crianças que freqüentam as escolas públicas representa apenas 1% da população, enquanto que em outros países, esta proporção eleva-se a 16 ou 17%. A idéia da criação de escolas noturnas para adultos e menores que trabalham durante o dia começa a ganhar corpo e atinge as esferas sociais." ALMEIDA: 1989:1143
As escolas para meninos e meninas4, deveriam ser mantidas pelo governo central, adotando o método Lancasteriano5, sistema de monitoria para solucionar a falta de professores. Graças a essa lei algumas escolas foram fundadas nas províncias determinando uma melhora no aspecto quantitativo do ensino elementar, com relação à situação anterior.

É forte neste período a defesa da instrução pública. O ministro e conselheiro José Liberato Barroso dizia em seu relatório de 1865 que a instrução pública deveria ser, em todos os países o objeto fundamental do interesse governamental.

A partir de 1840 inicia-se um novo processo de mudanças na sociedade brasileira, decorrente do desenvolvimento da lavoura cafeeira; a produção do café representa novas relações estabelecidas na sociedade brasileira, devido ao desenvolvimento progressivo de novas relações de trabalho, desembaraçando-se pouco a pouco do elemento escravo. A lavoura cafeeira alicerça o surto demográfico e leva à urbanização ao interior, as cidades passam a ser pólos dinâmicos do crescimento capitalista. Ela promove uma reorganização do sistema de trabalho urbano, fazendo surgir novas categorias econômicas de relativa importância (comércio, artesanato, serviços, inclusive públicos). Neste período também aumenta a construção de estradas de ferro, fundação de bancos, inauguração da primeira linha telegráfica, aumento das importações de máquinas e um certo desenvolvimento das atividades industriais. Parece-nos que são estas novas relações de trabalho, econômicas, sociais e políticas é que irão "determinar" os novos rumos para a educação formal em nosso país.

No período de 1860 a 1890 a iniciativa particular se organiza e são fundados importantes colégios, sobretudo católicos (inclusive de jesuítas, que retornam 80 anos após sua expulsão) e alguns protestantes, demonstrando uma tendência diferente daquela que se implantava no resto do mundo, em que a educação se laicizava cada vez mais. Entre nós ao contrário predominava a ideologia católica. Mas, há também algumas iniciativas não religiosas, como é o caso da Sociedade Culto à Ciência de Campinas. Neste sentido, é oferecida não só a alternativa da educação leiga como também estudo das ciências, geralmente menosprezado pela tradição predominantemente humanística.

Apesar das grandes mudanças econômicas e políticas anunciadas anteriormente, o país nas últimas três décadas do século XIX continua dependente da economia agroexportadora. Este tipo de organização da economia brasileira faz "crescer" entre a elite o ideal de criar cada vez mais condições de desenvolvimento para fazer frente a concorrência externa. Neste mesmo contexto percebe-se insistentemente entre os discursos políticos a idéia de que a educação poderia ser o elemento responsável pelo crescimento da economia.

Na década de 70 do século XIX, entre algumas facções da elite brasileira aumenta ainda mais a preocupação com a transição do trabalho escravo para o trabalho livre. Na tentativa de conduzir esse processo de forma pacífica, sem prejuízos políticos e econômicos, volta a preocupação com a educação, pois acreditava-se que através dela pudessem resolver esta transição. A idéia de educar o trabalhador nacional como uma possibilidade de suprir a falta de braços é muito presente em alguns discursos dos congressistas participantes do Congresso Agrícola do Rio de Janeiro, em 1878.

Os congressistas, que defendiam a imigração européia, acreditavam que o Brasil não oferecia atrativos para que esse imigrante permanecesse no país. Portanto o Brasil necessitava alterar a legislação, permitir a liberdade de culto religioso, instituir o casamento civil, permitir a naturalização e em conseqüência, a igualdade de direitos políticos, bem como garantir a escolarização de seus filhos, fato que já era realidade nos países centrais, ou seja, garantir a educação para todos.

Outros congressistas defendiam que, no período de transição, fossem utilizados os trabalhadores asiáticos; alguns tinham preferência pelo trabalhador nacional, mas todos levantavam a necessidade da educação ser a mediação para o trabalho.

As discussões sobre as transformações no processo do trabalho trazem as reflexões sobre a educação do povo: a preocupação era entender quem substituiria o escravo, ou melhor dizendo, como o novo homem seria educado. Ao analisar os discursos do Congresso Agrícola percebe-se que alguns congressistas acreditavam que o imigrante europeu poderia substituí-lo, por se tratar de uma raça civilizada; outros achavam que não se interessariam pelo trabalho na lavoura, como assalariado, pois traziam em suas malas o sonho de tornar-se proprietários, cabendo ao governo brasileiro incentivar a criação de colônias agrícolas para que pudesse educar ingênuos, filhos de escravas e órfãos para o trabalho.

Sr. Alfredo Silveira da Mota ao responder ao questionário do governo sugere a criação de um banco especial para financiar a lavoura, o incentiva à imigração, apontando a necessidade da construção de estradas de ferro e rodagem e outras intervenções:
“As necessidades mais urgentes da lavoura são capitais e braços. 2- O modo efficaz de supprir essas duas faltas é a creação de bancos de crédito nas capitaes das províncias com caixas filiais nas comarcas ruraes, para empréstimos à lavoura a juro baixo, amortização relativa e longo prazo. 3- A immigração pela immigração. 4- Há depressão do crédito agrícola. 5- Convém decretar-se a grande naturalização sem restricções dos seus effeitos civis e políticos: a liberdade de cultos e o casamento civil facultativo. 6- A secularização dos cemiterios sob a administração das municipalidades, e o registro cilvil dos nascimentos e obitos devem ser executados. 7- Reforma das leis de locação de serviços, adoptando-se de preferencia o systema do salário. 8- Os ingenuos não podem constituir elemento de trabalho permanente. 9- Comunicação facil por meio de estradas de ferro e rodagem. 10- Redução de direitos de exportação para a principal industria nacional, e diminuição das tarifas nas estradas de ferro. 11- intrução principalmente agrícola, creando-se estabelecimentos nas comarcas ruraes. Extinção do trafego de escravos de uma para outra província.
O Sr.. Candido Barreto de Souza Faria defende a lavoura pois é dela que se tira os meios de subsistência e o engrandecimento da nação. O que mais aflige a lavoura é a falta de braços, a falta de capital e a falta de lei que regularize o trabalho a fim de aproveitar o trabalhador nacional. Quanto aos filhos de escravos defende a idéia de que servirão para o trabalho na lavoura se forem educados para tal função.6

Este agricultor entende que é preciso educar os filhos de escravos numa perspectiva de moralização do indivíduo para o trabalho livre. A preocupação deste agricultor como de outros congressistas é também com relação às mudanças tecnológicas que estão se processando na sociedade, pós-Revolução Industrial, pois uma nova forma de produção está sendo desenvolvida nos países mais adiantados. Aparece em vários momentos a necessidade de se processar melhoramentos na agricultura com a introdução de máquinas na lavoura e há preocupação com conhecimentos dos tipos de solo. Estes novos conhecimentos devem ser "ensinados" aos novos trabalhadores para que assim pudessem aumentar a produção e resolver a falta de braços; a falta de braços seria suprida com a introdução da máquina, bem como com a utilização destas com o devido conhecimento.

A impressão que se tem ao ler o discurso do Sr. Toledo Lessa é que este participante do congresso tem os olhos voltados para o futuro capitalista. Ao discorrer sobre a educação dos homens naquele período sugere que o ensino profissional seja difundido entre todas as classes, não com vistas de produzir sabios enfatuados, mas sim homens de vida real e prática.7 Para ele, a exemplo de outros países mais desenvolvidos, o governo brasileiro deveria criar estes cursos profissionais e mantê-los. A observação que faz-se do comentário deste agricultor é com relação ao tipo de educação necessária. Na verdade ele faz um crítica, implicitamente, do tipo de educação que formava homens sábios, com o domínio da oratória, um bom filósofo. Sua crítica recaía na questão de que estes conteúdos de nada serviriam para resolver problemas da vivência do agricultor. Ao que tudo indica ele está apontando para uma nova tendência da educação do período, ou seja, uma educação que tenha como conteúdos os conhecimentos elaborados pela ciência positiva.

Os lavradores do Porto Feliz e Capivary - SP, tendo como representante o Sr. Dr. Cesario N. de A. M. Magalhães Junior, respondem que as necessidades da lavoura em sua localidade são as mesmas que em todas as outras: capital, braços e instrução. Confirmando o que já mostramos anteriormente, estes agricultores também colocam como necessidade principal a instrução. Magalhães Junior, afirma ainda que apesar de toda riqueza existente no Brasil, se não houvesse incentivo à instrução agrícola profissional estaríamos sempre em atraso. A concepção de progresso deste lavrador está ligada a introdução das máquinas na produção e na formação de especialistas em agronomia e zootecnia:


“... é forçoso progredir; crear este elemento indispensável para o crédito agrícola, a capacidade profissional: Formar núcleo de especialistas que analysem terras, sementes, etc..., e determinem as relações de conveniencia reciprocas; a ordem em que as plantas se devem succeder; os meios de conservar e melhorar os animaes indispensaveis à lavoura (zootechnia); que ensinem e demonstrem as vantagens de outras culturas, além das que temos, e o meio de tornal-as, como em outros paizes, fontes de grandes rendas; que experimentem e modifiquem as machinas agricolas, para cujo fabrico temos a inexhaurivel, mas tão pouco aproveitada, fabrica de ferro da nema. Formação de professores: Creem-se institutos que formem professores; fazendas modelos em que elles se exercitem e onde os lavradores possam ir ver os progessos realizados; fundem-se escolas municipaes, onde esses professores ensinem theoricamente; fazendas-escolas em que façam os alumnos praticar.8
Magalhães Junior preocupa-se também com a educação dos órphãos e ingênuos para torná-los úteis à sociedade. Atribui às províncias a responsabilidade na criação de institutos normais e aos municípios a responsabilidade em ofertar o ensino primário para que o Brasil possa realizar os melhoramentos necessários à sociedade.

A preocupação com a educação naquele período, estava ligada em primeiro lugar com a questão da formação de mão-de-obra, e num segundo momento aparece também a preocupação com a formação do cidadão, o que não ocorre separadamente.

O Sr. Ireneo Francisco de Souza e Silva é de opinião que existem braços para trabalhar na lavoura mas que faz-se necessário que o governo incentive a educação agrícola especializada para ingênuos e órfãos e que crie leis que os obrigue ao trabalho.
“A condição essencial a resolver é a instrucção agricola nas escolas primárias, por meio de cursos apropriados. Os ingênuos, filhos de escravas, serão sem duvida para o futuro uma forte alavanca para a agricultura, si os obrigarmos à educação agrícola especialmente.”p.41
Para os os Lavradores de Baependy a necessidade mais urgente e imediata da lavoura é a educação pública.
“ Uma solida educação moral, religiosa, civica, intellectual e profissional, por meio da qual não só a lavoura com seus recursos actuaes de braços e capitaes, conseguirá a dupla vantagem de augmentar melhorando seus productos, como ainda adquirirá milhões de operarios ociosos no paiz, uns, os camponezes, em quasi barbaria, outros, os índios, em completa barbaria, e que neste triste estado pouco ou nada trabalham, porque habituaram-se ao pouco e mesmo à miseria, e porque imersos na ignorancia, não consideram o trabalho sob seu verdadeiro aspecto – como uma lei da natureza humana e uma necessidade social. p.54

A educação é entendida como fonte de progresso e civilização, através da educação estes lavradores acreditavam poder transformar o destino da nação. Ao tratar do ensino primário colocam como necessidade urgente preparar os professores, logo sugere a criação de escolas normais.


“Para derramar um bom ensino primario por toda a superficie do paiz, sera preciso organizar um numeroso e habilitado professorado, e portanto creear escolas normaes em quantidade sufficiente, bem como melhorar a condição dos professores públicos.”p.57
As necessidades da criação da escola normal aparecem nestes discursos, no entanto ao que nos parece não é a criação de uma escola normal qualquer, haja visto que elas há haviam sido criadas desde o início do século XIX, em diversas províncias. Para este seguimento da sociedade a necessidade da criação da escola normal está atrelada ao processo de reformulação das já existentes ou da criação de outras que contemplem o novo conteúdo exigido pela realidade vivida pela sociedade brasileira. Quando este agricultor sugere a criação de escolas normais está se referindo a escolas preparadoras de professores para atuar nas escolas agrícolas.

Os lavradores da Freguesia da Lage defendem que o governo faça uma reforma na legislação para atrair a imigração estrangeira e resolver o problema da falta de braços. Apoiam a imigração asiática mas desde que sigam as leis inglesas. Colocam como causas da crise na lavoura essencialmente duas: falta de vias férreas e rodoviárias e instrução.

A companhia União dos Lavradores defende a idéia que as necessidades mais urgentes da lavoura são: instrução, braços livres, inteligentes e morigerados, capital a juros leves e máquinas aperfeiçoadas. Novamente a preocupação com a criação de novos hábitos através da educação.

A defesa da criação de escolas agrícolas para que o povo possa continuar garantindo a sua subsistência e a produção de riquezas está atrelada à idéia de que a grande lavoura promoveu o progresso do país nos moldes do passado, mas que para continuar sendo a mola do progresso deve se atualizar com relação aos conhecimentos científicos produzidos pelos homens. Esta idéia não está presente apenas entre os agricultores, o próprio ministro da agricultura em seu discurso no Congresso Agrícola afirmou que


"Na situação actual de nossa grande lavoura, quando uma profunda evolução social se opéra ;quando completamente se transformam as condições do trabalho rural; quando paizes analogos ao nosso, com produções similares, procuram progredir por todos os meios, mediante machinas e processos mais aperfeiçoados, que as sciencias - a chimica, a phisica e a mecanica - em suas variadas aplicações, tem posto ao serviço da industria agricola, conservamo-nos estacionarios no meio desse grande movimento, sem ao menos empenharmos os esforços a nosso alcance para evitar que enfraqueçam ou se estanque as fontes de produção nacional, seria, senhores, permitti-me dizel-o, não sómente um erro, mas um grave crime, perante o tribunal da geração vindoura." "a marcha da sociedade está, porém, sujeita a leis naturaes, que não podem ser alteradas sómente pela vontade dos homens; e, por em quanto, nas condições atuais do paiz, é força reconhecer, a grande propriedade tem sido, e continuará ainda por muitos annos a ser, a poderosa alavanca do nosso progresso em suas variadas manifestações - progresso moral, social, economico e politico." 9
Podemos destacar que todos os congressistas acima mencionados concebem a educação como responsável pelo desenvolvimento e progresso do país. Acreditavam que através da educação poderiam resolver os problemas enfrentados pela lavoura, sendo esta última a grande alavanca para colocar o país rumo ao seu pleno desenvolvimento, inserindo-o no processo de competição no mercado internacional.

O debate educacional no final do século XIX aponta que a educação do povo é um elemento fundamental na formação da cidadania e na criação da unidade nacional, no momento em que as disputas imperialistas acirravam-se mundialmente. Esse debate caminha em direção à necessidade de exigir a difusão da instrução primária e a criação de um sistema nacional de educação, à semelhança dos que vinham sendo criados nos países centrais.

A importância da educação e da criação do sistema nacional de ensino é uma constante. Esta questão instiga o debate sobre a formação dos professores para atuar neste novo contexto

O Inspetor Geral, M. Eusébio de Queiroz Coutinho Mattoso Câmara, em um de seus relatórios enviados ao Ministro do Império assim se expressa com relação a importância da criação de escolas normais:


"Se os estabelecimentos (de escolas normais) têm, como geralmente se diz, produzido poucos frutos para o ensino primário no Brasil, isto s deve sobretudo a tentativas mal dirigidas, a uma certa inexperiência prática que a um defeito inerente à instituição. Não se deve duvidar que uma escola normal bem organizada, provida de todos os elementos necessários, dirigida por um homem capaz, confiada a professores instruídos e inteligentes, submetida a sábios regulamentos não possa preparar os jovens de uma maneira conveniente para torná-los institutores capazes. As escolas que tinham necessidade de professores adjuntos poderiam imediatamente recrutá-los na Escola Normal; seria um estágio útil para aqueles que seriam escolhidos. Este estabelecimento poderia, em poucos anos, tornar-se um viveiro de institutores, não só para a capital, mas também para todas as províncias do império, que teriam o direito de enviar para lá seus alunos, mediante dotação proporcional, prevista no orçamento particular de instrução pública. Há aí uma idéia prática cuja realização completa seria um benefício para o país."10
A idéia do ensino primário obrigatório, a escola como sendo de direito de todos vem acoplada com os fins da educação: a erradicação da ignorância do povo, a preparação do trabalhador para a venda livre de sua força de trabalho. É dever e direito de Estado propiciar tal educação, intervindo, se necessário, para garantir a assiduidade aos bancos escolares.

A educação deveria servir para tornar os seres morais, inteligentes e sociais; uma nova realidade social pressupõe a necessidade de adaptar os indivíduos à novas condições e exigências da sociedade; a falta de instrução prejudicaria a sociedade; sem ela os homens se tornam ignorantes, imorais e criminosos, causando assim a desordem, o perigo e despesas para todos. A concepção de educação implícita nesta afirmação é a que a educação deve moldar os indivíduos para que estes pudessem viver em sociedade e promover o seu progresso. Estas idéias fazem parte dos ideais positivistas, que pregavam a ordem e o progresso e vislumbravam na educação escolar esta possibilidade

Pudemos observar que a criação da escola normal está atrelada ao processo de criação de escolas de primeiras letras, portanto aquela não pode ser discutida fora do contexto do surgimento desta. As questões como obrigatoriedade, publicização do ensino e a gratuidade são temas que irão nortear o debate entre educadores de diferentes posições e crenças, frente aos problemas de sua época.

Ao analisar os discursos educacionais do século XIX, percebemos que há uma grande distância entre a intenção e o gesto. Ou seja, encontramos tanto educadores como políticos defendendo a idéia de que a educação é importante para o desenvolvimento integral do ser humano, bem como para o progresso da nação, para possibilitar ao país a disputa com os países centrais. No entanto devidas as condições reais e concretas da sociedade brasileira, muito do que se teorizou não passou do papel. A falta de escolas, de professores formados e até mesmo a não disponibilidade da população para freqüentar as tão almejadas escolas de primeiras letras torna-se um empecilho para a realização dos projetos de criação e reformas destas escolas e sucessivamente das escolas normais.



BIBLIOGRAFIA


  • ALMEIDA, José Ricardo Pires de. História da Instrução Pública no Brasil (1500-1889) História e Legislação. Tradução de Antonio Chizzotti. São Paulo: EDUC ; Brasília, DF: INEP/MEC,1989.

  • CONGRESSO AGRÍCOLA DO RIO DE JANEIRO. 1, 1878: Rio de Janeiro. Anais... Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1988, FCRB.

  • MOACYR, Primitivo. A Instrução e o Império. Subsídios para a História da Educação no Brasil. 1823-1853. São Paulo: Companhia Editora Nacional,1936.

  • VERÍSSIMO, José. A Educação Nacional. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1985.

  • VILLELA, Heloisa Oliveira. A primeira Escola Normal no Brasil In: NUNES, Clarice (org.). O passado sempre presente. São Paulo: Cortez, 1992.

  • XAVIER, Maria Elizabete Sampaio Prado. História da Educação: a escola no Brasil / Maria Elizabete Sampaio Prado Xavier, Maria Luisa Santos Ribeiro, Olinda Maria Noronha – São Paulo: FTD, 1994. – Coleção Aprender & Ensinar.



1 Este congresso realizaou-se em 1878, na Província do Rio de Janeiro. O governo convocou os agricultores das províncias de São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo e Minas Gerais para discutir os problemas enfrentados pela lavoura no período, enviando-lhes um questionário que deveria ser respondido antes da realização do evento. No congresso foram levantados os problemas e também elaboradas algumas propostas para amenizar os mesmos.

2 PINTO, Virgílio Noya. Balanço das transformações econômicas no século XIX. In MOTA, Carlos Guilherme. Brasil em perspectiva. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995: 145

3ALMEIDA, José Ricardo Pires de. História da Instrução Pública no Brasil (1500-1889) História e Legislação. Tradução de Antonio Chizzotti. São Paulo: EDUC ; Brasília, DF: INEP/MEC,1989


4 Uma lei de 22 de março de 1823 aprovou a fundação de um estabelecimento de instrução para moças (Colégio das Educandas), cuja direção e administração foi confiada ao bispo do Rio de Janeiro. Porém no seu relatório de 1832, o Ministro do Império constata, com pesar, que as escolas de meninas são pouco frequentadas. Não é de se espantar, porque desde há muito, os pais não querem que suas filhas aprendam a ler, sob o pretexto de que a instrução de uma mulher deve-se limitar aos serviços domésticos e à costura. A estatística oficial de 1832 elenca, em todo o império, 162 escolas de meninos e 18 de meninas, estas escolas estavam estabelecidas no Rio de Janeiro e na província da Bahia, Pernambuco, Mato Grosso, Goiás, Pará, Piauí, e São Pedro do Rio Grande do Sul.

5 O sistema de ensino mútuo, recebe esta denominação devido a Joseph Lancaster, seu criador. Reconhecido na Europa desde o século XVI, é introduzido na educação brasileira em 1827. De acordo com este método os alunos de toda uma escola se dividiam em grupos que ficam sob a orientação imediata dos alunos mais adiantados, os quais instruem os colegas na leitura, escrita, cálculo e catecismo do mesmo modo que foram ensinados pelo mestre. Esses alunos auxiliares eram denominados monitores. Além dos monitores há na classe outro funcionário importante: o inspetor, que se encarrega de vigiar os monitores, de entregar e recolher os utensílios de ensino, e de apontar ao professor os que devem ser premiados ou corrigidos. Este era um método planejado para solucionar o problema da educação popular com quantidade insuficiente de professores. Segundo este método haveria apenas um professor por escola e, para cada grupo de dez alunos haveria um aluno menos ignorante que ensinaria aos demais.

6 Congresso Agrícola do Rio de Janeiro, 1988: 33

7 op. cit 34

8 op. cit.38

9 Op. cit. 125/126.

10 ALMEIDA, J.R.P. História da instrução pública no Brasil (1500-1889) História e Legislação. Tradução de io. São Paulo: EDUC ; Brasília, DF: INEP/MEC, 1989.







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