Conferências quaresmais na Sé do Porto, Março de 2012 2ª Conferência



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Conferências quaresmais na Sé do Porto, Março de 2012

2ª Conferência

A primeira evangelização foi sobretudo a dos mártires – os apóstolos também o foram -, testemunhas absolutas da novidade evangélica, finalizando com esta as suas vidas, ícones perfeitos da plena realização em Cristo. Valha por todos este magnífico testemunho de Santo Inácio de Antioquia, bispo da Síria e prisioneiro a caminho de Roma, no princípio do século II, pedindo aos cristãos da capital do Império para não intercederem a seu favor, desejoso que estava de se realizar pascalmente - e tão pascal como humanamente.

É um dos textos mais espantosos da primeira época cristã, tão surpreendente ainda hoje como o terá sido para os cristãos de Roma quando o receberam:

“Escrevo a todas as Igrejas e asseguro a todas elas que estou disposto a morrer de bom grado por Deus, se vós não o impedirdes. […] Prefiro morrer em Cristo Jesus a reinar sobre todos os confins da terra. Procuro Aquele que morreu por nós; quero Aquele que ressuscitou por nossa causa. Estou prestes a nascer. Tende piedade de mim, irmãos. Não me impeçais de viver, não queirais que eu morra. Não me entregueis ao mundo, a mim que desejo ser de Deus, nem penseis seduzir-me com coisas terrenas. Deixai-me alcançar a luz pura. Quando lá chegar serei verdadeiramente um homem. Deixai-me ser imitador da paixão do meu Deus. […] O meu Amor está crucificado e não há em mim fogo que se alimente da matéria. Mas há uma água viva que murmura dentro de mim e me diz interiormente: ‘Vem para o Pai’. […] Não vos escrevi segundo a carne mas segundo o Espírito de Deus. Se padecer o martírio, ter-me-eis amado, se me rejeitarem, ter-me-eis querido mal” (SANTO INÁCIO DE ANTIOQUIA – Carta aos Romanos 4,1-2; 6,1; 8,3).

Foi neste ímpeto que o cristianismo se expandiu, absolutamente pascal (cf. Fl 3, 13-14: “… uma coisa faço: esquecendo-me daquilo que está para trás e lançando-me para o que vem à frente, corro em direção à meta, para o prémio a que Deus, lá do alto, nos chama em Cristo Jesus”). Impôs-se como proposta de vida finalizada em Cristo, morto e ressuscitado, vida plena enfim. Quem aderia, renascia num baptismo que implicava mudança total de vida e critério, pois passava a existir em Cristo e a partir de Cristo, que o mesmo é dizer a partir do fim, atraindo tudo e todos a essa mesma existência, ultimada também. A viver do fim para o princípio e não ao contrário, como naturalmente seria e insiste em ser.

A religiosidade popular, podendo ser abertura, fecha-se muito em si própria, tornando-se assim em problema. Fixa-se na terra, no sangue e nos mortos e resiste demasiadamente ao apelo dos “novos céus e nova terra” (cf. Ap 21, 1), em que Cristo nos quer introduzir: aí, porque “a cidade a que pertencemos está nos céus” (cf. Fl 3, 20); aí, porque os laços de sangue dão lugar à família larga “dos que fazem a vontade do Pai” (cf. Mt 12, 50); aí, porque os nossos mortos são lembrados ou lembram-se de nós, mas precisamente em Deus, “que não é um Deus de mortos, mas de vivos!” (cf. Mc 12, 27).

A tarefa mais urgente e inadiável de toda a evangelização é transformar pelo Espírito a mera religiosidade em autêntica “piedade” (= vivência filial), naquela “água viva” que murmurava no coração de Inácio e lhe sussurrava constantemente “Vem para o Pai!”. Era essa a alma de Cristo, é este o segredo dos cristãos. É esta também a liberdade final de toda a criação, operada por corações livres de toda a concupiscência e cobiça e assim vencedores de qualquer desigualdade ou corrupção. Onde Deus é tudo há lugar para tudo e há espaço para todos. Sabia-o perfeitamente São Paulo, ao escrever: “Pois até a criação se encontra em expectativa ansiosa, aguardando a revelação dos filhos de Deus!” (Rm 8, 19).

Foi certamente com tal impulso que o cristianismo chegou ao nosso território diocesano, sabendo nós muito pouco dessa primeira fase. Nomes de santos, como Basileu, Ovídio, Quitéria ou Eufémia podem aludir-lhe, e é muito importante que o culto que prestamos a Deus com tais alusões nos lembre acima de tudo a opção decisiva que sempre nos propõe o Evangelho de Cristo.

O certo é que, com as grandes invasões do século V e o desaparecimento da estrutura imperial que enquadrava – e talvez já “instalasse” demais -, o cristianismo da 1ª evangelização, tudo precisou de ser retomado com uma nova proposição geral da fé, em resposta também a um condicionalismo social, cultural e político muito diferente. A cidade deu lugar ao campo, a organização episcopal foi-se subdividindo em pequenos núcleos paroquiais, o direito geral de tipo romano deu lugar às fidelidades particulares da sociedade germânica… Na Europa em geral – que a partir daí nascerá com o recorte continental que hoje tem – e no que nos toca mais em particular, tal significou especialmente a evangelização por monges missionários, como São Martinho de Dume e os seus companheiros (segunda metade do século VI), o domínio suevo-visigótico e a primeira menção segura de bispos do Porto (585)[1] .

De São Martinho guardamos um precioso texto, muito revelador do que pretendia com a evangelização ou reevangelização que protagonizava entre nós. Trata-se duma homilia padrão, remetida ao bispo de Astorga nos anos setenta daquele século, com tudo o que de essencial havia a anunciar ou a lembrar, tanto a pagãos como a cristãos paganizados…

A leitura de algumas passagens evidencia-nos quer a permanência querigmática do cristianismo essencial, quer a dificuldade que este sempre encontra em manter-se vivo e ileso, quando a religiosidade popular o “adormece”, tornando-o quase em pintura acessória de muitos apegos ancestrais. Oiçamos Martinho, decididamente tão actual no século XXI como o foi no século VI:

“Após o dilúvio, de novo o género humano foi restabelecido pelos três filhos de Noé, preservados juntamente com suas mulheres. E, como começasse a crescer a multidão, os homens, esquecendo-se outra vez de Deus, criador do mundo, abandonaram o criador e começaram a prestar culto às criaturas. Uns adoravam o sol, outros a lua ou as estrelas, uns o fogo, outros a água profunda ou as fontes de água, julgando que todas estas coisas não tinham sido criadas por Deus para os homens delas se servirem, mas que elas próprias, criadas por si mesmas, eram deuses” (MARTINHO DE BRAGA, De correctione rusticorum, 6, p. 109-111). “Como é que alguns de vós, que renunciaram ao demónio e aos seus anjos, e aos seus cultos e às suas obras más, agora voltam ao culto do diabo? Pois acender velinhas a pedras, a árvores e a fontes e pelas encruzilhadas, o que é isso senão culto ao diabo? Observar adivinhações, augúrios e dias dos ídolos, que outra coisa é senão cultuar o diabo? […] Do mesmo modo pusestes de lado o encantamento sagrado que é o símbolo que no batismo recebestes e que é Creio em Deus Pai omnipotente e a oração dominical, i. é, Pai nosso que estás nos céus, e atendes-vos a encantamentos e ensalmos do diabo. Quem quer que despreze o sinal da cruz de Cristo e volte a olhar para esses sinais, já perdeu o sinal da cruz que recebeu no batismo” (ibidem, 16, p. 121). “Deus, pois, espera por penitência. Esta é, porém, a verdadeira penitência: que o homem nunca mais cometa os erros que cometeu, mas peça indulgência para os pecados anteriores e se acautele quanto ao futuro para não voltar a eles, mas, antes, pelo contrário, pratique as boas obras e dê esmola aos pobres…” (ibidem, 17, p. 123). “Sede assíduos a orar a Deus, na igreja ou em locais dedicados aos santos. O dia do Senhor, que, por isso mesmo se chama domingo, dado que o Filho de Deus, Nosso Senhor Jesus Cristo, nele ressuscitou dos mortos, não o desrespeiteis mas cultuai-o com reverência. Trabalho servil, i. é, cuidar do campo, do prado, da vinha, ao menos enquanto se trata de trabalho pesado, não o façais em dia de domingo […]. No dia do Senhor é permitido ir a sítios próximos, mas não para ocasiões de pecado, antes de boas ações, como seja, ir a locais santos, visitar um irmão ou amigo, assistir um doente ou levar um bom conselho a um atribulado ou ajuda para boa causa” (ibidem, 18, p. 123).

Eis então o programa da 2ª evangelização que tivemos: não trocar o Criador pelas criaturas; enunciar e viver realmente o Credo e o Pai Nosso; preencher o tempo a partir do Domingo, como verdadeiros discípulos do Ressuscitado (é também neste escrito que Martinho se insurge contra a denominação pagã dos dias da semana – da Lua, de Marte, de Mercúrio, etc); entre culto e trabalho, caridade sempre.

Reparemos ainda que os principais protagonistas desta “nova evangelização” da Alta Idade Média são monges missionários, que fundam comunidades escatológicas e irradiantes. Escatológicas, porque a condição monástica os fazia “viver a partir do fim”; irradiantes, porque, onde se estabeleciam, criavam culto e cultura, dando à sociedade envolvente finalidade, ritmo e ordenação ideal da vida. Como aconteceu com São Martinho, sucessivamente bispo-abade de Dume e arcebispo de Braga, muitos destes monges presidiram também às Igrejas locais.

Os séculos XII e seguintes viram outra Europa: crescimento demográfico, animação comercial, capitalização e re-urbanização, foram, entre outros, os factores determinantes. Desafiavam também a Igreja que havia, quer alargando o fosso entre ricos e pobres, quer requerendo (con)figurações novas para o Evangelho de sempre.

Já não podiam ser os monges, entretanto fixados e de raiz campestre, a dar o rosto mais expressivo à 3º evangelização da Europa e do nosso território em particular. No século XIII e seguintes, o cristianismo subsistente foi sobretudo interpelado por novos evangelizadores que apareciam, em grupos itinerantes – como itinerante fora o de Jesus de Nazaré – escatológicos também, porque tinham “deixado tudo”; e pregando onde fosse, no campo ou nas cidades, fixando-se geralmente nestas, mas saindo de novo e voltando ou não.

Refiro-me aos “mendicantes”, discípulos de Francisco de Assis ou Domingos de Gusmão, além de outros. Mendicantes por viverem de esmolas, enquanto não se bastassem por trabalho próprio. Mendigos sobretudo da misericórdia divina, que também por eles passaria, para chegar às necessidades alheias.

Não foi fácil a implantação dos mendicantes no Porto. Ilustrando com os franciscanos, chegaram a Portugal ainda em vida do “Pobrezinho de Assis” e encontraram bom acolhimento em almas devotas, mesmo na corte, e no povo simples, especialmente urbano. Foi gente do Porto que os convidou a fixarem-se aqui, por 1233. Encontraram resistência na sé, que era então a única paróquia da cidade: a adesão e os apoios que os frades suscitavam transtornariam decerto os hábitos e as rendas do costume…[2].

Do que pregavam os frades dá boa notícia a primeira regra franciscana, como o próprio Francisco a estabeleceu em 1221:

“Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Ámen. Esta é a vida que o irmão Francisco pediu ao Senhor papa Inocêncio lhe concedesse e aprovasse. E ele lha concedeu e aprovou, para si e para os irmãos presentes e futuros. […] A regra e vida dos irmãos é esta, a saber: Viver em obediência, em castidade e sem nada de próprio; e seguir a doutrina e exemplo de nosso Senhor Jesus Cristo, que diz: - Se queres ser perfeito, vai e vende quando tens e dá o seu preço aos pobres, e terás um tesoiro no céu, e vem e segue-me…” (S. FRANCISCO DE ASSIS. Primeira Regra (1221), prólogo e 1º.Fontes Franciscanas. Braga: Editorial Franciscana, 1982, p. 122). E mais à frente: “Esta ou semelhante, a exortação e louvor que todos os meus irmãos, sempre que lhes aprouver, podem fazer aos homens, com a bênção do Senhor: Temei e honrai, louvai e bendizei, dai graças e adorai ao Senhor Deus omnipotente, na sua Trindade e Unidade, Pai e Filho e Espírito Santo, Criador de todas as coisas. Fazei penitência; dai frutos dignos de penitência, porque sabei que em breve havemos de morrer. Dai e dar-se-vos-á. Perdoai e sereis perdoados. E se não perdoardes aos homens as suas ofensas, o Senhor não vos perdoará a vós os vossos pecados. Confessai todos os vossos pecados. Bem-aventurados os que morrem na penitência, porque será deles o Reino dos Céus…” (ibidem, 21º, p. 136-137).

É fácil constatar que os elementos essenciais que já vimos nas duas anteriores campanhas evangelizadoras – a dos mártires e a dos monges – continuam bem presentes na proposta dos frades (franciscanos, dominicanos, agostinhos, carmelitas e outros, salvaguardando o específico de cada um): seguimento de Cristo, despojamento escatológico, profissão de fé, convite à conversão, caridade e perdão. E tudo isto em resposta e desafio a uma sociedade nova, que facilmente recaía em apegos velhos, pouco propensa a “deixar tudo”. A vida dos frades (= “irmãos”), devia constituir contraste e convite, aonde passassem ou assentassem, para um mundo fraterno, no louvor do mesmo Pai.

E o certo é que, com o tempo, não só diminuíram as resistências aos mendicantes, mas a própria sé foi sua, na pessoa de D. Frei Estêvão, franciscano e bispo do Porto entre 1310 e 1313. Bispo que tanta adesão obteve que a Câmara resistiu quanto pôde à sua transferência para outra diocese[3].



+ Manuel Clemente

Sé do Porto, 21 de Março de 2012



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