Como assinalado anteriormente, a adoção de um câmbio sobrevalorizado em um regime semi-fixo, no período de 1994 a janeiro de 1999, gerou déficits na balança comercial



Baixar 0,63 Mb.
Página1/9
Encontro14.11.2017
Tamanho0,63 Mb.
  1   2   3   4   5   6   7   8   9

Taxa de Câmbio e Balança Comercial no Brasil:

uma análise recente
Luiz Fernando de Paula*, Manoel Carlos de Castro Pires** e Tiago Rinaldi Meyer***

Resumo: Este artigo objetiva analisar a relação entre taxa de câmbio e outras variáveis econômicas, como demanda e preços relativos, e o comportamento da balança comercial no Brasil de 1995 a meados de 2008. Procura-se, em particular, entender dos determinantes do comportamento das exportações e das importações no período. Para tanto, realiza-se uma estimativa da elasticidade-renda das exportações e das importações, além de outras análises feitas a partir de estatística descritiva e indicadores econômicos. Os resultados apresentados mostram que as exportações respondem no período primordialmente a mudanças nos preços relativos e ao aumento no quantum exportado, tendo a perda de rentabilidade um efeito menor. No caso das importações, o seu crescimento tem sido determinando fundamentalmente pelo aumento na renda doméstica, em função da alta elasticidade-renda das importações da economia brasileira. Por fim, os resultados da estimação da função de importações desagregada por tipo de gasto doméstico mostram que não se pode atribuir tão-somente ao aumento no gasto dos investimentos a elevação nas importações, sendo importante (e crescente) a participação dos gastos em consumo em tal comportamento.

Palavras-chave: exportações, taxa de câmbio, economia brasileira

Abstract: This paper aims at analyzing the relationship between exchange rate (and other economic variables, such as demand and relative prices), and the behavior of the trade balance in Brazil since 1995 until mid-2008. In particular, it aims to understand the determinants of the behavior of exports and imports in the period analyzed. For this purpose, we estimate the income-elasticity of the exports and imports, and we also use some descriptive statistics and economic indicators. The findings show that exports are determined mainly by the changes in the relative prices and the increase in the exported quantum, while the fall of profitability has a small effect. In the case of imports, its growth has been determined mainly by the increase in the domestic income, due to the high income-elasticity of the Brazilian economy. Finally, the results of the estimation of the function of imports, disaggregated by the each component of private domestic expenditure, show evidences that we cannot attribute the increase of imports only to the rise of investments, as the relative share of consumption expenditures increases along the time.

Key-words: exports, exchange rate, Brazilian economy

JEL Classification: F14, F31, F40

Área 6 – Economia Internacional

1. Introdução
Após a implantação do Plano Real, houve períodos bastante distintos do ponto do comportamento da taxa de câmbio no Brasil. De 1995 ao início de 1999 o Brasil adotou um regime de câmbio semi-fixo (na realidade um sistema de crawling-peg), utilizado para propósitos de estabilização de preços. A partir de janeiro de 1999 o país adotou um regime de câmbio flutuante, sendo ora mais próximo de um câmbio totalmente flutuante ora mais próximo de uma flutuação suja. Neste segundo período é elevada a volatilidade da taxa de câmbio nominal. Por outro lado, o comportamento da taxa de câmbio real se manteve estável no período do Plano Real (mas que havia se apreciado fortemente no período de julho a setembro de 1994), passando por um movimento (bastante oscilatório) de desvalorização cambial até 2002, e a partir de 2003 até meados de 2008 observa-se um movimento de crescente apreciação da taxa de câmbio.

O comportamento da balança comercial respondeu em parte aos movimentos da taxa de câmbio real no período, sendo que em certos momentos esta variável foi fundamental para explicar o comportamento das exportações e importações e em outros momentos nem tanto, ou seja, houve a prevalência de outros fatores, como comportamento da renda mundial e doméstica, preços de produtos das exportações, etc. Destaca-se em particular o período de 2003 a meados de 2008 quando a despeito de uma tendência quase que contínua de apreciação cambial, o saldo da balança comercial cresceu no período.



O objetivo deste artigo é analisar a relação entre taxa de câmbio (e também de outras variáveis, como demanda e preços relativos) e balança comercial no Brasil de 1995 até meados de 2008. Procura-se, em particular, entender dos determinantes do comportamento das exportações e das importações no período. Para tanto, o artigo está dividido em 4 seções, além desta introdução. A seção 2 efetua um breve panorama da política econômica e o comportamento da balança comercial a partir da década de 1990. A seção 3 foca na relação entre taxa de câmbio e balança comercial. Já na seção 4 é feito uma análise econométrica de estimação da elasticidade-renda das exportações e das importações a partir de 1995, além de efetuar uma estimação da função de importações desagregada por tipo de gasto doméstico. A seção 5 conclui o artigo.
2. Política econômica e evolução da balança comercial: um panorama geral
Desde o começo da década de 1990 até 2008, o Brasil apresentou diferentes estratégias em relação a sua política econômica: no período 1990-1994 a política era baseada em um regime de câmbio crawling-peg passivo, com desvalorizações nominais diárias, que levava a uma taxa de câmbio real1 depreciada (Figura 1), além de juros reais altos; tais políticas geraram superávits na balança comercial e atraíram capital de fora do país, mas a inflação doméstica se mantinha bastante elevada. O período entre julho de 1994 e janeiro de 1999, onde vigorou o Plano Real, é caracterizado pelo uso de uma âncora nominal – inicialmente uma banda assimétrica dentro do qual o Banco Central determinava na prática a taxa de câmbio dentro de uma mini-banda em um sistema a la crawling-peg ativo2 - para fins de estabilização de preços e pela implementação de uma política monetária bastante apertada, que resultou em uma grande sobrevalorização cambial e o conseqüente déficit comercial, financiado por entrada de capitais externos. Esse período é também caracterizado pelo contágio de crises externas, em função da alta vulnerabilidade externa do país (déficit em conta corrente chega a 4% do PIB ao final de 1998), como as ocorridas no México, na Ásia e na Rússia3.
Figura 1: Taxa de Câmbio Real Efetiva

Nota: Taxa de Câmbio Efetiva Real – INPC – Exportações – índice (média 2000 = 100)



Fonte: IPEADATA
Conforme pode ser visto na Figura 2, durante os anos 1990, a balança comercial brasileira apresentou períodos de saldos baixos ou negativos (final de 1994 a meados de 2002) e períodos de elevados superávits (1991/94 e a partir de julho de 2002). No início da década, o saldo comercial registrou superávits de US$ 15,2 bilhões em 1992 e U$S 14,3 bilhões em 1993. Porém, após a implementação do Plano Real, verificam-se déficits como o de US$ 6,7 bilhões, em 1997 e US$ 6,6 bilhões, em 1998, em função do forte crescimento das importações.

Figura 2: Saldo da Balança Comercial, Exportações e Importações (US$ bilhões)

Fonte: IPEADATA


A implantação do Plano Real, em julho de 1994, e a combinação de fatores como estabilidade da moeda, apreciação da taxa de câmbio nominal, redução das tarifas e utilização de importações como forma de controle de preços domésticos são apontados como os principais fatores explicativos para o crescimento das importações e queda das exportações e, conseqüentemente, para a deterioração das contas externas no período 1994-1998. Após o contágio da crise mexicana, no início de 1995, o governo brasileiro adota um sistema de bandas cambiais, com intervenções diárias dentro de uma mini-banda informal. No geral, o governo realizava pequenas e sucessivas desvalorizações nominais no bojo de um sistema de crawling peg ativo. Com o contágio da crise russa em 1998, os movimentos de saída de capitais se intensificaram novamente. Após fracassar em suas tentativas de defesa contra as pressões especulativas sobre o Real, a autoridade monetária é obrigada a suspender o regime de câmbio administrado, adotando, a partir de então, um regime de câmbio flutuante em janeiro de 1999.

Após a crise cambial de janeiro de 1999, resultado entre outros fatores da elevada vulnerabilidade externa do país (déficit em conta corrente de 4,0% do PIB em 1998), o Brasil adotou um novo modelo de política econômica, baseado nas seguintes características: regime de câmbio flutuante, sistema de metas de inflação e geração de constantes superávits primários4, que resultaram em taxas de juros menores que no período anterior (1995-1998), mas ainda altas, além de uma grande volatilidade na taxa de câmbio. Após a mudança da política cambial em 1999, a taxa de câmbio nominal é caracterizada por uma alta volatilidade5 (Figura 3). Observam-se, em particular, intensos movimentos de desvalorização em 1999, 2001 e 2002. A partir de 2003 a trajetória da taxa de câmbio se inverte, passando a apresentar um movimento de apreciação. Em geral, os níveis de inflação têm sido maiores que o período anterior, enquanto que em 2002 houve uma notável melhora nas contas externas, devido ao aumento do superávit comercial, favorecido inicialmente pela desvalorização da moeda e posteriormente pelo crescimento da demanda e do nível de preços das commodities no mercado internacional.




  1   2   3   4   5   6   7   8   9


©livred.info 2017
enviar mensagem

    Página principal