Colégio cenecista nossa senhora do carmo: exame admissional e curso ginasial unaí, mg (1959 1971)



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COLÉGIO CENECISTA NOSSA SENHORA DO CARMO: EXAME ADMISSIONAL E CURSO GINASIAL - UNAÍ, MG (1959 - 1971)

Viviane Ribeiro

ribeirovivi@yahoo.com.br

Suelem Corrêa da Silva

suellenn_correa@hotmail.com

Instituto de Ensino Superior Cenecista – INESC
Palavras-chave:

1. Ginásio Nossa Senhora do Carmo 2. 5º ano admissional 3. Exames admissionais


1. INTRODUÇÃO
Trata-se de uma pesquisa sobre o colégio Cenecista Nossa Senhora do Carmo. Esta é a única escola confessional católica do município de Unaí, MG e sua criação foi uma resposta dos padres holandeses à escola paroquial presbiteriana que oferecia o curso pré-admissional para o ginásio.

O presente artigo é fruto de trabalho de conclusão de curso da aluna Suelem Corrêa da Silva do Curso de Pedagogia do INESC/Unaí,MG sob a orientação da Profa. Ms. Viviane Ribeiro. A monografia foi defendida em junho de 2010 e foi a primeira pesquisa em História da Educação realizada no Noroeste Mineiro. O objetivo foi investigar a história do Colégio Cenecista Nossa Senhora do Carmo, suas raízes, sua identidade cultural e educacional e sua relação com a do município de Unaí.

Neste trabalho analisa-se o contexto no qual a escola foi criada e sua participação e influência no crescimento do município buscando assim preservar sua história e a memória de seus idealizadores e fundadores. A pesquisa compreendeu o período de 1959, data de criação do Ginásio Nossa Senhora do Carmo com o funcionamento de duas turmas do 5º ano pré-admissional; à 1971 último ano de realização dos exames de admissão nesta escola.

Objetivou-se investigar o papel do Colégio Cenecista Nossa Senhora do Carmo na região do Noroeste Mineiro, através do estudo do contexto sócio-político-econômico e cultural no qual foi fundado e de suas características pedagógicas e educacionais; bem como relacionar o contexto unaiense no qual o Colégio surgiu com o contexto educacional brasileiro; analisar a importância do Colégio Cenecista Nossa Senhora do Carmo para a comunidade unaiense; evidenciar as contribuições da instituição para a sociedade e aprender as especificidades do curso ginasial e dos exames admissionais.

A pesquisa justificou-se pela ausência de estudos na área da História da Educação na região do Noroeste Mineiro e no município de Unaí-MG. O Colégio Cenecista Nossa Senhora do Carmo comemorou em 2009 cinquenta anos de história, visto que este fez parte do crescimento cultural, político e econômico do município. Nesse sentido, surgiram algumas inquietações sobre a trajetória desta instituição. Assim as questões de estudo para realização da pesquisa foram: Como se deu a criação e evolução do Colégio Cenecista Nossa Senhora do Carmo? Como o colégio influenciou o crescimento de Unaí no que tange aos aspectos, sociais, culturais, educacionais e econômicos? Quais as características do curso ginasial: exames, metodologia, currículo, corpo docente, perfil dos alunos?

O Colégio Cenecista Nossa Senhora do Carmo, a partir de sua criação em 1959, passou a oferecer o curso ginasial. Foi a primeira escola de Unaí onde funcionou o 5º ano adimisional. Este fato evitou que os pais mandassem seus filhos a outros lugares para completar os estudos. Os empresários, médicos, advogados e outras personalidades importantes do município estudaram ou fizeram parte da criação do colégio. E, apesar de ser uma instituição filantrópica, sempre se ocupou da formação da elite unaiense.


2. METODOLOGIA
Trata-se de uma pesquisa qualitativa. Esta pesquisa respeita a opinião do sujeito, sua participação no contexto da história como agente e modificador (NEVES, 1996, p. 3). A pesquisa qualitativa tem por objetivo traduzir e expressar o sentido dos fenômenos do mundo social; é uma forma de diminuir a distância entre teoria e dados, entre contexto e ação (MAANEM, 1979 apud NEVES, 1996). Além da pesquisa qualitativa foi realizado o levantamento bibliográfico acerca da História das Instituições Escolares, mediante a pesquisa da história do Colégio Cenecista Nossa Senhora do Carmo em Unaí - MG.

Partindo do pressuposto de que a história e a memória de uma instituição são importantes para a construção do futuro, a pesquisa na linha da História das Instituições Educacionais almeja dar conta dos vários atores envolvidos no processo educativo, investigando aquilo que aconteceu e está acontecendo no interior das escolas, possibilitando um conhecimento mais profundo destes espaços sociais destinados à educação. (GATTI JÚNIOR, 2000). Nessa perspectiva, não se privilegia apenas a visão do estado, mas também dos diversos atores sociais: os alunos, os professores, os pais e a sociedade.

Tudo que acontece dentro de uma instituição, interfere na sua história. Considerando que as instituições vão se aprimorando tanto no sentido pedagógico como no físico é importante que se conheça bem o passado para se (re) construir o presente. Pois o estudo das instituições escolares refere-se a todo o seu contexto. Para Magalhães (1996? p.2):
Compreender e explicar a existência histórica de uma instituição educativa é, sem deixar de integrá-la na realidade mais ampla que é o sistema educativo, contextualizá-la, implicando-a no quadro de evolução de uma comunidade e de uma região, é por fim sistematizar e (re) escrever-lhe o itinerário de vida na sua multidimensionalidade, conferindo um sentido histórico.
A História das Instituições busca encontrar um sentido para a existência da instituição através da sua vida decorrida. Para Magalhães trata-se de (1996, p.4) “um percurso investigativo onde a relação histórica das instituições educativas com o meio envolvente é, não obstante, uma via fundamental da construção do conhecimento”. O processo de investigação envolve as relações de comunicação e de poder, a memória individual e coletiva, a relação educativa. Para este autor as instituições educativas são como as pessoas, portadoras de uma memória que pode ser fabulosa em torno do heróico, ritualista e comemorativa. As instituições educativas transmitem uma cultura. Elas não deixam de produzir culturas são organismos vivos que vão se adaptando às mudanças do tempo. As instituições educativas encontram na sua clientela a sua verdadeira razão de ser no quadro geográfico local e, constituem planos financeiros e meios pedagógicos. Nesse sentido, a comunidade torna-se parte essencial, pois a instituição gira em torno dos alunos (MAGALHÃES, (1996?).

A pesquisa bibliográfica contou com o estudo das obras de Holanda (1981), Gomes (1981) e Silva (2001) sobre a história da CNEG/CENEC no Brasil e Gonçalves (1990) memorialista unaiense. A pesquisa documental foi realizada mediante análise de: Atas, Relatórios, Livros de Registro de Funcionários, Registro das Atividades Escolares e ainda dados de fundação da escola no município.

Para a pesquisa de campo foram realizadas entrevistas. O recurso à história oral se justifica, pois como assinala Thompson (1992, p. 137), “a evidência oral pode representar algo mais penetrante e mais fundamental para a história” na medida em que “transformando os objetos de estudo em sujeitos, contribui para uma história que não é só mais rica, mais viva e mais comovente, mas também mais verdadeira”.

A história oral busca dar espaço às manifestações da vida pessoal e cultural das pessoas é um estudo recente e muito dinâmico. Segundo THOMPSON (1992, p.25):


[...] os historiadores orais podem escolher exatamente a quem vão entrevistar e a respeito do que vão perguntar. A entrevista propiciará, também, um meio de descobrir documentos escritos e fotografias que, de outro modo não teriam sido localizados [...]. Isso deve contribuir para uma reconstrução mais realista do passado.
A necessidade da história oral se fundamenta no direito de participação social, e nesse sentido está ligada ao direito de cidadania. Além disso, ela é feita com sentimentos que aproximam o entrevistador do fato: “[...] é a humanização da vida social que amolece corações [...] de quantos aprendem que a história é feita pelas pessoas comuns, com sentimentos, paixões, idealizações, qualidades e defeitos” (SEBE, 2002, p.20.)

Com a pesquisa de campo pretendeu-se resgatar a história da instituição, sua evolução, construção e também sua identidade. As entrevistas possibilitaram uma aproximação com o passado e com as peculiaridades deste, considerando e respeitando a memória dos entrevistados.

Portanto, os procedimentos utilizados nesta pesquisa para coleta dos dados foram a pesquisa documental e a entrevista. Foram entrevistados: dois ex professores do exame de admissão, um ex professor do ginásio e primeiro secretário, um Frei da Ordem dos Carmelitas e ainda houve vários momentos de conversa informal com atual diretor da instituição que não concordou com a gravação da entrevista. Estas pessoas foram escolhidas de acordo com a necessidade de preenchimento das lacunas encontradas nos documentos.
3. A CNEC NO BRASIL: ORIGEM E DISSEMINAÇÃO
A participação de ações filantrópicas na história da humanidade no sentido de solucionar problemas que o governo não consegue resolver, está diretamente ligada às questões da pobreza. Esta perspectiva faz-se presente nos dias atuais e tomou uma proporção significativa em vários setores da sociedade, inclusive na área educacional.

A Campanha Nacional de Escolas da Comunidade - CNEC é um dos maiores movimentos de educação comunitária da América Latina. Foi criada em 29 de julho de 1943 em Recife - PE, e partiu do ideal de um grupo de estudantes universitários, liderados por Felipe Tiago Gomes.



Felipe Tiago Gomes nasceu no dia 1º de maio de 1921 na Paraíba. Em 1928, foi alfabetizado por sua irmã Francisca, de 1933 a 1935, estudou na Escola Pública de Picuí. Em 1936, ingressou no Colégio Pio XI em Campina Grande, Paraíba. Fundou e presidiu o Grêmio Lítero Cultural Humberto de Campos em Picuí, no ano de 1938. Concluiu o Curso Ginasial no Colégio Pio XI, em 1940. Em 1941 foi para o Ginásio Pernambucano em Recife e, no ano seguinte foi nomeado Secretário de Assistência da Casa do Estudante. Fundou a CGP - Campanha do Ginasiano Pobre, em Recife, em 1943, atual CNEC - Campanha Nacional de Escolas da Comunidade.
A Campanha do Ginasiano Pobre nasceu no terraço do 2º andar da casa do estudante de Pernambuco, no Derbi, bairro residencial daquela cidade, onde os jovens universitários se uniram para fundar o curso ginasial para o moço pobre. Assim, surgiu o nome Campanha do Ginasiano Pobre. Em 1948 passou a se chamar Campanha Nacional de Educandários Gratuitos (CNEG) (HOLANDA, 1981, p.7).
Como afirma Gomes (1994 apud Silva, 2001, p. 98):
Nós cogitamos e vamos fundar a Campanha para o “ginasiano pobre”. Um colégio. Uma casa nossa, como um amplexo acolhendo e ajudando todos os pobres que desejam fazer o ginásio. Um oásis para saciar a sede do “caminhoneiro” ávido de saber. Do moço pobre. Rôto. Sem livros e sem gravata. Nós venceremos. Não teremos somente a “arrancada”. Há mãos estiradas pedindo saber. Inteligências anônimas. Vocações atrofiadas. E nós iremos ao seu encontro. Estamos em luta.
Para ele, a
Escola Comunitária é organizada pela própria comunidade, portanto, é a escola de todos; a comunidade é a principal responsável pela sua manutenção; gestão democrática, configurando efetiva participação do povo; não visa a lucros, não distribui dividendos nem remunera seus dirigentes, e todos os excedentes financeiros são aplicados nos próprios objetivos; atuação pedagógica voltada para a educação integrada ao desenvolvimento comunitário. (apud, SILVA, 2001 p. 154)
A Campanha cresceu e houve a necessidade de providenciar um local apropriado para atender a demanda de alunos.
O primeiro Ginásio da CAMPANHA DO GINASIANO POBRE, surgiu a 1º de agosto de 1944 e foi solenemente instalado à Rua Aurora, 363, 1º andar - sede do Sindicato dos Contabilistas de Pernambuco - que cedeu uma sala para funcionamento do curso noturno. Não havia cadeiras nem carteiras. As aulas eram assistidas de pé (VERMELHO, PONTES, 1984, p.30).
O Ginásio mencionado recebeu o nome de “Castro Alves”. Depois de atravessar as turbulências do fim da guerra de 1945, o Ginásio Castro Alves passou a funcionar à noite no Colégio Oswaldo Cruz cedido pelo professor Aluízio Araújo (GOMES, 1981). Após a ampliação do Ginásio e da Campanha, através da disseminação pelos estados e municípios, a CNEG foi reconhecida pelo MEC pela Lei nº 525 de 1946. Gomes (1984) enfatiza que foi neste mesmo ano que a Campanha realizou a segunda Semana da Cultura Nacional. Esta foi um grande sucesso e contou com a participação de grandes conferencistas, entre eles, Gilberto Freire e José Otávio de Freitas Junior. Para Gomes (1981), estas semanas representavam o crescimento da campanha, sua cultura e forma de expressão, pois a:
[...] CNEG realizou a primeira Semana da Cultura Nacional em Pernambuco, nesta semana diversos professores e homens de cultura desenvolveram um excelente programa de arte. No primeiro aniversário da CNEG já era visível que o seu crescimento exigia estrutura e foi criada, assim, a primeira diretoria da qual fazia parte Felipe Tiago Gomes como 1º Conselheiro e Diretor de Boletim (VERMELHO, PONTES, 1984, p.38).
Nesse contexto, o país vivia as turbulências da Segunda Guerra Mundial, e os idealizadores da CNEC, vendo a necessidade e a carência dos operários e pessoas que não tinham acesso a escola, procuraram, então, lutar por uma forma de tornar real o ideal de educação para todos.

O Brasil vivenciava um momento de crescimento em todos os setores, principalmente na área da indústria. Segundo Silva (2001, p.38), “O objetivo desta educação popular era preparar mão-de-obra alfabetizada”. Com o crescimento da economia e da indústria os trabalhadores precisavam se preparar para novos cargos e funções, a educação desses operários significaria um crescimento imprescindível na economia. E foi com essa visão que foram sendo criadas instituições de ensino pelo país. A expansão se deu devido à grande procura e à questão política, pois a CNEC surgiu no momento em que o Estado Novo colocava o Brasil sob uma ditadura cuja ideologia constituía um “sistema de pensamento totalitário”, cujos princípios vigentes eram: o nacionalismo, a integração nacional, a centralização e a hierarquia (HOLANDA, 1981).



Os fatos explicitados acima podem ser confirmados na citação que segue:
O Recife, às escuras, por medidas de segurança, era a cidade que mais sofria as consequências da ditadura. Aqueles jovens presenciavam o choque de idéias e também dele participavam. Mas, da angústia que martirizava o grupo, uma luz de esperança foi acesa. Que adiantava a libertação do mundo, se o Brasil continuava escravo? Daí a resolução daqueles moços em busca de uma liberdade que não brotasse de trincheiras materiais, mas do funcionamento de milhares de escolas (GOMES, 1984, p.38).
Entretanto, Silva (2001, p.107) coloca que:
Durante o Governo Vargas a construção de escolas foi uma meta. Nesse período, foram criadas cinquenta e três escolas da Campanha, com uma taxa de crescimento na ordem de 151,42% e um aumento de alunos na ordem de 157,42%, ou seja, 4.238 alunos.
As transformações no que diz respeito à economia, à política e à educação que foram acontecendo ao longo da década de 1940 impulsionaram o crescimento da política educacional. Segundo Holanda (1981, p. 23), “[...] a educação, neste período, era vista como um reflexo das transformações que se operavam no Brasil.Entretanto, não havia escolas em quantidade e qualidade para atender a todos.
Dado o pauperismo da população e a predominância das escolas particulares sobre as públicas, foi fácil concluir-se que aqueles de menor poder aquisitivo ficaram excluídos da escola média de qualquer tipo, profissionalizante ou acadêmica. A escola paga não era aberta a todos. O proletariado e as camadas de baixo poder aquisitivo cujas condições de vida, em todo Brasil, eram as mais precárias possíveis, mal conseguiam ter o necessário para atender às exigências mais imediatas de manutenção. Pagar escola era coisa que estava inteiramente fora do seu alcance, bem como de grande parte da própria classe intermediária (HOLANDA, 1981, p.26).
É neste contexto que o idealizador da CNEG, Felipe Tiago Gomes, procurou reunir e mobilizar seus colegas acadêmicos da Faculdade de Direito de Recife, políticos locais e a sociedade, para criar escolas que atendessem à população menos favorecida, criando alternativas para àqueles que não tinham condições de frequentar os colégios. Neste sentido, Gomes (1981, p. 37) afirma que:
A falta de instrução no Brasil é um fato. É uma coisa que, para resolvê-la, carecemos de muitos sacrifícios. Considerando-se que “homem é só quem pensa e não pode pensar quem não recebeu instrução alguma,” e “onde todos os homens leem, há também um grande número de homens não resignados, de espírito livre”, considerando-se isso em relação ao Brasil... Para o nosso País só há um remédio – a fundação de ginásios populares em todo o território nacional. Se o ensino fosse mais barato, haveria mais proveito. E mais proveitoso seria para o Brasil se houvesse lugar para os rapazes pobres estudarem. Mas a idéia de ginásios gratuitos está lançada. Temos a melhor boa vontade. Apenas nos falta mais um pouco de apoio. Esse apoio que não deveríamos procurar, que deveria, naturalmente, e é claro, vir ao nosso encontro, como estímulo.
A CNEC foi reconhecida pelo MEC, em 28 de fevereiro de 1946, e expandi-la pelos Estados passou a ser um dos principais objetivos de Felipe Tiago Gomes. (HOLANDA, 1981). Mesmo sem recursos financeiros, contando com a colaboração dos acadêmicos de outros Estados, das prefeituras e governos estaduais, os ideais da CNEC começaram a ser levados e implantados em outros Estados do Brasil: “a Campanha se expandiu pelo país, passando a atuar nos estados do Rio de Janeiro, Paraíba, Paraná, Amazonas, Mato Grosso, Goiás, Pará, Maranhão, Espírito Santo e Alagoas, além de Pernambuco” (SILVA, 2001, p.106).

Essa disseminação e a grande procura por parte da população fez com que a CNEC tivesse que estabelecer critérios para a entrada de novos alunos. De acordo com Gomes (1984), no dia 10 de abril de 1946 foram realizados os primeiros exames oficiais de admissão para o primeiro Ginásio Gratuito a funcionar por iniciativa totalmente particular. O 5º ano de admissão acontecia após a conclusão da 4ª série primária e preparava os alunos para uma avaliação de ingresso no curso ginasial.



A finalidade inicial da CNEC era criar uma rede de educandários gratuitos para o ginásio, entretanto foi expandiu-se por todo o Brasil. Após a criação do Ginásio, nasceu a necessidade de criar uma forma de continuação dos estudos. Surgiu, então, o Ensino Médio (VERMELHO, PONTES, 1984). No que se refere à escola secundária, Teixeira (1956 apud HOLANDA, 1981, p. 78) afirma que:
Regularmente uniforme e rígida, de caráter acadêmico e, portanto fácil de criar e fazer funcionar, bem ou mal (mais mal do que bem), com o privilégio de escola única ou de passagem única para o ensino superior (passagem naturalmente ambicionada por todos os alunos), entregue ou largada, tão privilegiada e atraente escola, à livre iniciativa particular mediante concessão pública facilitada sob aleatórias condições e aleatórios controles, rígidos apenas ao papelório e, quanto este, sob a complacência protetora de uma toda poderosa burocracia central e centralizada.
A reflexão de Teixeira sobre o ensino secundário remete à situação decorrente da estrutura educacional brasileira, a elitização, a preparação para o ensino superior, objetivos contrários aos de Felipe Tiago Gomes, quando da criação da CNEG.

Ainda sobre a disseminação da CNEC pelo país Vermelho e Pontes (1984, p.34) citam que:


Em 1947 Felipe Tiago Gomes se encontrou com o Dr. Clemente Mariani, então Ministro da Educação, Felipe expôs lhe um plano de criação de Ginásios Gratuitos em todo o país. O Ministro gostou da idéia, contudo só em 1948 a Diretoria convocou os estudantes e promoveu um movimento no âmbito nacional.
O primeiro passo para disseminação da Campanha foi a propaganda. Através da imprensa houve a divulgação do movimento da CNEG ao público (HOLANDA, 1981). Segundo Holanda (1981, p. 46):
A imprensa da época tomou conhecimento e enalteceu a iniciativa dos jovens universitários e isso trouxe a CAMPANHA DO GINASIANO POBRE às primeiras adesões das mais representativas personalidades da vida nordestina - Clero, Magistrados, Mestres, Artistas e escritores de nome nacional.
Essa adesão das demais camadas da sociedade, principalmente do clero estava ligada às questões de filantropia e caridade, uma vez que, vendo que a sociedade se envolvia e a CNEG crescia a igreja percebeu que seria cômodo se aliar a uma Campanha promissora. Era uma forma de aproximação do público. Além disso, a sociedade vendo a necessidade da educação e de ajudar ao próximo, uniu-se à igreja e à campanha para lutar por uma sociedade, mais justa. O fato de a campanha buscar a ajuda ao próximo tornava possível a união de todos os setores (HOLANDA, 1981).

Em 1950 a CNEG teve sua sede transferida de Recife para o Distrito Federal, onde está sediada até hoje. Em dez anos a partir de sua criação, a CNEG se encontrava disseminada em todos os estados brasileiros com 42 ginásios, 13 colégios, 498 turmas, 20.311 alunos e 1.094 professores, distribuídos em 54 cidades. Seu crescimento abrangeu escolas de comércio, escolas técnicas e colégios (GOMES, 1984).

A CNEC se expandiu por todos os estados e pressupõe-se que o seu crescimento tenha sido consequência da expansão do ensino e a visão de uma educação para todos disseminada após a II Guerra Mundial. Os reflexos dessas modificações foram vistos na escola secundária, pois esta foi sendo procurada por uma clientela cada vez mais diversificada e desejosa de continuar os estudos. Os Ginásios e o ensino secundário cresceram (HOLANDA, 1981).

Também foi na década de 50 que a participação do estado aumentou e a instituição cresceu, recebendo, então, as verbas concedidas pelo estado. Silva (2001, p.111) afirma que:


A participação do Estado aumentou bastante após a nomeação do Presidente Juscelino Kubtischek, havendo maior expansão da instituição. Diante da política de incentivo à iniciativa privada, também na educação, é perfeitamente compreensível que a maior extensão da Campanha se dê nesse Governo, com uma taxa de crescimento de matrícula na ordem de 232% e de escolas na ordem de 249%, ou seja, o número de alunos sobe de 9.433 em 1956 para 31.371 em 1960 e o número de escolas sobe de 107 para 373, no mesmo período.
Dentre outros, o crescimento da instituição e o apoio do governo devem-se, inclusive ao fato de D.Sarah Kubitschek ter sido presidente da entidade em 1956 e 1957, coincidentemente, foi a partir daí, que as escolas da campanha tiveram maior propagação pelos estados brasileiros (SILVA, 2001). Além da ajuda de JK, outro fator importante foi a participação da comunidade:
As contribuições comunitárias são institucionalizadas e regulares. Sendo representadas pelas mensalidades dos sócios, que são, geralmente, os alunos ou seus responsáveis, as quais se destinam, basicamente, à manutenção da escola. Mas há, também, donativos resultados de campanha, que são eventuais, geralmente canalizados para construção. Acrescentam-se a isto as contribuições em serviços, isto é, a mão-de-obra gratuita que não se acha quantificada nas informações. (HOLANDA, 1981, p.114).
Quando a CNEC completou vinte anos de existência, todas as expectativas no que se refere ao seu crescimento haviam sido excedidas. Seu público aumentou e se diversificou, mas seus ideais prevaleceram e a meta da Campanha ainda era levar um ensino de qualidade a todas as pessoas carentes (HOLANDA, 1981). Em 1962 a Campanha atingiu 661 municípios, com uma matricula de 141.417 alunos, no primeiro e segundo ciclos do Ensino Médio. Nesta época a Campanha já contava com a ajuda considerável do Estado, que lhe consignava dotações substanciais (HOLANDA, 1981).

Em 1972 a CNEC já atuava em 913 municípios, com 1.248 escolas, 309.982 alunos e 16. 658 professores. Neste ano a Campanha atingiu 493 prédios próprios. Quatro anos depois em 1976, a CNEC já estava atuando em 985 municípios, atingiu 1.317 escolas, tendo no 1º grau 283.390 alunos, e no 2º grau, 88.979, num total de 372.469 alunos atendidos por 20.846 professores, a esta altura a CNEC já contava com 559 prédios próprios (HOLANDA, 1981). A tabela a seguir representa o crescimento da CNEC de 1946 a 1998.
Tabela 1 - CNEC – ESTATÍSTICA GERAL 1946 -1998


ANO


MUNICÍPIOS


ESCOLAS

PRÉDIOS

PRÓPRIOS


MATRÍCULA

1946

1

1

--

50

1947

1

1

--

95

1948

1

1

--

143

1949

6

6

--

480

1950

27

27

--

2120

1951

35

35

--

2692

1952

45

45

--

3511

1953

66

66

--

5223

1954

88

88

--

6930

1955

93

93

--

8812

1956

--

107

--

9443

1957

--

130

--

12045

1958

--

204

--

17727

1959

--

253

--

24438

1960

--

373



31371

1961

478

37

37

39000

1962

370

566

45

62651

1963

487

642

--

78935

1964

545

707

111

97514

1965

598

758

129

122341

1966

631

792

--

141417

1967

679

835

--

178245

1968

776

973

300

202375

1969

831

1084

--

231134

1970

993

1234

--

273499

1971

934

1291

--

310278

1972

913

1248

493

309982

1973

908

1250

--

308208

1974

933

1282

--

342000

1975

952

1332

--

368289

1976

977

1259

559

372464

1977

985

--

627

405317

1978

997

1305

613

420743

1979

1008

1315

636

427300

1980

1004

1305

660

426093

1981

995

1281

677

439524

1982

1010

1315

689

445004

1983

1016

1346

729

474380

1984

1007

1320

714

454793

1985

987

1278

697

431148

1986

971

1217

680

437850

1987

947

1187

655

442081

1988

954

1160

687

433775

1989

889

1079

637

415219

1990

914

1090

644

408208

1991

850

1028

644

388239

1992

836

1002

662

370445

1993

792

982

635

379225

1994

793

912

594

385101

1995

759

896

582

376272

1996

749

852

--

349744

1997

751

876

--

360815

1998

557

625

--

238430

Fonte: (SILVA, 2001)
Pela história da CNEC e pelos dados apresentados acima podemos perceber que as escolas tiveram momentos de crescimento e também de redução, por exemplo, em 1983 a campanha alcançou seu auge chegando a 1016 municípios e 1343 escolas com 474.380 alunos matriculados, entretanto nota-se a redução desse crescimento a partir de 1984. A campanha retrocedeu quase que 50%.

Felipe Tiago Gomes faleceu no dia 21 de setembro de 1996, em Brasília, vítima de complicações cardíacas, deixando seu trabalho e o trabalho de inúmeros companheiros que se juntaram a ele ao longo de todos estes anos, para ter continuidade através dos muitos ex-alunos, colaboradores e simpatizantes Cenecistas (SILVA, 2001).

No decorrer da sua trajetória, a CNEC foi vista como uma escola pública sem fins lucrativos, entretanto, visando à descrição da história desta instituição e abordando a questão da mudança, cabe aqui uma colocação de Silva (2001, p.181):


A CNEC se definia como comunitária, de utilidade pública, sem fins lucrativos, negando a sua face privada. Nessa última fase da sua trajetória, passa a assumir-se como empresa, justificando a finalidade não lucrativa pelo fornecimento de serviços a preço de custo.
Os objetivos da CNEC mudaram ao longo da sua trajetória, nos dias atuais a CNEC atende a Educação Infantil, o Ensino Fundamental e Médio, o Ensino Profissionalizante e passou a atuar mais recentemente no Ensino Superior. O Colégio Cenecista Nossa Senhora do Carmo é uma escola filantrópica e traz no decorrer de sua histórica os princípios comunitários da escola fundada por Felipe Tiago Gomes. Contudo, com o óbvio crescimento da CNEC no município de Unaí e em todo o Brasil e a falta de investimentos e qualidade das escolas públicas, estas transformaram-se em instituições de ingresso de filhos da elite, apesar do caráter filantrópico e comunitário.
4. O COLÉGIO CENECISTA NOSSA SENHORA DO CARMO
O Colégio Cenecista Nossa Senhora do Carmo é uma instituição filantrópica que há mais de cinquenta anos atua no município de Unaí oferecendo serviços educacionais. Inicialmente ocupou-se do 5º ano admissional e do curso ginasial, posteriormente a área de atuação da escola foi ampliada passando a integrar a educação infantil e o ensino médio.

Unaí surgiu do desenvolvimento da pecuária e da agricultura do município de Paracatu e ocupação do Centro-Oeste Brasileiro mediante a construção da capital federal. Foi inicialmente chamada de Capim Branco, nome da fazenda que contribuiu para a expansão do povoado. “Nasceu como nascem todos os municípios às margens de um rio de águas escuras, pela força dos corajosos pioneiros e cresceu pelo estimulo dos trabalhadores do presente”. (GONÇALVES, 1990, p.11) A vila foi emancipada em 31 de dezembro de 1943. Outro fator que influenciou no crescimento de Unaí foi a construção de Brasília situada a 170 km do município. Segundo Gonçalves (1990, p.468):


Em 1960, com a mudança da capital da república para Brasília Juscelino Kubistchek modificou o velho e histórico slogan para melhor. Agora altivamente afirmam com certeza que “Unaí é o celeiro de Brasília”. Povo inteligente! Sabia de antemão que a sua economia sempre afirmou suas bases na pecuária e agricultura. [...] Exportavam o feijão, o toucinho, o queijo, fumo, etc. A agricultura, impávida, continuou caminhando ao lado da pecuária com firmes passos, graças à fertilidade e às condições deste abençoado chão, graças ao arrojo daqueles que o cultivavam com segurança e decisão. As produções de arroz e milho são uma importante fonte de renda para o município.
Unaí se destaca na agricultura e pecuária até os dias atuais sendo o maior produtor nacional de feijão, o décimo maior do estado na produção e milho e o oitavo colocado na produção de sorgo do estado. Além da produção de leite e da criação de gado de corte

Na questão educacional, salienta-se que a primeira escola do município foi a escola Capim Branco, que em 1930 passou a ser chamada Escola Singular Domingos Pinto Brochado. Outras escolas públicas foram criadas muito mais tarde, como: Vigário Torres em 1960, Teófilo Martins Ferreira em 1964, Escola Dom Eliseu em 1968, Manoela Faria Soares em 1985, Escola Maria Assunes Gonçalves em 1986, Escola Politécnica Tancredo de Almeida Neves em 1986 e Escola Delvito Alves, em 1989. (GONÇALVES, 1990).

Como as primeiras escolas só atendiam as séries iniciais, houve a necessidade de criação de uma escola que oferecesse o curso ginasial. Daí, surgiu o Ginásio Nossa Senhora do Carmo inspirado nos princípios da CNEC. Como afirma Adjuto Filho (2009, p.10):
A deficiência educacional era enorme. Precisávamos implantar um curso ginasial que fosse acessível a todos. Por isso, procurei pessoalmente a Direção da CNEC no Rio de Janeiro. Para tanto, fiz me acompanhar por Frei Paulo Kojelmam, cujo apoio foi relevantíssimo. A CNEC, Campanha Nacional das Escolas da Comunidade, prontificou-se em expandir mais uma vez seus notórios préstimos educacionais. O primeiro passo havia sido dado, porém precisávamos buscar recursos financeiros para efetuar nosso projeto.
O Sr. José Adjuto Filho, prefeito de Unaí na época, sabia que o município estava crescendo, e que as famílias que residiam na cidade encontravam muitas dificuldades para mandar os filhos para completar os estudos fora, veio então a necessidade de criação de uma escola que suprisse essa falta e ainda amenizasse o sofrimento das famílias. Segundo Adjuto Filho (2009, p.10-11):
Não se pode desvincular a história do Colégio do Carmo. Unaí era apenas uma pequena cidade com população de aproximadamente 6.000 habitantes. O progresso de uma cidade se faz com a educação de seu povo, portanto, podemos afirmar que o colégio do Carmo foi o berço da cultura unaiense. Ambos cresceram e muito progrediram. Hoje a população do município ultrapassa 80.000 habitantes, e o Colégio do Carmo, com muito mérito é apontado como uma escola de muita qualidade.
No dia doze de junho de 1959 a comunidade unaiense, juntamente com o prefeito municipal Sr. José Adjuto Filho e o frei holandês Paulo Kolgeman responsável pela paróquia, reuniram-se para criar o setor local da “Campanha Nacional de Educandários Gratuitos” – CNEG, eleger a diretoria, o conselho fiscal e para fundar o colégio em Unaí ( GONÇALVES, 1990).

Todos os participantes da assembléia ocuparam lugar no conselho, na presidência e direção do Ginásio. Alguns participaram como professores e avaliadores dos exames de admissão. Os senhores Djalma Tôrres, Waldir Wilson Novais Pinto e Dr. José Adjuto Filho participaram do conselho por uma década.

Porém, a escola precisaria de um local próprio para o funcionamento. Para construir o prédio as principais famílias de Unaí se uniram. De acordo com Gonçalves (1990, p. 562): “Quem não pode oferecer dinheiro, contribuiu com materiais de construção ou dias de trabalho não remunerado”.
Reuniram-se os chefes das principais famílias para, do próprio bolso, com o próprio trabalho, construírem um prédio com quatro salas de aula, um salão (que se tornou local de festas e eventos sociais) e outras dependências administrativas. O local era um pouco afastado comparado com as parcas e empoeiradas ruas do centro. Mas o tão sonhado “ginásio” foi erguido. As primeiras turmas foram formadas - diretores e professores não recebiam salário, ocupavam outros importantes cargos no município (VASCONCELOS, 2010).
Em 1960 já estava construída a sede própria da escola. De acordo com Adjuto Filho (2009, p.11):
Após a construção do prédio e a regularização da documentação, as pessoas mais instruídas da cidade, como médicos, juízes, advogados, padres e professores prontificaram-se a lecionar para nossos primeiros alunos de forma voluntária, ou seja, não recebiam salário. Pode-se afirmar, portanto, que não houve maiores dificuldades porque cada um se empenhou para que o ginásio funcionasse da melhor maneira possível. Frei Plequelmo, primeiro diretor, com muita habilidade dirigiu o educandário que, naquela época, engatinhava rumo ao saber.
Em 1959 funcionaram as primeiras turmas de admissão nas dependências do prédio da escola Domingos Pinto Brochado, participaram do exame 53 alunos apenas cinco foram reprovados.

Como o ginásio foi fundado pelas famílias da elite unaiense, a escola apesar de filantrópica era freqüentada pelos filhos das autoridades unaienses.

Em 1971 com a promulgação da LDB 5692/1971 acabou a nomenclatura ginásio. As séries iniciais receberam a denominação de Ensino Fundamental, e o Ginásio Nossa Senhora do Carmo passou a se chamar Colégio Cenecista Nossa Senhora do Carmo, o Cenecista foi uma exigência imposta pela CNEC.
4.1 A Congregação dos Carmelitas
A fé e a religião sempre estiveram ligadas à ajuda ao próximo e a busca por uma sociedade melhor. Os carmelitas como congregação religiosa sempre atuaram não apenas nas questões religiosas, bem como nas educacionais e filantrópicas. Mediante os trabalhos religiosos e educacionais a Igreja Católica influenciou vários setores da sociedade, o espiritual, o político, a economia e a cultura.

Os carmelitas chegaram a Unaí com a intenção de suprir as necessidades religiosas do pequeno povoado que crescia as margens do Rio Preto, mas a chegando aqui estes se depararam com uma sociedade desprovida de educação, pois não havia escolas para atender a todos. Segundo Kampen (2010)“os Carmelitas se preocupavam com as questões sociais, pois afirmavam que tudo precisava caminhar junto”. Os princípios dos carmelitas eram voltados então para o bem estar e crescimento da sociedade, partindo desses princípios os carmelitas, juntamente com o prefeito e a comunidade, lutaram para criação de uma instituição que beneficiasse a população unaiense no que se refere a educação, sonho que se concretizou devido ao esforço do Frei Paulo Kogelman e os padres que se dispuseram a lecionar na instituição. Uma hipótese que surgiu com a pesquisa é o Ginásio Nossa Senhora do Carmo pode ter sido criado como uma resposta católica para a Escola Simonton da Igreja Presbiteriana, que desde 1956, oferecia o 5º ano admissional.


4.2 O 5º ano admissional
O exame de admissão era uma forma de seleção, era uma maneira de limitar a quantidade de alunos porque as vagas eram poucas. Segundo Gonçalves (1990, p. 562) “Em 1960 funcionaram as primeiras turmas: admissão ao Ginásio, primeira e segunda séries ginasiais”. Foram matriculados vinte e sete alunos e trinta e três alunas na turma de admissão.

Para o ingresso no ginásio, era necessário passar pelo exame de admissão, este era uma maneira de selecionar os alunos. Após o 4º ano do ensino primário, aquele que desejasse continuar os estudos deveria cursar o 5º ano admissional, uma espécie de curso preparatório para ingresso no 1º ano ginasial, como era chamado na época. Porém, nem todos os alunos tinham condições para serem aprovados no ginásio e nem todas as famílias condições de pagar. Ladeira (2010), admite que:


[...] para ser admitido o aluno tinha que ter um conhecimento globalizado para iniciar a sua 5ª série que antigamente dava-se o nome de 1ª série ginasial. Só passava quem dominava os conteúdos. O aluno que não dominava o conteúdo fracassava. O exame de admissão era uma “peneira”.
Além da prova de admissão, cada aluno era avaliado mediante uma ficha sócio-econômica, o aluno carente ou que o pai tinha menor renda deveria ter preferência, outro fator também levado em consideração, era a ajuda política, como coloca Ladeira (2010) “[...] antigamente pesava muito os pedidos de vereadores, pois as vagas eram poucas”.

A princípio o curso de admissão “[...] era rápido, era feito de preferência no período de férias, em 1959 as férias começavam em 1º de dezembro e as aulas iniciavam no dia 1º de março” (LADEIRA, 2010). “Os alunos eram avaliados nas disciplinas de Português, Matemática, História, Geografia e Ciências. O ensino no curso de admissão era voltado para a prática do Português, e na matemática utilizavam-se pedras, feijão” (SANTOS, 2010). O ensino “era baseado nos conhecimentos das quatro primeiras séries” (LADEIRA, 2010).

As avaliações eram compostas de provas orais e escritas e as notas eram atribuídas através do cálculo da média das mesmas, estas seguiam os parâmetros estabelecidos na escola e na Secretaria de Educação. Faziam parte dos testes a redação, provas escritas e provas orais.

No primeiro semestre a avaliação tinha peso um e no segundo semestre tinham peso dois e eram diversificadas, o aluno tinha prova de conhecimentos gerais, prova de redação oral e também perguntas feitas pelos professores que compunham uma espécie de uma banca examinadora. O currículo era baseado no programa do ensino primário que era repassado pela Secretaria de Educação e no livro de admissão vinha o manual próprio do curso.

O exame de admissão era visto como um vestibular, os alunos se esforçavam para passar, só conseguia cursar o ginásio quem realmente dominava os conteúdos. Como enfatiza Ladeira (2010) “só entrava no 5ª série o aluno que tivesse competência para vencer o curso ginasial, ele era bastante pesado. Não é como hoje que entra quem quer, quem pode. Aí vem o fracasso, antigamente quase não tinha fracasso”.

O primeiro exame de admissão do Ginásio Nossa Senhora do Carmo aconteceu nos dias 15, 16, 17 e 20 de fevereiro de 1959 em segunda época, ou seja, já no início do ano letivo de 1959. Além dos professores examinadores Maria de Lourdes Porto Botelho, Eunir Costa Pinto, Frei Brocardo Stoklof, Frei Plequelmo Sanders e Frei Cipriano Broekluis presidente da banca; estava presente o Inspetor Federal Dr. Zama Maciel da cidade de Patos de Minas (Livro de Admissão da 1ª série Ginasial). O exame de admissão teve por finalidade selecionar alunos para a primeira série ginasial que começou a funcionar neste mesmo ano.

Em seguida a tabela dos exames de admissão:

No primeiro exame de admissão houve apenas três alunos reprovados dos 51 candidatos inscritos. Destes vinte e três eram do sexo feminino e vinte e oito do sexo masculino. Dentre os reprovados estavam quatro homens e uma mulher. Destes, quatro foram reprovados, pois não compareceram aos exames e um obteve nota zero na avaliação oral de Língua Portuguesa. A média para aprovação era cinco.

Como havia muito rigor na banca examinadora, muitos alunos eram reprovados. Alguns alunos chegavam a fazer o exame mais de uma vez. No decorrer da análise dos documentos percebeu-se que houve um grande número de alunos reprovados na 1ª época de 1964. Nesta data, cento e trinta alunos fizeram o exame noventa e quatro foram reprovados, apenas trinta e seis obtiveram média suficiente para aprovação, com notas inferiores a oito pontos. Estes exames foram realizados nos dias 04, 05 e 07 de dezembro de 1964, e participaram da banca os professores Dimas Ribeiro da Fonseca, José Maria Boaventura, Orlando Gonçalves de Brito e o presidente Sebastião Leles Ferreira.

Os alunos reprovados em 1964 repetiram o exame em 1965, nos dias 08, 09 e 10 fevereiro cuja banca foi composta pelos professores: Angélica Versiane, Heloísa Torres, Maria Adeny Adjuto e Mara Pessoa Martins. Neste novo exame todos foram aprovados.

Foi também nesta época que o exame de admissão passou a ser dividido em dois semestres, devido aos altos índices de reprovação. Como coloca Ladeira (2010) o “[...] 5º ano admissional passou a ser dividido em dois semestres, ou seja, o ano todo, este recuperava o aluno que tinha dificuldades em iniciar o 1º ano do ginásio, os alunos eram muito cobrados pelos professores”. Nesse contexto, o curso de admissão com duração de um ano possibilitou aos alunos mais condições de obter a média para aprovação no exame.

O Colégio Cenecista Nossa Senhora do Carmo recebia também alunos que faziam os exames admissionais em outras escolas, como foi o caso do Ginásio Estadual de Unaí, hoje denominado Escola Estadual Virgílio de Melo Franco. Através da análise dos documentos fica explicito que os alunos realizavam os exames no Ginásio Estadual, mas eram admitidos como alunos do Ginásio Nossa Senhora do Carmo.



Para garantir as vagas os diretores das outras escolas se empenhavam buscando apoio político. Era uma permuta, onde o diretor da escola Estadual pedia vagas ao diretor do ginásio (LADEIRA, 2010).
Eu trabalhava em parceria com o professor Gontijo para poder ter condições de aproveitar todos os meus alunos nessa seleção, por que antigamente pesava muito os pedidos de vereadores. Como eu sabia que as vagas eram poucas eu vinha ajudar nestes testes de avaliação, eu dava aulas para os alunos, sem receber e também orientava os pais no preenchimento da ficha, que era de acordo com o código do ensino primário da Lei 3.610, essa lei regia que o aluno para ser admitido na 1ª série ginasial tinha que preencher a ficha socioeconômica. Eu ia sempre ajudar o professor Gontijo, pois ele não tinha auxiliares. Havia apesar de tudo uma interferência política. Se eu não trabalhasse nesse sentido os meus alunos ficariam sem vagas, essa interferência política fazia toda a diferença (LADEIRA, 2010).
Os exames de admissão seguiram até 1971 no Ginásio Nossa Senhora do Carmo. Nos documentos analisados, encontram-se as atas dos exames no período de 1959 a 1971. Nestas atas encontram-se rasuras em algumas notas, atas em aberto, tintas de canetas e letras diferentes na mesma ata. Em muitos pontos do livro essas rasuras são justificadas e existem assinaturas de membros da banca, percebe-se essa situação nas páginas 53, 57 e 66 do livro de admissão. Há ainda indícios de que alguns alunos faziam o exame fora da época como aconteceu em 1969, descrito na página 61 do livro de admissão.
4.3 Os professores e o currículo
Aqui, serão apresentados dados referentes aos professores e ao currículo da escola investigada. Será enfatizado o período inicial de funcionamento da escola. Na tabela a seguir, são apresentados os professores do Ginásio Nossa Senhora do Carmo de 1960:

Quadro 1 - Ginásio Nossa Senhora do Carmo

Primeiros professores ginasiais - 1960




Professor

Disciplina

01

Barbara Nunes

Matemática

02

Dimas Ribeiro da Fonsêca

História

03

Dora Torres Adjuto

Trabalhos

04

Edson de Souza Rezende

Matemática

05

Francisco Lemos de Souza

Educação Física

06

Francisco Rodrigues da Silva Filho

Francês

07

Frei Cipriano Broekins

Latim

08

Frei Plequelmo

Matemática

09

Maria Adeny Cardoso

Desenho

10

Maria de Lourdes Porto Botelho

Canto

Fonte: Livro de Ponto dos Professores 1960, p. 1-50
Após a aprovação dos alunos nos exames admissionais, eles cursavam o 1º ano Ginasial, no Ginásio Nossa Senhora do Carmo havia, em 1960, dois 1º anos e um 2º ano. O currículo da instituição que era baseado nas seguintes disciplinas:
Quadro 2 – Horários e disciplinas do 1º ANO A

1960 - GINÁSIO NOSSA SENHORA DO CARMO

Segunda-feira

Terça-feira

Quarta-feira

Quinta-feira

Sexta-feira

Sábado

Francês

Português

Português

Francês

Português

Matemática

História

Geografia

Matemática

Latim

História

Francês

Latim

Ed.Fisica

Desenho

Trabalhos

Geografia

Religião

Trabalhos

Matemática

Canto

Desenho

Ed.Fisica




Fonte: Livro de Ponto dos Professores 1960, p. 1-50

Quadro 3 – Horários e disciplinas do 2º ANO

1960 – GINÁSIO NOSSA SENHORA DO CARMO

Segunda-feira

Terça-feira

Quarta-feira

Quinta-feira

Sexta-feira

Sábado

Trabalho

História

Geografia

Matemática

História

Português

Latim

Desenho

Francês

Desenho

Geografia

Inglês

Francês

Português

Canto

Francês

Português

Religião

Matemática

Ed. Física

Ed. Física

Inglês

Latim

Matemática




Inglês




Trabalhos








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