ColeçÃo educaçÃO É história



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COLEÇÃO EDUCAÇÃO É HISTÓRIA:

CRÍTICA HISTORIOGRÁFICA E HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO EM SERGIPE (2003-2004)


Samuel Barros de Medeiros Albuquerque

Universidade Federal de Sergipe – UFS

E-mail: samuelalbuquerque@ufs.br
PALAVRAS-CHAVE: Coleção Educação é História; Historiografia; Sergipe.
Nos idos de 2003, passou a circular nos meios acadêmicos e intelectuais a coleção Educação é História, veículo que, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Sergipe – FAP-SE – e da Universidade Federal de Sergipe – UFS, vem divulgando trabalhos produzidos por membros do Grupo de Estudos e Pesquisas em História da Educação (CNPq/NPGED), liderado pelo Prof. Dr. Jorge Carvalho do Nascimento, no Núcleo de Pós-Graduação em Educação da UFS.
As obras que compõem a coleção Educação é História são: “Historiografia educacional sergipana: uma crítica aos estudos de história da educação”, de Jorge Carvalho do Nascimentoi; “Olhares de Clio sobre o universo educacional. Um estudo das monografias sobre educação do departamento de História da UFS, 1996-2002”, de Fábio Alves dos Santosii; “Vestidas de azul e branco: um estudo sobre as representações de ex-normalistas (1920-1950)”, de Anamaria Gonçalves Bueno de Freitasiii; “A Escola Americana: origens da educação protestante em Sergipe (1886-1913)”, de Ester Fraga Vilas-Bôas Carvalho do Nascimentoiv; “A música instrumental em Japaratuba: trajetória da Sociedade Filarmônica Euterpe Japaratubense”, de Geane Corrêa dos Santosv.
Entre fins de 2008 e princípios de 2009, publicamos na imprensa sergipana uma série de artigos que, tratando das obras que compõem da referida Coleção, analisam sua contribuição ao campo da História da Educação e empregam os rigores da crítica historiográfica. Nesse sentido, observamos, dentre outras coisas, os objetos estudados, os recortes espaço-temporais delimitados, os procedimentos metodológicos empregados na seleção e análise das fontes, a pertinência da bibliografia utilizada, a apropriação e utilização de conceitos próprios do campo da História.
Nesta comunicação, reunimos e reordenamos as observações presentes nos artigos-resenhas, publicados entre fins de 2008 e princípios de 2009, analisando o conjunto das obras veiculadas pela coleção Educação é História.

A HERANÇA DE MIRIAM WARDE


Na segunda metade da década de 1980, a professora Miriam Jorge Warde, que atuava na pós-graduação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC/SP, capitaneou um importante projeto de pesquisa que consistia em inventariar e analisar a contribuição dos programas de pós-graduação em Educação para a historiografia educacional brasileira. De acordo com Jorge Carvalho do Nascimento,
A [referida] pesquisa revelou que a periodização utilizada nos estudos sobre os quais se debruçou era marcada por decisões exteriores aos objetos do campo, principalmente por fatos políticos, havendo uma exacerbada concentração de trabalhos sobre a República, com ênfase para era Vargas e o Estado Novo. Verificou que esses estudos eram orientados mais por um viés filosófico e sociológico que historiográfico. Pôs em evidência o fato de que aquela historiografia não continha marcas metodológicas da investigação histórica, mas que genericamente discursava sobre longos recuos no tempo, em busca de raízes remotas dos problemas estudados.vi
Frutos desse projeto, Miriam Warde publicou alguns artigos que analisam a escrita da História da Educação no Brasilvii e orientou trabalhos produzidos por Luiz Carlos Barreiraviii, Bruno Bontempi Juniorix e Maria Rita de Almeida Toledox, autores que se apropriaram e difundiram as teses da mestra. Entre os pesquisadores sergipanos que passaram pela PUC/SP, as teses de Miriam Warde inspiraram estudos desenvolvidos por Jorge Carvalho do Nascimento e Fábio Alves dos Santos, ambos professores da Universidade Federal de Sergipe.
Em estudos veiculados na coleção “Educação é História”, publicação do Grupo de Estudos e Pesquisas em História da Educação e do Núcleo de Pós-Graduação em Educação da UFS, Jorge Carvalho do Nascimento e Fábio Alves dos Santos produziram um grande balanço da nossa historiografia educacional. Em Historiografia educacional sergipanaxi, Nascimento inventariou e analisou estudos produzidos entre 1916 e 2002. Ao longo de três capítulos, examinou os períodos nos quais os trabalhos foram produzidos, o locus da produção, o amparo institucional recebido, as iniciativas individuais, os editores, as filiações teóricas e o perfil da escrita da História da Educação em Sergipe. Por sua vez, Fábio Alves dos Santos, em seu Olhares de Clio sobre o universo educacionalxii, analisou e buscou perceber os sentidos da escrita da História da Educação nas monografias produzidas no departamento de História da UFS, entre 1996 e 2002. Para tanto, examinou: as temáticas, os objetos e os períodos estudados; os locais de pesquisa e as fontes privilegiadas, além do uso que se fez dessas fontes; as idéias-chave e os conceitos de educação e história presentes nas monografias analisadas.
Conheço boa parte da documentação inquirida nos estudos de Jorge Carvalho do Nascimento e Fábio Alves dos Santos e comungo de muitas das conclusões as quais os autores chegaram acerca dos estudos de História da Educação em Sergipe. Contudo, estou certo de que a teoria, representada pelas teses de Miriam Warde sobre a historiografia educacional brasileira, deu um rumo incontornável aos referidos trabalhos, constituindo-se em uma lente que, como qualquer modelo interpretativo, pode ter gerado certo grau de miopia. Percebo uma inconfessável intenção dos autores em atingir os mesmos resultados obtidos por Warde, chocando os leitores ao constatarem as muitas fragilidades dos nossos estudos de História da Educação.
Zaia Brandão, autora que freqüenta a bibliografia dos escritos de Jorge Carvalho do Nascimento e Fábio Alves dos Santos, trata dos equívocos que derivam da prática acadêmica de tomar determinados marcos teóricos como conclusão para as pesquisas científicas. Ao que parece, nos estudos de Nascimento e Santos a teoria não foi encarada como hipótese, contrariando a orientação de Zaia Brandão. Certamente, os olhares aguçados e as afiadas penas dos autores poderiam ter chegado a outras conclusões, caso tencionassem refutar e não corroborar as teses de Miriam Wardexiii. Como disse o Pe. Antônio Vieira: “Três dedos com uma pena na mão é o ofício mais arriscado que tem o governo humano. Quantos delitos se enfeitam com uma pena? Quantos merecimentos se apagam com uma risca? Quantas famas se escurecem com um borrão?”.

VESTIDAS DE AZUL E BRANCO


Conduzir o leitor a um universo de memórias, tornando-as inteligíveis e atraentes. Esse é um dos méritos do “Vestidas de azul e brancoxiv, obra de estréia de Anamaria Gonçalves Bueno de Freitas, professora da Universidade Federal de Sergipe – UFS, que, pela qualidade de sua produção, já figura entre os mais importantes nomes da nossa historiografia educacional.
Enquanto dissertação de mestrado, a primeira versão do referido trabalho foi defendida em fevereiro de 1995, junto à Faculdade de Educação da UNICAMP. Em 2003, a obra foi publicada na Coleção “Educação é História”, que, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Sergipe – FAP-SE – e da Universidade Federal de Sergipe – UFS, vem divulgando trabalhos produzidos por membros do Grupo de Estudos e Pesquisas em História da Educação (CNPq/NPGED), presidido pelo professor Jorge Carvalho do Nascimento.
No Brasil, a difusão do curso normal para moças, em fins do século XIX, representa um divisor de águas na história da educação feminina e no processo de feminização do magistério. Em Aracaju, a Escola Normal feminina foi criada em 1877, durante o governo do presidente João Pereira de Araújo Pinto, e passou a ser denominada Escola Normal Rui Barbosa em 1923, por iniciativa do governador Graccho Cardoso. Mas, em virtude da Lei Orgânica do Ensino Normal (Lei Nº 8560, de 02/01/1946), houve uma nova mudança na denominação da Escola em 1947, passando a se chamar Instituto de Educação Rui Barbosa. Para Anamaria Freitas,
As escolas normais constituíam um espaço de formação socialmente aceito, responsável pela profissionalização de um grande número de mulheres. [Era] a possibilidade de exercer uma profissão socialmente permitida, de transcender o âmbito doméstico na busca de realização e independência social e econômica.xv
Com essa percepção, Freitas empreendeu um importante estudo que analisa memórias de ex-normalistas do Instituto de Educação Rui Barbosa acerca da formação profissional e do processo de ingresso no exercício do magistério, entre as décadas de 1920 e 1950. Para tanto, foram coletados, entre janeiro e julho de 1992, mais de 60 depoimentos, aos quais se somaram outras fontes, tais como: jornais, revistas, mensagens presidenciais e governamentais. Para dialogar com os documentos mencionados, a autora perscrutou interessantes estudos sobre a formação e atuação profissional de professoras primárias em outros Estados.
A ausência de conceitos próprios ao campo da História pode ser compreendida quando atentamos para o momento e o locus de produção do trabalho em foco. No Brasil da primeira metade da década de 1990, quando a dissertação de Anamaria Freitas foi produzida, a História da Educação iniciava seu processo de aproximação com os fazeres historiográficos. Durante décadas, a História da Educação caminhou de mãos dadas com a Filosofia e, depois, com a Sociologia de inspiração marxista, distanciada teórico-metodologicamente do conhecimento histórico. Nesse sentido, a pesquisadora dialogou pouco com conceitos próprios da História, mas esbanjou rigor metodológico. Analisando criticamente suas fontes, cotejou-as, fazendo com que dialogassem entre si e com uma pertinente bibliografia. No mais, a síntese histórica produzida pela autora resultou em um texto leve, atraente e, sobretudo, convincente.
Ao longo de três capítulos, Anamaria Freitas analisou respectivamente: o processo de ingresso na Escola Normal, tendo em vista os requisitos legais e as estratégias para burlá-los, observando também as transformações curriculares ocorridas entre 1920 e 1950; a convivência entre professores e alunas e aspectos relevantes do cotidiano escolar; o início da trajetória profissional e as estratégias coletivas de ascensão na carreira docente por parte das ex-normalistas.

A leitura da obra “Vestidas de azul e branco” nos fez retomar as anotações de um depoimento colhido com a centenária Dalila Cortes Rollemberg, em 22 de novembro de 2008. Naquela ocasião, buscávamos dados que iluminassem pontos obscuros da genealogia dos Faro Rollemberg, tradicional família sergipana que estudamos nas horas vagas. Dona Dalila é uma professora primária aposentada, orgulhosa de sua formação na Escola Normal Rui Barbosa, entre 1921 e 1925. Oportunamente, voltaremos a tratar das memórias da professora Dalila, um testemunho vivo que nos ajuda a desvendar um universo que vem sendo iluminado com sensibilidade e competência por Anamaria Gonçalves Bueno de Freitas. Por enquanto, reafirmamos nosso entusiasmo pelos estudos que vêm sendo desenvolvidos pela professora Anamaria, pesquisadora que está escrevendo as mais significativas páginas da História da Educação Feminina em Sergipe.



OS PRESBITERIANOS E A EDUCAÇÃO EM SERGIPE
Publicada em 2004, a obra A Escola Americana: origens da educação protestante em Sergipe (1886-1913)xvi, da pesquisadora Ester Fraga Vilas-Bôasxvii, ganhou notoriedade acadêmica e passou a freqüentar a bibliografia de muitos trabalhos produzidos em cursos de graduação e pós-graduação da Universidade Federal de Sergipe – UFS – e de outras instituições de ensino e pesquisa. Trata-se do quarto número da coleção “Educação é História”, que, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Sergipe – FAP-SE, vem divulgando trabalhos produzidos por membros do Grupo de Estudos e Pesquisas em História da Educação (CNPq/NPGED).
Desdobramento de uma dissertação de mestrado defendida em 2000, no Núcleo de Pós-Graduação em Educação – NPGED – da UFS, a obra analisa as ações educativas capitaneadas pelos missionários presbiterianos da PCUSA (Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos da América) em Sergipe, tomando-se por base a Escola Americana que existiu em Laranjeiras e, depois, em Aracaju, entre 1886 e 1913. O texto foi estruturado em três capítulos, nos quais a autora analisa, respectivamente: a difusão do protestantismo e, destacadamente, do presbiterianismo no Brasil; o estabelecimento dos presbiterianos em Sergipe e, sobretudo, em Laranjeiras; e, finalmente, as ações educativas presbiterianas em Sergipe.
A pesquisadora Ester Vilas-Bôas investigou um vultoso número de fontes, localizadas em variados acervos, nas cidades de Laranjeiras, Aracaju, Salvador e São Paulo, dentre outrasxviii. A autora também dialogou com uma pertinente bibliografia acerca do protestantismo e da educação protestante no Brasil, de onde extraiu conceitos e interpretações importantes para entender o universo dos missionários presbiterianos norte-americanos que atuaram em Sergipe.
Das ações educativas desenvolvidas pelos missionários presbiterianos em Sergipe, Vilas-Bôas destaca a criação das escolas dominicais, das escolas paroquiais (Laranjeiras, Estância, Simão Dias, Riachão do Dantas e Frei Paulo) e, sobretudo, do colégio (A Escola Americana). Segundo a autora, alguns elementos caracterizam as referidas ações educativas, como
O magistério predominantemente feminino, classes mistas, ênfase à educação física e ao trabalho, substituição do método de cantarolar as sílabas e a tabuada pelo americano, silencioso e intuitivo. Nas escolas paroquiais e principalmente nos colégios, o currículo do ensino elementar trazia novidades: dava ênfase às ciências, à recitação de poesias não só em português como também em inglês e francês, as execuções musicais, dentre outras atividades.xix
Ester Vilas-Bôas demonstrou boa desenvoltura ao lidar com as ferramentas da produção do conhecimento histórico e dialogou com conceitos importantes, como: “memória” (Jacques Le Goff), “fonte histórica” (Lucien Febvre), “método indiciário” (Carlo Ginzburg), “processo civilizador” (Norbert Elias), dentre outros. Tratando de um tema pouco explorado pela historiografia brasileira e praticamente inédito na historiografia sergipana, a autora produziu um texto claro e de escrita elegante. Menciono, também, a feliz escolha da autora ao eleger trajetórias de vida para ilustrar o legado educacional presbiteriano em Sergipe, apresentando interessantes perfis biográficos, como o da professora Penélope Magalhães, do reverendo Antônio Almeida e da professora Gregória do Prado Dantas.
A utilização das fontes orais, contudo, apresenta alguns problemas perceptíveis ao longo da obra. As informações contidas nas referidas fontes são, em muitos casos, tomadas enquanto “verdades”. Os dados carecem de interpretações mais criteriosas, carecem de cotejo (crítica de controle) com outros registros.
Além disso, o objeto de estudo da autora quase desaparece em uma longa narrativa que privilegia o estudo das “origens” da educação protestante e o “contexto” no qual emergiram as ações educacionais presbiterianas em Sergipe. O objeto ganha contornos de apêndice de um texto que aborda, sobretudo, a história do protestantismo no Ocidente e no Brasil. Nesse sentido, foi dedicado ao estudo da Escola Americana apenas parte do último capítulo. E mesmo no referido capítulo, a autora dedica valiosas páginas ao entorno, observando, por exemplo, a importância de instituições como o Colégio Bennet, do Rio de Janeiro, e a arquitetura da Escola Americana de São Paulo. Para ser mais preciso, a Escola Americana de Sergipe foi contemplada com apenas 38 das 295 páginas da obra (entre as páginas 201 e 239).
Uma importante observação feita, no prefácio da obra, por Alderi Souza de Matos, do Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper de São Paulo, indica um elemento que, sem dúvida, contribuiu para as limitações na abordagem do objeto pela autora. Segundo Matos, a Sociedade Histórica Presbiteriana, o maior arquivo histórico da antiga Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos da América, sediado na Filadélfia, possui um acervo extremamente rico e bem catalogado sobre os aspectos da obra presbiteriana no Brasil. Para ele, “futuras pesquisas nesse arquivo certamente lançarão novas luzes sobre as atividades educacionais dos presbiterianos em Sergipe e outros Estados” (p. 24).
Dessa forma, não é desonesto concluir que a obra A Escola Americana, de Ester Fraga Vilas-Bôas Carvalho do Nascimento, constituiu-se num importante “ensaio” sobre as ações educativas dos presbiterianos norte-americanos em terras sergipanas. Os indícios e primeiras interpretações feitas por Vilas-Bôas representam o pontapé inicial para iluminar páginas ainda obscuras da História da Educação em Sergipe.

VENDO A BANDA PASSAR


Circulando desde 2004, a obra A música instrumental em Japaratuba: trajetória da Sociedade Filarmônica Euterpe Japaratubensexx, da professora Geane Corrêa dos Santosxxi, constitui-se no quinto número da coleção “Educação é História”, que, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Sergipe – FAP-SE – e da Universidade Federal de Sergipe – UFS, vem divulgando trabalhos produzidos por membros do Grupo de Estudos e Pesquisas em História da Educação (CNPq/NPGED).
A primeira versão da obra foi apresentada em 2003, enquanto monografiaxxii desenvolvida no curso de História oferecido pelo Programa de Qualificação Docente (PQD II), uma parceria entre a Universidade Federal de Sergipe e o Governo do Estado de Sergipe. Como anuncia o subtítulo, a obra analisa a trajetória da Sociedade Filarmônica Euterpe Japaratubense, entidade musical criada em 1900, na cidade de Japaratubaxxiii. O pequeno texto, menor da coleção em número de páginasxxiv, foi estruturado em quatro capítulos, nos quais a autora conduz o leitor pelas aventuras e desventuras da Entidade, desde sua fundação, em 1900, até as comemorações do seu centenário, em 2000.
A professora Geane Corrêa dos Santos reuniu alguns poucos documentos escritosxxv e um significativo acervo de fontes orais – mais de uma dezena de entrevistas, concedidas, entre novembro de 2001 e dezembro de 2002, por pessoas que participaram direta ou indiretamente da trajetória da Filarmônica.
Sem dúvida, as entidades musicais se constituem em objetos de estudos legítimos da História da Educação, desde que sejam enfatizadas as idéias e práticas educativas nelas presentes. Contudo, esse não é o caso da pesquisa empreendida por Geane Corrêa dos Santos. Do ponto de vista teórico-metodológico, o trabalho não se constitui em um texto historiográfico, dado a completa ausência de conceitos do referido campo e a fragilidade metodológica no trato com as fontes orais.xxvi
Em se tratando do campo História da Educação, a autora ignora as abordagens que efetivamente caracterizam esse campo de pesquisa, detendo-se a narrar, cronologicamente, a sucessão de maestros, presidentes, quadros de membros e as dificuldades de ordem material e administrativa que se abateram sobre a Filarmônica. A autora apenas sugere que a Euterpe Japaratubense também se constituiu numa “escola de música”, que instruía os aprendizes e buscava formar novas gerações de músicos. O caráter educativo da Filarmônica não foi o foco do estudo. No mais, a palavra Educação sequer é mencionada ao longo do trabalho. Como, então, classificá-lo como História da Educação?
Não é preciso ser um leitor muito perspicaz para perceber que a autora se deixa ludibriar pelos discursos presentes nos depoimentos. Tais discursos são reproduzidos e tomados como “verdades”. As informações colhidas nas entrevistas carecem de interpretações mais criteriosas, carecem de cotejo (crítica de controle) com outras fontes, não perdendo de vista o fato de que “nenhum documento é inocente” e representam os interesses e interpretações de indivíduos ou grupos específicos.xxvii
Cem anos de trajetória são narrados sem que se busque inserir a experiência da Filarmônica num contexto maior, seja sergipano ou brasileiro. Nesse sentido, sequer foi feito menção à existência de outra filarmônica em Japaratuba, que, desde 1983, passou a contar com a Sociedade Cultural e Musical Santa Terezinhaxxviii. Além disso, a autora parece ignorar a contribuição de autores como Manuel Passos de Oliveira Telles e Ivete Eça da Conceição para a história da música em Sergipe.xxix
Devo mencionar, todavia, que, em nenhum momento, a autora demonstrou a intenção de produzir um texto de História da Educação. Ela esclarece que o “trabalho busca traçar o perfil da Sociedade Filarmônica Euterpe Japaratubense tentando compreender como tal Entidade tem se mantido ao longo dessa centenária trajetória. Outro elemento proposto ao esclarecimento trata-se da influência que essa Sociedade tem causado ao longo das gerações, além de fazer uma abordagem a respeito do estilo de suas peças” (pp. 11-12). A autora não se propôs a estudar o caráter educativo, as práticas educativas no interior da entidade musical.
Em sua A música instrumental em Japaratuba, Geane Corrêa dos Santos registrou e deu ordenamento lógico a um conjunto de memórias sobre a Sociedade Filarmônica Euterpe Japaratubense. Mas, em hipótese alguma, trata-se de um texto historiográfico, seja pela completa ausência de diálogo com conceitos característicos do campo, seja pela ausência de rigor metodológico do uso das fontes. É lastimável que a coleção Educação é História tenha incorporado em texto tão primário e distanciado do fazer historiográfico.

CONSIDERAÇÕES FINAIS


É preciso assinalar que a crítica empregada é um indício tácito da relevância que a “Coleção Educação é História” ganhou no meio acadêmico. Se em nada tivesse contribuído, a Coleção teria passado despercebida e ficaria adormecida em uma estante empoeirada. Muito pelo contrário, a empresa capitaneada pelo professor Jorge Carvalho do Nascimento, vem despertando diversas reações, apreciativas ou não. Certamente, a crítica historiográfica estimulará a produção intelectual em Sergipe e os integrantes do Grupo de Estudos e Pesquisas em História da Educação continuarão contribuindo com suas interpretações das experiências educacionais dos sergipanos e brasileiros, iluminando espaços e tempos nebulosos da nossa História da Educação.

BIBLIOGRAFIA UTILIZADA


BARREIRA, Luís Carlos. História e historiografia. As escritas recentes da história da educação brasileira (1971-1988). Tese (Doutorado em educação), Faculdade de Educação, UNICAMP, 1995;
BOMFIM, Célia Maria dos Santos. A música instrumental em Japaratuba: a trajetória da Sociedade Cultural e Musical Santa Terezinha (1983-2001). Propriá, 2002. Monografia (Licenciatura em História) – Pólo Regional de Propriá, PQD II/UFS;
BONTEMPI JÚNIOR, Bruno. História da educação brasileira: o terreno do consenso. Dissertação (Mestrado em História e Filosofia da Educação), Pontifícia Universidade Católica de São Paulo 1995;
BRANDÃO, Zaia. A teoria como hipótese. In: BRANDÃO, Zaia. A intelligentsia: um percurso com Paschoal Lemme por entre as memórias e as histórias da Escola Nova no Brasil. Bragança Paulista: IFAN-CDAPH/Ed. da Universidade São Francisco, 1999;
CONCEIÇÃO, Ivete Eça da. Sergipe cantava em Allegro Ma Nom Troppo: o canto orfeônico em Sergipe e a fundação do Instituto de Música e Canto Orfeônico de Sergipe – 1930-1950. São Cristóvão, 1997. Monografia (Licenciatura em História), UFS;
FREITAS, Anamaria Gonçalves Bueno. Vestidas de azul e branco: um estudo sobre as representações de ex-normalistas (1920-195). São Cristóvão: Grupo de Estudos e Pesquisas em História da Educação/NPGED, 2003 (Coleção Educação é História, 3).
NASCIMENTO, Ester Fraga Vilas-Bôas Carvalho do. A Escola Americana: origens da educação protestante em Sergipe (1886-1913). São Cristóvão: GEPHE/NPGED, 2004 (Coleção Educação é História, 4);
NASCIMENTO, Jorge Carvalho do. Historiografia educacional sergipana: uma crítica aos estudos de história da educação. São Cristóvão: Grupo de estudos e Pesquisas em História da Educação/NPGED, 2003 (Coleção Educação é História, 1);
SANTOS, Fábio Alves dos. Olhares de Clio sobre o universo educacional. Um estudo das monografias sobre educação do departamento de História da UFS, 1996-2002. São Cristóvão: Grupo de Estudos e Pesquisas em História da Educação/NPGED, 2003 (Coleção Educação é História, 2);
SANTOS, Geane Corrêa dos. A música instrumental em Japaratuba: trajetória da Sociedade Filarmônica Euterpe Japaratubense. Propriá, 2002. Monografia (Licenciatura em História) – Pólo Regional de Propriá, PQD II/UFS;
SANTOS, Geane Corrêa dos. A música instrumental em Japaratuba: trajetória da Sociedade Filarmônica Euterpe Japaratubense. São Cristóvão: GEPHE/NPGED, 2004. 95 p. (coleção Educação é História, 5);
TELES, Manuel dos Passos de Oliveira. A música popular em Sergipe. Revista do IHGS, Aracaju, v. 16, n. 21, p. 46-53, [1955];
TOLEDO, Maria Rita de Almeida. Fernando de Azevedo e a Cultura Brasileira ou As aventuras do criador e da criatura. Dissertação (Mestrado em História e Filosofia da Educação), Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 1996;
WARDE, Miriam Jorge. Anotações para uma historiografia da educação brasileira. In Em Aberto, ano 3, nº 23, set./out. 1984;
_____. Contribuição da História para a Educação. In Em Aberto, ano X, nº 47, jul./set. 1990, pp. 3-11.



i NASCIMENTO, Jorge Carvalho do. Historiografia educacional sergipana: uma crítica aos estudos de história da educação. São Cristóvão: Grupo de estudos e Pesquisas em História da Educação/NPGED, 2003 (Coleção Educação é História, 1).

ii SANTOS, Fábio Alves dos. Olhares de Clio sobre o universo educacional. Um estudo das monografias sobre educação do departamento de História da UFS, 1996-2002. São Cristóvão: Grupo de Estudos e Pesquisas em História da Educação/NPGED, 2003 (Coleção Educação é História, 2).

iii FREITAS, Anamaria Gonçalves Bueno. Vestidas de azul e branco: um estudo sobre as representações de ex-normalistas (1920-195). São Cristóvão: Grupo de Estudos e Pesquisas em História da Educação/NPGED, 2003 (Coleção Educação é História, 3).

iv NASCIMENTO, Ester Fraga Vilas-Bôas Carvalho do. A Escola Americana: origens da educação protestante em Sergipe (1886-1913). São Cristóvão: GEPHE/NPGED, 2004 (Coleção Educação é História, 4).

v SANTOS, Geane Corrêa dos. A música instrumental em Japaratuba: trajetória da Sociedade Filarmônica Euterpe Japaratubense. São Cristóvão: GEPHE/NPGED, 2004. 95 p. (coleção Educação é História, 5).

vi NASCIMENTO, Jorge Carvalho do. Um olhar aguçado. In: SANTOS, Fábio Alves dos. Olhares de Clio sobre o universo educacional. Um estudo das monografias sobre educação do departamento de História da UFS, 1996-2002. São Cristóvão: Grupo de Estudos e Pesquisas em História da Educação/NPGED, 2003. (Coleção Educação é História, 2). pp. 7-8.

vii WARDE, Miriam Jorge. Anotações para uma historiografia da educação brasileira. In Em Aberto, ano 3, nº 23, set./out. 1984; _____. Contribuição da História para a Educação. In Em Aberto, ano X, nº 47, jul./set. 1990, pp. 3-11.

viii BARREIRA, Luís Carlos. História e historiografia. As escritas recentes da história da educação brasileira (1971-1988). Tese (Doutorado em educação), Faculdade de Educação, UNICAMP, 1995.

ix BONTEMPI JÚNIOR, Bruno. História da educação brasileira: o terreno do consenso. Dissertação (Mestrado em História e Filosofia da Educação), Pontifícia Universidade Católica de São Paulo 1995

x TOLEDO, Maria Rita de Almeida. Fernando de Azevedo e a Cultura Brasileira ou As aventuras do criador e da criatura. Dissertação (Mestrado em História e Filosofia da Educação), Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 1996.

xi NASCIMENTO, Jorge Carvalho do. Historiografia educacional sergipana: uma crítica aos estudos de história da educação. São Cristóvão: Grupo de estudos e Pesquisas em História da Educação/NPGED, 2003 (Coleção Educação é História, 1).

xii SANTOS, Fábio Alves dos. Olhares de Clio sobre o universo educacional. Um estudo das monografias sobre educação do departamento de História da UFS, 1996-2002. São Cristóvão: Grupo de Estudos e Pesquisas em História da Educação/NPGED, 2003 (Coleção Educação é História, 2).

xiii BRANDÃO, Zaia. A teoria como hipótese. In: BRANDÃO, Zaia. A intelligentsia: um percurso com Paschoal Lemme por entre as memórias e as histórias da Escola Nova no Brasil. Bragança Paulista: IFAN-CDAPH/Ed. da Universidade São Francisco, 1999. P. 182-192.

xiv FREITAS, Anamaria Gonçalves Bueno. Vestidas de azul e branco: um estudo sobre as representações de ex-normalistas (1920-195). São Cristóvão: Grupo de Estudos e Pesquisas em História da Educação/NPGED, 2003 (Coleção Educação é História, 3).

xv FREITAS, Anamaria Gonçalves Bueno. Vestidas de azul e branco: um estudo sobre as representações de ex-normalistas (1920-195). São Cristóvão: Grupo de Estudos e Pesquisas em História da Educação/NPGED, 2003 (Coleção Educação é História, 3). p. 37.

xvi NASCIMENTO, Ester Fraga Vilas-Bôas Carvalho do. A Escola Americana: origens da educação protestante em Sergipe (1886-1913). São Cristóvão: GEPHE/NPGED, 2004 (Coleção Educação é História, 4).

xvii Ester Fraga Vilas-Bôas Carvalho do Nascimento, que atualmente coordena o Núcleo de Pós-Graduação em Educação da Universidade Tiradentes (UNIT), é graduada em Ciências Biológicas (1989) e mestre em Educação (2000) pela UFS e, em 2005, doutorou-se em Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

xviii Laranjeiras (arquivos da primeira Igreja Presbiteriana de Sergipe, Arquivo Municipal de Laranjeiras, Cartório de Registro de Imóveis do 1º Ofício da Comarca de Laranjeiras e Casa de Cultura João Ribeiro); Aracaju (Arquivo do Poder Judiciário, Arquivo da Escola Normal, Arquivo Público do Estado de Sergipe, Biblioteca Pública Epifânio Dória, Biblioteca da Loja Maçônica Clodomir Silva, PESQUISE – Pesquisas de Sergipe, Arquivos da Academia Sergipana de Letras e Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, Arquivo da Cúria Metropolitana de Aracaju); São Paulo (Arquivo Histórico Presbiteriano, bibliotecas da UMESP e da Universidade Mackenzie).

xix NASCIMENTO, Ester Fraga Vilas-Bôas Carvalho do. A Escola Americana: origens da educação protestante em Sergipe (1886-1913). São Cristóvão: GEPHE/NPGED, 2004 (Coleção Educação é História, 4). p. 230.

xx SANTOS, Geane Corrêa dos. A música instrumental em Japaratuba: trajetória da Sociedade Filarmônica Euterpe Japaratubense. São Cristóvão: GEPHE/NPGED, 2004. 95 p. (coleção Educação é História, 5).

xxi Graduada em História pela UFS (2003) e professora da Secretaria de Estado da Educação (SEED/SE) e da Secretaria Municipal de Educação de Japaratuba/SE.

xxii SANTOS, Geane Corrêa dos. A música instrumental em Japaratuba: trajetória da Sociedade Filarmônica Euterpe Japaratubense. Propriá, 2002. Monografia (Licenciatura em História) – Pólo Regional de Propriá, PQD II/UFS.

xxiii Localizada no norte de Sergipe, na micro-região do vale do Cotinguiba, distante da capital 34 Km em linha reta e 54 Km pela rodovia federal BR 101.

xxiv Um total de 95 páginas.

xxv Os Estatutos (1959) e o Livro de Atas (1985) da Sociedade Filarmônica Euterpe Japaratubense.

xxvi Ironicamente, a bibliografia elencada ao final do trabalho referencia importantes obras de autores como Pierre Nora, Jacques Le Goff e Peter Burke, dentre outros [NORA, Pierre. Entre a Memória e a História. A problemática dos lugares. São Paulo: PUC, 1993; LE GOFF, Jacques. História e Memória. 2 ed. Campinas: UNICAMP, 1992; BURKE, Peter. A escrita da História: novas perspectivas. São Paulo: UNESP, 1992].

xxvii No que confere aos problemas na utilização das fontes orais, causa-me espanto encontrar na bibliografia do livro referência à autores como Paul Thompson, Carlos Bom Meihy, Alberto Lins Caldas [THOMPSON, Paul. A voz do passado: História Oral. 2 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992; MEIHY, Carlos Bom. Manual de História Oral. São Paulo: Edições Loyola, 1996; CALDAS, Alberto Lins. Oralidade, texto e história: para ler a História Oral. São Paulo: Loyola, 1999; FERREIRA, Marieta, AMADO, Janaína (Orgs). Usos e abusos da história oral. 2 ed. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1998].

xxviii BOMFIM, Célia Maria dos Santos. A música instrumental em Japaratuba: a trajetória da Sociedade Cultural e Musical Santa Terezinha (1983-2001). Propriá, 2002. Monografia (Licenciatura em História) – Pólo Regional de Propriá, PQD II/UFS.

xxix TELES, Manuel dos Passos de Oliveira. A música popular em Sergipe. Revista do IHGS, Aracaju, v. 16, n. 21, p. 46-53, [1955]; CONCEIÇÃO, Ivete Eça da. Sergipe cantava em Allegro Ma Nom Troppo: o canto orfeônico em Sergipe e a fundação do Instituto de Música e Canto Orfeônico de Sergipe – 1930-1950. São Cristóvão, 1997. Monografia (Licenciatura em História), UFS; BOMFIM, Célia Maria dos Santos. A música instrumental em Japaratuba: a trajetória da Sociedade Cultural e Musical Santa Terezinha (1983-2001). Propriá, 2002. Monografia (Licenciatura em História) – Pólo Regional de Propriá, PQD II/UFS.







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