Classicismo



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Classicismo

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CENSA - São Mateus, Setembro de 1998.
- Sumário -

I - Introdução

II - Desenvolvimento


  1. Renascimento ou Classicismo




  1. Características do renascimento nas artes e na literatura




  1. Camões




  1. A Lírica Camoniana

III - Conclusão

IV - Bibliografia

I - Introdução


Tentaremos mostrar o mais claro possível o movimento renascentista.

O desenvolvimento da imprensa agilizará os processos de cópia e, conseqüentemente o acesso a alguns textos escritos, sobretudo nas universidades (as quais continuam se desenvolvendo e tendendo a separar-se do comando da igreja) e nas cortes reais.

Mostraremos também Camões, um poeta capaz de dar forma lapida e definitiva a um conjunto de idéias, valores e tópicos característicos de sua época (...).


  1. Renascimento ou classicismo

A descoberta de novos continentes, a visão antropocêntrica do mundo, a invenção da bússola e da imprensa, a afirmação dos estados nacionais e a difusão de variadas formas artísticas inspiradas no mundo greco-latino definiram a configuração do Renascimento, um brilhante período da cultura européia que se seguiu à Idade Média.

Como Renascimento designa-se o poderoso movimento artístico e literário que surgiu na Itália dos séculos XV (Quattrocento) e XVI (Cinquecento), irradiando-se depois para a Europa ao norte dos Alpes, promovendo em toda parte um pronunciado florescimento da arquitetura, escultura, pintura e das artes decorativas, da literatura e da música e um novo enfoque da política. Embora hoje também se fale, metaforicamente, em renascenças na história da civilização egípcia antiga ou da chinesa, trata-se na verdade de um fenômeno específico da civilização européia moderna que, malgrado o intervalo da Idade Média, nunca esqueceu suas bases na civilização greco-romana da antiguidade, da civilização "clássica".

Considerado a princípio por eruditos e historiadores como um ressurgimento da cultura clássica depois de um amplo declínio medieval, mais tarde o termo adquiriu também uma série de conotações políticas, econômicas e até religiosas. Embora, de modo geral, o movimento tenha sido considerado como de total oposição ao período medieval, alguns historiadores tendem a ver o Renascimento mais como um processo evolutivo do que uma ruptura profunda, pois diversas manifestações renascentistas foram identificadas já no início do século XII. Entre esses prenúncios destacaram-se a redução da influência da Igreja Católica e do Sacro Império Romano-Germânico, o surgimento das cidades-estados, o desenvolvimento das línguas nacionais e o início do desmoronamento das estruturas feudais.


2.2. Características do Renascimento nas artes e na literatura
A principal tendência do Renascimento é o Classicismo, que se define pelas seguintes características:

  • Imitação dos autores gregos e latinos, modelos de perfeição estética;

  • Obediência a regras;

  • Busca da perfeição formal das obras;

  • Racionalismo: equilíbrio entre razão e emoção;

  • Empesoalidade;

  • Universalismo dos valores ideais do Bem, da Beleza e da Verdade.

Entretanto, o ideal de perfeição e equilíbrio estético do classicismo renascentista em nenhum momento se impôs de modo absoluto. No âmbito das artes, características medievais sobreviveram durante todo o período. Em sua ultima fase - o Maneirismo - o renascimento já antecipa características do Barroco: pessimismo, conflito, prevalência da emoção sobre a razão.

2.3. Camões


Expressão acabada das glórias de sua terra e do homem renovado pela Renascença, Camões consolidou a língua portuguesa e conferiu-lhe amplitude, aptidão e maleabilidade capazes de abarcar motivos de significado nacional e universal ao mesmo tempo.

Luís Vaz de Camões nasceu provavelmente em Lisboa em 1524 ou, para outros, 1525. Sua família era de pequenas posses, mas freqüentava a corte ou ocupava cargos importantes, como o do tio que era prior do mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra, onde o poeta teria feito o curso de artes. Graças a esse começo se firmaram as bases de sua sólida formação cultural, que levou Wilhelm Storck a chamá-lo "filho legítimo do Renascimento, e humanista dos mais doutos e distintos de seu tempo".

De 1542 a 1545 parece ter morado em Lisboa, vivendo as primeiras paixões amorosas e dificuldades com o meio. Não se sabe com certeza por que foi forçado a trocar a capital pelo desterro no Ribatejo, mas por volta de 1547 se alistou no serviço militar e seguiu para o norte da África. Em combate perto de Ceuta, no Marrocos, perdeu o olho direito. De volta a Lisboa em 1549, conviveu um tanto com a nobreza, outro tanto com a noite das ruas e dos bordéis. Impetuoso, em 1552 feriu à espada um cavalariço do rei e foi condenado a um ano de prisão.

Após o indulto de D. João III, em março de 1553, Camões partiu para a Índia. Pouco parou em Goa: participou da expedição ao Malabar e talvez de um cruzeiro contra navios turcos no mar Vermelho. Sua estada em Macau, no cargo de provedor dos defuntos e ausentes, mais ou menos de 1556 a 1558, não é tida como certa. O que não se põe em dúvida é que, em viagem às costas da China, naufragou nas proximidades do atual Vietnam, salvando-se a nado com o manuscrito de Os lusíadas já bastante adiantado. Esteve ainda na Malásia e retornou a Goa, quando de novo teria sido preso, desta vez por dívidas. Mais tarde viveu em Moçambique, onde Diogo do Couto o encontrou "tão pobre que comia de amigos".

Com o favor desses amigos, o poeta em 1569 regressou a Lisboa. Bateu-se, então, pela publicação de Os lusíadas. Em 1571 a Inquisição lhe outorgou a licença requerida e a obra, depois de censurada, teve em 1572 sua primeira edição. No mesmo ano, o rei D. Sebastião lhe concedeu a tença de 15 mil réis, quantia sobre cujo valor há muita discussão mas que a maior parte dos estudiosos julga insignificante, ainda mais que lhe não foi paga com regularidade. Os últimos anos foram portanto de miséria e de "austera, apagada e vil tristeza".

Caracterização geral. Além de Os lusíadas, só três ou quatro poemas de Camões foram publicados durante sua vida. A maior parte da obra lírica, tal como os autos e as cartas, permaneceu inédita. A tarefa de identificar e reunir esse material precioso, a que a celebridade e grandeza do prodígio épico emprestavam aura de objeto de devoção, mobilizou muita gente, ao longo de largos anos.

Assim é que a organização da obra tem história à parte, de que um dos primeiros passos foi a publicação em 1587, por Afonso Lopes, dos autos Anfitriões e Filodemo. Seguiu-se a primeira coletânea das líricas, com o título de Rimas (1595), devida a Estêvão Lopes. Sucederam-se outras edições, expurgadas de poemas presumivelmente apócrifos ou acrescidas de dezenas de outros, às vezes duvidosos. A primeira obra completa só apareceu em 1860, preparada pelo visconde de Juromenha: os sonetos, inicialmente 108, chegavam a 352.

Do final do século XIX em diante se fizeram edições mais criteriosas, apoiadas nos trabalhos de Wilhelm Storck, Carolina Michaëlis, Agostinho de Campos, Costa Pimpão, José Maria Rodrigues, Afonso Lopes Vieira e Hernâni Cidade. Mais recentemente, pesquisadores como Jorge de Sena, Eugênio de Andrade e Emanuel Pereira Filho fixaram o extraordinário legado camoniano nos seguintes termos: Os lusíadas, 211 sonetos, 142 redondilhas, 15 canções, 13 odes, nove éclogas, cinco oitavas, quatro cartas e três autos (além dos mencionados, El-rei Seleuco).

Poesia épica. Camões é sobretudo síntese de uma época e de um povo, do espírito humanista -- com seus vastos conhecimentos, sua filosofia, sua ética -- somado à realização histórica e política da expansão marítima portuguesa. Testemunha viva e transformadora, cruzou os mares, se engajou pessoalmente nessa expansão e, imbuído daquele espírito, fez dela um monumento de arte literária. Nesse sentido, em dimensão assim tão integrada e completa, é caso único na história da poesia e é, mais do que tudo, o autor de Os lusíadas.

O poema divide-se em dez cantos de oitava rima, estância de oito versos decassílabos. O motivo central é a viagem de Vasco da Gama em busca do caminho para as Índias pelo Ocidente. Em torno desse fio condutor se fazem retrospectos e projeções da história de Portugal, entretecendo-se os personagens ou façanhas lusíadas e os seres ou feitos mitológicos, a ajuda dos deuses.

Desse modo figuras efetivamente históricas como Nuno Álvares Pereira ou Inês de Castro se tornam também mitos e heróis do mesmo Olimpo de celebração. A mescla de ideais e símbolos cristãos com a mitologia greco-romana, que a alguns causou estranheza, é inerente à posição de Camões como renascentista e aos padrões estéticos correspondentes. Ainda assim ele a transcende inteiramente, com o domínio de todos os ritmos, gêneros e técnicas que conheceu, com a vasta riqueza de suas imagens, sua sensualidade audaciosa e que impregna tantos versos, ou a agudeza de uma reflexão que vai ao fundo dos seres e das coisas, e abrange todas as contradições da condição humana.

O poema tem lição e encanto permanentes, sempre tão criativo quanto crítico: ainda que épico, logo em seguida à "fúria grande e sonorosa" diz da fragilidade e insegurança da vida, para "um bicho da terra vil e tão pequeno" (cantos I, II); exorta ao amor e à piedade nas páginas pungentes de Inês de Castro (canto III); mas sabe reerguer o clangor e a aspereza feroz da batalha de Aljubarrota, ou a dedicação maior que a própria existência, e destilar a tremenda meditação sobre a fatuidade da glória e do poder, a "vã cobiça" da fama, nos versos do velho do Restelo (canto IV) e no canto VI; assombra o leitor com a poderosa recriação zoomórfica da tromba-d'água, e com a invenção genialmente plástica, goyesca com dois séculos à frente, do gigante Adamastor (canto V); e abriga a moral do cavalheirismo e do desprendimento amoroso no episódio dos Doze da Inglaterra (canto VI); ou a ética que verbera a ambição política corrupta e socialmente iníqua, nas últimas oitavas dos cantos VII e VIII, ou no início do IX; depois, traz a maravilha do presente de Vênus aos navegantes: o paraíso erótico e o que no século XX se dirá santuário ecológico da ilha dos Amores, painel pagão de colorido admirável, súmula de um hedonismo que, na vida e obra camonianas, conflita com as idealizações ora cristãs, ora platônicas (canto IX); por fim, expõe sua resplandescente cosmologia ptolomaica e imprime tom elegíaco, de palavras proféticas, ao final (canto X). Em todas as mais de mil estâncias, um talento capaz de expressar e transfigurar qualquer coisa, das maiores às menores, das mais concretas às mais abstratas, das mais solenes às mais cotidianas.

Lírica. Tanto nos sonetos quanto nas redondilhas, Camões é também poeta e pensador, em que a sensibilidade e a consciência interagem com equilíbrio incomparável. O aspecto neoplatônico e idealista, de modelo petrarquiano, se funde à materialidade do toque dionisíaco pelo qual o amor, se "está no pensamento como idéia", também é "fogo que arde sem se ver". Tanto que ao tema dos bens e males do amor se juntam os da má sorte, do exílio em suas várias acepções, da transitoriedade dos dias, da mudança: em um soneto, "mudam-se os tempos, mudam-se as vontades"; ou, em "Babel e Sião", "E vi que todos os danos / Se causavam das mudanças, / e as mudanças dos anos". Nesse ponto o poeta está muito adiante de Petrarca e a um passo do barroco conceptista, tanto no conteúdo, como na forma: o soneto adquire inflexão emotiva mais direta e a redondilha herdada do Cancioneiro geral se faz poesia filosófica.

Quer na lírica, quer na épica, o gênio de Camões é daqueles, muito raros, que se mostram continuamente aptos a proporcionar o encontro com o sublime, a solução ao mesmo tempo mágica e de extrema inteligência, o acerto ou revelação definitiva, que magnetiza o leitor e o eleva, de súbito, a um outro estado de percepção. Às vezes, isso se instala em um ou outro de seus versos, pois o poeta é senhor de alguns dos mais perfeitos da língua, como, no soneto sobre Jacó, o remate "para tão longo amor tão curta a vida".

Autos e cartas. Ficaram ainda, da obra camoniana, autos e cartas. De matriz vicentina, os autos de Camões desenvolvem o traço coloquial que muitas vezes se insinua em sua lírica e, para bom observador, até no texto de Os lusíadas. Essa tendência lhes dá leveza dramática e acentua as surpresas de sua face burlesca. Um desses autos, o Filodemo, a tradição reza ter sido encenado pelo autor em Goa, em 1556.

Nas poucas cartas que sobreviveram das muitas escritas por Camões, entrevê-se muito de seu estilo poético: em algumas descreve para um amigo a vida social de Lisboa, seus costumes e pecados. Com ironia ácida, ataca a hipocrisia das relações mundanas e as contrapõe às doçuras da vida no campo, de onde o amigo escrevera. Em uma carta que envia da Índia, ao contrário, está saudoso de Portugal e horrorizado com aqueles trópicos também tristes, de que diz: "Da terra vos sei dizer que é mãe de vilões ruins e madrasta de homens honrados." Luís Vaz de Camões morreu em Lisboa em 10 de junho de 1580. Seus restos mortais desapareceram.




  1. A Lírica Camoniana

A obra lírica de Camões foi publicada postumamente em 1595 sob o título Rimas.

Como Sá de Miranda, Camões também cultivou as duas tendências presentes do século XVI: a forma poética tradicional, chamada então “medida velha” (versos redondilhos maiores e menores) e a tendência trazida da Itália, a “medida nova” (versos decassílabos, heróicos e saficos) sua obra pode ser considerada uma síntese entre a tradição poética portuguesa e as inovações renascentistas.
A medida velha.
Em suas redondilhas, Camões dá continuidade a poesia medieval. Com ele, a tradição poética eleva-se a um nível nunca alcançado pelos autores de Cancioneiro Geral de Garcia de Resende.


  • A medida velha - versos redondilhos maiores e menores.

  • A medida nova - versos decassílabos

Ex.:

Cantiga

Luís de Camões
a este mote alheio:

Menina dos olhos verdes.

porque me não vedes?
Voltas
Eles verdes são,

e têm por usança

na cor, esperança

e nas obras, não.

Vossa condição

não é d’olhos verdes,

porque me não vedes.

(.................................)


Haviam de ser,

por que possa vê-los,

que uns olhos tão belos

não se hão de esconder,

mas fazeis-me crer

que já não são verdes,

porque me não vedes.
Verdes não o são

no alcanço deles;

verdes são aqueles

que esperança dão.

Se na condição

está serem verdes

por que me não vedes?

III - Conclusão


Conclui-se que renascimento ou classicismo foi um movimento cultural com grande diversidade de manifestações.

Observou-se também que a tradição medieval não foi totalmente abandonada durante o renascimento. E que me comparação a Camões, qualquer dos mais notáveis escritores quinhentistas nos aparece incompleto embora por vezes mais profundo neste ou naquele aspecto particular.



IV - Bibliografia
Novas palavras 1 / Emília Amaral; Mauro Ferreira; Ricardo Leite; Severino Antônio / Enciclopédia Barsa.



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