Clarice e os traços da Paixão



Baixar 118,64 Kb.
Encontro21.07.2017
Tamanho118,64 Kb.

Clarice e os traços da Paixão
Carlos Eduardo Carvalheira e Dulcinea Santos

Clarice, Clarice Lispector, ela, a nossa Clarice, nobre, nobre Lis, há trinta anos elevada à extrema doçura enérgica do Deus.¹ Recife, essa terra que a infância de Clarice acalentou: nos seus rios, o Capibaribe, em suas praças, a Maciel Pinheiro, em suas escolas, em seus jardins, em seus felizes encantos e saudosos encontros, e, claro, claro, em seus desencontros que, em sua escrita, também teceram a palavra encarnada na viva matéria vertente. Junto, a poesia de sua imagem, bela, tão bela e tão pungente, por ser, como sua escrita, bela demais. Essa imagem e essa escrita são uma escritura feita de Dor, mas Dor suprassumida no Prazer colhido em especial aprendizagem. Comparando-a a Joyce, indagamo-nos:



- O que há em Joyce e Clarice?
Sim... Emoção e sensação, de que é feita a sua escrita, limiar do que Peirce chama de primeiridade e secundidadeemoção e sensação -a linguagem mais próxima do Real. Loucura? - Cantar a vida! Em Joyce e Clarice há o que anuncia Lacan como Real: O estritamente impensável. Seria, ao menos, um ponto de partida. Faria um buraco no negócio. E nos permitiria nos interrogarmos quanto a isso (...) 2 O Real, o real é a vida 3 que ao Poeta, ao amante, ao Artista – aedo da Verdade – é-lhe dado cantar. E atenhamo-nos: o lugar da Verdade não é o do gozo, mas o lugar do encontro do que há de mais íntimo a nós mesmos, uma identificação confessa ao que há de mais próximo a nós mesmos: uma experiência significativa que tem como suporte o moi-même. 4 E, como nos diz ainda Lacan: Essa verdadeira verdade é o lado escondido das cartas. Haverá sempre um, mesmo no discurso filosófico mais rigoroso. 5 Há Um, um traço, um traço que suporta todos os traços da Paixão – Ideal do Eu – que se repetem.

Na escrita de Joyce e Clarice há o percurso do sujeito na translúcida película que se desprende de um corpo nodoso. Escrita branca. A é negro, E branco, I vermelho... O Verbo alquímico.

Clarice não era existencialista, sem credo, sem crença; tampouco poderia ser simplesmente Dor, como era a Dor, decadente sofrida, dos Poetas simbolistas, um mundo sem saída. Clarice era uma mulher mística, que, por meio do êxtase - momento epifânico que nos lança, de repente, numa experiência indizível, momento do secreto silêncio da linguagem -, encontrava o de dentro da gente. 6 Num ribombar do trovão, na chuva que cai, no transeunte que passa, seus personagens experienciavam a ultrapassagem nas infinitas possibilidades, a realidade não-humana da vida, em comunhão com uma atitude de recusa de qualquer sentido; nenhuma compreensão, apenas o óbvio, o clarividente, nesses instantes de metamorfose.7 Para isso, era preciso desaprender, conforme pensava Clarice - o que é possível, pois aprender, como pensa Sócrates, trazido no Fédon, de Platão, não é recordar?

Clarice escreve - não se sabe o quê -, e júbilo com certeza lhe trazia: a alegria de criação. Sua inexcedível personagem foi Loreley, foi Janaína, foi Martim, foi... tantas outras... Todas Linguagem, linguagem clariciana que a ela própria definia. Mas não, não estranhem pensando que, dizendo isso, estamos interpretando a nossa Clarice. Não, não, isso não é possível: sabemos que somos, cada um, fisgados pela palavra escarlate, a de vivos de sangue desejos - matéria incógnita do Real, pois, como definia: Lóri era. O quê? Mas ela era. Sentido? O it neutro, o mistério do impessoal, o impossível vivo do it tecendo a escritura da Paixão que sucumbe branca - apenas iniciais, como em G.H.–, um dizer impossível: a marca apenas inscrita, instigante suposição: teria sido? Sim. Possíveis infinitos. Como define Clarice: Porque sou uma pergunta. 8



Dulcinea Santos

Clarice, seu nome simboliza a claridade, mas da Aurora sua língua jamais pôde falar:


A minha primeira língua foi o português. Se eu falo russo? Não, não, absolutamente... (...) eu tenho a língua presa.

... Nasci na Rússia, mas não sou russa não.

... Muitas pessoas pensam que eu falo desta maneira por causa de um sotaque russo. Mas eu tenho a língua presa. Há a possibilidade de cortar, mas meu médico falou que dói muito. Tem uma palavra que eu não posso falar, senão todo mundo cai para trás: Aurora. 9
A família de Clarice - o pai, a mãe e três filhas - chega ao Recife por volta de 1924. Clarice tinha três anos. A sua irmã, Tânia Kaufman, fala do casarão onde foram morar:
Morávamos num casarão colonial, na Praça Maciel Pinheiro, hoje tombado pela Prefeitura. Era um casarão tão velho que, quando a gente andava, as tábuas balançavam. Tinha janelas coloniais, varanda, telhas coloniais, era mesmo muito antigo. Quando nos mudamos para lá, a casa devia ter já uns cem anos. Tinha embaixo um armazém. Morávamos no segundo andar... 10
Mas, para Clarice, era uma casa cor-de-rosa:
Minha lembrança é a de olhar pela varanda na Praça Maciel Pinheiro, em Recife, e ter medo de cair: achei tudo alto demais. A casa se acabou?

(...) Era pintada de cor-de-rosa. Uma cor acaba? Se desvanece no ar, meu Deus. 11
Em Clarice, o verbo se faz carne e a cor se desvanece no ar, criando forma... tomando corpo. Há algo tão distante... tão distante que nem mesmo a lembrança alcança: o acabar de uma cor-de-rosa.

Nela, a palavra é sentida em carne viva, jamais é recalcada – o texto sempre acompanha o ritmo do seu corpo. E ela parece estar sempre desejando atingir o Real:


Escrever é tantas vezes lembrar-se do que nunca existiu. Como conseguirei saber do que nem ao menos sei? Assim: como se me lembrasse. Com um esforço de “memória”, como se eu nunca tivesse nascido. Nunca nasci, nunca vivi: mas eu me lembro, e a lembrança é em carne viva. 12
No escrever de Clarice, ela parece que não deixa de não se lembrar de algo indizível, que me recorda a feliz frase de efeito de sentido criada por Lacan na tentativa de conceituar o Real: aquilo que não deixa de não se inscrever. E Lacan, ao fazer essa inscrição, sabe que ela nasce da necessidade de uma primeira inscrição simbólica: aquilo que não cessa de se inscrever. Mas, na forma poética, não há necessidade de artifícios lógicos.

Com esse mesmo texto, ela também parece dar o seu conceito de criar na Literatura - quando muitos dizem que na criação não há revelações, nada se cria, tudo se copia e a criação depende somente de muito trabalho, ela parece dizer não: criar é começar do nada – é lembrar-se do que nunca existiu. Para Clarice, não se faz uma frase. A frase nasce. 13 Concordo com ela: primeiro o ato criador, surgido de uma palavra inesperada, epifânica, e, depois, muito trabalho de oficina.

Como se percebe, a escrita de Lispector não faz do leitor um mero consumidor, mas convida-o a criar nas mais altas alturas de um Real indizível. Ela faz parte do escrito para não ser lido. E não de uma escrita legível – ao pé da letra. Na escrita clariciana o enunciado jamais substitui a enunciação.

Hélène Cixous considera Clarice Lispector o maior escritor contemporâneo, difundiu-a em toda a França, no Canadá e nos Estados Unidos. Em entrevista, Cixous comenta sobre a escrita excepcional de Clarice, que consegue unir a escrita mais leve ao pensamento mais profundo e onde o Real é portador do sentido mais fino:


(...) o que ela faz, e isto é absolutamente admirável, é filosofia poética ou poesia filosófica, enfim algo que eu nunca vi em outro lugar e só há uma outra pessoa no mundo que produziu textos tão densos, foi Kafka. Só que ele escreveu tudo ao nível da alegoria, ele alegoriza o real para chegar a produzir efeitos de sentido, faz do mesmo uma fábula. Para Lispector, o real é, em si mesmo, portador de sentido mais fino. Só os filósofos fizeram o que Clarice faz, mas sem a liberdade que ela, enquanto poeta, tem. Às vezes, eu me dizia que ela parecia Heidegger. (...)

(...) é impossível ler Clarice Lispector rapidamente. Ela pede um verdadeiro trabalho de leitura e as pessoas em geral não lêem assim, sobretudo quando se trata de literatura. Se se trata de filosofia ou de textos psicanalíticos, dizem a si mesmos que é preciso prestar atenção, refletir. Porém quando lêem literatura, não se detêm. E com Clarice Lispector é preciso não ter pressa. 14
Tão fascinado fiquei por Clarice, que a trouxe para o meu conto, lembrando aquilo que nunca existiu:

(...) quase afastado do mundo, embriagado, eu me sentia bem – bebericando cerveja. Junto a mim, Clarice respirava a proximidade da casa em que outraurora vivera.

Recordava com Clarice a nossa infância: ela, Bea e eu morávamos em torno da mesma praça, e estudamos nos mesmos colégios – Grupo Escolar João Barbalho e Ginásio Pernambucano. Briguei na escola com um menino que desejava namorá-la, Clarice tinha 12 anos. Cantava canção minha. Violão chorava a saudade de amores não vividos. Ela me olhou com aqueles olhos puxados, estranhos, e disse sorrindo que eu gostava de brincar com as palavras. Lembrei-lhe: ela é que tinha esse dom e recitei pensamentos seus: “Nunca nasci, nunca vivi: mas eu me lembro e a lembrança é em carne viva”.

- E o Capibaribe, lembra-se Clarice? Passava na frente do nosso ginásio. Um rio, Clarice, que passa sempre, sempre, no mesmo lugar... um rio acaba? se desvanece no mar?

Mas, na saudade, sem pressa, e sem saber onde começa nem termina, vamos também mergulhar na brilhante escuridão – útero do mundo, e ouvir da sua escrita um mundo de cores e palavras: ouçam, ouçam a Clarice... Ela é linda.




Carlos Eduardo Carvalheira

E tudo aqui tem cor esmaecida,

mas não como se tivesse um véu por cima:

são as verdadeiras cores.

(Clarice Lispector)

Lis, spectru... da flor, a flor-de-lis: Lispector...


Uma relação íntima estabeleceu-se intensamente entre mim e a flor: eu a admirava e ela parecia sentir-se admirada. E tão gloriosa ficou na sua assombração e com tanto amor era observada que se passavam os dias e ela não murchava: continuava de corola toda aberta e túmida, fresca como flor nascida. 15
A essência das flores é simples e positiva: é, apenas; qualidade, pura qualidade, qualidade de sensação: perfume, cores, somente a vida, tão diretamente apreendida que estritamente impensável no Real da linguagem. 16 Toda a obra clariciana traduz-se na tentativa angustiante, exasperada, de dizer dessa autêntica experiência humana, na tentativa de manifestar, no Real da escrita, a despossessão dos nomes, dos sentidos que velam o vivido, algo impossível de definir.

A cor que as cores trazem na cor esmaecida, na cor imprecisa, é a cor das flores em idéia sensível colhida, a cor das cores instantaneamente intuídas, cores colhidas na florescente sensação, uma sensação atrás do pensamento 17, fonte primária, verdadeira, do conhecimento; mas a idéia inteligível advém e o objeto, desaparecido, é representado por múltiplos significados, equívocos sentidos, e pelo sentido pelo qual alguma coisa responde,18 trazido pelo imaginário da linguagem. Assim é que somos então: vemos, escutamos, cheiramos, provamos, tateamos, e tudo é impresso em forma, significante, história escrita daquilo que prazerosa ou desprazerosamente nos alcançou; depois, depois, falamos disso, dizemos disso, num modo já esquecido, ou pior. 19

Clarice tenta, dramaticamente, em toda a sua Obra, mostrar, na linguagem, a fonte primária, as primeiras sensações diretamente sentidas, num modo de dizer bastante peculiar: estrangeirando o familiar mundo da linguagem, desconstruindo os lugares-comuns, perseguindo, na escrita, uma escrita poética, fazendo uma peculiar Aprendizagem: aprender a desaprender, para a Verdade, núcleo da vida, à superfície trazer. Aí o singular toma forma, faz-se o nome - signo motivado -, cujo desejo transforma a palavra-signo, signo lingüístico, o signo que aprisiona as idéias, na palavra-significante acolhedora do desejo, palavra encarnada, o desejo atravessando-a em pura apresentação, carnais desejos de realização 20. Aí ela, a palavra, palavra-alada, como a chama o Grego Homero, abre-se livremente ao movimento dialético, que, num vôo mais além, mais profundo, longe nos transporta, conduzindo-nos de um lugar a todos comum ao lugar da Verdade que em cada um habita. É esse signo, o signo significante, um signo colhido num universo singular: na floresta baudelairiana, uma floresta de açudes mudos e de tranqüilas mortalidades, 21 uma floresta cujos signos são signos mudos que nos espreitam, pedindo para serem lidos. 22 São estes os verdadeiros signos, os signos significantes que nada significam. 23 São eles frutos comestíveis, frutos do desejo insatisfeito, que caem, perecem. São frutos sazonais, signos contingentes.

Loreley, personagem clariciana, do livro Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres, queria desvelar sua verdadeira identidade, o mistério de sua existência. Perguntava-se: Quem sou eu? Enredara-se com esta questão: Pede-se vida?/ Pede-se vida./ Mas já não se está tendo vida?/ Existe uma mais real./ O que é o real?/ E ela não sabia como responder. 24 Precisava emaranhar-se naquela tenebrosa floresta.

Procura Ulisses, Professor de Filosofia. Precisava da escuta do sábio Ulisses, que lhe prometera: Eu não dou conselhos a você. Eu simplesmente – eu – eu acho que o que eu faço mesmo é esperar. 25 Ora, o astuto Ulisses sabia que Lóri, ela mesma, precisava tecer e destecer as formas e os modos que paravam de se imiscuir com o Real que é vida. 26 Era preciso que ela trilhasse um caminho às avessas, tal como o da menina Alice: a linguagem recheada descendo pela chaminé, uma aventura própria para adulto! Como lhe dizia Ulisses, só quando esquecemos todos os nossos conhecimentos é que começamos a saber. 27 Seria preciso, como lhe dissera ele, seu par amoroso, numa especial relação, que ela passasse da dor ao prazer, do inteligível ao sensível, e aí, prazerosamente, colhesse o profundo sentido da vida, que é, simplesmente, o sentido de estar viva, em mística união com a Natureza.

Lóri precisava desaprender. Precisava ser sábia bastante para desfazer os nós de corda de marinheiro que lhe atavam os pulsos. 28 Precisava descobrir a vida, a vida no Real estritamente impensável. 29 Uma cor que... vazio para ser lido, para que falasse nela o que de verdadeiro nela existe. Na tentativa, imaginava: fazia de conta que ela era uma mulher azul porque o crepúsculo mais tarde fosse azul. 30 Ela precisava compreender a vida no cheiro de todas as flores, no perfume de todas as cores, momento em que, em correspondência, tudo ao mesmo tempo se oferece numa tenebrosa e profunda unidade. 31

E a resposta é colhida em revérbero: Quem sou eu? perguntou-se em grande perigo. E o cheiro do jasmineiro respondeu: eu sou o meu perfume. 32 Momento de súbito acontecer, o grande susto de estar viva. 33 Sem conflito, sem resistência, a Verdade atravessa mundos: Epifania... Luminiscência... Há Um...34

Esse, um estranho saber: uma resposta indescritível, não predicativa, pura apresentação, simples e positiva, sem causa, puro efeito, sem compreensão, sem representações:


Só os pés molhados pela espuma de algo que se espraia em nós.35


Dulcinea Santos


Sem pressa e sem saber onde começa, nem termina, vamos mergulhar na brilhante escuridão de Clarice – útero do mundo, e ouvir da sua escrita um mundo de cores e palavras: ouçam, ouçam a Clarice... Ela é linda.
Ouve-me, ouve o silêncio. O que te falo nunca é o que eu te falo e sim outra coisa. Capta essa coisa que me escapa e no entanto vivo dela e estou à tona de brilhante escuridão (...)

(...) Entro lentamente na escrita assim como já entrei na pintura. É um mundo emaranhado de cipós, sílabas, madressilvas, cores e palavras – limiar de entrada de ancestral caverna que é o útero do mundo e dele vou nascer. 36

Em Clarice o seu estilo livre de criar rompe com o sistema discursivo que já estamos acostumados a ouvir. Nos seus textos, geralmente não há começo meio ou fim. E o conteúdo sempre regido sob o domínio da forma, consegue como por um passe de mágica alcançar um efeito de sentido inesperado, que parece atravessar o real: Capto essa coisa que me escapa e no entanto vivo dela e estou à tona de brilhante escuridão...

A primeira vez que ouvi Clarice foi no conto A fuga de A Bela e a Fera. Escolhi o menor conto do livro desafiando-a: quero ver se ela é boa mesmo, nessa fuga de apenas quatro páginas... páginas da vida?

Repentinamente, fiquei abismado – a revelação aconteceu no exato momento em que um estrondo de claricidade abalou toda a casa.



Como foi que aquilo aconteceu? A princípio apenas o mal estar e o calor. Depois qualquer coisa dentro dela começou a crescer. De repente, em movimentos pesados, minuciosos, puxou a roupa do corpo, estraçalhou-a, rasgou-a em longas tiras. O ar fechava-se em torno dela, apertava-a. Então um forte estrondo abalou a casa. Quase ao mesmo tempo, caíam grossos pingos d’água, mornos e espaçados. 37

E desse estrondo surge inesperadamente o significante - doze anos de casada – epifanizando todo o conto:



(...) Há doze anos era casada e três horas de liberdade restituíram-na quase inteira a si mesma: primeira coisa a fazer era ver se as coisas ainda existiam. (...)

(...) Sim, doze anos pesam como quilos de chumbo. Os dias se derretem, fundem-se e formam um só bloco, uma grande âncora. E a pessoa está perdida. .Seu olhar adquire um jeito de poço fundo. Água escura e silenciosa (...).

(...) Por que esperou tanto tempo por essa renovação? Só hoje, depois de doze séculos (...) Mas hoje era diferente de todas as tardes dos dias de todos os anos (...)

(...) Volto para casa. Não posso ter raiva de mim, porque estou cansada. E mesmo tudo está acontecendo, eu nada estou provocando. São doze anos.(...)

.....................................................................................................................................

(...) Entra em casa. É tarde e seu marido está lendo na cama. (...) Toma um copo de leite quente porque não tem fome. Veste um pijama de flanela azul, de pintinhas brancas, muito macio mesmo. Pede ao marido que apague a luz. E beija-o no rosto. (...)

(...) Dentre as árvores, sobe uma luz grande e pura.

Fica de olhos abertos durante algum tempo. Depois enxuga as lágrimas com o lençol, fecha os olhos e ajeita-se na cama. Sente o luar cobri-la vagarosamente.

Dentro do silêncio da noite, o navio se afasta cada vez mais.

Mas alguns críticos pouco entenderam das epifanias de Clarice. Não compreenderam também o romance Perto do Coração Selvagem – viram fortes influências de James Joyce e Virgínia Woolf. Outras pessoas chegaram a dizer que era louca como Joyce, pois muitos dos seus romances não eram nada objetivos, não tinham sentido, nem começo, nem fim.

Clarice chegou a enviar uma carta para a sua irmã Tânia Kaufman, relatando que informou ao crítico Álvaro Dias que quando escreveu Perto do Coração Selvagem não conhecia ainda James Joyce nem Virginia Woolf.

Mas qualquer um pode perceber que eles têm estilos totalmente diferentes, embora ambos tenham traços em comum por não seguirem regras obsoletas, ditas de Literatura, que hoje já são ultrapassadas, pela ênfase que é dada muito mais à forma que ao conteúdo.

Para ilustrar, vamos comparar esse belíssimo conto A fuga com Argila, de James Joyce, um dos contos de Dublinenses, que foram criticados por suas epifanias sem sentido e por apresentarem finais sem nexo.

O conto Argila fala de Maria: era uma mulher pequena, muito pequena mesmo. Mas seu nariz era comprido e o queixo pontudo. Falava um pouco fanhoso e de modo afável: “Sim, querida. Não, querida”.

Maria trabalhava numa lavanderia e tinha cuidado de Joe e do irmão, quando crianças. Em criança, Joe costumava dizer: Mamãe é mamãe, mas minha verdadeira mãe é Maria.
A senhora Donnely mandou as crianças ficarem quietas e prestarem atenção à canção de Maria. Tocou o prelúdio e disse: “Agora Maria!” E Maria muito envergonhada, começou a cantar com voz trêmula e fraca a canção Sonhei que Morava (I dream that I dwelt). E quando chegou à segunda estrofe, repetiu:

Num palácio de mármore, sonhei que morava

Rodeada de servos e vassalos

E que eu era a esperança e o orgulho de todos

Que entre aquelas paredes habitavam


As riquezas que eu tinha, impossível contar

E de um nome ilustre podia me orgulhar

Mas também sonhei, o que mais me agradou,

Que teu amor por mim nunca mudou.

Mas ninguém procurou mostrar-lhe o engano. Quando terminou a canção, Joe estava muito comovido. Afirmava que para ele nada se comparava aos velhos tempos e que música alguma igualava-se à do velho e pobre Balfe, não importava o que dissessem. Seus olhos ficaram tão cheios de lágrimas, que não podia enxergar e teve de pedir a sua mulher que lhe dissesse onde estava o saca-rolhas. 38

Interessante é que são feitas críticas à Argila por acabar dessa maneira, dita epifânica, por Joyce - e considerada tão sem sentido? E os críticos não notam que o trivial saca-rolhas representa uma sofisticada metáfora de não suposição, mas bastante fácil de ser percebida, principalmente pelos boêmios que preferem afogar-se nas bebidas e não nas próprias lágrimas. O saca-rolhas que também significa embriaguez, ou quem sabe o estampido e gozo do champanhe, brindando um sentimento muito forte que não se consegue exprimir.

Observa-se que tanto Clarice quanto Joyce utilizam metáforas de não suposição tão sofisticadas que parecem enigmas a serem revelados. No entanto, os estilos desses dois gênios da Literatura são bastante distintos: em Clarice, o significante doze anos é expresso com toda a força do corpo: o sentimento surge em carne viva - a própria Clarice fala. Já com Joyce, o significante saca-rolhas parece recalcar totalmente o corpo, o sentimento. Mas o que parece à primeira vista um esvaziamento de sentido traz, pelo contrário, como efeito de sentido, a presença repleta de algo que não pode ser dito: o trivial saca-rolhas a revelar sentimentos que estão contidos em borbulhante garrafa de champanhe. Há algo que está pronto para eclodir e não é percebido, mas está à flor da pele – só o enigma vela momentaneamente o epifânico. Enfim, o estilo de Clarice é em carne viva e o de Joyce, à flor da pele...

... Brindemos com o champanhe borbulhante de Joyce, não só os trinta ou trezentos anos de Clarice, mas a eternidade... Tentemos captar essa coisa que nos escapa, vamos mergulhar também na brilhante escuridão – útero do mundo, e ouvir da escrita de Clarice um mundo emaranhado de cipós, sílabas, madressilvas, cores e palavras. Ouçam! Ouçam a eterna Clarice... ela é linda ....



Carlos Eduardo Carvalheira

(...) estou tentando escrever-te com o corpo todo.39
Porque, sabemos nós, escrever com o corpo todo é encarnar na palavra o desejo, carnais desejos de realização 40, atravessando o pensamento.
Porque escrever com o corpo todo, como ela quer, é encarnar-se nas frases voluptuosas e ininteligíveis que se enovelam para além das palavras. 41
Porque escrever com o corpo todo é ter que se destituir para alcançar cerne e semente de vida. 42
Porque escrever com o corpo todo, ela sabe, não é simplesmente narrar histórias a si exteriores, repetindo-as, simplesmente: porque, tal como ela sonha ou quando pinta uma gruta ou sobre ela escreve, de fora (...) vem o tropel de dezenas de cavalos soltos a patearem com cascos secos as trevas. 43
Porque escrever com o corpo todo não é pintar idéias, escrever fatos da memória coletiva que o mundo traçou, pois ela, a pintora que tenta escrever, não quer ter, como diz, a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. 44
Porque escrever com o corpo todo não é sequer escrever algo que tenha maciçamente corpo, mas que tenha, simplesmente, um mínimo de corpo, o substrato vibrante da palavra. 45
Porque escrever com o corpo todo é atravessar a palavra a nado, o desejo queimando a pele em água viva, essa coisa transparente, mole, gelatinosa, de células urticantes, âmago sensível, o it.
Porque escrever com o corpo todo é para isso: o desejo em novo signo sendo construído, um signo de aleluia que traz no instante da revelação a semente viva do que é, e o júbilo da liberdade de quem não se prende mais a ninguém, uma alegria de criação 46
Porque escrever com o corpo todo é existir à revelia: de sensações e pensamentos, sem nenhum sentido utilitário, assim sendo, como a pintora-escritora:
sou sozinha, eu e minha liberdade. 47
Porque, afinal, caros leitores, caros ouvintes, caros psicanalistas, se lhes disserem que palavras são palavras nada mais do que palavras, escutem, ouçam, como invoca Clarice, Ouve-me, ouve o silêncio 48, ouçam a escritora que assegura não brincar com as palavras; ela pede:
Lê então o meu invento de pura vibração sem significado senão o de cada esfuziante sílaba, lê o que agora se segue: “com o correr dos séculos perdi o segredo do Egito (...) no fascínio que é a palavra e a sua sombra.” 49

Água Viva é considerado, pela crítica literária, um romance de gênero atípico, um típico romance da modernidade: grau zero da escritura, dilaceramento das linguagens, o impasse da escrita, como assinala Barthes, 50 em relação a essa espécie de escrita. Sua escrita mira o Real, a matéria viva, e elege-o como dimensão da linguagem a ser conduzida pelo fio da Paixão: Atrás do pensamento não há palavras: é-se. 51 Escritura branca é o processo que o atravessa: signos mudos pedem para ser lidos. Sua personagem observa: Este não é um livro porque não é assim que se escreve. 52 Mas é um livro sim. Não de apontamentos, num curso linear da vida, de certezas feito. É um livro de pontuações que ocorrem na matéria do tempo que é o instante-já. É história de instantes que fogem como os trilhos fugitivos que se vêem da janela do trem. 53 Assim sendo, é um livro de dura escritura, de escrita redonda, enovelada e tépida 54, romanceando o movimento de um personagem singular: o sujeito, à deriva, rumo à destituição de todas as significações dadas. Assim é um livro que tem como tema o substrato vibrante da palavra; como tempo, o instante, semente viva, 55 e, como ação, a linguagem, em travessia, operando o impossível: O que te escrevo é um “isto”. Não vai parar: continua. 56 Não, não mesmo, sabemos, porque não cessa de não se escrever. 57

O leitor desse romance, e sigamos o que a personagem adverte – O que estou te escrevendo não é para se ler – é para se ser 58 -, não é um leitor comum, indivíduo social, de idéias fixas, de idéias prontas. O leitor desse romance, junto, segue o esquema traçado pela romancista no percurso completo da narrativa: há um tu para quem a pintora, a personagem, escreve - e recordemos a primeira frase aqui desse texto: estou tentando escrever-te com o corpo todo -, e o tu a quem se dirige é, ó leitor, aqui ouvinte, o eu que, apreendendo o mistério do impessoal que é o “it” 59, torna-se ela, compreendes? Não? Eis então um excelente exemplo de alegoria colhido no romance, que pode ajudar a compreender esse peculiar processo de pronomização, de subjetivação - que nos fisga -, empregado pela romancista. Narra a personagem:
Tomei em criança conta de uma fileira de formigas: elas andam em fila indiana carregando um mínimo de folha. O que não impede que cada uma comunique alguma coisa à que vier em direção oposta. Formiga e abelha já não são it. São elas. 60
Clarice Lispector, a não-ucraniana-brasileiramente-internacional-Clarice, podemos confundi-la sim com todas as suas personagens, pois sua escrita é como a da pintora-escritora, é adivinhação: pinta um isto, escreve com isto. É secreta por natureza. 61 Ávida do mistério. 62 Sua Paixão segue traços, os achados e perdidos. 63 São os traços da Paixão, um senso de descoberta.

Dulcinea Santos

______________

Notas

1. C.L. G.H., p.174.



2. Seminário R.S.I., 974/1975, documento para circulação interna do Traço Freudiano Veredas Lacanianas Escola de Psicanálise, p.3

3. R.S.I., p.7

4. Seminário A Identificação, 1961-2, p.15, CEF - publicação para circulação interna, Edições Bagaço:2003.

5. Seminário A identificação, p.17

6. C. L. Uma Aprendizagem ou O livro dos Prazeres, p.45.

7. C. L. Água Viva, p.13.

8. C. L. Água Viva, p.40.

9. LISPECTOR, Clarice Apud: GOTLIB, Nádia Battella, Clarice, Uma vida que se conta. São Paulo: Editora Ática S.A., 1995, p. 65.

10. GOTLIB, Nádia Battella. Clarice, Uma vida que se conta. São Paulo: Editora Ática S.A., 1995, p. 67.

11. LISPECTOR, Clarice Apud: Nádia Battella GOTLIB. Clarice, Uma vida que se conta. São Paulo: Editora Ática S.A., 1995, p.22.

12. LISPECTOR, Clarice. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999, p.385.

13. LISPECTOR, Clarice. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999, p.43

14. MILAN, Betty. A força da palavra. Rio de Janeiro: Record, 1996. pp.75- 76.

15. C. L. Água Viva, p.52.

16. Lacan, R.S.I.

17. C.L. Água Viva, p.49

18. Lacan, R.S.I.

19. Lacan, R.S.I.

20. C. L. Água Viva, p.20.

21. Baudelaire, Correspondências.

22. Idem.

23. Lacan, As estruturas freudianas das psicoses, p.17.

24. C. L., L. P., p.65.

25. C. L., L. P., p.64.

26. Lacan, R.S.I.

27. C. L., L. P., p.63.

28. C. L., L.P., p.21

29. Lacan, R. S. I.

30. C. L., L. P, p.20.

31. Baudelaire, Correspondências.

32. C.L. , L.P., p.165

33. C. L., L. P.,p.164.

34. Ver, em Lacan, a estrutura da linguagem. In De um Outro ao outro.

35. C. L., L.P., p.46.

36. LISPECTOR, Clarice. Água viva. Rio de Janeiro: Rocco, 1998. p. 14

37. LISPECTOR, Clarice. A bela e a fera. Rio de Janeiro: Rocco, 1999. pp. 73 e 74

38. JOYCE, James. Dublinenses; tradução Hamilton Trevisan. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999, p. 103.

39. C. L. Água Viva, p.12.

40. Idem, p.20.

41. Idem, p.21.

42. Idem, p.12.

43. Idem, p.15.

44. Idem, p.22.

45. Idem, p.11.

46. Idem, p.65.

47. Idem, p.23.

48. Idem, p.14.

49. Idem, p.11.

50. Novos ensaios críticos seguidos de O grau zero da escritura.

51. C.L. Água Viva, p. 29.

52. Idem, p.12.

53. Idem, p. 74.

54. Idem, p.11.

55. Idem, p.12.

56. Idem, p.97.

57. Lacan, o Real.

58. C.L. Água Viva, p.38

59. Idem, p.30.

60. Idem, p.62.

61. Idem, p.45.

62. Idem, p.33.

63. Idem, p.74








©livred.info 2017
enviar mensagem

    Página principal