Christopher Vogler tradução e prefácio



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Christopher Vogler
tradução e prefácio

Ana Maria Machado




Da capa do livro:
Este livro, escrito por quem entende de cinema, mostra como os contadores de histórias usam estruturas míticas para criar narrativas poderosas que mexem com todos nós. Escritores encontrarão aqui uma orientação passo a passo que os ensinará a estruturar enredos e criar personagens realísticos. Exercícios inovadores ajudarão a detectar falhas e melhorar seu texto. As idéias em A Jornada do Escritor, que têm sido testadas e apuradas por roteiristas, dramaturgos e romancistas profissionais, farão com que o escritor enriqueça sua arte de contar histórias com a sabedoria milenar dos mitos.

Como analista de histórias, Christopher Vogler avaliou mais de 10.000 roteiros para grandes estúdios, incluindo Walt Disney, Warner Bros., 20th Century Fox, United Artists e Orion Pictures. Especialista em contos de fadas e folclore, Christopher foi consultor para os bem-sucedidos longa-metragens da Disney O Rei Leão e A Bela e a Fera.


"A Bíblia do roteirista de Hollywood. Indispensável para quem quiser compreender os mecanismos e os truques da dramaturgia do cinema americano."

Ruy Guerra
"Dentre os inúmeros manuais de roteiro este é um dos poucos que valem a pena ser lidos. Mesmo que não se vá e nem se deva usá-lo ao pé da letra, o que o próprio autor aqui reconhece, A Jornada do Escritor é uma excelente ferramenta de análise e organização de trabalho para o roteirista."

Marcos Bernstein
"Há muito se situa o estudo do mito numa perspectiva que contrasta sensivelmente com a do século XIX. Em vez de tratarmos o mito, na acepção do termo, como fábula, o vimos aceitando como ele era entendido nas sociedades arcaicas onde, ao contrário, o mito designa uma "história verdadeira".

Na verdade, a história da sociedade moderna é literalmente composta de paralelos no plano mítico. Esta me parece a grande lição de A Jornada do Escritor, a lição do inconsciente coletivo na criação."



Luiz Fernando Carvalho






EDITORA

NOVA

FRONTEIRA
SEMPRE

UM BOM

LIVRO

Christopher Vogler

A Jornada do Escritor

Estruturas míticas para escritores




Tradução e prefácio de

Ana Maria Machado


2a edição

revista e ampliada

Título original: The Writer's Journey - 2ª edition


© 1998 by Christopher Vogler
Publicado originalmente por Michael Wiese Productions

11288 Ventura Blvd, 621 Studio City, CA 91604 www.mwp.com


Direitos de edição da obra em língua portuguesa adquiridos pela Editora Nova Fronteira S.A. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser apropriada e estocada em sistema de banco de dados ou processo similar, em qualquer forma ou meio, seja eletrônico, de fotocópia, gravação etc, sem a permissão do detentor do copirraite.
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e-mail: sac@novafronteira.com.br

CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte

Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.


V87j Vogler, Christopher

2.ed. A jornada do escritor : estruturas míticas para escritores / Christopher Vogler ; tradução de Ana Maria Machado. - 2.ed. -Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 2006


Tradução de: The Writer's Journey.

Inclui bibliografia

ISBN 85-209- 1764-X
1. Redação de textos para cinema. 2. Roteiro cinematográfico - Técnica. I. Título.
CDD 808.02

CDU 808.1



Para mamãe e papai
Sumário


Guardião de Limiar 67


Prefácio à edição brasileira
Como o próprio nome indica, este livro de Christopher Vogler é um convite a uma viagem pelos caminhos da escrita. Não de qualquer escrita, porém. A literária, por exemplo, não precisa de convite. Mais que isso: de certo modo até se orgulha de só ir por onde não é convidada, preferindo mesmo explorar as veredas que lhe são expressamente proibidas. Portanto, A Jornada do Escritor não é um mapa de caminhos para a literatura. Esta se faz sem mapas nem papas. No máximo, trata apenas de estar atento ao ensinamento do poeta espanhol Antônio Machado:
Caminhante, não há caminhos.

Faz-se o caminho ao andar.
Em outras palavras, a leitura deste livro não vai transformar ninguém num artista criador. No entanto, feita essa ressalva inicial e honesta, para não levantar expectativas fora de propósito (que não são o objetivo de Vogler), é bom dizer logo de saída que a obra dele é muito interessante e útil, um livro que fazia falta.

Esse esclarecimento inicial não seria necessário se fizéssemos em português a mesma distinção que faz a língua inglesa entre autor e escritor. Autor tem a ver com autoria, com abertura de seu próprio caminho individual, independente e criativo, feito de invenção permanente, ruptura com moldes, desvio de padrões e modelos, fundação original, claramente na vertente da arte, em que a prioridade é dada à expressão, deixando para segundo plano a comunicação. A praia de um escritor seria mais a de um mestre-artesão, exímio em seu ofício, capaz de usar as palavras e as estruturas narrativas para atingir um grande público, sem se preocupar em garantir originalidade de expressão a qualquer custo, evitando correr os riscos do mergulho no desconhecido que pode gerar estranheza e ser visto como confusão. Alguém atento, antes de mais nada, à clareza, ao gosto do público, à possibilidade de uma comunicação ampla e eficiente.

Como essas duas funções da linguagem — comunicação e expressão — se completam, e raramente vemos alguém que busque na escrita de uma história apenas a manifestação de uma delas, um livro como este acaba sendo uma ferramenta útil para todos os que de alguma forma lidam com a narrativa: roteiristas, cineastas, videomakers, contadores de histórias, escritores de livros infantis, dramaturgos, romancistas, críticos, professores, estudantes de letras. Para uns, poderá ser um instrumento que ajude a tirar dúvidas e a orientar sua própria escrita. Para outros, certamente servirá como precioso modelo de análise, permitindo que se compreenda melhor a obra que se examina, vendo seus pontos fortes e fracos, discernindo falhas e qualidades especiais. Além disso, porém, para todos eles (e também para o leitor comum, que não trabalha com a narração mas se deleita em ler, ouvir, ou assistir a uma boa história) A Jornada do Escritor pode trazer um presente inesperado, ajudando a conhecer melhor a si mesmo, a integrar melhor os diversos personagens que dentro de si vivem variadas aventuras. Em suma, pode nos fazer lançar um olhar mais agudo e mais compreensivo sobre nós mesmos e sobre os outros, com quem convivemos. O que não é pouca coisa.

Tudo isso, sem muito esforço. Um traço notável deste livro é que ele não complica as coisas. Provavelmente, os intelectuais amantes de jargões difíceis podem até torcer o nariz para ele, para seu aspecto superficial de "obra de divulgação científica", bem mastigadinha e trocada em miúdos, ao alcance de todo mundo. No entanto, por isso mesmo, com sua leitura leve e divertida, vai-se nele aprendendo uma porção de coisas importantes. Além de se recordar ou aprender uma porção de histórias maravilhosas e deliciosas, das mais variadas mitologias. E quando o livro acaba, o leitor está completamente à vontade para lidar com conceitos como os arquétipos de Jung, os estágios da narrativa mítica de Campbell, as funções dos personagens no conto popular segundo Propp. Quem quiser se aprofundar pode ler os livros que constam da bibliografia e mergulhar de forma mais densa nesses temas. Pode ir mais fundo no estudo junguiano dos arquétipos nos contos de fadas com a obra de Marie Louise von Franz, na abordagem antropológica dos mitos com Mircea Eliade, nos estudos literários que se derivaram de formalistas russos como Propp e seguiram em frente pelo estruturalismo afora ou se depararam com o desconstrutivismo no pós-modernismo. Estão todos publicados em português.

O que não havia era um livro como este — acessível e prático. Com perdão das rimas, didático e pragmático. Depois dele, ninguém mais tem desculpa para fazer um roteiro fraco ou um livro infantil malfeito. Ou, mais ainda: não dá mais para querer filmar ou publicar histórias que não se sustentam de pé. O Mapa da Jornada é também o mapa da mina: é só seguir as instruções detalhadas de Christopher Vogler e não há o que errar. Ele é generoso em compartir seus conhecimentos, não fica fazendo mistério nem guardando segredo a sete chaves. Pelo contrário, explica tudo direitinho, dá montes de exemplos com filmes que todo mundo conhece, repete e repete sua lição com paciência, faz questionários de recapitulação para testar a compreensão do leitor, sugere exercícios. Pode até não transformar ninguém em autor ou em escritor — mas com toda certeza evita o vexame do sujeito achar que é um gênio para depois descobrir dolorosamente que só inspiração não basta, e que uma boa história é muito mais do que apenas uma boa idéia para uma história. Da leitura de A Jornada do Escritor, se sai com a certeza de que é possível fazer um bom roteiro e nem há muito mistério nisso — mas dá trabalho, exige atenção e é preciso passar por um crivo próprio de autocrítica, porque existem padrões nítidos de julgamento. Para analisar uma história, após a leitura de Vogler acaba-se a era do "eu acho...". As coisas começam a ficar objetivas. Funciona ou não funciona. E dá para saber exatamente por quê. Sem qualquer dúvida, é um passo muito importante para o profissionalismo do escritor de histórias.

A Jornada do Escritor traz, assim, ao leitor brasileiro, uma rara e bem-vinda oportunidade para entrar em contato com um instrumental que lhe permitirá dominar a gramática da narrativa, conhecer os elementos de uma história e seu papel, entender o mecanismo das regras que a fazem funcionar, perceber o que a mantém equilibrada e coerente, qual sua lógica interna. Só quando se domina perfeitamente essa gramática (intuitivamente, como os artistas, ou racionalmente, como os bons artesãos) é que se pode partir para sua ruptura, sua deformação. Só inventa moda quem conhece. Vogler mostra como funciona o modelo. Mas também, o tempo todo, ao exemplificar, demonstra como a marca do artista é subverter o padrão e não se enquadrar, de Hitchcock a Orson Welles.

Em outras palavras, conhecer o arquétipo é muito útil, ainda que ele, como o deus de que fala Jung, com toda certeza vá acabar vindo, mesmo sem ser chamado. Mais importante é saber evitar o estereótipo, o clichê. Por motivos estéticos e éticos. Afinal, vale lembrar que o crítico francês Roland Barthes já chamava a atenção para o fato de que a ideologia se impõe é através do estereótipo, repetido e aceito como pura redundância confortável, sem exigir o esforço de decifração. Quanto menos estereótipo, mais próximo do artístico, território da liberdade, da invenção e do protótipo. A verdadeira criação artística, a autoria, rejeita a reiteração do padrão conhecido e respeitado por todos. Mas o conhece. Sabe onde está e como se esconde. Até mesmo para rompê-lo com firmeza.

Ou, para darmos um exemplo na literatura, basta vermos como o realismo mágico latino-americano ou a literatura infantil brasileira, de Lobato a seus maiores nomes contemporâneos, se afastam de todos os padrões tradicionais que (na terminologia de Vogler e Campbell) separam Mundo Comum de Mundo Especial por meio de Limiares defendidos por Guardiões temíveis. O Sítio do Pica-pau Amarelo ou Macondo é, ao mesmo tempo, um Mundo Comum e um Mundo Especial, misturando realismo e mágica sem necessidade de anéis mágicos, lâmpadas mágicas, varinhas de condão. Essa ruptura com o molde consagrado é uma subversão da gramática narrativa que testemunhamos, em nossos dias, em nosso continente, nesses dois gêneros literários. E sem dúvida ajuda a explicar a sensação de absoluta originalidade e encantamento que eles despertam em toda parte, fazendo com que sejam reconhecidos e premiados internacionalmente apesar de oriundos de guetos culturais. Sem esquecer, evidentemente, que um texto é também algo que se passa principalmente no nível da linguagem, e que não é possível reduzi-lo apenas à história que conta — por isso é arte. Experiências de encomendar a mesma história para ser contada por autores diversos têm provado isso de maneira tão clara quanto a refilmagem de clássicos ou a adaptação do mesmo livro por cineastas diferentes.

Tudo isso é também lembrado por Christopher Vogler em seu livro — o molde existe para ser rompido, a gramática está aí para ser subvertida pelo artista. Cada história cria seu próprio modelo, ou como ele sintetiza: "as necessidades de cada história ditam sua estrutura." No fundo, talvez seja essa sensibilidade o que mais me encanta no livro. Por mais que ele até possa parecer uma apostila para ensinar fórmulas ou receitas, trata-se da obra de um profissional, feita por quem conhece bem o que faz e sabe que, em resumo, é fundamental que haja roteiristas e contadores de histórias com pleno domínio do seu ofício, mas que, além disso, é bom também seguir o conselho do verso de Manuel Bandeira e evitar reduzir a forma a uma fôrma. Só assim surge um artista.


Ana Maria Machado

Prefácio à segunda edição

Tradução de Mauro Pinheiro.
"Não estou tentando copiar a natureza.

Estou tentando encontrar os

princípios que ela utiliza."
R. Buckminster Fuller
Um livro parte como uma onda, movendo-se pela superfície do mar. As idéias irradiam da mente do autor e colidem com outras mentes, desencadeando novas ondas que retornam ao autor. Estas geram outras reflexões e emanações, e assim por diante. Os conceitos descritos em A Jornada do Escritor irradiaram e agora voltam ecoando desafios e críticas interessantes, assim como vibrações solidárias. Segue um relato sobre as ondas que voltaram a mim desde a publicação do livro e sobre as ondas que eu lanço novamente ao mar.

Neste livro, descrevi o conjunto de conceitos conhecido como "Jornada do Herói", extraídos da psicologia profunda de Carl G. Jung e dos estudos míticos de Joseph Campbell. Tentei relacionar essas idéias às narrativas contem