Chalaby, Jean K



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Causas e origens das diferenças entre o desenvolvimento do jornalismo francês e do jornalismo anglo-saxão
Origens culturais

Um novo discurso pôde emergir mais rapidamente nos Estados Unidos porque os escritores foram incapazes de impôr seus valores e normas literários aos jornalistas. Nos Estados Unidos e na Inglaterra, a imprensa desenvolveu-se independentemente da área literária, mas esse não foi o caso da França, onde a emergência da área jornalística resultou de uma longa batalha pela independência, não só da esfera política, como também da esfera literária. Na França, o domínio das normas e valores literários assumiu diversas facetas.

Tradicionalmente, as figuras e celebridades literárias francesas sempre estiveram envolvidas no jornalismo. Até o final do Segundo Império, elas ocupavam as principais posições no mundo da imprensa. Um observador desse período pôde até escrever: “Quase todos os nossos literatos provêm do jornalismo e a ele voltam” (Bellet, 1967, p.68). Honoré de Balzac, Robert de Lamennais, Alphonse de Lamartine, Alexandre Dumas e Victor Hugo foram proprietários e publicaram diversos jornais durante suas carreiras. À medida em que a área foi se industrializando durante as últimas décadas do século XIX, os poetas e romancistas abandonaram os cargos de proprietário e de editor, mas a imensa maioria deles permaneceu estreitamente ligada ao mundo da imprensa. Antes da Primeira Guerra Mundial, Émile Zola oferece um típico exemplo da dupla carreira de romancista e jornalista (Mitterand, 1962). Durante o período entre-guerras, é significativo que o popular Paris-Soir, cuja circulação atingiu 1,8 milhões em 1938, tivesse empregado não menos do que 29 escritores literariamente consagrados no correr de um par de anos (Manévy, 1945, p. 258; Barrillon, 1959, p. 269-79). A maioria desempenhava função de repórter e de correspondente especial, outros ocupavam cargos administrativos ou editoriais que não implicavam redação. Entre eles estavam Albert Camus, sub-editor; Jean Cocteau, correspondente especial; François Mauriac, colunista; Antoine de Saint-Exupery, repórter; George Simenon, correspondente para assuntos criminais.

Nem nos Estados Unidos nem na Inglaterra as figuras literárias gozaram de tantas vantagens de acesso à imprensa. Nesses países, a imprensa se desenvolveu como um meio de informação e as práticas literárias logo se evidenciaram estarem deslocadas no jornalismo. Por volta do final do último século, os poucos romancistas e poetas que trabalhavam nos jornais eram críticos literários que raramente saíam de sua especialidade. A única figura literária de importância que foi tentada pela carreira jornalística foi Charles Dickens: em 1846, tornou-se o primeiro editor do Daily News mas abandonou o trabalho após três semanas de experiência e se referia ao episódio como um “breve erro” (Koss, 1990, p. 95-6).

Na França, uma outra característica do predomínio literário se evidenciava no fato de que os jornalistas, ou tinham a ambição de se tornarem celebridades literárias, ou tinham perdido a ilusão de conseguirem se tornar celebridades literárias. Muitos jovens, homens e mulheres, encaravam o jornalismo como o primeiro passo para uma brilhante carreira literária. O jornalismo não era uma profissão, mas uma ocupação provisória. A necessidade de adquirir algum prestígio literário era tão forte que, mesmo os jornalistas que tinham constatado que jamais deixariam a imprensa, não podiam resistir ao impulso de publicar trabalhos literários. Os mais bem dotados jornalistas, colunistas e proprietários de jornal, escreviam peças, romances e ensaios no auge de suas carreiras. No final da década de 1850, Emile Girardin (um competente proprietário de jornal) reduziu o ritmo de suas atividades para poder escrever diversas comédias e dramas. A falta de sucesso e as críticas pouco elogiosas não o impediram de escrever muitas outras peças no decorrer da década seguinte (Morienval, 1961, p. 98-9). Villemessant, que ganhou fama e glória como o proprietário e editor do diário parisiense Le Figaro, considerou necessário publicar umas poucas comédias. Essa obstinação ilustra a importância dos valores literários entre os jornalistas franceses (assim também como o fato de que o sucesso na carreira de jornalista não era suficiente para obter reconhecimento social).

Não apenas os valores literários como também o capital literário tinha uma tremenda importância no mundo da imprensa. A mais alta honra para um jornalista francês era o de entrar na Academia Francesa. Conforme determinado pela elite literária que decidia sobre quem podia se juntar à academia, foram muitos poucos jornalistas que conseguiram tal honraria. O título de membro da academia tinha um grande valor na área jornalística e os poucos seletos sempre assinavam seus artigos com a menção “de l’Académie Française”. O reconhecimento desse título literário é explicado pelas regras que regiam a luta competitiva na área jornalística francesa. As rivalidades e lutas pelas posições mais prestigiosas eram reguladas pelo volume de capital literário que cada autor possuía. Assim, os principais cargos de redação na área eram dados a aqueles com a mais alta legitimidade literária. Um bom exemplo da importância do capital literário é oferecido por Léon Daudet, jornalista bem sucedido e fundador, em 1908, com Charles Maurras, de L’Action Française, o órgão do movimento político. Seu pai, Alphonse Daudet, era uma eminente figura literária; seu avô-padrasto era Victor Hugo; ele próprio escreveu 87 romances e ensaios e era membro da Academia Goncourt (Daudet, 1936).

A importância do capital literário na área jornalística tanto produziu quanto ao mesmo tempo foi produto de uma hierarquia de práticas discursivas. Em contraste com a Inglaterra e os Estados Unidos, o jornalismo não era julgado por si próprio, mas era desfavoravelmente comparado com gêneros literários “mais elevados”. A poesia e o romance eram as formas literárias mais exaltadas e estavam localizadas no topo da hierarquia: as principais figuras literárias do século XIX eram, ou romancistas (Balzac) ou poetas (Lamartine) ou ambos (Victor Hugo). Poetas e romancistas eram seguidos pelos teatrólogos. Dentro desse grupo, as tragédias eram mais valorizadas do que as comédias. O teatro de revista (vaudeville), o gênero literário mais baixo, era ainda assim, considerado melhor do que qualquer prática jornalística.

As práticas discursivas jornalísticas, também hierarquizadas elas próprias, figuravam no degrau inferior desse regime de distinção. A prática jornalística de caráter mais literário era a mais prestigiosa. Tal honra era conferida à crônica. O formato da crônica é bastante solto. Normalmente, o autor fazia alguns comentários divertidos e refinados sobre tópicos diversos escolhidos das notícias da semana. O tom de uma boa crônica era frívolo, o estilo, brilhante. Assim, esse gênero foi dominado pelos escritores literários. Um cronista famoso foi Guy de Maupassant, uma importante figura literária das últimas décadas do século XIX.

Um outro gênero aplaudido era o artigo de natureza polêmica, normalmente um dos artigos principais. Um artigo polêmico é uma peça de redação violenta e agressiva, geralmente dirigida contra uma pessoa (p.ex., um político) ou uma instituição (p.ex., um partido político). Embora a natureza da polêmica não seja propriamente literária, ela possui uma dimensão discursiva: as idéias e opiniões expressadas num artigo polêmico são tão importantes quanto a retórica empregada e tão importante como o estilo e a linguagem usados para criticar o adversário. A habilidade de polemizar era muito admirada nos círculos dos jornalistas parisienses e muitas das eminentes figuras da área jornalística francesa eram polemistas: Veuillot, Vallès, Rochefort ou Drumont. Ainda em 1936, Léon Daudet podia assegurar que a “polêmica é a alma do jornalismo”(Daudet, 1936, p.79).

Um outro importante gênero jornalístico na imprensa francesa era o “comentário”. O jornalista analisa e comenta sobre um tópico de um ponto de vista específico - moral ou político. O tópico é geralmente político. Esse gênero combina e atenua os elementos mais explícitos da crônica e do artigo polêmico. O “comentário” não é tão literário quanto a crônica, nem tão virulento quanto a polêmica.

Assim, essa hierarquia das práticas discursivas jornalísticas foi estabelecida segundo a “literatice” de cada prática. A hierarquia, ela mesma, foi mantida através de comparações entre a prática literária e a jornalística: pela comparação dos dois discursos, os autores podiam inevitavelmente chegar a conclusões relativas à superioridade dos redatores literários sobre os jornalistas. Um desses autores opinou que, dos jornalistas, contrariamente aos romancistas, não se podia esperar que “expressassem verdades fundamentais ou pensamentos definitivos”(Jouvenel, 1920, p.86). Nem os jornalistas precisam ter o dom de um “sentido crítico agudo”(Jouvenel, 1920, p.88). Para outros, a superioridade da literatura sobre o jornalismo advinha do fato de que os romances eram escritos para a eternidade, enquanto que os artigos duravam apenas um dia, Por essa razão, contrariamente aos jornalistas, os romancistas tinham que se auto-superar. Além disso, já que as inteligências mais brilhantes eram mais atraídas pela literatura do que pelo jornalismo, a literatura era de facto superior ao jornalismo. Assim, a literatura era uma arte e o jornalismo, uma “arte inferior”(Billy & Piot, 1924, p. 213-6).

Não é de surpreender, portanto, que os jornalistas fossem influenciados por práticas discursivas que eram de caráter puramente literário. Os jornalistas e repórteres franceses referiam-se constantemente a um escritor famoso como modelo literário. Honoré de Balzac, Alexandre Dumas, Victor Hugo e Émile Zola eram frequentemente citados como mentores. Jules Vallès, editor do Le Cri du Peuple durante as últimas décadas do século XIX, era discípulo de Balzac; Paul Brulat, um bem sucedido repórter durante o mesmo período, idolatrava Zola; George Bourdon, um repórter no Le Figaro, admirava Tolstoi, e assim por diante. Embora os jornalistas tentassem aumentar seu capital simbólico na área jornalística pela citação dessas celebridades como modelos, sua admiração era sincera e eles emulavam seus mestres. Os jornalistas que mencionavam Dumas e Hugo como modelos pertenciam à escola romântica, enquanto que os que citavam Zola eram os “naturalistas”. Os românticos tinham um estilo lírico e pictórico, os naturalistas eram mais austeros mas dramatizavam tanto quanto seus colegas. Em consequência dessa influência literária, o estilo jornalístico francês carregou a marca de suas origens literárias por muito tempo. Os artigos dos repórteres franceses eram emocionais e sentimentais. Essas disposições literárias contribuíram para o desenvolvimento de um fenômeno peculiar à imprensa francesa: o miserabilismo.

Influenciados pelos escritos de Hugo e Zola (p.ex., Les misérables, Germinal) os jornalistas e repórteres franceses começaram a tomar a miséria como tópico para artigos e como objeto de indignação. Os jornalistas descreviam vigorosamente, em jornais burgueses, detalhes das condições de vida do proletariado e do submundo. Prostitutas, criminosos e condenados degredados para prisões ultra-marinas tornaram-se as principais figuras desse mundo caricaturizado. Cada figura era construída segundo certos critérios invariáveis. A prostituta trabalhava pela sua recuperação, o criminoso sentia remorsos pelos seus atos e o condenado era sempre inocente. Os jornalistas franceses entraram numa cruzada para reformar o sistema penal, para mudar as leis sobre a prostituição e para provar a inocência de um prisioneiro. Se fossem bem sucedidos na sua cruzada, eles se congratulavam consigo mesmos por fazerem um mundo melhor. Se não fossem, embarcavam numa nova cruzada. Por um lado, a miséria tornou-se um espetáculo; pelo outro, tornou-se uma mina de ouro para os jornalistas e repórteres que sabiam como explorar essa veia. Para o jornalista (não para os pobres) os lucros simbólicos e financeiros dessa estratégia discursiva era enorme. O miserabilismo enobrecia o autor que demonstrava, pela sua generosidade pelos pobres, grande coragem e pseudo-desinteresse por prêmios materiais. A comiseração pelos pobres dava prestígio moral aos jornalistas. Contudo, isso nada tinha a ver com filantropia já que o miserabilismo era uma excelente estratégia para obter fama, glória e dinheiro. Os jornalistas e repórteres que se especializaram no miserabilismo (tais como Séverine e Albert Londres) conseguiram uma boa vida graças à miséria dos outros. Londres viajou extensivamente pelo mundo, mostrando o mesmo grau de compaixão pelo russo pobre e pelo chinês pobre (Le Garrec, 1982; Assouline, 1989).

Em resumo, a imposição literária sobre os jornalistas franceses teve o efeito de impedir o desenvolvimento de práticas discursivas jornalísticas na França. Conforme descrevemos acima, devido à alta taxa de capital literário necessário para obter sucesso na área jornalística francesa do século XIX, o jornalismo francês manteve-se mais literário do que o jornalismo anglo-americano. O jornalismo francês manteve-se também mais discursivo (com tendência para a verbosidade) e mais dogmático. As práticas discursivas de caráter muito jornalístico eram criticadas pelos autores estabelecidos (que denunciavam a “américanisation” do jornalismo francês) e, em resultado, as notícias e a informação jamais ganharam a proeminência que adquiriram nos jornais norte-americanos. Consequentemente, meio século depois de um observador francês da imprensa norte-americana ter declarado em 1856 que a “imprensa era essencialmente uma instituição anglo-americana”, um outro jornalista francês podia repetir, em 1903, que “Os Estados Unidos é a terra santa do jornalismo”(Montégut, 1856, p.567; Loliée, 1903a, p. 647). Indiscutivelmente, o conceito e a prática do noticiário, assim como o resto das práticas jornalísticas, foi inventado e desenvolvido nos Estados Unidos e na Inglaterra. Lá pelas últimas décadas do século XIX, essas práticas foram importadas e adaptadas na França, muitas vezes pelos próprios anglo-saxões. A inauguração em Paris do Le Matin, em 1896, foi uma revolução jornalística local (Palmer, 1976). Fundado por uma equipe de jornalistas norte-americanos, Le Matin for o primeiro jornal na França que adotou os métodos jornalísticos norte-americanos, com foco na informação e oferecimento de um grande volume de notícias internacionais e locais. Desde então, a influêcia anglo-americana tem sido constante na área jornalística francesa. O imensamente bem-sucedido Paris-Soir, fundado em 1930 e que vendia 1,8 milhões de números por volta de 1938 foi moldado sobre os tablóides britânicos (Barrillon, 1959, p. 94-6).


Causas políticas

A segunda série de causas que determinaram as diferenças no modo de desenvolvimento dos jornalismos anglo-americano e francês é política. Embora elas se sobreponham, algumas dessas causas políticas são históricas enquanto que outras são sociológicas. De uma perspectiva histórica, pode-se constatar que a repressão governamental na França era intensa até a queda do governo da Ordem Moral em 1877. A nova relação entre o governo e a imprensa foi oficializada em 1881 com uma nova lei de imprensa. Essa lei revogou não menos do que 300 artigos de 42 decretos. Antes de 1877, os governos franceses utilizaram inúmeros meios de coerção para controlar a imprensa. Alguns eram legais (censura e rigorosas leis de calúnia); alguns eram administrativos (obrigação de registro, de obter autorização e de depositar um fundo de caução); outros eram econômicos (imposto de selo sobre os jornais) (Collin, 1959; Bellanger et al., 1963, p. 383-414).

Em contraposição, o governo norte-americano jamais coibiu a imprensa. Na Inglaterra, a repressão governamental contra a imprensa, especialmente contra os jornais ilegais da classe trabalhadora, cessou após a metade da década de 1830 (Wiener, 1969). O governo havia decretado, pela última vez em 1819, leis para restringir a liberdade de imprensa. No contexto da agitação da classe trabalhadora, 60 Geo. III cap. 8 procurou uma “prevenção e punição mais efetivas das calúnias de caráter blasfêmico [religiosas] e sedicioso [políticas]” e 60 Geo. III cap. 9 reforçou o sistema de impostos cobrados aos jornais. Esses impostos sobre os jornais, conhecidos como “impostos sobre o conhecimento” foram introduzidos pela primeira vez em 1712 para controlar as atividades da imprensa. Esses impostos foram aumentados pela última vez em 1815 e tiveram sua aplicação estendida em 1819. O mais importante desses impostos, o imposto do selo, foi reduzido de 4d para 1d em 1836 e o governo aboliu esses impostos entre 1855 e 1861 (Collet, 1933). Após a redução do selo em 1836, a repressão governamental contra a imprensa cessou quase inteiramente. As leis sobre calúnia não foram revogadas mas eram invocadas sobretudo por razões privadas.

A coerção governamental, que durou um período mais longo na França do que na Inglaterra e nos EUA, teve diversos efeitos negativos sobre a imprensa francesa. Uma dessas consequências foi a restrição do tipo e volume de informação que os jornais podiam publicar sem riscos. Um manual para jornalistas, publicado no final de 1860, listava não menos de 269 provisões que os jornalistas tinham que seguir “se quisessem ficar longe dos tribunais”(Collins, 1959, p. 150). Assim, ao contrário da situação britânica e norte-americana, onde violentas batalhas de competição forçavam os editores a fornecer uma ótima cobertura noticiosa, os proprietários e editores franceses dos jornais não tinham qualquer interesse particular em expandir seus serviços de notícias.

De uma perspectiva sociológica, as batalhas políticas eram melhor codificadas na Inglaterra e nos Estados Unidos do que na França. Nesses dois países, as batalhas políticas eram confinadas dentro dos limites do bipartidarismo parlamentar. Os jornalistas podiam se afirmar ‘neutros’ pela simples proclamação de que não apoiavam qualquer dos dois partidos e que eram ‘imparciais’ por darem igual volume de atenção a ambos. Essa eficiente codificação da luta política facilitou o desenvolvimento de um discurso mais baseado em notícias e informações do que em opiniões políticas. Na França, os jornalistas se defrontavam com uma situação política muito mais complexa na medida em que o espaço das posições políticas era muito mais amplo e que o campo das possibilidades políticas era mais aberto. Durante grande parte da Terceira República, as posições políticas estenderam-se do comunismo ao monarquismo. Os princípios que esses dois partidos questionavam (propriedade privada e sufrágio universal) eram ambos tomados como pressupostos, em Washington e em Londres. O fato de que quase nada era tomado como pressuposto na política francesa tornava as questões e ideologias políticas muito mais cruciais na França do que em qualquer outro lugar.

Além disso, as batalhas políticas tinham caráter mais violento na França do que naqueles dois outros países. Isse se devia a lutas de classe especialmente intensas durante o século XIX e a uma hegemonia burguesa relativamente fraca. A fragilidade dessa hegemonia foi demonstrada durante a Comuna de Paris em 1871. Também ficou aparente nas múltiplas crises da Terceira República, assim também como na estrutura do próprio regime. A atitude do alto comando das Forças Armadas francesas em 1940 e a natureza do governo de Vichy deve ser explicada também pela intensidade das lutas sociais na França (Bloch, 1957, p. 205-14; Azéma & Winock, 1976, p. 363-411; Azéma, 1979, p. 9-32). Dentro desse contexto político, os jornalistas não podiam deixar de ser instrumentos de facções e grupos políticos. Muitos jornalistas estavam engajados na polemização e publicação de idéias políticas e de doutrinas políticas. Como resultado, de 46 jornais publicados em Paris antes da Primeira Guerra Mundial, cerca de 40 tinham alguma tendência política marcada e defendiam explicitamente uma doutrina política (Manévy, 1955, p. 142-4). Por exemplo, L’Humanité era socialista, La Croix era católico, Le Gazette de France era um órgão monarquista e La Presse era nacionalista. Le Figaro, Le Journal des Débats e Le Temps defendiam moderadamente posições políticas de direita (Bellanger et al., 1972, p. 294-380). Os quatro diários populares (Le Petit Journal, Le Petit Parisien, Le Matin, Le Journal) estavam entre os poucos jornais que não tinham como seu objetivo precípuo a propagação de uma doutrina política. Na Inglaterra, assim como nos EUA, embora a maioria dos jornais tivesse preferências políticas conhecidas e às vezes até bem marcadas, não havia condição para qualquer um deles se permitir ser tão militante e partidário quanto aqueles jornais franceses citados.


Razões econômicas

Por fim, o jornalismo anglo-americano e o francês se desenvolveram diferentemente porque as forças do mercado desempenharam um papel mais importante no desenvolvimento da imprensa norte-americana e britânica do que na França. Nos primórdios do século XIX, nos EUA, e durante a segunda metade do século na Inglaterra, os jornais adquiriram a capacidade de auferir rendimentos substanciais das suas vendas e da publicidade. Em ambos os países o mercado de publicidade se desenvolveu rapidamente, fornecendo uma significativa fonte de renda para a imprensa. Por volta de 1910, a renda da publicidade nos jornais e periódicos dos Estados Unidos chegava a US$ 202 milhões e constituía quase 60 por cento de sua renda total (Norris, 1990, p. 15-45). Na Inglaterra, as estimativas mais conservadoras computam os gastos dos patrocinadores com publicidade no total da imprensa, em 1910, em £11,5 milhões (Nevett, 1982, p. 71).

Esses significativos rendimentos contribuíram para dar autonomia à imprensa britânica e norte-americana relativamente à esfera da política. A partir da década de 1830, em Nova Iorque, e da década de 1850, em Londres, os editores norte-americanos e britânicos não mais careciam de suborno de políticos. Essa independência financeira contribuíu para despolitizar as práticas discursivas dos jornalistas e encorajou o desenvolvimento de um jornalismo de informação baseado nas normas discursivas de neutralidade e objetividade.

The Times, em Londres, oferece um bom exemplo dessa evolução. Durante a primeira metade do século XIX, The Times era notoriamente corrupto e, como o resto da imprensa, recebia grandes quantidades de dinheiro do governo (Aspinall, 1949, p. 66-106; sobre o fim do sistema de subsídio na Inglaterra, ver Aspinall, 1949, p.369-84). Por volta da década de 1850 ele já vendia exemplares suficientes (38.000 por volta de 1850) e suficiente espaço para anúncios particulares de modo a obter lucro mesmo sem ajuda governamental clandestina. Como resultado, The Times foi um dos primeiros jornais britânicos a mencionar a objetividade como um ideal e a sugerir que os deveres do Estado e do “Quarto Estado” eram “constantemente separados, geralmente independentes, algumas vezes diametralmente opostos” (The Times, 6 fev. 1852). Durante a segunda metade do século XIX, à medida em que melhorava a situação financeira do resto da imprensa britânica, um número crescente de jornais afirmou ser “objetivo” ou pelo menos politicamente “neutro”. Na década de 1880, a maioria dos jornais novos afirmou ser apolítico, com um terço do total se declarando livre de afiliações políticas (Lee, 1976, p. 229).

Por volta da virada do século, a publicidade era uma instituição mais bem estabelecida nos EUA e na Inglaterra do que na França. Os industriais franceses, operando num contexto cultural e econômico diferente, permaneceram relutantes em gastar dinheiro com publicidade por um período maior de tempo do que seus correlatos anglo-saxões. Em consequência, os jornais franceses vendiam proporcionalmente menos espaço de publicidade e ao que parece a renda obtida com publicidade não contribuía para as finanças dos jornais franceses na mesma proporção dos EUA e da Inglaterra. O rendimento com publicidade do Le Petit Parisien, o jornal mais bem estabelecido e comercialmente mais bem sucedido da Terceira República, obtinha apenas 13,1 por cento de sua renda total entre 1879 e 1914 (Amaury, 1972, p. 472, 476).

Pelo menos um diretor contemporâneo de jornal francês fez uma relação explícita entre a escassez de rendimentos de publicidade e a notória corrupção da imprensa francesa durante a Terceira República (L. Marc in Bérenger, 1897, p. 775; v.tb. Bellanger et al., 1969, p. 341-2). Durante esse período, poucos jornais franceses eram financeiramente independentes e muitos aceitavam suborno pelo qual eram controlados pelo Governo e pelos partidos. Por exemplo: segunda uma estimativa,o Governo francês teria gasto, entre 1871 e 1913, 1-2 milhões de francos por ano para subornar jornalistas (Bellanger et al., 1972, p. 249-50). Já que as instituições governamentais e os principais partidos políticos utilizavam esses subsídios para exercer controle político sobre os jornalistas, a maioria dos jornais permaneceu como porta-voz das facções políticas. Como resultado, muitos jornalistas continuaram a produzir um discurso partidarista e a manter uma visão opiniática sobre os fatos e eventos políticos.

Da década de 1870 até a década de 1930, os jornais e revistas parisienses receberam dinheiro dos governos estrangeiros para distorcer e esconder informação. A maioria dos jornais e periódicos parisienses são mencionados nas questões de corrupção, inclusive Le Figaro, Le Journal des Débats, Le Gaulois, Le Matin e a agência noticiosa Havas. Eles recebiam dinheiro de países como Itália, Espanha, Alemanha, Romênia e Bélgica (Kitsikis, 1968, p. 514-17; Bellanger et al., 1972, p. 501-9). Le Temps, por exemplo, considerado como o mais prestigioso jornal parisiense desse período e alegadamente o equivalente francês do The Times, recebeu dinheiro da Grécia, Bulgária, Iugoslávia, Áustria e Alemanha (Kitsikis, 1968, p. 521).

Essa corrupção constitui mais uma razão pela qual os leitores franceses eram mal informados sobre certos países estrangeiros. Por exemplo, enquanto que muitos jornais norte-americanos e britânicos tinham correspondentes permanentes em St. Petersburgo, Moscou e Odessa, os jornais franceses não tinham ninguém. Aparentemente desconhecedor da situação, o correspondente do Novosti em Paris observou que “uma razão misteriosa parece impedir a opinião francesa de perguntar sobre pessoas e fatos na Rússia e de buscar a verdade” (Loliée, 1902a, p. 721). Essa razão “misteriosa” eram os milhões que o governo russo distribuía generosamente aos jornalistas franceses, entre a década de 1880 e a de 1900, para mantê-los silenciosos sobre a situação na Rússia (Bellanger et al., 1972, p. 270-5). Tivessem os franceses conhecido a verdade sobre esse país, teriam deixado de comprar títulos do tesouro emitidos pelo governo tzarista e que jamais foram honrados pelos regimes subsequentes.
Fatores linguísticos e internacionais

Outros fatores, principalmente linguísticos e internacionais, explicam as diferenças entre o jornalismo francês e o anglo-americano. Palmer recentemente declarou que a língua inglesa é a melhor “linguagem de media” porque é rica em palavras monossilábicas e porque seu vocabulário preciso permite uma “economia de palavras” (Palmer, 1995). Também é importante o fato de que a gramática inglesa é mais flexível do que a francesa. Isso dá aos jornalistas ingleses a possibilidade de escrever mais concisamente. Pela mesma razão, as manchetes são mais compactas e as orações mais curtas. A capacidade de condensar a língua no inglês é uma decidida vantagem no jornalismo e seguramente pode ter favorecido a emergência de um modo característico de escrita na Inglaterra e EUA.

A influência dos fatores internacionais sobre o jornalismo é difícil de ser discernida. A superioridade do jornalismo anglo-americano e sua influência na França refletia a posição econômica e política anglo-americana predominante no mundo. Diversos séculos de guerra e de comércio fizeram de Londres a capital de um império e o centro do mundo até a Primeira Guerra Mundial. O poder econômico e político resultaram em que muitas coisas feitas e decididas em Londres recebiam valor de notícia e que muitos eventos ocorridos em outras partes do mundo tinham interesse para os leitores britânicos. Esses eventos eram também conhecidos primeiramente em Londres. Não apenas os serviços noticiosos espalhados pelo mundo todo eram propriedade de empresas norte-americanas e britânicas como também Londres era “o ponto europeu convergente das notícias telegráficas transoceânicas” (Palmer, 1976, p. 206). A posição central da Inglaterra no sistema mundial antes da Primeira Guerra Mundial fez de Londres um centro econômico, político e jornalístico mundial.



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