Chalaby, Jean K



Baixar 99,7 Kb.
Página1/3
Encontro11.09.2017
Tamanho99,7 Kb.
  1   2   3

CHALABY, Jean K. Journalism as an Anglo-American invention: a comparison of the

development of French and Anglo-American journalism, 1830s-1920s. European



Journal of Communication, London [etc], v.11 n.3, p.303-326, 1996. Trad. para o

port. por MTGF de Albuquerque. Rev. de A. de Albuquerque

O JORNALISMO COMO UMA INVENÇÃO ANGLO-AMERICANA: UMA COMPARAÇÃO ENTRE O DESENVOLVIMENTO DO JORNALISMO FRANCÊS E DO ANGLO-AMERICANO, DA DÉCADA DE 1830 À DÉCADA DE 1920.
Introdução

Os historiadores tradicionalmente supõem que a invenção do jornalismo coincide com o aparecimento dos primeiros jornais na Europa, durante o século XVII. Um dos proponentes mais fervorosos dessa tese é Mitchell Stephens, para quem o jornalismo foi inventado nas gazetas semanais venezianas da segunda metade do século XVI (Stephens, 1988, p.156-7). Contrariamente a essa opinião sustentei, em outro trabalho, que o jornalismo é uma invenção do século XIX. A profissão do jornalista e o discurso jornalístico é o produto da emergência, durante esse período, de um campo de produção discursiva especializado e cada vez mais autônomo, o campo jornalístico (Chalaby, 1996). Pouco a pouco o discurso jornalístico foi se constituíndo numa classe distinta de textos: os agentes no campo jornalístico desenvolveram suas próprias normas e valores discursivos, tais como objetividade e neutralidade. O modo jornalístico de escrever tonou-se caracterizado por estratégias e práticas discursivas específicas, despidas de caráter literário ou político. Os textos jornalísticos passaram a possuir características filológicas distintas e os mesmos fenômenos discursivos podiam ser identificados nos textos que formavam o discurso jornalístico.

Esse artigo tenta mostrar que a emergência do jornalismo foi marcada não só histórica como também culturalmente. É claro que essa revolução discursiva não ocorreu universalmente. O jornalismo é, não apenas uma descoberta do século XIX, como também uma invenção anglo-americana. Foi nos Estados Unidos, e em grau menor na Inglaterra, que as práticas e estratégias discursivas, que caracterizam o jornalismo, foram inventadas. Foi também nesses países que a imprensa se industrializou mais rapidamente e que mais rapidamente se transformou num campo autônomo de produção discursiva. Outros países, tais como a França, importaram e adaptaram paulatinamente os métodos do jornalismo anglo-americano.

A primeira parte deste artigo focaliza a emergência das práticas discursivas jornalísticas na Inglaterra e nos Estados Unidos e as diferenças discursivas entre o jornalismo francês e o anglo-americano. A segunda parte tenta determinar as razões por que esses dois jornalismos diferem e porque esse gênero discursivo emergiu, primeiramente, na Inglaterra e nos Estados Unidos.


A revolução jornalística anglo-americana

Uma comparação entre o jornalismo impresso no mundo anglo-americano e na França, durante o século XIX, fornece um fundamento esclarecedor para discutir o modo como os jornalistas norte-americanos e britânicos inventaram o conceito de notícia. No primeiro caso, os jornais anglo-americanos continham mais notícias e informação do que qualquer um dos jornais contemporâneos franceses assim como contavam com serviços de coleta de notícias melhor organizados. O que é mais importante, porém, as práticas jornalísticas discursivas propriamente ditas - tais como a entrevista e a reportagem - também foram inventadas e desenvolvidas pelos jornalistas norte-americanos. Essas foram posteriormente importadas e adaptadas como práticas convencionais pela imprensa francesa e, indiscutivelmente, serviram para transformá-la.


A notícia como um conceito anglo-americano

Como observou um proeminente jornalista francês da época, a “característica mais importante” da imprensa britânica era a “extensão e precisão de sua informação”(Prevost-Paradol, 1858, p. 188). Sem qualquer vislumbre de malícia, ele observou que a imprensa francesa era, em comparação, “em geral pobremente informada” e que “seus comentários sobre a política externa se apoiavam num conhecimento extremamente vago e insuficiente” (Prevost-Paradol, 1858, p. 197). Na verdade, a supremacia dos jornais anglo-americanos sobre os diários franceses no campo da informação era também patente, sob diversos aspectos, até o início da Primeira Guerra Mundial. Ainda que uma pesquisa mais empírica seja necessária para confirmar as afirmações subsequentes, a evidência coligida até agora aponta para as seguintes diferenças entre os dois tipos de jornais:



  • A informação era mais abundante nos jornais norte-americanos e britânicos, que continham mais notícias e mais páginas impressas do que os franceses.

  • A informação era mais recente e mais frequente nos jornais anglo-americanos, que possuíam melhores serviços de coleta de notícias do que seus contrapartes franceses.

  • A informação era mais exata (mais completa, mais objetiva e mais neutra) nos diários norte-americanos e britânicos - dado o hábito dos jornalistas franceses de interpretar e reprocessar a informação segundo a doutrina política defendida pelo jornal.

  • A informação era mais internacional nos jornais anglo-americanos, já que tinham mais recursos dos que os diários franceses para manter correspondentes internacionais permanentes e enviar correspondentes especiais para áreas remotas quando necessário. Até a Primeira Guerra Mundial, poucos jornais franceses tinham correspondente no estrangeiro. Além disso, as agências anglo-americanas de notícias tinham mais agentes e correspondentes pelo mundo todo do que tinha Havas, a agência francesa de notícias.

  • A informação era mais factual nos jornais anglo-americanos. Em oposição, os correspondentes e repórteres franceses tinham por hábito comentar a informação que veiculavam e misturar os fatos com opiniões pessoais.

  • A informação era mais confiável nos jornais anglo-americanos. Na França, até a Segunda Guerra Mundial, a imprensa sofria de corrupção endêmica. Durante toda a Terceira República (1870-1940) os jornais mais importantes, tais como Le Temps e o Figaro, e mesmo a agência Havas de notícias, aceitavam suborno de políticos, financistas e governos estrangeiros (Kitsikis, 1968; Bellanger et al., 1972, p. 249-50, 501-9). Isso alterava o fluxo e qualidade da informação na imprensa francesa.

Do ponto de vista da informação, as principais características que diferenciam os jornais franceses e os anglo-americanos estão listadas acima. Com relação à quantidade de informação, os diários anglo-americanos podiam devotar mais espaço às notícias e à informação porque tinham mais páginas do que seus equivalentes franceses. Entre o início da década de 1860 e o final da década de 1890, os jornais franceses imprimiam, no máximo, quatro páginas. Em dezembro de 1885, o Figaro foi o primeiro diário publicado regularmente com seis páginas (Bellanger et al., 1972, p. 276). Os quatros jornais populares (Le Petit Journal, Le Petit Parisien, Le Journal e Le Matin) só começaram a publicar seis páginas na fase entre 1899 e 1901 (Palmer, 1983, p. 308). Por volta de 1860, os principais jornais londrinos, tais como o Daily Telegraph, The Times, ou o Standard, já estavam sendo publicados em oito páginas e já na década de 1870, o Daily Telegraph era ocasionalmente publicado em 10 páginas e The Times, que custava 3 d, era impresso em 16 páginas, exceto nas quintas e sextas-feiras quando então era publicado em 12 páginas.

Além de um maior número de páginas, os jornais anglo-americanos desenvolveram também extensos serviços de coleta de informação. A concorrência crescente nos seus respectivos mercados forçaram os jornais de Nova Iorque e de Londres a fornecer uma excelente cobertura noticiosa a seus leitores. Os diários tinham dois meios de coletar informação: através dos próprios repórteres e correspondentes especiais ou permanentes, e através das agências de notícias. Embora muitos editores anglo-americanos atribuíssem uma enorme importância às notícias estrangeiras, apenas os principais jornais, até as últimas décadas do século XIX, podiam arcar com o custo de correspondentes permanentes no estrangeiro. Por volta de 1880, a principal fonte das notícias estrangeiras para muitos jornais residia nos telegramas das agências noticiosas, tais como a Associated Press nos Estados Unidos da América e a Reuters na Inglaterra (Palmer, 1978; Blondheim, 1994). Dito isso, alguns jornais como o New York Herald, já tinham seus próprios correspondentes estabelecidos na Europa desde a década de 1840 (Stephens, 1988, p. 230). Além do mais, a segunda metade do século XIX testemunhou a emergência do correspondente especial e, mais especificamente, do correspondente de guerra. Na verdade, a Guerra Civil Americana foi um dos primeiros conflitos da História que foi extensivamente noticiado, com o New York Herald enviando 63 correspondentes e o New York Times e o Tribune enviando, cada um, 20 correspondentes pelo menos (Stephens, 1988, p. 248). Nos anos subsequentes, podiam-se encontrar correspondentes norte-americanos na maioria dos campos de batalha do mundo inteiro - desde a Guerra da Criméia até o conflito russo-japonês em 1904-5. Por exemplo: os jornais de propriedade de William Randolph Hearst, o barão da imprensa norte-americana, enviaram sete correspondentes para noticiar o breve confronto entre a Grécia e a Turquia em 1897 (Mott, 1962, p. 580).

Dentre os jornais britânicos era o The Times que tradicionalmente tinha o maior departamento de notícias estrangeiras. Em 1857, a lista dos correspondentes e agentes estrangeiros empregados pelo The Times incluía 19 nomes (The Office of The Times, 1939, p. 275, 568). The Times podia até mesmo se permitir os vultosos custos de enviar, por períodos de diversos meses, correspondentes especiais a áreas remotas tais como a China - onde um correspondente viajou por quase dois anos (1857-8) (Cook, 1859). Ainda que uma tal equipe de correspondentes estivesse além dos recursos dos rivais do The Times, nessa época a maioria dos jornais londrinos tinha os recursos necessários para enviar correspondentes de guerra. O correspondente especial enviado pelo Moning Advertiser à Guerra da Criméia custou ao jornal 1.500 libras, e as despesas pela cobertura da Guerra Franco-Prussiana chegaram a £10.000 por jornal (Grant, 1871, p. 247-59).

Em contraposição, nenhum jornal francês tinha uma equipe de correspondentes estrangeiros antes da década de 1870 e a maioria não tinha nenhum até a Primeira Grande Guerra. Le Petit Journal, por exemplo, o jornal francês de maior circulação (582.000 por dia, em média, em 1880) não tinha correspondente permanente no estrangeiro, naquele ano (Palmer, 1976, p. 204). O primeiro a organizar uma pequena equipe de correspondentes estrangeiros foi Le Temps, no início da década de 1870 (Voyenne, 1985, p. 160). Até a Primeira Guerra Mundial, esse jornal e Le Journal des Débats eram os únicos jornais franceses que tinham algum correspondente no estrangeiro. E mesmo assim, os seus serviços de notícias estrangeiras eram muito inferiores aos dos jornais norte-americanos e britânicos, sendo que muitos observadores estrangeiros se queixavam ainda, por volta de 1900, da qualidade inferior desses serviços. Jornalistas estrangeiros da Argentina, Bélgica, Brasil, Alemanha, Inglaterra, Polônia, Rússia, Suissa e Estados Unidos, criticavam os jornais franceses por ignorar seus respectivos países, por divulgar informações falsas ou por pilhar e plagiar os jornais britânicos (Loliée, 1902a, 1902b, 1902c, 1902d, 1903a, 1903b, 1903c)

Na Inglaterra e nos EUA, o direito permitido aos jornalistas de assistirem às sessões do Parlamento e do Congresso contribuíu para o desenvolvimento da profissão de repórter já no princípio do século XIX. No final do século XVIII, o Morning Chronicle foi o primeiro jornal londrino a ter uma equipe de repórteres no Parlamento. Por volta da década de 1830, cerca de 60 repórteres sentavam-se na Galeria da Casa dos Comuns e esse número tinha chegado a 105 por volta de 1870 (Grant, 1871, p. 172). Na verdade, durante a sessão parlamentar de 1870, por exemplo, The Times tinha 19 repórteres seguindo os debates, o Standard tinha 14, o Morning Advertiser e o Daily News tinha 9 cada um (Grant, 1871, p. 172). Em comparação, na França, a publicação do conteúdo dos debates parlamentares ainda era censurado em 1870. Posteriormente à reforma de 1860, os jornais tinham adquirido o direito de publicar os procedimentos parlamentares, mas só tinham permissão para publicar in extenso, o relato dos debates conforme tinha sido impresso no jornal oficial, o Moniteur (Chisel, 1980, p. 375, 382; Bellanger et al., 1969, p. 413).

Além dos repórteres do Parlamento, os diários londrinos também tinham repórteres que assistiam às sessões dos vários tribunais; além disso, eles aceitavam cópia de inúmeros “penny-a-liners” (Grant, 1871, p. 260-97). Stephens resume acuradamente a situação quando escreve que “Por volta da metade do século dezenove, um jornal na Inglaterra, para ser competitivo, tinha que pôr em campo uma dúzia de repóteres parlamentares, seis repórteres de tribunais, correspondentes nas províncias e nas principais capitais européias e uma equipe de redatores editoriais ou “leaders”(Stephens, 1988, p.259). Nos EUA, a reportagem desenvolveu-se rapidamente de 1820 em diante (Stephens, 1988, p. 238). Em 1854, a equipe editorial em rápida expansão do New York Tribune empregava 14 repórteres e 10 editores (Emery & Smith, 1954, p. 387). Durante as décadas subsequentes, a reportagem na Inglaterra e nos EUA expandiu-se para cobrir eventos nos campos do esporte, sociedade e comércio.

Os repórteres norte-americanos aparentemente gozavam de status superior ao do seus correlatos franceses. No próprio campo jornalístico norte-americano, o status dos repórteres tinha subido pelo fato de que muitos dos proprietários e editores dos jornais mais prestigiosos, tais como James Gordon Bennett, Charles A. Dana, Joseph Pulitzer e William R. Hearst, tinham ocupado a posição de repórter em algum estágio de sua carreira (Seitz, 1928, p. 15-37; Mott, 1962, p. 431; Swanberg, 1962, p. 34-35).

Também merece atenção o fato de que, o primeiro repórter a adquirir fama por si próprio, foi o jornalista britânico Henry Stanley. Sua busca pelo Dr. Livingstone em 1871 foi co-patrocinada pelo New York Herald e o Daily Telegraph de Londres. Stanley se definiu como um “jornalista volante” na busca do geógrafo (que se dizia estar morto, em Londres) sobre quem “o mundo queria notícias” (Seitz, 1928, p. 278, 291). A título de comparação, o primeiro repórter na França a conseguir um status semelhante e a gozar de relativa notoriedade foi Albert Londres, cuja carreira começou durante a Primeira Guerra Mundial, quase meio século após Stanley (Assouline, 1989).

Os repórteres franceses tiveram que esperar pelo período entre guerras (1918-39) para adquirir a legitimidade jornalística e o reconhecimento social de seus colegas anglo-americanos. Quando os diários parisienses começaram a empregar uns poucos repórteres permanentes na década de 1870, foi adotada a palavra inglesa para designar essa nova geração de jornalistas. Por muitos anos eles constituíram a classe inferior do campo jornalístico e a sua profissão era referida com condescendência. Uma das primeiras definições, em 1836, retratava o repórter como “o tipo de jornalista inglês, um tipo de funcionário que considera como seu dever anotar o procedimento dos eventos” e que tinha o estranho hábito de “considerar os fatos como fatos”; isso é, relatar fatos sem tecer comentários sobre eles (Faucher, 1836, p. 684). Quatro décadas depois, a definição de “repórter” pela edição de 1869 do dicionário Larousse ainda mantinha conotações negativas. Os repórteres eram retratados como continuamente procurando notícias {novidades}, fazendo perguntas demais e informando sobre “crianças queimadas, maridos espancados e transeuntes acidentados”(Voyenne, 1985, p. 149). Seu papel era olhado com desdém porque muitos editores achavam que a notícia e a informação estavam adquirindo importância demais na imprensa francesa. Eles criticavam a américanisation da imprensa francesa e a sua tendência para um newyorkheraldisme. Esse último termo era uma referência ao impacto sobre os jornalistas franceses causado pela edição européia do New York Herald, estabelecida em Paris em 1887 (Palmer, 1983, p. 131-8).

Até a década de 1890 ainda, quando as práticas jornalísticas norte-americanas começaram a ser relativamente difundidas na França, essas práticas continuavam a ser percebidas como algo estrangeiro e negativo. Em 1888, Émile Zola, romancista e jornalista, expressava suas dúvidas sobre o fato de que “o fluxo descontrolado de informações, levado ao extremo… transformou o jornalismo, matou os grandes artigos de discussão, matou a crítica literária e cada vez mais dá importância aos despachos telegráficos, às notícias banais e aos artigos de reporters e interviewers” (as duas últimas palavras em inglês, no original) (Palmer, 1983, p.92, tradução do autor). Esse tipo de diatribe era recorrente e revela o nível de resistência que se opunha a essas novas práticas discursivas (para diversos outros exemplos, ver Bellet, 1967).

Ao contrário dos jornais anglo-americanos, que faziam intenso uso dos telegramas recebidos das agências noticiosas, os jornais franceses não adotaram como prática comum a publicação da informação fornecida pelas agências noticiosas antes do final da década de 1870 para notícias nacionais, e dos meados da década de 1880 para as notícias internacionais (Palmer, 1983, p. 40). A essa altura, os jornais anglo-americanos estavam publicando extensivamente a informação recebida das agências noticiosas. Mesmo The Times que, em 1857, tinha recusado os serviços da agência Reuter, publicava a partir do início da década de 1860 os telegramas da agência numa base diária (The Office do The Times, 1939, p. 272-3). Ao final da década de 1870, The Times publicava diariamente de 10 a 20 telegramas da Reuter para complementar os inúmeros despachos enviados pelos seus próprios correspondentes. Por exemplo, em 30 de outubro de 1878, a página de notícias internacionais do The Times continha 32 tópicos noticosos originados de quase tantos países diferentes.

Em consequência, a principal fonte de informação internacional dos jornais franceses eram os diários britânicos. No final do século XIX, a agência francesa de notícias, Havas, ainda despachava resumos traduzidos dos jornais britânicos para seus clientes. Progressivamente, para quebrar o monopólio da Havas, alguns diários franceses fizeram acordos com os jornais britânicos para receber suas notícias internacionais. Esse foi o caso de Le Matin, que em 1898 comprou o direito de usar os despachos do The Times por £6.000 ao ano (Palmer, 1983, p. 209).

Em resumo, até a década de 1880, os jornalistas franceses não eram muito suscetíveis às notícias. Em contraposição, os principais jornais de Nova York e de Londres eram, principalmente e sobretudo, organizações noticiosas. Embora se possa contestar que as notícias sempre existiram (Stephens, 1988) o conceito de notícias antes do aparecimento dos jornais anglo-americanos jamais tinha adquirido um tal predomínio dentro de uma classe de textos. Os proprietários, editores e jornalistas da imprensa anglo-americana não apenas dedicaram recursos importantes para coletar informação de fontes locais, nacionais e internacionais, como também inventaram práticas discursivas destinadas a coletar e relatar essa informação. Essas práticas discursivas deram ao jornalismo sua especificidade como uma classe de textos e fizeram do jornalismo um gênero discursivo próprio. Algumas dessas práticas discursivas serão examinadas na próxima seção.

A invenção de práticas discursivas centradas-nos-fatos

Assim como o moderno conceito de notícias, também as práticas discursivas centradas-nos-fatos foram inventadas pelos americanos e britânicos. Essas práticas discursivas podem ser identificadas como jornalísticas porque tinham o uso determinado por normas e valores que eram, eles mesmos, condicionados por regularidades da área jornalística emergente durante a segunda metade do século XIX na Inglaterra e Estados Unidos.

Historicamente, as práticas discursivas que podem ser identificadas como jornalísticas não eram de caráter literário ou político. A diferença entre essas práticas discursivas pode ser ilustrada pelo esboço da evolução do jornalismo na França e nos Estados Unidos durante a segunda metade do século XIX. Na França, o jornalismo permaneceu, durante esse período, sob a influência de suas esferas tradicionais de origem - a política e a literatura (Ferenczi, 1993, p. 19-42). A importância conferida à forma literária manteve afastado dos jornais franceses o estilo telegráfico das divulgações noticiosas anglo-americanas. Além disso, uma significativa parcela dos jornalistas franceses continuou a escrever segundo a tradição dos publicistas - escrever para propagar doutrinas políticas e defender os interesses de um determinado grupo político. Na França, as opiniões e comentários ainda prevalesciam nas notícias e na informação até o final do século XIX. Em contraposição, os jornalistas anglo-americanos começaram a exigir, da década de 1850 em diante, o padrão tipicamente jornalístico de neutralidade e objetividade. Como veremos abaixo, ainda que aquilo que escreviam fosse politicamente arbitrário, eles não admitiam ter qualquer compromisso ou mesmo preferência política. De qualquer maneira, a ênfase na notícia e na informação não dava muito espaço aos jornalistas anglo-americanos para expressarem suas opiniões.

A reportagem e a entrevistas constituem duas das práticas jornalísticas centradas-no-fato que foram inventadas pelos norte-americanos. Muitas facetas do relato noticoso eram alheias à concepção francesa de jornalismo.

Primeiro, o formato de relato noticioso implicava a disassociação entre os fatos e as opiniões. Nos primórdios do século XIX, segundo um observador contemporâneo, foi estabelecida uma diferença entre “‘homens de fatos [matters of fact men]’ e jornalistas dispostos a acrescentar uma “intelligence raisonnée’”, entre “‘mera reportagem’ e alguma forma de comentário e interpretação” (citado em Stephens, 1988, p.247). Nos jornais, a informação e as opiniões começaram a ser separadas em dois gêneros jornalísticos distintos. Enquanto que os juízos de valores começaram a ser confinados em leaders, os fatos eram divulgados num formato discursivo - o relato noticioso - projetado exclusivamente para esse fim.

Em contraposição, a tradição jornalística francesa não traçava uma linha tão precisa entre fatos e comentários, sendo que a maioria dos artigos misturava livremente as notícias com as opiniões. Uma alta percentagem de artigos na imprensa francesa desempenhava um duplo papel de apresentação de notícias e de interpretação das mesmas. Quando se pediu a Joseph Pulitzer que esboçasse a principal diferença entre a imprensa francesa e a norte-america, ele criticou a francesa por que essa deixava a seus correspondentes a liberdade de expressar as opiniões nos seus telegramas noticiosos. Ele continuou, então: “Nos Estados Unidos, queremos fatos. Quem se interessa pelas especulações filosóficas de nossos correspondentes?” (in Loliée, 1903b, p. 716). Assim, as práticas discursivas eram mais indeterminadas e indefinidas na França do que no mundo anglo-saxão, onde a prematura dissociação entre fatos e interpretação levou à invenção de práticas discursivas centradas nos fatos tais como o relato noticioso.

O relato noticioso anglo-americano também pode ser diferenciado do clássico artigo francês de jornal pelo modo como era escrito. Os relatos noticiosos, principalmente porque colocam o fato mais importante em primeiro lugar, são construídos ‘em torno de fatos’ e não em torno de ‘idéias e cronologias’ (Stephens, 1988, p.253). Nos jornais franceses, o princípio organizador de muitos artigos era a subjetividade mediatizadora do jornalista. Os jornalistas franceses não apenas envolviam a informação nas suas próprias observações como também construíam seus artigos segundo suas interpretações dos eventos relatados, desse modo fazendo a mediatização entre seus leitores e a realidade. Por outras palavras, a informação noticiosa anglo-americana e o artigo francês de jornal diferiam em função de suas respectivas formas narrativas, o primeiro sendo organizado em torno de fatos e o último sendo moldado pelas práticas discursivas mais orientadas pela opinião dos jornalistas franceses.

“A história da entrevista” escreveu Michael Schudson, “é não apenas um relato da modernidade dessa forma, mas também de sua americanização”(Schudson, 1994, p. 568). Indiscutivelmente, a entrevista é uma invenção norte-americana. Embora James Gordon Bennett tenha reproduzido no New York Herald, em 1936, a conversa que ele teve com uma dona-de-casa enquanto inquiria sobre um assassinato, a entrevista não se tornou uma prática jornalística comum antes da década de 1860 (Stephens, 1988, p. 246; Schudson, 1994, p. 565). Segundo um historiador contemporâneo, nessa década a prática se tornara tão comum, que os diários de New York estavam empregando entrevistadores (Grant, 1871, p.427). “Por volta da virada do século” a entrevista era “a principal ação do jornalista” (Schudson, 1994, p. 565).

A prática difundiu-se para a Inglaterra durante os primórdios da década de 1880, especialmente graças a William T. Stead. Stead, editor do Pall Mall Gazette entre 1883 e 1890, publicou sua primeira entrevista em outubro de 1883 (Schults, 1972, p. 63). Em 1884 ele publicou 134 entrevistas (Goodbody, 1998, p. 146). A prática difundiu-se pela França por volta do mesmo período em que tinha começado na imprensa britânica, mas num ritmo mais lento, principalmente porque os políticos relutavam em dar entrevistas. Eles preferiam escrever os próprios artigos ou ter seus discursos relatados verbatim. Consequentemente, a entrevista não era uma prática usual entre os jornalistas franceses até o período entre guerras. Assim como para a palavra ‘repórter’, a palavra inglesa ‘entrevista’ foi introduzida na língua francesa quando a prática foi importada dos Estados Unidos. Segundo o dicionário histórico da língua francesa, a palavra apareceu em francês em 1884 (Rey, 1992, p. 1045).

Em resumo, os jornais anglo-americanos continham mais informação e seus serviços de coleta de notícias eram muito mais desenvolvidos do que os dos diários franceses. As práticas jornalísticas discursivas específicas, tais como a reportagem e a entrevista, também foram inventadas e desenvolvidas nos Estados Unidos. Graças à criação da moderna concepção de notícias e ao desenvolvimento de práticas jornalísticas, os norte-americanos e os britânicos realizaram uma revolução discursiva única. A próxima seção procura examinar as causas dessa revolução e compreender as razões porque o discurso jornalístico foi inventado em New York e Londres e não em Paris.



  1   2   3


©livred.info 2017
enviar mensagem

    Página principal