Ch 035 a virgem Traída – Laurie Grant a virgem Traída The raven and the swan



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CH 035 - A Virgem Traída – Laurie Grant




A Virgem Traída

The raven and the swan
Laurie Grant


Ela só tinha a força de sua paixão...

Miles Raven era um astro ascendente na sofisticada corte dos Tudor, em Londres. Entretanto, isso pouco significava no norte do país, especialmente para Glória Mallory, recém-saída do claustro e desejosa de conhecer tudo que a vida podia lhe oferecer. Criada num convento, Glória pouco sabia a respeito do mundo, e menos ainda dos homens.


Miles parecia honrado, mas era por demais atraente e perigosamente sedutor, capaz de tentar a mais virtuosa das donzelas...
Digitalização e Revisão : Ana Ribeiro




LAURIE GRANT combina as carreiras de en­fermeira de um centro de traumatologia de emergência e de autora de romances históricos. Ela alega que es­crever a ajuda a manter a sanidade... Apaixonada pela História, tanto da Inglaterra como do Texas, gasta o tempo disponível viajando a esses dois lugares. E casada com seu herói da vida real, tem duas filhas adolescentes, dois cachorros e um gato.

Copyright © 1994

by Laurie A. Müler

Publicado originalmente em 1994

Pela Harlequin Books, Toronto Canadá.

Todos os direitos reservados, inclusive o direito de reprodução

total ou parcial, sob qualquer forma.

Esta edição é publicada por acordo com a Harlequin Enterprises B.V.

Todos os personagens desta obra,

salvo os históricos, são fictícios.

Qualquer outra semelhança com pessoas

vivas ou mortas terá sido mera coincidência.

Título original: THE RAVEN AND THE SWAN

Tradução: Cecília Florence Rizzo

Copyright para a língua portuguesa: 1994 CIRCULO DO LIVRO LTDA.

EDITORA NOVA CULTURAL

uma divisão do Círculo do Livro Ltda.

Alameda Ministro Rocha Azevedo, 346 — 9º andar

CEP 01410-901 - São Paulo - Brasil

Fotocomposição: Círculo do Livro

Impressão e acabamento: Gráfica Círculo

PRÓLOGO

Inglaterra, 1536
Até que enfim, noviça Ancilla! Já não era sem tempo! Paguei um bom dinheiro para morrer em paz e confortavelmente, não em solidão e abandono! A jovem religiosa sorriu e tentou não fazer uma careta. Em voz calma, respondeu:

— Sem dúvida a espera lhe pareceu longa, mas vim vê-la um pouco antes da Assembléia das Irmãs. A senhora sabe que eu não poderia faltar.

—- Imagine! Desde quando noviças têm permissão para assistir à Assembléia como se já fossem freiras? — indagou a sra. Elizabeth Easington com a habitual irritação. — E o que uma jovem de sua idade entende de enfermagem? Você deveria estar fora daqui, levando uma vida diferente, tendo filhos, e deixar o convento para quando estivesse velha demais para fazer qualquer outra coisa.

Com medo de que a senhora ranzinza percebesse seu ar de preo­cupação, a moça desviou o olhar. Nessa manhã, a prioresa havia transmitido a notícia temida. Por ordem do rei Henrique VIII, o priorado de Kyloe tinha de ser fechado a exemplo de outros conventos e mosteiros espalhados pelo reino. Muitas da freiras, já bem idosas, não se lembravam de outro tipo de vida e ficariam no desamparo.

Todavia, a sra. Easington não se deu conta de nada e continuou:

— Você tem uma boca adorável, menina, feita para beijar e não para murmurar orações noite e dia.

Chocada com as palavras, Ancilla a fitou por um instante. Durante os anos passados atrás dessas paredes, muito poucas vezes pensara nas próprias feições. Uma freira não valorizava a beleza mundana. Por ser a única filha a sobreviver ao clima rigoroso ali da região norte, os pais a tinham dedicado à vida religiosa ainda em seu primeiro ano de vida. Antes de ter idade suficiente para ser uma pos­tulante, ela fora aluna interna do convento. Por um breve momento, desejou ter um espelho para se olhar.

— Ancilla — murmurou a velha senhora devagar. — Tenho cer­teza como esse nome de freira esconde outro bem feminino. E então, menina, com o qual foi batizada?

Concentrando-se para lembrar a voz amorosa dos pais pronunciando-lhe o nome, a jovem beneditina transportou-se mentalmente da enfermaria. Não pensava nisso desde a cerimônia durante a qual pedira ao convento para ser aceita como noviça.

— Ancilla era uma santa, mártir consagrada — respondeu lu­tando com as lembranças. — Agora, está na hora de preparar seu banho, senhora.

— Não lhe perguntei como arranjou o nome religioso, Está ficando surda? Seja boazinha e dê uma alegria a esta pobre moribunda. Qual é seu nome verdadeiro?

— Glória. Meu nome era Glória — respondeu com firmeza. — E a senhora não está à morte. Vou apanhar a água quente.

— Mocinha autoritária! Aposto como diz à prioresa o que fazer e quando — resmungou a velha senhora.

Ancilla já ia explicar que ninguém precisava dizer nada à delicada e bondosa madre Benigna quando a pesada porta de carvalho se abriu. Um golpe do vento frio de fevereiro precedeu a entrada de sir Herbert, o sacerdote do priorado.

— Padre?! — exclamou a noviça ao vê-lo envergando os para­mentos usados apenas para rezar missa e oferecer os sacramentos.

— Bom dia, noviça Ancilla — cumprimentou o homem corpu­lento, cujo sorriso afetado fez desaparecer os olhos miúdos entre as dobras do rosto balofo. — Sra. Easington, vim lhe ministrar a eu­caristia e também, caso queira, a extrema unção. E por que não? A senhora não vive dizendo que está à morte? Melhor aproveitar agora. Amanhã já não estará mais aqui. Não faz sentido eu ficar, visto o que está para acontecer a este lugar.

De maneira desastrosa, o padre acabava de revelar a notícia que a prioresa pretendia dar cuidadosamente à enferma.

— O que está insinuando? — perguntou a sra. Easington sem esconder a ansiedade. — E quanto a você, Ancilla, pare de fazer sinais ao padre. Ele já deu com a língua nos dentes — acrescentou soerguendo-se.

— Ah, ainda não tinha sido informada? — continuou sir Herbert sem tato algum e indiferente ao alarme estampado no rosto da velha senhora. — A irmandade terá de ser dissolvida. A propriedade já foi dada a um nobre de Sussex e seus ocupantes têm um mês para ir embora. Preciso me apressar para encontrar um novo meio de vida. Por isso, não posso é me delongar por aqui, mesmo sendo muito dedicado às necessidades espirituais do priorado de Kyloe — declarou em tom pomposo.

O senhor quer dizer à vida mansa, à mesa farta e à rameira que mora no vicariato, pensou a jovem noviça, irritada com o verbalismo indiscreto de sir Herbert.

— Mas não podem me pôr para fora! Não podem! Paguei pelo direito de morar aqui até o fim de meus dias! — esbravejou a sra Easington em voz aguda.

— Controle-se, minha filha, o rei Henrique pode fazer o que quiser. Como é, vai querer os sacramentos? Preciso ir cuidar da vida.

— Meu coração — gemeu a enferma com as mãos crispadas no peito e enquanto enterrava a cabeça nos travesseiros.

Como ficasse claro que os últimos ritos não eram desejados, o sacerdote bateu em retirada. Mas a pobre noviça levou horas para acalmar a sra. Easington. O sino anunciando o almoço foi ignorado enquanto Ancilla continuava em seus esforços e rezava para que o xarope de papoula fizesse efeito contra a dor no peito da doente.

Finalmente, quando as pálpebras começavam a pesar sonolentas, a sra. Easington admitiu que poderia ir morar na casa da irmã, em York, embora não esperasse ser bem recebida pelos parentes.



Ao menos tem para onde ir, refletiu Ancilla. Ela mesma não contava com ninguém neste mundo. E pensar que em mais algumas semanas teria feito os votos perpétuos! Decidiu-se a acompanhar as freiras mais idosas e experientes quando deixassem o convento na esperança de encontrar um refúgio fora do alcance da ganância do rei Henrique.

CAPÍTULO I

Sir Miles Raven praguejou eloqüentemente ao dirigir a montaria escarpa acima da baía Budle. A inten­sidade da chuva gelada aumentava a ponto de gotas escorregarem pelo seu pescoço entre a aba do chapéu e a gola de pele da capa.

A primavera jamais chegaria ao norte? O fim de abril já se apro­ximava e ali fazia mais frio do que em Sussex em janeiro. Estradas lamacentas e riachos transbordantes, que haviam atrasado sua viagem por um mês, agora o impediam de alcançar o priorado de Kyloe essa tarde.

A única alternativa seria procurar abrigo para si mesmo e para a montaria. Devagar, desviou o olhar da baía. A neblina tornava difícil distinguir muita coisa, mas ele teve a impressão de vislumbrar uma casa aninhada no promontório acima da baía. Teria de se con­tentar com ela. Estalou a língua para Cloud, o garanhão cinzento, e reencetou a cavalgada sob a chuva inclemente.

Cercas de pedra ladeavam a estrada até, a casa construída do mesmo material. A direita e um pouco afastado, havia um estábulo. Apesar da pressa em escapar da chuva gelada, Miles notou o estado de abandono da propriedade. As vidraças estavam baças de sujeira e, no segundo andar, uma delas coberta por tábuas, parecia um olho cego. Uma outra, no térreo, estava quebrada e pilhas de lixo acu­mulavam-se no jardim.

Ninguém atendeu à primeira batida na porta. Nem à segunda. Miles teria desistido se não houvesse escutado o choro de um bebê e a voz que o acalentava vindos pela janela quebrada. Convencido de que a casa era habitada, esmurrou a porta fazendo barulho suficiente para acordar até os mortos. Não pretendia continuar se enre­dando enquanto os moradores dali mantinham-se abrigados. Essas pessoas do norte não tinham noção de hospitalidade?, indagou-se.

Finalmente, a porta entreabriu-se apenas o bastante para mostrar um olhar desconfiado. Um instante depois, Miles ouviu o ranger das dobradiças e deparou-se com um homem de expressão astuta.

― Boa tarde. Sou sir Miles Raven. Gostaria de lhe pedir o favor de me oferecer abrigo contra o mau tempo. Esta chuva amaldiçoada está gelada!

Como se tentasse encontrar palavras para recusar o pedido, o homem continuou a observá-lo.

— O estábulo está muito bom, pois não pretendo me demorar. Tão logo a chuva amaine um pouco, vou continuar minha viagem. Quero chegar ao convento Kyloe antes do anoitecer, se for possível — declarou Miles em tom ríspido.

— Ora, não precisa se aborrecer — apaziguou o homem no so­taque carregado da Northumbria e aparentando ter se decidido. — O senhor é muito bem-vindo em minha casa. Hesitei porque quase nunca vemos cavalheiros finos do sul por aqui. Meu nome é George Brunt. Ned vai levar sua montaria ao estábulo — disse referindo-se a um menino de olhar curioso e cujo rosto fino indicava ser filho do dono da casa.

Este, numa afabilidade repentina, conduziu Miles pelo vestíbulo mal iluminado e ofereceu-lhe uma cadeira junto à lareira.

Se a parte externa da casa revelava abandono, o interior não es­condia o deleixo. Camadas de poeira cobriam todas as superfícies horizontais, teias de aranha pendiam pelos cantos das paredes e, no tapete imundo e esfiapado, espalhavam-se cacos de cerâmica.

— Mag! — gritou o dono da casa depois de também se acomodar numa cadeira.

Pouco depois, surgiu uma mulher de aspecto nervoso, com uma criancinha segurando-lhe o avental sujo.

— Providencie vinho para sir Miles, nosso futuro vizinho do priorado de Kyloe. Ele veio se abrigar da tempestade aqui.

Pelo tom de voz, Brunt parecia se achar do mesmo nível social de Miles e de considerar-lhe a visita inesperada muito agradável. Entretanto, não passou despercebida a Miles a troca de olhares tensos entre o homem e a mulher. Por que sua presença deixava Brunt apreensivo? conjeturou. Estranhou também que ele se conservasse calado enquanto esperavam pelo vinho.

Felizmente, o corpo enregelado começava a reagir ao calor do fogo, apesar das roupas molhadas. Como não lhe oferecessem uma toalha, ou pano qualquer, para se enxugar, levantou-se, tirou a capa e pendurou-a no encosto de uma cadeira. Pelo menos, um pouco da água escorreria para o chão.

O vinho, trazido pela mulher em copos rústicos de estanho, tinha sabor avinagrado. Não querendo ofender o dono da casa, Miles es­forçou-se para evitar uma careta ao sorver o primeiro gole. Brunt, todavia, tomou-o com prazer e tornou-se mais comunicativo.

— Não costumo beber vinho com freqüência, só quando recebo visitas importantes como a do abade. Geralmente, me contento com cerveja. Imagino que não tenhamos de nos preocupar mais com as vindas do abade, não é? — comentou Brunt dando um tapa na perna e rindo como se tivesse dito algo muito engraçado.

— Existia uma abadia na redondeza? — perguntou Miles com o fito de ser cortês e não porque tivesse algum interesse no assunto.

Ainda tentava tomar o vinho sem demonstrar o desagrado, mas já começava a sentir, no corpo, o calor provocado por ele.

— Abadia de Belford. Em minha opinião, a extinção das irmandades e ordens religiosas foi uma boa limpeza. Sanguessugas mal­ditas! Nunca deixaram de aparecer por aqui a fim de exigir um carneiro em paga do aluguel anual. Por acaso o senhor sabe o nome do cavalheiro a quem o rei presenteou Belford?

— Não, não sei — respondeu Miles com a intenção de descobrir, pois seriam vizinhos.

— Então, o senhor é o novo amo de Kyloe. Com certeza, já acertou a situação com as irmãs, calculo. Tanto melhor. Lugares como aquele só serviam como desculpa para mulheres preguiçosas levar uma vida inútil. Fingiam passar o tempo rezando quando, na verdade, fugiam da obrigação determinada por Deus, a de servir um homem e dar-lhe filhos.

Brunt, Miles desconfiava, não permitia que a mulher escapasse de tais deveres. Embora soubesse que a vida da maioria das religiosas era difícil e trabalhosa, absteve-se de qualquer comentário.

— Sim, Kyloe agora me pertence, mas não fui eu quem a solicitou e sim meu pai. Ele faleceu antes de tomar posse da propriedade.

— E o senhor a herdou — concluiu Brunt.

— Não. Meu irmão Thomas é o filho mais velho, portanto, o herdeiro legal. Mas como tal, já tinha trabalho suficiente tomando conta de Ravenwood, era Sussex. Também, meu irmão queria que eu tivesse minhas próprias terras.

— Não creio que o novo proprietário de Belford quisesse vir parar aqui no norte — opinou Brunt.



Não mais do que eu, pensou Miles. Thomas, sem dúvida, queria íhe proporcionar um centro de interesse longe do brilho superficial da corte e de seus freqüentadores gananciosos. Lady Célia Pettingham tratava-se de um bom exemplo. Recém admitido na corte, ele se deixara influenciar pela moça linda, de olhos escuros. Porém, ao encontrar um outro pretendente mais de seu agrado do que o segundo filho de um comerciante, sagrado ca­valeiro pelo último rei, lady Célia não hesitara em descartá-lo.

Mas quando havia mencionado o plano de criar cavalos na nova propriedade, o rei Henrique havia mostrado vontade de ir ao Norte. — Durante uma estação de caça, Raven, para conhecer os porres gerados por seu magnífico garanhão — explicara o rei.

Extraordinário como o fato de despertar a simpatia do monarca havia reacendido o interesse de lady Célia por Miles. Mas ele ig­norava-lhe os sorrisos renovados. Um dia, haveria de se casar, jun­tando-se a uma família nobre e poderosa que lhe fortalecesse a for­tuna. Porém tomaria cuidado para não se chamuscar como na primeira experiência.

Não sabia por que havia contado certos detalhes a Brunt. Língua solta. Efeito do vinho. Antes que o indivíduo indagasse mais sobre sua vida, resolveu controlar a conversa.

— Há quanto tempo mora aqui, Brunt?

Miles estava curioso. Apesar do estado deplorável da casa e do terreno à volta, percebia-se que a propriedade já tinha visto dias melhores. Por certo, fina e confortável demais para as posses desse camponês rude.

— Aqui em Mallory Hali? A vida inteira, quer dizer, na casa, só há alguns anos. Eu era pastor de ovelhas antes de sir e lady William falecer de febre nos pulmões. Como eles não tinham her­deiros, exceto a igreja, o abade achou melhor que eu morasse aqui para proteger o lugar para a abadia.

Claro! Não era à toa que esse pastor pobretão estava ansioso para ver os monges pelas costas. Isso o tornava senhor da casa!

— O cavalheiro não tinha parente algum? — perguntou Miles com ceticismo suficiente para provocar reação.

— Não, não! Nenhum! — afirmou Brunt em tom de desafio e incapaz de fitar Miles. — Ele era filho de um nobre que morreu em Bosworth, lutando por Ricardo o Usurpador — acrescentou sem disfarçar o desprezo por um seguidor do rei derrotado mais de cin­qüenta anos atrás.

Miles tinha certeza de que se Ricardo Plantagenet houvesse triun­fado em Bosworth, Brunt estaria expressando o mesmo desdém pelos aliados de Tudor. Ele era do tipo bajulador, a serviço de quem es­tivesse no poder. Concentrava-se apenas em suas vantagens.

O próprio pai não tinha sido diferente, reconheceu Miles. Se não houvesse lutado e contribuído para a causa Tudor, Thomas Raven teria morrido comerciante plebeu e os filhos não seriam, agora, os "novos homens" do rei.

Uma hora mais tarde, a chuva passou e Miles, menos molhado, continuou a viagem rumo a sua nova propriedade.
Cada acesso de tosse da prioresa, a noviça achava que seria o último. Eles eram mais freqüentes agora e o lenço encharcava-se de sangue, enquanto os espasmos sacudiam o corpo debilitado da pobre. O fim não demoraria muito mais, porém Ancilla não se atrevia a pensar além do último suspiro de madre Benigna.

Tiritava de frio ali na capela. Aconchegou mais o cobertor à volta dos ombros da prioresa e avivou as brasas tio fogareiro ao lado. Estariam mais aquecidas na enfermaria onde havia uma lareira, mas madre Benigna tinha insistido em esperar o desenlace diante do altar. Convencida de que não lhe restavam mais muitas horas de vida, Ancilla a ajudara a chegar até ali.

Elas eram as duas últimas beneditinas no priorado de Kyloe. As outras tinham partido um mês atrás, seguidas pela inconformada sra. Easington. O novo proprietário deveria chegar no dia seguinte, mas mesmo então, a idosa e enfraquecida prioresa não se encontrava em condições de viajar. Como não pudesse ficar ali sozinha, Ancilla havia se voluntariado para fazer-lhe companhia. Não teria sido capaz de agir de maneira diferente, pois amava a velha religiosa, mas fora com grande inquietação que vira a partida das outras. Até aquela data nenhum dos conventos a que tinham escrito havia respondido. Haveria ainda algum aberto na Inglaterra? Impossível de se saber, porém não poderiam continuar em Kyloe às vésperas de sir Miles Raven chegar para tomar posse do lugar. Elas tinham prometido mandar notícias tão logo encontrassem abrigo.

Todos os dias, enquanto cuidava da cada vez mais fraca prioresa, Ancilla esperava ver a chegada do nobre de Sussex a quem Kyloe pertencia agora. Mas ele não aparecia. Talvez as fortes chuvas de primavera que desabavam sobre toda a Inglaterra estivessem lhe impedindo a viagem. O mau tempo, entretanto, não atrapalhava os saqueadores.

Tão logo os empregados do priorado haviam sido dispensados e as freiras partido, os camponeses da região encararam o convento como um lugar abandonado. Individualmente, ou aos pares, come­çaram a aparecer a fim de pegar o que lhes poderia ser útil.

Há muito, os representantes do rei já tinham levado os tesouros da capela, como o cálice de prata e os castiçais de ouro dados pelo rei Henrique VI. Mas os saqueadores, gente humilde, queriam itens mais práticos como vidros das janelas ou pedras soltas das paredes. As mulheres procuravam roupa de cama e utensílios de cozinha que as beneditinas não podiam ter carregado. Era evidente que eles não se viam na obrigação de ser leais ao novo dono de Kyloe.

Na véspera, Ancila tinha surpreendido um casal no claustro car­regando enxergas.

— Ah, pensei que todas as irmãs tinham ido embora — dissera o homem. — Vai precisar disto aqui, irmã?

— Não. Estou dormindo ao lado da prioresa na enfermaria. Ela está à morte. Por isso, não fui embora ainda. Mas essas coisas não lhes pertencem, Tudo aqui tem um novo dono. Roubar é pecado.

O casal tinha ido embora com ar envergonhado e aborrecido. Mas não se oferecera para ajudar a cuidar da prioresa. Amargurada, Ancilla se indagara por que tinha sedado ao trabalho de defender os direitos do homem que estava prestes a expulsá-la dali. Esperava que o casal também não tivesse levado os dois últimos pães e o caldo de galinha. Quem sabe madre Benigna não teria forças para se alimentar um pouco no dia seguinte.

Mas a prioresa não havia ingerido nada. Apenas cochilava entre os acessos de tosse. Quando acordava, não desviava o olhar cansado do altar.

A certa altura, mostrou-se aflita e murmurou várias vezes:

— O armário... Vá remexer meu armário, minha filha. Madre Benigna referia-se ao móvel em seu escritório onde eram guardados os documentos importantes do priorado.

— Vou mais tarde, madre, quando a senhora estiver respirando melhor.

Já entardecia. Depois da tempestade, o sol brilhava no poente e seus raios avermelhados filtravam-se pelas janelas altas refletindo no altar.

— Olhe, Ancilla —sussurrou madre Benigna de repente. — Nosso Senhor está vindo... ao meu encontro.

Com esforço extraordinário, soergueu-se um pouco e apontou para o altar iluminado pelo sol.

— Quem está vendo, madre? — perguntou Ancilla imaginando se Cristo estaria ali chamando a bondosa beneditina para seu seio.

Jamais ficaria sabendo, pois novo acesso de tosse impediu a prio­resa de responder. Quando passou, ela mal respirava, mas não des­viava o olhar do altar.

Aflita, Ancilla tirou do bolso o frasco com óleo bento encontrado na casa abandonada de sir Herbert. Em lágrimas e em latim, enco­mendou a alma da agonizante a seu Criador.

Sentindo seu toque, a velha freira virou a cabeça e fitou Ancilla. Seu olhar de paz expressava gratidão e despedida. Suspirou e foi-se.

Em pânico, a jovem noviça viu-se sozinha.

A luminosidade havia desaparecido do altar e começava a escu­recer. Ancilla acendeu as últimas velas de que dispunha e as colocou ao lado do corpo de madre Benigna. Em seguida, endireitou-lhe o hábito e cruzou suas mãos no peito. Enquanto trabalhava, rezava em voz alta, mas acabou rompendo em soluços.

Sentia-se como uma criança abandonada. Havia mantido a fronte erguida e a expressão de coragem enquanto a prioresa vivia, mas após sua morte, o terror começava a dominá-la. Onde arranjaria forças para cavar uma sepultura digna da prioresa? Nem sabiá se encontraria uma pá no telheiro da horta. Os saqueadores deviam ter levado tudo. Mesmo se achasse uma, a terra estaria descongelada o suficiente para permitir-lhe preparar uma cova no cemitério do con­vento?

Da entrada da capela, Miles viu as velas acesas e foi tomado pela desconfiança. Seria possível que até os ladrões tinham uma ponta de religiosidade?, conjeturou, pois tinha notado a falta de vi­dros, dobradiças e outras evidências de saque.

Encontrava-se exausto e morto de frio. Havia esperado encontrar algum alimento na cozinha e uma cama para dormir, mas pelo que vira, os saqueadores já tinham limpado o lugar.

Olhando através da penumbra, pensou que as freiras tinham empilhado os hábitos na frente do altar. Só quando ouviu soluços, per­cebeu que a capela não estava vazia.

Forçou o olhar e distinguiu uma silhueta, vestida de preto, ajoe­lhada ao lado de uma enxerga sobre a qual havia uma outra pessoa com vestes semelhantes. As autoridades haviam lhe garantido que todas as irmãs tinham parentes com casas para recebê-las. Ele não desejava apossar-se do abrigo de religiosas.

Não só todas não tinham ido embora como a da enxerga devia estar doente. Fora um idiota ao acreditar nas autoridades.

Imaginava como e o que falaria à freira ajoelhada quando um espirro traiu-lhe a presença.

O ruído forçou Ancilla a abafar os soluços e virar-se. Esperava ver alguém da vila à procura de algo para roubar. Por uma questão de decência, o ladrão poderia se convencer a cavar a sepultura para madre Benigna. Com certeza, teria piedade.

Mas o homem em pé à porta não era um camponês da região. Mesmo com os olhos nublados de lágrimas, Ancilla podia ver que ele exibia as roupas finas de um cavalheiro rico. Na cabeça, assen­tava-se um chapéu de aba retesada para cima e enfeitado com uma grande pluma curva. O casaco de mangas acolchoadas e enfeitado de pele deixava o homem mais alto e corpulento do que, na realidade,era. Sob ele, usava um colete de veludo preto e uma camisa de linho branco. Os calções chegavam até os joelhos e as botas de cavalgar deixavam exposta uma boa parte das pernas musculosas, cobertas por meias compridas e escuras. Ela não podia ver muito do rosto nas sombras, exceto que era angular e tinha um nariz fino.

— Perdão se a sobressaltei, irmã — disse o homem ao aproxi­mar-se do círculo de luz das velas.

Algum ponto da mente da noviça registrou a voz profunda e suave, com um sotaque tão estranho ali no norte.

Mas foram os olhos que lhe prenderam a atenção quando ele tirou o chapéu e fez uma curvatura respeitosa. Num contraste com os cabelos negros, os olhos eram da tonalidade mais clara do azul, antes deste se confundir com o cinza. O reflexo prateado a fez pensar num riacho correndo entre as colinas de Kyloe: veloz, penetrante e gelado.

Sem perceber, ela estremeceu.

— Sou sir Miles Raven, o novo proprietário deste lugar, irmã. De repente, Ancilla ficou furiosa. Ali estava o responsável por toda a tristeza e ansiedade sofridas por madre Benigna nas últimas semanas de sua vida. Apesar de idosa, a prioresa ainda se sentia bem, mas ao receber a notícia de que teria de ir embora, pois o convento pertencia a este homem, sua saúde começara a fraquejar. E agora, estava morta.

— O senhor pensou que todas as freiras tinham ido embora. La­mento decepcioná-lo, mas duas de nós ficamos porque uma estava à morte. A prioresa de Kyloe acaba de falecer. Se o senhor for caridoso o suficiente para me ajudar a enterrá-la, irei embora logo em seguida a fim de poupar-lhe aborrecimentos — declarou Ancilla em tom frio e cerimonioso.

Ao fitá-lo, o coração, disparou e o sangue afogueou-lhe as faces. Ela não tinha consciência de que as semanas de incertezas sobre o futuro, de noites mal dormidas e de alimentação escassa cobravam seu preço. Um troar estranho ecoou em seu ouvidos enquanto o rosto surpreso de sir Miles desaparecia na escuridão a seu redor.


CAPÍTULO II

Miles deu um pulo para a frente, mas tarde demais para amparar a noviça e impedir-lhe a queda. Ajoelhou-se e observou seu rosto que, momentos antes, expressava desafio. Com a cabeça e o pescoço escondidos pela touca de linho branco e pelo véu preto, ela o lembrava de um cisne ferido.

Enfiou os dedos sob o punho do hábito e tomou-lhe a pulsação. Estava fraca e a pele, gelada. O leve arfar do peito mostrava que ela continuava a respirar. Não seria melhor soltar a touca que lhe apertava o pescoço e a fronte? Não podia negar que estava curioso. A peça escondia qualquer vestígio de cabelo.

Como símbolo do sacrifício da vaidade, as freiras costumavam cortar os cabelos. Mas os mantinham curtos ou os deixavam crescer outra vez? Sua palidez não dava indicação alguma se os cabelos eram castanhos, ruivos, loiros ou pretos.

Ao remover a touca, satisfez a curiosidade. Caracóis loiro-acastanhados e curtos grudavam em sua testa. Num gesto distraído, afas­tou-os para cima. Como deveriam ser lindos antes que ela os cortasse. Miles os imaginou longos e sedosos caídos pelas costas, ou espa­lhados sobre um travesseiro.

Com a breca! A viagem extenuante e o mau tempo deviam ter lhe destruído o bom senso. Onde já se vira pensar em uma freira sob esse ângulo? Talvez estivesse sofrendo os efeitos da abstinência forçada. Ultimamente, tinha estado muito ocupado com os negócios de despachos marítimos e com as providências para reformar a nova propriedade. Dessa forma, não era possível aproveitar os favores das cortesãs freqüentadoras dos palácios reais. Tão logo resolvesse os problemas da prioresa morta e da freira, ele iria procurar uma mulher. Naturalmente, as vilas ali do norte tinham rameiras.

Apesar desse raciocínio, Miles não resistiu e tocou-lhe a face. Sentiu-a sedosa e macia.

Não podia deixá-la ali no chão junto ao corpo da prioresa. Pre­cisava descobrir um aposento, onde houvesse lareira, para levá-la. Tomou a freira inconsciente nos braços, apoiando-lhe a cabeça de encontro ao peito.

Embora fosse quase tão alta quanto ele, Miles surpreendeu-se com seu corpo esguio. O hábito preto o mantinha bem disfarçado. Estaria ela passando fome desde a partida das outras beneditinas? Seria não apenas um cisne ferido, mas também um agonizante?

Enquanto a carregava para a saída da capela, não a viu abrir os olhos. Num momento, ela encontrava-se largada em seus braços e, no seguinte, debatia-se como se fosse um cisne selvagem. Mas o cisne tinha voz.

— Por favor, me ponha no chão imediatamente! — ordenou e, ao vê-lo hesitar, levantou a mão com a intenção de estapeá-lo.

— Por Deus, a senhora está viva! Não precisa bater. Pronto — disse Miles pondo-a no chão. — Não foi minha intenção assustá-la, irmã, só a queria levar a um aposento onde a pudesse deitar.

— O senhor teria dificuldade. Os vizinhos levaram tudo que não estava pregado no chão — comentou Ancilla enquanto levava a mão à cabeça. — Meu véu! Minha touca! — O que o senhor fez com eles?

— A senhora precisava de mais folga para respirar, então, eu os tirei. Garanto-lhe que não quis desrespeitá-la. Estão ali — explicou ele apontando para as peças no chão.

Não muito convencida, a noviça o fitou com um misto de suspeita e acusação. Depois, foi apanhar o véu e a touca.

— Não há nenhum lugar adequado para se passar a noite aqui? — indagou Miles temendo ter de dormir ali na capela, enrolado na capa e, ainda por cima, ao lado de uma freira.

— Nenhum, exceto a enfermaria. E assim mesmo porque a man­tive trancada. Depois das visitas dos representantes do rei e dos saqueadores, sir Miles, só lhe restou a casca de uma casa — afirmou Ancilla com uma nota de satisfação na voz.

— Não tem importância. Eu já planejava fazer uma grande reforma aqui — respondeu ele com calma. — Então, vamos à enfermaria. Eu a ajudo.

Mas quando Miles tomou seu braço, ela o puxou e dirigiu-lhe um olhar furioso.

— Ora, por que tanta irritação, irmã? Eu apenas tentei ser atencioso. Pensativo, Miles afagou o bigode e a barba bem aparados. Esta freira não tinha nem um pingo do temperamento submisso e dócil que ele atribuía às religiosas.

— Obrigada, senhor, mas não preciso de seu amparo. Como já disse, conto apenas com seu auxílio para enterrar a prioresa. Em seguida, partirei.

— Não vai ser possível cavar a sepultura a não ser amanhã cedo, irmã. Já anoiteceu — informou Miles apontando para as janelas a oeste.

Ela acompanhou o gesto e os olhos, de um azul profundo, tor­naram-se maiores ainda.

— Ah, agora me lembro. O sol estava se pondo quando ela deu o ultimo suspiro.

Impaciente, reprimiu as lágrimas.

— Quanto tempo ficou sozinha ao lado da prioresa, irmã? E qual foi a última vez que se alimentou?

— Não sei. Estes dois últimos dias foram terríveis.

— Nesse caso, acho melhor lhe dar algo para comer. E um pouco de vinho também para recobrar um pouco de cor nas faces.

— Tudo que sobrou lá na enfermaria foi meio pão. Os ladrões levaram até o vinho da eucaristia. As galinhas e os carneiros foram vendidos para pagar a viagem das outras freiras.

— Não tem importância. Eu trouxe um pedaço de queijo, uma torta de frutas e um frasco de vinho. Com mais o seu pão, não vamos morrer de fome até amanhã cedo.

Ancilla sacudiu a cabeça e fez um gesto para que Miles a seguisse.

Embora de grande simplicidade, a enfermaria tinha lareira e ja­nelas bem fechadas que impediam a entrada do vento. Numa das paredes caiadas, diante de quatro camas, havia um crucifixo. Uma da camas, a mais próxima da lareira, estava com os lençóis revirados, obviamente a usada pela prioresa. O chão de pedras não tinha tapete.

Miles foi ao estábulo onde havia deixado Cloud. Depois de cuidar dele, voltou à enfermaria com os alimentos e o vinho. Viu que a noviça havia acendido o fogo na lareira e colocado o pão sobre uma mesinha.

Os olhos de Ancilla arregalaram-se ao ver o que Miles punha a sua frente. A princípio, fingiu não estar com fome, mas depois da primeira mordida num pedaço de torta, pôs-se a comer como se não o fizesse há dias.

— Já pensou no que vai fazer daqui em diante? — indagou Miles com o intuito de forçá-la a comer mais devagar.

Após um longo período de fome, essa pressa seria prejudicial.

— Fazer? Ah, sim. O senhor quer dizer amanhã, depois de enterrar a prioresa. Ora, vou me embora.

— E para onde, irmã? — perguntou Miles na esperança de que ela informasse ter parentes na região a sua espera.

Ela desviou o olhar e fixou-o no fogo.

— Espero descobrir onde as outras freiras desta comunidade estão. Elas partiram com a intenção de fazer parte de um outro convento.

Miles não sabia por que a idéia de vê-la partir o inquietava. Apesar de sua atitude firme e ríspida de momentos atrás, havia algo em seus olhos azuis que o levavam a pensar numa inocência intacta. Depois de Ana Bolena ter transformado o comportamento mundano numa quali­dade imprescindível, poucas mulheres na corte poderiam demonstrar tal pureza. Nem mesmo as jovens solteiras. Deixar a noviça partir sem lhe contar o que sabia do mundo, seria como soltar um carneirinho entre lobos famintos. A honestidade brutal era a melhor solução.

— Irmã, monges e freiras sem abrigo vagam pela Inglaterra inteira. Seria uma perda de tempo se a senhora percorresse as estradas à procura de outra comunidade religiosa. As poucas restantes estão superlotadas com refugiados como a senhora. E mesmo essas logo estarão fechadas. E melhor aceitar o fato a fim de poder começar uma nova vida. A senhora não tem parentes pela redondeza que possam recebê-la?

Ancilla ainda evitava fitá-lo, mas não conseguiu esconder as lágrimas. —Não, não tenho ninguém. Meus pais morreram.

— Nem irmãos ou primos distantes?

— Não. Fui a única filha a sobreviver.

— Bem, não há razão para ficar apreensiva. Use o dinheiro da pensão que lhe foi dado para pagar hospedagem em uma das vilas da região. Freiras são bem educadas e uma, com sua instrução, pode dar aulas a crianças, ou ser dama de companhia para uma mulher da nobreza. Talvez até venha a se casar — acrescentou com uma ponta de otimismo.

__Dinheiro da pensão?! Não sei a que se refere, sir Miles.

— Exato. Os fundos determinados pelo governo para ajudar os religiosos a recomeçar a vida depois que os mosteiros e conventos foram fechados.

— Nós não recebemos dinheiro de pensão algum, sir Miles.

— Como não? Eu mesmo verifiquei que fosse mandado. Veio numa soma total aos cuidados de seu sacerdote, sir Herbert, para que ele repartisse. Cada freira deveria receber várias libras.

Ancilla curvou os ombros e não escondeu o ar de tristeza.

— Agora entendo por que aquele sacerdote falso estava com tanta pressa de ir embora — comentou ela.

— Está insinuando que o padre do convento fugiu com o dinheiro da pensão?! — indagou Miles, incrédulo.

Meu senhor, tudo que posso lhe dizer é que sir Herbert foi embora tão logo o fechamento do convento foi anunciado e ele jamais mencionou ter recebido pensão alguma. Enviar o dinheiro destinado às freiras para aquele homem foi o mesmo que pôr uma raposa para tomar conta do galinheiro — concluiu numa tentativa fraca de fazer graça.

Ele entendia agora por que a moça estava com tanto medo. Sem dinheiro e parentes, a pobre não tinha opções.

— Farei o possível para descobrir o paradeiro do malandro e recuperar seu dinheiro — prometeu Miles.

— Obrigada, senhor — murmurou ela em tom inexpressivo.

— Até então, vou considerar seu bem estar responsabilidade minha — informou ele num impulso.

— Por que deveria? O fato de o sacerdote ser ladrão não é culpa sua. Ou está querendo aliviar a consciência por haver adquirido o priorado de Kyloe, sr. Miles?

A expressão de desafio tinha voltado a seus olhos agora que ela estava alimentada, notou Miles.

Não, porque foi meu pai quem o fez e não eu — contou ele, surpreso por se pôr na defensiva.

Pela segunda vez naquele dia, Miles explicou como a propriedade tinha ido parar em suas mãos. Ela o ouviu calada.

— Quero assumir a responsabilidade porque a senhora não tem ninguém mais. É a atitude certa.

— Não, não posso aceitar — afirmou Ancilla encarando-o.

— Nesse caso, o que vai fazer? Vender o corpo? ― Sem se importar com sua exclamação de horror, ele prosseguiu, ríspido: — Não vejo outra escolha, pois não tem dinheiro, nem família. Como vai comprar seu pão? A não ser que se torne ladra.

— Naturalmente, não tenho a intenção de vender meu corpo ou de roubar. Sou freira — declarou, ofendida.

— Não mais. Queira, ou não, o rei Henrique aboliu esse meio de vida na Inglaterra. Portanto, moça, vai ter de enfrentar a realidade. Vou precisar de uma governanta quando o convento estiver transformado numa casa de campo. Por que não aceita esse emprego? — ofereceu ele, surpreso consigo mesmo e, para disfarçar, acrescentou: — Eu não deveria saber seu nome já que comeu seu jantar e o meu?

Ela olhou para as faíscas, quase todas a sua frente.

— Ah, perdão, senhor. Eu não tinha a intenção de comer tanto. Sou a irmã Ancilla.

— Não me referi a seu nome religioso e sim ao verdadeiro. Acho melhor começar a pensar a seu respeito dessa forma. A partir de hoje, deve deixar essas coisas para trás.

Ela o fitou imaginando se perderia a alma ao revelar-lhe o nome verdadeiro. Calado, ele aguardou.

— E Glória. Glória Mallory.

— Da família Mallory que apoiou Ricardo Plantagenet?

Ele tinha ouvido falar do velho barão que lutara tão ferrenhamente ao lado de Ricardo apenas para ser massacrado a seu lado. Depois, pensou na casa onde havia se abrigado. Seria possível?

Glória sacudiu a cabeça.

— Meu avô morreu em Bosworth, ao lado do rei Ricardo. Minha avó estava grávida e meu pai foi o único filho. Ela jamais voltou a se casar. Os Mallory perderam o baronato e ficaram apenas com uma casa simples, de campo, na Nortúmbria. Sua família, sem dúvida, lutou pelos Tudor, não é?

— Exato. Thomas Raven foi sagrado cavaleiro no campo de bataIha. Até então, era um comerciante bem sucedido.

― Sei. Ele não deixou escapar a oportunidade de progredir através da traição ao verdadeiro rei — comentou Glória em tom de desdém. ― O senhor deve ser um dos "novos homens" do rei de quem ouvimos falar. Os que o encorajaram a abandonar a mulher e a igreja.

Que grande atrevimento! Imagine atacar a suposta linha política de quem era dono do telhado sobre sua cabeça! A moça era corajosa, ele tinha de reconhecer.

— Srta. Mallory, cavalguei o dia inteiro sob uma chuva inclem­ente. Acabei encontrando uma freira morta em minha propriedade e outra que não posso, em sã consciência, mandar embora para morrer de fome na estrada. Podemos adiar para um outro dia essa conversa sobre Bosworth?

Gloria corou e baixou a cabeça.

— Perdão, sir Miles, por ter me mostrado ingrata. Os sentimentos ainda estão muito arraigados aqui no norte. Como sabe, fomos leais ao rei Ricardo até o fim. Eu não quis dar a entender que não apre­ciava sua oferta.

— Então, vai aceitá-la?

— Como o senhor disse, não tenho alternativa. Mas talvez o senhor devesse deixar sua mulher me entrevistar antes de um acordo final — sugeriu Glória.

— Não sou casado, srta. Mallory, portanto, a decisão cabe a mim. O emprego é seu por quanto tempo desejar.

Alegando cansaço, Miles a deixou em seguida, levando cobertores e lençóis de uma das camas e informando que dormiria numa das celas.

Encontrou uma onde ainda restava uma enxerga. Estava gelada, mas ele já havia dormido em lugares piores nas campanhas com o rei. Enrolado nos cobertores, pensaria em como transformar essa ruína numa casa de campo, digna de uma dama de boa família com quem se casaria algum dia.

Mas foi um rosto e não uma construção que dançou em seus olhos fechados. Tinha a forma de coração e, primeiro, estava emol­durado por uma touca branca e um véu preto. A dona possuía olhos de um azul profundo e com a expressão mais altiva possível.




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