Centro espírita nosso lar



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CENTRO ESPÍRITA NOSSO LAR
GRUPO DE ESTUDO DAS OBRAS DE ANDRÉ LUIZ E
MANOEL PHILOMENO DE MIRANDA
14º- LIVRO - SEXO E DESTINO
ANDRÉ LUIZ - 1963 - 10 REUNIÕES.
1a REUNIÃO
(Fonte: prefácio e capítulos I a V.)

1. Ninguém lesa alguém, sem dolorosas reparações - Emmanuel lem­bra em seu prefácio o episódio da mulher apanhada em adultério, que escribas e fariseus apresentaram a Jesus, e a célebre sentença profe­rida pelo Mestre: -- Quem estiver sem pecado, atire a primeira pe­dra!... Jerusalém, agora, é o mundo, onde o materialismo empenha-se na dissolução dos valores morais, com escárnio manifesto à dignidade hu­mana, enquanto religiões veneráveis digladiam com a Natureza, tentando bloquear a vida, qual se quisessem ilaquear a si próprias. A Doutrina Espírita foi enviada pelo Senhor -- assevera Emmanuel -- para assere­nar os corações e comunicar aos homens que o amor é a essência do Uni­verso, que as criaturas nasceram do hálito divino para se amarem umas às outras, que o sexo é legado sublime e que o lar é refúgio santifi­cante, esclarecendo, porém, que o amor e o sexo plasmam responsabili­dades naturais na consciência de cada um e que ninguém lesa alguém nos tesouros afetivos, sem dolorosas reparações. Com este livro, André Luiz mostra que, sob a bênção do Pai, os delinqüentes de ontem, hoje redimidos, se transfiguram em mensageiros de redenção para aqueles que lhes caíram, outrora, nas ciladas sombrias. Finalizando seu prefácio escrito em forma de prece, Emmanuel recorda-nos também que a existên­cia física, seja na infância ou na mocidade, na madureza ou na ve­lhice, é sempre dom inefável que nos cabe honorificar e que, mesmo de­tendo um corpo carnal rastejante ou disforme, mutilado ou enfermiço, devemos repetir sempre diante do Criador: -- Obrigado, meu Deus! ("Prece no Limiar", pp. 7 e 8)


2. O conteúdo deste livro - Em sua página inicial, psicografada por Waldo Vieira, André Luiz informa que sexo e destino, amor e cons­ciência, liberdade e compromisso, culpa e resgate, lar e reencarnação constituem os temas deste livro. Obviamente, os nomes de seus protago­nistas foram substituídos, mas a história é real e não foi retirado dela um só til, a fim de que todos que a lerem possam aprender "com a biblioteca da experiência".("Sexo e Destino", p. 9.)
3. A decepção após a morte - Qual acontece entre os homens, no Mundo Espiritual que nos rodeia, sofrimento e expectação esmerilam a alma, disciplinando, aperfeiçoando, reconstruindo... Atravessada a fronteira de cinza, eis-nos erguidos à responsabilidade inevitável, ante o reencontro da própria consciência. A vida humana, que prossegue naturalmente no Além, assume a forma de um prélio em dois tempos. O berço inicia; o túmulo desdobra. Com raríssimas exceções na regra, somente a reencarnação consegue transfigurar-nos de modo fundamental. Após a morte, o homem transporta consigo, para outras esferas, os in­gredientes espirituais que cultiva e atrai. Em abandonando o invólucro de matéria mais densa, os Espíritos domiciliados na Terra assemelham-se, figuradamente, aos insetos. Larvas existem que se retiram do ovo e revelam-se na condição de parasitos, enquanto outras se transformam, de imediato, em falenas de prodigiosa beleza, ganhando altura. Há, as­sim, criaturas que se afastam do estojo carnal, entrando em largos processos obsessivos, nos quais se movimentam à custa de forças alhei­as, ao lado de outras que, de pronto, se elevam, aprimoradas e belas, a planos superiores da evolução, existindo entre umas e outras a gama infinita das posições em que se graduam. Após a desencarnação, muitos sofrem, a princípio, o desencanto de todos os que esperavam pelo céu teológico, fácil de granjear. A verdade aparece, então, por alavanca renovadora. Padecendo espessa amnésia, relativamente ao passado re­moto, somos então defrontados por velhos preconceitos. Suspiramos pela inércia que não existe. De semelhantes conflitos, por vezes terríveis e extenuantes, nos recessos da mente, muitos de nós saímos abatidos ou revoltados para extensas incursões no vampirismo ou no desespero, mas a maior parte dos desencarnados, a pouco e pouco, se acomoda às cir­cunstâncias e aceita a continuidade do trabalho na reeducação própria, à espera da reencarnação que possibilite renovação e recomeço. (Capítulo I, pp. 13 e 14)
4. O caso Pedro Neves - André pensava em tais assuntos ao ver a tristeza e o cansaço de seu amigo Pedro Neves, devotado servidor do Ministério do Auxílio, na colônia "Nosso Lar". Veterano de empreendi­mentos socorristas, Neves jamais demonstrara desânimo ou fraqueza no desempenho de suas obrigações, por mais pesadas fossem elas. Advogado na última existência, caracterizava-se por extrema lucidez no exame dos problemas que as eventualidades do caminho apresentassem. Sempre denodado e humilde, enunciava, no entanto, nos últimos dias, sensíveis alterações de comportamento. Havendo atendido, na esfera terrestre, a necessidades de ordem familiar, mostrava-se desde então arredio e de­sencantado, copiando o feitio de companheiros recém-chegados da Terra. Isolava-se, pois, em funda reflexão. Fugia à conversação fraterna. Queixava-se disso ou daquilo, e vez por outra, em serviço, denotava lágrimas que não chegavam a cair. André procurou ajudá-lo, de forma que Neves pudesse desabafar. "E' a esposa quem o aflige, assim tanto?", indagou-lhe André. Pedro Neves fitou-o com a postura dolorida de um cão batido e respondeu: "Há momentos, André, nos quais será pre­ciso biografar-nos, ainda que superficialmente, para vascolejar o pre­térito e extrair dele a verdade, somente a verdade..." Após ligeira pausa, o amigo prosseguiu: "Há quarenta anos, moro aqui e, há quase quarenta anos, a esposa compeliu-me a absoluto desinteresse do coração. Deixei-a quando a mocidade das energias físicas lhe estuava no sangue, e Enedina, compreensivelmente, não pôde sustentar-se a distân­cia das exigências femininas". Pedro Neves informou então que sua ex-mulher casou-se segunda vez, mas o novo marido arredou-a completamente de sua convivência espiritual. Ambicioso, senhoreou os cabedais que ele ajuntara, logrando multiplicá-los imensamente, à força de astúcia em arrojadas empresas. E agiu com tanta leviandade, que a esposa, dan­tes simples, se apaixonou pelas comodidades demasiadas, gastando o tempo terrestre em prodigalidades e tafulices, até que se rojou às der­radeiras viciações nos desvarios do sexo, porque, observando o ma­rido em aventuras, quis desforrar-se, estabelecendo para si mesma de­sordenado culto ao prazer, mal sabendo que apenas se transviava, em lamentáveis desequilíbrios. (Capítulo I, pp. 15 a 17)
5. Uma família sem rumo - Pedro Neves informou, na seqüência, que seus filhos Jorge e Ernesto, ludibriados pelo fascínio do ouro, enlou­queceram no mesmo delírio do dinheiro fácil e se animalizaram a tal ponto que nem de leve guardavam qualquer traço da memória paterna, em­bora fossem, à época, negociantes abastados, em idade madura. Aliás, intentando captar-lhes cooperação e simpatia, o padrasto chegou a in­sinuar que eles seriam filhos dele mesmo, através de união com sua mãe, o que Enedina não desmentiu. Enedina havia desencarnado, dez anos antes, pela imposição da icterícia, que lhe apareceu por ver­dugo invi­sível, evocado pelas bebidas alcoólicas. Ao vê-la enferma e vencida, Pedro tentara, na ocasião, todos os processos de socorro à sua disposição, temendo vê-la escravizada, na vida post-mortem, às forças avil­tantes a que se jungira sem perceber. Ansiava, então, retê-la no corpo físico, mas em vão. Colhida por entidades infelizes, às quais se con­sorciou levianamente, Enedina se comprazia na viciação. Não ha­via, pois, outro recurso senão esperar, esperar... Deplorando a situação da esposa e dos dois filhos, Pedro lembrou a André que a bondade de Deus não o havia arrojado, de todo, à solidão, porque sua filha Be­atriz, de quem ele jamais se separara pelos laços do espírito, supor­tara pacien­temente as afrontas e conservara-se fiel ao seu nome. "Agora, com quase meio século de existência entre os homens, presa em­bora ao ca­rinho que consagra ao esposo e ao filho único -- continuou Neves --, prepara-se Beatriz para o regresso... Minha filha vem atravessando os derradeiros dias terrenos, com o corpo torturado pelo câncer..." Pedro Neves confessou, então, ter estado por muitos anos à margem das tricas do navio familiar... Como muitos procedem, fizera-se ao oceano largo da vida... Agora, por amor à filha, era compelido a topar, com espí­rito de caridade, a irreflexão e o descaramento, mas sentia-se inapto, desambientado, e via-se na condição do aluno de­bilitado pela expecta­tiva de erros constantes. (Capítulo I, pp. 17 e 18)
6. No lar de Beatriz - Em casa da filha de Pedro Neves, André pôde ver que a doença consumia a forma física de Beatriz, desde muito, porque, aos quarenta e sete anos de idade, ela mostrava o rosto singu­larmente engelhado e o corpo leve. A enferma denotava enorme cansaço e era fácil de lhe ver a preocupação, ante a crise iminente. Beatriz mostrava em seu pensamento a convicção de que a desencarnação estava próxima. Embora tranqüila, inquietava-se pelos vínculos que a prendiam no mundo, o que não a impedia de visualizar as portas do Além, plas­mando formosos quadros íntimos e recordando o pai que perdera na in­fância, qual se visse prestes a recuperá-lo em definitivo, tal a extensão do amor que os unia um ao outro. Ao lado de seu leito, sisudo enfermeiro desencarnado vigiava, atento. Era Amaro, a quem Pedro Neves apresentou André. A enferma estava recebendo também o auxílio do irmão Félix, que dirigia importante casa socorrista, ligada ao Ministério da Regeneração, em "Nosso Lar". Félix, famoso pela bondade e paciência, era conhecido como sendo um apóstolo da abnegação e do bom-senso. Bea­triz experimentava, naquele momento, dores agudas e o companheiro mos­trou o propósito de aliviá-la, através do passe confortativo. De olhos cerrados, a doente - que revelava profunda sensibilidade mediúnica -, embora não assinalasse a presença do pai, lembrava a ternura do ge­nitor, que lhe parecia distante e inacessível no tempo... Na acústica da memória, ouvia as canções do lar, voltava, encantada, às horas da meninice e sentia-se no regaço paternal, à maneira de uma ave de re­gresso ao ninho... Beatriz chorava e, sem que a boca enunciasse o me­nor movimento, clamava intimamente com toda a alma: "Pai, meu pai!..." (Capítulo II, pp. 19 e 20)
7. A enfermeira improvisada - Neves cambaleou, agoniado... André enlaçou-o, pedindo-lhe coragem. A ventania da angústia, porém, sobre o ânimo do companheiro atribulado, perdurou alguns momentos. Refeito, a recompor o semblante que o sofrimento transfigurara, espalmou a destra na fronte da filha e orou, suplicando o amparo da Bondade Divina. Chispas de luz, quais minúsculas flamas azulíneas, evolavam-lhe do tó­rax, a se projetarem naquele corpo fatigado, revestindo-o de energias calmantes. Beatriz acomodou-se a suave torpor. Uma jovem de aproxima­damente vinte anos de idade penetrou, então, cautelosamente, no quarto e tomou o pulso da enferma, verificando-lhe as condições. Em seguida, aplicou-lhe injeção anestesiante. A enferma não mostrou a mínima reação, continuando a descansar, sem dormir; o concurso magnético de mi­nutos antes insensibilizara-lhe os centros nervosos. A enfermeira im­provisada acomodou-se em uma poltrona, abriu parte da janela do quarto e acendeu um cigarro, passando a fumar distraidamente, dando a idéia de alguém que diligenciava fugir de si mesma. Pedro Neves fitou-a e informou: "Trata de Marina, contadora de meu genro, que se dedica ao comércio de imóveis... Agora, a pedido dele, desempenha funções de as­sistente..." Evidente sarcasmo transparecia-lhe da palavra reticen­ciosa. "Imagine! -- voltou a dizer -- fumar aqui, numa câmara de dor, onde a morte está sendo esperada!..." Os olhos de Marina denotavam re­côndita inquietude. André aproximou-se, então, reverentemente, da jo­vem, no propósito de sondá-la em silêncio e colher-lhe as vibrações mais íntimas, mas recuou assustado. Estranhas formas-pensamentos, re­tratando-lhe os hábitos e anseios, em contradição com os propósitos de socorrer a doente, mostraram a André que Marina ali se achava a con­tragosto. Sua mente vagueava longe... Quadros vivos de esfuziante agitação ressumavam-lhe na cabeça... De olhar parado, escutava, dentro de si mesma, a música brejeira da noite festiva que atravessara na vés­pera... (Capítulo II, pp. 21 e 22)
8. O caso Marina - Marina experimentava ainda na garganta a impressão do gim que sorvera, abundante, na véspera. Apesar de surgir aos olhos dos homens como uma menina crescida, sob o turbilhão de né­voa fumarenta exibia telas mentais complexas, a lhe relampaguearem na aura imprecisa. Com o objetivo de compreender o que se passava, André deu início a ampla anamnese psicológica. Marina apresentou, a princí­pio, a figura de um homem amadurecido, cunhada por sua própria imaginação, a repetir-se-lhe, muitas vezes, acima da fronte. Ela e ele, juntos... Era fácil perceber, de pronto, a intimidade, o romance... Fisicamente, semelhavam pai e filha; entretanto, pelas atitudes senti­mentais, não conseguiam disfarçar a estuante paixão um pelo outro. Nos painéis sutis que surgiam e se desfaziam, alternadamente, mostravam-se ambos extasiados, ébrios de prazer, estivessem aboletados no automóvel de luxo ou enlaçados na areia morna das praias... Deslumbrantes paisa­gens de Copacabana ao Leblon desfilavam por admirável fundo pictórico. A jovem procurava registar com mais interesse as reminiscências que lhe empolgavam os sentidos, para, logo depois, mentalizar, surpreen­dentemente, outro homem, tão jovem quanto ela mesma, evidenciando-se na tela mental entregue às cenas de um filme interior, diferente... Formava novo tipo de palco para exibir a lembrança das próprias aven­turas, no qual se destacava igualmente ao pé do rapaz, como se esti­vesse afeiçoada aos mesmos sítios, desfrutando companhias diversas... Ela e ele também juntos, no mesmo carro entrevisto ou na condição de pedestres felizes, saboreando refrescos ou repousando em animados en­tendimentos nos jardins públicos, sugerindo o encontro de crianças enamoradas, a entretecerem aspirações e sonhos... Via-se com clareza que Marina revelava a personalidade dúplice da mulher dividida entre dois homens, jugulada por pensamentos de medo e inquietude, ansiedade e arrependimento. Pedro Neves, que também partilhara a inspeção, disse, abatido: "Está vendo? Julga que é fácil para mim, pai da do­ente, suportar aqui semelhante criatura?" (Capítulo II, pp. 23 e 24)
9. O esposo infiel - Passando ambos a pequeno salão de leitura, contíguo ao aposento de Beatriz, Pedro Neves cravou os olhos úmidos nos olhos de André e ponderou: "Após a desencarnação, achamo-nos na segunda fase da própria existência e ninguém, na Terra, imagina as no­vas condições que nos tomam de assalto... De começo, renovamos a vida... Equipes salvadoras, apoio na prece, estudo das vibrações, es­cola da caridade. Ensaiamos, felizes, o culto dos grandes sentimentos humanos... Depois, quando trazidos, de retorno, ao trabalho mais ín­timo, na arena doméstica, que supúnhamos varrida para sempre da memó­ria, como na situação especial de meu caso, a didática é outra... E' preciso espremer o sangue do coração para confirmar o que ensinamos com a cabeça... Avalie que me encontro nesta casa, em serviço, apenas há vinte dias e já recebi tantas punhaladas na alma, que, não fossem as necessidades de minha filha, teria fugido, incontinenti... Sem mi­nhas observações pessoais, não teria admitido tanta leviandade em meu genro... Bilontra, fanfarrão, despudorado..." André tentou cortar o assunto, comentando a excelência do esquecimento de todo mal e argu­mentando quanto ao merecimento do auxílio silencioso, através da prece. Neves sorriu, meio desconsolado, e ajuntou: "Compreendo que você se reporta à vantagem do pensamento positivo na fixação do bem e creia que, de minha parte, farei quanto puder para não esquecê-lo. Agora, porém, tolere, por favor, as minhas considerações talvez desca­bidas..." "Saiba você -- prosseguiu Neves -- que na quinta noite de minha permanência aqui, notando Beatriz em aguda crise de sofrimento, diligenciei buscar meu genro para assisti-la em pessoa... E sabe onde o encontrei? Nada de escritório, segundo a falsa informação que dei­xara em casa. Indignado, fui surpreendê-lo numa furna penumbrosa, em plena madrugada, junto da menina que você acaba de conhecer. Os dois unidos, qual marido e mulher. Champanha correndo e música lasciva. En­tidades perturbadoras e perturbadas, jungidas ao corpo dos bailarinos, enquanto outras iam e vinham, a se inclinarem sobre taças, cujo con­teúdo lábios entediados não haviam conseguido sorver totalmente. Em recanto multicolorido, onde algumas jovens exibiam formas seminuas em coleios esquisitos, vampiros articulavam trejeitos, completando, em sentido menos digno, os quadros que o mau-gosto humano pretendia apre­sentar, em nome da arte. Tudo rasteiro, impróprio, inconveniente... Fisguei meu genro e a colaboradora, nos braços um do outro, recordei minha filha doente e revoltei-me. Súbito desespero apossou-se de mim. Oscilou minha razão escurecida, pois cheguei a justificar, de relance, a deplorável atitude dos companheiros desencarnados que se transformam em vingadores intransigentes. O homem velho que eu fora e o homem re­novado que aspiro a ser digladiavam em minhas fibras recônditas..." (Capítulo III, pp. 25 e 26)
10. Neves fracassa no teste - Pedro Neves estacou numa pausa, re­articulando os pensamentos, e continuou: "Tinha visto, apavorado, em outro tempo, aqueles que se animalizavam, depois da morte, nos lares que lhes haviam sido reduto à felicidade, a se precipitarem, violen­tos, sobre os entes amados que lhes desertavam da afeição... Funcio­nara, entusiasmado, em diversas comissões socorristas, procurando es­clarecê-los e modificá-los para o bem, e fazer-lhes sentir que as lu­tas morais, depois da desencarnação, se erigiriam igualmente em penosa herança para todos aqueles com os quais se desarmonizavam; advertia-os de que o túmulo esperava também quantos, na Terra, lhes sonegavam le­aldade e ternura... E, bastas vezes, lograva acalmá-los para a reti­rada benéfica. Mas ali... Imprudentemente agastado contra a insensibi­lidade do homem que me desposara a filha querida, vi-me chamado a pra­ticar os bons conselhos que havia administrado..." Neves confessou, então, que n ão pôde controlar-se, pois, tomado de cólera, avançou qual fera desacorrentada e esmurrou a face do genro, que caiu nos ombros da amante, acusando agoniada indisposição... Uma entidade desencarnada, de semblante nobre e calmo, aproximou-se então, desarmando-lhe o ín­timo. Não entremostrava sinais exteriores de elevação, diferenciando-se apenas por minúsculo distintivo luminoso, que lhe brilhava palida­mente no peito, qual jóia rara a emitir discreta radiação. Falando-lhe com bondade, demonstrou conhecer Beatriz e o convidou a acompanhá-la ao quarto da enferma. "A mensageira anônima -- contou Neves -- recolo­cou-me no lar, despedindo-se, delicada; e depois disso não mais a vi..." André, ante tais revelações, recordou, emocionado, as primeiras impressões que lhe haviam transtornado a alma, após a desencarnação. Sentiu-se, assim, mais estreitamente ligado a Neves, e comentou que seus problemas, atravessada a grande barreira, foram também enormes... A conversa, contudo, não pôde prosseguir, porque naquele momento um cavalheiro maduro e simpático penetrou o recinto. Era Nemésio, o genro de Pedro Neves. (Capítulo III, pp. 26 a 28)

11. Nemésio conforta a esposa - Nemésio dirigiu-se ao quarto de Beatriz, onde Marina o recebeu com amável sorriso, conduzindo-o à ca­beceira da esposa, que passou a fitá-lo entre confortada e abatida. Beatriz estendeu-lhe a mão descarnada, que o marido beijou. Trocando com ela enternecido olhar, acomodou-se Nemésio rente aos travesseiros, a endereçar-lhe perguntas carinhosas, ao mesmo tempo que lhe alisava a descuidada cabeleira. A enferma disse algumas palavras breves e ajun­tou: "Nemésio, você me perdoará se volto ao caso de Olímpia... A pobre criatura perdeu a casa quase que totalmente... E' necessário que você lhe garanta abrigo seguro... Penso nela com os filhos ao desamparo. Tire-me dessa aflição..." O marido, mostrando profunda emotividade, respondeu, cortês: "Beatriz, não há dúvida alguma. Já enviei um amigo, construtor experiente, ao local. Não se preocupe, tudo faremos sem qualquer sacrifício. Questão de tempo..." Como a enferma falava em partir, Nemésio retrucou: "Não me fale em pessimismo... Ora, ora... Onde a primavera de nossa casa? Você anda esquecida de que nos ensinou a colocar alegria em tudo?! Largue os ares sombrios... Ainda ontem, ouvi nosso médico. Você entrará em convalescença, já, já... Amanhã, tomarei providências definitivas para que o barraco seja levantado. Você estará restabelecida em breve e ambos iremos ao primeiro café em casa de nossa Olímpia..." Em face do carinho do esposo, Beatriz pare­ceu reanimar-se e sorriu, derramando duas lágrimas de felicidade que o esposo enxugou com gracioso gesto. Experimentando-se mentalmente reno­vada, a enferma acreditou no reerguimento do corpo físico e ansiou vi­ver, viver por muito tempo ainda no aconchego familiar. Em seguida, solicitou de Marina uma chávena de leite, que a enfermeira lhe serviu, comovida. Enquanto a doente sorvia o líquido, gole a gole, André re­fletia na bondade daquele homem que a palavra de Neves apresentara noutras cores. O pensamento de Nemésio revelara-se, até ali, claro e puro. Trazia Beatriz no cérebro, nos olhos, nos ouvidos, no coração e lhe dispensava a compreensão de um amigo e a ternura de um pai. Alguns momentos se passaram e, quando a enferma devolveu a xícara, outro qua­dro se desdobrou no recinto. Por trás da cabeceira, Nemésio estendeu a mão à Marina, passando então a falar brandas palavras para a esposa, enquanto afagava, simultaneamente, os róseos dedos da jovem... André contemplou Nemésio, admirado, e viu que seus pensamentos, agora, se alteravam, tornando-se incompatíveis com a sensação de respeitabili­dade que ele antes lhe inspirara. (Capítulo III, pp. 29 a 31)


12. Os planos de Nemésio - Retirando-se para o aposento próximo, Neves estava desapontado. Arrojara-se o companheiro ao clima da digni­dade ofendida, como se a família encarnada ainda lhe pertencesse. Ex­probrava a conduta do genro; exalçava os merecimentos da filha; aludia ao passado, quando ele mesmo vencera lances difíceis na luta sentimen­tal... André o ouvia condoído e, procurando confortá-lo, lhe disse: "Não se aflija. Desde muito aprendi que para as pessoas desencarnadas, quase sempre, as portas do lar se fecham no mundo, quando a morte lhes cerra os olhos..." Nesse momento, Nemésio e Marina penetraram a câ­mara, fugindo à presença da enferma, a evidenciar no semblante a expressão dos namorados felizes, quando alimentam o clássico "enfim sós", trancando-se contentes. André quis sair, mas Neves pediu-lhe que ficasse: "Fique, fique... Não louvo a indiscrição; no entanto, estou, ao lado de minha filha, em sentido direto, simplesmente há alguns dias e devo saber o que ocorre, para ser útil..." No quarto, Nemésio enla­çou a enfermeira, a quem acariciava, prometendo-lhe unir-se a ela logo que Beatriz partisse... Pedia apenas que ambos fossem bons para a en­ferma, às portas do fim, e agradecessem ao Destino que os livrava dos aborrecimentos e percalços de um desquite... Beatriz, segundo o mé­dico, não viveria mais que algumas semanas e ele não desejava que ela partisse, nutrindo por eles quaisquer ressentimentos. Marina retribuía os gestos de carinho, mas apresentava o fenômeno singular da emoção jungida a ele e o pensamento voltado ao outro, empenhando-se, por to­dos os meios, a encontrar nesse outro o incentivo necessário a essa mesma emoção. Nemésio confessou-lhe devoção inexcedível e prometeu abandonar, de futuro, os negócios, para viverem ambos, felizes, na casa de São Conrado, que transformaria em bangalô confortável, entre o verde do mar e o verde da terra. (Capítulo IV, pp. 32 e 33)
13. Os conflitos de Marina - A conversa entre Marina e Nemésio se processou num jogo de manifestações carinhosas em que a sinceridade prevalecia num lado e o cálculo no outro. André percebeu, contudo, es­tranha ocorrência. Os dois amantes comunicavam-se, entre si, as mais ternas expansões de encantamento recíproco, sem ser dissoluto, e pare­ciam aderir, automaticamente, às impressões que Neves e ele esboçavam, visto que ambos acompanhavam os mínimos gestos do casal, prejulgando-lhe os desígnios com o fundo de suas próprias experiências inferiores, já superadas. A expectativa maliciosa dos dois amigos desencarnados, aliada ao espírito de censura, estabelecia correntes mentais estimu­lantes da turvação psíquica de que ambos se viam acometidos, correntes essas que, partindo dos Espíritos na direção deles, como que lhes agravavam o apetite sensual. De repente, porém, a jovem prorrompeu em pranto copioso. Nemésio beijou-lhe a face, desejando aliviar-lhe a tensão convulsiva, mas Marina se fixava, cada vez mais, no rapaz cuja figura se lhe engastava à imaginação. Identificando a fase perigosa da partida infeliz a que se lançara, Marina aturdia-se, ali, confundida entre aflições e remorsos a lhe arpoarem o coração. As telas mentais da moça contavam-lhe a história. Ela se fizera querida de Nemésio, sem dedicar-lhe outros sentimentos que não fossem reconhecimento e admiração... Agora, porém, que os acontecimentos lhe impeliam a alma na direção de laços mais profundos, tremia pelas indébitas concessões que lhe havia feito, porque sentia que amava até à loucura o rapaz fran­zino que se lhe destacava do pensamento, através de cativantes apelos da memória. Nemésio consolava-a, formulando frases de paternal solici­tude, e ela dissimulava, atribuindo o pranto a problemas domésticos. Reportou-se, assim, para tentar esquivar-se de si mesma, a supostas agruras do lar. Salientou exigências maternais. Referiu-se a dificul­dades financeiras. Alegou fantásticas humilhações que colhia no trato da irmã adotiva. Mencionou, por fim, incompreensões do pai, em rixas constantes nos círculos da família... (Capítulo IV, pp. 34 e 35)
14. O benfeitor Félix - Nemésio reconfortou a jovem, recomen­dando-lhe que não se amofinasse, porque não estaria a sós, e tivesse paciência, porquanto o desenlace de Beatriz, indicado para breves dias, ser-lhes-ia o marco fundamental da ventura definitiva. Como a moça não parasse de soluçar, ele arrancou da pasta um talão de che­ques, colocando-lhe expressivo concurso amoedado nas mãos. Marina pa­receu mais comovida, exibindo no rosto a apreensão de quem se recrimi­nava sem qualquer jus­tificativa, ao passo que ele a enlaçava, afe­tuoso. Pedro Neves, não obstante desencarnado, parecia agora um homem vulgar da Terra, que a revolta azedara. Sobrecenho crispado alterava-lhe a feição no desequi­líbrio vibratório que precede as grandes crises de violência e André receava que o companheiro fosse partir para a agressão, quando vene­rando amigo espiritual penetrou a câmara. Arreba­tadora expressão de simpatia marcava-lhe a presença. Radioso halo cir­cundava-lhe a cabeça; no entanto, não era a luz suave a se lhe extra­vasar docemente da aura de sabedoria que impressionava e sim a subs­tância invisível de amor que lhe emanava da individualidade sublime. Fluidos calmantes banharam André por inteiro, qual se ele fosse visi­tado no âmago do ser por inexplicáveis radiações de envolvente ale­gria. André ergueu-se e foi então que Neves, já desanuviado e quase sorrindo, propôs: "André, abrace o irmão Félix..." A amorável Entidade adiantou-se e abraçou An­dré, dizendo-lhe, benevolente: "Grande con­tentamento o de vê-lo. Deus o abençoe, meu amigo..." A comoção imobi­lizava o autor de "Nosso Lar", que, sem poder exprimir em palavras o que sentia, osculou a des­tra do Benfeitor com a simplicidade de uma criança, rogando-lhe, men­talmente, receber as lágrimas que lhe caíam da alma, por mudo agrade­cimento. (Capítulo IV, pp. 36 e 37)
15. A presença de Félix muda o rumo do caso - Com a presença do irmão Félix no recinto, algo inusitado ocorreu. Nemésio e Marina transferiram-se, de repente, a novo campo de espírito. Confirmava-se assim a impressão de que a curiosidade enfermiça e a revolta que domi­nava Neves haviam funcionado, até ali, por estímulos ao magnetismo animal a que se ajustavam os dois enamorados, que nem de leve descon­fiavam da minuciosa observação a que se viam sujeitos, porquanto bas­tou que Félix lhes dirigisse compassivo olhar para que se modificas­sem, incontinenti. A visão de Beatriz enferma cortou-lhes o espaço mental, como um raio. Esmoreceram-se-lhes os estos de paixão. Asseme­lhavam-se ambos a duas crianças, atraídas uma para a outra, cujo pen­samento se transfigura, de improviso, ante a presença materna. André, que não sabia o que ia no mundo íntimo de Neves, começou a pensar: "E se eu estivesse no lugar de Nemésio? Estaria agindo melhor?" Tais indagações e a presença do benfeitor impeliram-no a raciocinar em nível mais alto. Nemésio parecia-lhe, agora, um irmão que lhe cabia entender e respeitar. Marina revelou também benéfica reação, como se estivesse conduzida em ocorrência mediúnica, de antemão preparada. Recompondo-se do ponto de vista emotivo, falou a Nemésio, com delicadeza, da neces­sidade de voltar aos cuidados que a enferma exigia, e ele, refletindo sua renovada posição interior, não ofereceu qualquer embargo, acomo­dando-se em poltrona próxima, enquanto a jovem se retirava, tranqüila. Foi então que Félix, apontando o esposo de Beatriz, convidou: "Meus amigos, nosso Nemésio está seriamente enfermo, sem que ainda o saiba. Ignoro se já lhe notaram a deficiência orgânica... Procuremos socorrê-lo". (Capítulo IV, pp. 38 e 39)
16. A doença de Nemésio - Ao contacto das mãos do benfeitor, que mobilizava, proficiente, a energia magnética, Nemésio expunha as defi­ciências do campo circulatório. O coração, consideravelmente aumen­tado, denotava falhas ameaçadoras com endurecimento das artérias, mas o que mais assustava era a arteriosclerose cerebral, cujo desenvolvi­mento era possível positivar, manejando-se diminutos aparelhos de auscultação. Félix apontou determinada região, em que a circulação do sangue era reduzida, e informou: "Nosso amigo permanece sob o perigo de coágulos bloqueadores e, além disso, é de temer-se a ruptura de al­gum vaso em qualquer acidente mais importante da hipertensão". Curio­samente, como se registrasse os apontamentos das entidades, o genro de Neves respondia, instintivamente, ao inquérito afetuoso a que era sub­metida a memória, elucidando todas as dúvidas, através de reações men­tais específicas. Rememorou, assim, as tonturas ligeiras que vinha ex­perimentando amiúde. Vasculhava a lembrança, atendendo às perguntas do benfeitor. Alinhava acontecimentos passados, fixava pormenores. Re­constituiu, quanto possível, as fases do desconforto a que se vira atirado, subitamente, com a perda dos sentidos que sofrera, no escri­tório, dias antes. Apreensivo com o fato, expusera a ocorrência a velho amigo, na antevéspera. A tela rearticulada por ele, na imaginação, salientava-se tão nítida que era possível a André vê-los juntos, como se tivessem sido filmados. O marido de Beatriz, inconsciente­mente, configurava informes precisos acerca do desmaio, das inquietações sentidas e da entrevista com o colega. As providências não po­diam ser adiadas. Devia procurar um médico. Era notória sua fadiga, e umas férias numa clínica de repouso não lhe fariam mal. Qualquer sín­cope, disse-lhe o amigo, eqüivalia a puxão de campainha, no aparta­mento da vida, sério vaticínio, enfermidade à porta. (Capítulo V, pp. 40 e 41)
17. A intimidade de Nemésio - Na tela mental de Nemésio podia-se ler também a resposta que dera ao amigo. A consulta ao médico era di­fícil, pois a esposa requeria cuidados. Assim, o tratamento ficaria para mais tarde. Em verdade, ele receava conhecer o próprio estado or­gânico, porque estava amando novamente e, crendo-se de regresso às primaveras do corpo físico, identificava-se espiritualmente jovem. Alinhavando recordações e meditações, o genro de Neves exibia a trama dos acontecimentos que lhe sedimentavam as noções precárias da vida, possibilitando a André retratar-lhe a realidade psicológica. Beatriz, a esposa prestes a desencarnar, erigia-se, agora, em seu ânimo, em forma de relíquia que situaria, reverentemente, no museu das lembran­ças mais caras. Era ela como a genitora que a morte já havia levado. Disputava-lhe, por instinto, o sorriso benevolente e a bênção da aprovação, mas, de formação materialista e índole utilitária, embora fosse uma pessoa generosa, desconhecia ele que as almas nobres colhem no amor esponsalício da Terra o fruto da alegria sublime, cuja polpa o tempo sazona e torna mais doce, eliminando os caprichos transitoria­mente necessários da casca. Insistia, assim, na conservação de todos os impulsos emotivos da juventude corpórea e andava em dia com todas as teorias da libido. Vez por outra, demandava cidades próximas, em noitadas boêmias, asseverando aos amigos que assim procedia para de­senferrujar o coração. De retorno dessas escapadas, trazia à esposa corbelhas de alto preço que Beatriz acolhia, enlevada. No decurso de algumas semanas, mostrava-se para ela mais compreensivo e mais terno. Reconduzido, porém, mais dilatadamente, aos freios do hábito, não sa­bia consagrar-se às construções espirituais, e varava, de novo, as fronteiras que os compromissos morais estabeleciam, à maneira de ani­mal arrombando cerca. Se Beatriz pusesse, ainda que de leve, o voto feminino em outro homem, era capaz de matá-la... E' que, embora não tivesse interesse pela mulher, não toleraria concorrência à posse da­quela a quem confiara o seu nome. (Capítulo V, pp. 42 e 43)
2a R E U N I Ã O

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