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CENTRO DE ENSINO SUPERIOR DO AMAPÁ


DESIGN - 2º SEMESTRE/2010

Professor: Rosângela Alves N. de Oliveira

Aluno(a): DATA:

DISCIPLINA : ESTÉTICA

ASSUNTO: BREVE HISTÓRIA DA ESTÉTICA.

A História da estética é uma disciplina das ciências sociais que estuda a evolução das ideias estéticas ao longo do tempo. A estética é um ramo da filosofia que se encarrega de estudar a maneira como o razonamiento do ser humano interpreta os estímulos sensoriales que recebe do mundo circundante. Poder-se-ia dizer, bem como a lógica estuda o conhecimento racional, que a estética é a ciência que estuda o conhecimento sensível, o que adquirimos através dos sentidos.[1] Entre os diversos objectos de estudo da estética figuram a beleza ou os julgamentos de gosto, bem como as diferentes maneiras de interpretá-los por parte do ser humano. Por tanto, a estética está intimamente unida à arte e ao estudo da história da arte, analisando os diversos estilos e períodos artísticos conforme aos diversos componentes estéticos que neles se encontram. Com freqüência costuma-se denominar a estética como uma “filosofia da arte”.[2]

O termo estética prove do grego αἴσθησις (aísthêsis), “sensação”. Foi introduzido pelo filósofo alemão Alexander Gottlieb Baumgarten em sua obra Reflexiones filosóficas a respeito da poesia (1735), e mais tarde em sua Aesthetica (1750).[3] Por conseguinte, a História da estética, rigorosamente falando, começaria com Baumgarten no século XVIII, sobretudo com a sistematización desta disciplina realizada por Immanuel Kant. No entanto, o conceito é extrapolable aos estudos sobre o tema efectuados pelos filósofos anteriores, especialmente desde a Grécia clássica. Cabe assinalar, por exemplo, que os antigos gregos tinham um vocablo equiparable ao actual conceito de estética, que era Φιλοκαλία (filocalía), “amor à beleza”. Poder-se-ia dizer que na Grécia nasceu a estética como conceito, enquanto com Baumgarten se converte em uma ciência filosófica.



A estética é uma reflexão filosófica que se faz sobre objectos artísticos e naturais, e que produz um “julgamento estético”. A percepción sensorial, uma vez analisada pela inteligência humana, produz ideias, que são abstracções da mente, e que podem ser objectivas ou subjetivas. As ideias provocam julgamentos, ao relacionar elementos sensoriales; a sua vez, a relação de julgamentos é razonamiento. O objectivo da estética é analisar os razonamientos produzidos por ditas relações de julgamentos. As ideias evoluem com o tempo, adaptando às correntes culturais da cada época. Dita evolução será por tanto o objecto de estudo da História da estética.

Antiguidade clássica



O Diadumeno, de Policleto.

Grécia


Para os gregos preclásicos –como se pode perceber na obra de Homero–, a beleza era tanto a natural como a de um objecto feito pelo homem, conquanto não tinha uma definição clara e se associava geralmente com outras qualidades: o belo (τò καλόν) é o que gosta, o que resulta grato à mirada do espectador.[4] O pensamento preclásico era mitológico, interpretavam o mundo através de mitos, fábulas. O μύθος (mýthos) permitiu o aparecimento de outro tipo de pensamento, o λόγος (lógos), mais lógico e reflexivo, interpretando o mundo em base a conceitos físicos, e dando lugar à filosofia. Hesíodo representa o passo entre este pensamento mítico e o lógico, explicando a origem dos conceitos mitológicos de maneira racional. O primeiro em propor-se o mundo de forma racional foi Tais de Mileto, que começa a fixar na natureza]], deduzindo suas leis. Posteriormente, Pitágoras começa a interpretar a natureza em base a relações matemáticas: em seu estudo da música dá-se conta de que depende de proporções matemáticas, em base à longitude das sensatas tensadas nos instrumentos musicais; partindo de aqui cria uma teoria terapêutica da música, a qual é capaz de restaurar a harmonia da alma do ser humano.[5]

Durante era-a de Pericles, no chamado período clássico grego, a arte goza de um grande esplendor, gerando um estilo realista de interpretar a realidade: os artistas baseiam-se na natureza em base a umas proporções e umas regras (κανών, canon) que permitam a captación desta realidade por parte do espectador, recorrendo se é necessário ao escorzo. Persegue-se um conceito de beleza baseado na realidade natural mas idealizado com a incorporação de uma visão subjetiva que reflete a harmonia de corpo e alma, equiparando beleza com bondade (καλοκαγαθία, kalokagathía).



Um dos primeiros filósofos em se ocupar de temas relacionados com a estética –sobretudo a arte e a poesia– foi Demócrito, quem baixo uma atitude empírica estudou a arte de forma mais descritiva que conceptual, o considerando reflito da obra natural do homem, baseado na natureza e com um objectivo tendiente ao prazer. Mais tarde, os sofistas –como Protágoras e Gorgias– consideram a beleza como “o que produz prazer por médio do ouvido e da vista”, relativizando o conceito de beleza como algo diferente para a cada indivíduo. Sócrates opina que a arte é a idealización da natureza, e que quando representa ao ser humano não o faz tão só em corpo senão também na alma, estabelecendo pela primeira vez o conceito de beleza espiritual, contrariamente ao de beleza física que tinha defendido até então a filosofia grega.

Platão foi o primeiro que tratou sobre conceitos estéticos como centro de muitas de suas reflexões, sobretudo em temas relativos à beleza: em Hipias maior fala da beleza dos corpos; em Fedro, da beleza das almas; em O banquete, da beleza em general. Percebemos pois uma clara evolução: da busca de uma noção geral de beleza do Hipias, utilizando o sistema socrático de comparação, deduze no Fedro que a beleza está para além da realidade que nos envolve; por último, em O banquete, identifica a busca da beleza com a própria vida humana, sendo o amor a forma de acesso. Assim mesmo, no Protágoras, fala da arte, que é a capacidade de fazer coisas por médio da inteligência, através de uma aprendizagem. Para Platão, a arte (τέχνη, téchne) tem um sentido geral, é a capacidade criadora do ser humano


Aristóteles

Bem como Platão era um metafísico, Aristóteles centra-se mais no terreno da física, aplicando a lógica ao estudo da natureza e do ser humano. A natureza tem um “germen” que dá pé à forma e o movimento, que são as bases da natureza. Na arte (cultura) o germen é o artista (o homem); assim, distingue natureza”, de origem orgânico, de cultura”, de origem psicológico. Cria um “sistema causal”, procurando uma causa material na origem de todo o acontecimento; após a material vem uma causa eficiente ou motriz e, por último, uma causa formal. Aristóteles distingue

três classes de pensamento:

*conhecimento (θεωρία, theôría),

*acção (πρᾱξις, prâxis) e,

* realização (ποίησις, poíêsis).

Em sua Poética propõe uma estética física, contraposta à estética metafísica de Platão. Para Aristóteles, a beleza consiste em magnitude (μέγεθος) e ordem (πάξις), questões puramente físicas, e encontra-se nas proporções perfeitas, na justa medida, na simetría (συμμετρία). Em seu estudo da tragédia –lamentavelmente, a parte da comédia perdeu-se–, define esta em base à “mímesis” (μίμησις), como imitação de uma acção honrada e acabada, que implica certa magnitude, feita em uma linguagem refinada, realizada por personagens que actuam e que opera uma purificación das emoções ou “catarsis” (κάθαρσις).A função da arte imitativo é a de acabar e perfeccionar os produtos da natureza; a arte humaniza a natureza, magnificando a realidade. Por conseguinte, a tragédia é um processo estético: da “mímesis”, a imitação da realidade, à “poíêsis”, a produção criativa. É uma operação moralizadora, de humanização da realidade. A tragédia separa a realidade da ficção, mas também reconduce a ficção à realidade, por médio da “catarsis”; o primeiro caminho é estético, enquanto o segundo é ético.

O conceito de beleza de Aristóteles desenvolve-se mais amplamente na Retórica: é belo o que, por um lado, nos agrada e, por outro, o que é valioso por si mesmo. Isto é, a beleza tem de proporcionar prazer, e tem de ter um valor intrínseco independentemente de sua finalidade. Para Aristóteles, a beleza é boa, ainda que não todo o bom é belo; por outro lado, a beleza é agradável, ainda que não todo o prazer é belo. A sua vez, a beleza tem de ser boa e agradável a um mesmo tempo.



Da arte procedem as coisas cuja forma está na alma.


Escolas helenísticas


O período helenístico supõe uma verdadeira decadência cultural. A filosofia deixa de estudar o mundo para centrar no homem, passando de uma filosofia metafísica a uma de conteúdo netamente moral. Com freqüência a filosofia encaminha-se nesta época a elaborar formas de vida, atitudes existenciais geralmente unidas a movimentos religiosos, criando correntes sincréticas em que se sintetiza a religião com a vida do homem. Na arte, introduz-se um sentido de vida, de movimento, um sentimento trágico (πάθος , páthos), que produz obras dinâmicas, que através da exageração das formas deixam traduzir fortes emoções. Surge assim mesmo o conceito de graça”, de delicadeza das formas.

Estoicismo: esta doutrina centra-se nos problemas do homem, defendendo como melhor solução ante a vida a busca do equilíbrio interior, que se consegue através da “autarquia”, a autosuficiencia. O bem mais precioso para o homem é a felicidade, que encontram no exercício da virtude, na figura do homem moderado, que domina suas paixões. Os filósofos estoicos ocuparam-se essencialmente de questões relacionadas com a lógica e a semántica, mas também trataram a poesia, principalmente Zenón de Citio e Crisipo. Para os estoicos, a beleza é a relação entre um objecto e a natureza, isto é, a harmonia entre eles (“analogia estoica”). Relacionam a beleza com a moral, com viver a vida de forma correcta e decorosa, praticando a virtude. Assim, a poesia pode ser um veículo para a elevação espiritual, que pode implicar tanto um prazer racional como irracional, interpretando a poesia como uma alegoria da filosofia. Os estoicos viam a beleza como uma presença innata ao mundo, tanto em sua totalidade como em suas partes constitutivas, nos objectos e nos seres vivos. Sustentam que “a natureza é o maior artista”, bem como “a natureza ama a beleza”. Distinguem entre beleza absoluta, que vem da proporção (συμμετρία), e beleza relativa, definida em termos como conveniente ou adequado (πρέπον, em latín “decorum”). Assim mesmo, introduzem um novo conceito na psicologia da beleza: bem como até então distinguia-se entre ideias e sentidos, os estoicos propõem uma nova categoria baseada na imaginação, a “fantasía” .

Epicureísmo: formulado por Epicuro, esta doutrina equipasse o bem com o prazer, criando uma filosofia hedonista em que o homem deve procurar unicamente sua felicidade –conquanto Epicuro falava mais de prazeres espirituais que materiais–. Os filósofos epicúreos reflexionaram pouco a respeito de questões estéticas, sendo a principal contribuição a de Filodemo de Gadara: em Sobre a música sustenta que esta é incapaz de provocar emoções no ser humano, ou de produzir algum tipo de transformação na ordem moral; por outra parte, em Sobre os poemas, afirma que a bondade poética (τò ποιετικόν αγαθόν) é a unidade de forma e conteúdo, recusando qualquer conteúdo moral que a poesia pretenda ter.



Escepticismo: esta corrente centra-se na desconfiança pela verdade, que consideram inapreensivel para o homem. Assim, afirmam a imposibilidade do conhecimento, se abstendo de todo o julgamento se sobre a beleza e a arte há uma grande diversidade de julgamentos, é impossível saber qual deles é verdadeiro. Têm uma opinião negativa da arte, a música e a literatura, que para eles não contribuem nenhum benefício, podendo ser inclusive perjudicial, já que sua natureza ficticia pode confundir ao homem. Assim, a beleza não tem uma natureza objectiva e, ainda que pode proporcionar prazer, este é tão só uma sugestão sem valor prático. Um de seus principais representantes foi Sexto Empírico.



Neoplatonismo: criado por Plotino, esta filosofia afirma que a beleza é interior, pertence à alma: a arte é uma representação exterior do espírito, pelo que a beleza está no sujeito. Em Sobre a beleza, Plotino refuta a ideia aristotélica da beleza como simetría, segundo a qual a beleza se encontra no conjunto; sendo assim, as partes simples desse conjunto não seriam belas, pelo que várias partes não belas em si não poderiam fazer um todo belo. Seguindo o conceito do Hipias maior de Platão, afirma que a beleza está na vida, não nas formas, e se traduz por expressão, mirada, intensidade, algo que se esconde por trás das formas, e que identifica como a “alma” Com Plotino começa a “estética da luz” –que desenvolver-se-á durante o gótico–: a beleza prove de uma forma e a presença de uma luz incorpórea que alumia a escuridão da matéria (“metáfora solar”, o sol como metáfora da beleza ideal). Por isso o fogo é o único que tem beleza em si mesmo, porque não tem forma, é a “ideia” entre os elementos. Plotino assimila o mundo das ideias de Platão em um “Um” que é como um foco de luz, que emana na terra, produzindo a realidade segundo três estágios ou “hipóstasis”:

* intelecto,

*alma e

* corpo. A alma é o mediador entre o corpo e o intelecto, que é o que mais participa da beleza, ao se encontrar mais cerca da luz. Assim, a beleza não se encontra na forma, senão em seu “resplendor”: todas as coisas, todas as formas, têm luz, que é onde radica a beleza. O artista já não tem que imitar à natureza, já que a beleza se encontra no intelecto, em forma de ideia; trabalhando com matéria, tem que passar esta ideia à matéria. Assim, o artista já não trabalha racionalmente, senão por inspiração, ascendendo ao intelecto, que é onde se encontram as ideias.



Em verdade não há beleza mais autêntica que a sabedoria que encontramos e amamos em algum indivíduo, prescindiendo de que seu rosto possa ser feio e sem olhar para nada sua aparência, procuramos sua beleza interior.

Roma


A estética romana é herdeira da grega, conquanto não é muito desenvolvida pelos autores romanos, ao menos até a chegada do cristianismo. As principais contribuições vêm do terreno da literatura: Horacio trata em sua poesia temas como o elogio da vida tranquila (“beatus ille”) e o convite a gozar da vida (“carpe diem”). Em Arte Poética assinala as regras da poesia, que está submetida a um controle racional. Lucrecio é autor de Sobre a natureza das coisas (De rerum natura), onde reflete sua visão atea do mundo, influído pelo epicureísmo e o atomismo de Demócrito. Opina que a natureza está composta de átomos e de vazio, e que o alma é material e não sobrevive ao corpo. Tenta libertar ao homem do medo à morte e aos deuses, que segundo ele causam a infelicidade humana. Plutarco contribui uma concepção intelectualista do prazer estético: a arte é conhecimento. Em sua obra Vidas paralelas, série de biografias comparadas de personagens gregos e romanos, introduz a descrição psicológica do indivíduo, analisando suas virtudes e defeitos, bem como a influência do carácter sobre a vida do homem.

Cicero recebeu a influência estoica, desenvolvendo uma filosofia próxima ao eclecticismo. Defende a beleza em base a conceitos postulados anteriormente, como ordem (ordo) e proporção (convenientia partium), mas introduz a noção de aspecto “ (aspectus), conceito que faz que a beleza comova, atraia. Assim, distingue a aparência, a beleza sensorial (pulchrum), puramente estética, da beleza espiritual (decorum), presente aos caracteres, os costumes e as acções, de índole moral. Ademais, baseando-se em Platão, estabeleceu outros dois tipos de beleza: “dignidade” (dignitas) e “graça” (venustas), outorgando à primeira um carácter masculino e à segunda um feminino. Para Cicero, a arte é imitação da realidade, conquanto não chega a captar sua esencia: “a verdade vence à imitação” (vincit imitationem veritas). Por outra parte, considerava que a captación da arte prove tanto do artista como do espectador, possuindo o homem um sentido especial (sensus) da beleza e a arte. Cicero foi o primeiro em estudar a arte desde aspectos sociológicos e evolutivos.

Vitruvio escreveu o tratado sobre arquitectura mais antigo que se conserva, De Architectura. Sua descrição das formas arquitectónicas da antigüedade greco-latina influiu poderosamente no Renascimento, sendo ao mesmo tempo uma importante fonte documental pelas informações que contribui sobre a pintura e a escultura gregas e romanas. O famoso desenho de Leonardo dá Vinci sobre as proporções do homem –o Homem de Vitruvio– está baseado nas indicações dadas nesta obra. Segundo Vitruvio, o artista deve possuir três qualidades essenciais: capacidades innatas (natura), conhecimento (doutrina) e experiência (usus). Assim mesmo, a obra artística deve ter solidez (firmitas), utilidade (utilitas) e beleza (venustas). Entende a beleza como um conceito amplo que abarca tanto o goze visual proveniente da proporção e a cor, como o que proporciona a finalidade, a conveniencia e a utilidade. A beleza pode ser verdadeira e objectiva, tendo sua origem nas leis da natureza, que o homem interpreta na criação artística.

Galeno introduziu no século II uma classificação das artes que chegou até a era moderna, divididas em artes liberais” e “artes vulgares”, segundo se tinham uma origem intelectual ou manual. Entre as liberais encontravam-se: a gramática, a retórica e a dialéctica –que formavam o trivium–, e a aritmética, a geometría, a astronomia e a música –que formavam o quadrivium–; as vulgares incluíam a arquitectura, a escultura e a pintura, mas também outras atividades que hoje consideramos artesanato]].

Com Pseudo-Longino –em sua obra "Sobre o sublime"– aparece uma nova categoria estética, o sublime (ὕψος), que terá grande desenvolvimento durante o romantismo. Para Longino, uma obra de arte bela persuade, convence, dirige-se à razão, ainda que podemos discrepar; em mudança, uma obra sublime tem grandeza, não depende da forma, prescinde de opiniões, se dirige mais ao interior, a uma atitude psicológica. Assim, tanto faz de boa para todo mundo, não depende das variações temporárias do gosto. O sublime relaciona-se com a beleza porque ultrapassa seus limites: a beleza é contenção (magnitude e ordem aristotélicos), o sublime é incontinente; a beleza guarda as formas, o sublime perde-as; o belo convence e agrada, o sublime envolve e surpreende; a beleza está nos objectos à vista, no sublime o objecto desaparece. O sublime corresponde segundo Longino ao último estádio do amor platónico, em que não se vê a beleza, senão que se submerge nela, está em um “oceano de beleza”

Idade Média



A estética medieval é principalmente teológica: a beleza está ao serviço da revelação, serve para expressar as verdades cristãs. A arte medieval ver-se-á influenciado pela inmaterialidade de Plotino: a beleza está na expressão, não nas formas, é uma estética subjetiva. As figuras medievales perdem corporeidade, perde-se interesse pela realidade, as proporções, a perspectiva. Em mudança, acentua-se a expressão, sobretudo na mirada; as personagens simbolizam-se mais que se representam. A arte tem uma função social, prática, didáctica. O artista –ou mais bem artesão– não é criativo, realizando um labor que traduz conceitos colectivos e não individuais. É uma arte simbólica, onde todos seus componentes (espaço, cor, iconografía) têm um significado, geralmente religioso. Em uma tentativa de Alegoria|alegorização]] da realidade inspirado na tradição mítica grega e na interpretação rabínica judia, os teólogos cristãos –desde Filão de Alejandría e Origens até Ambrosio de Milão, Juan Casiano e Juan Escoto Erígena– desenvolveram um conceito simbólico da natureza, que terá grande relevancia no desenvolvimento posterior da estética em base à interpretação semiótica da realidade.

O primeiro cristianismo nutre-se da filosofia neoplatónica (Plotino, Porfirio, Jámblico, Proclo), onde o mundo das ideias de Platón ou o Um de Plotino se identificam com Deus. A filosofia –ou, mais propriamente, teología– cristã é pois sintética, assimilando toda a tradição greco-romana: no terreno estético, adptam a beleza espiritual de Platão, a beleza moral estoica, a concepção artística aristotélica, a retórica ciceroniana, a poesia horaciana e a arquitectura vitruviana.[35] Pode-se apreciar na obra de autores como Origens, Lactancio, Tertuliano e Pseudo-Dionisio: para Origens, a arte vem de Deus, que é o “supremo artista”: Deus é a beleza suprema, pelo que a busca de Deus é um caminho estético; Tertuliano afirma que a natureza é criação de Deus, e a cultura do diabo, pelo que a arte é uma expressão do mau; Lactancio tenta demonstrar que o feio é em realidade belo, em função de sua utilidade.



Para o Pseudo-Dionisio a beleza está nos “atributos metafísicos da trascendencia”, isto é, está fora do objecto. A obra de Dionisio é a cristalización do pensamento de Platón adaptado à época: a luz é o bem –seguindo o modelo hipostático de Plotino–, é a medida do ser e do tempo. A invisibilidad de Deus faz-se sensível para as coisas terrestres através da luz, sendo a luz inteligible –o bem– o princípio trascendente da unidade. Assim, a beleza é a participação com a unidade. A beleza essencial de Dionisio é a de Platón (O Banquete), a beleza absoluta que depende da razão. Assimila a beleza com Deus, pelo que no mundo só há uma beleza aparente, a beleza das coisas é reflito da beleza divina. Tomada de Plotino o conceito de uma beleza que é propriedade do absoluto, fundindo beleza e bondade em uma beleza “supraexistencial” (̉οπερούσιον καλός). Assim mesmo, tomada igualmente o conceito plotiniano de emanação para afirmar que a beleza terrestre emana da divina. Quanto à arte, para Dionisio seu único objectivo é acercar à beleza perfeita. A estética dionisiana exerceu uma enorme influência no conceito cristão de beleza, bem como na representação artística.

O belo trascendental chama-se beleza pela hermosura que propriamente comunica à cada ser como causa de toda a harmonia e esplendor, alumbrando neles porções de beleza à moda do raio brilhante que emana de sua fonte, a luz.



Pseudo-Dionisio, De divinis nominibus

San Basilio assumiu o conceito dualista grego da beleza: por uma parte, esta é a proporção do conjunto; por outro, seguindo a Plotino, é a propriedade das coisas simples, presente a qualidades como a luz e o brilho. Afirma que há duas classes de beleza, uma humana e outra divina, sendo a primeira superficial e subjetiva e a segunda primordial e objectiva. Introduz o conceito de “pankalía” (πανκαλία), segundo o qual o mundo é belo, já que ao ser criação de Deus reflete a beleza divina. Mesmo assim, não cabe o entender com que todo o visível seja belo e agrade por igual a todos os homens, senão que tudo é belo assim que cumpre uma finalidade.

Santo Agostínho diz que a beleza física é símbolo da beleza divina, e exalta a beleza moral sobre a sensível. Em frente à estética subjetiva de Plotino propõe uma beleza racional, material. Em Sobre a beleza e a conveniencia (De pulcro et apto), reflete uma estética sensualista de carácter estoico. Perdido este livro, em 384 escreve Confesiones, onde confessa que a leitura de Sobre a beleza de Plotino lhe fez se converter ao cristianismo. Agostínho sente-se continuamente atraído pelas formas das coisas que lhe rodeiam, vê no mundo uma beleza contínua nas formas, que é atraente e que, depois de sua conversão, terá uma função significativa. Faz uma teología estética, refletindo em todos seus livros seu conceito de beleza, dentro de uma estética semántica: a forma tem um significado, os objectos naturais convertem-se em signos para nossa percepción. Para Agustínho a beleza é unidade”, coerência das partes entre si, harmonia do conjunto. Talvez amamos algo fora do belo?.Santo Agostínho, Confesiones

Boecio expôs em De institutione musica uma teoria neopitagórica da música, onde reflete um conceito de beleza formal, baseada na proporção e o número. Este conceito o extrapoló à arte em geral, como harmonia do conjunto, baseado em singelas relações numéricas, sendo mais belo o objecto que apresente uma maior singeleza proporcional. Outorga assim um valor superficial à beleza, chegando a afirmar que a admiração pela beleza é debilidade dos sentidos. Dividiu as artes em “ars” e “artificium”, classificação similar à de artes liberais e vulgares, mas em uma acepción que quase excluía as formas manuais do campo da arte, dependendo este tão só da mente.

Casiodoro também defende o carácter matemático da beleza, afirmando que a beleza corporal vem da alma que lhe infunde vida (sui corpus vivicatrix). Quanto à arte destaca seu aspecto productivo, conforme a regras, assinalando três objectivos principais da arte: ensinar (doceat), comover (moveat) e comprazer (delectet).

Alcuino de York, ministro de ciências e artes de Carlomagno, distingue entre beleza formal (pulchra species) e beleza eterna (pulchritudo aeterna), sendo a primeira o amor pelas coisas agradáveis, tanto no aspecto visual como do resto de sentidos, e a segunda o reflito da beleza divina, que proporciona felicidade espiritual. Juan Escoto Erígena trata da atitude estética, que contrapõe à atitude prática, sendo a primeira mais elevada a nível espiritual. Esta atitude é desinteresada, contemplativa, evocadora da ordem divina. Seu conceito de beleza, de influência agustiniana e dionisiana, é espiritualista, consistente em uma harmonia universal que se concreta na unidade das coisas. A beleza é manifestação de Deus, uma “teofanía”, Deus dá-se a conhecer através da beleza, que é atributo de todo o perfeito e divino, é inefable e inexpresable.

Durante a Baixa Idade Média, e paralelamente à arte gótica, surge o telefonema “estético da luz”: a luz é símbolo de divinidad, o que se reflete na novas catedral é góticas, mais luminosas, com amplos ventanales que inundam o espaço interior, que é indefinido, sem limites, como concreción de uma beleza absoluta, infinita. Assim mesmo, outorga-se grande importância à beleza da cor, que adquire na Idade Média um significado simbólico, expressando a cada cor um diferente atributo ou qualidade, humana ou divina.

Robert Grosseteste fala do carácter matemático da beleza, identificando com a luz metafísica, e distinguindo três tipos de luz: “Lux” (Deus), “radium” (raios de luz) e “lumen” (o ar cheio de luz); o lumen reflete nos objectos, pelo que estes resplandecen (“splendor”). Afirma que “a luz é a beleza e enfeito de toda criação visível”, bem como que embellece as coisas e mostra sua hermosura.

Roger Bacon racionaliza a estética da luz, opinando que a incidencia da luz nos objectos produz linhas, ângulos e figuras elementares.

Hugo de San Víctor distingue entre beleza visível e invisível: a primeira, presente à forma, é percebida pelos sentidos (imaginação), enquanto a segunda encontra-se na essência e é captada pela inteligência (intelligentia); a beleza invisível é a beleza suprema, que só capta a mente intuitiva.

Há algo mais belo que a luz que, ainda não tendo cor em si mesma, no entanto faz aparecer as cores de todas as coisas as alumiando?.



Hugo de San Víctor, Erudito didascálica

San Buenaventura estabelece que a percepción é a afinidade entre os sentidos e os objectos, que proporciona ação, força e forma: a ação dá saúde (radione salubritatis), a força dá bondade (suavitas) e a forma dá beleza (preciositas). Estabelece-se assim uma “proporção de adecuación”, que é cambiante, subjetiva. Em contraposição, propõe uma “proporção de igualdade”, que seria um último estádio, inteligible, da beleza, comparável à unidade de Santo Agostínho. Em Itinerario da mente a Deus (Itinerarium mentis ad Deum) diz que esta igualdade não varia, senão que faz abstração das circunstâncias de lugar, tempo e movimento. Para Buenaventura, a luz é a coisa mais agradável (“maxime delectabilis”): a luz é a “forma substancial” dos corpos, sendo por tanto o princípio básico da beleza.

Alberto Magno recolheu duas teorias tradicionais sobre a beleza, a da proporção aristotélica e a do resplendor neoplatónico, sintetizándolas em base à teoria hilemorfista de Aristóteles (a matéria vai unida à forma): assim une proporção e resplendor, resultando que a beleza se produz quando a matéria trasluce sua esencia. Define assim a beleza como o resplendor da forma nas diversas partes da matéria. Seu discípulo Ulrico de Estrasburgo desenvolveu esta teoria dividindo a beleza em corpórea e espiritual, ao mesmo tempo que encontra nela duas qualidades diferentes: a beleza essencial, inherente às coisas, e a acidental, alheia a elas.

Santo Tomás de Aquino recolhe a tese de Alberto Magno da beleza como esplendor da forma (“splendor formae”). Opina que a percepción da beleza é uma classe de conhecimento, expondo sua teoria em sua obra magna, a Summa Theologica (1265-1273): Tomás encontra uma relação entre o sujeito e o objecto (percepción). O objecto manifesta-se como forma, e o sujeito percebe graças à sensibilidade; entre forma e sensibilidade há uma afinidad estrutural. Para Tomás beleza e bondade são o mesmo, ainda que a beleza dirige-se ao intelecto e a bondade aos sentidos. O bom é material, o belo inmaterial; o bom faz desejar, o belo não tem desejo de posse. Distingue na beleza três qualidades: integridade (integritas), que é a estabilidade estrutural do objecto –um objecto rompido ou incompleto não pode ser belo–; harmonia (consonantia), isto é, a correcta proporção das partes de um objecto; e clareza (claritas), relacionando a beleza com a luz como símbolo para valer, seguindo a tradição neoplatónica. O belo consiste na devida proporção, porque os sentidos deleitam-se com as coisas bem proporcionadas. Santo Tomás de Aquino, Summa Theologica


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