Catedrais de papel



Baixar 16,73 Kb.
Encontro06.07.2017
Tamanho16,73 Kb.


7019

L EITURAS

CATEDRAIS DE PAPEL

A BÍBLIA É O TEMPLO ONDE DEUS SE REVELA A NÓS PESSOALMENTE. VOCÊ JÁ O ENCONTROU HOJE?
Uma viagem por algumas das melhores bibliotecas do mundo ajuda a entender por que o livro é a criação mais valiosa do homem.
Num edifício de estilo renascentista e cúpula envidraçada, as margens do Rio Potomac, em Washington, está ficando a Biblioteca do Congresso, a maior do mundo, inaugurada em 1802, inicialmente para servir ao legislativo dos Estados Unidos. Depois, por lei, ficou “a serviço de todos”. Estátuas, mosaico, murais, vitrais e colunas de mármore emolduram o imponente salão de leitura. Com seu pé direito de 50 metros. De alto a baixo, as paredes estão forradas de livros — 45 000, uma ninharia perto dos 85 milhões de documentos em 400 idiomas que formam o acervo da instituição, onde trabalham 5 200 pessoas. De papiros a disco ópticos, passando pela Bíblia de Gutenberg, o primeiro livro jamais impresso, tem-se aí, catalogada e alojada em 858 quilômetros de prateleira, a própria História da humanidade. O homem fez do mundo um vasto arsenal de artefatos. Nele, sem dúvida, o bem supremo é o livro, documento e instrumento essencial ao percurso da espécie. Se a linguagem é inseparável da condição humana, a escrita é sua outra face, em que pese a existência das culturas chamadas ágrafas. Os mais antigos registros escritos — de origem sumérica, egípcia e chinesa — têm cerca de 6 000 anos. Palavras divididas em sílabas apareceram no Oriente Próximo há 4 000 anos. As bibliotecas ancestrais surgiram nos templos do Egito Antigo, onde, sob a guarda dos sacerdotes, eram arquivados papiros de cunho religioso. Mas foram os gregos, no século III a.C., os primeiros a reunir textos leigos em ambientes próprios, para fins de estudo. Centenas de anos adiante. Nos medievais, os monges copistas, muitos deles analfabetos por sinal, transcreveram as obras clássicas. Tornando possível a sobrevivência do pensamento e da literatura greco-romanos. Depois vieram o salto tecnológico da imprensa, o gosto dos reis franceses em colecionar livros e, enfim, a Revolução Francesa, que abriu tais tesouros ao povo, inaugurando o conceito moderno de biblioteca pública. No coração da Santa Sé, atrás de uma porta de bronze coberta de símbolos em relevo — representando a ciência, a religião e a arte —, está a soberba Biblioteca Apostólica do Vaticano, a mais antiga da Europa, fundada pelo papa Nicolau Vem 1450. Em 1475, seu sucessor, Sisto IV, fiel ao espírito renascentista, decidiu permitir o acesso dos eruditos aos 2 524 textos santos e profanos ali reunidos. Hoje são quase 1 milhão de volumes, manuscritos e impressos. Entre eles, um dos maiores livros do mundo, um tratado bíblico em aramaico, pesando 65 quilos. Pertencia a um comerciante judeu italiano de Volterra. Foi confiscado pelo duque de Urbino em 1472. Na minúscula aldeia de Admont encravada nos Alpes Austríacos, reina, austera e cinzenta, uma abadia beneditina. Dentro, na ala consagrada à biblioteca, um contraste chocante: a luminosa brancura de uma sala de 70 metros de comprimento, pontilhada de esculturas religiosas e mitológicas e torrada de livros. Nessa esplêndida construção, de 1776, repousam, protegidos pelo saudável ar montanhês, 150 000 obras, incluindo uma Bíblia gigante do século Xl, escrita na Itália, presente do papa Gregório VII ao fundador do mosteiro, o arcebispo Gebhard, de Salzburgo. Se a biblioteca de Admont, graças à força de sua arquitetura, tornou-se antes um museu do que um lugar de leitura, a de Einsiedeln, a poucas centenas de quilômetros de distância, mas já na Suíça alemã, permanece um centro de estudo particular, criado pelos (e para) os monges beneditinos. Sob as volutas brancas, entre as paredes ondulantes de livros, os religiosos se debruçam sobre os escritos sagrados num ambiente sem luz elétrica nem aquecimento. Erguida por volta de 1640, a edificação é uma das obras-primas da arquitetura da época, tendo sido reconstruída no século XVIII. Antiga escola de copistas, possui tesouros excepcionais, como uma Bíblia do século Xl copiada por doze monges. No total, são 160 000 volumes, entre os quais 500 incunábulos (impressos primitivos do século XV). Ainda na Suíça alemã, num lugarejo que viria a se chamar Saint-Gall, viveu há treze séculos um eremita irlandês de nome Gall. Em sua memória foi construída ali uma abadia. O edifício originai foi destruído em 1805. Resta uma construção barroca, grandiosa de 1758, onde só se pode entrar de alpargatas. No teto, afrescos representam os quatro primeiros concílios gerais da Igreja (Nicéia, Constantinopla, Éfeso e Calcedônia). Na sala principal, tombada pela Unesco, há 100 000 volumes, entre eles uma crônica de 1690, com a célebre ilustração de Guilherme Tell e sua maçã flechada na cabeça. Outras preciosidades são um antifonário (livro de versículos para serem declamados ou cantados) do ano 1000 e um Evangelho ornamentado por placas de marfim, de 894. As pequenas lâmpadas, sob suas cúpulas de jade, propagam uma luz parcimoniosa. O ar recende a papel e poeira. Eis a sede da Biblioteca Nacional de Paris — desde 1666, quando Jean-Baptiste Colbert, ministro das Finanças de Luís XIV, reuniu em duas casas de sua propriedade na Rue Vivienne, no centro da cidade, a coleção real, já devidamente catalogada. A biblioteca era então “aberta aos sábios e “entreaberta aos curiosos”. A Revolução de 1789 destruiu perto de 250 000 volumes, tidos como “instrumentos do poder”, e guilhotinou dois bibliotecários. Mas, passado o Terror, o novo regime tornou a instituição acessível ao povo. O edifício atual data de 1859. Em onze andares, contém 10 milhões de livros, além de periódicos, selos, fofos, pautas musicais, mapas. Enfileiradas, suas prateleiras cobririam 120 quilômetros. Totalmente informatizada, naturalmente a biblioteca vai se mudar em 1995 para um ousado e controvertido edifício com quatro imensas colunas de vidro, no bairro de Tolbiac, Oxford. Do centro dos edifícios de pedra cinzenta da lendária universidade inglesa de Oxford, ergue-se a dominante torre serrilhada de sua principal case de livros, aBodleian Library, uma das primeiras bibliotecas autenticamente públicas do mundo. Possui 6 milhões de volumes, 1 milhão de mapas e 5 000 incunábulos estantes, tudo controlado por computador e dominado por suave luz rósea. Sua origem foi a Duke Humphrey Library, de 1488. No século XVI, por falta de dinheiro, o acervo foi vendido pelo valor dos pergaminhos. Em 1598, um colecionador de manuscritos medievais, Sir Thomas Bodley, ofereceu-se para restaurara biblioteca por conte própria. Já com o nome de seu benfeitor, ela reabriu as portas em 1602. Hoje, no Reino Unido, só é menor do que a British Library, de Londres, com seus 10 milhões de exemplares. Aos freqüentadores, além de silêncio, a Bodleian Library pede britanicamente que prometam não fazer fogo em suas dependências nem surrupiar qualquer obra. Antigamente, isso não era necessário: em toda a Europa, os livros ficavam acorrentados às carteiras. Na Quinta Avenida, em plena Manhattan, sob a guarda de dois imensos leões de pedra, está a mais procurada biblioteca do mundo. Aberta em 1911, sob a divisa “servir ao maior número”, a New York Public Library tem 40 milhões de documentos. Milhões de imigrantes recorreram a ela na crença de que a educação era indispensável para fazer a América. Atualmente, o acesso às fichas bibliográficas é feito só por computador. A Biblioteca Pública de Nova York possui o mais importante documento dos Estados Unidos: a Declaração de independência, regida por Thomas Jefferson a 4 de julho de 1776.
Moscou- A Biblioteca Nacional da Rússia (ex-Lênin), uma das principais da Europa pelo número de livros e pela coleção única de manuscritos, nasceu em 1826 das doações do conde Rumiantsev. Instalada primeiro em São Petersburgo, foi transferida em 1861 para o belíssimo Palácio Peskov, do século XVI11, perto do Kremlin, em Moscou. Nova mudança ocorreria cerca de um século depois, dessa vez para um majestoso edifício de formas geométricas, colunas de mármore azulado e altos lustres de cristal, nas imediações da Praça Vermelha. Antes da Era Gorbachev, a biblioteca era reservada aos cientistas e universitários. Hoje, qualquer um pode entrar ali, o que é um problema. Pois, foco dia, algo como 7 000 pessoas — de estudantes a veteranos de guerra — disputam os 2 500 lugares disponíveis. Em compensação, é livre o acesso às obras antes proibidas por motivos políticos, como os romances de Aleksander Soijenítsin. Organizada em 1870 no bairro de Bab el Khalq, a Biblioteca Nacional do Cairo, Dar el Kutub, foi transferida em 1970 para um imóvel moderno que abriga mais de 5 milhões de volumes e tem salas de leitura para perto de 2 000 pessoas. A jóia da coroa é um dos maiores Corões do mundo, redigida em árabe por muçulmanos do norte da Índia em 1331, a que se acrescentou, nas entrelinhas, comentários em persa. Só os homens podem comungar com o Corão. Os demais livros são acessíveis as mulheres. A maioria dos templos budistas na Tailândia abriga uma biblioteca, ainda que íntima, como a que existe nos aposentos do bonzo guardião do templo Wat-Tiemtaway, a poucos quilômetros de Bangcoc, a capital do país. Grandes ou pequenas, com seus rolos de pergaminho ornados de ilustrações, perpetuam a herança cultural e filosófica de Buda. Em Chinguetti, a "cidade das mil caravanas", às portas do deserto da Mauritânia, no noroeste da África, está um dos mais antigos livros sacros do mundo — os escritos do poeta egípcio Abd Allah Sahl, que datam do ano 1087 da era cristã. Os séculos amarelaram as suas páginas, mas não tiraram a vivacidade de seus arabescos e iluminuras. O texto contém comentários ao Corão relatos de batalhas travadas pelo profeta Maomé e um dos primeiros mapas da cidade sagrada de Meca. Qualquer um pode estudar a obra, mas é terminantemente proibido tirá-la de Chinguetti.
Jerusalém - A tradição medieval dos copistas não desapareceu com a invenção da imprensa. Ainda hoje, em Jerusalém, Israel, um sofer — escriba religioso — transcreve sobre um pergaminho, em hebraico, o texto da Torá, o livro sagrado dos judeus, não por acaso chamados povo do livro. O sofer usa uma caneta de bambu e uma tinta especial fabricada por ele mesmo. É um mister religioso cercado de uma infinidade de cuidados rituais. Um sofer gasta oito meses para completar os cinco livros da Torá. Seu trabalho será vistoriado por cinco revisores. Um único erro invalidará o trabalho inteiro.
Super Fevereiro de 1992


www.4tons.com

Pr. Marcelo Augusto de Carvalho




©livred.info 2017
enviar mensagem

    Página principal