Carta Aos Romanos



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Carta Aos Romanos
(E. J. Waggoner)

Tradução e Edição
César L. Pagani
Índice
Nota ao leitor

1. O Poder de Deus Está no Evangelho

2. O Pecado de Outros Também é Nosso

3. A Graça de Deus: Dom Gratuito

4. Crendo na Maravilhosa Promessa de Deus

5. Graça Abundante

6. O Jugo de Cristo é Suave e o Seu Fardo é Leve

7. Casados Com um Péssimo Marido

8. A Gloriosa Libertação de um Matrimônio Insuportável

9. Quem São os Verdadeiros Israelitas?

10. Boas-Novas de Grande Alegria

11. Todo o Israel Será Salvo

12. A Justificação Pela Fé na Prática

13. O Crente e os Governos Terrestres

14. Deus, o Único Juiz

15. Louvem ao Senhor Todos os Gentios



16. Saudações Pessoais
Nota ao Leitor
A história inspirada nos assegura que em quase todas as epístolas de Paulo há algumas "coisas difíceis de entender" (II Ped. 3:16). Talvez seja o caso da epístola aos Romanos, em maior medida do que qualquer outra. Mas sua compreensão não é algo impossível, exceto para os "indoutos e inconstantes".
Vê-se que são os que torcem "também as outras Escrituras" para sua própria perdição, aqueles que malinterpretam o ensino de Paulo. Os que têm o desejo de compreender e que lêem as singelas promessas da Bíblia com proveito, não se encontrarão entre eles.
Ao empreender seu estudo, você se animará ao recordar que se trata simplesmente de uma carta dirigida à igreja de Roma. Nada faz supor que a congregação em Roma fosse diferente do grande corpo de cristãos em geral. Lemos sobre eles que "não foram chamados muitos sábios segundo a carne, nem muitos poderosos, nem muitos de nobre nascimento" (1 Cor. 1:26). Os verdadeiros seguidores de Jesus sempre estiveram entre as pessoas comuns. Desse modo, na igreja de Roma deveria haver negociantes, artesãos, trabalhadores, carpinteiros, jardineiros, etc., como também muitos criados das famílias de cidadãos ricos, e alguns poucos que ostentavam posição elevada. Quando consideramos que era esperado confiantemente que esse tipo de pessoas entendesse a carta, podemos sentir-nos animados em crer que o mesmo há de suceder hoje.
A exortação e a asseveração de Paulo a Timóteo constitui o melhor guia para estudar qualquer de suas epístolas e a Bíblia em geral. "Pondera o que acabo de dizer, porque o Senhor te dará compreensão em todas as coisas." Deus é seu próprio intérprete. São as palavras da Bíblia que explicam a Bíblia. É por isso que convém perguntar-se, uma e outra vez, o que quer dizer exatamente o texto, em relação com o que o precede e o que o segue.
Os comentários que acompanham o texto têm por objeto fixar mais detalhadamente na Palavra de Deus a atenção do estudante, bem como ajudar o leitor casual. Que o estudo desta epístola seja uma grande bênção a você, e que a Palavra lhe seja de grande valor, devido à luz crescente que o Espírito Santo faz brilhar a partir dela, é minha oração fervente.

Ellet. J. Waggoner


Capítulo 1
O Poder de Deus

Está no Evangelho


A saudação. Romanos 1:1-7
1 – Paulo, servo de Jesus Cristo, chamado para ser apóstolo, separado para o evangelho de Deus.

2 – que Ele antes havia prometido pelos Seus profetas nas Santas Escrituras,

3 – acerca de Seu Filho, que nasceu da descendência de Davi segundo a carne,

4 – e que com poder foi declarado Filho de Deus segundo o espírito de santidade, pela ressurreição dentre os mortos – Jesus Cristo nosso Senhor.

5 – pelo qual recebemos a graça e o apostolado, por amor do Seu nome, para a obediência da fé entre todos os gentios.

6 – entre os quais sois também vós chamados para serdes de Jesus Cristo;

7 – e a todos os que estais em Roma, amados de Deus, chamados para serdes santos; graça a vós, e paz da parte de Deus nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo.

Um servo (escravo) - "Paulo, servo de Jesus Cristo". O apóstolo assim se apresenta aos romanos. Em outras epístolas ele utiliza a mesma expressão. Alguns se sentiriam envergonhados de definir-se como servos; mas tal não foi o caso dos apóstolos.

Há uma grande diferença, dependendo de quem servimos. A importância do servo deriva da dignidade daquele a quem serve. Paulo servia ao Senhor Jesus Cristo. Está ao alcance de todos servir ao mesmo Mestre. "Não sabeis que daquele a quem vos apresentais como servos para lhe obedecer, sois servos desse mesmo a quem obedeceis, seja do pecado para a morte, ou da obediência para a justiça?" (Rom. 6:16). Até o próprio empregado da casa que se entrega ao Senhor, é servo do Senhor e não do homem. "Vós, servos, obedecei em tudo a vossos senhores segundo a carne, não servindo somente à vista como para agradar aos homens, mas em singeleza de coração temendo ao Senhor. E tudo quanto fizerdes, fazei-o para o Senhor, e nãos aos homens. Sabendo quedo Senhor recebereis como recompensa a herança; servi a Cristo, o Senhor." (Colossenses 3:22-24).


Uma consideração tal não pode senão dignificar o trabalho mais humilde e rotineiro que se possa imaginar. Nossa versão não expressa toda a força do termo que o apóstolo usa ao chamar-se "servo". Em realidade é "servo-escravo". Ele usou o termo que normalmente era aplicado aos escravos. Se somos realmente servos do Senhor, somos Seu escravos por toda a vida. Mas esse é o tipo de escravidão que traz em si mesmo a liberdade. "Pois aquele que foi chamado no Senhor, mesmo sendo escravo, é um liberto do Senhor; e assim também o que foi chamado sendo livre, escravo é de Cristo." (I Cor. 7:22).
Separado - O apóstolo Paulo foi "separado para o evangelho". Assim ocorre com todo aquele que realmente serve ao Senhor. "Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar a um e amar o outro, ou há de dedicar-se a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas." (Mat. 6:24). Ninguém pode servir a Deus e, ao mesmo tempo, a outro senhor.

Isso significa que um empresário ou homem de negócios não pode ser um bom cristão? Nada o impede. O que estamos dizendo é que um homem não pode servir ao Senhor e ao mesmo tempo a outro mestre. "E tudo quanto fizerdes por palavras ou por obras, fazei-o em nome do Senhor Jesus, dando por Ele graças a Deus Pai." (Col. 3:17). Se um homem de negócios não está servindo ao Senhor em sua atividade profissional, então não O serve absolutamente. O verdadeiro servo está, de fato, "separado para..."

Isso, porém, não quer dizer que ele se isola do contato pessoal com o mundo. A Bíblia não justifica a reclusão monástica. O pecador de quem menos se pode esperar é aquele que se sente demasiado bom para associar-se com pecadores. Como pois somos separados para o evangelho? Pela presença de Deus no coração. Moisés disse ao Senhor: 'Se Tu mesmo não fores conosco, não nos faças subir daqui. Como, pois, se saberá agora que tenho achado graça aos Teus olhos, eu e o Teu povo? Acaso não é por andares Tu conosco, de modo a sermos separados, eu e o Teu povo, de todos os povos que há sobre a face da Terra?" (Êxo. 33:15,16).

Porém, aquele que é separado para o ministério público do evangelho, tal como foi o apóstolo Paulo, é apartado no especial sentido de não poder envolver-se em outros negócios cujo fim seja a ganância pessoal. "Nenhum soldado em serviço se embaraça com negócios desta vida, a fim de agradar àquele que o alistou para a guerra." (II Tim. 2:4). Não pode se achar em nenhuma posição ante os governos da Terra, por mais elevada que seja. Tal coisa desonraria a seu Senhor e comprometeria seu serviço. O ministro do evangelho é embaixador de Cristo, e nenhuma outra posição lhe pode ser comparada em honra.



O evangelho de Deus. - O apóstolo afirmou que havia sido "separado para o evangelho de Deus". É o evangelho de Deus "acerca de Seu Filho". Cristo é Deus e, portanto, o evangelho de Deus a que se refere o primeiro versículo da epístola, é idêntico ao "evangelho de Seu Filho", mostrado no verso 9.

Muitos pessoas separam o Pai e o Filho na obra do evangelho. Muitos fazem isso inconscientemente. Deus o Pai, tanto como o Filho, é nosso Salvador. "Deus amou o mundo de tal maneira, que deu o Seu filho Unigênito" (João 3:16). "Deus estava em Cristo reconciliando Consigo mesmo o mundo." (II Cor. 5:19) "... e reinará perfeita união em ambos os ofícios." (Zac. 6:13). Cristo veio à Terra como representante do Pai. Quem via a Cristo, via também o Pai (João 14:9). As obras que Cristo fez eram as obras do Pai que nEle habitava (João 14:10). Até as palavras que Ele dizia eram as palavras do Pai (João 10:24). Quando ouvimos Cristo dizer: "Vinde a Mim todos vós que estais cansados e oprimidos e Eu vos aliviarei", estamos ouvindo o convite cheio de graça de Deus, o Pai. Quando contemplamos Cristo tomando em Seus braços as criancinhas e abençoando-as, testemunhamos o afeto do Pai. Quando vemos a Cristo recebendo pecadores e Se misturando com eles, comendo com eles, perdoando seus pecados e purificando aos desprezados leprosos por meio de Seu toque curador, estamos ante a condescendência e compaixão do Pai. Até quando vemos nosso Senhor na cruz, com o sangue manando de Seu lado ferido, o sangue pelo qual somos reconciliados com Deus, não devemos olvidar-nos de que "Deus estava em Cristo reconciliando Consigo mesmo o mundo", de forma que o apóstolo Paulo pôde dizer: "a igreja de Deus, a qual Ele comprou com o Seu próprio sangue" (Atos 20:28).



O evangelho no Velho Testamento - O evangelho de Deus para o qual o apóstolo Paulo afirmava ter sido separado, era aquele "que foi por Deus outrora prometido por intermédio dos Seus profetas nas Sagradas Escrituras" (Rom. 1:2); literalmente, o evangelho que Ele havia previamente anunciado ou pregado. Isso nos mostra que o Velho Testamento contém o evangelho, e também que o evangelho veterotestamentário é o mesmo que o do Novo. É o único evangelho que o apóstolo pregou. Considerando que isso é assim, ninguém deveria estranhar nossa fé no Velho Testamento, e que o consideremos como tendo a mesma autoridade que o Novo.

Lemos que Deus "preanunciou o evangelho a Abraão: Em ti serão abençoados todos os povos" (Gál. 3:8). O evangelho pregado nos dias de Paulo era o mesmo ensinado aos israelitas do passado (Ver Heb. 4:2). Moisés escreveu acerca de Cristo, e seus escritos contém tanto do evangelho que alguém que não cria no que ele escreveu, não podia crer em Cristo (João 5:46,47). "DEle todos os profetas dão testemunho de que, por meio de Seu nome, todo o que nEle crê recebe remissão de pecados." (Atos 10:43)

Quando Paulo foi para Tessalônica, dispunha somente do Velho Testamento, e "segundo o seu costume, foi procurá-los e por três sábados arrazoou com eles acerca das Escrituras, expondo e demonstrando ter sido necessário que o Cristo padecesse e ressurgisse dentre os mortos..." (Atos 17:2,3)

Timóteo, em sua mocidade, não teve outra coisa que não fosse as escrituras do Velho Testamento, e o apóstolo Paulo que lhe escreveu: "Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste, e de que foste inteirado, sabendo de quem o aprendeste. E que desde a infância sabes as sagradas letras que podem tornar-te sábio para a salvação pela fé em Cristo Jesus." (II Tim. 3:14,15)

Portanto, vá ao Velho Testamento esperando encontrar ali a Cristo e Sua justiça, e você se tornará sábio para a salvação. Não separe Moisés de Paulo, Davi de Pedro, Jeremias de Tiago, nem Isaías de João.

A semente de Davi - O evangelho de Deus é "com respeito a Seu filho, o qual, segundo a carne, veio da descendência de Davi". (Rom. 1:3). Leia a história de Davi e dos reis que dele descenderam, que foram ancestrais de Jesus, e comprovará que no aspecto humano, o Senhor foi afetado negativamente por seus antepassados, como qualquer outro homem jamais poderia te-lo sido. Muitos deles eram idólatras, licenciosos e cruéis. Embora Jesus estivesse rodeado de fraquezas, "não cometeu pecado, nem dolo algum se achou em Sua boca" (1 Ped. 2:22). isso está escrito com o propósito de prover ânimo à pessoa na pior condição imaginável em sua vida. Isso assim é para mostrar que o poder do evangelho da graça de Deus triunfa sobre a herança.

O fato de Jesus haver nascido da semente de Davi significa que Ele é herdeiro do trono de Davi. Referindo-se a esse trono, disse o Senhor: "Porém a tua casa [de Davi] e teu reino serão firmados para sempre diante de ti; teu trono será estabelecido para sempre." (II Sam. 7:16). O reinado de Davi é, por conseguinte, essencial para a herança prometida a Abraão, ou seja, a Terra toda (Ver Rom. 4:13).

De Jesus, disse o anjo: "Deus, o Senhor, lhe dará o trono de Davi, Seu pai: Ele reinará para sempre sobre a casa de Jacó; e o seu reinado não terá fim." (Luc. 1:32,33). Porém, isso implicava que também levaria a maldição da herança, sofrendo a morte. "... Em troca da alegria que Lhe estava proposta, suportou a cruz, não fazendo caso da ignomínia..." (Heb. 12:2). "Pelo que também Deus O exaltou sobremaneira e Lhe deu o nome que está acima de todo nome." (Fil. 2:9).

Assim como foi com Cristo, igualmente ocorre conosco. É através de grande tribulação que entramos no reino. Aquele que recua ante a censura, que faz de sua humilde condição de nascimento ou de suas características herdadas uma desculpa para as derrotas, perderá o reino dos céus. Jesus Cristo desceu às mais baixas profundidades da humilhação, a fim de que todos quantos ali estavam pudessem, se assim o desejassem, subir com Ele aos lugares mais elevados.



O poder da ressurreição – Conquanto Jesus Cristo tenha tido um nascimento humilde, "foi designado Filho de Deus com poder, segundo o espírito de santidade, pela ressurreição dos mortos" (Rom. 1:4). Acaso não era Ele Filho de Deus antes da ressurreição? Não Se havia o Senhor declarado como tal? Certamente! E o poder da ressurreição manifestou-se durante toda a Sua vida. Sem precisar ir mais longe, o poder da ressurreição ficou demonstrado no fato dEle erguer-Se dos mortos, algo que realizou pelo poder que habitava em Si mesmo. Porém, foi a ressurreição dos mortos que estabeleceu esse fato além de toda a dúvida à vista dos homens.

Depois de haver ressuscitado, foi até os discípulos e lhes disse: "Toda a autoridade Me foi dada no Céu e na Terra." (Mateus 28:18). A morte de Cristo havia destruído todas as esperanças que eles tinham nEle, mas quando "se apresentou vivo, com muitas provas incontestáveis, aparecendo-lhes durante quarenta dias..." (Atos 1:3), tiveram ampla demonstração de Seu poder.

Sua única obra, a partir de então, seria dar testemunho de Sua ressurreição e poder. O poder da ressurreição é de acordo com o espírito de santidade, já que por meio do Espírito foi Ele ressuscitado. O poder concedido para tornar um homem santo é o poder que ressuscitou a Cristo dos mortos. "Visto como o Seu divino poder nos tem dado tudo o que diz respeito à vida e à piedade, pelo pleno conhecimento dAquele que nos chamou por Sua própria glória e virtude." (II Ped. 1:3)

A obediência da fé - Paulo diz que mediante Cristo havia recebido graça e apostolado para a obediência da fé entre todos os gentios. A verdadeira fé é obediência. "A obra de Deus é esta: Que creiais nAquele que Ele enviou." (João 6:29). Cristo disse: "E por que Me chamais Senhor, e não fazeis o que eu vos digo?" (Luc. 6:46). Uma profissão de fé em Cristo, não acompanhada de obediência, é inútil. "Assim também a fé, senão tiver obras, é morta em si mesma. (Tiago 2:17). "Assim como o corpo sem o espírito está morto, assim também a fé sem obras é morta" (v. 26).

O homem não respira para demonstrar que está vivo; está vivo e por isso respira. A respiração é sua vida. Assim também, o homem não deve fazer boas obras para demonstrar que tem fé, mas as realiza porque são o resultado inevitável de sua fé. Até Abraão foi justificado pelas obras, porque a fé "cooperou com as suas obras e... pelas obras a fé foi aperfeiçoada, e se cumpriu a escritura que diz: E creu Abraão a Deus, e isso lhe foi imputado como justiça..." (Tiago 2:22)



Amados de Deus - Essa foi uma consoladora segurança para "todos os que estavam em Roma". Quantos teriam desejado ouvir dos lábios de um anjo vindo diretamente da glória o que Gabriel disse a Daniel: "... És muito amado"! O apóstolo Paulo escreveu por inspiração direta do Espírito Santo, de forma que a mensagem de amor dirigiu-se aos romanos tão diretamente do Céu como a de Daniel. O Senhor destacou por nome alguns favoritos, mas afirmou que todos em Roma eram amados de Deus.

Deus não faz acepção de pessoas, e essa mensagem de amor é também para nós outros. Eles eram "amados de Deus", simplesmente porque "Deus amou o mundo de tal maneira, que deu o Seu Filho unigênito para que todo aquele que nEle crê não pereça, mas tenha a vida eterna." (João 3:16). "De longe o Senhor me apareceu, dizendo: Pois que com amor eterno te amei..." (Jer. 31:3). Esse amor eterno para com os homens nunca hesitou, embora esses se houvessem esquecido disso. Àqueles que se separaram e caíram em iniqüidade, Ele disse: "Eu sararei a sua apostasia, Eu voluntariamente os amarei..." (Oséias 14:4). "Se somos infiéis, Ele permanece fiel; porque não pode negar-Se a si mesmo." (II Tim. 2:13)



Chamados para serem santos - Deus chama a todos os homens para serem santos, porém àqueles que O aceitam, os chama santos. Tal é seu título. Se Deus os chama de santos, eles são santos.

Essas palavras foram dirigidas à igreja em Roma e não à igreja de Roma. A igreja "de Roma" sempre foi apóstata e pagã. Abusou da palavra "santo" até convertê-la em pouco menos que uma banalidade de calendários. Poucos pecados tão graves cometeu Roma como fazer distinção entre os "santos" e os cristãos comuns, criando com isso duas escalas de bondade. Levou as pessoas a acreditarem que o trabalhador e a dona de casa não são e nem podem chegar a ser santos, rebaixando assim a verdadeira piedade prática diária, ao mesmo tempo que exaltando a piedade indolente e os atos de própria justiça.

Mas Deus não tem duas normas de piedade e a todos os fiéis de Roma, pobres e desconhecidos como eram muitos deles, Ele chama santos. A mesma coisa acontece hoje com Deus, embora possam os homens não reconhecer esse fato.

Os primeiros sete versículos do capítulo um de Romanos são dedicados a saudações. Jamais uma carta não inspirada abarcou tanto em seus cumprimentos. Tão firmado estava o apóstolo no amor de Deus que foi incapaz de escrever uma carta sem expressar a quase totalidade do evangelho numa saudação introdutória. Os oito versículos seguintes podem bem ser resumidos em: "sou devedor [a todos]", já que mostram a plenitude da devoção do apóstolo para com os outros. Leiamo-los cuidadosamente e não nos contentemos com uma única leitura:



"8 Primeiramente, dou graças a meu Deus, mediante Jesus Cristo, no tocante a todos vós, porque, em todo o mundo, é proclamada a vossa fé.

  1. Porque Deus, a quem sirvo em meu espírito, no evangelho de seu Filho, é minha testemunha de como incessantemente faço menção de vós

  2. em todas as minhas orações, suplicando que, nalgum tempo, pela vontade de Deus, se me ofereça boa ocasião de visitar-vos.

  3. Porque muito desejo ver-vos, a fim de repartir convosco algum dom espiritual, para que sejais confirmados,

  4. isto é, para que, em vossa companhia, reciprocamente nos confortemos por intermédio da fé mútua, vossa e minha.

  5. Porque não quero, irmãos, que ignoreis que, muitas vezes, me propus ir ter convosco (no que tenho sido, até agora, impedido), para conseguir igualmente entre vós algum fruto, como também entre os outros gentios.

  6. Pois sou devedor tanto a gregos como a bárbaros, tanto a sábios como a ignorantes;

  7. por isso, quanto está em mim, estou pronto a anunciar o evangelho também a vós outros, em Roma."

Um grande contraste - Nos dias do apóstolo Paulo, a fé da igreja que estava em Roma era conhecida no mundo inteiro. Fé significa obediência, já que ela é contada como justiça e Deus nunca considera uma coisa pelo que ela não é. A fé "opera por amor" (Gál. 5:6). E essa ação é "a operosidade da vossa fé" (I Tess.1:3). Fé também significa humildade, como demonstram as palavras do profeta: "Eis o soberbo! Sua alma não é reta nele; mas o justo viverá pela sua fé." (Hab. 2:4). Aquele cuja alma é reta é um homem justo; aquele que se orgulha não é justo e sua alma carece de retidão. Mas o justo assim é por sua fé, portanto, somente possui fé aquele cuja alma não se ensoberbe-se. Nos tempos de Paulo, os irmãos romanos eram, pois, humildes. Hoje é muito diferente. O Catholic Times, de 15 de junho de 1894, nos dá uma amostra disso. O Papa disse: "Temos dado autoridade aos bispos do ritual sírio, para que se reúnam em sínodo em Mossul", e recomendou uma "mui fiel submissão" desses prelados, ratificando a eleição do patriarca por meio de "nossa autoridade apostólica". Uma publicação anglicana expressou sua surpresa, declarando: "Trata-se de uma união livre de igrejas num plano de igualdade, ou se trata de submissão a uma cabeça suprema e monárquica?" A réplica do Catholic Times assim se apresentava: "Não é uma união livre e igualitária entre igrejas, mas, de preferência, uma submissão a uma cabeça suprema e monárquica… Queremos dizer ao nosso orador anglicano: Você não está realmente surpreso. E sabe muito bem o que Roma reclama e sempre reclamará: obediência. Essa é a exigência que colocamos diante do mundo, se não o fizemos previamente."

Mas tal pretensão não existia na época de Paulo. Nesse tempo tratava-se da igreja em Roma; agora é a igreja de Roma. A igreja em Roma era conhecida por sua humildade e obediência a Deus. A igreja de Roma é conhecida por sua altiva pretensão de possuir o poder de Deus, e por exigir que a ela se obedeça.



Orai sem cessar – O apóstolo exortou aos tessalonicenses a orarem incessantemente (I Tess. 5:17). Não encorajava a outros a que fizessem aquilo que ele mesmo não fazia, já que disse aos romanos que os mencionava ininterruptamente em suas orações. Não é necessário supor que o apóstolo tinha em mente os irmãos de Roma a cada hora do dia, visto que nesse caso ele não teria podido ocupar-se de nada mais. Ninguém pode estar conscientemente em oração sem interrupção, mas todos podem ser "constantes na oração", ou "perseverar em oração" (Versão de Young de Romanos 12:12).

Isso se harmoniza com a palavra do Salvador "sobre o dever de orar sempre e nunca esmorecer" (Luc. 18:1). Na parábola a que Lucas se refere em seguida, o juiz injusto reclama das insistentes visitas da viúva pobre. Essa é uma ilustração do que constitui orar sem cessar. Não significa que deveríamos estar todo momento em oração consciente; nesse caso negligenciaríamos os deveres importantes, mas que jamais devemos cansar-nos de orar.



Um homem de oração - Esse era Paulo. Mencionava os romanos em todas as suas orações. Ele escreveu aos coríntios: "Sempre dou graças a meu Deus a vosso respeito..." (1 Cor. 1:4). Aos colossenses disse: "Damos sempre graças a Deus, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, quando oramos por vós," (Col. 1:3). Com mais ênfase ainda escreveu aos filipenses, "Dou graças ao meu Deus por tudo que recordo de vós, fazendo sempre, com alegria, súplicas por todos vós, em todas as minhas orações..."(Fil. 1:3,4). Aos tessalonicenses: "Damos, sempre, graças a Deus por todos vós, mencionando-vos em nossas orações e, sem cessar, recordando-nos, diante do nosso Deus e Pai, da operosidade da vossa fé, da abnegação do vosso amor e da firmeza da vossa esperança em nosso Senhor Jesus Cristo."(I Tess. 1:2,3). e "orando noite e dia, com máximo empenho, para vos ver pessoalmente e reparar as deficiências da vossa fé?(I Tess. 3:10). A seu querido filho na fé escreveu, "Dou graças a Deus, a quem, desde os meus antepassados, sirvo com consciência pura, porque, sem cessar, me lembro de ti nas minhas orações, noite e dia." (II Tim. 1:3).

Sede sempre jubilosos - O segredo de assim ser está em "orar sem cessar (ver I Tess. 5:16,17). O apóstolo Paulo orava tanto pelos outros que não tinha tempo para preocupar-se consigo mesmo. Nunca vira os romanos, porém orava tão fervorosamente por eles como pelas igrejas que havia fundado. Ao falar de seus trabalhos e sofrimentos, diz que "pesa sobre mim diariamente, a preocupação com todas as igrejas." (II Cor. 11:28). "Entristecidos mas sempre alegres". Cumpriu a lei de Cristo levando as cargas dos outros. Assim pôde ele gloriar-se na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo. Cristo sofreu na cruz pelos outros, pela "alegria que lhe estava proposta". Os que são plenamente dedicados aos outros compartilham da alegria de seu Senhor, e podem alegrar-se nEle.

Uma viagem próspera - Paulo orava ferventemente para poder ter uma próspera viagem de visita a Roma, pela vontade de Deus. Se você ler o capítulo 27 de Atos, verá o tipo de viagem que ele teve. Aparentemente poderíamos aplicar qualquer qualificativo a essa jornada, exceto o de próspera. Porém, não ouvimos sequer uma queixa do apóstolo. E quem disse que não foi uma viagem bem-sucedida? "Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus", portanto, deve ter sido realmente uma viagem próspera. Quantas lamentações poderíamos evitar se nos lembrássemos sempre que Deus sabe muito melhor que nós como responder às nossas orações.

Dons espirituais - Quando Cristo ascendeu ao Céu levou cativo o cativeiro e deu dons aos homens" (Efés. 4:8). Esses dons eram dádivas do Espírito, uma vez que Jesus falou sobre a conveniência de ir para o Céu, "porque, se Eu não for, o Consolador não virá para vós outros; se, porém, Eu for, vo-lo enviarei." (João 16:7). Pedro afirmou no dia de Pentecostes: "A este Jesus Deus ressuscitou, do que todos nós somos testemunhas. Exaltado, pois, à destra de Deus, tendo recebido do Pai a promessa do Espírito Santo, derramou isto que vedes e ouvis." (Atos 3:32 e 33)

Esses dons são descritos nestes termos: "Ora, os dons são diversos, mas o Espírito é o mesmo. E também há diversidade nos serviços, mas o Senhor é o mesmo. E há diversidade nas realizações, mas o mesmo Deus é quem opera tudo em todos. A manifestação do Espírito é concedida a cada um visando a um fim proveitoso. Porque a um é dada, mediante o Espírito, a palavra da sabedoria; e a outro, segundo o mesmo Espírito, a palavra do conhecimento; a outro, no mesmo Espírito, a fé; e a outro, no mesmo Espírito, dons de curar; a outro, operações de milagres; a outro, profecia; a outro, discernimento de espíritos; a um, variedade de línguas; e a outro, capacidade para interpretá-las. Mas um só e o mesmo Espírito realiza todas estas coisas, distribuindo-as, como lhe apraz, a cada um, individualmente. (I Cor. 12:4-11).



Estabelecidos por dons espirituais – "... Com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo, Até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo." (Efés. 4:12,13).

Os dons do Espírito devem acompanhar o Espírito. Tão logo os primeiros discípulos receberam o Espírito, de acordo com a promessa, também entraram na posse dos dons. Um deles, o falar em novas línguas, manifestou-se no mesmo dia. Deduz-se, portanto, que a ausência dos dons do Espírito em qualquer grau notável na igreja, é prova da ausência do Espírito. Não completamente, é claro, mas também não na medida que Deus prometeu.

O Espírito deveria habitar com os discípulos para sempre, por conseguinte, os dons do Espírito devem manifestar-se na verdadeira igreja até a segunda vinda do Senhor. Como já vimos, qualquer ausência marcante da manifestação dos dons do Espírito, é indício de ausência da abundância do Espírito. Essa é a causa da fraqueza da igreja, como também das grandes divisões que nela existem. Os dons espirituais estabelecem a igreja, portanto, a igreja que não possui esses dons não pode considerar-se firmada.

Quem pode ter o Espírito? - Aquele que pedir com fervente desejo. Ver Lucas 11:13. O Espírito já foi derramado e Deus nunca retirou o dom; a única coisa que falta é que os cristãos o peçam e aceitem.

"Sou devedor" - Isso era capital na vida de Paulo e o segredo de seu êxito. Hoje ouvimos as pessoas dizer: "O mundo está em dívida comigo", mas Paulo considerava ser ele mesmo devedor do mundo. No entanto, não recebia do mundo senão açoites e abusos. Tudo o que recebera antes de Cristo encontrá-lo, era tido como perda total. Porém, Cristo fora ao seu encontro e Se tinha dado a ele; por conseguinte, pôde dizer: "Estou crucificado com Cristo; logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que, agora, tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a Si mesmo se entregou por mim." (Gál. 2:20).

Uma vez que a vida de Cristo era a vida de Paulo, e posto que Cristo Se entregou a Si mesmo ao mundo, Paulo tornou-se devedor ao mundo. Esse é o caso de todos aqueles que se tornam servos do Senhor. "Porque, na verdade, tendo Davi servido à sua própria geração, conforme o desígnio de Deus, adormeceu..." (Atos 13:36). "... e quem quiser ser o primeiro entre vós será vosso servo; tal como o Filho do Homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a Sua vida em resgate por muitos." (Mateus 20:27 e 28)



Trabalho pessoal - Predomina a errônea noção de que os trabalhos comuns são degradantes, especialmente para um ministro do evangelho. A culpa não é toda dos ministros, mas em grande parte de quem os cercam. Crêem eles que os ministros devem se vestir sempre impecavelmente, e que jamais devem manchar suas mãos com trabalho manual comum. Tais idéias não procedem da Bíblia. Mesmo Cristo foi carpinteiro; porém, muitos de Seus seguidores professos ficariam estupefatos se vissem um ministro do Senhor serrando e lixando pranchas, cavando na terra ou carregando pacotes. Prevalece um falso senso de dignidade que é oposto ao espírito do evangelho. O trabalho não produzia vergonha nem receios em Paulo. Ele não o realizava apenas ocasional, mas cotidianamente, enquanto se ocupava da pregação. Ver Atos 18:3 e 4. Ele disse: "Vós mesmos sabeis que estas mãos serviram para o que me era necessário a mim e aos que estavam comigo." (Atos 20:34). Estava ele falando aos dirigentes da igreja quando afirmou: "Tenho-vos mostrado em tudo que, trabalhando assim, é mister socorrer os necessitados e recordar as palavras do próprio Senhor Jesus: Mais bem-aventurado é dar que receber." (Verso 35)

Paulo difamado - Na segunda convenção internacional do Movimento de Estudantes Voluntários Para as Missões, o tópico principal de uma das sessões vespertinas era: "Paulo, o Grande Missionário". O orador disse que "Paulo tinha grande facilidade para organizar o trabalho, de tal maneira que podia assumir pessoalmente pequena parte dele". Essa foi uma injusta e infeliz invencionice apresentada perante jovens voluntários ao serviço missionário, já que se constitui o supra-sumo da falsidade e é qualquer coisa, menos um elogio para o apóstolo.

Além do que foi dito, leia o que se segue: "Nem jamais comemos pão à custa de outrem; pelo contrário, em labor e fadiga, de noite e de dia, trabalhamos, a fim de não sermos pesados a nenhum de vós." (II Tess. 3:8). "Eu de boa vontade me gastarei e ainda me deixarei gastar em prol da vossa alma." (II Cor. 12:15). "São ministros de Cristo? (Falo como fora de mim.) Eu ainda mais: em trabalhos, muito mais; muito mais em prisões; em açoites, sem medida; em perigos de morte, muitas vezes." (II Cor. 11:23). "Mas, pela graça de Deus, sou o que sou; e a sua graça, que me foi concedida, não se tornou vã; antes, trabalhei muito mais do que todos eles; todavia, não eu, mas a graça de Deus comigo." (I Cor. 15:10).

A graça de Deus se manifesta no serviço pelos outros. A graça levou Cristo a entregar-Se por nós e assumir a forma e a condição de servo. Portanto, aquele que mais tem da graça de Cristo é o que mais trabalha. Não recuará ante o trabalho mesmo que esse seja de caráter mais servil. Cristo desceu às mais baixas profundezas por amor ao homem; O que pensa, por outro lado, que algum serviço é incompatível com sua dignidade, sente-se muito superior para associar-se com Cristo.

A liberdade do evangelho - É a liberdade que Deus dá ao homem por meio do evangelho. Este expressa o conceito divino da liberdade. É a liberdade que se observa em a Natureza e em todas as obras de Suas mãos. É a liberdade do vento, soprando como quer; a liberdade das flores esparzidas em todos lugares, nos gramados e nas montanhas,; a liberdade dos pássaros, planando num céu sem fronteiras; a liberdade dos raios solares abrindo caminho por entre as nuvens e cumes elevados. A liberdade das estrelas no céu, singrando sem cessar o espaço infinito. A liberdade que provém do grande Criador através de todas as Suas obras.

Desfrutando essa liberdade agora - Foi o pecado que produziu todo sofrimento, toda limitação e confinamento. Ele ergueu barreiras e transformou o homem num ser mesquinho e mau. Todavia, o pecado há de ser destruído e uma vez mais a liberdade florescerá em toda a Criação. Até mesmo agora é possível usufruir dessa liberdade, quando o pecado é afastado de nosso coração. O fruir dessa liberdade pela vida eterna é o privilégio glorioso que o evangelho já oferece a cada homem. Que amante da liberdade quererá deixar passar essa oportunidade?

Consideramos a partir de agora a introdução ao corpo principal da epístola. Os primeiros sete versos constituem a saudação; os oito seguintes abordam assuntos pessoais concernentes ao próprio Paulo e aos irmãos em Roma. O verso quinze é a ligação que une a introdução com a parte doutrinária da epístola.

Atente para os versos citados e você verificará que não se trata de uma divisão arbitrária, mas de algo evidente. Se na leitura de um capítulo você anotar os diferentes temas abordados, e as mudanças de um assunto para o outro, ficará surpreso sobre como é fácil captar o conteúdo do capítulo e retê-lo na mente. A razão pela qual muitos acham difícil lembrar-se do que estudam na Bíblia, é por que tentam rememorá-lo "empacotando-o", sem prestar atenção especial aos detalhes.

Ao expressar seu desejo de encontrar-se com os irmãos romanos, o apóstolo se declara devedor tanto a gregos como a bárbaros, a sábios e a ignorantes e, portanto, disposto a pregar o evangelho também em Roma, a capital do mundo. O verso quinze e a expressão "anunciar o evangelho" constituem a nota predominante de toda essa epístola, e Paulo entra então no assunto de um modo natural e espontâneo. De acordo com ele, o que encontramos a seguir é




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