Carlos Nepomuceno 013 V alfa – 06/03/13



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Gestão da espécie 3.0 e a crise das organizações tradicionais


Carlos Nepomuceno
2013
v.alfa 1.7 – 06/03/13


              • Dedico a:

Michel Bieler e Aurélio Dias (ambos em memória)



Agradecimentos:

A todos meus alunos por nunca me deixam me acomodar;

Aos que vivem comentando meus posts no blog, no Facebook e Twitter por me mostrarem que a verdade é sempre líquida e nunca sólida como muita gente gostaria;

Aqueles que ainda não podem acessar os recursos da Internet;

E aqueles que já a utilizam para reduzir a taxa de sofrimento humano.



Pelo apoio na revisão de alguns trechos:

Fabiana Gonçalves e Lilian Calmon, Ricardo Ribas.



Pela discussão no grupo de estudos:
Por acreditar no projeto:
Nina Rosa de Araújo (da Campus/Elesevier);
Pelo apoio em Teresópolis:

Pedro Alborez.


Prefácio

Quem corre é a bola” - Didi, mestre do futebol

Este livro é para quem se sente soterrado por e-mails infindáveis. Para quem está perdido numa cacofonia infinita de vozes concorrentes e díspares. Para aqueles que percebem que o mundo está no limiar de uma nova era, mas não sabem bem qual. Para todos os que têm a estranha sensação de que a explosão de canais de comunicação resultou em menos entendimento.


Nepô é um dos pioneiros da reflexão sobre o mundo digital no Brasil. Mais do que pensador, Nepô é um “ouvidor”. Ele ouve as pessoas e as organizações. Presta atenção. Dá aulas desconectadas sobre o mundo conectado. Fala e dialoga, não pontifica. Duvida e faz pensar.


Na interação com ele, pude entender melhor a revolução cognitiva pela qual a humanidade está passando. Impossível ter certeza sobre a nova configuração social, política e econômica que emergirá. Conviveremos com muitas incógnitas por bastante tempo. A incerteza será nossa companheira. Não obstante, é possível antever algumas vias que estão sendo lentamente pavimentadas.

Para lidar com as consequências advindas de uma nova escala populacional, mudanças em canais de participação e formas de pensar e aprender tornaram-se urgentes. Os e-mails e reuniões presenciais não dão mais conta da velocidade e a descentralização requeridas pela solução de novos problemas. As redes sociais propiciam o ambiente para que todos os interessados interajam na busca de solução, sem intervenção dos mecanismos tradicionais de controle. Se o conhecimento se transferiu para a Internet, os mecanismos de aprendizado precisam ser alterados. Necessário dar menos ênfase ao conteúdo e mais atenção aos conceitos, ao entendimento e aos métodos de busca. Aprender a ouvir, mais do que falar.


A desintermediação que está em curso trará grandes transformações na vida das organizações, fenômeno por ora menos visível do que o que já ocorre na sociedade. A taxa de inovação poderá aumentar sempre que a energia da coletividade encontrar o espaço apropriado para se manifestar. Os gerentes obcecados em controles precisarão se reinventar em estruturas organizacionais do tipo rede.

Os novos gestores precisarão entender o contexto social e mediar as ações de atores que reivindicam cada vez mais autonomia. Certamente muitos não conseguirão realizar a transição e imporão custos elevados para os pioneiros. Estes sofrerão com a indiferença ou a resistência passiva da maioria, mas sem eles não haverá futuro para suas organizações.
Estamos em meio ao nascimento de uma nova era.

O parto é complicado e doloroso para muitos, sobretudo os mais velhos e acomodados. Para quem não conhece outro jeito de fazer as coisas, mas para meus filhos tudo é muito natural. Há muito valor em jogo. Quem se atrasar perderá. Ganharão aqueles que se atirarem no fluxo do riacho em formação antes ele se torne um Amazonas a arrastar tudo que está em seu caminho.


Para os amantes do futebol, a boa nova é que a sábia máxima de Didi pode se tornar realidade no mundo 2.0. Ao invés de exercitar o improvável dom da ubiqüidade, os gestores desse admirável mundo novo se dedicarão menos a correr com a bola no pé e mais a zelar pelas regras do jogo e pela participação de todos integrantes da equipe. Vai ser bem mais fácil, efetivo, produtivo e, por que não dizer?, divertido do que o estilo tradicional.


Paulo Faveret Filho - Superintendente de Recursos Humanos do BNDES
Conteúdo

Conteúdo

Sumário

Apresentação

Você, às vezes, não pode provar uma definição. O que você pode fazer é mostrar que ela faz sentido” - Albert Einstein;

Escrever este livro exigiu mente aberta e coragem.

Transfiro para o leitor o mesmo desafio.

Capítulo 1:
o cenário


A maior vantagem competitiva de uma organização é a sua visão do futuro”Hamel e Prahalad;

O objetivo do capítulo: ampliar a visão do que ocorre depois da chegada da Internet, através da hipótese da mudança da gestão da espécie.
A hipótese da gestão da espécie


"Não há explicações finais apenas explicações melhores" – Marcelo Gleiser;

Temos dificuldade de nos enxergar como uma espécie animal com nossas potências e limitações.

Preferimos nos ver como super-seres, acima da natureza com uma onipotência emocional que tem nos levado a ignorar que estamos em uma bola oval perdida entre bilhões de galáxias sem outra sobressalente.

Essa nossa arrogância de berço tem nublado nossa mente para os condicionamentos que uma espécie animal tem diante da natureza. Podemos muita coisa, mas nem tudo, pois temos nossos limites e condicionamentos.

Como todos os outros animais, precisamos comer, beber, ter aonde dormir e a capacidade de garantir a reprodução da espécie para sobreviver. Tais demandas condicionam nossas vidas e nossa história. Nesse aspecto somos iguais a todos os outros seres vivos.

O que nos diferencia, entretanto, é como resolvemos estes problemas.

Os animais usam o instinto embutido dentro do seu código genético, que pode evoluir ao longo de vários séculos lentamente, na tentativa e erro.

Somos diferentes.

Somos os únicos que temos a consciência da finitude da vida e que conseguem pensar como pensamos: somos filosóficos, mesmo que não queiramos.

E por causa disso somos os únicos que, não se sabe bem por que, têm o poder de criar órteses1/tecnologias para lidar com tudo aquilo que não vem “de fábrica”.

É essa capacidade cognitiva que nos permite superar nossos limites.


  • Não temos rabos, mas inventamos cordas e escadas de todos os tipos;

  • Não temos garras, mas inventamos facas, serras elétricas e furadeiras;

  • Não temos guelras, mas inventamos o escafandro e o submarino;

  • Não temos pelos como os ursos, mas inventamos os casacos;

  • Não temos asa, mas inventamos o avião, a asa delta e o paraquedas.

Podemos dizer, assim, que tecnologia:

  • É tudo aquilo que não vem junto ou incorporado a uma criança quando nasce;

  • É tudo aquilo que não brota da natureza, mas é transformada por nós;

  • São as órteses que aperfeiçoamos e nos permitem ir além dos limites que teríamos sem ela;

  • São invisíveis, pois são incorporadas pelo nosso cérebro como partes integrantes de nossas vidas.

Portanto, somos seres híbridos: uma ilha biológica/racional/emocional cercada de órteses por todos os lados.

Ninguém pode ou poderá, por mais que se tente compreender a espécie humana sem levar em conta nossas órteses que nos libertam e nos aprisionam e condicionam, conforme vamos caminhando. São elas que resolvem problemas e nos trazem outros tantos.

Não é um processo evolucionista, mas um processo “demograficionista”, o nosso tamanho nos condicionando e nos obrigando a criar mais e mais órteses para abrigar a espécie que cresce.

Portanto, é totalmente improcedente do ponto de vista lógico imaginar que podemos imaginar as tecnologias como elementos neutros. Um senhor de idade que precisa de uma bengala não é capaz de se mover. A bengala é incorporada por ele, como fazendo parte de sua vida.

Assim, como quem usa óculos, ou precisa de um aparelho para surdez.

Sem eles, aquelas pessoas são outras pessoas, pois seus limites aumentam.

Tecnologias são, portanto, agentes libertadores, pois expandem nossos limites, mas condicionadoras, pois depois que adotamos os novos paradigmas do que podemos fazer, ficamos escravos delas para repetir o feito.

Santa tecnologia, maldita tecnologia!

Podemos dizer, portanto, que somos animais mais adaptáveis pela capacidade que temos de criar órteses tecnológicas para superar os desafios obrigatórios e aqueles que nos propomos a inventar.

Criamos as roupas por imposição e fomos à lua, por enquanto, por opção e muita curiosidade.

O castor faz a sua casa no rio, o João de Barro na árvore e a aranha tece a sua teia por instinto. E nós transformamos a natureza, criando, descartando e reinventando órteses por sermos animais distintos2.


  • Os outros animais são instintivamente criativos, nós somos racionalmente/emocionalmente criativos.

  • Eles vivem em nichos ecológicos, nós em todo o planeta (e já com pretensões e ir para outros).

  • Eles têm limitações de tamanho de número de espécie. E nós, não, apesar do preço que estamos pagando e vamos pagar por isso3.

Não podemos, entretanto, continuar a considerar, como é comum, que todas as órteses que usamos e inventamos são iguais umas das outras.

É um grave equívoco, que é comum nos ciclos mais tecnológicos dos tecnológicos!

A vacina contra a malária é uma tecnologia medicam, que é diferente de um automóvel elétrico, uma tecnologia de transporte. A primeira evita doenças e a outra nos permite ir mais longe, carregando coisas.

São órteses, portanto, que nos ajudam a superar limites completamente distintos. Comparar seus efeitos na sociedade como se fossem iguais beira a insanidade.

Portanto, precisamos classificar e colocar cada tecnologia no seu "galho", se quisermos analisar como cada uma pode influenciar nossas vidas hoje e amanhã e se quisermos entender os efeitos da chegada da Internet para a civilização.

Caju é caju e morango é morango. Sim, são frutas, mas com gostos completamente diferentes.

Se somos eternos criadores de órteses, toda tecnologia que nos permita produzir mais e melhor novas órteses passa a ter uma relevância maior que as outras.

Há, assim:



  • As tecnologias-filhas – que são aquelas que expandimos nossos limites físicos;

  • As tecnologias-mães – que são aquelas que nos permitem produzir mais e melhor as tecnologias filhas.

As tecnologias cognitivas são aquelas que expandem nosso cérebro e permite que ele possa produzir mais e melhor, com mais facilidade e flexibilidade, nos tornando uma espécie cada vez mais sofisticada em termos ortéticos.

As tecnologias cognitivas são, portanto, a mãe de todas as tecnologias-filhas.

Assim, quanto mais sofisticadas forem as tecnologias cognitivas mais conseguiremos desenvolver outras órteses e mais nossa espécie conseguirá ser criativa para lidar com os problemas cada vez mais complexos.

Podemos relacionar, assim, algo interessante em termos de surgimento de novas tecnologias, como vemos na figura abaixo.



Um novo problema que surge pode criar uma demanda por uma nova órtese/tecnologia para se chegar a uma da dada solução, pois pode ser um limite a ser superado, que se não houver o novo aparato técnico o salto não é dado.

Um bom exemplo são as tecnologias do Petróleo, que foram mais e mais avançando para lugares mais ermos e difíceis, a partir da escassez.

É, portanto, interessante observar que temos impasses que vão esbarrar na nossa capacidade de criar novas órteses para superá-los. O telescópio e o microscópio são dois exemplos interessantes de ferramentas que nos permitiram ver melhor e conhecer melhor o mundo que nos cerca.

Podemos falar, assim, que há impasses no mundo que criam uma latência tecnológica, que está ali sendo gestada, a espera da capacidade de alguém criá-la. Não é uma demanda visível, mas é como se fosse uma peça de lego a espera de outra que a complete.

Uma frase que resume bem essa latência tecnológica a espera de limites é a de Henry Ford, que disse que se fosse consultar o consumidor sobre a construção do carro, nunca o teria feito, pois, na época, o mundo esperava um cavalo mais rápido.

Não seria fora de propósito aventar a hipótese que alguns limites invisíveis, latentes, estão prontos para serem expandidos, quando algo é oferecido, que não se espera, não se pede, não se deseja, mas alguém tem a capacidade de lançar, mesmo com outra intenção, mas que rapidamente é adotada, adaptada e dá vazão a uma necessidade humana.

O celular é algo desse tipo, pois ninguém nunca foi à televisão fazer campanha da importância do uso do celular, pois era tão óbvio o problemão que ele resolvia. Foi a junção entre o desejo latente, a órtese que surge e um limite que precisava ser superado pela humanidade.

Órteses que se massificam têm, assim, um desejo humano, muitas vezes invisível, de rompimento de uma dada barreira, de um impasse, que não se sabia ser possível transpor, mas que uma tecnologia vem e coloca um “tapete mágico” que nos permite sair do ponto “a” (desejo/enrustido) para o ponto “b” (sonho/realizado).

Há esse mistério humano na relação limite/superação e as tecnologias que nos cercam.

Cada tecnologia que vem ao mundo, muitas vezes sem a intenção do inventor, expandem nosso limites e abrem um novo mundo de possibilidades. Se isso é válido em tecnologias-filhas, como é o caso da vacina para a malária e o carro elétrico, algo muito maior podemos dizer quando falamos da tecnologia-mãe, as cognitivas.

A fala, a escrita e o computador, seguido da Internet são os três grandes saltos tecnológicos cognitivos que demos até aqui, com relevante papel na nossa história passada e futura.



  • Sem a fala, não teríamos conseguido criar as primeira s aldeias;

  • Sem a escrita, as cidades continuariam diminutas;

  • Sem o computador/Internet, não teríamos perspectiva de administrar melhor no presente e principalmente no futuro as nossas megalópoles.

Foram tecnologias-mães que surgiram para romper limites humanos. Se tivéssemos uma máquina do tempo e fôssemos ao surgimento de cada um destes momentos históricos, íamos ver os inventores preocupados com a solução de problemas muito cotidianos, tal como ao se falar tentar descrever um elefante ao invés de um veado para se falar da caça que acabou de ver.

São tecnologias-mães tão estruturantes que fazem parte de algo acima da nossa consciência e do significado do que podem resultar para a mudança da civilização. O mesmo pode ser dito da escrita, ou do papel impresso, ou do computador ou da Internet.

Tais tecnologias cognitivas nos levaram a novos patamares civilizacionais, pois nos permitiram inventar um conjunto gigantesco de novas órteses, que nos viabilizou ir aos poucos ocupando o planeta. A história humana não pode ser compreendida sem estes elementos, na relação surgimento/crescimento populacional. Um não teria sido criado sem o outro e vice-versa.

É como se fosse duas pernas que se equilibram, uma precisando da outra para se desequilibrar e se equilibrar mais adiante.

Somos a única espécie viva, portanto, que cria, atualiza e remodela de tempos em tempos as órteses que necessitamos para sobreviver, na qual se inclui as cognitivas, responsáveis por diversas atividades relevantes, tais como:


  • A circulação e a filtragem de ideias pela sociedade;

  • A produção de todo tipo de produtos e serviços, incluindo a invenção de novas órteses;

  • E a nossa forma de representação, organização social.


Assim, quando vivemos uma época em que uma nova tecnologia cognitiva entra em cena, não podemos considerar um fato normal e corriqueiro, a não ser que não se queira interferir no futuro.

Tecnologias cognitivas, nossas tecnologias-mães, quando chegam e se massificam é sinal de que havia um limite a ser superado pela espécie humana. Que havia uma rosca a espera de um parafuso para criar o reequilíbrio.



  • Assim, temos como premissa quando surge e se massifica ela consegue atender a um limite que muitos queriam que fosse superado;

  • E para entender seus desdobramentos é preciso entender que limite é este, pois ela será uma catapulta humana para que ele seja vencido.

Note que tal visão nos leva para uma nova forma de olhar tecnologias que se massificam, pois:

  • Havia algo que não era possível;

  • Que agora se tornar possível por causa da tecnologia;

  • O que não quer dizer que as pessoas não queriam, mas apenas não sabiam que queiram;

  • Pelo simples fato de saber que não havia condições de superar tais limites.

No dia que ir à lua for fácil e barato, toda criança vai pedir algo assim quando completar 15 anos. Hoje, é algo que não se pede para os pais, pois se sabe das barreiras que temos.

Ao pensar na chegada da Internet, temos, então, algo bastante interessante, pois podemos dizer que há uma massificação de uma nova órtese, que se expande rapidamente, pois havia determinados limites na sociedade que eram intransponíveis, mas que agora com a nova órtese passam a não mais ser.

O que era um cenário pré-internet, podemos dizer que temos outro pós-Internet, pois podemos dizer que:


  • É possível criar uma nova circulação e filtragem das ideias pela sociedade, algo inimaginável há 20 anos, ainda no meio da Idade Mídia;

  • É possível criar um novo modelo de produção de todo tipo de produtos e serviços, incluindo a invenção de novas órteses, pois há um novo ciclo de inovação, que se abre com o descontrole das ideias;

  • E é possível imaginar uma nova forma de representação e organização social, pois há um trampolim que foi criado, que ainda não dominamos completamente, mas já existe, o que nos dá asas à imaginação.

Ou seja, o que estamos descobrindo agora é algo surpreendente e que nos faz repensar a maneira que nos vemos como espécie e a própria teoria da evolução humana, que deixaria contente por consolidar diversas intuições de uma série de autores do passado, entre eles Malthus, McLuhan, Darwin entre outros, já que:

  • Crescemos mais e mais o tamanho da nossa “manada”, nos globalizando desde os nossos primórdios, em escala cada vez mais planetária;

  • Para que esse crescimento fosse viável, mudamos de tempos em tempos as órteses cognitivas/produtivas, falamos, escrevemos e agora digitamos;

  • Tais órteses nos levam a quebrar limites, pois mudamos de tempos em tempos a forma como nos comunicamos, informamos, nos organizamos e nos lideramos;

  • E, assim, variamos, conforme a imposição do tamanho da população, a própria gestão da espécie, que estamos descobrindo não é fixa, mas mutante, através da incorporação de novas órteses cognitivas/produtivas cada vez mais sofisticadas.

As outras espécies, por serem instintivas, não renovam órteses e têm, portanto, um sério problema demográfico. Quando um bando de elefantes chega a determinado número de membros, ele se divide e cada um vai cuidar de um determinado território, pois há nichos ecológicos distintos.

O elefante não vive no planeta, mas em um pedaço bem restrito dele. Por isso, não vemos a migração de uma manada de elefantes para outros lugares, que não seja aquele habitat, onde vivem.

Nós não.

Vivemos em todo o planeta e quando crescemos, não podemos mandar um pessoal para outro canto do universo. O crescimento humano é um problema que tem que ser resolvido aqui e agora da única forma que resolvemos todos os nossos problemas: criando órteses.

Os animais têm, portanto, limitação entre o modo de comunicação e a gestão da espécie, que os limita em termos de quantos membros podem viver na mesma matilha, manada, bando.

O crescimento desordenado, com o modelo de gestão de cada uma, leva a crises, pois o líder-alfa ou líderes-alfa que são responsáveis pela sobrevivência têm um limite na sua capacidade de gerenciamento.

Este fato explica porque as hienas não podem ter grupos maiores de que determinado número, assim, com os lobos e os leões. Tais espécies podem até evoluir biologicamente, ao longo dos séculos, mas não tecnologicamente como nós. Por isso, seus grupos ficam mais ou menos estáveis em quantidade de membros.

Os códigos genéticos, o modelo de comunicação/informação e a gestão da espécie de cada uma delas estão embutidos dentro de cada membro, porém não é reescrito por eles. São inacessíveis. As órteses são biológicas e genéticas e levam séculos para evoluírem.

São intra-órteses.

As outras espécies têm limitações de tamanho de seus membros, pois a gestão da espécie não tem como mudar inventando novas órteses tão rapidamente como nós fazemos.

Produzimos órteses externas.4

Os grupos animais se organizam, assim, através de uma gestão da espécie que é diretamente ligada ao tipo de comunicação e ao modelo de liderança desenvolvido instintivamente ao longo de sua evolução.

Quanto maior é o grupo mais a gestão da espécie terá que ser compatível com o tamanho. Uma manada de elefantes tem o seu estilo de liderança diferente do formigueiro. Uma coisa são centenas; e outra, milhões.

Os elefantes não têm um modelo de comunicação/organização melhor do que o das formigas, mas é apenas compatível com o tamanho da manada e com o instinto que foi desenvolvido para comportar um dado tamanho de membros.

Cada tipo de bando e demografia possível de cada grupo animal, define, assim, a forma de organização/liderança e comunicação da espécie, que sempre será compatível com um dado tamanho.

Esta é a principal lição que a atual revolução cognitiva trazida pela Internet tem nos ensinado: os nossos ambientes cognitivos não são estáticos, bem como não o são a gestão da espécie humana, pois diferente dos animais nosso "bando" não para de crescer.

O que estamos dizendo é que a nossa espécie é estruturada para viver em determinadas ecologias cognitivas, com modelos de gestão da espécie que precisam ser compatíveis com o tamanho da população.

Isso gera latências invisíveis que ficam “grávidas” de tecnologias cognitivas, que começam um ciclo de renovação de todas as organizações à procura de um equilíbrio entre a capacidade de oferta versus a quantidade da demanda.

Quando há um forte aumento, como tivemos nos últimos 200 anos, que saltamos de um para sete bilhões de habitantes, cria-se um desequilíbrio da espécie, pois o modelo de gestão, da maneira de nos organizarmos, na forma dos líderes-alfas conduzirem nossa manada, começa a ficar incompatível com o novo tamanho dos membros.

Isso caracteriza uma grave crise da espécie humana – e uma latência ortética.

Fato: se não tivéssemos a capacidade de nos renovar e criar novas órteses cognitivas e, por sua vez, novos modelos de gestão da espécie vamos entrar em colapso.

No epicentro da crise estão as organizações tradicionais com um modelo de gestão da espécie adequado para um planeta muito menos populoso.

Estamos vivendo, assim, um gap entre nossa capacidade de gerir a espécie e as novas demandas que uma população sete vezes maior exige.

Há um descompasso civilizacional visível, mas ainda não diagnosticado.

Nossa saída inconsciente, como tem sido até aqui, é o desenvolvimento e a massificação de novas órteses cognitivas.

Só as órteses nos salvam!

E aquilo que vamos conseguir fazer com elas.

Malthus, na verdade, por volta de 1800 dá uma pista nessa direção.

Ele é o primeiro que diz que o crescimento demográfico iria os levar a crises constantes, pois não iríamos conseguir resolver a oferta para a nova demanda. Apontava uma demanda geométrica para uma oferta aritmética.

Parcialmente, seu pensamento era eficaz e estava movido pelo salto que dávamos por ter chegado naquele ano ao primeiro bilhão de habitantes, com cidades cada vez maiores.

Porém, a capacidade inovadora de criação de novas órteses, foi nos tirando das crises demográficas e nos permitindo expandir mais e mais.

A equação de Malthus só fecharia com os conceitos de inovação e criação de órteses para superar tais crises: quanto mais habitantes tivermos no planeta, mais teremos que sofisticar nossas órteses cognitivas e, por sua vez, teremos que ter organizações e uma gestão da espécie mais sofisticada para atender ao tamanho da espécie, que não para de crescer.

E nós estamos crescendo a olhos vistos e condenados a ter que produzir novas órteses cognitivas para minimizar a crise demográfica, que nos obrigará, pelo bem ou pelo mal, a ter que revisar todas as nossas organizações.

Sim, podem chamar essa visão de determinista, mas não sou eu que sou determinista é o aumento demográfico que nos determina determinadas ações, pois todo dia é dia de colocar 21 bilhões de pratos de comida no mundo!5

A civilização, portanto, é obrigada a se sofisticar para que possamos lidar com problemas cada vez mais complexos, que o número maior de membros exige, pois nosso lado moral, não admite o extermínio consciente, por mais que alguns já tenham proposto, de certa forma, incluindo o próprio Malthus6.

Estamos descobrindo e teorizando sobre isso agora, que somos os únicos animais capazes de mudar, via novas órteses, a gestão da espécie, reinventando ciclicamente o tipo de liderança de para abrigar melhor a população que cresce!



Ou seja, pela ordem:

  • É o tamanho da população que define a forma como nos organizamos;

  • Essa forma se define pelos ambientes cognitivo-produtivos que conseguimos criar;

  • E esses dois elementos formam o que podemos chamar de Gestão da Espécie.

Assim, podemos criar uma relação de causa e efeito, que sustenta esta hipótese: crescimento demográfico nos leva a problemas produtivos, que nos leva a necessidade de inovação, que nos obriga a criação de novas órteses cognitivas reintermediadoras, que, por fim, nos leva a uma nova gestão da espécie, como vemos na figura abaixo:

Parece lógico afirmar, olhando a figura acima, que:




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