Carla Cassidy Estranhas emoções (One of the good guys)



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NAQUELE JOGO DE SEDUÇÃO, ELES APOSTARAM TUDO...

Luciana Weatherby tinha certeza de que seu ciumento ex-marido contratara o detetive particular Tony Pandolfini para segui-la. E se divertia fugindo dele, até descobrir que Tony não era o único homem que estava em seu encalço... Alguém a perseguia, e não era com as "melhores intenções"!

Tony sabia que aquele assunto não era da sua conta. Mas como se recusar a proteger uma loira tão sedutora e indefesa? E não se importou com o fato de que o mais leve contato com Luciana o fazia tremer de emoção e desejar jamais ter-se metido no caso...

Querida leitora,

Quantas vezes não nos metemos em situações tais que, em um determinado momento, nos perguntamos o que estamos fazendo aqui? E acontece que já nos envolvemos de tal maneira que só nos resta tocar para a frente. Além do mais, quando essas situações envolvem amor, paixão, etc., então não dá mesmo para voltarmos atrás. Foi o que Tony Pandolfini sentiu a respeito da situação criada com Luciana Weatherby, neste intrigante Estranhas Emoções. E você também sentirá mais ou menos isso, pois não vai conseguir parar de ler este romance até chegar ao fim...

Bom divertimento!

Roberto Pellegrino Editor

Carla Cassidy

Estranhas Emoções

One of the good guys

Copyright © 1993 by Carla Bracale Originalmente publicado em 1993 pela Harlequin Books, Divisão da Harlequin Enterprises Limited.

Todos os direitos reservados, inclusive o direito de reprodução total ou parcial, sob qualquer forma.

Esta edição é publicada através de contrato com a Harlequin Enterprises Limited, Toronto, Canadá.

Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas terá sido mera coincidência.

Título original: One of the good guys

Tradução: Maria do Carmo Dias Andrade

EDITORA NOVA CULTURAL uma divisão do Círculo do Livro Ltda. - Alameda Ministro Rocha Azevedo, 346 - 2a andar CEP 01410-901 - São Paulo - Brasil

Copyright para a língua portuguesa: 1996

CÍRCULO DO LIVRO LTDA.

Fotocomposição: Círculo do Livro

Impressão e acabamento: Gráfica Círculo.
Digitalização: Néia

Revisão: Edna Fiquer


Capítulo l
Ela estava sendo seguida de novo. Lu­ciana suspeitara disso há apenas al­guns minutos, após ter fechado a porta de sua loja de penhores e entrado no carro. Agora, pensando sobre o caso, se dava conta de que era o mesmo veículo que a seguira nos últimos três dias. Ao olhar pelo espelho retrovisor notou que o Buick bege mantinha o tempo todo igual distância entre os dois carros.

Tivesse sido essa a primeira vez, Luciana entraria em pânico, imaginando quem estaria atrás dela e por quê. Porém não era a primeira vez. Na verdade, perdera a conta do número de vezes que seus passos foram seguidos e seus movimentos, observados. Ago­ra, depois de quase três meses, já se cansava da brincadeira ou do que quer que fosse aquilo.

— Chega! — sussurrou, acelerando e procurando desviar por ruas laterais.

Ela adquirira grande habilidade em fugir desses detetives, e, se o atual fosse tão incompetente como os outros dois, não teria problema algum em escapar pelo tráfego congestionado das seis da tarde.

Claro, Bill dera ao detetive as informações neces­sárias, como nome, endereço, local de trabalho e há­bitos diários. E ela estava certa de que, mais dia menos dia, seu perseguidor a abordaria; mas lhe dava uma perversa satisfação fazê-lo ziguezaguear por entre os carros, imaginando a irritação do pobre homem.

— Coma poeira! — murmurou entre dentes, com um sorriso maldoso, ao perceber que o Buick desa­parecera na pesada corrente de tráfego.

Depois de alguns minutos, certa de havê-lo con­fundido, diminuiu a marcha dando um profundo suspiro.

— Maldito! — exclamou.

Não era o motorista do Buick que Luciana amal­diçoava, mas o homem com quem fora casada durante três longos anos, e de quem estava separada há oito meses. Por que Bill não haveria de encarar a realidade de que o casamento estava acabado, morto?

Luciana abriu a janela do carro, usufruindo a bri­sa da primavera que sacudia seus cabelos louros. Pensava no ex-marido. Pobre Bill! Mesmo no meio de sua raiva sentia muita pena dele, um homem ciumento, machista, superprotetor, do qual se di­vorciara para sua própria preservação.

Tentara fazer o casamento funcionar. No espaço de três longos anos pusera de lado suas necessidades a fim de acomodar-se a Bill. Ficava em casa aguar­dando pacientemente pela volta dele quando ia aos bares, depois do trabalho, beber na companhia de amigos. Procurara até se convencer de que o marido não chegava de vez em quando em casa cheirando a perfume barato de mulher.

O fim do casamento surgira abruptamente. Lu­ciana acordara certa manhã com vontade de berrar. Por que se esforçar em ser o que não era?

Em vez de gritar, pediu o divórcio. Procurou ser bondosa, tentando convencer Bill de que ele seria mais feliz com outra mulher. Mas tudo funcionou como se o divórcio fizesse Bill amá-la ainda mais.

Ele tinha certeza de que a separação havia sido causada por outro homem na vida de Luciana. Con­tratara então um detetive para provar que estava certo em sua desconfiança ou, talvez, para continuar indiretamente ligado à ex-esposa.

Contudo, não havia outro homem. Nos últimos oito meses a coisa mais interessante que os detetives conseguiram descobrir foi que o gato de Luciana, Twilight, adquirira uma doença de pele e fora levado ao veterinário às pressas.

Ela sorriu, lembrando-se do detetive que ficara para trás. Ao menos era um pouco melhor que os outros. Fazia três dias que a seguia. Três dias...

Luciana se recordou, então, da tarde em que um outro detetive, muito zeloso, colidira acidentalmente com seu carro. Ela descera, muito calma, e pedira ao homem que desse lembranças a Bill.

O sorriso, porém, fugiu de seus lábios quando, ao entrar na rua onde morava, deparou com o Buick bege parado no lugar onde habitualmente ela estacionava.

Que fizera o maldito homem? Luciana seguira pela rota mais rápida e tinha certeza de que ele não a ultrapassara em parte alguma. Então, um grande respeito pela finesse daquele detetive cresceu dentro dela. O homem era de fato bom. Definitiva­mente bom.

Luciana diminuiu a marcha, passou ao lado do Buick e lançou um olhar ao motorista, indo em se­guida à procura de um local para deixar o carro.

Não, ele não se parecia com a maioria dos detetives. Quanto ao rosto, os traços eram interessante cabelos escuros, testa larga, olhos brilhantes, nariz levemente arrebitado e bigode preto. Um quê de arrogante.

O rapaz fez um gesto para cumprimentá-la, como se estivesse tirando da cabeça um chapéu imaginá­rio. Esboçou um sorriso. Dentes perfeitos e alvos, ela observou.

Luciana foi até a esquina à procura de uma vaga para estacionar. Uma vez lá, permaneceu no carro durante alguns minutos, tentando se recuperar do choque provocado pela inesperada atração em rela­ção ao novo detetive.

Ele era perigosamente atraente. O tipo de homem que poderia bancar o herói, salvando a heroína das garras da morte; ou o vilão charmoso, seduzindo a infeliz e inocente heroína, causando-lhe problemas.

Luciana sacudiu a cabeça, afastando esses pen­samentos tolos. Dera muita liberdade, asas à sua imaginação. De qualquer maneira, concluiu por ins­tinto que era preferível ter esse homem ao seu lado como amigo do que como adversário.

Encaminhou-se para o apartamento com a chave da porta na mão, sabendo que um par de olhos a observava atentamente.

A porta do edifício parou. Virou-se, acenou com dois dedos para o sedutor detetive e entrou no prédio.

Uma vez no interior de seu apartamento no quarto andar, acendeu todas as luzes e jogou os sapatos longe. Deitada no sofá, sorriu para o gato cinzento que pulou em seu peito.

— Alô, Twilight — ela murmurou afetuosamente. — Você sentiu falta de mim hoje?

O gato miou e desceu do sofá, fitando-a com olhar suplicante.

— OK, OK. — Luciana levantou-se e foi até a pequena cozinha a fim de providenciar comida para o gato que a seguira. — Coma agora — disse com carinho, colocando no chão um prato com os petiscos preferidos do bichano.

Voltou à sala e ficou perto da janela de onde se podia ver bem a rua. Abriu as cortinas parcialmente, apenas o bastante para verificar se o Buick conti­nuava lá. O telefone tocou.

— Como vai minha garota favorita? — uma voz grave lhe perguntou sem preâmbulos.

— Vinnie! — Luciana sorriu ouvir o pai. — Como vai a vida nessa Flórida ensolarada?

— Muita umidade e viúvas à procura de marido. Adoro isto tudo. E como vão as coisas por aí?

— Mais ou menos, como sempre. A loja de pe­nhores me mantém ocupada. Você sabe, papai, os negócios melhoram na primavera, quando as pes­soas fazem uma limpeza nos sótãos e nos porões.

— Você continua levando para casa os objetos abandonados?

— Qualquer coisa não reivindicada, e que não seja um lixo, eu trago para casa, sim. Faz parte da história de uma família. Cada um desses objetos fala comigo.

— Hum! Alguns homens da minha idade já têm netos, mas eu tenho uma filha que conversa com móveis antigos. E seu ex-marido? Enfim decidiu dei­xar você em paz?

— Não propriamente. Na verdade, há um dete­tive postado na rua em frente ao meu apartamento neste instante. — Luciana suspirou. — Bill telefonou para mim outra noite suplicando uma recon­ciliação. Pareceu-me um tanto alcoolizado. Acha que vou me cansar de ser espionada e que enfim voltarei para ele.

— E você? O que pretende fazer?

— Não há a menor chance de eu voltar para Bill, papai — Luciana respondeu sem hesitação.

— Sabe que tudo o que desejo é vê-la feliz, minha filha. Bem, eu só queria saber como você ia indo.

Vinnie deu a conversa por encerrada, e Luciana sorriu vendo mentalmente o pai olhando para o relógio a fim de calcular o preço do telefonema interurbano.

— Eu adoro você, papai — ela sussurrou.

— E eu adoro você, boneca. Telefonarei à mesma hora na próxima semana. Adeus.

Luciana desligou, pensativa. Ficava feliz com o fato de o pai estar bem na Flórida; mas havia mo­mentos em que sentia muita falta nele. Desde a morte da mãe haviam sido sempre Vinnie e Luciana naquela casa. E ela ficara órfã aos três anos de idade.

— Terminou de comer? — perguntou ao gato, que se espreguiçava no chão da cozinha, parecendo bem alimentado.

Bocejando, Luciana olhou para o relógio. Passa­vam apenas alguns minutos das oito horas e ela já estava exausta. O dia fora muito trabalhoso na loja.

Levantou-se do sofá e foi ao quarto. Tirou da ga­veta uma camisola de seda azul, bem curta, e ves­tiu-a. Passou a mão pelo pesado colar de ouro que tinha no pescoço. Tirou-o em seguida, depois de certa dificuldade para abrir o fecho. Colocou-o em cima da mesa de cabeceira.

Era uma linda peça. Fora levada naquela manhã mesmo por um velho de baixa estatura. Ela tentara convencê-lo a empenhar a jóia em vez de vendê-la, mas o homenzinho insistira. Parecia ansioso por se ver livre do colar, e aceitara a primeira oferta, sem discutir.

Luciana deitou-se na cama. Pensava na conversa que tivera com o pai.

Como o colar, quase todos os itens de seu apar­tamento haviam sido trazidos da loja de penhores. Objetos nunca reclamados por seus donos. Ela pro­curava se convencer de que os trazia para casa por razões de segurança, mas a verdade era que amava aquelas estranhas quinquilharias que os clientes le­vavam para vender ou penhorar.

Num impulso, levantou-se e foi à sala. Verificou se todas as luzes estavam apagadas e abriu as cor­tinas. Olhou para fora. Ainda lá...? Sim, ele ainda a observava. Espionava seria a palavra mais ade­quada. Luciana enxergou uma pequena ponta de cigarro acesa. O detetive fumava. Que pretendia ele? Passar a noite toda lá?

"Bom, que fique na rua a noite inteira, fumando centenas de cigarros até adquirir uma tosse horrível, conseqüência do excesso de fumo. Talvez a noite seja fria. Ou pior, talvez chova... uma chuva polar que lhe deixe os ossos enregelados. Mas... chuva polar em plena primavera?"

Luciana voltou ao quarto, satisfeita por todo o mal que desejara ao seu terrível perseguidor. Afinal, ele merecia. O mínimo que podia querer para uma pessoa que invadia sua privacidade era uma noite de pesadelos. Bocejou mais uma vez, fechou as cor­tinas e foi para a cama. Apagou a luz e em segundos adormeceu, Twilight a seus pés.


Da rua, Tony Pandolfini percebeu quando as luzes do quarto andar se apagaram. Devagar, saiu do car­ro e esticou as longas pernas, quase feliz com a sensação de formigamento, sinal de que sua circu­lação voltava ao normal.

Entre todos os conselhos, entre todas as opiniões que ele solicitara dos amigos antes de deixar o de­partamento de polícia para começar com sua agência de detetives, ninguém mencionara o fato de que os maiores riscos que um detetive particular enfren­tava eram a perda de um membro por falta de cir­culação e a morte em conseqüência do tédio.

No ano anterior, ao iniciar seu novo trabalho, por pouco não sofrera de ambos os males. Mas agora, apesar de a tarefa também ser cansativa, ao menos o objeto em questão era agradável à vista. Mais do que agradável. A mulher era realmente linda!

Tony sorriu. Pensava no modo como Luciana lhe acenara com os dedos antes de entrar no apartamento. Ela quisera lhe mostrar que sabia estar sendo seguida. A menina tinha fibra! Não admirava o fato de o ex-marido ser relutante em prosseguir com o divórcio. Linda e corajosa... Que pacote convidativo...

Tony afastou esses pensamentos. Observar Lu­ciana Weatherby não passava de um trabalho seu, ele procurava se convencer. Continuaria com a mes­ma atividade mais uma noite e um dia, depois en­tregaria o relatório ao marido com quem Luciana passara uma existência monótona e solitária. E seria o fim de tudo! Ótimo!

Voltou ao carro e tirou um cigarro do maço. Outro vício ligado ao seu tipo de trabalho. Terrível hábito. Tentava se livrar disso há meses, sem sucesso, po­rém. Acendeu o cigarro e olhou para a janela escura do quarto andar. Ele teria uma noite longa, exaus­tiva, pela frente.


Luciana acordou de repente, sentindo que algo se mexia nos pés da cama. Abriu bem os olhos e viu Twilight roendo seu último par de meias de boa qualidade.

— Twilight! — exclamou, tentando salvar o que sobrara da meia. — Maldito gato!

Levantou-se e foi ao banheiro.

Vinte minutos mais tarde, depois do banho, vestiu um sutiã de renda bege e calcinha da mesma cor. Parou diante do armário tentando resolver que ves­tido usar. Era difícil escolher uma roupa adequada para o Meio-Oeste na primavera, pois a temperatura flutuava entre dez e trinta graus num mesmo dia. Enfim, ela optou por jeans e um suéter leve. Não se esqueceu dos brincos. Enquanto maquiava o rosto, olhou para Twilight que subira na cama e acabava de roer o que restara da meia.

Pronta para um novo dia, Luciana saiu do apar­tamento. De propósito ignorou o Buick e o motorista que continuava na mesma posição da véspera. Foi buscar o carro na esquina e dirigiu-se à loja. Espe­rava terminar tudo com Bill naquele dia mesmo. Iria dizer-lhe que dispensasse seus cachorros poli­ciais ou ela o processaria por perseguição. Afinal, estavam legalmente divorciados, não estavam? Ela tentara ser amável, tentara manter amizade com o ex-marido, mas estava na hora de cortar o cordão umbilical.

Luciana ligou o rádio do carro, distraindo-se com a música jovem que tocava. Sentia uma onda de otimismo invadindo-lhe as veias. Era uma linda ma­nhã e aguardava com ansiedade os eventos do dia.

Uma das boas coisas da loja do penhores era o fato de nunca haver dois dias iguais.

Ela estacionou em frente à loja, no espaço que lhe era reservado. Um sentimento de orgulho apos­sou-se de sua mente enquanto subia os poucos de­graus da porta de entrada. Olhou para a placa com letras negras onde estava escrito: LOJA DE PE­NHORES VINNIE. Quando seu pai aposentou-se, cerca de um ano antes, ela nem cogitara em mudar o nome da loja. Durante vinte e cinco anos o negócio fora de Vinnie, e continuaria com o mesmo nome, como uma homenagem ao pai. Com um sorriso ela destrancou a porta e entrou.

Durante segundos recusou-se a aceitar o que via. Todo o conteúdo da loja estava esparramado no chão, numa desordem incrível. Bibelôs e pratos tinham sido quebrados, e pelo soalho espalhavam-se os ca­cos, agora esmagados por seus pés.

Peças de mobiliário haviam sido dilapidadas, sem respeito algum pela antigüidade das peças ou pelo valor. Como num sonho... não, como num horrível pesadelo, ela começou a andar vagarosamente na direção do pequeno escritório nos fundos da loja, tremendo de emoção por causa do vandalismo que a rodeava.

A cena que presenciou no escritório foi ainda pior. As gavetas da escrivaninha haviam sido esvaziadas e os papéis, jogados pelo chão. Sua impressão era de que um diminuto, mas destruidor tornado varrera com sua força toda a loja.

Meu Deus! — exclamou. — O que houve por aqui? E por quê? — Primeiro foi o choque, depois a raiva, a revolta.

A polícia... ela precisava chamar a polícia. Os ho­mens da lei encontrariam os vândalos que haviam feito aquela maldade. E castigariam quem ousara destruir sua loja.

Lágrimas de ódio quase a cegavam enquanto cor­ria para a rua à procura de um homem de uniforme azul. Começaram a rolar em abundância, livremen­te, quando já na calçada, desamparada, ela não sabia como pedir auxílio.

Gritou quando mãos firmes, de repente, segura­ram com força seus ombros esguios.
Capítulo 2
Luciana quase perdeu o fôlego e gritou mais uma vez, afastando as mãos que a agarravam. Reconheceu então o homem que a se­guira durante os últimos dias. O terror em seus olhos sumiu, sendo substituído por incontrolável ira.

— Você! — exclamou ela. — Você e Bill têm algo a ver com isso? — Ela apontou para a loja. — Pre­tendiam me provar que eu não poderia jamais viver por conta própria? Bem, não adiantou. Pode voltar e dizer a Bill que esse estratagema não funcionou. É um plano tolo. Nada nem ninguém poderá me forçar a viver com ele.

Sem uma palavra o detetive abriu a porta da loja e entrou, com a testa franzida e os músculos do maxilar retesados.

— Sugiro que você telefone para a polícia — disse ele.

— Obrigada pela sugestão, sr. Sherlock Holmes — Luciana respondeu com sarcasmo. Ela apertou as pálpebras rapidamente para dispersar as quentes lágrimas que ameaçavam cair.

O detetive colocou a mão no ombro dela, dessa vez com suavidade. E perguntou amavelmente:

— Há um telefone em sua loja?

— Sim.


Luciana levou-o ao local onde se encontrava o te­lefone. Ficou olhando para o detetive, que dava todas as informações à polícia. Ela ergueu uma cadeira do chão e arrumou a cúpula de um abajur de latão.

— Você não devia tocar em nada até a polícia chegar.

Luciana virou-se ao som daquela voz profunda. O intruso acabara de telefonar e encarava-a com atenção.

— Por que não passeia por aí e vê se descobre o que foi roubado? — sugeriu ele.

Luciana obedeceu, aliviada por poder fazer alguma coisa. Ardia em desejo de limpar aquilo tudo, mas reconheceu que o conselho do detetive era sensato.

Começou a andar de um lado para o outro, ligei­ramente perturbada pelo fato de sentir necessidade de olhar de quando em quando para o homem atraente junto à porta do pequeno escritório, com expressão inescrutável.

Ele era, na verdade, um magnífico espécime de masculinidade. Na noite anterior Luciana o exami­nara do pescoço para cima. Agora alegrava-se ao descobrir que o corpo perfeito combinava com o rosto. O detetive tinha a pele bronzeada, dourada mesmo. Vestia uma camisa branca que acentuava seus om­bros largos e a cintura estreita. A calça jeans, muito justa, moldava quadris firmes e pernas musculosas. Ele não tinha o físico de um homem que se exerci­tava com halteres, mas possuía atributos físicos de um nadador ou talvez de um corredor.

Não havia evidência de que passara uma noite inteira espremido dentro de um carro. A camisa es­tava ligeiramente amassada e a barba, um pouco crescida. Fora disso, era como se tivesse passado a noite em sua confortável cama.

Luciana desviou o olhar, furiosa. Que diabos es­tava fazendo? Por que admirar as qualidades físicas de um estranho quando sua loja fora reduzida a escombros?

— Achou falta de alguma coisa? — ele perguntou.

— Nada que eu possa saber de imediato. — Lu­ciana sentou-se na cadeira que erguera do chão há poucos minutos e desculpou-se: — Sinto muito... so­bre o que lhe falei antes. Eu estava nervosa. Sei que Bill não tem nada a ver com isto tudo. Ele não se rebaixaria tanto!

O detetive limitou-se a fazer um aceno de cabeça, sua expressão indecifrável.

— Tenho certeza de que você sabe meu nome — Luciana acrescentou —, mas desconheço o seu.

Céus, sua loja de penhores fora destruída, o van­dalismo imperara, e ela sentava-se lá, à vontade, querendo saber o nome de um homem que havia sido contratado para segui-la durante os três últimos dias. Poderia seu comportamento ser mais ridículo?

O detetive sorriu.

— Meu nome é Tony Pandolfini.

Nesse instante dois carros da patrulha policial pararam junto à loja, as sirenes anunciando que alguma coisa ia mal.

As duas horas seguintes passaram rapidamente enquanto os policiais verificavam o estrago, procu­ravam o lugar onde o pé-de-cabra fora usado para quebrar a fechadura da porta dos fundos, e faziam perguntas e mais perguntas.

Luciana estava exausta respondendo ao intermi­nável interrogatório da polícia. Não, não havia ar­mas na loja. Não, nenhum de seus clientes ficara aborrecido com ela o suficiente para cometer tama­nho vandalismo.

Os policiais, com o auxílio de Luciana, chegaram à conclusão de que a única coisa desaparecida fora o livro de contabilidade, um diário com as transações escritas em detalhes. Os estéreos, os equipamentos de vídeo, os televisores, até a caixa registradora, tudo enfim, ficara intacto.

Os policiais fizeram alguns apontamentos num pequeno livro de capa escura e saíram, mas não sem antes declarar que, na opinião deles, a destrui­ção fora feita por jovens numa noite de farra.

Assim que os policiais saíram, Luciana começou a arrumar as coisas, perguntando-se se algum dia a loja voltaria a ser a mesma.

— Deixe isso por hoje — sugeriu Tony. — Vá para casa e relaxe.

Luciana deu um salto ao ouvir a voz do detetive, pois se esquecera da presença dele. Sacudiu a cabeça e respondeu:

— Jamais poderia descansar deixando esta con­fusão aqui.

Tony fez um gesto com a mão, mostrando que entendera, e pegou logo uma vassoura que estava num canto da sala. Começou a varrer os pedaços de louça quebrada que brilhavam aos raios de sol que entravam pela grande vitrina da loja.

— Você não precisa fazer isso — ela protestou.

— Eu sei, mas quero. — Tony fitou-a sorrindo e continuou varrendo.

Luciana ficou observando-o por algum tempo; em seguida deu de ombros e voltou a trabalhar. A seu pedido, Tony afastou os curiosos da loja, permitindo a entrada apenas aos clientes.

Duas horas mais tarde ela sentou-se, exausta. Olhou à volta e ficou grata ao constatar que tudo voltava aos poucos ao normal. Suspirou, endireitan­do o corpo ao ouvir um barulho nos fundos da loja. Notando que Tony desaparecera, foi à sua procura e encontrou-o exatamente na porta dos fundos. Ele martelava alguns pregos na porta e disse, sorrindo:

— Espero que você não se importe, mas encontrei uns pregos e um martelo e achei interessante deixar esta entrada fechada até que seja restaurada. Uma porta nova precisa ser colocada aqui.

Luciana agradeceu e foi para a frente da loja onde sentou-se de novo, afastando com o dorso da mão os cabelos louros grudados na testa.

Tony sentou-se ao lado dela e disse:

— Acho que fizemos um bom trabalho hoje, Lu­ciana Weatherby.

— E eu agradeço por seu auxílio.

Tirando do bolso um lenço, ele limpou-lhe a testa.

— Por que... por que isso agora? — Luciana per­guntou, afastando o rosto.

— Nunca levo para almoçar uma mulher com a cara suja.

— E o que o faz pensar que vou almoçar com você?

— Já passa do meio-dia. Estou com fome e penso que você também esteja. Com certeza pode fechar a loja um pouco mais cedo após essa experiência tão desagradável.

Luciana ia protestar, irritada com tanto conven­cimento. Contudo... ele tinha razão. Estava com fo­me e sem disposição para continuar com a loja aber­ta pelo resto da tarde. Sentia-se de fato exausta, e nada lhe parecia mais convidativo que almoçar em um restaurante antes de ir para casa, onde a aguar­davam um banho quente e um sono reparador.

— É verdade, estou com fome — reconheceu.

— Há um pequeno restaurante na esquina. A comida parece ser boa. Chama-se Olive. Você já esteve lá?

— Muitas vezes. — Tomada a decisão, Luciana levantou-se e pegou a bolsa. — Podemos ir — disse.

Antes de sair, voltou-se para olhar o interior da loja. Tudo estava praticamente em ordem, mas não era o mesmo local de antes.

— Algo errado? — Tony indagou.

Luciana sacudiu a cabeça lentamente, depois saiu e trancou a porta. Como poderia explicar-lhe que agora a loja fora manchada, violada? Estranhos ha­viam entrado lá, tocado em suas coisas, quebrado tudo, destruído a paz que ela sempre tivera enquan­to trabalhava.

Caminharam em silêncio até o restaurante, e o pensamento de Luciana concentrava-se no homem ao seu lado. Que espécie de indivíduo era aquele? Como podia ganhar a vida seguindo pessoas, tal qual um espião? Ela sempre considerara esse tipo de gen­te desprezível. Porém Tony Pandolfini estava longe de ser desprezível. Além de atraente, fora bastante amável ajudando-a a pôr a loja em ordem.

Talvez depois do almoço conseguisse convencê-lo a conversar com Bill, pedindo que desistisse da perse­guição. Ela gostaria tanto de ficar livre de novo, sem ter alguém constantemente observando-a, seguindo-a...

Assim que entraram no restaurante, Olive, a obe­sa proprietária, cumprimentou-os.

— Alô, Luciana. Ouvi dizer que houve algo ex­traordinário em sua loja esta manhã.

— Sim, arrombaram a loja, mas nada de valor foi roubado — Luciana respondeu, notando que Oli­ve lançava um olhar guloso a Tony, como se ele fosse um manjar delicioso.

— Que posso servir a vocês hoje? — ela perguntou, não tirando os olhos de Tony, que piscou malicio­samente para a pesada mulher.

— Quero hambúrguer, batatas fritas e um copo de chá gelado — Luciana pediu, já arrependida de haver aceitado almoçar com um estranho, embora esse estranho exercesse uma atração magnética so­bre ela e tivesse uma covinha no queixo.

— E você? — Olive sussurrou no ouvido de Tony, sorrindo. — O molho de macarrão está delicioso.

— Feito em casa? — Tony indagou, também sorrindo.

— Sim, por estas mãos que você está vendo aqui. — Olive acenou para ele.

— Bom, quero o macarrão.

— Vou pôr duas almôndegas a mais no seu prato — Olive declarou, com olhar lânguido.

— Você é um amor. — Tony presenteou a mulher com um sorriso sedutor.

Luciana observava aquela troca de palavras com desagrado, mal acreditando no poder de sedução da­quele homem. Assim que Olive se retirou, ela co­mentou com Tony:

— Eu como neste restaurante quase todos os dias há meses. E nunca Olive me ofereceu nada a mais em meu prato.

Tony sacudiu os ombros, fitou-a com inocência fin­gida e disse:

— Talvez você não saiba como fazer seu pedido.

— Ou flertar de maneira ultrajante — Luciana sussurrou.

Por segundos Tony limitou-se a encará-la. Depois sorriu, dizendo:

— Ah, é possível que a linda flor tenha espinhos? — Ele tocou-lhe a mão levemente.

— É possível, sim. E é perigoso chegar muito perto de uma flor espinhosa. Pode ficar preso nos espinhos.

Ela puxou a mão, irritada com a súbita onda de calor que percorreu seu corpo a esse simples toque.

— Há homens que adoram o perigo. Mas diga-me, Luciana, foi por isso que se divorciaram? Porque você é cheia de espinhos?

— E foi por isso que você decidiu abraçar a pro­fissão de detetive particular? Porque adora o perigo? — ela indagou, fingindo indiferença.

— Foi. Afinal, o que mais deseja saber sobre mim? OK, vamos em frente. Tenho trinta e seis anos. Exerci a profissão de policial durante onze anos. Fui um bom policial, mas resolvi abrir meu próprio negócio. E trabalho como detetive particular há quase um ano.

— Esse novo negócio deve ser horrível quando se pega um caso como o de Bill.

— Geralmente não aceito casos assim, mas con­fesso que este me intrigou.

— Intrigou? — Luciana deu uma gargalhada. — O que o intrigou sobre mim e Bill?

— Oh, não foi tanto por Bill. Eu o analiso como um homem apaixonado, um ex-marido obcecado. Mas o que me intrigou acima de qualquer coisa foi o que ele me disse. Contou que já havia contratado dois detetives e que você descobrira tudo no espaço de algumas horas.

— Reconheço, Tony, que você é bem melhor que os outros dois. Seguiu-me durante três dias. Os ou­tros fracassaram no primeiro.

— Na verdade, para sua informação, segui-a durante seis dias, madame. Você é boa, mas eu sou melhor.

— Não acredito! — ela protestou. Tentou lembrar-se do que fizera nos últimos dias. Não, teria percebido se alguém a houvesse seguido durante quase uma semana. — Eu... teria notado sua presença... Eu teria sabido...

Tony tirou do bolso uma caderneta preta. Folheou-a e começou a ler:

— Quarta-feira à noite, o objeto de minha inves­tigação, uma mulher, parou na mercearia antes de ir para casa, vindo do trabalho. Foi para a cama às dez horas. — Tony fitou-a com olhar malicioso. — Por sinal, achei muito atraente aquele pedacinho de pano que você usa para dormir.

Luciana abriu e fechou a boca várias vezes, ul­trajada. Por instantes sua indignação foi grande, mas não lhe vinham palavras.

— Isso é detestável — ela protestou afinal, agar­rando a bolsa com intenção de se retirar.

Porém Olive chegou naquele momento com o pe­dido, impedindo-a de passar. Assim que Olive se retirou, ela prosseguiu:

— Acho você um homem grosseiro e antipático, e o trabalho que escolheu é igualmente odioso.

Ela olhou para o hambúrguer ali na mesa, con­vidativo. Resolveu então comer e depois ir para casa, deixando para trás aquele homem horrendo que in­vadira sua privacidade completamente. Sim, ele de fato a vira de camisola, uma camisola bem reduzida.

— Sinto muito ter aborrecido você — sussurrou Tony.

Mas Luciana não achou que ele "sentisse muito". Na verdade, divertia-se, e isso a enfureceu ainda mais.

Ela não respondeu e ambos concentraram-se no almoço.

— Uma loja de penhores é trabalho esquisito para mulher tão jovem, não acha? — Tony enfim rompeu o embaraçoso silêncio.

— O que há de errado nisso? — Luciana indagou, de maneira defensiva.

— Nada. Apenas disse que era esquisito. Você é sempre assim sensível?

— Somente com serpentes que me espionam — ela falou bruscamente, sem fitá-lo.

— Luciana... vamos fazer uma trégua ao menos até o fim do nosso almoço? Hostilidades sempre me dão indigestão.

— Muito bem, uma trégua — ela concordou —, mas apenas até o fim da nossa refeição. — Luciana sorriu. — Não quero ser responsável por sua indigestão.

— Bom. Agora conte-me por que adotou esse tipo de trabalho.

— Praticamente cresci numa loja de penhores. Nunca passou pela minha cabeça trabalhar em qual­quer outra espécie de atividade. Meu pai sempre me disse que eu fora levada à loja de penhores por um anjo que me trocara por uma harpa de ouro. Durante muitos anos não pude entender essa his­tória porque sempre pensei que harpas de ouro fossem um equipamento que cada anjo recebia antes de entrar no céu. Sabe, todos os anjos têm asas, uma veste branca e uma harpa de ouro.

— Seu pai me parece um homem muito especial — Tony observou.

— Oh, ele é. Minha mãe morreu quando eu era bem pequena e foi meu pai quem me criou. Ele é forte como um tigre, muito corajoso e independente.

— E suspeito que a filha seja tão independente quanto o pai.

— É algo que meu ex-marido nunca pôde aceitar. Mas, falando em Bill, gostaria que você me fizesse um favor. Quando apresentar seu relatório a ele, diga-lhe que pare de me importunar, que pare de me espionar.

— Bill não considera isso espionagem. Conforme me disse, está fazendo papel de anjo da guarda. Ele não gosta do lugar em que você mora e preocupa-se com o tipo de trabalho que você faz.

— Isso é ridículo. Não preciso de um anjo da guar­da — Luciana protestou. — Tudo o que quero é ser deixada em paz.

— Ele ainda ama você — disse Tony, tentando ex­plicar o comportamento de Bill em relação à ex-esposa.

— Bill não me ama, ele pensa que me ama. Apenas não quer me perder. Tem certeza de que o deixei por outro homem, e não ficará satisfeito até provar o fato. Isso o absolve do fracasso. Assim se conven­cerá de que o rompimento não aconteceu por sua culpa, mas por causa do outro. — Luciana calou-se, achando que já falara demais.

Terminaram de comer em silêncio enquanto ela pensava no problema do vandalismo na loja. Preci­sava avisar a companhia de seguros a fim de infor­mar sobre o prejuízo. Pagava uma quantia exorbi­tante de seguro, e esperava alguma compensação.

Acima de tudo, o que a preocupava, o que a de­primia mesmo, era ter de contar aos clientes que seus objetos haviam sido destruídos. Eles confia­ram-lhe os pertences, acreditando que ficariam se­guros até o momento em que fossem devolvidos. Por­tanto, ela achava que os iludira, que traíra a con­fiança deles, e isso a fazia sofrer mais do que tudo.

— Você está bem? — perguntou Tony.

— Eu pensava nos problemas da loja, nas coisas quebradas. Francamente, nenhum dos objetos valia muito, mas, para meus clientes, tinham um valor inestimável.

— Você não pode se culpar pelo arrombamento, Luciana.

— Sei disso, mas eu deveria ter instalado um sistema de segurança mais eficiente.

— Você é vítima, não se esqueça. Não se culpe. Se quer culpar alguém, culpe a pessoa que arrombou a loja. E agora, está pronta para sair?

— Sim —ela disse, levantando-se. Tirou da bolsa uma nota de vinte dólares. — O almoço é por minha conta — declarou firmemente, enquanto se dirigia à caixa.

— Oh, não, de jeito nenhum. Fui eu que convidei — Tony protestou.

— Por favor, deixe-me fazer isso. Depois de todo o auxílio que você me prestou limpando a loja, sinto que lhe devo alguma coisa.

— Não quer dever favor a ninguém, é isso? Acer­tei? OK, Luciana, pague o almoço. E agora, vai voltar para a loja?

— Não. Prefiro ir para casa. Quero telefonar à companhia de seguros. E você, o que pretende fazer considerando-se que já descobri seu disfarce? Não vai mais me seguir, vai?

— A primeira coisa que tenciono fazer agora é dormir durante vinte e quatro horas. — Tony sorriu, e pela primeira vez Luciana notou que ele estava cansado. — Depois, esperarei pelo próximo caso.

— Terá de esperar muito?

— Não sei. Talvez sim, talvez não. Tenho outras ocupações com grandes companhias como consultor particular em seguros. Visito-as periodicamente a fim de verificar seus sistemas de segurança, avaliar o funcionamento e dar sugestões quanto à melhoria dos mesmos. — Eles pararam junto ao carro de Lu­ciana. — Vou acompanhar você até o apartamento.

— Não é necessário. — Luciana protestou, sen­tindo que seu antigo ressentimento voltava.

— Eu insisto. Sempre acompanho meus clientes. Vá que eu sigo atrás de você.

— Oh não, não. — Ela entrou no carro, fechou a porta depressa, deu a partida e saiu, rindo muito ao ver a cara de Tony, surpreendido ao constatar que não fora esperado.

Ela ignorou a buzina do raivoso motorista e seguiu a toda velocidade.

Reconhecia não ter evitado totalmente que Tony fosse ao seu apartamento. Tony sabia aonde ela ia, sabia onde morava. Porém essa temporária fuga dei­xou-a feliz. Não queria mais investigações sobre sua vida; apenas queria ser deixada em paz.

Dirigiu o mais depressa possível através do trá­fego pesado, decidida a estar dentro do apartamento antes que ele pudesse alcançá-la. E ficaria satisfeita se nunca mais na vida fosse seguida por um detetive particular.

Ao entrar na rua onde morava, freou o carro com uma exclamação de espanto. Lá, no local onde nor­malmente estacionava, estava o Buick bege. Apesar da distância, ela pôde perceber o sorriso divertido de Tony.

Amaldiçoou-o e foi estacionar na esquina. O ho­mem queria mesmo ser seu anjo da guarda.

— Eu falei que... você era boa, mas eu sou melhor — Tony disse ao descer do carro, fitando-a com um sorriso preguiçoso na face arrogante.

— Não vejo nada de engraçado nisso — Luciana declarou.

— Não diga! E eu me esforcei tanto... Mas lhe confessei que sempre acompanho meus clientes para maior segurança.

— Esqueceu-se de que não sou sua cliente?

— Ah, é aí que você se engana. Está sob minha responsabilidade até eu entregar o relatório a Bill.

— Isso é absolutamente ridículo.

Antes que ele retrucasse, Luciana deu-lhe as cos­tas e entrou no prédio. Não esperou o elevador, su­bindo os quatro lances de escadas. Ao tirar as chaves da bolsa, elas caíram no chão. Tony, que vinha logo atrás, apanhou-as e abriu a porta. Saudou-a com uma inclinação exagerada de cabeça e disse:

— Agora meu trabalho está oficialmente termi­nado. A dama está entregue, sã e salva.

— Santo Deus! — Luciana gritou, ao entrar no apartamento. Tudo se apresentou a seus olhos como um verdadeiro caos. — O que houve por aqui? — Ela não podia entender a razão de tanta crueldade.

— O que foi? — Tony empurrou-a para o lado.

Ela abriu a boca para se queixar do rude trata­mento, mas calou-se ao vê-lo com um revólver na mão.

— Fique atrás de mim — ordenou ele num sus­surro, entrando no apartamento. — Quem quer que tenha feito isso ainda pode estar aqui.

Não seria necessário dizer duas vezes.

— Tony... um revólver?! — exclamou, colando o corpo nas costas de Tony.

— Psiu! — ele murmurou, dando outro passo.

Assim unidos, os dois examinaram o apartamento todo, cada canto, cada armário. Ao passarem diante do espelho do quarto, Luciana não conseguiu segurar o riso por causa da figura grotesca de ambos. Pa­reciam fazer parte de um balé de vaudeville, sem música. Porém o que achou mais engraçado foi a cara compenetrada de Tony, muito tensa. Via-se que estava acostumado a situações perigosas.

— Tudo OK, não há ninguém aqui — ele disse, baixando a arma.

— Tem certeza? — Luciana sussurrou, ainda agar­rada a ele como um animalzinho à mãe.

— Absoluta — Tony respondeu. — Francamente, estou começando a gostar um pouco mais da pro­fissão que escolhi.

Luciana corou até a raiz dos cabelos e deu um passo atrás, de súbito consciente de como seus seios tinham ficado comprimidos contra os firmes mús­culos das costas de Tony.

Um tremor violento sacudiu-a ao ver as ruínas que a rodeavam. Tocava um item aqui, outro acolá, soluçando ao ver seus queridos objetos quebrados, destruídos. O apartamento todo fora revirado, nada ficara intocado. Ela fitou Tony, com muita tristeza no olhar.

— Por quê? — indagou. — O que está havendo?

Tony sacudiu os ombros, não tendo resposta a dar. Incapaz de controlar o espasmódico tremor de seu corpo, Luciana sentou-se no sofá, respirando com dificuldade. Não se conformava em ter sido agredida não uma, mas duas vezes em vinte e quatro horas.

Observava Tony andando pelo apartamento. A te­levisão fora destruída, as almofadas das poltronas, rasgadas. Na cozinha, as gavetas dos armários ha­viam sido postas no chão e esvaziadas.

— Tenho a impressão de que alguém procura al­guma coisa — disse Tony.

— Mas o quê? Não possuo nada de valor. Algumas peças de móveis podem ser valiosas para um cole­cionador de antigüidades, mas nada foi roubado... ao menos nada do que posso ver de imediato.

Tony foi à cozinha e voltou trazendo um copo de água gelada. Deu-o a ela.

Luciana pegou o copo. Tinha a garganta seca, mas os olhos molhados por causa das lágrimas.

— Precisamos conversar — disse ele.

Luciana limitou-se a fazer um sinal afirmativo com a cabeça, perguntando-se o que havia para ser con­versado. Ela com certeza não teria explicações a dar quanto ao motivo das loucuras cometidas naquele dia.

— Acho bastante óbvio que o arrombamento da loja de penhores e o de seu apartamento têm alguma conexão — acrescentou Tony. — Parece-me estranho nada ter sido roubado. Havia na loja televisores, aparelhos de som, videocassetes, etc. No entanto, a única coisa desaparecida foi o livro da contabilidade diária.

— A polícia acredita que os ladrões foram inter­rompidos antes que pudessem roubar alguma coisa. Talvez tenham pegado o livro por engano e a essa altura já o tenham jogado fora.

— Não aceito nenhuma dessas explicações, especial­mente agora — Tony comentou. — É coincidência de­mais sua loja e este apartamento terem sido arrom­bados ao mesmo tempo. O que eles estarão procurando?

— Como posso saber? Já lhe disse antes, não tenho nada de grande valor. Ao menos nada que valha o esforço de um arrombamento.

— Há pessoas que pensam o contrário.

— Isso é problema delas — Luciana respondeu, com ar cansado.

— No momento, parece-me que isso é problema seu. A loja é sua, Luciana. Você emprestou dinheiro de alguém ultimamente? Não há nenhuma associa­ção poderosa por trás de seu negócio?

Por instantes ela fitou-o com incredulidade. De­pois disse:

— Você está me perguntando se tenho alguma conexão com organizações criminosas? Não seja ri­dículo! — Luciana fitou-o, subitamente em dúvida. — Como posso saber se você não tem algo a ver com essas organizações? Minha vida foi sempre mui­to sossegada, um livro aberto, até você entrar nela.

— Acho que devemos confiar um no outro, Luciana — Tony disse afinal com muita calma.

— Penso que sim — ela concordou, cansada demais para continuar com sua suspeita e se dando conta de que o envolvimento de Tony nessa confusão toda não tinha nada a ver com organizações criminosas.

Estava tão aborrecida com a desordem que se er­gueu do sofá para tomar uma providência.

— Vamos chamar a polícia e relatar o ocorrido — Tony sugeriu.

— Não! Não quero ninguém aqui agora. Não quero mais ninguém andando pelo meu apartamento, in­vadindo minha privacidade. — Ela sacudiu os om­bros. — Além do mais, o que os policiais poderão fazer? Perguntar mil coisas e depois me dizer que tudo foi obra de meninos drogados que não tinham com que se ocupar?

Luciana voltou a limpar o apartamento, e não pro­testou quando Tony começou a trabalhar ao lado dela.

— Acho que vou ter de lhe pagar outro almoço — comentou, sorrindo apesar da fadiga.

Tony sorriu também, um quê de humor em seus olhos cor de ébano.

— Tenho a impressão de que, antes de tudo isto acabar, você terá de me pagar muitos outros almoços.





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