Carisma e liderança: o Espírito Santo vive hoje em nós e nos dá alento



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Carisma e liderança: o Espírito Santo vive hoje em nós e nos anima.

Seán Sammon, Superior Geral dos Irmãos Maristas


Vida Religiosa é uma publicação periódica, editada pelos Missionários Claretianos, dirigida aos consagrados e consagradas do mundo inteiro. Com mais de sessenta anos de existência, a revista chega hoje a mais de 8.500 comunidades de cerca de noventa países e é a mais difundida de seu gênero em todo o mundo.
Ninguém hoje vive tempos fáceis: nem as sociedades, nem a Igreja, nem a vida consagrada. Nos tempos em que vivemos, desempenhar uma tarefa de animação é de grande complexidade. Ao falar sobre isso, o Irmão Sean Sammon, bom conhecedor do assunto, fala do sentido da vida consagrada em geral. Trata-se de uma leitura estimulante, com boas perguntas de fundo.
Numa manhã de segunda-feira, 7 de agosto de 1896, Mary Irene Fitzgibbon era sepultada na cidade de Nova York. Vinte mil pessoas acompanhavam o cortejo, caminhado atrás do singelo carro fúnebre que transportava seus restos, o que motivou o Herald a informar o enterro no dia seguinte qualificando-o de “acontecimento sem precedentes”. Esta mulher de fé gozava de tanta estima entre os habitantes da cidade que o New York Times disse simplesmente em suas manchetes: “Morreu a Irmã Irene”. Todos sabiam quem era.1
Mary Irene Fitzgibbon foi a fundadora do Foundling Asylum, conhecido posteriormente como New York Foundling Hospital. Houve uma época em que essa instituição dava abrigo a aproximadamente 600 mulheres e 1.800 crianças. Quando a fundadora morreu, era a única entidade desse tipo na cidade de Nova York que assegurava atendimento a todas as mulheres e crianças que batiam à sua porta, fosse qual fosse a sua religião, raça ou etnia, estado civil ou situação econômica.
Por que conto a história desta Irmã da Caridade ao iniciar uma reflexão sobre carisma e liderança? Será pelo desafio poderoso e inequívoco que ela, e os que com ela trabalhavam, faziam aos que maltratavam os necessitados por causa de sua pobreza e as mulheres solteiras por sua transgressão sexual? Ou talvez porque a sua tenacidade nos recorde, mais uma vez, que o autêntico ministério da Igreja consistiu sempre em cuidar dos outros, em vez de buscar a realização pessoal? Ou pode ser ainda que isto me venha à mente porque aquela mulher tinha esse dom especial que caracteriza os líderes religiosos, não importa a época em que lhes coube viver?
Não. As razões são outras. A história de Irene vem à tona porque ela entendeu que o carisma tem pouco que ver com questões de gestão e manutenção, e muito que ver com a missão. E também por outro motivo: porque ela soube responder ao desafio da liderança religiosa de seu tempo com audácia, coragem e simplicidade. Esta filha de imigrantes não se preocupava em fazer as coisas corretamente, mas em fazer o que era correto. E isso desde os primeiros momentos de seu trabalho apostólico.
Nesta reflexão quero realizar três tarefas. Na primeira, desenvolver algumas idéias em torno do carisma, definindo-o da melhor maneira possível, para ver o que nos diz sobre nossa vida e missão como religiosos que recebemos a graça de viver na primeira parte do século XXI, quando somos chamados a liderar nossas províncias, congregações e institutos.
Na segunda tarefa, abordarei o tema da liderança em geral e da liderança religiosa em particular. É importante distinguir esta última de outras possíveis formas de liderança, por exemplo, a liderança cívica, a corporativa, a de consenso e outras similares. A autêntica liderança religiosa se torna sempre paradoxal. Não luta para alcançar seus próprios fins, antes preconiza uma santa indiferença. Não se vangloria de seus próprios recursos, mas, em vez disso, tem confiança ilimitada na misericórdia e na sabedoria de Deus. A liderança religiosa, generosa e audaz, quando é genuína, cativa a mente e transforma os corações.
Como terceira tarefa de minha exposição, relacionarei a questão do carisma e da liderança religiosa com a tarefa de renovação que temos em mãos neste momento. Em minha visão, a vida religiosa neste país está exatamente onde tem de estar, seguindo seu caminho de peregrinação.2 Mas também dá a impressão de que talvez se encontre na encruzilhada mais perigosa em que se tenha visto até agora, porque as decisões que tomarmos hoje sobre nossa vida e missão, aqui nos Estados Unidos, terão conseqüências nos anos vindouros para nossas respectivas províncias e distritos, assim como para nossas congregações e institutos em geral e também para a própria Igreja. É preciso ter muito clara nossa identidade: somos homens e mulheres de missão. E nessa missão entra também a responsabilidade de constituir a memória viva daquilo que a Igreja deseja ser.
Estou plenamente consciente de que, quando trato destes temas, de certo modo falo como estranho. Há mais de catorze anos vivo fora dos Estados Unidos e não tenho a pretensão de conhecer e avaliar, com tantos detalhes como vocês, tudo o que tem sucedido ao longo deste período. Mas os usos e costumes deste país me têm acompanhado desde o dia em que nasci; os múltiplos aspectos generosos e positivos de sua cultura são tão evidentes para mim como os elementos dessa mesma cultura que se contrapõem ao nosso estilo de vida. Sei também que temos em comum o mesmo sonho de renovação da vida religiosa neste nosso tempo. Com esse espírito, portanto, dou início à minha reflexão sobre o carisma.

CARISMA
Mais de uma vez nos disseram que o carisma foi para nossos fundadores, juntamente com seus dons pessoais e os acontecimentos da história, um fator que influiu poderosamente neles até chegar a modelá-los e orientar suas vidas. Mas, o que exatamente querem dizer essas palavras?
Alguns usam esta expressão para descrever um tipo particular de personalidade, ou para caracterizar certos movimentos. Outros sublinham que se refere a tarefas específicas, relacionadas com a inspiração fundacional. Mas não há nenhuma definição que lance demasiada luz sobre o caráter de nosso modo de vida hoje, ou sobre o lugar que o carisma comporta.
Ainda assim, é importante darmos uma explicação adequada do que é o carisma, porque, sem ela, não poderemos avaliar em profundidade nem o apelo que nossos fundadores ouviram em sua vida, nem o que ouvimos nós. No âmbito do que aqui estamos analisando, o carisma é entendido como dom que o Espírito concede livremente para o bem da Igreja e para o proveito de todos. Não devemos confundi-lo com a graça. O carisma nos é dado pelo amor de Deus ao mundo; a graça, pelo amor gratuito de Deus à pessoa.3
O fato de os carismas estarem difundidos entre todos e ao mesmo tempo serem verdadeiramente únicos, eis o que intrigava o Apóstolo São Paulo. Ele insistia em que cada pessoa recebe determinado carisma, outorgado para o bem comum (cf. ICor 12,7). Paulo também nos ajuda a entender que o carisma, que faz parte de nossa vida, é elemento importante na contínua e necessária mudança de coração que deve realizar-se em nós. Mas, exceto Paulo, o conceito de carisma aparece pouco no Novo Testamento. Por isso é tão difícil nos acostumarmos à idéia de que somos portadores de um dom pessoal do Espírito, destinado ao serviço de todos. Para nós é um desafio chegar a conhecer e a entender as diversas formas pelas quais Deus se faz presente em cada um para o bem de todos.
O CARISMA NUM INSTITUTO RELIGIOSO
Quando falamos de carisma em relação a um instituto religioso, a palavra tem um alcance diferente de quando se aplica aos indivíduos. Há duas razões para isso: uma é que o carisma de um instituto resistiu à prova do tempo; a outra, que foi modelado por muitas pessoas diferentes. A presença destes dois elementos, isto é, permanência no tempo e ter sido modelado por muitas pessoas, eis o que faz com que um carisma se estenda do âmbito pessoal ao da Igreja universal.
Durante os anos que se seguiram ao Concílio Vaticano II, o papa Paulo VI contribuiu grandemente com sua doutrina para o conhecimento dos carismas, e nos ajudou a esclarecer o que eles significam hoje para nós. O carisma da vida religiosa, como ele escreveu, longe de ser um impulso nascido “da carne e do sangue”, ou originado por uma mentalidade que se adapta ao mundo presente, é o fruto do Espírito Santo, que atua sempre na Igreja.4
Em continuação, assinalava diversos aspectos que caracterizam a presença de um carisma: fidelidade ao Senhor, atenção aos sinais dos tempos, iniciativa audaz, constância na doação de si mesmo, humildade para suportar a adversidade e boa disposição para fazer parte da comunidade dos fiéis.
Os carismas que vieram à Igreja e ao mundo por intermédio de nossos fundadores representam muito mais que uma atribuição de tarefas concretas que respondam a seu sonho original; mais que um estilo particular de oração, ou determinada espiritualidade, por mais importante que tudo isso possa ser; e mais que uma mescla das qualidades que marcaram a vida de um ou de outro fundador.
Podemos afirmar que o carisma de nossos institutos é nada menos que a presença vida do Espírito Santo. Deixar que o Espírito atue em nós e por nosso intermédio pode trazer resultados surpreendentes. O relato a seguir está relacionado com isto. Em 1686, depois de mais de trinta anos de exílio em Bilbao, cidade do norte da Espanha, duas mulheres irlandesas, Religiosas Dominicanas, partiram novamente para sua terra de origem. Agiram assim por instância do Provincial dos Frades de São Domingos, que pensava ter chegado a hora de restabelecer um convento em Galway, no oeste da Irlanda.
Enfrentando as circunstâncias, Mary Lynch e Juliana Nolam saíram de navio para a sua pátria de barco, com plena consciência de que em sua chegada à Irlanda encontrariam muitas coisas desconhecidas. Quando se escrever a história definitiva da vida dos Dominicanos na Igreja, estas duas religiosas ocuparão um lugar de destaque, porque enfrentaram o exílio, a guerra, as revoltas políticas, as esmagadoras leis anticatólicas, viagens cheias de adversidades e insegurança econômica, para reimplantar o carisma da ordem em sua terra natal. Mary tinha sessenta anos ao empreender essa tarefa, e sua companheira Juliana, setenta.5
Quem senão o Espírito Santo poderia dar-nos coragem para fazer o que fizeram essas mulheres? A autêntica renovação exige um custo; às vezes o preço que temos de pagar é realmente elevado. Se estivermos seriamente interessados na renovação de nossas províncias e distritos, assim como de nossas congregações e institutos hoje, temos de deixar de lado desculpas como a idade, o temperamento, o medo do futuro etc. para nos dedicarmos com empenho à realização desse trabalho. Mas só poderemos fazê-lo, se em verdade cremos que o Espírito de Deus que se manifesta tão vivo e ativo em nossos fundadores também hoje anseia por infundir ânimo em nós.
Outro ponto, antes de seguir adiante. Disseram-nos muitas vezes que neste momento nosso estilo de vida está passando por uma mudança de paradigma. Que significa isso e o que tem que ver com carisma? Vejam, quando as dobradiças ficam velhas e enferrujadas, já não conseguem suportar o peso da porta. Precisam ser substituídas por outras novas, para que a porta possa abrir e fechar outra vez, e suavemente.6 Acontece o mesmo com a vida religiosa. O paradigma ou modelo que, durante certo tempo, nos serviu para explicá-la está em fase de mudança. Quando aquilo que um paradigma ajuda a explicar supera o que não pode explicar, ainda é útil. Mas quando acontece o contrário, é necessário encontrar novo modelo que explique a mudança que ocorreu.
Portanto, o desafio que temos diante de nós hoje é o de repensar o carisma de nosso instituto à luz dos sinais dos tempos. Temos aí uma tarefa que não é fácil e que exige de nós boa dose de santa indiferença.
INDIFERENÇA ESPIRITUAL
O termo indiferença pode soar estranho numa reflexão sobre carisma e liderança. No entanto, o nos faz falta, a nós que exercemos hoje um papel de liderança na Igreja, é precisamente isso, uma santa indiferença, ou indiferença espiritual. Este conceito tem raízes no princípio ascético de “a vontade de Deus e não a minha”. Falando com toda a simplicidade: estamos dispostos a deixar-nos conduzir pelo Espírito, e a aceitar que os desígnios de Deus, em determinado momento, possam ser mais certeiros que nossas idéias? Estamos abertos a lançar aos outros estas perguntas, que estão na mente e no coração de todos, mas nos lábios de apenas uns poucos?
A indiferença espiritual só pode estar presente em nossas vidas, se nos esvaziarmos de nós mesmos, e isso não pode ser obtido sem oração, sacrifício e temor de Deus. Vamos necessitar desta virtude, se queremos ser capazes não só de discernir a vontade de Deus a nosso respeito, mas também de nos livrar de todo o preconceito pessoal e de tirar a venda dos olhos, permanecendo nos lugares onde se pode ouvir a voz do Senhor, a fim de entender o que Ele pede hoje de nossas províncias e distritos.
Talvez não tenhamos conseguido completar esse processo no passado, o que pode explicar por que não poucos membros de nossos respectivos grupos tenham aceitado o processo de renovação só até certo ponto. No entanto, honestamente, pouco importa que o processo esteja de acordo com nossos gostos ou não. Se isso contribui para impulsionar nossa missão de tornar Deus conhecido e amado, não nos cabe outra opção a não ser acolhê-lo.
Dou um exemplo. Há três anos, meu próprio instituto decidiu responder ao chamado de João Paulo II para nos comprometermos mais seriamente na missão da Ásia, enviando 150 Irmãos a essa região.7 Nós somos no total 4.100 membros, divididos em 76 países do mundo. Mas o número de Irmãos na Ásia não chega a 200, distribuídos em oito países do continente. Não obstante, sabemos que ali habitam dois terços da população mundial. E o Informe das Nações Unidas sobre a juventude mundial de 2005 assinalava que as crianças e jovens mais pobres da terra vivem no sul desse continente.
Assim, fiz um apelo a todo o Instituto, pedindo voluntários para ir para lá. Logo se apresentaram cerca de duzentos. Alguns tiveram de ser dissuadidos, em razão da idade ou por outros motivos. Ainda assim, alcançamos a cifra de cento e cinqüenta. No entanto, quando a lista de voluntários se encerrou, havia provinciais que não estavam muito contentes. Uma coisa era apoiar o programa em teoria. Outra, descobrir que o coordenador da formação, ou o encarregado da pastoral, ou três dos melhores diretores da província se tinha oferecido pessoalmente para atender à missão na Ásia.
Até onde me recordo, não lembro de nenhum plano, no meu instituto, que tenha recebido uma resposta semelhante dos Irmãos, até mesmo por parte daqueles que, por várias razões, não deveriam ter maior interesse em comprometer-se. Ainda que estas iniciativas possam assustar-nos um pouco, ou deixar-nos com um pouco menos de recursos humanos nas províncias, se são obra do Espírito, devemos abraçá-las generosamente.
LIDERANÇA
Howard Grey, jesuíta, conta uma experiência vivida em seus anos de jovem sacerdote. Pediram-lhe que fosse dirigir um retiro a uma Irmã anciã que estava nas últimas fases de uma esclerose múltipla, e foi ao convento sem saber o que ia encontrar lá. Mas quando cumprimentou a irmã comprovou que estava diante de uma mulher inteligente, perspicaz, que não se lamentava em nenhum momento. O retiro transcorreu bem, mas a lição mais importante só chegou no último dia. Quando Grey foi despedir-se da Irmã, ela lhe disse estas palavras:
Padre, o senhor é um homem jovem, e eu uma mulher velha e moribunda, então os dois estamos em condições de receber algum conselho.
Quando eu era uma freira jovenzinha, pensava que o importante era dar ao Senhor minha cabeça. Então me dediquei a estudar intensamente, entrei na Universidade e consegui fazer o doutorado. Eu via o ensino como meu caminho para ir a Deus.
Porém, depois de alguns anos, surgiram em minha comunidade outras necessidades. Recebi como incumbência a gestão acadêmica universitária e tive de assumir a direção de uma da faculdade. Então pensei que o que Deus queria de mim eram minhas mãos, minha capacidade para obter grandes conquistas na faculdade e enaltecer desse modo a instituição.
E agora, o senhor vê. É muito difícil para mim lembrar-me das coisas e não sou capaz de segurar um copo de água. Desta maneira me dou conta, como nunca antes, de que o que Deus me estava pedindo todo o tempo era o coração. Padre, dê sua cabeça e suas mãos ao Senhor, mas leve sempre ao mesmo tempo o coração.8
Em face disso, eu lhes diria o seguinte: quando pedimos graça e ajuda para exercer nossa liderança, temos de pedir também a coragem de deixar que seja o Espírito Santo quem nos guie, junto com esse grande dom do coração que consiste em amar verdadeiramente a nossos irmãos. Vocês podem chamá-lo “graça de estado”. Podem chamá-lo como quiserem. O verdadeiro desafio da liderança religiosa, hoje, é que cheguemos a nos converter, em meio altos e baixos e aos riscos, em homens que saibam amar cada vez mais.
Ocorre que nossa missão é, antes de tudo e sobremaneira, uma missão do coração. Temos a responsabilidade de manter o carisma de nossos grupos diante de todos, neste tempo de convulsão e mudança, mas somos chamados igualmente a ter a mais profunda misericórdia para com nossos irmãos, quando tiverem tropeçado; a ser diretos e sinceros com eles, quando se tiverem extraviado do caminho; e a animá-los, quando se sentirem desalentados e cansados da viagem.
Só poderemos alcançar essa meta se chegarmos a nos conhecer e aceitar a nós mesmos, com todos os nossos dons e com nossas debilidades e falhas. Jesus foi capaz de falar aos corações decepcionados dos dois discípulos que se dirigiam a Emaús, porque também estavam com o coração aberto, com a fé provada, com a esperança desafiada e com o amor rompido.
Se vocês me pedirem que trace o perfil curricular necessário para designar um líder na vida religiosa de nosso tempo, incluiria na lista de tarefas: ajudar os outros a sonhar. Há alguns que fazem apostas no futuro. Outros insistem em que podem predizê-lo. Mas, com muita freqüência, só os sonhos e a coragem para torná-los realidade acabam por criar esse futuro e lhe dar forma. Jesus sabia, por experiência pessoal, que não podia haver caminho de Emaús sem o caminho da cruz.
Talvez me perguntem se tenho esperança na vida religiosa em seu futuro neste país. Sim, eu a tenho. É esperança arraigada na oração e na fé. É esperança que valoriza tudo o que se tem feito até hoje no processo de renovação, mas também me lembra que ainda há pela frente alguns desafios difíceis. É uma esperança que vai exigir de mim, e de todos nós, muita renúncia e capacidade de decisão em situações delicadas.
Vejo sinais de esperança no horizonte. Mas estamos numa hora em que é preciso fazer movimentos audaciosos na vida religiosa. Sofremos uma diminuição significativa, fomos objeto de todo o tipo de análise, fomos humilhados, fomos declarados enfermos terminais com tanta freqüência nestes anos que talvez tenha chegado a hora de dar início a essa séria experiência da qual tanto falávamos, há quatro decênios. Com isto não quero dizer, em absoluto, que o trabalho realizado ao longo destes quarenta anos tenha sido irrelevante. Mas talvez a esta altura devesse estar já numa clara atitude de bem discernir quais são os desígnios de Deus para o futuro de nosso estilo de vida neste país, e ter depois a valentia de responder com audácia, coragem e simplicidade.
Durante estes anos, cada vez mais Irmãos e irmãs foram fazendo sua própria travessia de transformação pessoal.9 A característica mais surpreendente desta metanóia é a relação, mais profunda e apaixonada, que chegaram a estabelecer com Jesus Cristo. Do mesmo modo, muitos leigos, homens e mulheres, que estão associados às nossas congregações e institutos, percorreram um caminho parecido e têm essa mesma experiência.
Ainda assim, se queremos que se produza verdadeira revitalização em nossas províncias e distritos, a transformação deve ir além da dimensão pessoal, até penetrar e remodelar o corpo inteiro do grupo. Daremos um passo importante na revitalização, quando os que experimentaram uma profunda mudança pessoal comecem a se agrupar num trabalho extensivo em rede, de modo que a experiência que eles viveram possa ser compartilhada, apoiada e fortalecida pelos demais.
Aqueles que foram chamados a ocupar postos de responsabilidade neste tempo, também têm de ir além de nossa esfera individual. O desafio que se coloca para nós é decidir com clareza a orientação da vida e a missão de nossos grupos, e ajudar seus membros a fazer o mesmo. Isto não significa que todos devam comprometer-se nas mesmas tarefas, ou que tenham de viver e trabalhar no mesmo lugar. Refiro-me a que, quando alguém nos pergunte “este instituto, esta congregação, em que se distingue?”, estejamos em condições de lhe dar uma resposta pronta e clara.
Existe também uma necessidade de mudança na forma de exercer as funções de governo nestes momentos, porque se no passado às vezes se produziram situações autocráticas em algumas províncias e distritos, hoje há lugares onde parece que a autoridade já não se exerce de nenhum modo. Alguns provinciais se converteram em coordenadores encarregados de manter o bem-estar e a felicidade de todos. Mas ninguém disse que os princípios de subsidiariedade e colegialidade devem ficar reduzidos a um mero exercício de consenso e compromisso coletivo. É certo que o consenso pode ser uma ferramenta útil na hora de tomar algumas decisões, mas há muitas outras ocasiões na quais um superior responsável deve saber decidir por si mesmo.
Vamos a outro exemplo. Acontece com freqüência que o provincial e seu conselho, à vista das necessidades que surgem em sua província, tenham de pedir a alguém que assuma determinada tarefa. Há várias respostas previsíveis. Uma: que o interessado diga sim, simplesmente. Dois: que responda “eu por mim diria que não, mas se necessita de mim, estou à disposição, é claro”. Três: que comece a falar de sua situação pessoal, argumentando por que vê que essa designação é inviável. É claro que o que está ocorrendo aqui é uma tensão manifesta entre as necessidades do indivíduo e as necessidades do grupo.
As duas coisas são dignas de respeito, mas se as necessidades pessoais são as que estão sempre à frente, há motivos para fazer algumas perguntas. Nós não entramos na vida religiosa para satisfazer nossas necessidades pessoais, mas para atender ao chamado de Deus e proclamar a iminência de seu Reino. Alguns de nós esperávamos também mudar o mundo, seguindo esse caminho. Por antiquado que possa soar, a vida religiosa sempre teve mais que ver com o sacrifício e a renúncia do que com a plena satisfação de nossas necessidades. Seu fim, como o de outros muitos projetos de vida que valem a pena, é chegar a alcançar a realização pessoal através da abnegação e da doação de si.
CARISMA, LIDERANÇA E RENOVAÇÃO
Sabemos bem que o conhecimento do passado pode ajudar-nos a não repetir erros cometidos. Mas, neste momento, o centro de nossas preocupações deve ser o presente e o futuro de nossos grupos. Para isso, temos de nos esforçar para entender quais são as conseqüências que vieram do período que acabamos de viver, e as implicações que derivam delas para nosso carisma, para nós como líderes religiosos e para a tarefa da renovação em geral.
Com o intento de oferecer algumas idéias que nos possam servir para alcançar esse objetivo, vou falar sobre nossa identidade, acrescentando, nesse contexto, algumas palavras sobre a missão. Sempre que queremos esclarecer a identidade de qualquer organização, deveremos realizar uma tríplice tarefa. Primeiro, informar-nos sobre seu caráter e sua natureza, sobre o que é verdadeiramente importante para seus membros. Depois, refletir sobre o que a diferencia de outros grupos, especialmente daqueles que têm fins semelhantes e desenvolvem o mesmo trabalho. Por último, analisar quais são os valores do grupo que resistiram à prova do tempo.
Durante os quase quarenta anos em que estivemos envolvidos no processo de renovação, uns e outros fomos deixando para trás certo número de práticas que nos diferenciavam dos demais. Estava na hora, porque algumas dessas práticas certamente já tinham caducado. Lamentavelmente, demoramos mais do que muitos esperavam a chegar a um consenso para adotar novos estilos que se ajustem à realidade de hoje e às atuais necessidades apostólicas. 10
Em conseqüência, a idéia clara que tínhamos sobre quem éramos como grupo e a que nos dedicamos, foi sofrendo um progressivo desgaste. Por outro lado, nossa lentidão em adotar nossos estilos e comportamentos comuns origina confusão. Nós já temos experiência pessoal em questões relativas à formação da identidade no indivíduo; sabemos bem que, para modelar nova identidade, ou reformar a anterior que nos era mais familiar, temos de optar, comprometer-nos de maneira nova com os valores que vivemos até este momento, ou mesmo mudar de valores.

POR QUE NOS CUSTA TANTO DECIDIR?
Se na dimensão pessoal já temos essa consciência de que optar é parte importante do processo que leva a formarmos uma identidade, que é que nos impede, como grupo, de fazer as opções que afirmem claramente nossa identidade, de modo que cada congregação ou instituto possa distinguir-se dos demais? Dois fatores intervêm para que isso ocorra.
Um é o respeito à diversidade. Isso se deu de forma exagerada nos últimos tempos, e nos levou a nos imobilizarmos, mais que outra coisa. O Concílio Vaticano II já adiantou que as diferenças entre institutos religiosos se tornariam mais visíveis, à medida que os grupos retornassem ao carisma original de seus fundadores e o adaptassem às necessidades dos tempos. O que o Concílio não antecipou de todo foi a grande diversidade que produziria dentro dos próprios institutos. Em alguns deles essas diferenças internas são consideráveis.
Se nos próximos anos continuar ocorrendo essa disparidade de critérios, em nossos institutos e congregações, em questões como os votos, o papel da vida comunitária, a espiritualidade, a missão, a atenção para com os pobres, a formação e outros aspectos relevantes, então se tornará muito mais difícil, para não dizer impossível, a tarefa de modelar uma identidade comum e a possibilidade de oferecer um testemunho corporativo. O trabalho de renovação se verá seriamente comprometido.
Infelizmente, em alguns de nossos grupos, as diferenças em torno de certos traços do próprio estilo de vida são tão profundas, que acabam minando a unidade. Colocam-se os temas de maneira tão visceral, que qualquer um que sustente uma opinião diferente é etiquetado e rechaçado. Seja como for, esta situação não pode continuar assim; não só porque destrói toda a possibilidade de diálogo, mas também porque se opõe radicalmente à verdadeira natureza de nossa fé e à essência de nosso estilo de vida.

Se queremos forjar uma nova identidade para nós, mais adequada a nossa visão atual da vida consagrada, temos de aceitar como fato normal que, no tempo em que se acentua a diversidade entre os diversos grupos com relação aos elementos básicos de nossa vida e missão, paralelamente se há de dar menos diversidade dentro de um mesmo grupo.


Há uma segunda razão que explica nossa lentidão na hora de adotar novos estilos e práticas comuns: é o temor de que isso possa representar um retorno ao passado, uma tentativa de restaurar o que pôde ser adequado há cinqüenta anos ou mais. Não tenham medo de que isso aconteça. As coisas do passado foram boas para o passado. Se, neste momento, queremos restabelecer o valioso testemunho da vida religiosa, necessitaremos encontrar novos signos que nos ajudem a realizar esse objetivo, e devemos fazer juntos essa tarefa.
Nossa deficiência em identificar e avaliar tudo o que fomos aprendendo ao longo do processo de renovação está trazendo suas conseqüências. Ainda evitamos colocar formalmente perguntas como estas: “Nossos usos atuais expressam o amor que sentimos por Jesus Cristo e nosso compromisso com a Igreja, de um modo verdadeiro?” “Em que medida elas sustentam e ampliam nossa missão?” Promovem uma paixão maior pelo evangelho e pelo serviço aos pobres?”
A missão está no centro da identidade de toda a congregação e instituto. E há apenas uma missão, a da Igreja, que consiste em proclamar o Reino de Deus e sua iminência. Nossos apostolados são parte dessa missão e estão voltados a destinatários específicos. Nossos grupos se encontram hoje no meio do Povo de Deus, comprometidos com a missão de Jesus de forma radical e com obras definidas por nossos fundadores e pela tradição que lhes deu continuidade ao longo do tempo.
Por essa mesmo relação com a missão da Igreja, nosso modo de vida deve ser visível. Os conselhos evangélicos, da mesma forma que o ideal do amor a Deus, a preocupação apaixonada com os pobres e necessitados e o compromisso com a vida comunitária, devem traduzir-se em modos de refletir a natureza de nossas congregações e institutos por meio de comportamentos e atitudes que os outros possam ver e entender. Se não agirmos, assim, não haverá visibilidade. Sem visibilidade, não há testemunho. Que resulta disso? Uma contínua confusão em torno de nossa identidade no tempo presente.
Portanto, se quisermos que nossa identidade seja transparente hoje de maneira diáfana, devemos ser capazes de dar resposta a estas questões: Nós, que temos de ser? Que nos corresponde fazer? Ao nos esforçarmos para chegar a um acordo sobre o significado de elementos tão importantes como a vida comunitária, a formação da espiritualidade, a missão, é natural que encontremos uma variedade de opiniões. Muitos de nossos grupos são plurais, internacionais, com desafios diferentes, segundo as diversas partes do mundo onde estamos presentes. Mas essa situação não divide as pessoas, antes contribui para enriquecer grandemente a reflexão e o debate. Por isso é necessário que consigamos integrar todos os pontos de vista em nossas deliberações, já que ninguém tem o monopólio da verdade. Aí então há de chegar um momento em que é preciso tomar decisões e escolher alguns caminhos de preferência a outros.
Em tal processo de esclarecimento de nossa identidade, devemos também proteger-nos de certa assimilação paroquial da vida religiosa neste país. Nosso estilo de vida, por sua própria natureza, faz parte da estrutura carismática da Igreja, não da hierarquia. No entanto, de uns anos para cá, vemos cada vez mais religiosos e religiosas assumindo posições e serviços diocesanos, realizando tarefas que poderiam perfeitamente ser cumpridas por pessoas leigas. Isso contribui para que se dilua a verdadeira noção de missão, como experiência de ser enviado pelo grupo a que pertencemos. Ademais, com muita freqüência o próprio sentido do carisma da congregação ou instituto fica obscurecido. É normal que alguns de nossos religiosos veteranos ofereçam uma colaboração necessária dentro das paróquias em serviços de acompanhamento, visitas às casas ou animação da Eucaristia; mas a grande maioria de nossos membros ativos deve estar comprometida na missão e nas obras próprias do grupo.
A vida religiosa não nasceu para ser uma força de apoio eclesiástica. Como assinalei anteriormente, nossa responsabilidade consiste antes em ser a memória viva do que a Igreja anseia ser, pode ser e deve ser. Nosso lugar está na periferia, não no centro. Se fizermos o que nos corresponde fazer, haverá sempre certa tensão, que é natural, entre a Igreja em geral e os que, como nós, sem deixar de pertencer fielmente a ela, somos também membros de congregações e institutos religiosos.
CONCLUSÃO
Dentro de cem anos, alguém escreverá a história deste tempo em que nos coube viver. Que contarão então sobre nós? Dirão que soubemos responder aos sinais dos tempos, como Mary Irene Fitzgibbon, com coragem, audácia e simplicidade? Falarão de atos de heroísmo, como o que demonstraram Mary Lynch e Juliana Nolan, quando desembarcaram na costa ocidental da Irlanda, já em idade avançada, para refundar a vida dominicana naquele país?
Não posso imaginar um tempo melhor que este para viver, ou um período mais rico na história para tomar parte de uma congregação ou de um instituto. Porque, do mesmo modo que nossos fundadores receberam a responsabilidade de trazer seus grupos religiosos à vida, nós recebemos a encomenda do trabalho de revitalizá-los novamente. Mas só poderemos fazê-lo, se o Espírito de Deus estiver vivo e ativo dentro de cada um de nós.
Se me ensinaram alguma coisa os anos que passei na missão de liderança, é a de ser consciente de minhas próprias limitações como pessoa, de meu próprio pecado como homem, de minha própria necessidade de salvação. Foram lições importantes para mim, embora tenha tinha dificuldade de aprendê-las. Porque, desse modo, cheguei a me convencer de que é uma insensatez não deixar que Deus tome a iniciativa. Nossa tarefa consiste em discernir sua vontade e seguir seus passos, não importa o lugar aonde nos levem, nem se é áspero o caminho.
Nós, apesar de todas as dificuldades, devemos manter a confiança e ser portadores de esperança para aqueles a quem nos cabe guiar. Com este espírito é que João Paulo II terminou a visita que fez a este país. Dirigindo-se à multidão reunida no estádio de basquete de Baltimore, o papa concluiu sua mensagem com palavras tomadas do profeta Habacuc. Eu também as retomo para ao concluir esta reflexão: “Porque a visão tem sua data, / e a seu tempo se cumprirá! Se demora, espera-a, / porque é certo que virá”.

1 Cf. Maureen Fitzgerald. Habits of Compassion: Irish Catholic Nuns and the Origins of New York Welfare System, 1830-1920 (Hábitos de compaixão: As freiras católicas irlandesas e as origens do sistema de assistência social em Nova York, 1830-1920), University of Illinois Press, 2006.


2 O autor fez esta exposição na Conferência de Superiores Maiores dos Estados Unidos (USA), em agosto de 2007.

3 Ibid, p. 11.

4 Paulo VI. Evangelica Testificatio 11.


5 Helen Mary Harmey, op. ‘Emerging from our struggle?’ (Saímos de nossa luta?) Religious life Review, (45) 238 (2006),181-186.

6 Jon Sobrino. Spirituality of Liberation: Toward Political Holiness (Espiritualidade da libertação. Em direção à santidade política), Maryknoll, NY: Orbis Press, 1990.

7 Cf. Seán D. Sammon, fms. Tornar Jesus Cristo conhecido e amado – a vida apostólica marista, hoje. Roma: Irmãos Maristas, 2006.

8 Cf. Howard Grey, sj. “Contemporary Religious Leadership” (Liderança religiosa atual), Review for Religious (5) 56 (1997), 454-467.

9 Cf. Seán D. Sammon, fms. Religious Life in America (A vida religiosa na América), Staten Island, NY: Alba House, 2002.

10 Cf. Seán D. Sammon, fms. Tornar Jesus Cristo conhecido e amado – a vida apostólica marista, hoje. Roma: Irmãos Maristas, 2006.






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