CaracterizaçÃo dos produtores de cal – jandaíRA/RN



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Anais do 43º Congresso Brasileiro de Cerâmica 0050

2 a 5 de junho de 1999 - Florianópolis – S.C.


Caracterização dos Produtores de Cal – Jandaíra/RN

José Yvan Pereira Leite

Prof. do CEFET-RN, Eng. de Minas e Mestre em Engenharia Química

Av. Salgado Filho, 1559 - CEP - 59.056-015 - Natal RN - Email: jypleite@eol.com.br

OTACÍLIO OZIEL DE CARVALHO

Prof. do CEFET-RN, Geólogo, Esp. em Qualidade Total e Mestre em Geologia Econômico e Assessor SENAI-RN

JOSÉ MARIA DO RÊGO

Geólogo da Sec. de Ind. e Comércio, Ciência e Tecnologia do Estado do RN, Esp. em Geologia


RESUMO

O Estado do Rio Grande do Norte tem parte do seu território inserido em uma bacia sedimentar (Bacia Potiguar), onde afloram, predominantemente, grandes extensões de calcário, dobre as quais são desenvolvidas atividades informais de produção de cal. Este trabalho apresenta os resultados do cadastramento destas atividades no município de Jandaíra/RN, no qual existem 16 produtores da cal, com 26 fornos em operação. Empregam, diretamente, cerca de 250 pessoas. A produção de cal é antiga e são utilizadas técnicas rudimentares. Os fornos tem formato cilíndrico e o combustível utilizado é a lenha, onde o alto consumo provoca um aumento nos custos e degradação ambiental. Uma alternativa de minerar os depósitos de calcário, através de uma cooperativa, deve ser estimulado, bem como a substituição dos fornos descontínuos e queimados à lenha, por fornos contínuos queimados a gás. Esta alternativa minimizaria a degradação ambiental e aumentaria a produtividade e produção de cal na região.


Palavras Chaves: Cal, calcário, meio ambiente, mineração.

Introdução

O município de Jandaíra esta localizado na porção central Estado do Rio Grande do Norte - RN, 117 km à NW de Natal, capital do Estado. As atividades econômicas do município, que tem uma população de 5.877 habitantes, estão baseadas na agricultura de subsistência e na extração de lenha e carvão, segundo o último senso do IBGE [1]. Apesar de não constar das estatísticas do Departamento Nacional de Produção Mineral - DNPM, o município vem explorando o calcário para a produção de cal, o qual emprega cerca de 250 pessoas diretamente nesta atividade informal, configurando em uma das mais importantes atividades econômicas do município.

O objetivo desta pesquisa é cadastrar os produtores de cal do Município de Jandaíra e fazer uma avaliação dos impactos econômicos e ambientais que esta atividade representa para o município. Este trabalho faz parte do Projeto "Cadastramento dos Produtores de Cal do Rio Grande do Norte", que é financiado pelo SENAI/RN e executado em parceria com o CEFET/RN, SENTEC/RN e UFRN.
Revisão Bibliografica

A Geologia da área em questão esta encravada na bacia sedimentar, denominada de Bacia Potiguar em sua porção centro-oriental. A Bacia Potiguar compreende uma faixa sedimentar Cretácica que ocupa a região norte do Estado do RN e parte do seu setor oriental, abrange uma área de aproximadamente 21.500 km2. Seu comportamento pode ser definido como um amplo platô, constituído de uma seqüência sedimentar que mergulha suavemente em direção ao oceano a uma razão de 3 a 10 metros/km. A sedimentação Cretácica são representadas pelas Formações Açu e Jandaíra [2].

A área em destaque abrange o município de Jandaíra, onde afloram os calcários da Formação Jandaíra em toda sua extensão, com solos rasos ou inexistentes. O calcário desta área tem as seguintes características: são cremes a cinzentos, muito compactos, de textura fina a média, fratura irregular, geralmente fossilíferos, caracterizando-se por uma recristalização generalizada, difusa e, às vezes, pela presença de cavidades alveolares sub-milimétricas [2]. Nesta área são identificados calcários de diversos teores, variando de composição calcítica até dolomítica. Ocorrências localizadas nas proximidades de Jandaíra apresentam teores de MgO superiores a 19,5%. Teores superiores a 20% de Mg0 são comuns em ocorrências de calcários localmente conchíferos, situados à Nordeste da Cidade de Jandaíra [2].

Os calcários utilizados para a produção da cal no RN estão à margem da estatística oficial, pois não possuem reservas minerais oficializadas, configurando-se num processo de extração rudimentar. A bibliografia consultada não registra qualquer informação sobre este setor. Até mesmo o livro "Indústria de Calcários e Dolomítos no Nordeste"[3], publicado pelo Banco do Nordeste em 1987, não traz qualquer informação sobre esta área produtora.

O processo para a obtenção da cal esta baseado na decomposição dos calcários por dissolução direta, produzindo óxido de cálcio e gás carbônico. A equação (1) mostra o processo de calcinação.

CaCO3(sólido) + Calor  CaO(sólido) + CO2(gás) (1)

A variação da energia livre é dado por

G = 42,3 – 37,7 T (2)

Para a reação (1) ser espontânea, a temperatura (T) deve estar acima de 8500C, desta forma, a calcinação do carbonato de cálcio se dará eficientemente a temperaturas entre 900-10000C [4].
Processo Produtivo

Os produtores da cal no município de Jandaíra são em número de 16 (dezesseis), distribuídos segundo os pontos de coordenadas geográficas mostradas na tabela 1 e plotados no mapa da figura 1.


Tabela 1 – Localização dos produtores da cal no município de Jandaíra – RN.

Legenda

Proprietário

Coordenadas


C1

José Carneiro da Silva


S 05º20’25,5”

W 036º08’07,6”

C2

Concrecal

S 05º21’05,7”


W 036º08’01,0”

C3

Francisco Elsio da Silva

S 05º20’39,8”

W 036º08’56,1”

C4

José Enecleto de Oliveira

S 05º20’52,2”

W 036º08’38,1”

C5

Raimundo Batista da Silva


S 05º21’31,4”

W 036º07’53,1”

C6


João Batista da Silva

S 05º21’33,2”

W 036º07’53,1”

C7

José Batista da Silva

S 05º25’36,4”

W 036º08’01,2”

C8

José Mocó

S 05º22’13,1”

W 036º07’46,1”

C9

Manoel Mendes de Souza

S 05º23’13,5”

W 036º04’50,2”

C10

Leonaldo Soares de Lima

S 05º23’31,4”

W 036º04’51,2”

C11

Fazenda dos Gringos – Fábio

S 05º22’46,3”

W 036º13’57,7”

C12

Josimário Gomes dos Santos

S 05º24’17,3”

W 036º01’50,2”

C13

Abel Otaviano da Silva

S 05º20’58,6”

W 036º08’08,4”

C14

Manoel dos Santos

S 05º21’05,0”

W 036º08’44,9”

C15

Severino Matias Filho

S 05º20’44,8”

W 036º08’42,7”

C16

Centro Social Severino M. de Melo

S 05º20’49,8”

W 036º08’42,7”

A
lguns produtores da cal de Jandaíra-RN possuem mais de uma caieira, sendo atualmente 26 em operação. A figura 1 apresenta a sua distribuição em mapa, juntamente com algumas caieiras desativada (Cd), áreas de extração de lenha (EL) e localização do gasoduto (GS).

Figura 1 – Localização das caieiras, extrações de lenha e gasoduto, no município de Jandaíra-RN.


As caieiras estão localizadas próximo a BR-406, tendo em vista a redução de custos com transporte e facilidade para o escoamento da produção. A operação para a produção da cal é bastante homogênea no município. Consiste na extração manual do calcário e transporte em caminhões de 7 toneladas de capacidade para as unidades de beneficiamento, onde o material é colocado em fornos convencionais cilíndricos, bastante rudimentares, com cerca de 4 m de diâmetro e 4 m de altura, conhecidos por caieiras. Dos produtores, 12 possuem caminhões para o transporte do calcário e lenha. A figura 2 mostra a extração de calcário, utilizando-se técnicas rudimentares, enquanto a figura 3 apresenta uma caieira típica da região.

F
igura 2 – Extração de calcário em Jandaíra – RN.
Foto J. Yvan Leite.

F
igura 3 – Caieira típica utilizada em Jandaíra – RN.
Foto J. Yvan Leite.

A figura 3 mostra que os fornos são construídos em tijolos cerâmicos maciços com amarrações laterais e uma cobertura de solo ao seu redor pra minimizar a perda de calor, aumentar a estabilidade das paredes e formar rampa de acesso. Existe uma abertura, na base do forno, onde é adicionada a lenha para a quima, que dissociará o calcário formando o óxido de cálcio.

A tabela 2 apresenta as características geométricas dos fornos, com o consumo semanal de calcário para abóbada e carga, e lenha para a produção de cal.

Tabela 2 – Dimensões dos fornos e consumo de matéria prima para a produção de cal.



Legenda

Dimensões da Caieira (m)

Consumo (unidade/semana)





Altura

Diâmetro

Abóbada (t)

Carga (t)

Lenha (m3)

C1


5,0

4,0

10,5

42

125




4,0

4,0

10,5

31,5

100




3,0

3,0

7

24,5

75

C2

-

-

-

-

-

C3


4,5

3,0

14

35

125




3,0

2,0

5,6

17,5

50

C4

4,5

3,0

10,5 – 14

42

125

C5


3,0

3,0

14

28

100




2,0

1,5

3,5

14

50




3,0

3,0

14

35

100

C6

2,5

1,5

2,8

7

37,5

C7

4,0

3,0

14

42

137,5




2,5

1,5

2,8

7

37,5

C8

3,5

3,0

14

49

-

C9

3,3

4,0

7

24,5

75




3,8

2,8

3,5

17,5

50

C10

2,65

3,3

7

21

75




3,5

3,3

7

28

87,5

C11

-

-

-

-

-

C12

4,0

2,5

7

14

50




4,0

2,65

10,5

31,5

100

C13

4,0

3,5

10,5

31,4

100




4,0

3,3

10,5

31,5

100

C14

4,0

3,0

10,5

31,5

100

C15

4,0 - 4,5

3,5

14

35

125

C16

4,0 - 4,5

3,5

14

35

125

Analisando a tabela 2, verifica-se que o consumo médio de abóbada e carga semanal está em torno de 230 t e de 680 t, respectivamente. Isto leva a um consumo mensal de 920 t de abobada e 2720 t de carga, configurando uma mina com potencial para uma produção de calcário de 43.680 t/ano. O preço de aquisição para cada 7 t (01 carrada) é de 35,00 $Reais para a abóbada e 15,00 $Reais para a carga. A distinção do tipo de calcário consumido pelos produtores esta associado ao tipo de forno utilizado, pois o processo de calcinação exige a confecção de uma abóbada, onde a parte superior dá a sustentação à carga e o espaço vazio da base, serve para preencher com a lenha, que queimará, propiciando a reação química descrita na equação (1). A figura 4 mostra a preparação da abóbada de uma caieira.






Figura 4 – Preparação da abóbada de uma caieira – Jandaíra. Foto J. Yvan Leite.
Observando os dados de consumo de lenha daqueles que informaram, projeta-se um consumo de 2.050 m3/semana, 8.200 m3/mês e 98.400 m3/ano. O preço de 20 m3 de lenha (01 carrada) extraído é R$ 60,00 e demonstra que a atividade desenvolvida propicia renda para donos de fazendas na região e moradores envolvidos no corte da madeira.

Estes dados são preocupantes, pois se trata de uma região do Estado do RN que é atingida por longos períodos de estiagem ou seca e o desmatamento degrada mais ainda as condições de vida da população. Depoimentos de pessoas da região, indicam uma redução da fauna e da flora e o aumento das distâncias das áreas de extração de lenha. A tabela 3 mostra a extração de lenha no período de 1990-1995 nos municípios circunvizinhos ao município de Jandaíra-RN.


Tabela 3 – Extração de lenha (m3) - Municípios circunvizinhos a Jandaíra-RN. Fonte IBGE.

Município







Período

(ano)










1.995

1.994

1.993

1.992

1.991

1.990

Jandaíra

2.642

2.727

2.880

30.452

29.927

33.777

Afonso Bezerra

58.782

60.600

60.180

68.000

70.000

65.000

Pedro Avelino

40.795

39.800

39.100

44.842

37.368

34.100

Pedra Preta

18.984

19.456

21.357

42.714

39.550

36.620

Parazinho

3.199

3.279

3.584

3.948

4.623

4.681

São Bento do Norte

3.877

3.912

4.784

6.934

7.603

7.506

João Câmara

19.860

20.800

19.754

19.179

18.803

18.320

Totais

148.234

150.668

151.732

216.161

207.965

200.094


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