Capítulo I o mundo das sombras



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CAPÍTULO I - O MUNDO DAS SOMBRAS
Frequentemente, a existência após a morte foi vista como uma forma pouco atraente de sobrevivência, uma espécie de “vida” espectral, uma forma larvar de pós-existência e servidão a poderes espectrais.Neste caso estão as crenças dos antigos hebreus sobre os quais nos falam passagens do Antigo Testamento como também a dos gregos relatados nas poesias de Homero e Hesíodo. Os hebreus mortos ficavam confinados ao Sheol assim como os gregos iam para o Hades. Sheol e Hades eram descritos como lugares sombrios onde as almas dos mortos permaneciam aglomeradas como se fossem sombras, imagens enfraquecidas de suas existências terrenas, sem memória ou força. A morte é, desta maneira, uma frágil persistência, presa a desígnios divinos poderosos, e não uma imortalidade desejável.


RELIGIÃO E MITOLOGIA GREGAS

A religião grega não foi revelada pela ação de um profeta ou santo, nem codificada em livros, em igrejas, corpo sacerdotal ou apoiada em dogmas, muito embora o papel desempenhado pelos adivinhos, poetas, pitonisas e oráculos tenha caracterizado uma forma específica de contatos com as potências divinas. As formações religiosas aconteceram no mesmo ritmo das populações, das viagens, das invasões, das conquistas e das colônias (1).

A primeira vez que se escreveu sobre estes mitos e religião foi na poesia: a Ilíada e a Odisséia da tradição homérica e os poemas de Hesíodo, a Teogonia e Os Trabalhos e os Dias. Por trás destas obras estão séculos de religiosi­dade e poesia oral, transmitidas por bardos e narradas para as comunidades. Os temas épicos, heróicos, as façanhas de homens e deuses eram cantados para a memória e a vida dos mitos. Os temas religiosos expressavam sentimentos, atitudes mentais, desejos, qualidades e temores traduzidos como for­mas divinas, de uma maneira só igualada por certas vertentes do pensamento oriental, sobretudo, o da tradição védica.
MORTE E MEMÓRIA
Para entendermos melhor a visão da morte e da vida após a morte na cultura poética de Homero e Hesíodo, precisamos definir a relação entre Morte e Es­quecimento, Vida e Memória, característicos deste período, na cultura grega.

De acôrdo com esta concepção, Vida é lembrança, uma força divina que impede o esquecimento e vence as trevas do pas­sado. Morte é esquecimento. Morrer significa ser relega­do ao anonimato, a nunca mais ter seu nome ou atos conheci­dos por todos. Vive quem é lembrado, cujas ações mere­cem ser conhecidas por todos. Vida significa a vitória da Memória. A Memória divinizada está representada nas Musas, figuras divinas que simbolizam uma forma de conhecer os acontecimentos através do tempo, do espaço e também a natureza íntima das pessoas. (2).

A memória divinizada não pode ser confundida com a lembrança comum do cotidiano. Ela é um privilégio de al­guns homens, os poetas inspirados, para os quais a Memória é um conhecimento de caráter iniciático e di­vinatório, um saber através do qual se evocam os aconte­cimentos, os contatos com outros mundos e dimensões realiza­dos. Assim, a poesia possui um estatuto de potência divina, reve­ladora da palavra mágico-religiosa. O poeta é vidente do mundo simbólico e religioso, o imortalizador de Deuses e He­róis, o mediador entre homens e deuses e possuído pelos deu­ses (3). Na boca do poeta a palavra divina atinge o máximo de seu poder, define a vitória dos deuses e a Imortali­dade dos seres.

O silêncio significa o esquecimento; a morte, o oposto da memória. Os homens, deuses e ações sobre os quais não se fala, não se contam as histórias de suas vidas e feitos, são esquecidos. Nem os deuses podem escapar deste esquecimento: um Deus esquecido, sem culto ou fiéis, envelhece e morre. So­mente a palavra inspirada do poeta, louvando até mesmo os inimigos, permite escapar do Silêncio, do Esqueci­mento e da Morte.

A força da Imortalidade ampara-se em no poder sagrado de Mnemósyne (Memória), a mãe das Musas, enquanto a força da Morte cor­responde à Noite, ao Silêncio e ao Léthe (Esquecimento). O poeta, o portador da Palavra, a voz do homem privilegiado, repositório vivo da memória, realiza a força divina que garante sobrevivência e imortalidade.(4). Cabe ao poeta, misto de iniciado, músico, cantor, vidente, dar força e manter vivos os deuses, heróis e os escolhidos dos deuses, reagrupando-os num mundo de mi­tos, deuses ancestrais, seres sobrenaturais e homens ou mu­lheres especiais. Ao transmitir esta sabedoria específica, que oculta um conhecimento iniciático e mágico, e ao trei­nar seus discípulos, o poeta tem o poder da Imortalidade, sobre homens, deuses, fatos e lugares. Seu dom especial e sua habilidade divinamente inspirada permitem-lhe simultaneamente comunicar emoções, lendas, mi­tos, ensinamentos na forma de alegorias, fazendo agir a memó­ria.

A morte é vista com pessimismo, associada ao destino tenebroso e comum dos mortais. Na Teogonia temos uma transcrição precisa sobre a origem da Morte. Na Segunda Geração dos Deuses (211- 239).era a negra Noite, nascida do Kaos e irmã de Erebro (treva) quem concebia a Morte:



" Noite gerou o odioso Moros (Lote) e a negra Quere (Sorte) e Tânatos (Morte). Ela gerou Hypnos (Sono) e com ele toda a raça dos sonhos - sem se unir a nin­guém" (5)

A morte é irmã do Sono e de todos os tipos de so­nhos, de Eris, a Discórdia, geradora do Esquecimento e não remete a nenhuma situação agradável. No mundo homérico, a morte, para a maioria dos homens, leva a uma existência diminuída e humilhante, uma vida de sombras pálidas, despro­vida de força e memória.

A precariedade da existência humana, a concepção de que o homem não é uma divindade produzem um sentimento pes­simista e de finitudade intensos, de submissão aos poderes e ao destino traçado em esferas desconhecidas. A morte, data, local e condição estão decididas pelo "destino", a "Moira" ou "sorte", desde o momento do nasci­mento e a duração da vida é simbolizada no fio tecido pe­las divindades : as três Moiras, filhas de Zeus e Themis, que fiam, tecem e cortam, o fio da vida dos mortais.

Esta condição de sombras mortas desprovidas de si­gnificação também aparece na Odisséia. Ao instruir Ulisses para sua descida ao Hades, Circe fala dos mortos e dos cui­dados necessários para ter contato com eles:



"Deves ir à casa de Hades e da terrível Perséfone, a fim de receber instruções de Tirésias, o adivinho te­bano cego. Seu espírito ainda está vigoroso, pois mesmo na morte, Perséfone conservou-lhe a razão.. Ape­nas ele tem senso: os outros são sombras esvoaçantes" (6).

No Hades, Ulisses encontra almas conhecidas e os diálogos estabelecidos com sua mãe e Aquiles expressam, com muita clareza, as sombrias perspectivas dos mortos. São de Anticléia, a mãe de Ulisses, as pungentes declarações:



"Meu Amor, como vieste à escuridão nebulosa e estás vivo? É difícil para os vivos ver este lugar.(...).

(...). Logo que o espírito deixa os brancos ossos, os tendões já mantém juntos a carne e os ossos, o fogo flamejante consome-os todos, mas a alma foge, adejante como um sonho" (7).

Não há honra ou privilégio na vida das almas som­brias. Nem mesmo um herói como Aquiles percebe qualquer va­lor nesta existência após a morte. O celebrado herói, que teve deuses presentes no seu funeral, afirma para Ulisses que os mortos são desprovidos de sensação, fantasmas dos mortais, e que ela, o Grande Herói preferia ser um pobre campones a reinar entre mortos.

A imagem da morte é a da separação entre o corpo, Soma, e a alma, o Psiquê. A vida constitue a união das duas partes. Após a morte, a alma pode ser observada, escapando do corpo como sombra esvoaçante que segue para o Hades, para as profundezas subterrâneas ou, se não tiver os ritos fúnebres adequados, fica vagando pela terra (9). Ser alma desmemoriada, habitante do Hades som­brio, em estado estacionário, sem força ou consciência é decorrencia da degradação humana, conseqüência da grande Queda descrita no Mito das Raças em Os trabalhos e os Dias por Hesíodo. A condição da raça de ferro, a última e decadente geração de homens, implica em uma vida atormen­tada por males como a velhice, degradação e morte. (10).
O LUGAR DOS MORTOS

O exílio da alma, sua existência sombria num mundo de esquecimento tem um lugar: Hades. Na crença mais comum, Hades significa um mundo subterrâneo, localizado à oeste (lugar de cemitérios e túmulos), alcançado pelas almas dos mortos depois que passa­m pelo Rio Estinge, à bordo da barca de Caronte e atraves­sam as portas de bronze guardadas pelo terrível Cérbero, um ser mitológico, uma fera de olhos flamejantes que impede a entrada dos vivos e a saída dos mortos.

Segundo Hesíodo, o lugar dos mortos, a morada das som­bras esquecidas, o Hades, é um local de desolação e horror:

" Ali estão, lado a lado, as origens e a extremidade de tudo, da terra sombria e do Tártaro tenebroso, do Ponto Infecundo e de Urano estrelado, lugares horren­dos e cobertos de mofos, que causam horror até aos deuses. (...)

Lá se eleva, diante de quem seja, a morada sonora do deus dos Infernos, o poderoso Hades e Perséfone, a te­mível. Um cão terrível, Cérbero, implacável e cheio de malvada astúcia, vigia a entrada. Aos que entram ele saúda com a cauda e as duas orelhas, mas em seguida, proíbe-lhes a volta, e, sem cessar, à espreita, devora todos os que surpreende saindo das portas (11)

Neste mundo sombrio, domínio de Hades e Persé­fone, as almas passam uma existência sem esperança de retorno. Acredita-se que existem numerosas grutas comuni­cando-se com os infernos subterrâneos. Nestas entradas in­fernais vivem muitos oráculos, capazes de realizar comuni­cações entre o mundo dos mortos e dos vivos.

Cabe ressaltar que Hades ou os infernos não possuem o sentido da tradição cristã, como um lugar po­voado por entidades demoníacas, onde as almas pecadoras vão padecer sofrimentos e castigos. Numa cultura religiosa que desconhece a idéia de culpa, pecado, com a grega, inexiste a imagem da punição espiritual após a morte. Morrer e virar uma sombra no Hades é uma conseqüência da condição humana, finita e mortal, a representação decadente do destino dos homens da Idade de Ferro, uma era decadente e afastada das dimensões divinas.

Superar esta condição sempre é um feito admirável, reservado aos deu­ses, heróis, poetas, adivinhos. Os mortais comuns tem na morte o eterno esquecimento, uma existência sem esperança de retorno, alegria, prazer.

A descida ao Hades, desafiando deuses, monstros, os desígnios de natureza insondável e sobre humanos, é um feito he­róico. Orfeu vai ao mundo subterrâ­neo por razões amorosas. Ulisses procura saber o caminho de Itaca. Hércules precisa realizar uma tarefa imposta pe­los deuses. De qualquer maneira, o retorno com vida das pro­fundezas subterrâneas depende da autorização e proteção di­vinas e também da natureza especial dos Heróis e Semi-deu­ses da tradição grega.
O CULTO AOS MORTOS

Se na dimensão mitológica e poética os mortos tem imagem de sombras, isto não impede a existência do culto aos ancestrais, aos antepassados. Na religião grega familiar os mortos são entes sagrados, denominados de forma respeitosa como os "antepassados bem-aventurados". Os mortos são vítimas consagradas aos deuses infernais e descem aos infernos sem esperança de retorno. Os Tritopatores que são, às ve­zes, descritos como os gênios dos ventos podem ser considerados também como as almas dos ancestrais, sendo invo­cados para abençoar as uniões sexuais, pois a concepção é a ligação espiritual com os antepassados. (12).

De um lado, estas crenças nos antepassados, nas li­gações entre corpo e a alma, nas manifestações dos mortos, as oferendas funerárias, as invocações dos mortos para pro­teção da família, para favorecer a fertilidade e colheitas e defesa em caso de guerra, indicam uma forte relação com an­tigos ritos agrários e de fecundidade, sobrevivendo com as tradições poéticas. Os gregos da mais remota antiguidade enterravam no chão de seus celeiros grandes jarros contendo grãos, sementes, produtos da terra e também os mortos da família. O mundo subterrâneo constitui o espaço da morte, dos deuses subterrâneos, onde germinam as sementes e residem os mortos (13). Esta concepção reme­tem a crenças de cunho arcaico ligadas à divindade da Terra, Gaia, ligadas às estruturas agrícolas e profundamente enraizadas durante séculos no pensamento religioso. Na Grécia, a Mãe-Terra Gaia gozou de culto muito espalhado, mesmo após ser substituída por outras divindades:

"É a terra que eu cantarei, mãe universal com profun­das raizes, avó venerável que nutre em seu solo tudo que existe... És tu que dás vida aos mortais, como és tu quem lhes tiras a vida... Bem- aventurado aquele a quem tu honras com a tua benevolência!" (14).

A terra como divindade é considerada receptáculo de forças cósmicas sagradas, uma fonte inesgotável de for­mas, representando a inserção do homem no Cosmos, tanto na vida como na morte. Tudo que está sobre a Terra constitue uma grande unidade na estrutura cósmica primordial, assim como suas manifestações: florestas, montanhas, água, vegeta­ção, túmulos e almas. Cabe à Grande-mãe da vida, regenera­dora dos ciclos existenciais conservar, após a morte, a pu­jança da vida espiritual. Vida e morte significam apenas momentos diversos de um mesmo destino: se a vida é apenas separar-se das entranhas da terra, a morte é o regresso à mãe primordial, um retorno às origens ancestrais (15). Num período, vive-se em cima da Terra. Em outro, embaixo dela. Mas sempre dependentes de Gaia. Esta maneira de ver e crer pode ser observada em praticamente todas as sociedades e culturas religiosas das mais diferentes épocas e locais, com profundas repercussões até os dias atuais.

Independente da idéia de preservação do corpo com vistas à situação da alma, é o corpo morto a oferenda prin­cipal aos deuses, fosse na inumaçäo como na cremação.

Aliás, o que vai ser dito agora é a base de todos os ritos funerários, em qualquer cultura religiosa, porém este sentido oculto frequentemente não é colocado para profanos ou foi esquecido na poeira do tempo.

Se­guindo uma determinada organização ritual baseada na hierar­quia das oferendas, a primeira, e mais importante, é o corpo morto. Em segundo, os animais sacrificados. Em tercei­ro, os vegetais (frutos, graus, flores). Em quarto lugar, comidas e bebidas. Em quinto lugar vem os objetos como armas, jóias, estátuas, sandálias, etc. A construção tumular é importante. A ligação mágica que desper­ta a "alma" das oferendas é conseguida pelo fogo, defu­mações, orações, cantos, hinos, lamentações. Este ritual fú­nebre, bem executado, tem o poder de remeter tudo, princi­palmente o morto, para uma dimensão espiritual.

O sepultamento constitue uma forma de culto aos deuses, à Terra e aos elementos ligando a figura da Gran­de-Mãe que vela, nutre e sustenta, com a imagem da divin­dade destruidora das formas, o grande veículo de purificação e libertação.

Este mesmo raciocínio pode ser feito para os ritos funerários, em relação ao fogo, o grande transformador e libertador das formas e da matéria. O fogo aquece, protege, nutre e destrói, puri­ficando e libertando. O corpo é também, neste caso, a ofe­renda principal. O fogo separa o eterno do efêmero. O fogo reflete a ima­gem do espírito ígneo que preenche o universo, desfaz as formas.

Em realidade, temos uma coexistência entre a concepção do Ha­des, do Tártaro, dos sombrios e infernais mundos das almas e os rituais e cultos dos mortos e antepassados. De um modo geral, acredita-se nas aparições e na manutenção de certas dependências e exigências dos mortos em suas sepulturas através dos cultos e oferendas piedosas, numa estreita liga­ção entre o corpo e a alma que a morte não desfaz inteira­mente. Os antepassados retribuem os cuidados que recebem com proteção do lar, das colheitas, assegurando fertilidade, defendendo a comunidade em caso de perigo.

Na religião fami­liar, a presença dos mortos constitue um fato, independente do Hades ou de qualquer outro Além espiritual, cujo papel literário e mitológico foi sendo progressivamente transfor­mado.

Sómente com do pensamento das seitas filosófico-religiosas e, mais tarde, do pensamento fi­losófico é que começaram a se estabelecer com mais precisão e coerência a experiência espiritual após a morte. Para isto foi necessário incorporar noções como a da reencarnação, da transmigração das almas e a metempsicose.


NAS SOMBRAS DO SHEOL
No Antigo Testamento deparamos com diferentes ima­gens, crenças e metáforas sobre a vida e a morte, o sentido da existência e o destino espiritual. Toda mitologia do além que caracterizou as religiões da Mesopotâmia e do Egito, bem como a hipertrofia funerária das diversas crenças e ritos dos povos antigos foi silenciada e suprimida. A morte foi reduzida a sua expressão mais simples. A vida humana e as ações divinas estavam no mundo, no plano da existência ter­restre. Apenas em algumas passagens tardias, a partir dos livros proféticos, começaram a surgir menções, imagens e concepções da ressurreição dos mortos, do Fim dos Tempos, que foram incorporadas ao Judaísmo, por influência do Zoroastrismo.(16).

Nos primeiros livros que compõem o Antigo Testamento temos a construção do grande palco no qual são apresenta­dos todos os relatos bíblicos. Fala de um tempo que não é contado em anos, mas em gerações, em listas de ancestrais longevos, em heranças e alianças de Deus com a sua comuni­dade de protegidos. Descreve vidas, maneiras e costumes de maneira bastante peculiar.

Produto de vários períodos da História, o Antigo Testamento, contém histórias ma­ravilhosas, narrativas e aspirações que, recontadas em pala­vras e figuras, século após século, ainda exercem fascínio e influência na sociedade contemporânea. Quem são seus mortos? Que destino lhes aguardava? O que se falava de sua existên­cia espiritual?
O DESTINO MORTAL

O Gênesis começa com a grandiosa divisão que Deus fez da luz e das trevas e os posteriores acontecimentos de toda a sua Criação, incluindo o Éden, o homem e a mulher. Ser criado a partir do barro, Adão é animado pelo sopro vital divino, Nefesh, e colocado no arborizado Jardim do Para­íso, onde encontram-se a ár­vore da vida, o símbolo da imortalidade e a árvore do conhe­cimento, do Bem e do Mal. Para usufruir deste Paraíso e Imortalidade, Adão tem que se submeter a um impedimento:



"Podeis comer de todas as árvores do Jardim Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás, porque no dia que dela comeres, terás de morrer." (Gn, 2,17).

A condição mortal da raça humana é o preço do dis­cernimento entre o Bem e do Mal, da separação definitiva do seu Criador. Após desobedecer ao Criador e provar do fruto proibido, Adão e Eva são expulsos do Paraíso, passando a ter a uma exis­tência mortal, condenados a nascer, trabalhar, sofrer e mor­rer.

Desde então, os homens perdem o rumo do Paraíso e a Imortalidade. A raça humana torna-se mortal pela falta cometida, aspirando ao retorno para uma existên­cia paradisíaca e imortal. O orgulho e o desejo de conhecer conduziu ao pecado original e às des­venturas que atormentam a humanidade. O drama fratricida de Caim e Abel acentua este caráter nos descendentes de Adão e Eva, num crime cuja metáfora impõe-se para o gênero humano que assume o peso do conhecimento e do discernimento. (17).
VIVER E MORRER
Os descendentes de Adão que formam a geração dos Patriarcas anteriores ao Dilúvio, apresenta uma grande longevidade e fertilidade características dos antigos heróis mitológicos. Ë como se viver muitos anos, deixar descendência numerosa simbolizasse a proximidade com Deus, uma benção especial. Longevi­dade, fertilidade e fecundidade são elementos comuns a todas as religiões antigas e traduzem as bênçãos dos deuses so­bre aqueles que os veneram. Não se fala, ainda, em sabedoria ou salvação.

A morte é reduzida a sua expressão mais simples. Tudo o que cerca este acontecimento e que é fonte de crenças, ritos e cultos é descrito com grande simplici­dade. Consolava os antigos patriarcas serem enterrados com seus parentes. A Terra é uma bênção, um solo consagrado.(18).

O valor atribuído à terra onde repousam os mortos de uma mesma comunidade é uma das formas mais arraigadas dos costumes funerários através de séculos. Túmulos, pirâmides, sepulturas, jazigos perpétuos, campos de sepultamento reve­lam a face dramática diante da morte, do apego do corpo morto à terra que o rodeia, na crença de uma tênue separação entre o corpo e alma após a morte.

O Zoroastrismo e várias crenças orientais resolveram este problema de outra forma, seja na exposição às aves de rapina ou através da cremação, desfazendo a possibilidade este apegos valorizando a liber­dade da alma e o desprendimento espiritual. Mas, na tradição milenar do povo Eleito de Iahweh, a terra sempre é a gran­de metáfora do inatingível. A Terra Prometida com Moisés, os exílios e diásporas da terra santificada, o Estado de Is­rael, são marcas muito profundas de sentimentos e experiên­cias históricas que a religião soube expressar convicta­mente.

O desencanto de Iahweh diante da maldade e corrupção que grassava entre os homens foi o motivo do Dilúvio e da saga de Noé, o único homem justo e piedoso que se salvou da ira divina. Segundo a tradição, foram exterminados todos os seres que tivessem o sopro de vida, o Ruah, uma palavra que designa o movimento do ar vital, a respiração. Esta força vital esta ligada à expressão dos pensamentos, sentimentos e paixões e ao poder criador de Deus sobre os seres vivos, sobre a história dos homens, e que, séculos mais tarde vai estar presente nas vozes dos profetas, na força que confere a inspirição divina nas palavras proféticas.

Morrer signi­fica exalar, perder, expirar o ar vital contido, por insu­flação divina, dentro de cada ser vivo. No Antigo testamento, o homem aparece formado por um corpo material e uma parte espiritual, a alma. A alma, Nefesh, é a força viva que anima a matéria, e tem sua origem na energia divina. O corpo não é inferior à alma, mas simbolizava o confronto da efêmera existência humana com a onipotência e eternidade de Deus. A morte si­gnifica castigo, o destino implacável e cruel. Depois dela o sono, a terra, o pó, sombras e noites sem dias.

O termo Ruach assim como Nefesh prestam-se a diver­sas interpretações em várias partes do Antigo Testamento. Nefesh pode ser interpretado como "fôlego" (Jó 41,12); "corpo animal" (Gn 9,4); "sangue" (Sl 148,8); "um corpo sem vida" (Lv 21,1 e Num 19,11); "um ser vivo" (Gn 1,20 e 12,5); "o ser de Iahweh" (Amós 7,8); "peixe" (Isaias 19,10) "apetite e desejo" (Gn 35,18). A palavra Ruach, um radical que pode si­gnificar "ele respirou" assim como ar, vento, fôlego e espa­ço, é aplicada de várias maneiras com referência ao homem. Na forma composta Ruach Elohim é traduzida como espírito di­vino, mas aparece também como "respiração da vida animal" (Gn 7,12; Nm 16,22; Jó 12,10), "a alma racional" (Isaías 11,2), "hálito ou fôlego" (Gn 7,17) e "os ventos do céu" (Dan 7,8).

É interessante ressaltar que na tradição do Antigo Testamento não existe nenhuma palavra para indicar mente ou intelecto, assim como não existe nenhuma doutrina da imortalidade da alma.

A destruição provocada por Iahweh através do Dilúvio abre o diálogo entre Deus e as pessoas, a transformação de uma catástrofe natural e fortuita em uma narrativa organi­zada dos desígnios divinos. Ao fim da grande hecatombe dilu­viana, da morte coletiva que se abateu sobre a humanidade, Noé e os sobreviventes realizam uma aliança, um pacto en­tre Iahweh e os homens, para garantir a existência sobre a terra.

Os Patriarcas prolongaram a tradição da morte feliz após viverem muitos anos. O supremo bem que um homem pode desejar não vai além de uma vida longa e feliz, ao fim da qual, cansado e realizado, desce ao seu túmulo: tal é a recompensa divina para quem segue a vontade de Iahweh, em obediência e respeito. Um exemplo é Abraão que, submetido a Iahweh, acaba sendo reconhecido pela sua obediência e fé, morrendo velho e feliz aos cento e setenta e cinco anos, com numerosa descendência, e enterrado ao lado de sua família. (Gn, 25, 8-10).


DO XEOL À RESSURREIÇÃO
O destino dos mortos constitue um mistério e como toda realidade não revelada, pertence a Deus. Segundo uma tradição que começa a aparecer no conjunto de Livros Histó­ricos, os mortos eram agrupados num lugar, o Sheol, lugar co­mum de todos os mortos, terra dos que voltaram ao pó, túmu­lo, cova ou perdição, o destino inevitável dos mortais submetidos aos desígnios divinos.

As imagens do Sheol não deixam espaço para a ima­ginação. Da morte restam as sepulturas, as regiões subter­râneas, a terra das trevas e das sombras. O Sheol é um lugar de perdi­ção e esquecimento, onde todos os mortos são agrupados, numa associação tenebrosa e silenciosa. A morte, inevitável e implacável, equivale a uma situação degradante. Os mortos jazem, repousam no Sheol e não devem ser objeto de cul­tos específicos. Todos os viventes, sejam reis ou homens comuns, tem o mesmo destino. Após a morte ficam corta­dos os vínculos entre os mortos e seu Deus (19). (SL.88,2-11).

O Além é reduzido a uma expressão muito simples. A existência dos mortos prolonga-se no Sheol, situado em baixo da terra, nos abismos mais profundos, sob as raízes das árvores ou das montanhas, no lugar onde toda noite o sol mergulhava. O morto é tragado pelo túmulo e pelo tempo, absorvido pela terra e imobilizado no mundo dos mortos (20). Assim é concebido o lugar dos mortos: um reino sombrio e silenci­oso, cujas imagens devem desestimular a necromancia e ou­tras práticas ligadas à invocação dos mortos, numa contesta­ção das crenças míticas e mitológicas de outros povos anti­gos, para os quais o culto aos mortos, aos ancestrais, a prática de invocação dos mortos integravam o cotidiano reli­gioso.

A religião de Iahweh através dos seus líderes teve muito trabalho para manter a comunidade coesa em torno desta crença, do monoteísmo e na Fé. As influências religiosas foram, frequentemente, mais fortes do que o temor diante de Iahweh. Muitos recorrem às práticas mágicas e sobrenatu­rais, sendo atacados, violentamente, sofrendo denúncias, perseguições e punições.


A NECROMANCIA DE ENDOR
Apesar da proibição religiosa, a invocação aos mor­tos estava presente nas atividades cotidianas, sobretudo na predição do futuro. No Antigo Testamento deparamos com o caso clássico de Saul e a feiticeira de Endor (21). Saul, atemo­rizado ao ver os exércitos inimigos acampados diante de si e preocupado com a derrota fatal de suas tropas, tenta con­sultar Iahweh em sonhos, pela sorte e através dos profetas, sem sucesso. Desesperado, contraria suas próprias ordens que proibem a invocação dos mortos, e manda chamar a necromante de Endor, para consultar o espírito de Samuel:

Então a mulher viu Samuel e, soltando um grito medo­nho, disse a Saul: "Porque me enganaste? Tu és Saul!" Disse-lhe o rei: "Não temas! Mas o que vês?" E a mu­lher indagou: "Qual é a sua aparência?" A mulher res­pondeu: "É um velho que está subindo; veste um manto." Então Saul viu que era Samuel e, inclinando-se com o rosto ao chão, prostrou-se.



Samuel disse a Saul: "Porque perturbas meu descanso chamando-me". (I Sm, 28,8-15).

Temos nesta narrativa imagens características de di­ferentes tempos e tradições, principalmente, a crença na comunicação entre mortos e vivos, o caráter oracular destes contatos, apesar das proibições de uma reli­gião que impunha um futuro após a morte no domínio da vonta­de de Deus.

Com o profetismo de Moisés surge um Deus histórico, sem raizes, que se move no tempo e no espaço,acompanhando aqueles que pro­tege, não estando, à semelhança das outras divindades do mundo antigo, preso a determinados ciclos cósmicos, agrários ou lugares sagrados. Esta visão de Divindade traduz uma nova relação do homem com o sagrado: dá a idéia de que os seres humanos podem caminhar ao lado de seu Deus e, também, confere um grau de abstração muito grande da concepção de um deus teológico e moral, revelado lentamente, mas comple­tamente novo e revolucionário, intempestivo e hierático.

A aceitação e a compreensão deste Deus não aconteceu de manei­ra linear. Muitos dos seguidores de Moisés não compreendem Iahweh, continuam cultuando antigos ídolos e precisam de milagres para sentir a presença divina. Aliás, a história religiosa do Antigo Testamento nos fala destes conflitos religiosos, da frequente adesão dos escolhidos às mais variadas crenças e religiões de diferentes regiões e épocas. Os mortos continuam sendo invocados em beiras de poços ou entradas de cavernas, os portais de comunicação com os mun­dos subterrâneos. Ape­sar das proibições religiosas, este é um costume enraizado na religião e superstição populares, em sincretismos e prá­ticas de caráter mágico, tanto na Grécia arcaica como no An­tigo Egito e em quase todas as crenças religiosas populares.

Temos também a concepção do lugar dos mortos como sendo de natureza subterrânea. Afinal, o espectro de Samuel sobe da terra, emerge das profundezas doSheol, invisível para os homens, local de trevas, morte e maldição. Prevalece a idéia de que os mortos dormem, repousam, jazem em esquecimento e fraqueza. Os mor­tos vivem em dormência, em sono hipnótico.

Embora no An­tigo Testamento a imagem do sono e do descanso sejam recor­rentes, em outras religiões os mortos demonstram uma exis­tência desassossegada, podendo usufruir de prazeres e benes­ses divinas ou sofrimento e castigo pelos seus erros. Mas, para a tradição do Antigo Testamento, a invocação constituía um momento de perturbação desta ordem que corresponde à vontade insondável de Deus.

Na fala amargurada de , a morada dos mortos e o estado de inconsciência dos defuntos manifestam-se como um bálsamo para o homem atormentado pelas desgra­ças e sofrimentos. A certeza da eternidade no Sheol leva a pensar na morte como a escapatória definitiva aos sofrimen­tos da vida.

No livro de , o Sheol é descrito como a terra das trevas e das sombras, de escuridão e desordem, um lugar como a noite escura e a sombra mais espes­sa. Apesar deste aspecto frio e deprimente, Jó ansia­ por ele, pois estará livre de todo sofrimento e terá descanso. O Sheol será seu único abrigo, pois o céu está reser­vado para Deus:



"Ora, minha esperança é ir habitar no Sheol

e preparar minha cama nas trevas.

Digo à cova: "Tu és meu pai!"

ao verme: "Te és minha mãe e minha irmã!"

Pois onde então, está minha esperança?

Minha felicidade, quem a viu?

Descerão comigo ao Sheol,

baixaremos junto ao pó?"

(Jó 17, 13-16).

Diante da vontade, força e poder de Iahweh que se manifesta sobre todos os seres e o Universo, Jó reconhece a sua ignorância para questionar seus desígnios. Através da dor e da provação, Jó penetra no grande Mistério da divin­dade, compreende que Iahweh não presta contas e a sua sa­bedoria possue sentidos próprios para a vida, a morte e o sofrimento. Diante desta submissão e compreensão da grandeza de Iaweh, Jó faz penitência no pó e nas cinzas e é recom­pensado por Iahweh, que multiplica seus bens, sua prole, restaura sua saúde e concede felicidade. (Jó 42, 16-17).

Assim, a morte é vista como a separação entre corpo e alma promovida por Iahweh. Portanto, voltar à vida após a morte também é possível para o ilimitado poder de Iahweh, Desta forma, uma súplica piedosa como a de Elias podia fazer com que a vida retornasse a um morto. (IRs 17, 21-2). Nesta base teológica, virá instalar-se séculos depois, a ressurreiçAo coletiva dos mortos no Juizo Final.

OS CICLOS DA VIDA E DA MORTE
O Eclesiastes reflete uma profunda indagação exis­tencial diante do sentido da vida, da morte e do destino dos homens. Como mistérios mais profundos da vida, do destino e da morte são obra de Iahweh, todos os acontecimentos constituem uma prova de fé, da capacidade de aceitação das alegrias e provações da vida,em obediência e temor a Deus.

Desta forma, mesmo o caráter existencialista do Eclesiastes demonstrando influências egípcias e mesopotâmicas, a herança de temas co­muns da sabedoria oriental e uma noção cíclica de tempo, não foge da questão dos desígnios insondáveis de Deus. O texto apresenta uma reflexão sobre a existência, preparando a compreensão para revelações superiores e fortalecendo o desapego aos bens materiais, pois na vida tudo era ilusão fugidia e fragilidade humana. A morte como marca da vida, o final de uma sucessão cíclica de vida e morte, dias e noites que caracterizam toda a exis­tência. Dentro do suceder dos tempos, a morte era um inevi­tável fim. (Ecl 3, 1-8, 18-21).

No Eclesiastes, a morte faz parte da condição humana, da parte material e animal que forma os seres vivos, todos sujeitos à degradação e à corrupção, comparando homens e animais como portadores do mesmo alento. É impossível es­capar a este tempo do findar, do tornar a pó, o que deve levar os homena a refletirem sobre seus orgulhos, apegos e vai­dades. Na morte, o fim manifesta-se absoluto e total: não há mais esperança ou ilusões.

Salta aos olhos no Eclesi­astes a absoluta afirmação da ignorância humana e a imagem dos ciclos alternados. Ao homem cabe desenvolver o dis­cernimento para ajustar-se a estes ritmos, ou seja, o ritmo da cria­tura ao ritmo do próprio Criador. Isto implica andar e es­tar com Deus. O descompasso entre Deus e os homens, Criador e criaturas é o caminho certo para infortúnios, desventuras, desastres, má colheita, doen­ças, angústias, desatinos e sofrimento diante da morte como na vida.

Ao contrário do que possa parecer a uma primeira leitura desavisada, o Eclesiastes e mesmo a tradição do Antigo Testamento não nega peremptoriamen­te, nem desfaz de todo, a possibilidade de existência espi­ritual, mas valoriza a vida pois é quando o homem poderia agir: Quem pode se arrepender? O Vivo. Quem pode se cor­rigir? O vivo. Quem pode orar, pedindo clemência e rendendo graças? O vivo. Quem pode cumprir a vontade de Iahweh e re­ceber suas recompensas? O Vivo. Após a morte, coberto pelo esquecimento, não há mais possibilidade. Assim, o homem é chamado para a vida, responsabilizado por sua con­duta de acordo com a vontade de Iahweh. Após a morte, esque­cido e abandonado, o morto não pode mais interagir nem no seu meio nem com Deus. Jaz na sombra, pó e esquecimento. Qual o poder de um morto?

Num sentido mais profundo, esta tradição remte um sentido claro: a morte aniquila corpos, mentes e corações. Ao contrário que possa parecer, não temos ne­gação de uma existência após a morte, mas a constatação de que, nunca mais o conjunto de coisas, fatos, situações, datas, locais e ho­mens, os personagens envolvidos, jamais se reunirão nova­mente, para reproduzir exatamente os mesmos acontecimentos. Isto sim seria de todo impossível.

Encontramos aqui também a imagem dos mortos esque­cidos e abandonados, reduzidos a sombras e cinzas. "O esque­cimento, em si, é uma segunda morte". Ao esquecimento deve-se temer. Preservar a memória cantada pelos poetas gregos, nos monumentos funerários egípcios, nos cultos aos antepas­sados de todas as sociedades significava sobreviver à morte. Todas as religiões falam de memória/esquecimento. De que se alimenta a memória? Dos cultos, da saudade, das lembran­ças? A principal oferenda aos mortos reside no fato dos vi­vos lembrarem-se deles.

E não estaremos nós, historiadores, "participando" mesmo sem intenção desta grande crença, ao exercitarmos tam­bém uma forma de culto aos antepassados, à memória regis­trada nos monumentos, nos textos, nos quadros, nos pensamen­tos, nas mentalidades, nos arquivos, museus e bibliotecas, dos tempos já passados? Línguas antigas já "mortas", crenças "exóticas", passados remotos, nomes perdidos, ânforas, ar­cas, Pompéia, Ur, salvos do esquecimento: uma vitória da me­mória, ainda que episódica e não mais ligada a um culto re­ligioso, e sim à vontade de conhecer. Modernos sacerdotes, mantendo vivos homens, idéias e realizações, trabalhando com a memória, a matéria viva, a ferramenta, o cinzel e a pedra. Mas, a memória é amoral: pode-se esquecer algo ou alguém bom e lembrar de coisas ou pessoas ruins.


EM BUSCA DA SABEDORIA

No livro da Sabedoria uma mutação fundamental ocorre na questão da morte. O texto reflete um momento histórico preciso: os judeus da diáspora em Alexandria, convivendo com diferentes escolas filosóficas, com novos conhecimentos, com a astrologia, o hermetismo e as religiões de mistério. As marcas deixadas por estas transformações, e que serão impor­tantes para o próprio Cristianismo, já aparecem nesta etapa do pensamento religioso do Antigo Testamento.

A sabedoria apresentada transmite uma visão mais abrangente do que aquela relacionada às exposições dos Sá­bios tradicionais de Israel. No caso do livro da Sabedoria, embora não exista uma referência explícita à ressurreição dos corpos, há uma sugestão quanto a uma ressurreição es­piritualizada. Esta questão foi retomada por Paulo, quando da expansão do Cristianismo entre os judeus helenizados, nos primeiros séculos da Era Cristã.

Nestes textos a sabedoria vem diretamente de Iahweh, não sendo resultado do conhecimento e especulação da razão humana, conforme as idéias platônicas em voga na época afirmavam. Iahweh é o Criador, estando muito além da possibilidade de compreensão. A sabedoria divina é a reunião de inteligência, compreensão e sensi­bilidade abrangentes em relação à Criação, o seu funciona­mento e a relação entre as leis que regem a Grande Obra.

O texto da Sabedoria, servindo-se da distinção feita entre corpo e alma pelas doutrinas platônicas, afirma a incorruptibilidade da alma, a parte imortal, recom­pensada pela sabedoria divina e que assegura um lugar junto a Deus. O que se passa na terra, durante a vida, determina a Outra Vida após a morte, onde os ímpios são castigados e os justos vivem com Deus.

O texto distingue morte física e morte espiritu­al. O sentido da morte aplicado neste texto deve ser enten­dido no seu aspecto punitivo mais terrível e não o simples e normal fim da vida física. Ë o pecado que causa a morte espiritual e eterna, a morte não apenas física, mas do espíri­to. Viver em desacordo com a aliança divina, com os princípios do Criador é o pecado supremo.

A diferença entre os justos e os ímpios está no fato de que os primeiros buscam, na proteção e salvação divinas, na vida religiosa, o ca­minho da imortalidade. Os justos seguem as leis de Deus, uma atitude sábia. Descum­prí-las, é uma atitude insensata que conduz ao sofrimento físico e espirtual. O ideal de Justiça e Sabedoria divinas en­trelaçam-se fortemente, conduzindo à salvação:

" A vida dos justos está nas mãos de Deus,

nenhum tormento os atingirá.

Aos olhos dos insensatos pereceram morrer, sua partida

foi tida como uma desgraça,sua viagem para nós como um aniquilamento, mas eles estão em paz.

Aos olhos humanos pareciam cumprir uma pena, mas sua esperança estava cheia de imortalidade;

Por um pequeno castigo receberão grandes favores.

Deus os colocou à prova e os achou dignos de si.

Examinou-os como ouro no crisol e acei tou-os como perfeito holocausto.

No tempo de sua visita resplandecerão e correrão como fagulhas no meio da palha.

Julgarão as nações, dominarão os povos,

e o senhor reinará sobre eles para sempre" (Sb 3, 1-8).
Representa-se a morte de forma diversa. No caso dos justos, entre a morte e a justiça, há fé e esperança, ou seja, a espera tranqüila e confiante. O texto refere-se a Athanasia, uma palavra grega que designa imortalidade da alma e da lembrança. Os justos são lembrados pela eterni­dade, não só pela memória humana humana, mas por Iahweh. Alcançam uma imortalidade bem aventurada, na convivência eterna com Deus. A morte do corpo é, para os justos, uma mera aparência, porém, para os insensatos, a dura e cruel realidade.

No Eclesiástico continua reinando um espírito helenizado, refletindo a condição da Palestina que vive sob o domínio dos Selêucidas, desde 198 a.C. A força da cultura helenística, a adoção de costumes diferentes da tradição ju­daica são o alvo dos ataques da classe sacerdotal na Palestina, buscando reafirmar os princípios básicos da sua religião, do pacto do povo escolhido com Iahweh. No Eclesiástico, a reafirmação da Aliança vem acompanhada da esperança de uma salvação futura.

O autor do texto procura retomar antigas tradições da Lei e da Sabedoria, a necessidade estrita de temor e obediência a Iahweh, recuperando o fervor da religião do Templo e seus cultos. O sentimento trágico diante da morte está repleto de afirmações sobre a retri­buição divina a cada ato praticado. Contém também uma exaltação dos grandes personagens do passado, dos antigos sacerdotes, a memória viva dos modelos ideais.

Assim, a morte, como lei eterna e inexorável que não avi­sa o dia e a hora de sua chegada, significa o fim das ações e possibilidades, simbolizando a fatuidade e a insignificância dos atos materiais diante da vontade suprema de Iahweh. (Eclo 14,12-19).

Portanto, lamentar a morte ou desesperar-se profundamente re­velam a ausência de sabedoria e da verdadeira compreen­são das leis eternas e imutáveis de Deus. Aceitar e vi­ver na aceitação da corrupitilidade das obras materiais re­velam a sabedoria.

A morte pode ser dúbia: tanto amarga como bem-vinda. Para aqueles que amam a vida, é uma foice cruel. Para os que sofrem, pode ser um alívio e um bálsamo. A morte como descanso ou esquecimento, um par que se sucede ao longo da tradição bíblica. (Eclo 41, 1-7).

Já no livro dos Provérbios encontramos uma teologia es­sencialmente prática. Deus recompensa a caridade, a pureza de coração, a piedade e a humildade. Temendo a Deus, o homem tem a verdadeira virtude religiosa e a mais profunda sabe­doria. Nos conselhos propostos pelos Provérbios, a Morte e o Sheol associam-se aos destinos dos ímpios e insensatos, opostos ao caminho da Vida e da Salvação. (Pr 5, 3-6).

Vencer o triste destino dos ímpios nos profundos subterrâneos do esquecimento significa uma nova concepção celestial, superior para o destino da alma. Embora esta con­cepção só venha a ser desenvolvida de forma mais elaborada tempos depois, começa a surgir a crença na possibilidade de feli­cidade celestial, um caminho de salvação eterna. Mas este tema só será desenvolvido com toda profundidade e consequências tanto no Judaísmo como no Cristianismo, no surgimento do movimento profético, conforme veremos mais adiante.


NOTAS

1. Charbonneaux, J. "La grece" in: Histoire Générale des Religions, Paris, Librairie. Aristide Quillet, 1948, Tomo II, pp.28.

2. Homero, Ilíada. livro II, 484 ss.

3. Detinne, M., Os Mestres da verdade na Grécia Arcaica. RJ, Jorge Zahar Ed., 1989,

4. Detienne, M., op.cit., p.20.

5. Hesíodo, Teogonia, 211-239.

6. Homero, Odisséia, Livro X, 119-20.

7. Homero, Odisséia, Livro XI, 124-5.

8. Homero, Odisséia, Livro XI, 130-1.

9. Rohde, E., Psyche - The cult of Soul and Belief in Imor­tality among the Greeks, London, Kegan Paul/Trench/Trubner and Cy, 1925, pp. 4-6.

10. Rohde, E., op.cit., pp. 8-9; Hesíodo. Os Trabalhos e os Dias, citado

11. Hesíodo, Teogonia, citado.

12. Vian, F., op.cit., p. 280.

13. Vernant, JP., op.cit. p.159.

14. Hinos Homéricos. A la Terre, I e segs. In: Eliade, M., Tratado de História das Religiões, Lisboa, Clássica, 1971, pp.293-4.

15. Eliade, M. Tratado, op.cit., p.309.

16. Para este trabalho foi utilizada a Bíblia de Jerusalém (SP, Paulinas, 1985), considerada a melhor e mais atual tradução do texto para a língua portuguesa, vertida di­retamente das línguas originais. Muitos dos comentários e discussões que desenvolvi foram elaborados a partir das notas desta tradução e também da La Sainte Bible edição de 1973, sob a direção da École Biblique de Jerusalem.

17. Eliade, M., "Quando Israel era menino...", In: História das Idéias e das Crenças religiosas, op.cit., pp. 196-8.

18. Chouraqui, A. Os Povos da Bíblia, SP, Cia das Letras, 1991, pp. 191-2, 194-5.

19. Ver Jó 3, 1321, Ecl. 9, 4-5; Gn 37,35; Is 14,19; Pr 21,16; Ez 32, 17-32; Dt 32,22; Lm 3,55 Gn 47, 29, 49; 2 Sm 21, 12-14.

20. Eliade, M. "A Religião de Israel na Época dos Reis e dos profetas", op.cit., p.178.

21. Frazer, J.G. "Saul e la pitonia de En-Dor", In: El Folklore del Antiguo Testamento, México, Ed. Fondo de Cultura, 1981, pp. 391-412.





CAPÍTULO 1.




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