Capítulo 6 – o brasil e a Segunda Guerra Mundial



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Capítulo 6 – O Brasil e a Segunda Guerra Mundial



O Brasil e o mundo nos anos 30

Como visto, a década de 1930 se caracterizou por forte tensão internacional, a medida que Itália, Japão e Alemanha tentavam mudar, pela força, sua posição no mundo. Para o Brasil, essa tensão teve o seu lado positivo, no sentido de que a importância do país no mundo aumentou muito. Realmente, até este período, o Brasil não era um país de grande importância no jogo de poder entre as grandes potências. Com a crescente corrida armamentista e a tensão entre os países ocidentais e a Alemanha, esta situação se alterou. O Brasil tinha algumas matérias primas essenciais para os preparativos militares alemães (como borracha, quartzo, manganês e ferro) e a Alemanha propôs ao país a compra de grandes quantidades desses produtos em troca de produtos industrializados alemães. Era o chamado sistema de “marcos de compensação”, que permitiu um notável incremento no comércio entre os dois países nos anos 30.


Além disso, a Alemanha (e, em menor grau, a Itália) começou um sistemático trabalho de difusão da ideologia nazista no Brasil. Para isto, ela contava com o apoio de grupos dentro do governo Vargas (interessados no modelo germânico de desenvolvimento nacional e equilíbrio social) e a simpatia de boa parte da coletividade alemã instalada no sul do Brasil e dos integralistas1.

Tal situação assustou o governo dos Estados Unidos, que não apreciavam a hipótese de ver um governo pró Alemanha no seu flanco sul. Isso levou a uma tentativa americana de reforçar os laços com o Brasil e à criação de uma grande máquina de propaganda destinada a convencer os brasileiros da superioridade da democracia americana sobre a ditadura nazista, das vantagens da amizade americana e da amizade dos dois povos. Foi a partir dessa época, e especialmente a partir do início dos anos 40, que a cultura americana entrou com força no país. Datam dessa época a criação do “Zé Carioca” por Walt Disney, a explosão de Carmem Miranda em Hollywood e a consolidação da influência da música e do cinema americanos no país2. O Brasil desses anos experimenta, portanto, uma situação de disputa entre alemães e americanos por seus recursos e pela influência em sua política interna.




O Brasil e a entrada na guerra


Com o início da guerra na Europa, a importância do Brasil cresceu mais ainda, pois o Nordeste do Brasil era a parte do continente americano mais próxima da África e seria provavelmente por esta região que uma invasão alemã da América se iniciaria. Mesmo depois de 1942, quando se tornou claro que isso não ocorreria, a região continuou importante, pois era pelo Nordeste brasileiro que seguiam aviões e equipamentos militares americanos para a África e onde se concentravam navios para o combate aos submarinos alemães no Atlântico Sul. O país continuava de posse, além disso, de várias matérias primas essenciais para a guerra. Conseguir o apoio ou a neutralidade do Brasil se tornou fundamental.

O governo de Getúlio Vargas soube se aproveitar dessa situação para conseguir várias concessões de interesse para o projeto de desenvolvimento do país. Em primeiro lugar, ele obteve do governo dos Estados Unidos créditos e apoio para a construção da primeira indústria siderúrgica do país, a Companhia Siderúrgica Nacional, instalada em Volta Redonda/RJ. Além disso, Vargas conseguiu créditos para vários outros programas de seu governo e armamentos para o reequipamento das Forças Armadas brasileiras, o que era uma velha reivindicação dos militares, preocupados com possíveis ameaças de guerra com a Argentina e com seu próprio poder.

Essa foi a chamada “diplomacia pendular” de Vargas: jogar entre Estados Unidos e Alemanha, sempre ameaçando um lado de se aliar com o outro, de forma a conseguir concessões dos dois lados. Foi uma política bem sucedida, mas não só teve limites (pois chegou uma hora em que foi necessário escolher um lado), como parece difícil acreditar que o Brasil pudesse se aliar militarmente à Alemanha para uma guerra contra os Estados Unidos.

Em primeiro lugar, havia a mais que evidente questão prática. Os Estados Unidos jamais iriam permitir a presença de um Brasil aliado da Alemanha nas suas fronteiras do sul e há registros inclusive de planos americanos de invadir o Nordeste brasileiro no caso dessa aliança realmente se concretizar3.

Havia também um grande problema de ordem geopolítica. Uma vitória alemã na guerra teria significado, muito provavelmente, a conquista do sul do Brasil pelos nazistas e a incorporação dos descendentes de alemães dessa região ao Império alemão. O resto do Brasil seria reduzido à condição de satélite ou de colônia. Os dirigentes brasileiros do período, além disso, haviam estabelecido como prioridade o reforço da identidade nacional brasileira e, dentro desse plano, era inaceitável a existência de colônias de estrangeiros no Brasil que não falavam português e não se sentiam brasileiros e, especialmente no fim dos anos 30, o governo Vargas iniciou uma campanha contra estes, causando a ira especialmente da Alemanha.

A questão ideológica e da política interna brasileira também pesou. Algumas pessoas dentro do governo e da opinião pública brasileira viam com bons olhos as idéias nazistas (e, especialmente, as do fascismo italiano), mas não o suficiente para fazer o governo Vargas se aliar a Alemanha por motivos de solidariedade ideológica. Além disso, um dos grupos políticos que ameaçavam o poder de Vargas e chegou até a tentar um golpe de Estado contra ele em 1938, os integralistas, eram visivelmente ligados às potências do Eixo. Para Vargas, não haveria sentido em uma aliança com um país que apoiava seus inimigos internos.

Isso não significa dizer que a aliança entre Brasil e Estados Unidos tenha sido dada desde o início e que a possibilidade de aliança Brasil/Alemanha nunca tenha existido. Em muitos momentos, a corrente pró alemã no governo foi muito forte e os laços culturais e econômicos dos países do Eixo com o Brasil poderiam ter levado a um afastamento dos Estados Unidos. Os próprios governos de Roma e Berlim tinham extremo cuidado em, apesar de seu contato com os integralistas, cativar e tentar manter um bom relacionamento com o governo Vargas. No entanto, prevaleceu o que era mais provável e o Brasil foi gradualmente se aproximando com os Estados Unidos no final dos anos 30.

O início da guerra na Europa apenas fortaleceu a posição americana: os alemães dificilmente poderiam fornecer auxílio militar a seus aliados no Brasil e o comércio entre o Brasil e a Alemanha caiu a quase zero com o bloqueio naval inglês. Os Estados Unidos, além disso, aumentaram seu esforço de propaganda no país e atenderam, como vimos, as principais reivindicações brasileiras. O resultado desse processo é que o Brasil já estava praticamente dentro do campo Aliado em 1940/41, ainda que oficialmente neutro no conflito.

Para as potências do Eixo, já que era visivelmente impossível conseguir retirar o Brasil do abraço americano, não havia nenhum sentido em manter as aparências. A marinha alemã liberou, então, as costas do Brasil para a guerra submarina. Em poucos meses, de fevereiro a agosto de 1942, vinte e dois navios brasileiros foram afundados por submarinos alemães. No total, 38 barcos foram afundados entre 1941 e 1943, com o saldo de 1.040 mortes. Grupos de estudantes organizaram manifestações de rua contra o Eixo (e contra o próprio governo Vargas) e o governo brasileiro não teve alternativas além da declaração de guerra, a qual foi proclamada em 22 de agosto de 19424. O Brasil entrava no maior conflito da história da humanidade.

O Brasil na guerra

Após um primeiro momento de preocupação com uma possível invasão alemã e de medidas repressivas contra as colônias de alemães, italianos e, especialmente, japoneses instaladas no Brasil, tornou-se claro que essa invasão era extremamente improvável (dadas as derrotas do Eixo na Europa e no Pacífico) e que a participação do Brasil iria se restringir ao fornecimento de alimentos, matérias primas e minérios para as fábricas dos Estados Unidos e à proteção das rotas marítimas contra os submarinos alemães. Foi isso efetivamente o que acabou ocorrendo, com o envio maciço desses produtos para a América do Norte e uma eficiente campanha anti submarina da Marinha brasileira, reequipada e apoiada pela Marinha dos Estados Unidos, que resultou no afundamento de quinze submarinos alemães e um italiano entre 1942 e 1943.

Para conseguir essas matérias primas, o governo Vargas mobilizou os trabalhadores (reprimindo-os e controlando-os rigidamente) e lançou uma grande operação de emergência, chamada de “A Batalha da Borracha”. Para conseguir o látex e fabricar a borracha essencial para os tanques americanos, 55 mil nordestinos foram enviados para a Amazônia. Mais de 25 mil morreram na luta contra as doenças tropicais, a fome e o abandono. Foram tratados pelo governo com rigor militar e conseguiram cumprir a meta de aumentar os estoques de borracha dos Aliados, ainda que a um custo humano imenso.

Na verdade, a mobilização dos trabalhadores urbanos e rurais não aconteceu simplesmente para que o Brasil conseguisse cumprir seus compromissos de fornecimento de matérias primas para os Aliados. Para o governo de Vargas, mobilizar a população em torno da guerra, das Forças Armadas e do nacionalismo era uma maneira de reforçar seu próprio poder. No entanto, essa mobilização esbarrava em dois problemas centrais. O primeiro era que o Brasil era uma ditadura combatendo ditaduras e permitir que as pessoas se manifestassem contra as ditaduras fascistas era permitir que elas se manifestassem contra a própria ditadura Vargas. Por isso, essa mobilização tinha que ser restrita e controlada. Já o segundo problema era que, ao contrário do que acontecia na Europa, na Ásia e na América do Norte, a guerra era uma realidade muito distante da vida da população brasileira e conseguir fazer as pessoas levarem a sério as medidas de mobilização era tarefa difícil.

Realmente, a população brasileira, em geral, não vivenciou realmente um cotidiano de guerra. Houve certa escassez de alimentos e de bens de consumo, mas não comparável à vivida na Europa. Automóveis particulares sofreram restrições de uso, adotou-se o gasogênio (gás de carvão vegetal) para gerar energia e mover veículos e estimulou-se o consumo de pão integral e o plantio de hortas caseiras para economizar alimentos. Também se realizaram exercícios contra possíveis ataques aéreos japoneses ou alemães em São Paulo, Rio de Janeiro e em outras cidades, mas estes eram tão improváveis que os exercícios causavam mais riso do que preocupação. A população brasileira, assim, não entrou realmente no “espírito da guerra” (a não ser em momentos isolados) e mesmo o envio de soldados brasileiros para a Itália foi mais uma decisão do governo do que efeito da pressão popular.

O governo brasileiro, realmente, considerou que seria conveniente participar mais ativamente do esforço de guerra aliado com o envio de tropas para a frente de batalha. Para ele, o envio de tropas teria como primeira conseqüência a incorporação de material bélico moderno pelas Forças Armadas e o seu treinamento. Em segundo, esperava-se que a presença de pracinhas brasileiros nas frentes de batalha ajudaria a aumentar o apoio da população brasileira ao governo Vargas. Finalmente, imaginava-se que uma participação mais ativa dos brasileiros no conflito daria ao Brasil mais relevância ao país nos futuros acordos de paz. Com isso, iniciaram-se negociações com os Aliados para a criação de uma força militar brasileira a ser enviada para a Europa. A princípio pouco entusiasmados com a idéia de ter que treinar e equipar os brasileiros, os americanos acabaram concordando. Três divisões de infantaria e uma blindada deveriam ter sido recrutadas, mas as dificuldades para conseguir equipamento dos americanos acabaram restringindo a tropa a uma divisão de 25.334 soldados (e mais um esquadrão de caça da Força Aérea). Nascia a Força Expedicionária Brasileira, a FEB.


A Força Expedicionária Brasileira
As primeiras tropas brasileiras desembarcaram em Nápoles em 16 de julho de 1944. Nos meses seguintes, novas tropas desembarcaram e os soldados brasileiros participaram da conquista de pequenas cidades nas montanhas dos Apeninos, como Camaiore e Barga. De novembro de 1944 a fevereiro de 1945, a divisão brasileira foi envolvida na conquista do estratégico Monte Castelo. A posição só foi ocupada após quatro grandes ataques, com grandes baixas entre os brasileiros. Nos meses seguintes, a FEB participou da ocupação do centro-oeste da Itália, com confrontos com os alemães em Castelnuovo e Montese. Em 28 de abril, ela recebeu a rendição de toda uma divisão alemã, com mais de 17 mil homens. Em julho, começou o retorno dos soldados ao Brasil. Morreram 435 soldados e oficiais do Exército e nove oficiais da Força Aérea. Vários milhares foram feridos ou se acidentaram5.

Os soldados brasileiros, enviados para a frente de batalha, sentiram na pele o que era a guerra moderna e como ela era ainda mais difícil para um país ainda agrícola e atrasado como o Brasil. Os soldados brasileiros tiveram que ser totalmente equipados pelos americanos (desde as fardas e os objetos de uso pessoal, até o armamento pesado, como canhões e blindados de reconhecimento) e estavam pouco acostumados com o rigoroso inverno italiano. Além disso, não só os recrutas brasileiros tinham pouca experiência militar, como os próprios oficiais brasileiros, que tinham sido formados estudando as teorias bélicas da primeira guerra mundial, tiveram que aprender na prática as novas técnicas militares, como o uso dos aviões e dos modernos sistemas de comunicações.

Na verdade, não faz nenhum sentido supervalorizar a participação brasileira na guerra da Europa. Com apenas 25 mil soldados em ação numa guerra que mobilizou dezenas de milhões de homens, numa frente secundária como a italiana (onde os Aliados colocavam justamente as tropas que consideravam menos confiáveis) e chegando às linhas de frente quando a superioridade aliada já era quase que total, seria impossível dizer que a participação brasileira foi decisiva. No entanto, é impossível não reconhecer a coragem e a grandeza dos brasileiros, que deram uma colaboração importante para a queda do nazi-fascismo.
Os americanos no Brasil

Como resultado da aliança entre brasileiros e americanos, vinte e cinco bases militares americanas foram instaladas no norte e nordeste do Brasil. A maior delas era em Natal e recebeu o nome de Parnamirim Field. Com uma área total de 13.500.000 m2 e podendo receber centenas de aviões por dia, essa foi uma base fundamental para o esforço de guerra americano, pois, como já dito, era por ali que passavam aviões e suprimentos para as ofensivas Aliadas na África do Norte e no Oriente.



A instalação da base e a chegada de milhares de soldados americanos também causou profundas mudanças sociais e nos costumes na região. As festas, com a presença dos militares americanos, encantavam as moças e enciumavam os rapazes. Namoros entre americanos e brasileiras não foram incomuns. A cidade também vivenciou forte crescimento do comércio, exercícios de guerra e acontecimentos inimagináveis antes, como um show com a famosa orquestra de Duke Ellington ou a presença de atores de cinema como Humphrey Bogart e Tyrone Power e até mesmo do próprio presidente Roosevelt, que visitou a cidade em 1943. Os americanos e a cultura americana haviam chegado para ficar, e não só em Natal.

1 Box Ação Integralista Brasileira
Fundada em 1932 por Plínio Salgado, a Ação Integralista defendia idéias muito próximas às do fascismo europeu: nacionalismo, anticomunismo, Estado forte, etc. Com fortes laços com a Alemanha nazista e a Itália fascista, contava com o apoio de boa parte da classe média e tinha muitos simpatizantes entre as colônias de imigrantes no sul do Brasil, nas forças armadas e no clero. Foi sendo eliminada por Getúlio Vargas a partir de 1937 e banida de vez após uma tentativa frustrada de golpe em 1938.


2 Sobre o Zé Carioca, principal personagem criado pela Disney para cativar os brasileiros na época da guerra, ver, na Internet: http://www.aleph.com.br/puccampinas/hq/ze.htm.



3 Veja os planos de invasão americanos em www.terra.com.br/istoe.


4 Para extratos de vídeo sobre aos afundamentos de navios brasileiros e as manifestações de rua contra o Eixo, ver www.cfh.ufsc.br/~feb/videose.htm.



5 Ver detalhes da campanha brasileira na Itália: www.cfh.ufsc.br/~neodo/feb/2guerra.htm. Outras imagens e mapas podem ser vistos em www.patota.com/2@war01.htm. O link www.123-rio.com/v_bras/rjgb-m0o.htm leva ao Museu da FEB, no Rio de Janeiro.





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