Canto coral: um estudo sobre a vivência da sensibilidade no âmbito educacional



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Encontro14.11.2017
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A SENSIBILIDADE NA VIVÊNCIA COM O CANTO CORAL
Artemisa de Andrade e Santos - UFRN

Este estudo tem como propósito refletir a importância do ensino musical para o sistema educacional, enquanto elemento capaz de interferir na construção da personalidade do indivíduo, no despertar da sensibilidade e do raciocínio, no desenvolvimento do senso humanístico e estético. Csikszentmihalyi (1990) afirma que a escola enfatiza cada vez menos a convivência das crianças com as habilidades musicais.

A compreensão da importância da experiência estética por si mesma justificaria a exploração da atividade musical na escola, além do reconhecimento de que a música possui uma capacidade, já reconhecida de desenvolvimento de potencialidades pessoais, que resultam numa melhoria do bem estar geral do Ser Humano. Mesmo quando se ensina música às crianças, costuma aparecer o problema habitual: enfatiza-se muito o seu desempenho, e pouco o que elas sentem (CSIKSZENTMIHALYI 1990, p. 164) A música não poderia ser vista como algo supérfluo no ambiente escolar. Utilizá-la adequadamente seria uma forma de trabalhar a energia psíquica dos sujeitos, ajudando-os a diminuir a agressividade e a violência nas escolas (MORAES, 2003, p. 72).

Certas contribuições relativas à experiência de vida do indivíduo somente a música pode oferecer. Seu poder de expansão da criatividade e da auto-expressão favorece uma interação social positiva no espaço escolar. Gardner (1999) ressalta que a educação, no início da vida, devia fornecer tais oportunidades para pensar e executar usando um meio de expressão artística. O poder da música pode ser utilizado devidamente na Educação. Moraes (2003) afirma que os educadores fazem pouco uso da educação musical, deixando de usar toda a potencialidade dos ritmos e as potencialidades de harmonia para ordenar a consciência.

Para a experimentação musical, o corpo é o instrumento mais perfeito e o meio mais rico para se explorar um aspecto essencial da formação de todo músico: a audição interior. Dessa forma, o canto ocupa lugar de destaque no processo educacional ao oferecer possibilidades concretas de parâmetros musicais. A esse respeito vem a importância da experiência coral na Escola. O coro representa a oportunidade de construção coletiva do fazer musical através do corpo. Doreen Rao (1987), afirma que “o canto relaciona-se intimamente ao sentimento humano”. A escola deve propiciar uma formação mais plena para todos os indivíduos. E a música é uma forma de conhecimento que possibilita modos de percepção e expressão únicos e não pode ser substituída por outras formas de conhecimento.

A Música, presença viva no dia-a-dia, integra aspectos cognitivos, afetivos, estéticos e sensíveis. Schiller (1995) destaca o belo como fator de educação. “A música é a expressão de uma totalidade, uma revelação, mistério do sensível, acessível aos nossos sentidos” (Hegel apud Fregtman, 1989). Através da Música, o indivíduo percebe diversas emoções, apura seus sentidos, torna-se atenta, criativa, espontânea.

A atividade coral é bastante difundida no Brasil, caracterizando-se como um instrumento potencial de educação musical.

A escola, como espaço de construção e reconstrução do conhecimento, como lugar de vivências e trocas de experiências, pode surgir como possibilidade de realizar um ensino de Música que esteja ao alcance de todos. A nova LDBEN – Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, n° 9.394/96 vem dar essa garantia quando torna o conhecimento artístico obrigatório no currículo da Educação Básica.

A educação musical não poderia estar dissociada das práticas cotidianas dos alunos. Atividades musicais que envolvem o cantar, dançar, movimentar e improvisar faz parte do ambiente de crianças e jovens, seja no ambiente familiar ou fora dele. São manifestações de grande valor que merecem ser considerada na formação cultural e educativa dos alunos e, dessa forma, com reais possibilidades de constituírem uma vertente fundamental do ensino e de igualar-se às demais disciplinas do currículo escolar.

Por meio da atividade musical, se desenvolvida num processo coerente e dinâmico, as crianças aprendem a conhecer a si próprias, aos outros e à vida, estabelecendo laços afetivos que lhes serão úteis durante seu processo de crescimento e amadurecimento. Sendo assim, o ensino nas primeiras etapas da escolarização apresenta-se com a finalidade de aproximar a criança da música, levando-a a gostar de cantar, ouvir, criar movimentar-se e apreciar sons e melodias, seja pela prática do canto, da manipulação de instrumentos e objetos sonoros ou por meio de jogos cantados, movimento rítmico e expressivo, percussão corporal.

A vivência musical, mais especificamente, o canto coral constitui um momento de prazer, de magia, de sentir, de perceber, de criar, de descobrir. É o momento propício para criar situações que estimulem a busca do conhecimento, a alegria do fazer musical. É o momento de aproveitar a fase escolar inicial para desenvolver esquemas de apreensão da linguagem musical e verbal, contribuindo para o enriquecimento da interação entre alunos, aluno e professor, indivíduo e sociedade, indivíduo e mundo.

Contudo, é preciso dar à educação musical, um caráter progressivo que deve acompanhar o indivíduo ao longo de seu processo de desenvolvimento escolar. Momentos devem ser adaptados às suas capacidades e interesses específicos. É preciso ter consciência e clareza para introduzir o aluno no domínio do conhecimento musical. Além do mais, todo ser humano possui algum potencial para entender música, desde que lhe seja dado condições e oportunidade para descobrir o sentido e o significado da música para sua vida.

Estamos cientes e conscientes das dificuldades e limitações para a realização da prática musical na escola, tais como carência de material músico-pedagógico, sala inadequada, tempo disponível reduzido, turmas numerosas e, por vezes, falta de um profissional em condições de desenvolver objetivos propriamente musicais. Neste caso, outro limite que se impõe à educação musical escolar diz respeito à ausência de um método atrativo e realista que, em concordância com o desenvolvimento psicossocial do aluno, possibilite-lhe um aprendizado prazeroso, acessível e, voltado para seu crescimento pessoal.

É preciso, em nome do resgate da alegria cultural Snyders (1992), tomar consciência das verdadeiras carências pedagógicas no domínio do ensino musical e projetar um plano estratégico, transparente e inovador, com objetivos claros e bem definidos que possam ser efetivados no cotidiano da vida escolar. Entretanto, é preciso vencer as dificuldades e buscar alternativas, abrir possibilidades e espaços para viver com alegria e euforia o momento canto coral, buscar meios para alcançar a realidade do educando, possibilitando sua motivação, seu interesse, pois assim evitaríamos o descontentamento e, até mesmo, a apatia dos alunos diante do que a escola lhes propõe e oferece. Csikszentmihalyi (1990) reforça que cantar num coral é uma maneira muito estimulante de experimentar a combinação de nossas habilidades com as de outras pessoas.

Refletir sobre essa prática que pode ser definidora da avaliação que o indivíduo fará sobre a experiência musical, é o intuito destas colocações. Essa prática prazerosa e bem fundamentada incitará posturas de busca constante pela atividade e de necessidade de aperfeiçoamento que, mais tarde, poderão servir, até mesmo, para a definição do campo profissional.

REFERÊNCIAS


BRASIL MEC. Nova LDB - Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Rio de Janeiro: Qualitymark, 1997.

MORAES, Maria Cândida. Educar na Biologia do Amor e da Solidariedade. Petrópolis: Vozes, 2003.

CSIKSZENTMIHALYI, Mihaly. A psicologia da felicidade.

FREGTMAN, Carlos Daniel. Corpo, Música e Terapia. São Paulo: Cultrix, 1989.



GARDNER, Howard. O verdadeiro, o belo e o bom: os princípios básicos para uma nova educação. Tradução Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Objetiva, 1999.
RAO, Doreen. The young singing voice. Choral Music Experience, vol.5, 2 ed. USA, Boosey & Hawkes, Inc, 1987.
SCHILLER, Friedrich. A educação estética do homem. São Paulo: Iluminuras, 1995.
SNYDERS, George. A escola pode ensinar as alegrias da música? São Paulo: Cortez, 1992.



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