Caminhos e desvios da literatura brasileira



Baixar 25,84 Kb.
Encontro06.11.2017
Tamanho25,84 Kb.

CAMINHOS E DESVIOS DA LITERATURA BRASILEIRA
Lorena Grisi
Palavras-chave: Silviano Santiago, literatura brasileira, antropofagia.
Resumo: Estudo das relações existentes entre a antropofagia proposta no Movimento Modernista e o processo de descentramento cultural que, na literatura contemporânea, é parte do projeto teórico de Silviano Santiago. O ato de deslocar-se para entrar em contato com culturas distintas e, a partir delas, ler a sua própria cultura constitui a literatura brasileira desde a sua reinvenção pelos escritores modernistas.
Este trabalho faz parte do projeto O escritor e seus múltiplos: migrações, do setor de Teoria da Literatura do ILUFBA, em sua vertente que aborda a produção do escritor mineiro Silviano Santiago. Neste ano de pesquisa, orientado pela Prof. Dra. Evelina Hoisel, nos dedicamos a fazer o levantamento dos artigos escritos por Silviano Santiago para o Jornal do Brasil e para a Folha de São Paulo desde 1990 até o encerramento da pesquisa, em julho de 2004. Partindo da leitura desses artigos, escolhemos como temática para a pesquisa as relações existentes entre a literatura modernista e a literatura contemporânea, mais especificamente a presença do elemento antropofágico na produção nacional, e a leitura que dele faz Silviano Santiago.

A literatura modernista propunha-se a fazer uma rearticulação da escrita nacional, questionando a literatura que vinha sendo produzida até então, os padrões eurocêntricos arraigados na produção brasileira e o cânone tradicional. Mário de Andrade via no Modernismo uma forma de reestabelecer a consciência criadora nacional. Apesar do questionamento contundente sobre a presença de valores estrangeiros na cultura brasileira, não houve uma negação absoluta desses valores, mas uma mudança de perspectiva, uma reflexão sobre o seu papel no nosso contexto. É trazida a possibilidade de pensar a literatura brasileira não desvinculada, mas associada à produção européia, aos tradicionais centros de referência cultural, e surge, neste momento, a idéia de antropofagia defendida por Oswald de Andrade, tão estudada na contemporaneidade pelos críticos literários brasileiros – dentre eles, Silviano Santiago. A antropofagia, tal como era vista por Oswald de Andrade, era um meio de, transpondo ideais europeus e dando-lhes uma configuração que se adequasse à realidade nacional, renovar e atualizar a literatura brasileira.

Maria Eugênia Boaventura, em A vanguarda antropofágica, concebe a aproximação dos escritores modernistas com as vanguardas européias como uma forma de pensar novas possibilidades artísticas, definindo uma nova função da literatura (BOAVENTURA; 1985). Não se tratava, contudo, de assimilar, simplesmente, mais uma tendência artística da Europa, mas de trazê-la para o espaço brasileiro, adaptando-a às contingências locais. O aparente paradoxo existente na importação de idéias européias, justapostas à cultura brasileira, como forma de reconfigurar a escrita nacional, foi determinante na concepção de uma literatura brasileira nova, original e representativa da nossa cultura. Em país sul-americano e, portanto, de passado colonial, era quase impossível desvencilhar-se da produção cultural européia, na medida em que ela é, inevitavelmente, parte constituinte da nossa produção cultural. O que ocorria no Modernismo era a dessacralização do saber tradicional em favor da reelaboração da produção literária (e cultural) brasileira, com o intuito de que ela conquistasse o seu lugar dentro da tradição literária ocidental.

Em artigo publicado no Jornal do Brasil em 1990, Elogio da tolerância racial, Silviano Santiago nos diz da necessidade de absorver o que é exterior para que o Brasil possa se exteriorizar com dignidade:


A consciência nacional estará menos no conhecimento do seu interior e mais no complexo processo de interiorização do que lhe é exterior, isto é, do que lhe é estrangeiro. Aí estão dois tópicos clássicos do Modernismo e do nosso poeta [Oswald de Andrade]: a necessidade de atualização pelo contato com os países desenvolvidos, condição sine qua non para a possível produção de bons produtos culturais exportáveis. (SANTIAGO; 1990)
Para Silviano Santiago, o Modernismo, através da ruptura e da posterior reorganização dos padrões literários existentes até então, que eram reflexo de um passado colonial, acaba por se tornar uma forma de pensar a diferença, de inquirir sobre como se dá a singularidade da cultura brasileira, ao mesmo tempo em somos parte, somos constituídos e somos constituintes de um plano muito maior que é a produção cultural do Ocidente.

O jogo existente entre interior e exterior, entre nacional e estrangeiro, de que estamos tratando, nas palavras de Vera Chalmers em 3 linhas e 4 verdades: o jornalismo de Oswald de Andrade, “o processo de devoração do discurso alheio” (CHALMERS; 1976), toma o aspecto de invenção de uma língua nova, o idioleto antropofágico. Se podemos dizer que houve uma reinvenção da língua brasileira a partir do Modernismo, podemos dizer também que houve uma reinvenção de códigos, de experiências textuais condizentes com a nova proposta artística. Torna-se fundamental, no Modernismo, por exemplo, a estética da paródia, a deglutição e revisão de textos consagrados e tornados referência da escrita nacional. O processo de devoração a que estamos nos referindo diz respeito não só à apreensão de elementos estrangeiros à cultura nacional, mas a aspectos pertencentes a nossa própria produção e que fazem parte de uma tradição histórica que poderia ter sido relegada ao passado e considerada retrógrada ou conservadora. Daí a importância da paródia oswaldiana, de minha terra tem palmares, de efetuar uma releitura da literatura nacional. Daí também o porquê, na contemporaneidade, da estética do pastiche, dos textos de Silviano Santiago, leitor indiscutível do Modernismo e escritor de Em liberdade. Se, no Modernismo, percebeu-se a impossibilidade de desvincular-se completamente da produção literária que lhe foi anterior, na literatura contemporânea verifica-se a impossibilidade de desligar-se do Modernismo porque observa-se, mais uma vez, a impraticabilidade de renunciar uma tradição.

Em se tratando de antropofagia, de apreensão do que é exterior, de busca pelo outro, cabe adentrar, neste momento, um tema recorrente não só nos textos teórico-críticos de Silviano Santiago, mas também em sua produção ficcional: o tema da viagem como forma de buscar o que é desconhecido, mas que pode ser relevante para o nosso contexto cultural. A viagem, para Silviano, é um modo de reflexão, um percurso que conflui para a possibilidade de pensar a cultura do outro em relação à cultura daquele que se desloca.

No que concerne aos escritores modernistas, são inúmeros os textos em que Silviano Santiago se serve das viagens de Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral a Paris para discutir sua proposta de releitura da cultura nacional. Em artigo publicado no Jornal do Brasil em 1995, intitulado Atração do mundo, Silviano menciona que:


No prefácio à Poesia pau-brasil, Paulo Prado afirma engraçadamente que Oswald, “numa viagem a Paris, do alto de um ateliê da Place Clichy – umbigo do mundo – descobriu deslumbrado, a sua própria terra. A volta à pátria confirmou a revelação surpreendente que o Brasil existia”. E acrescentava que Oswald tinha descoberto o ovo de Colombo. (SANTIAGO; 1995)
Vale lembrar ainda a importância concedida por Silviano à viagem dos escritores modernistas às cidades históricas de Minas Gerais, que culmina numa reflexão sobre a nossa tradição histórica e é explicitada por Silviano Santiago em textos como A permanência do discurso da tradição no modernismo. Rever os monumentos históricos do passado, de acordo com Silviano, permite uma busca pela identidade nacional.

Na ficção de Silviano Santiago também é evidente o seu interesse em se utilizar da viagem como metáfora para o encontro com uma cultura que é exterior. Afinal, não é ele o escritor de Viagem ao México e Stella Manhattan? Se, no primeiro texto, vemos a realidade latino-americana ser descortinada por um francês da década de 30, no segundo tem-se um brasileiro vivendo naquele que é o atual centro de referência da cultura ocidental, os Estados Unidos da América. Em ambos os textos, vê-se a idéia de deslocamento, de migração, da viagem como modo de questionar paradigmas culturais e propor interseções. A viagem permite a inserção do indivíduo em outros domínios. No caso dos romances de Silviano Santiago, as noções de limite são desconstruídas. Os limites geográficos, os limites do corpo, os limites do saber, todos são deslocados em prol da percepção de um mundo exterior que pode, e deve, ser absorvido e digerido antropofagicamente. O descentramento que a noção de antropofagia implica é parte fundamental do projeto cultural de Silviano Santiago, por isso a presença tão constante do tema da viagem e da mobilidade em seus textos.

Ângela Maria Dias, em O vértice do nacional: heterogeneidade da herança histórica e bricolage transcultural, aponta:
Este diálogo com o cerne da tradição antropofágica do Modernismo brasileiro ao fazer emergir a metáfora da viagem como constante, de uma parte reafirma a histórica inserção periférica do intelectual brasileiro e, de outra, induz à sua interpretação enquanto eterno argonauta, visando a concretizar, pelo deslocamento espacial, o distanciamento temporal necessário ao exame do histórico bifrontismo brasileiro, no amálgama entre as divergentes tradições locais e o cosmopolitismo cultural da metrópole. (DIAS; 2001)
O fato de pensar tão obsessivamente a cultura brasileira em relação aos centros de hegemonia cultural possibilita a Silviano Santiago pensar o seu próprio lugar na produção intelectual brasileira (e latino-americana) contemporânea. O desejo de criar uma literatura nacional que pudesse se colocar no mesmo nível das literaturas estrangeiras da cultura Ocidental e com elas discutir e se afirmar não foi característico apenas dos escritores modernistas. Os escritores contemporâneos, incluindo, evidentemente, Silviano Santiago, nada mais fazem que tentar constituir uma literatura nacional que questione a sua posição frente à uma tradição literária imposta historicamente.

O ato de digerir a cultura alheia traz para o corpo da nossa cultura características que lhe são exteriores, mas que o alimentam e se misturam a nossos elementos intrínsecos, para que assim o corpo se rompa e se metamorfoseie em originalidade, porém permitindo uma identificação. A reavaliação cultural implantada pelos escritores modernistas e que se repete através de críticos e teóricos contemporâneos por meio da contínua busca pelas identidades que compõem o indivíduo pode ainda, numa outra perspectiva de estudo que, neste trabalho, não pretendemos aprofundar, nos levar a pensar a questão da dependência cultural como parte constituinte da literatura brasileira, tema que também é assunto capital nos textos de Silviano Santiago, podendo-se citar os ensaios publicados em Vale quanto pesa. Em debate publicado em Nas malhas da letra, Silviano, ao referir-se à paródia como é concebida por Oswald de Andrade, discorre que “o sentido da paródia é você comer o outro para ser mais forte. O pensamento dele [Oswald de Andrade] está muito vinculado, a meu ver, a uma discussão sobre dependência cultural. É uma maneira do Brasil se afirmar pela via oposta à da colonização. (SANTIAGO; 2002)



O interesse de Silviano Santiago pela escrita modernista, tão explicitado em seus ensaios e nos artigos de jornal coletados durante esse trabalho, é bastante explícito e merece uma reflexão. Escritor, crítico e intelectual inserido numa cultura que valoriza o texto literário em sua correlação direta com a realidade em que é produzido, Silviano é, no entanto, fruto de uma geração que, após as primeiras décadas de Modernismo, retomava o contato com uma escrita de caráter esteticizante e que tem em Clarice Lispector uma de suas maiores representantes. Essa nova geração de escritores, aparentemente não politizada - e dizemos aparentemente porque o seu descompromisso apenas não é explícito, mas sua escrita não determina distanciamento da vida local – determinou o interesse de Silviano Santiago em pensar o lugar da literatura brasileira no cenário internacional. Num país com a tradição histórica que o Brasil tem, periférico, marginal, colonizado e subdesenvolvido, tornou-se imprescindível para uma geração de intelectuais, da qual faz parte Silviano, observar como se constitui a nossa produção literária e, num plano mais abrangente, como se configura a nossa produção de cultura.


Referências:
BOAVENTURA, Maria Eugênia. A vanguarda antropofágica. São Paulo: Ática, 1985.
CHALMERS, Vera Maria. 3 linhas e 4 verdades: o jornalismo de Oswald de Andrade. São Paulo: Duas cidades, Secretaria da cultura, ciência e tecnologia do estado de São Paulo, 1976.
DIAS, Ângela Maria. O vértice do nacional: heterogeneidade da herança histórica e bricolage transcultural. In: COUTINHO, Eduardo F. (Org.). Fronteiras imaginadas – cultura nacional / teoria internacional. Rio de Janeiro: Aeroplano editora, 2001.
SANTIAGO, Silviano. Atração do mundo. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 2 dez. 1995. Idéias, p. 5.
______. Elogio da tolerância racial. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 9 set. 1990. Idéias, p. 8-11.
______. Nas malhas da letra. Rio de Janeiro: Rocco, 2002.

Lorena Grisi - Universidade Federal da Bahia (Bolsista PIBIC)





©livred.info 2017
enviar mensagem

    Página principal