Caminhos da educaçÃo escolar japonesa em santos (1908-1943)



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Caminhos da Educação Escolar Japonesa em Santos (1908-1943)
Rafael da Silva e Silva

Universidade Católica de Santos, UNISANTOS

Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu - Mestrado em Educação

São Paulo

Eixo 1: PESQUISA EM PÓS GRADUAÇÃO E PRÁTICAS PEDAGÓGICAS.

Comunicação


Resumo

Esta comunicação estuda a educação escolar japonesa em Santos e sua importância para a colônia local no período de 1908 a 1943, quando os japoneses foram obrigados a deixar a cidade no governo Vargas, fechando as suas escolas. O trabalho utiliza documentos de acervos públicos e privados, com fontes tais como: certidões, processos, jornais, fotos. Utilizou-se, também, de entrevistas para obter histórias de vida com pessoas que estudaram na escola japonesa ou tiveram um contato próximo com a colônia. Entre outros, a pesquisa teve presente os estudos dos autores: Handa (1987), que faz o retrospecto da história dos imigrantes japoneses no Brasil, e Saito e Maeyama (1973), que defende a divisão da imigração japonesa em três períodos distintos. Percebeu-se que a educação entre os japoneses era bem valorizada, pois, na ausência de escolas japonesas, matriculavam as crianças em Grupos Escolares, mesmo que isso comprometesse o ensino da língua pátria. Além disso, notou-se que a Escola Japonesa funcionou como uma escola normal de acordo com as exigências da Secretaria de Educação, sendo também centro cultural e administrativo da colônia.


Palavras-chave: Educação, Imigração, Escola japonesa.
Introdução
A presente comunicação representa um resumo de uma pesquisa mais abrangente sobre a educação japonesa na cidade de Santos, litoral do Estado de São Paulo, e que se encontra em fase final. Estabeleceu-se como recorte histórico o período iniciado em 1908, data registrada com a chegada dos primeiros imigrantes na cidade até, 1943, quando o governo de Getúlio Vargas determinou a evacuação dos imigrantes japoneses e alemães de toda a costa litorânea do país. Com isso, o governo determinou também a nacionalização das instituições formadas por imigrantes.

Nesse episódio, muitos documentos que poderiam servir como registros históricos sobre a temática abordada nesta comunicação se perderam, dificultando o levantamento de dados e o trabalho historiográfico. Portanto, o levantamento de fontes e dados foi focado principalmente nos acervos pessoais, onde foi possível encontrar alguns documentos relevantes tais como fotografias, jornais, cadernos de atividades etc. Além disso, recorreu-se a relatos orais de ex-alunos, filhos de professores e pessoas que tiveram contato maior com as escolas japonesas que funcionaram no período estudado. Também se realizou pesquisa nos setores de documentação pública de Santos e no acervo da Hemeroteca de Santos.


A formação da colônia japonesa em Santos
O marco inicial da história do imigrante japonês no Brasil pode ser estabelecido no dia 18 de junho de 1908, quando o navio Kasato-Maru atracou no porto de Santos, trazendo cerca de 800 pessoas para trabalhar no interior paulista nas fazendas de café que, após a hospedagem na Hospedaria dos Imigrantes, foram distribuídos pelas fazendas de plantação de café. A expectativa dos fazendeiros era suprir a demanda de trabalhadores ocasionada pela alta mobilidade dos colonos. Contudo, logo no primeiro ano de experiência com o imigrante japonês, registraram-se vários casos de fugas para outras regiões, inclusive Santos. Esses pioneiros que optaram pela cidade litorânea, em sua maioria, eram procedentes de Okinawa e estavam instaladas nas fazendas Canaã e Floresta. Segundo Handa, foram atraídos pelo mar azul de Santos, semelhante ao da terra natal (HANDA, 1987).

Na medida em que os pioneiros obtinham êxito na cidade litorânea, outros imigrantes animavam-se para deixar as fazendas de café. Ainda, segundo Handa, muitas famílias haviam fugido para os lados de Santos, sendo que na Fazenda Floresta “os 119 imigrantes haviam se reduzidos a 23” (1987). Em 1913, o Recenseamento de Santos contabilizou 651 japoneses residentes na cidade, sendo que eram 364 homens e 287 mulheres. Assim, o autor indica que os japoneses formaram núcleos ocupacionais, primeiramente, nos bairros do Campo Grande, Marapé e Ponta da Praia (1987). Porém, fontes indicam que também se instalaram nos bairros do Saboó, Macuco, proximidades do Canal 3, Centro e adjacências. Também se formaram núcleos em São Vicente, Guarujá e Praia Grande. Com a construção da linha férrea Santos-Juquiá, muitos japoneses aproveitaram para trabalhar nas obras da estrada de ferro e, ao término, formaram diversos núcleos no percurso da linha até Juquiá, no Vale do Ribeira, onde a presença japonesa tornou-se bem significativa (HANDA, 1987).

Em Santos, os imigrantes dedicaram-se primeiramente ao trabalho no Cais e na Pedreira do Jabaquara, para logo em seguida dedicaram-se à horticultura ou à pesca. Após os primeiros meses de trabalho, arrendaram terras onde pudessem trabalhar em chácaras e vender o excedente da produção na própria região. Assim aconteceu com a pesca, onde os imigrantes construíram casebres próximos às regiões onde pudessem desenvolver essa cultura. Talvez isso se explique pelo fato de que a maioria dos japoneses, que se fixou em Santos, era proveniente de Okinawa, onde predominavam a pesca e a horticultura (HANDA, 1987).

A cultura hortigranjeira teve maior presença nos bairros do Marapé, Campo Grande e Saboó. Os que se dedicavam à pesca se concentraram principalmente no bairro do Macuco e na Ponta da Praia. Em 1913, o recenseamento contabilizava 15 famílias fixas vivendo da pesca e em 1925, e, segundo Handa (1987), eram cerca de 170 famílias tirando seu sustento do mar.

Além da pesca e da horticultura, é possível perceber no Jornal A Tribuna da época, nos anos de 1910 até 1920, um grande número de anúncios de jovens oferecendo para trabalhos domésticos, como faxina e cozinha. Provavelmente, os primeiros anos da presença japonesa em Santos tenham sido os mais árduos; além dos problemas de comunicação e assimilação da cultura local, precisavam encontrar modos de sobrevivência e enriquecimento. Somando a isso, havia problemas de moradias, além da dificuldade de comunicação e costumes diferenciados dos japoneses em relação ao ocidente. Somente na década de vinte, é que a colônia de Santos ganhou notoriedade, pois a cidade litorânea era a porta de entrada para os novos imigrantes destinados ao trabalho no interior nas fazendas, além de ser uma região que constantemente atraía imigrantes recém chegados ao Brasil. Em 1924, decidiu-se, então, inaugurar um escritório do consulado japonês na cidade (HANDA, 1987), o que significou expressão política para a comunidade. Nesse período a comunidade já desfrutava de uma variedade de serviços devido à chegada de um novo tipo de imigrante, cujo perfil profissional era diferenciado dos pioneiros, como por exemplo, médicos, fotógrafos, professores etc. (WAKISAKA, 1992).
A necessidade de se educar e a formação das escolas japonesas
É comum encontrar na bibliografia que aborda a imigração japonesa referências quanto à preocupação excessiva desses imigrantes com a educação. A explicação para esse fenômeno provavelmente esteja na grande transformação social que a Revolução Meiji (1868) trouxe para os japoneses, principalmente no campo da educação, onde o novo governo fez um profundo investimento, fazendo com que, em poucas décadas, houvesse uma maciça instrução aos moldes ocidentais. Diante disso, o japonês incorporou para si a importância da instrução como primordial à sua vida (MIYAO, 1980).

Essa preocupação com a educação é visivelmente notável pelo grande número de escolas que surgiram pelos diversos núcleos de imigrantes japoneses que se espalharam pelo Estado de São Paulo e também por outras regiões. Segundo levantamento realizado em 1932, havia cerca de 180 escolas de natureza japonesa registradas (WAKISAKA, 1992). É possível que o japonês acreditasse que, através do ensino da língua japonesa, poderia transmitir a cultura ancestral do país de origem aos seus filhos, mesmo sendo nascidos no Brasil (TSUKAMOTO, 1973). Além disso, muitos imigrantes abriram mão de privilégios para investir na instrução de seus filhos. Havia o temor de que, em caso de regresso, o filho sofresse discriminação por não saber falar a língua japonesa. Além disso, não desejava que sofressem as mesmas dificuldades que sofreram nos primeiros anos, acreditando na educação como forma de prosperidade. Assim, a escola ganhou relativa importância nos núcleos coloniais. Não só representava símbolo de instrução e progresso, mas também representava um local de encontro social, ocorrendo ali reuniões e comemorações, além de servir como centro administrativo da colônia (HANDA, 1987).

A cidade de Santos não fugiu à regra, assim como os núcleos formados ao longo da linha Santos-Juquiá. Segundo Wakisaka (1992), em 1932 havia ao longo da linha dez escolas, contando com 618 alunos ao todo. No caso específico de Santos, é bem provável que tenha contado com três escolas, sendo que a situada na Rua Paraná, no bairro de Vila Mathias, funcionava como diretoria das demais. Então, além dessa centralizadora, havia também uma escola no bairro do Saboó e, outra, no Marapé, regiões mais afastadas do centro urbanizado da cidade.

O surgimento dessas escolas aconteceu somente na década de trinta quando a comunidade estava mais estruturada, contando com auxilio do Consulado Japonês. Nos primeiros anos, porém, os imigrantes não tiveram muitas opções para educar seus filhos senão matriculá-los em escolas brasileiras e recorrerem à educação particular ao menos para garantir o aprendizado da língua japonesa, mesmo com a falta de livros e material adequado. Poucos foram matriculados nesse primeiro momento. Isso se explica pelo fato de que o imigrante estava interessado em regressar rapidamente para seu país de origem. Porém à medida que os imigrantes em idade infantil cresciam e que a primeira geração de descendentes de japonês nascia, crescia também a preocupação com a educação (WAKISAKA, 1992).

No Bairro do Saboó, os primeiros registros de funcionamento de uma escola japonesa datam de 1936. De acordo com uma fotografia de arquivos pessoais, a escola do Saboó chamava-se Escola Primaria da Associação de Jovens de Santos. Apesar de não ser japonês nem tão ter estudado na escola, o Entrevistado AF relata suas memórias referentes à escola e ao bairro que abrigou grande número de famílias japonesas:

[...] cheguei aqui em 1935, pequenininho, mais de 39 para cá conheço tudo. Tinha a escola de japoneses lá em baixo, no fim da Mercedes Féa, terminava e tinha a escola, em 39, e essa rua para cá só morava japonês [...] Escola de Japonês que é antiga começou em 35 por aí, quando eu cheguei ela já estava aí, ela tava novinha, era só para molecada filho de japonês, escola só de língua japonesa, depois governo obrigou que tinha que falar a língua portuguesa, tinha professor de manhã para ensinar português e à tarde para ensinar japonês.


Infelizmente, atualmente restam apenas as ruínas do casarão onde funcionou a escola, mesmo assim o Entrevistado AF segue descrevendo-a como “um chalé grande, chalé montado em cima de coluna. O chalé era alto, mas era montado em cima de colunas, coluna de trinta e eles fizeram madeira em cima, tipo americana”.

A escola, que funcionou no bairro do Marapé, chamava-se Escola União Japonesa. Infelizmente, não foi possível encontrar maiores informações sobre ela, além de uma nota publicada em A Tribuna, do dia 21 de dezembro de 1935 (p. 9), em que consta a relação de alunos aprovados “do 2º para o 3º - Antonio Passos, Julia Toyama, Cecília Serikako, Julia Tomimura e Totoko Azato. 1º anno para o 2º anno – Alice Nakamoto, Choci Yakabu, Antonio Nakayone, Seifuco Onaga, Nair Chinem e Nelson Chinem.”.


Escola Japonesa de Santos
Era comum, após a formação de uma colônia, os imigrantes, principalmente os mais jovens, formarem associações, a fim de discutirem interesses e organizarem a construção de escolas (WAKISAKA, 1992). Em Santos, funcionou a Associação Japonesa de Santos, sendo que, apesar de não se saber ao certo quando foi fundada, ganhou relativa representatividade na medida em que a colônia japonesa de Santos prosperou ao longo da década de vinte. A presença da colônia japonesa em Santos chamou a atenção do governo japonês devido ao seu relativo crescimento e também pela posição estratégica que ocupava, pois a cidade era local de desembarque dos novos imigrantes, mesmo que estes estivessem destinados ao interior do Estado de São Paulo. Com isso, em 1925, foi fundado na região um escritório do Consulado Japonês (HANDA, 1987). Dessa forma, apoiaram a associação da cidade para construir uma escola que atendesse ao mesmo tempo a necessidade de uma instituição de ensino e onde funcionaria a sede da Associação Japonesa junto aos interesses do Consulado. Assim, disse o Entrevistado IM, cujo pai desempenhou papel de secretário na Escola:

Bom, evidentemente, a finalidade básica, era ser escola, mas, com certeza, em torno dessa escola, funcionou a sede da Associação Japonesa, Nihonjin-kai. Então, como você vê essas várias salas que existem por aqui, com certeza abrigaram toda a parte administrativa, não ao da escola, mas principalmente da Associação. Aliás, a escola fazia parte da associação. A Escola, em função da Associação. Quem formou a Escola foi a Associação. Dificilmente a origem, vamos dizer assim, o ponto de partida foi a Escola. Existia a Associação, a necessidade de fazer com que essa cultura japonesa fosse mantida, fosse preservada. Havia necessidade de escola. Então, a Associação formou a escola e nesta importância daqui de Santos, o Governo Japonês então despendeu, eu não sei qual valor, mas, com certeza, um valor considerável para construir isto aqui.


Em 1929, fundou-se a Escola Japonesa de Santos, situada na Rua Paraná, 129. Segundo certidão de registro de imóvel, cuja cópia hoje se encontra na sede da Associação Japonesa de Santos, o terreno foi adquirido em janeiro de 1929 do Sr. Cassiano dos Santos Coelho. Em 1930, a Associação entrou com o pedido de habitação do imóvel, convocando em edital publicado no “Jornal A Tribuna”, do dia 11 de maio de 1930, o maior número de associados possíveis para aprovação de empréstimo para o pagamento do prédio recém construído (A Tribuna. Santos: 11-maio-30, p. 11).

Em 1939, a Associação adquiriu o terreno situado na Rua Antonio Bento, número 112, que corresponde à parte de trás do casarão, do Sr. Antonio Maria Martins, para a construção do internato que passou a abrigar alunos e professores vindos de regiões mais afastadas. Ao fim, a Associação contava com um terreno entre as ruas Paraná e Antônio Bento, dispondo de uma quadra para a prática de esportes e dois casarões onde simultaneamente funcionavam o escritório da associação, a escola e o internato.

Contudo, a Escola Japonesa de Santos não foi a primeira instituição de ensino de origem japonesa a funcionar na cidade. Os primeiros registros encontrados na documentação pesquisada demonstram que em 1918 funcionou uma Escola Japonesa cujo responsável era o professor Taishiro Mizuno. Segundo o Annuário da Educação do Estado de São Paulo (1918) a escola ministrava aulas de ensino primário para trinta alunos no bairro do Campo Grande. Por falta de documentação não se sabe ao certo quando a escola foi inaugurada e fechada, mas é certo que tenha funcionado de 1918 a 1921, data em que consta um pedido as autoridades locais cancelamento de multa requerida pelo Professor Taichiro Mizuno.

Por ser filiada à Sociedade de Difusão de Ensino de Japoneses no Brasil, a Escola Japonesa de Santos tinha a função de centralizar o ensino de língua japonesa na região. Passou a ser responsável pela nomeação dos professores de japonês e português que atuariam nas demais escolas e também auxiliava no uso do material didático. O próprio governo japonês passou a enviar professores e diretores para atuarem nas escolas brasileiras. Assim também aconteceu com a Escola Japonesa de Santos e as demais escolas japonesas da cidade, como relata o Entrevistado SY:

Meu pai, ele veio do Japão, embarcou, ou melhor, chegou aqui no Brasil em 1935, instalou-se em São Paulo como Professor normalista, encaminhado pelo Ministério da Educação do Japão. [...] em 34 ou 35, se não me engano, ele foi morar lá em Jundiaí, para fazer um curso de complementação, um curso normalista, na cidade de Jundiaí [...] Então, o meu pai, vindo para cá, para a Escola Japonesa, na Rua Paraná, 129, ele então tornou-se o diretor responsável pela Escola Japonesa.
O ensino da língua japonesa seguia o mesmo modelo do Japão, usando inclusive material didático exportado para o Brasil. Além disso, a escola funcionava como uma escola normal particular, ministrando o curso primário seguindo o modelo brasileiro. Essa característica era comum nas escolas japonesas oficializadas, adotando a característica mista de pública/particular (DEMARTINI, 2000). Assim, a Escola Japonesa de Santos chegou a manter, com pelo menos quatro salas, o curso de Ensino Primário com primeira e segunda séries, e o curso de japonês por mais tempo. A Entrevistada TS, por exemplo, afirma em seu depoimento que cursou os dois anos de “ensino português” na Escola Japonesa e depois se mudou para o Grupo “Escolar Cesário Bastos”, continuando o estudo da língua japonesa na Escola, em períodos distintos:

Nasci aqui na Ponta da Praia e estudei no Grupo Escolar Cesário Bastos e estudei nessa Escola Japonesa que hoje é Associação Japonesa; depois, eu fui para o Liceu São Paulo, fiz dois anos Curso Ginasial, hoje em dia se diz Ensino Médio, né! Onde foi que estourou a guerra e meus pais tiveram que sair da cidade, ficamos na cidade do interior seis ou sete anos, né!


Sabe-se que as demais escolas japonesas da região também possuíam classe de ensino primário com professores brasileiros provavelmente enviados e custeados pela Escola Japonesa de Santos. Fotografias encontradas em acervos pessoais revelaram que a mesma professora brasileira que aparece em turmas em 1934 na Escola Japonesa de Santos, aparece posteriormente na escola do bairro do Saboó no fim da década de trinta. Nesse período, o corpo docente da Escola Japonesa de Santos passou a contar com a professora brasileira Ana Palmeira Martins Malta, conhecida como Dona´na; com o crescimento das turmas, sua irmã Eulina Palmeira Martins Simon, conhecida como dona Maninha, também atuou na escola. Por conta da presença dos professores brasileiros e do curso normal oferecido na escola, pelo menos dois alunos ascendência japonesa chegaram a estudar no local. Assim, afirmou a Entrevistada DS:

Foi muito pouco tempo, eu estava no colégio Jardim da Infância na parte da manhã e a D. Maninha me convidou para que eu fosse assistir às aulas do colégio japonês na parte da tarde porque era um horário em que eu ficava sem fazer nada ou fazendo travessuras em casa, e a D. Maninha como era professora do colégio então me convidou e minha mãe achou ótimo que eu fosse participar do colégio.


O Entrevistado FS deu o seguinte depoimento:

Eu sou filho da D. Maninha, que era professora lá, né! Talvez pela razão me levou para estudar durante... depois que eu já tinha feito o Jardim da Infância no Colégio Progresso Brasileiro eu fui para a Escola Japonesa, mas também passei lá praticamente pouco tempo! Um ano talvez?


Ao fim da década de trinta, a Escola mostrava-se bem organizada para abrigar tanto o ensino de língua japonesa como a educação primária brasileira. Segundo a Entrevistava TS, contava com quatro salas de aula em períodos distintos, quadra de esportes utilizada também para festas e eventos culturais e com o pensionato, possibilitando o acesso de alunos de regiões vizinhas a Santos e também abrigar professores vindos de outras regiões. Contudo, durante a década de trinta, a colônia sofreu cada vez mais intervenções do estado, dificultando o ensino da língua até ser definitivamente interrompido no início da década de quarenta.
As políticas nacionalistas de Getúlio Vargas
A escola passou a sofrer interferência das políticas governamentais a partir de 1934, quando foi proibida alfabetização em qualquer língua que não fosse o português para crianças menores de 10 anos, assim como a publicação de material didático sem antes ser devidamente inspecionado pelas autoridades (WAKISAKA, 1992). A medida forçou os pais a matricular os filhos em escolas brasileiras ou somente no curso de português oferecido pela Escola Japonesa:

[...] meu pai já me colocou nessa escola japonesa para poder estudar o japonês, a língua japonesa e a língua portuguesa, né! Então, ele me matriculou lá e na época, só era permitido aprender o idioma japonês só quando a criança tivesse 9 anos, porque aqui no Brasil, o início escolar é com 7 anos. (Entrevistada TS)


As medidas restritivas agravaram-se em 1937 com a instituição do Estado Novo, quando as questões referentes à saúde e educação, antes regionalizadas, foram centralizadas nas mãos da União (SKIDMORE, 1982). Em 1938, o governo determinou o fechamento de todas as escolas estrangeiras, sendo que, se continuassem a funcionar, seriam consideradas clandestinas (DEMARTINI, 2000). Com isso, a escola teve que se adequar às novas exigências reforçando o ensino de português seguindo o modelo de uma escola pública. Em 1940, foi decidido em assembléia pela alteração do nome da Escola para Sociedade Instrutiva Vila Mathias, provavelmente para aliviar as pressões do governo e manter-se em funcionamento como uma escola particular.

O funcionamento da Escola Japonesa de Santos, assim como nas demais escolas japonesas, foi interrompido com a determinação de fechamento e a nacionalização de qualquer instituição relacionada a alemães e japoneses. Ao juntar-se aos Aliados, o governo brasileiro considerou inimigos de guerra Alemanha, Itália e Japão, fazendo recair sobre imigrantes dessas nacionalidades uma traumática repressão. Livros e jornais japoneses foram proibidos de circular e qualquer palavra pronunciada em língua estrangeira era considerada crime contra a nação. A própria educação passou a ser vista como uma questão de segurança nacional (SCHWARTZMAN, BOMENY, COSTA, 2000).

Porém, o mais traumático ainda estava por vir. Em julho de 1943, o governo, por medidas de segurança nacional, determinou a remoção de todos os japoneses, alemães e italianos da costa brasileira. Com essa medida, as famílias japonesas foram obrigadas a se retirarem de Santos em menos de vinte e quatro horas, deixando para trás tudo aquilo que construíram. O Decreto lei nº 4166, 11 de março de 1942, determinava confisco de bens de pessoas físicas e jurídicas como forma de indenização pelos danos causados na Guerra. Os entrevistados são unânimes em afirmar que foi uma ação desesperadora para a colônia. Muitas famílias foram desmembradas, outras tiveram que deixar seus filhos para cuidar dos negócios, sendo que destes, muitos foram até saqueados pelos próprios vizinhos. A Escola Japonesa foi obrigada a fechar e a suspender as aulas, tanto de japonês como de português.

O Entrevistado SY relata que seu pai ficou designado a cuidar do casarão e dos documentos referentes à Colônia Japonesa durante um curto período, até que o Governo determinou a incorporação do casarão ao patrimônio da União em 1945. Na ocasião, o Consulado da Suécia foi designado a cuidar da documentação, sendo que até os dias atuais não foi possível localizá-la, pois provavelmente foi destruída. Após muitas décadas de luta, juntamente com as comemorações do Centenário da Imigração Japonesa, é que a Colônia pôde reaver o antigo casarão onde funcionou a Escola Japonesa de Santos.


Considerações finais

O colono japonês chegou ao Brasil com a consciência de que por meio da educação, poderia transmitir os ensinamentos de sua língua e os costumes dos ancestrais. Também imaginava poder voltar rapidamente à terra natal, assim não desejava que seus descendentes regressassem ignorantes na cultura japonesa, podendo ser alvos de preconceito. Assim, logo nos primeiros anos de imigração, os colonos procuraram de alguma forma transmitir aos novos essa educação, que no início era feita em alguma residência particular, de forma precária, podendo reunir uma ou mais crianças e jovens. Na medida em que as esperanças de regresso foram se esvaindo e as colônias crescendo substancialmente, surgiu a necessidade de construção de escolas, que passaram a simbolizar o centro da Colônia, onde seria local de instrução para os mais jovens, além de lugar de discussão de problemas comuns e reuniões festivas.

No caso de Santos, as fontes revelaram escolas bem estruturadas para servir as colônias somente na década de 1930, sendo que nas primeiras décadas, a maioria dos colonos se viu diante de um dilema quanto à instrução de seus filhos, pois desejavam educá-los aos moldes japonês, mas dispondo somente da educação pública oferecida nos grupos escolares. Dessa forma ou educavam seus filhos em casa com os costumes japoneses, deixando-os despreparados para a vida no Brasil ou corria-se o risco de abrasileirar os filhos com a educação ocidental. Mas não se pode considerar esse fato como regra geral. Alguns entrevistados buscaram matricular os filhos nos grupos escolares não por falta de opção, mas pela consciência da permanência definitiva no Brasil. Outros até, como o caso da Entrevistada IU, cujo pai foi pioneiro do Kasatu Maru, procuraram máxima adaptação educando seus filhos já em português, sem sequer falar a língua de origem no ambiente familiar.

Durante as duas primeiras décadas, a educação japonesa estava voltada apenas para o ensino da língua nipônica. Somente a partir da década de trinta, o ensino da língua portuguesa foi incorporado nas escolas japonesas, onde muitas, inclusive, adotaram o currículo das escolas públicas, como por exemplo, a Escola Japonesa de Santos. É provável que isso seja um reflexo das exigências feitas pelo Governo do Estado de São Paulo que passou a fazer uma série de restrições ao ensino da língua estrangeira; e tais medidas ainda foram reforçadas pelo Estado Novo nas políticas nacionalistas de Getúlio Vargas. A partir de trinta e três, ficou decretado que era proibido o ensino da língua estrangeira a crianças em idade inferior a certa idade.

Há duas hipóteses prováveis para a incorporação do ensino primário brasileiro na Escola Japonesa de Santos. Primeira, seria uma forma de oferecer maiores oportunidades de integração a cultura ocidental do Brasil, principalmente para os recém chegados do Japão, sem que estes não precisassem recorrer, pelo menos em um primeiro momento, aos grupos escolares. Segunda, seria uma forma de não deixar desamparado aqueles alunos em idade inferior à idade correta para o ensino da língua japonesa, assim permaneciam com as outras crianças, aprendiam o português na Escola Primária e, em seguida, seguiam com os estudos da língua nipônica.

Até a expulsão dos japoneses da região litorânea, a Escola demonstrou grande estrutura para driblar ou superar as imposições do governo, sendo que nos últimos anos de funcionamento o estabelecimento teve até que mudar o nome, de Escola Japonesa para Sociedade Instrutiva Vila Mathias, onde provavelmente ensinou somente o português para poder se manter em funcionamento. Esses últimos anos, culminando com o fechamento das escolas em quarenta e três, trouxeram resultados negativos para a Colônia e para o ensino da língua japonesa na cidade. A começar pelo trauma causado nas pessoas que vivenciaram essa época. Todos os entrevistados são unânimes em relembrar o dia da remoção, afirmando ter sido uma experiência traumática, em que os pais perderam o que tinham construído ao longo dos anos no Brasil e desconheciam seus destinos a partir de então. A interrupção do ensino de japonês fez com que toda uma geração deixasse de aprender a língua de seus pais, tendo que recorrer muitos anos mais tarde a escolas particulares ou mesmo deixarem de estudar a língua nipônica para sempre. Além disso, muitas famílias, instaladas no interior do Estado, não regressaram mais para a região litorânea, e as que voltaram, tiveram que recomeçar praticamente do zero, assim como quando chegaram ao novo país.

Por fim, a ausência de fontes escritas referentes à Escola Japonesa de Santos revela uma história silenciada, em que é difícil negar os efeitos negativos do governo ditatorial do Estado Novo na vida daquelas pessoas, tendo sequência no período da Ditadura Militar, onde o casarão da Escola Japonesa continuou sob o poder do Exército, simbolizando essa época de dificuldades.
Referências
DEMARTINI, Zeila de Brito Fabri. Relatos orais de famílias de imigrantes japoneses: Elementos para a história da educação brasileira. Educação & Sociedade, nº. 72, ago, 2000.

HANDA, Tomoo. O imigrante japonês: História da sua vida no Brasil. São Paulo: T.A. Queiroz, 1987.

MIYAO, Sussumu. Posicionamento social da população de origem japonesa. In: SAITO, Hiroshi (org.). A Presença Japonesa no Brasil. São Paulo: T. A. Queiroz, Ed da Universidade de São Paulo, 1980. p. 91 – 99.

SAITO, Hiroshi; MAEYAMA, Takashi (Orgs.). Assimilação e Integração dos Japoneses no Brasil. Petrópolis: Vozes; São Paulo: Ed. da Universidade de São Paulo, 1973.

SKIDMORE, Thomas. Brasil: de Getúlio Vargas a Castelo Branco, 1930 – 1964. 8. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982.

SCHWARTZMAN, Simon; BOMENY, Maria Helena Bousquet; COSTA, Vanda Maria Ribeiro. Tempos de Capanema. São Paulo: Paz e Terra: Fundação Getúlio Vargas, 2000.



TSUKAMOTO, Tetsundo. Sociologia do Imigrante: algumas considerações sobre o processo do imigrante. In: SAITO, Hiroshi; MAEYAMA, Takashi (Orgs.). Assimilação e Integração dos Japoneses no Brasil. Petrópolis: Vozes; São Paulo: Ed. da Universidade de São Paulo, 1973, p. 13-31.
WAKISAKA, Katsunori (Org.). Uma epopéia moderna: 80 anos da imigração japonesa no Brasil. São Paulo: Hucitec/Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa, 1992.



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