Cadernos Negros



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Cadernos Negros

UFBA 2010

prefácio

NEGRITUDE E ARTE

Benedito Cintra

A tinta impressa e formatada sobre o papel é trans­posição, é registro. Mas a poesia transposta, gravada com leu jeito e sua forma, é uma canção, um canto revelador da nossa natureza humana, no espaço e no tempo. Como canto e grafia, ela pode ser sonho e intuição, um olhar astuto e romântico. Pode ser a reflexão incontida, história, reminiscência, resistência, perspectiva etc. Bem situada no tempo, pode ferir ou curar, derrubar ou levantar, matar ou salvar; pode sacudir as mentes e incendiar as multidões.

Na exata reflexão da realidade, ela pode prenunciar o crepúsculo de um velho tempo, ou a aurora de um novo tempo. Que o digam Castro Alves na luta abolicionista; os insurgentes na Revolução dos Cravos, em Portugal; os poetas mortos ou perseguidos na luta contra o apartheïd, na África do Sul.

Com certeza, o grupo Quilombo hoje, desde o seu surgimento, vem acumulando uma rica experiência não só de luta e de organização, mas sobretudo na abordagem poética da nossa realidade, com um engajamento profun­do nas sendas da resistência militante e na perspectiva de um novo Brasil que não renegue suas origens, sua forma­ção, sua africanidade.

Não é fácil ser negro num país de negros como o nosso. Os descendentes e herdeiros dos Senhores de En­genho e da Casa Grande, que se gabam de ser a elite naci­onal, se puseram, há muito tempo, a serviço do imperia­lismo, da banca e da agiotagem internacionais. Traficam nossa independência, leiloam nosso património e escalpelam nosso povo.

As principais medidas e imposições governamentais nestes tempos bicudos e sombrios do neoliberalismo vêm no sentido de ampliar a exclusão social, econômica, polí­tica e cultural da população negra, pobre e trabalhadora. Eis porque grassam a impunidade e a violência; explo­dem a degradação das nossas crianças, a alienação dos nossos jovens, o desamparo aos trabalhadores e o aban­dono dos nossos velhos.

No campo cultural, essa elite vende-pátria busca surrupiar e mercantilizar nossos valores e iniciativas. Se o intento vil não é satisfeito, criam dificuldades e impedi­mentos de toda ordem.

Nossos inimigos querem impor o individualismo como prática social, política e cultural. Querem destruir as formas coletivas de pensar e agir. Ancorados pela gran­de mídia, esta sempre em uníssono, querem excluir a crí­tica, a controvérsia, o debate. Objetivam impor uma visão única e reacionária sobre a realidade e os acontecimentos. Mais recentemente, vêm incentivando a mediocridade cultural, um esoterismo banal, a despolitização, a anti-brasilidade, o besteirol. No fundo, querem macdonaldizar a nossa cultura. Afinal, "tudo se resolve pelo mercado" que eles mesmos manipulam.

É contra essa maré que remam os Cadernos Negros nesta edição, reunindo uma preciosa antologia poética, de autoria variada, com negros e negras de diversos cantos do país.

O conjunto da obra põe à luz, com lirismo e sagaci­dade, um pouco do universo simbólico e do cotidiano do negro; dos seus sonhos, de sua indignação, seu protesto.

Nesse banho de negritude, chama a atenção, por confortante que é, uma certa centralidade dos poemas em torno da temática feminina e das mulheres negras. Na pre­sente edição, aparecem como organizadoras e como auto­ras em número elevado, por sinal. Estão aqui e ali, na es­sência de muitos versos, não como coisa, objeto, mas como guerreiras ou como referência militante na história e no tempo. Também como negras que questionam, agem, rei­vindicam, expondo a beleza e a sensualidade que lhes são intrínsecas.

Tal como um futuro radiante é a perspectiva e o so­nho de todos os negros, também o passado para nós é re­ferência obrigatória. Se desconhecer o passado, o negro não se fará presente. Aqui também o canto poético faz justa e oportuna evocação a Zumbi, Luiza Mahin, Mandela, aos quais gostaria de acrescentar o grande Cruz e Souza, expoente maior da luta abolicionista, do Simbolismo e das nossas letras, cujo centenário da morte comemoramos neste ano que transcorre.

Ao completar vinte anos de arte pura e heróica resis­tência, os Cadernos Negros vão adquirindo sua maiorida­de política e cultural, e consolidando uma experiência iné­dita no seio da militância negra e anti-racista. Constituem já referência obrigatória para negros, brancos progressis­tas e o mundo literário mais avançado. É bom lembrar que o século XX assistiu a grandes avanços e memoráveis vi­tórias do movimento negro e anti-racista em todo o mun­do. Os Cadernos Negros fazem parte dessa onda vitorio­sa. Com certeza, no século XXI, saberemos defendê-los e preservá-los com a mesma determinação, garra e carinho com que seus autores nos oferecem estes poemas maravi­lhosos.

Jangadas ao mar!!!

Axé
abelardo rodrigues

GARGANTA

Hoje


é preciso que tua garganta

do existir

esteja limpa

para que jorre

teu negrume.

Uma garganta não é corpo

flácido

É sangue escorrendo em leilão de cais.



Tua garganta, irmão é urna quarta-feira de cinzas.

ZUMBI

As palavras estão como cercas

em nossos braços

Precisamos delas.

Não de ouro,

mas da Noite

do silêncio no grito

em mão feito lança

na voz feito barco

no barco feito nós

no nós feito eu.

No feto


Sim,

20 de novembro

é uma canção guerreira.
carlos de assumpçao

BATUQUE

(Dança afro-tietense)

Tenho um tambor Tenho um tambor Tenho um tambor

Tenho um tambor Dentro do peito Tenho um tambor

E todo enfeitado de fitas Vermelhas pretas amarelas e brancas

Tambor que bate

Batuque batuque bate

Tambor que bate

Batuque batuque bate

Que evoca bravuras dos nossos avós

lamborquebate Batuque batuque bate Tambor que bate Batuque batuque bate Tambor que bate 0 toque de reunir Todos os irmãos

De todas as cores Sem distinção

Tenho um tambor Tenho um tambor Tenho um tambor

Tenho um tambor Dentro do peito Tenho um tambor

É todo enfeitado de fitas

Vermelhas pretas amarelas brancas azuis e verdes

Tambor que bate

Batuque batuque bate

Tambor que bate

Batuque batuque bate

Tambor que bate

O toque de reunir

Todos os irmãos

Dispersos

Jogados em senzalas de dor

Tambor que bate

Batuque batuque bate

Tambor que bate

Batuque batuque bate

Tambor que fala de ódio e de amor

Tambor que bate sons curtos e longos

Tambor que bate

Batuque batuque bate

Tambor que bate Batuque batuque bate Tambor que bate O toque de reunir Todos os irmãos De todas as cores

Num quilombo Num quilombo Num quilombo

Tenho um tambor Tenho um tambor Tenho um tambor

Tenho um tambor Dentro do peito Tenho um tambor.


LINHAGEM

Eu sou descendente de Zumbi Zumbi é meu pai e meu guia Me envia mensagens do orum Meus dentes brilham na noite escura Afiados como o agadá de Ogum

Eu sou descendente de Zumbi

Sou bravo valente sou nobre

Os gritos aflitos do negro

Os gritos aflitos do pobre

Os gritos aflitos de todos

Os povos sofridos do mundo

No meu peito desabrocham

Em força em revolta

Me empurram pra luta me comovem

Eu sou descendente de Zumbi

Zumbi é meu pai e meu guia

Eu trago quilombos e vozes bravias dentro de mim

Eu trago os duros punhos cerrados Cerrados como rochas Floridos como jardins.

CELINHA

NEGRITUDE

Para Jorge Henrique Gomes da Silva

De mim


parte um canto guerreiro

um voo rasante, talvez rumo norte

caminho trilhado da cana-de-açúcar

ao trigo crescido, pingado de sangue

do corte do açoite. Suor escorrido

da briga do dia

que os ventos do sul e o tempo distante não podem ocultar.

De mim


parte um abraço feroz

um corpo tomado no verde do campo

beijado no negro da boca da noite

amado na relva, gemido contido

calado na entranha

oculto do medo da luz do luar.

De mim

parte uma fera voraz



(com sede, com fome)

de garras de tigre

pisar de elefante correndo nas veias

je fogo queimando vermelho nas matas Frugir de leões bailando no ar. De mim

parte de um pedaço de terra semente de vida com gosto de mel criança parida com cheiro de luta com jeito de briga na areia da praia de pele retinta, deitada nas águas sugando os seios das ondas do mar.

De mim


parte NEGRITUDE

um golpe mortal

negrura rasgando o ventre da noite

punhal golpeando o colo do dia

um punho mais forte que as fendas de aço

das portas trancadas

da casa da história.
UM SOL GUERREIRO

(A todas as crianças negras assassinadas em Atlanta e a muitas outras crianças assassinadas todos os dias no ventre da humanidade)

Já não ouço meu pranto porque o choro emudeceu nos meus lábios O grito calou-se em minha garganta o sol da meia-noite cegou-me os olhos... Sou noite e noite só O meu sangue espalhou-se pelo espaço

E o céu coloriu-se de um tom avermelhado

como o crepúsculo

E eu cantei

Cantei porque agora a chuva

brotará da terra.

As sementes de todos os frutos

cairão sobre os nossos pés

E germinaremos juntos

Embora tu não possas mais

tocar as flores deste jardim, eu sei

Mas o teu solo é livre

Cante, menino,

cante uma canção que emudeça os prantos,

que repique os ataques

e ensurdeça os gritos

Porque amanhã não haverá mais

nenhum resto de esperança

não haverá mais um outro amanhecer,

pois certamente muito antes

de surgir um novo dia

um sol, guerreiro, há de raiar

à meia-noite, para despertar o teu sono,

Como uma nova alvorada.
conceição evaristo

MINEIRIDADE

Quando chego de Minas

trago sempre na boca um gosto de terra.

Chego aqui com o coração fechado

um trem esquisito no peito.

Meus olhos chegam divagando saudades,

meus pensamentos cheios de uais

e esta cidade aqui me machuca

me deixa maciça, cimento

e sem jeito.

Chegando de Minas

trago sempre nos bolsos

queijos, quiabos babentos

da calma mineira.

É duro, é triste

ficar aqui

com tanta mineiridade no peito.
EU-MULHER

Uma gota de leite

me escorre entre os seios.

Uma mancha de sangue

me enfeita entre as pernas

Meia palavra mordida

me foge da boca.

Vagos desejos insinuam esperanças.

Eu-mulher em rios vermelhos

inauguro a vida.

Em baixa voz

violento os tímpanos do mundo.

Antevejo.

Antecipo.

Antes-vivo

Antes — agora — o que há de vir.

Eu fêmea-matriz.

Eu força-motriz.

Eu-mulher

abrigo da semente

moto-contínuo

do mundo.


A NOITE NÃO ADORMECE NOS OLHOS DAS MULHERES

Em memória de Beatriz Nascimento

A noite não adormece

nos olhos das mulheres

a lua fêmea, semelhante nossa,

em vigília atenta vigia

a nossa memória.

A noite não adormece

nos olhos das mulheres

há mais olhos que sono

onde lágrimas suspensas

virgulam o lapso

de nossas molhadas lembranças.

A noite não adormece

nos olhos das mulheres

vaginas abertas

retêm e expulsam a vida

donde Ainás, Nzingas, Ngambeles

e outras meninas luas

afastam delas e de nós

os nossos cálices de lágrimas.

A noite não adormecerá jamais nos olhos das fêmeas pois do nosso sangue-mulher do nosso líquido lembradiço em cada gota que jorra um fio invisível e tónico pacientemente cose a rede de nossa milenar resistência.
MALUNGO, BROTHER, IRMÃO

No fundo do calumbé nossas mãos ainda espalmam cascalhos nem ouro nem diamante espalham enfeites em nossos seios e dedos.

Tudo se foi,

mas a cobra deixa o seu rastro

nos caminhos por onde passa

e a lesma lenta

em seu passo-arrasto

larga uma gosma dourada que brilha ao sol.

Um dia antes

um dia avante

a dívida acumula

e fere o tempo tenso

da paciência gasta

de quem há muito espera.

Os homens constróem no tempo o lastro, laços de esperanças que amarram e sustentam

o mastro que passa de vida em vida.

No fundo do calumbé nossas mãos sempre e sempre espalmam nossas outras mãos moldando fortalezas esperanças, heranças nossas divididas com você: Malungo, brother, irmão.
CUTI

QUEBRANTO

Às vezes sou o policial que me suspeito

me peço documentos

e mesmo de posse deles

me prendo

e me dou porrada

às vezes sou o zelador

não me deixando entrar em mim mesmo

a não ser

pela porta de serviço

às vezes sou o meu próprio delito

o corpo de jurados

a punição que vem com o veredito

às vezes sou o amor que me viro o rosto

o quebranto

o encosto

a solidão primitiva

que me envolvo com o vazio

às vezes as migalhas do que sonhei e não comi outras o bem-te-vi com olhos vidrados trinando tristezas

um dia fui abolição que me lancei de supetão no espanto

depois um imperador deposto

a república de conchavos no coração

e em seguida uma constituição que me promulgo a

cada instante

também a violência dum impulso que me ponho do

avesso


com acessos de cal e gesso

chego a ser

às vezes faço questão de não me ver

e entupido com a visão deles

me sinto a miséria concebida como um eterno

começo


fecho-me o cerco

sendo o gesto que me nego

a pinga que me bebo e me embebedo

o dedo que me aponto

e denuncio

o ponto em que me entrego.

Às vezes! ...
MAR GLU-GLU

bunda que mexe remexe e me leva num belo novelo de apelo e chamego


me pego a pensar que essa vida precisa envolver como tu nesse dengo gostoso que nina e mastiga meu olho que vai atrás

sonho carnudo embalando as ondas ou dunas colinas montanhas veludo-moventes do caminhar


balanço de exuberância a marolar a distância...
A bunda é mergulho e murmúrio no mar glu-glu a forma do espaço repleto e nu.
PARA OUVIR E ENTENDER “ESTRELA”

Se o Papai Noel

não trouxer boneca preta

neste Natal

meta-lhe o pé no saco!
É TEMPO DE MULHER

a mulher ainda desespera à espera do primeiro beijo úmido de sim e permissão de macho

a mulher no entanto conspira

na sua ira secular de silêncio

em sua ilha de nãos

e arremessos

exercitando batalhões oníricos

o relógio com suas obrigações e rugas

questiona eros

homo


hetero

o útero e seu mistério

sapato de salto

batom


rouge

e este inadiável instante etéreo

de saltar

para


dentro

de

.........................................si....................



na conquista do espaço além da moda

é tempo de mulher

é tempo de colher

orgasmos reais de mulheridade

o casamento se cale

até que a liberdade o repare

o macho relaxe

ao primeiro beijo

e o fêmeo desejo

intumesça a chama

e abra o céu ao meio.
SEDUÇÃO

ondas carnudas

viajo-te

no céu da boca

o mar da tua fala marulha uma canção à baila em desejos embalando e intumescendo-me o falo

de soslaio pudores ocidentais doem

salto

mergulho-te nas elipses crespas



vespas em carícias

silenciam malícias de mandamentos cristãos

caminho aberto

a paixão suaviza

com movimentos de afago e brisa

depois um ritmo alado nos leva

para a seiva de nossas raízes

que se entrelaçam

em um eclipse.
ÉLE SEMOG

PERFIL

você é como um poema, sem passado e futuro, trilha de pólvora, cego jogo em chamas: palavras, você é como uma surpresa para cada tempo, com detalhes em todas as letras.


DANÇANDO NEGRO

Quando eu danço

atabaques excitados,

o meu corpo se esvaindo

em desejos de espaço,

a minha pele negra

dominando o cosmo,

envolvendo o infinito, o som

criando outros êxtases...

Não sou festa para os teus olhos

de branco diante de um show!

Quando eu danço há infusão dos elementos,

sou razão.

O meu corpo não é objeto,

sou revolução.
OUTRAS NOTICIAS

Não vou às rimas como esses poetas

que salivam por qualquer osso.

Rimar Ipanema com morena

é moleza,

quero ver combinar prosaicamente

flor do campo com Vigário Geral,

ternura com Carandiru,

ou menina carinhosa / trem pra Japeri.

Não sou desses poetas

que se arribam, se arrumam em coquetéis

e se esquecem do seu povo lá fora.


esmeralda ribeiro

ROTINA

Há sempre um homem me dizendo

o que fazer
DÚVIDA

Se a margarida flor é branca de fato qual a cor da Margarida que varre o asfalto?


E AGORA NOSSA GUERREIRA

Em memória da tia Vanda Lopes dos Santos

Quem


em sã rebeldia

tira a máscara esculpida na

ilusão de ser outro e

não ser ninguém

Quem

em sã consciência



joga fora o veneno guardado no

pote da vida, sem derramar uma

gota no copo da gente

Quem


inteira, completa

deixa a poção afrodisíaca

untar o céu dos lábios

sem medo de heresias

Agora mãinha

quem olha no olho da noite

à procura dos filhos

como as mães da Praça de Maio

No apogeu da madrugada

os frutos do exemplo são verdes

na hora da solidão a gente te

guarda no portão

Ninguém

vai pra Bahia

desfazer a nossa desunião

nem vai à roça cultivar

a nossa cor

E agora


Ekédi de Oxalá

quem enxuga o nosso rosto

quem ampara o nosso tombo

quem vem nos

abraçar
OLHAR NEGRO

Naufragam fragmentos

de mim

sob o poente



mas,

vou me recompondo

com o Sol

nascente,

Tem



Da

Ços
mas,

diante da vítrea lâmina

do espelho,

vou

refazendo em mim



o que é belo

Naufragam fragmentos

de mim

na coca


mas, junto os cacos, reinvento

esmeralda ribeiro

sinto o perfume de um novo tempo,

Fragmentos

de mim

diluem-se na cachaça



mas,

pouco a pouco,

me refaço e me afasto

do danoso líquido

venenoso

Tem


Da


Ços

tem


empilhados nas prisões,

mas


vou determinando

meus passos para sair

dos porões

tem


fragmentos

no feminismo procurando

meu próprio olhar,

mas vou seguindo

com a certeza de sempre ser

mulher


Tem

Da



Ços

mas


não desisto

vou


atravessando o meu oceano vou

navegando

vou

buscando meu



olhar negro

perdido no azul do tempo

vou

vôo,
VÁRIOS DESEJOS DE UM RIO



1.

Eu não queria ter em mim

águas incertas

laços de tormentas

mares de castelos movediços

abismo obediente

nem saber que atrás de mim

há comportas com ninhos de serpentes.

Eu queria entender

esta cantiga de criança:

"A menina pretinha será rainha, olê, seus cavaleiros!

Mas está presa no castelo, olê, olê, olá!

E por que ela não foge?, olê, seus cavaleiros!

Mas com quem está a chave?, olê, olê, olá!"

Eu não queria ser levada

pela correnteza de rosa

rosa perfume sem porto

desse meu Rio interno da infância submersa.

2.

Eu não queria ter em mim



mar vermelho alquimia do tempo

corredeira frequente

sina de fêmea

desejo no fogo. da quimera

nem pérola d'olho em lágrimas.

Eu queria aprender o beabá navegar no mar do conhecimento meu corpo desvendado mergulhar no meu rio mas... aprendi a amar.

Não queria

proibidas lições de amor,

uma barriga lunágua

nem ficar ancorada em dúvidas:

em meu ventre há uma boneca quebrada?

como vou à escola?

Eu não queria ter

rosto à margem da multidão

a dor mergulhada no íntimo.

Não queria ouvir

a cantiga cantada pela Menina de Rua:

"A moça preta será rainha, olê, seus cavaleiros!

mas está presa no castelo, olê, olê, olá!

E por que ela não foge?, olê, seus cavaleiros!

mas com quem está a chave?, olê, olê, olá!"

Mas...


remo o choro em coro

correntezas incertas

balanço das águas devastadas.

Não queria

cair nas areias movediças do Touro

Touro é valente.

Não queria ser levada

pela correnteza de rosa

rosa dilúvio sem âncoras

desse meu Rio adolescente subterrâneo.

3.

Eu queria



ondas silenciosas dentro do meu Rio

aquelas que batem e voltam

levando minhas barquinhas de sonhos.

Não queria

pensamentos ancorados em dúvidas: não tenho mais bonecas quebradas? O amor era vidro e se acabou?

Eu queria

depois de aplacar o vendaval, depois de matar as travestidas baleias, descansar no leito da noite.

Eu queria

mergulhar meus sonhos para entender

a cantiga da menina de tranças

que agora é o meu oposto:

"A mulher negra será rainha, olê, seus cavaleiros!

Mas está presa no castelo, olê, olê, olá!

E por que ela não foge?, olê, seus cavaleiros!

Mas com quem está a chave?, olê, olê, olá!"

Eu queria

ondas silenciosas dentro do meu Rio aquelas que fazem xuá, xuá

desmanchando portas de areias xuá, xuá...

Eu queria

descansar no leito da noite

de manhã navegar no Dia

preparar o próximo mergulho

ou talvez desaguar em algum

happy end


JAMU MINKA

EJACORAÇÃO

Quando tua ausência se multiplica em dias

eu me divido em saudades

conscientes ou não

e de resto sobram poemas

Quando a vida devolve tua presença

o coração dá voltas

e dispara ejaculando promessas de amor.


SAFÁRI

Aquela tigresa é tanta

que me almoça e janta

faço de conta que a sala é ponto

na geografia da África

e o tapete vira suave savana ao entardecer

quando a pele da noite vem camuflar

nosso safári safado.

Olho por olho

dente por dente

recuperamos o pente

ancestral

o impossível continha o bonito

caracol


carapinha

bumerangue infinito

Olho que revê o que olha

dedos que sabem trançar ideias

do original azeviche

princípio do mundo

Se o cabelo é duro

cabe ao pente ser suave serpente

o fundamental dá beleza

a quem não tem preconceito

e conhece segredos da

C R E S P I T U D E


RAÇA & CLASSE

Nossa pele teve maldição de raça

e exploração de classe

duas faces da mesma diáspora e desgraça

Nossa dor fez pacto antigo com todas as estradas do

mundo e cobre o corpo fechado e sem medo do sol

Nossa raça traz o selo dos sóis e luas dos séculos

a pele é mapa de pesadelos oceânicos

e orgulhosa moldura de cicatrizes quilombolas.
EFEITOS COLATERAIS

Na propaganda enganosa paraíso racial hipocrisia faz mal nosso futuro num saco sem fundo

a gente vê

e finge que não vê

a ditadura da brancura

Negros de alma negra se inscrevem naquilo que escrevem mas o Brasil nega negro que não se nega.


CRISTÓVÃO-QUILOMBOS

Fez-se a ganância

diabólicos destinos de um caminho sem volta espíritos e corpos armados nascem do imenso ventre das águas fantásticas o outro lado do mundo possível Terrágua, uma bola de vida no cosmo 1492, Colombo!

Naus enormes, engenhocas inéditas — a roda, arma de

fogo —

múltiplos poderes desconhecidos



homens-deuses barbados, brancos, loiros e ruivos

e seus olhos coloridos de cobiça

Piratas no paraíso

Europa rouba tudo

ouro e prata, milho, batata

cana e canga em corpos de América e África

Pós impacto do primeiro engano

- a visita era conquista e seus horrores -

deuses invadidos trovejam tambores

e cospem flechas de rebeldia

Depois de Colombo e sua maldita herança

Calombosa e mutilações em milhoes de corpos.

Quilombos por toda parte.
JÔNOTAS CONCEIÇÃO

AS SAUBARAS INVISÍVEIS



A memória é redundante: repete os símbolos para que a cidade comece a existir.

ítalo Calvino

Chega-se a Saubara pelo caminho do mar. Às velas, barcas velhas velejam rumo à baía. Viagem de gentes, trapos, mercadorias, Odores repelentes que recendem tumbeiros Travessia de longínquas noites ("Aquela viagem era uma eternidade!") que ao vento cabia a tarefa de um porto feliz.

Chega-se a Saubara por via de muitos rios

Do rio para o mangue, do mangue-rio para o mar.

Caminhos do leva-e-traz mercantil

Ao porto de amaros negócios

Percurso de antigos navegantes

Fundadores do eterno dar-se saubarense

Desbravadores de restos da flora e fauna do lugar.

Chega-se, finalmente, a Saubara pelo primado da fé. Seus marujos e rezadeiras procuram, há muito, o caminho da salvação. Seus filhos e netos, há pouco, descobriram outros

caminhos...

Procuram, pela novidade alheia, desesperadamente,

outra cidade inventar.

Os perseguidores da fé a tudo ver - oram choram

("São Domingos que é de Gusmão que nos vele")

as chamas das velas revelam.
JORGE SIQUEIRA

MENINO BR

Dentes de Brasil, orelhas de abril olhos d'águas claras, peito juvenil cabelo pixaim, dono do amendoim

Menino pró que der, pivete pró que vier destino que o mundo fez

Nos olhos, ilusão, nos pés, uma canção nas mãos, uma aflição (pronta pra uma solução)

Traído no arranha-céu

culpado da solidão

Lua de zinco, prato de alcatrão!
CURUPIRA

Alma de fogo

onça pintada

eu mato, eu mato


Mata de verde

cara amarrada

eu marco, eu marco
Choça de pano

cara pintada

eu trago, eu trago
Droga de passo

pele queimada

teu braço, teu braço
Quebra esperança

que é a bonanza?

teu fardo, teu fardo.

LANDÊ ONAWALE.
O VENTO

disperso-me por aí

feito brisa

depois


me rejunto e chego como ventania

derrubo coisas

varro a casa

safadamente

devasso a monotonia

talvez eu seja um vento mau

talvez injusto

pra quem tinha olhos postos no horizonte

a procurar por mim

não me desespero

e não quero

ser feliz de outro jeito



MARÇO 64

Parece que vai chover

e eu não musiquei

o poema em que digo: te amo!

Se vestirem de cinza nossas vidas,

eu jamais farei a tal canção.

Em tempos fechados de chuva,

só declaro amor só Sol;

em tempos fechados de chuva,

preciso convencer-me (e aos outros)

de que o Sol existe.

Mas, não se desespere, meu amor. Talvez nem chova...

Talvez nem chova em toda nossa juventude. Talvez nos reste algum tesão um pelo outro, e ainda façam sentido declarações de amor.
LEPÊ CORREIA

TEIMOSA PRESENÇA

Eu continuo acreditando na luta

Não abro mão do meu falar onde quero

Não me calo ao insulto de ninguém

Eu sou um ser, uma pessoa como todos

Não sou um bicho, um caso raro

ou coisa estranha

Sou a resposta, a controvérsia, a dedução

A porta aberta onde entram discussões

Sou a serpente venenosa: bote pronto

Eu sou a luta, sou a fala, o bate-pronto

Eu sou o chute na canela do safado

Eu sou um negro pelas ruas do país.
VENTO FORTE - POESIA

Hoje me falta o verso

como falta pão e farinha

Na mesa do meu irmão.

Meu estômago poético ronca

Dá nó a tripa da inspiração

Uns com tanto e outros sem saber como.

Vou gritar pelo velho Trindade

Quero alguma imaginação pra beber

Algo que aplaque esse miserê...

Poético sim... Por que não?

Ele sempre teve

Em cada caracol de sua carapinha

Um verso, uma ilusão espalhada:

Pelas barbas, nos cabelos do sovaco...

Até nos arames pubianos

É... até lá tinham versos pendurados

Me acode, Véio!

Agora e na hora de qualquer papel em branco

E depois, vai ser poeta assim na casa d'Osanlá.


LIA VEIRA

NOS VOLÁTEIS

Billie Holliday e aquela solidão arretada,

numa noite de sábado.

O feriadão levara as pessoas.

Para disfarçar o tempo, queimou um comercial

e ligou a tevê sem o som.

Para ocupar suas ideias,

uma variação de literatura esotérica.

Nesta digressão filosófica, o teto começou a vibrar.

Atentou para o ruído e

percebeu que a libido no apartamento de cima começara.

Estavam literalmente fedendo na sua cabeça.

Aqueles rangidos e gemidos ritmados

lhe despertavam desejos adormecidos até então.

Seu corpo retesou-se e arqueou-se em ondas, enquanto a

dupla alienígena

completava a encenação.

Lá fora, a vida fervilhava, e ela solitariamente pegava uma carona nesse trem de fantasias.


márcio barbosa

VERSÃO

Negro é o amor onde habito silente

a cor talhada na dor da senzala

resumo de vida em ferro e carvão

Negro é o amor forjado no tempo

pretume piche azeviche

tição aceso na tez

do instinto de luta o peito é abrigo

o riso é fluência de um novo começo
TRAÇADO

O traço saído

ao crespo estilo

do teu cabelo

trançado e escuro

já mora em meu olho.


MANDELA

Nenhum cárcere pode prender, entre paredes de pedra e musgo, a música das passeatas, a voz rebelde dos jovens, o beijo de amor das mulheres no rosto negro dos homens, a aurora do novo mundo nos bairros de lata e pólvora.



II

Não, nenhum cárcere tira dos homens os sonhos de liberdade. Os sonhos desafiam as armas, o fogo não os dilacera, os homens vertem o sangue mas seguem a luta cantando.



III

Ah, senhores, que túmulo de merda será o vosso, que vermes vos roerão na morte amarga e sonora, que al­vos dragões defecarão em vossa carne. Nenhuma es­tupidez escraviza o negro ao branco e permanece impune.



IV

Qual cárcere pode prender o etéreo aroma da flor, o

horrível rugido da fera, um róseo brilho de fogo, o cari­nho de uma criança nas mãos rugosas de um velho?

Pisa, Sul da África, a nívea pele dos oceanos de bran­cura, invade as ricas cidades, derruba os prédios mal­ditos, a música da vitória acorda todos os povos, se­guiremos teu exemplo de luta e dignidade.



VI

Não, nenhum cárcere detém o crepúsculo ou impede a marcha sangrenta das horas.


MIRIAM ALVES
MAHIN AMANHÃ

Ouve-se nos cantos a conspiração

vozes baixas sussurram frases precisas

escorre nos becos a lâmina das adagas

Multidão tropeça nas pedras

Revolta


há revoada de pássaros

sussurro, sussurro:

"é amanhã, é amanhã.

Mahin falou, é amanhã".

A cidade toda se prepara

Malês


bantus

geges


nagôs

vestes coloridas resguardam esperanças

aguardam a luta

Arma-se a grande derrubada branca

a luta é tramada na língua dos Orixás

"é aminhã, aminhã"

sussurram

Malês


bantus

geges


nagôs

"é aminhã, Luiza Mahin falo"


MNU

Eu sei:


"havia uma faca

atravessando os olhos gordos em esperanças havia um ferro em brasa tostando as costas retendo as lutas

havia mordaças pesadas

esparadrapando as ordens das palavras"

Eu sei: Surgiu um grito na multidão

um estalo seco de revolta

Surgiu outro outro e

outros


aos poucos, amotinamos exigências querendo o resgate sobre nossa forçada miséria secular.
COLAR

Colecionava amizades

pendura corrente de sorrisos estáticos

no pescoço Ostentava tantos e tantos

sorrisos-dentaduras Polia-os à noite com gotas de lágrimas

retidas


Um dia o colar mordeu-lhe a jugular Jorrou-lhe rios de ausências.
OLIVEIRA SILVEIRA
SER E NÃO SER

O racismo que existe,

o racismo que não existe.

O sim que é não,

o não que é sim.

E assim o Brasil

ou não?

1972-1986


OUTRA NEGA FULO

O sinhô foi açoitar a outra nega Fulo

— ou será que era a mesma?

A nega tirou a saia, a blusa e se pelou.

O sinhô ficou tarado, largou o relho e se engraçou. A nega em vez de deitar pegou um pau e sampou nas guampas do sinhô.

— Essa nega Fulo!

Esta nossa Fulo!,

dizia intimamente satisfeito

o velho pai João

pra escândalo do bom Jorge de Lima,

seminegro e cristão.

E a mãe-preta chegou bem cretina

fingindo uma dor no coração.

— Fulo! Fulo! Ó Fulo! A sinhá burra e besta perguntou onde é que tava o sinhô que o diabo lhe mandou.

— Ah, foi você que matou!

— É sim, fui eu que matou — disse bem longe a Fulo,

Pro seu nego, que levou

Ela pro mato, e com ele

Sí sim ela deixou.

Essa nega Fulô!

Esta nossa Fulô!

1979


OSWALDO DE CAMARGO

EM MAIO

Já não há mais razão de chamar as lembranças

e mostrá-las ao povo

em maio.

Em maio sopram ventos desatados

por mãos de mando, turvam o sentido

do que sonhamos.

Em maio uma tal senhora liberdade se alvoroça,

e desce às praças das bocas entreabertas

e começa:

"Outrora, nas senzalas, os senhores... "

Mas a liberdade que desce à praça

nos meados de maio

pedindo rumores,

é uma senhora esquálida, seca, desvalida

e nada sabe de nossa vida.

A liberdade que sei é uma menina sem jeito,

vem montada no ombro dos moleques

e se esconde

no peito, em fogo, dos que jamais irão

à praça.


Na praça estão os fracos, os velhos, os decadentes

e seu grito: "Ó bendita Liberdade!"

E ela sorri e se orgulha, de verdade,

do muito que tem feito!


OUBI INAÊ KIBUKO

POEMA ARMADO

Que o poema venha cantando

ao ritmo contagiante do batuque um canto quente de força, coragem, afeto, união

Que o poema venha carregado de amarguras, dores, mágoas, medos, feridas, fomes...

Que o poema venha armado

e metralhe a sangue-frio palavras flamejantes de revoltas palavras prenhes de serras e punhais.

Que o poema venha alicerçado e traga em suas bases palavras tijolantes, pontos cimentantes, portas, chaves, tetos, muros

E construa solidamente

uma fortaleza de fé naqueles que engordam o exército dos desesperados

Para que nenhuma fera

não mais galgue escadas

à custa de necessidades iludidas..

E nem mais se sustente

com carne, suor e sangue

dum povo emparedado e sugado

nos engenhos da exploração!


SÔNIA FÁTIMA

PASSADO HISTÓRICO

Do açoite

da mulata erótica

da negra boa de eito

e de cama

(nenhum registro)


... NO REGRESSO

No dia em que retornares

provavelmente me encontrarás

entre a pia e o fogão.

Antes que tua boca te anuncie, procurarei retirar a gordura densa nas banheiras anunciadas na tevê.

Usarei o xampu que dará

mobilidade aos meus cabelos

farei teatro em tua presença.

Te convencerei de que minha disposição é a mesma, te envolverei de tal forma... Farei morrer de inveja a melhor das atrizes.

Carregarei de ternura o teu coração

quero que me embales!

Deixarei deitares teus lábios nos meus grossos e banhados em veneno doce

farei com que bebas através deles minha alma

e que nos consumamos os dois

Te carregarei para o inferno

em que minha vida transformaste.


TERESINHA TADEU

RUÍNAS

Tu estarás nos meus versos,

deitada, espichada,

louca, louca... ofegante

abraçada em trapos.

Tu estarás nos meus versos,

despenteada, sonolenta,

enrolada no lixo que te cerca.

Tu estarás com as mãos em concha,

no gesto de molhar o rosto na poça fétida.

E as ruínas

de todos os lados,

a abrigar restos de comida,

emolduram insetos esquecidos.

Tu estarás, sim,

nas páginas de um jornal

que serve como cama aos cães e a outros como tu.

No peito de uma mãe

que não adivinhou tal sorte

Na angústia do poeta de te querer salva.



Tu estarás no meu livro, vertical ou horizontal tu estarás nos meus versos. E se não te salvo... te verso!
WALDEMAR EUZÉBIO PEREIRA

eu falo as vozes de totunha, do avô mazola, do tio bale e de toda uma nação de gente que, sem saber, carregou no dentro de si a voz dos cantos, a felicidade, a angús­tia e uma história que se perde no seu começo, trivó duzinha cozinhava ovos com olhar dos olhos (manduca fazia correr o que não tinha perna), e derramou em meu sangue esse calor de poleiro, de algazarra de penas e cantoria, vai longe os conselhos de zefa, as garrafadas de pantião, as rezas de segredo produzindo boa cura, mesmo naqueles que não se viam pêlos olhos da pre­sença, falo sem força de querer ou desejo de pensar, é corredeira d'água, correndo em pedra de seixo, em grandes quedas e sem evitar grotão. é qual pensamen­to meu. de lá vem sofrimento que me dói aos ombros, me pesa as pernas e me cansa o corpo, essa coisa de fala que fala essas coisas de sem viver, vivido, sem avistar, já sentido e quando visto é reassombro de re­encontro, eu falo por totunha, mazola e bale: príncipes e reis, princesas e rainhas, de mim nada sei, nada falo, nada quero para. me perco no zarolho dos olhos da meia-noite. me reassumo, quero que ouças o canto da flauta de osso e tenhas maneiras suaves de bater o co­ração, ao possuir tua suave dona. tenhas tu maneiras suaves de rasgar o pão e repartir teu sangue, e partici­parás do mistério do riso que borbulha em luz de sol, inda que meia a noite; quando serás ceia de ti mesmo, eu falo a voz do vento que zune e tal que nem flauta seus elementos modulam em minhas cavernas suas melodias, apura-te que me resumo e um tan tan tange longe, tan tan tange longe, tan tange longe, tan tange longe, tan tange longe, tan tange longe...



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